segunda-feira, 21 de março de 2016

Berlusconi e Lula - Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo – Domingo, 20.3.2016

A relação um tanto distante no tempo, mas real, entre duas operações judiciárias de largo alcance e a possibilidade palpável de crise geral do sistema de partidos, atingindo alguns de seus grupos fundamentais, fazem com que referências italianas frequentem obsessivamente nosso cotidiano político. Há quem agite, com certa razão, o “espantalho Berlusconi”, um populista de direita que dominou a política italiana por 20 anos, apesar de intervalos importantes, como os dos dois governos Romano Prodi e o do pós-comunista Massimo D’Alema. E a razão do êxito de Berlusconi residiria, argumenta-se, na situação de terra arrasada que teria deixado a Operação Mãos Limpas, levando ao fim partidos tradicionalíssimos como a Democracia Cristã (DC) e o Partido Socialista (PSI).

Que a fragilidade dos partidos ou sua liquidação, no rastro de grandes investigações, abra um cenário preocupante é fato mais do que sabido. Com toda a crise da representação que hoje se vive, somada à bem-vinda obsolescência dos partidos “totais”, que, segundo seus adeptos, guardariam em germe os traços fundamentais de um novo Estado, os partidos ainda são parte essencial da auto-organização da vida democrática: educam ou deveriam educar permanentemente os indivíduos, selecionam grupos dirigentes, representam interesses parciais e os levam para além desse âmbito particular, transformando-os em direitos de cidadania.

Faltando essa mediação entre sociedade civil e sociedade política – os partidos, exatamente –, o caminho fica fácil para os cavaleiros da fortuna. Berlusconi, “Il Cavaliere”, é um personagem que se enquadra perfeitamente na descrição, explorando os ventos da “antipolítica”, com o uso e abuso dos recursos da “telecracia”: com tais figuras triunfa sempre o interesse bruto, acirrando antagonismos sociais e degradando a vida civil. Leis, por exemplo, podem ser confeccionadas sob medida para resolver agruras pessoais e políticas do capo. Manobras táticas de legalidade duvidosa chegam ao estado da arte. Inevitável, assim, que a ideia de república saia ferida e uma barbárie miúda e insidiosa se dissemine, envenenando até atitudes cotidianas.

Analogamente, numa visão pessimista, o homem providencial pode estar sendo incubado neste momento, com o torvelinho que ameaça engolfar os principais partidos situacionistas, em particular o PT e o PMDB, e mesmo líderes expressivos das oposições. Recorrente, entre os maiores alvos da Lava Jato, a ideia de que se criminaliza a ação política em si mesma: em busca de protagonismo, juízes e procuradores armariam o cadafalso até para políticos oposicionistas, em tese os principais beneficiários. Ou, então, numa visão institucionalmente ainda mais perigosa, juízes, procuradores e policiais federais à frente de operações como a Lava Jato nada mais seriam do que o braço judicial de “elites”, mídia e oposição, empenhadas em golpe contra o grande partido popular e seu governo de mudanças.

De modo polêmico, e considerando o quadro de devastação institucional que ora nos aflige, é possível argumentar que a “função Berlusconi” entre nós tenha antecedido a operação judiciária e se corporificado no partido “hegemônico” da esquerda e, em especial, em seu líder indiscutível. O modo de existência e comportamento do lulopetismo esteve sempre como que inscrito no código genético: autoproclamado portador das exigências substantivas da democracia, suposto realizador, nos anos áureos entre 2003 e 2010, de uma verdadeira revolução social, a que o credenciava até a natureza operária, d’origine controllata, do dirigente máximo, por que estimularia o respeito – teórico e prático – às formas da democracia? Não seria tal respeito expressão de classe oposta ao interesse real dos trabalhadores, menos fixados em firulas jurídicas do que em ingressar no mundo do consumo (privado), a despeito de elites irracionalmente avessas à expansão do próprio capitalismo?

Titular exclusivo da representação dos trabalhadores, do PT não veio proposta de fortalecimento do sistema partidário, mas, antes, a obra deletéria de sua corrupção.

A política de alianças não constituiu a decorrência de uma ação consistente – hegemônica, desta vez sem aspas – para construir amplo consenso no sentido de boas reformas do Estado e da sociedade. A escolha do “inimigo” social-democrata, demonizado até a caricatura, obedeceu a critérios baratos de cálculo, assim como a aliança com a fina-flor do atraso oligárquico e da fisiologia, cujos métodos foram sistematizados e elevados a patamar jamais visto. Em extrema e polêmica síntese: não tivemos Berlusconi, um populista de direita, mas provavelmente tivemos – e temos – uma encarnação “de esquerda” do mesmo mal.

A esquerda italiana, para voltar ao início, estruturou-se em torno do PSI e, principalmente, do velho PCI, um partido comunista para o qual nunca foi estranha a reivindicação de uma “função nacional”, mesmo condenado, enquanto existiu, a restar na oposição por causa da guerra fria. Há já pouco mais de duas décadas, em quadro radicalmente distinto, aquele partido tenta se renovar, abandonando a matriz comunista e abrindo-se para as tradições reformistas do país, especialmente a católica. Assim, durante os 20 anos de Berlusconi a centro-esquerda pelo menos buscou recriar um instrumento útil para a Itália e a própria Europa, ameaçada pela intolerância xenófoba da extrema direita – uma força real, não mera construção de retórica oportunista, como vemos ao redor.

O desafio da esquerda brasileira consiste, precisamente, em se reinventar na crise em boa parte gerada pela força que a vem representando. Sem isso viverá uma vida de gueto, barulhenta e minoritária. E, pior, sem capacidade para retomar em outras bases a luta duríssima por um País mais decente e igualitário. Uma luta que por ora parece perdida.
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*Luiz Sérgio Henriques é tradutor e ensaísta, é um dos organizadores das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil

Certas palavras valem mais que mil imagens - Fernando Gabeira

O Globo, Domingo, 20.3.2016

Eram cinco horas da tarde, eu cobria uma demonstração na porta do Palácio do Planalto. As pessoas estavam com muita raiva de Dilma e de Lula. Sentiam-se ignoradas depois de terem ido para as ruas no domingo. Queriam a queda de Dilma e a prisão de Lula. Dilma não só não deu sinais de renúncia, como convidou Lula para ocupar um ministério e fugir da Lava-Jato. na hora de trabalho e saí em busca de água e um banheiro no Congresso. Ali, soube da divulgação dos áudios. Em termos cinematográficos, o áudio contém metade das informações de um filme. Nesse caso, os áudios eram toda a informação necessária para inflamar as ruas. As multidões já estavam iradas e o diálogo Dilma-Lula serviu para catalisar um processo que já estava em andamento. Os romances do passado escreviam assim: a marquesa saiu às seis horas. Agora era possível reescrevê-los: Dilma foi para o espaço às seis horas, no rabo de um foguete barbudo.

Só mais tarde, exausto, examinei o conjunto de gravações. Senti que Lula estava acuado, tentando dominar um processo que escapava ao seu alcance. Os interlocutores, inclusive Jaques Wagner e, principalmente, Nélson Barbosa, respondiam com frases curtas, como se estivessem incomodados, loucos para desligar. Ele sabia que era uma luta difícil. Mas lamentava o medo dos outros: o Congresso e o Supremo estavam acovardados. Sua intenção era deter a Lava-Jato e criar uma frente de investigados. Se não fizessem nada, seriam todos presos.

Renan estava fodido, Cunha, idem. Lula parecia assumir sua verdadeira condição de chefe da imensa quadrilha, para salvá-la dos procuradores que, segundo ele, se achavam representantes divinos. Conversas gravadas sempre trazem embaraços. Na intimidade, somos menos cuidadosos. A série de gravações mostrou não só que Lula queria interferir no processo legal. Mostrou algo que não se suspeitava: a falta de carinho e solidariedade com as pessoas que o ajudaram por décadas.

É o caso de Clara Ant. Ela chegou a ser deputada, mas depois disso dedicou-se, inteiramente, a ajudar Lula. Ao que parece, foi um projeto de vida. Participei de um debate com ela, sobre o conflito no Oriente Médio, diante de uma plateia formada por membros da colônia judaica. Ela defendeu, como pôde, a política externa do governo brasileiro. Pareceu-me uma pessoa tranquila e bastante confortável diante de ideias divergentes. Não tenho procuração para defendê-la e, quem sabe, pense a meu respeito todas as barbaridades que a imprensa petista divulga. No entanto, afirmo que não é assim que se trata uma colaboradora de tantos anos, nem é assim que se trata qualquer mulher que tem sua casa invadida por cinco policiais. Lula disse que ela deve ter achado um presente de Deus tantos homens entrando pela porta. Dilma riu. Dilma, a presidenta, a mulher símbolo de uma conquista feminina, ri de piadas machistas desde que contadas pelo seu chefe.

O ângulo político das gravações, nesta altura, já deve ter sido exaurido, e a tentativa de fugir da Lava-Jato já se revelou o desastre que todas as pessoas sensatas previam. O ministro Aragão, que tinha como tarefa desmontar a Lava-Jato, foi tratado como alguém que é amigo, mas, no momento de fazer as coisas, sempre dizia “Olha’’. Lembrou-me de Sancho Pança, que dizia constantemente: “Olha, mestre, olha bem o que está dizendo’’.

Lula não pode ser comparado a um Dom Quixote, pois seria uma agressão a esse maravilhoso símbolo da cultura ocidental. Ele, simplesmente, estava desesperado. A máquina do governo petista não respondia com eficácia sua ânsia de proteção. Os políticos corruptos marchavam para o matadouro, inertes, à espera da salvação mágica. Ele viria para reagrupá-los, derrotar a República de Curitiba e, certamente, encontrar um meio de financiar as relações obscenas alimentadas pelo mensalão e pelo assalto à Petrobras.

Sua meta conservadora é cristalina. E, ainda assim, algumas pessoas, militantes e intelectuais, continuam achando-o o caminho do futuro e classificando de reacionário quem se opõe a um projeto criminoso de poder. As hostes petistas receberiam ordens claras para achincalhar os adversários e intimidar os procuradores e policiais da Lava-Jato.

No princípio da semana, fui alvo de ataques desonestos dos sites pagos pelo governo. Talvez já fosse uma minúscula parte do plano. Não creio que quisessem me intimidar; estavam apenas exercitando os músculos. De todos as crises que vi no Brasil, esta tem uma singularidade: a tristeza de milhares de pessoas que acreditaram no poder transformador da esquerda no governo. Falei com alguns senadores que deixaram o PT. Estavam desolados, depois de tantos anos de trabalho. Pelo menos compreenderam a realidade e podem tentar outro caminho. Os oportunistas e carreiristas continuaram agarrados aos seus empregos.

O drama mesmo é dos que não suportam as dores da realidade e insistem na negação. Seguem o seu líder sem o bom senso de Sancho Pança. Não ousam dizer: “Mestre, olhe bem o que está dizendo’’.

No Brasil, pobre quando rouba vai preso, rico quando rouba ganha um ministério. Luiz Inácio da Silva, em 1988.

O bolchevismo tardio - Luiz Carlos Azedo

• O PT trata os adversários como inimigos do povo e traidores da pátria e vê no crescimento da oposição uma conspiração golpista

- Correio Braziliense, Domingo, 20.3.2016

A matriz ideológica da esquerda brasileira é uma mistura de anarquismo, marxismo e positivismo. Leandro Konder, no livro A derrota da dialética, explica que a chegada das ideias de Marx ao Brasil se deu logo após a comuna de Paris de 1871. Contra elas reagiram as elites políticas escravocratas do Império, mas muitos estudantes receberam essas ideias com entusiasmo. Os principais intelectuais do país, porém, não se empolgaram com as teses marxistas.

Tobias Barreto considerava Marx um reformista ingênuo. Clóvis Bevilacqua via a desigualdade como o resultado do progresso. Machado de Assis o ignorou. O grande ideólogo da proclamação da República seria Benjamin Constant, líder positivista ortodoxo, que lecionava na Escola Militar da Praia Vermelha. Somente em 1900, onze anos depois, o professor italiano Antônio Piccariolo (1868-1957) criou o centro socialista paulistano. Era formado por anarco-sindicalistas, sindicalistas-revolucionários, reformistas e socialdemocratas.

Como hoje, o socialismo era algo distante da realidade brasileira. Após a Revolução Russa de 1917, no rastro da I Guerra Mundial, as ideias socialistas voltaram a ter eco no Brasil, sob forte influência do Partido Bolchevique, liderado por Vladimir Lênin. Pouco depois, em 1922, sindicalistas de origem anarquista, liderados pelo jornalista Astrojildo Pereira (RJ) e o contador Cristiano Cordeiro (PE), fundaram o Partido Comunista do Brasil (PCB). Alguns anos depois, Astrojildo converteu ao comunismo o líder tenentista Luiz Carlos Prestes.

A adesão de Prestes completou a simbiose entre as ideias anarquistas, marxistas e positivistas, que depois influenciou o comportamento de toda a esquerda brasileira. Houve uma espécie de fusão da visão bolchevique, cuja política considerava a luta de classes como parte de uma guerra civil mundial, com o golpismo dos militares brasileiros de formação positivista. Seu ponto alto foi a tentativa dos comunistas de tomada do poder pelas armas em 1935. Como os militares tutelaram a República de 1889 a 1985 — com destaque para a Revolução de 1930 e o golpe militar de 1964 –, a concepção de “revolução social pelo alto” adotada por comunistas e militares nacionalistas era a outra face da moeda de uma concepção de modernização do país por uma “via prussiana”. Durante 100 anos da história republicana, o golpismo provocou graves crises políticas.

O golpe
O melhor cenário para examinar essa questão é a crise do governo João Goulart (PTB), em 1964, depois de uma sucessão de tentativas de golpe de Estado por parte da direita militar e setores conservadores. O programa de reformas do governo defendia a nacionalização das empresas estrangeiras e a reforma agrária, mas não reunia apoio efetivo no Congresso. A esquerda, porém, queria que Jango fizesse as reformas “na lei ou na marra”. Além disso, havia o problema da sucessão de Jango, na qual os candidatos mais fortes eram o ex-presidente Juscelino Kubitscheck (PSD) e o então governador da antiga Guanabara, Carlos Lacerda (UDN).

A esquerda nacionalista atacava a “política de conciliação” de Jango e defendia a candidatura do ex-governador gaúcho Leonel Brizola (PTB). O líder comunista Luiz Carlos Prestes, porém, já articulava a reeleição de Jango. Pela Constituição, nenhum dos dois poderia ser candidato. Como o mundo vivia o auge da guerra fria, a radicalização política no Brasil era quase inexorável, com os Estados Unidos incentivando a tomada de poder pelos militares. Foi nesse contexto que houve o golpe de 1964.

A destituição de Jango provocou um racha na esquerda, porque não houve resistência armada ao golpe, por decisão de Jango e de Prestes. Liderada por Carlos Marighella, parcela expressiva resolveu partir para a luta armada, com apoio de Cuba e da China. Prestes e o PCB, com apoio da antiga União Soviética, defendiam uma frente ampla contra o regime militar e a luta pela redemocratização do país por meios pacíficos.

De modo geral, o “bolchevismo” adotava três ideias-força: a implantação do socialismo a partir do Estado, a inevitabilidade da “guerra civil” para a manutenção do poder e a necessidade de neutralizar a reação das potências imperialistas. Essa visão pautou o comportamento da esquerda no Brasil, principalmente dos setores que optaram pela luta armada contra o regime militar, alguns dos quais nunca fizeram autocrítica do seu fracasso.

A presidente Dilma Rousseff e o presidente do PT, Rui Falcão, são remanescentes da guerrilha urbana. A ideia de renúncia ao poder não passa por suas cabeças. Diante da crise econômica, política e ética, a postura da esquerda governista cada vez mais reflete uma espécie de “bolchevismo tardio”. Aposta no Estado para controlar o país, sua economia e a sociedade. Usa de todos os meios para se manter no governo e considera um retrocesso a alternância de poder. Adota a retórica nacionalista para tratar os adversários como inimigos do povo e traidores da pátria. Vê o crescimento da oposição como suposta conspiração golpista articulada pelos Estados Unidos. Viola as regras do Estado democrático de direito ao mesmo tempo que pretende usufruir de suas prerrogativas e garantias.

A lealdade de Aragão - Merval Pereira

O Globo, Domingo, 20.3.2016

O ex-subprocurador-geral da República, Eugênio Aragão, resolveu mostrar para Lula toda sua lealdade e, nomeado ministro da Justiça, desandou a falar contra a Operação Lava-Jato. Ameaçou afastar de investigações criminais delegados e agentes suspeitos de vazamento de informações sigilosas, e classificou de “extorsão” o método usado pelos procuradores para obterem as delações premiadas.

Aragão é o mesmo a que o ex-presidente Lula se referiu numa conversa com seu ex-ministro Paulo Vannuchi, dos Direitos Humanos, quando se queixava da atuação dos procuradores do Ministério Público: “O problema é o seguinte, Paulinho. Nós temos que comprar essa briga. Eu sei que é difícil, sabe. Eu às vezes até fico pensando se o Aragão deveria cumprir um papel de homem naquela porra, porque o Aragão parece nosso amigo, parece, parece, parece, mas tá sempre dizendo ‘olha… sabe, porra’”, diz Lula para Vannuchi.

As declarações recentes de Aragão provocaram uma reação vigorosa da Associação Nacional dos Delegados, que amanhã se reunirá para decidir se entra na Justiça com um mandado de segurança para impedir afastamentos preventivos de policiais federais. Também o deputado federal Raul Jungmann entrará com uma ação em defesa da imparcialidade na atuação da Polícia Federal. Impetrará um mandado de segurança coletivo no STJ contra o ministro, para impedir que ele dê ordens ou orientações para a substituição sumária ou arbitrária de equipes de agentes da Polícia Federal envolvidos na Lava-Jato, sem a apuração e demonstração adequada dos fatos que a justifiquem.

O deputado do PPS, que foi o autor da ação no Supremo que redundou na saída do ministro da Justiça anterior, entrou também com outra ação do mesmo teor no Supremo Tribunal Federal contra Aragão. A ministra Cármen Lúcia já deu dez dias para que o novo ministro se defenda, e Jungmann acha que até lá ele não deveria tomar nenhuma medida.

“O mais interessante seria o pedido de liminar determinar que, para evitar prejuízos ou dúvidas durante a tramitação do mandado de segurança, o ministro, pessoalmente ou por seus subordinados, se abstenha de dar ordens ou orientações a qualquer membro da PF a não ser por ato administrativo escrito e autuado em expediente administrativo regular, bem como de se reunir ou se comunicar com qualquer autoridade da PF sem o registro completo do conteúdo das conversas, por meio eletrônico, que deve ser conservado para apresentação imediata à autoridade judicial, caso requisitado”.

Aragão também é membro do Ministério Público, mas como fazia parte da instituição antes da Constituinte de 1988, que proibiu que seus membros fossem nomeados para o Poder Executivo ou exercessem outras funções que não o magistério, se considera apto a assumir o ministério. Não é esse o entendimento do STF, defende Jungmann, baseando-se em um acórdão do ex-ministro Eros Grau, aprovado pelo plenário, que diz que os procuradores anteriores à Constituinte podem optar por manterem garantias e vantagens burocráticas da carreira, mas não estão isentos das proibições que visam garantir a independência dos poderes.

Até mesmo no Conselho Superior do Ministério Público Federal, que tem um entendimento mais flexível sobre a interpretação da Constituição e autorizou a posse de Aragão no ministério, o relator do caso considerou que ele não tinha condições de assumir o Ministério da Justiça porque, segundo o subprocurador-geral da República, Carlos Frederico Santos, não fez a opção pelo regime anterior, conforme exige a Constituição Federal.

No mesmo parecer, o subprocurador diz também que há conflito de interesse na nomeação, pois Aragão até recentemente era subprocurador-geral eleitoral, por três anos, o que o impediria de ser subordinado “àqueles que participaram do pleito passado”, comprometendo a independência do Ministério Público.

O temor diante das intempestivas declarações do recém-nomeado ministro é que ele tenha sido nomeado justamente para conter as investigações da Lava-Jato.

O inimigo de todos - Míriam Leitão

O Globo, Domingo, 20.3.2016

Há um ponto em comum dos dois lados dessa batalha final da conflagrada cena política brasileira: inimigos de morte compartilham o mesmo sonho de que a Operação Lava-Jato arrefeça e, se possível, desapareça. Que seja anulada por um erro processual qualquer; que seja desmoralizada. Esse é o desejo do governo, do líder do impeachment da Câmara e do que vai presidir o processo no Senado. Eis o centro da contradição do momento político.

É incontornável o fato de que no comando desta primeira etapa do impeachment está um réu da Lava-Jato. É também fato que o governo se sente diretamente ameaçado pela operação, e o evento da ida do ex-presidente Lula para o abrigo anti-Moro da Casa Civil é parte da estratégia de lutar contra a Lava-Jato. Até a oposição, depois da citação de Aécio Neves, tem restrições à operação. Na lista do impeachment há pessoas que não podem ser juízes de coisa alguma, como Paulo Maluf. Aliás, o mesmo personagem notório da tragédia brasileira, criminoso procurado em outros países, estava na longa lista de nomes que a presidente Dilma saudou na cerimônia-comício no Palácio do Planalto.

É bom que se lembre que a presidente Dilma não enfrenta o processo de impeachment pelas revelações da Lava-Jato, apesar de estar cada vez mais claro que houve dinheiro desviado da Petrobras na sustentação da base de apoio do governo, e no financiamento de campanha. Permanecem ainda inexplicados os depósitos da Odebrecht na conta de João Santana no exato momento em que ele prestava serviços à presidente Dilma na campanha. E há ainda os relatos dos parceiros de crime sobre pagamentos de propina aos políticos em cada negócio ou contrato da Petrobras. O governo fica cada vez mais tingido de sujeira no avanço das investigações.

É preciso renunciar à própria inteligência para acreditar que a presidente Dilma de nada soubesse, jamais tenha desconfiado do que se tramava para elegê-la e mantê-la no poder. Essa abstração da realidade já foi feita em relação a Lula no mensalão. E nos fez mal. O chefe passou a ser José Dirceu, que pode sim reivindicar o papel de chefe adjunto, mas não o do fim da cadeia de comando. Na hipótese irreal de que nem rumores tenham chegado aos ouvidos de Dilma, então ela deveria deixar o cargo, espontaneamente, por inépcia. É perigoso ter alguém tão alheio aos fatos no comando do país.

Mas a acusação central do impeachment é ter a presidente cometido crime fiscal. Quem viu nascer o arcabouço legal que garantiu a estabilização não consegue achar que é pouco o que foi feito por Dilma e sua equipe econômica. Houve manipulação de dados fiscais para escamotear a verdade das contas públicas e contornar a Lei de Responsabilidade Fiscal, e isso foi a origem do colapso em que estamos, com inflação e recessão. Ela fez uma gestão temerária da política econômica. Isso é muito sério.

O impeachment ganhou força com o andar das investigações da Lava-Jato ainda que não tenha sido este o centro da denúncia dos juristas que apresentaram o pedido de impeachment. Mas a Lava-Jato esteve o tempo todo na mente dos que comandam este processo, principalmente o deputado Eduardo Cunha. O que alimentou o ódio de Cunha foi a convicção de que o governo teria usado a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e até o Supremo contra ele na investigação. A acusação é completamente falsa, porque tudo o que o governo gostaria, como se ouviu nos diálogos de Lula, era usar a PF, a PGR e o STF para se proteger. O governo de fato mandou enviados especiais para sondar ministros do Supremo. Um dos ministros chegou a ouvir a sugestão de que "controlasse Sérgio Moro", esse inconveniente juiz de primeira instância. E respondeu que Moro tem autonomia de decisão, e se não gostam dos seus julgamentos, recorram às instância superiores.

O caminho do TSE seria de fato o melhor para enfrentar as dúvidas sobre a relação da campanha de Dilma com os crimes investigados na Lava-Jato. No Congresso o processo tem um vício de origem. Para o país discutir de forma mais correta se deve ou não abreviar o tempo da chapa Dilma-Temer no poder, o melhor seria a Justiça. E a solução que mais atende às aspirações do país, neste momento, é a realização de novas eleições, sem os vícios que, se sabe agora, teve a eleição de 2014.

Isolamento - Eliane Cantanhêde

- O Estado de S. Paulo, Domingo, 20.3.2016

O Brasil, senhoras e senhores contra ou a favor do governo, deu um show de democracia numa semana tão bombástica. No domingo, 1,4 milhão de pessoas pintaram a Paulista de verde e amarelo para gritar “Fora Lula, fora Dilma, fora PT”. Na sexta, 80 mil adotaram o vermelho para rechaçar o impeachment e berrar o oposto: “Fica Lula, fica Dilma, fica PT”. Não houve confronto, pancadaria, medo. Houve, sim, um espetáculo de cidadania, além de uma oportunidade para comparações.

Os “coxinhas” de domingo, com seus pais, filhos, vizinhos e colegas de trabalho, pareciam ir ao parque exigir um País melhor e mais digno. Os “mortadela” de sexta, cansados de guerra em manifestações, mudaram de lado: os mesmos que, corajosamente, iam às ruas para cobrar justiça e combater a corrupção, agora vão para malhar o juiz Sérgio Moro, símbolo exatamente de justiça e de combate à corrupção. E ninguém se esgoelou contra o desemprego!

Foi a eles que o ex-presidente e quase, futuro ou ex-ministro (é para não entender mesmo...) Lula se dirigiu com a camisa e a cara vermelhas, voltando no tempo. Com o mesmo carisma e tom que o transformaram no maior líder de massa da história recente, Lula ignorou o País indo ladeira abaixo com Dilma e a indústria, as lojas, os serviços despencando. Ignorou também o assalto à Petrobrás, a promiscuidade com as empreiteiras, as múltiplas empresas dos filhos nos seus próprios anos. Falou dos ganhos de seis, sete anos atrás, perdidos no espaço.

Se as imagens foram lindas e incandescentes tanto no domingo quanto na sexta, foram diferentes dimensões: 23 quarteirões da Paulista no domingo, com as mais variadas pessoas e nenhuma bandeira de partido, e onze na sexta, com militantes ou convocados pelo PT, PC do B, CUT, MST, UNE. Em décadas anteriores, muitos daqueles de domingo eram liderados por estes, da sexta, contra a ditadura, a favor das Diretas-Já, pelo impeachment de Collor. Hoje, os de vermelho fecham-se em torno deles próprios.

Isso se repetiu pelo País todo e casa com o ambiente de Brasília, onde Dilma e Lula trancam-se em palácio com os aliados incondicionais, largam pelo caminho os conquistados pelo “Lulinha Paz e Amor” e os anos de crédito, consumo e alegria e irritam os demais. O procurador-geral, Rodrigo Janot, frisou que deve o cargo à sua longa carreira. O decano do Supremo, Celso de Mello, considerou um “insulto” Lula chamar o tribunal de “acovardado” nos grampos e Gilmar Mendes virou herói das redes sociais ao suspender a nomeação de Lula para o ministério e jogá-lo de novo no colo de Moro.

A OAB – autora do pedido de impeachment de Collor – decidiu por 26 a 2 apoiar o de Dilma e a CNI prega que “é imprescindível restabelecer a governabilidade”. Só faltou a Receita Federal estranhar a carteirada de Lula para o ministro Nelson Barbosa (que é quem se sai melhor das fitas...) estancar as investigações no Instituto Lula.

Para fechar a semana, o novo ministro da Justiça, Eugênio Aragão, que era do MR-8, passou pelo Santo Daime e virou ministro porque o antecessor foi derrubado pelo STF e José Eduardo Cardozo se negava a meter a mão na PF, declara ao repórter Leandro Colon que “se sentir cheiro de vazamento (das investigações), a equipe da PF será trocada, toda”. Pronto, incendiaram de vez a PF. Ficou faltando alguma instituição?

É nesse ambiente que a Comissão do Impeachment começou a contar prazo na sexta, com quórum até nas segundas e sextas e os partidos aliados ao Planalto anunciando uma defecção por dia. Ah! Paulo Maluf estava na posse de Lula e está na comissão, mas onde estavam os outros aliados de Dilma nas manifestações de sexta-feira, afora o PC do B? Bem longe das ruas, fazendo cálculos de vantagens e desvantagens (para eles, claro) entre Dilma Rousseff e Michel Temer.

Políticos lavados a jato - Dora Kramer

- O Estado de S. Paulo, Domingo, 20.3.2016

Depois de dois anos de investigações com foco principal em Curitiba, chegou a hora de a Operação Lava Jato fazer a onça beber água em Brasília. A força-tarefa já entregou à Procuradoria-Geral da República todas as informações relativas aos investigados com foro especial de Justiça. Vale dizer, deputados, senadores e governadores.

Há cerca de dez dias a força-tarefa esteve em Brasília para uma reunião na Procuradoria-Geral da República para tratar dos muitos pedidos de abertura de inquéritos e apresentação de denúncias contra deputados e senadores. Ao que consta, o senador Fernando Collor seria um dos primeiros alvos. A apresentação da denúncia e o pedido de prisão preventiva contra o presidente cassado estariam prontos.

Na mesma operação seriam alcançados os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha. Isso sem contar outras figuras do PMDB, como o senador Edison Lobão. O destino do vice-presidente, Michel Temer, estaria nas mãos de Jorge Zelada, que ainda não decidiu optar pela delação premiada de acordo com o que circula entre os procuradores.

A ofensiva da Lava Jato na direção dos políticos já deveria ter sido deflagrada na semana passada, mas foi adiada devido aos tumultos dos últimos dias. Uma das inquietações era a possibilidade concreta de o ex-presidente Luiz Inácio da Silva ter a prisão preventiva decretada pelo juiz Sérgio Moro (em decorrência do pedido do Ministério Público de São Paulo transferido pela Justiça local ao Paraná) já naquela quinta-feira em que estava marcada a posse dele na chefia da Casa Civil.

Corre a informação entre os procuradores de que a Agência Brasileira de Informações (Abin) estava monitorando os movimentos em Curitiba e, por isso, concluiu que o juiz Sérgio Moro pediria a prisão preventiva de Lula no mesmo dia em que tomaria posse no novo cargo. Daí a pressa da presidente Dilma em formalizar a posse com edição extra do Diário Oficial da União e o pedido de assinatura antecipado do termo de posse.

Os investigadores monitoravam Lula, mas a agência da Presidência também acompanhava os movimentos dos promotores e, por isso, sabiam da possibilidade de ocorrer uma ordem de prisão para ser cumprida na quinta-feira. Sem a proteção do foro especial, provavelmente Lula estaria hoje numa cela em Curitiba. O que volta a ser uma possibilidade, diante da liminar concedida pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, de suspender a posse do ex-presidente.

É fantástico. O senador Delcídio Amaral tinha ontem uma entrevista marcada para ir ao ar hoje à noite na TV Globo. Diria, entre outras coisas, que procurou o filho de Nestor Cerveró para tentar silenciar o ex-diretor da Petrobrás, na condição de executor de uma “operação sistemática” do Planalto para obstruir as investigações da Lava Jato.

Como líder do governo, o senador dirá que atendia a uma política dos ocupantes da máquina do Estado. Ele promete contar o passo a passo de uma operação para atrapalhar a ação da Justiça como política de Estado. “Uma ação sistêmica”, de acordo com Delcídio.

Digital. A prova cabal de que Aloizio Mercadante agiu a mando da presidente Dilma Rousseff ao abordar o assessor do senador Delcídio Amaral sugerindo que pesasse consequências antes de colaborar com as investigações, é que o ministro não foi demitido.

Se tivesse atuado à revelia da chefia, colocando a presidente numa situação constrangedora, logicamente estaria fora do governo.

Ponto final. “Aqueles que não gostam de política serão governados por aqueles que gostam” (Platão).

Recomeçar – Aécio Neves

Folha de S. Paulo, 21/03/2016

Os últimos dias viram nascer um novo Brasil. Indignado, desperto, protagonista de seu destino, esse Brasil que se mobiliza e se agiganta contra um modelo de governo que arruinou o país deve ser a maior inspiração para o futuro que começa a ser desenhado.

Não há mais espaço para o ideário rançoso, equivocado e nada republicano que, levado à exaustão nos últimos 14 anos, mergulhou o país em uma crise sem precedentes e na pior recessão das últimas décadas. O Brasil daqueles que se julgam acima das leis está a caminho do lixo da história. É hora de recomeçar.

O momento delicado da vida nacional exige sobriedade e coragem. Precisamos reagir com veemência às tentativas de obstrução da Justiça. As gravações liberadas pela Operação Lava-Jato são reveladoras do desapreço que as principais lideranças do partido governista nutrem pelas instituições públicas.

As conversas que vieram a público compõem uma peça vexatória de desprezo pelas instituições, pela democracia e por quem é visto como obstáculo ao projeto de poder do partido. E não me refiro apenas à irresponsável citação ao meu nome na assumida estratégia de "vamos ficar em cima do Aécio".

Diante da gravidade dos acontecimentos em curso não há como recuar. A hora é de defesa intransigente do trabalho da Justiça Federal, do Ministério Público, do STF e demais instituições.

A tarefa a ser feita será enorme e deverá mobilizar toda a sociedade. Afinal, depois de herdar um país nos trilhos, com as contas em dia e políticas de governança em aprimoramento, o PT avançou sobre este patrimônio de conquistas com uma voracidade rara. O resultado é este legado de infortúnios: uma recessão profunda, com inflação crescente, milhões de desempregados, empresas e famílias endividadas, a dívida pública nas alturas e o descrédito interno e internacional.

Contra o atual estado de coisas, não há saída senão o recomeço. Os brasileiros não suportam mais este teatro de mentiras. Cabe ao Congresso ouvir a voz das ruas e dar ressonância ao que hoje é um clamor nacional. Se o impeachment é o cenário mais provável diante do agravamento da crise, já que a presidente perdeu por completo as condições de governabilidade, devemos pensar com serenidade e responsabilidade no que pode vir a seguir.

As forças de oposição têm o dever de se organizar para ajudar a construir uma agenda de transição e reconstrução. Há um conjunto de reformas estruturantes que precisa ser empreendido para que o país possa enfrentar os desafios do novo tempo. É preciso desobstruir os caminhos que nos impedem de voltar a crescer. O Brasil que sonhamos tem plenas condições de reassumir um papel proeminente no mundo. Não nos falta confiança para seguir adiante.

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Aécio Neves é senador e presidente nacional do PSDB

Hamlet ou Macbeth? – Vinicius Mota

- Folha de S. Paulo

Desde que se reelegeu, a presidente Dilma Rousseff teve algumas oportunidades de precaver-se do furacão que se formava à sua frente. A rota da tentativa de salvamento passava pelo distanciamento de Lula e do PT, pela costura de maioria de centro-direita no Congresso e pela virada na política econômica.

Os ensaios nessa direção, em especial o arranjo que trouxe Joaquim Levy para a Fazenda e Michel Temer para a articulação política, ruíram porque Dilma não os bancou até as últimas consequências. Ela comprovou, nesses episódios e ao longo desta crise, tratar-se de um dos piores presidentes em 126 anos de República.

No país em que grande parte da elite escolarizada considera "meras pedaladas" os assaltos contra princípios democráticos do Orçamento, Dilma tinha um trunfo. Nem seus adversários a acusavam de beneficiar-se pessoalmente da corrupção.

Nesse quadro, trazer para o centro do governo a figura estropiada de Lula da Silva, preocupado apenas com salvar a própria pele, era tudo o que Dilma deveria evitar.

Acolher o ex-presidente seria transformar o Planalto num escritório dedicado a embaraçar investigações criminais. Configuraria o ato cabal de isolamento do governo em relação seja às outras instituições do Estado, seja ao sentimento inequívoco da esmagadora maioria da sociedade.

O estrago está feito. Dilma pôs-se no vértice de uma ofensiva para obstruir a Justiça. As conversas gravadas de Lula e acólitos do PT com interlocutores do governo denotam um grau de violência contra a arquitetura republicana raramente registrado na história do Ocidente moderno.

O final dessa tragédia shakespeariana está próximo. Não se sabe se vai parecer-se mais com "Macbeth", em que nobres escoceses restauram o trono do país, ou com "Hamlet", que não deixa nenhum dinamarquês vivo para assumir a coroa.

Michel Temer está de pé. Por enquanto.

Não vai ter golpe! - Ricardo Noblat

O Globo, 21.03.2016

Eu sou a única pessoa que poderia incendiar este país Lula, também conhecido como a alma mais honesta deste país

Simples o que aconteceu na última quarta- feira em Brasília quando Dilma telefonou para Lula avisando- o de que um emissário lhe entregaria no hotel o termo de posse. No melhor “estilo Dilma” de falar, ela disse, na tentativa desesperada de se fazer entender: “Seguinte, eu tô mandando o Messias junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!"

SUBCHEFE DE ASSUNTOS jurídicos da Casa Civil, Jorge Messias deu a Lula uma cópia assinada por Dilma do termo de posse dele como ministro- chefe da Casa Civil da Presidência da República. E pegou a assinatura de Lula em outra cópia do mesmo documento que ainda carecia da assinatura de Dilma. Mas como este parágrafo acabará na próxima linha, espere só um pouco para conhecer o resto da história. Adiante.

DILMA E LULA HAVIAM sido informados de que o juiz Sérgio Moro estava pronto para decretar a prisão preventiva de Lula pedida pelo Ministério Público de São Paulo. Se isso acontecesse, Lula correria o risco de ser preso antes da posse, indo assim a pique a operação montada para fazê- lo ministro de Estado. Uma vez ministro, ele ficaria a salvo da “República de Curitiba” e aos cuidados do Supremo Tribunal Federal.

DO HOTEL EM BRASÍLIA, Lula retornou a São Paulo. Se agentes federais batessem à sua porta, ele assinaria a cópia do termo de posse já assinado por Dilma, uma espécie de habeas corpus administrativo. Em Brasília, por sua vez, Dilma assinaria a cópia do termo de posse já assinado por Lula, mandandoo para publicação no Diário Oficial. E o ministrochefe da Casa Civil assim “lavado”, escaparia à prisão.

UM PLANO PERFEITO? Está para ser inventado um. Bancado pela dupla Dilma- Lula para obstruir a Justiça, o plano começou a dar errado tão logo Moro, acostumado a bisbilhotar os outros, soube que estava sendo bisbilhotado. Suspendeu a redação dos motivos que justificariam a prisão de Lula e divulgou de uma vez mais de 40 conversas dele ao telefone, grampeadas com a sua autorização.

PARA O PAÍS, foram horas eletrizantes, aquelas, transcorridas entre o anúncio de que Lula aceitara o convite de Dilma para ser ministro ( pouco antes do meio- dia) e o momento em que se ouviu na GloboNews ( pouco antes das 19h) a voz de Dilma informando a Lula sobre o papel que só deveria ser usado “em caso de necessidade”. Em cerca de sete horas, o governo foi da esperança e da euforia à frustração e ao medo.

É COM PAVOR A UMA queda rápida que o governo se prepara para enfrentar no Congresso o pedido de impeachment. Desfalcado de Lula, que teve sua nomeação para ministro suspensa pela Justiça, e ameaçado por novos fatos a serem produzidos pela Lava- Jato, o governo parece dispor de uma única arma: os erros dos seus adversários. Atuará em cima dos erros. E, no mais, seja o que Deus quiser.

DEUS, NÃO SEI, mas os brasileiros dão fortes sinais de que desejam ver Dilma, Lula e o PT pelas costas. Não estão divididos, como se diz. Podem não saber o que querem, mas sabem o que não querem. Não querem ser enganados como foram por Dilma, reeleita com base em mentiras. Não querem devolver o que ganharam. E não querem corrupção — daí o esmagador apoio ao impeachment e à rejeição crescente a Lula.

JAMAIS A DEMOCRACIA por aqui deu tantas provas de solidez e de vitalidade. Suportou a queda de um presidente eleito. Se for o caso, suportará outra. Tranquilo: não vai ter golpe.

O fugitivo, a rainha e os cidadãos - Denis Lerrer Rosenfield

- O Globo

O fundador de uma dinastia partidária tinha subido na vida política graças a seu carisma pessoal, que o tinha levado ao trono. Em época nem tão remota, contou com a ajuda de um partido que ajudou a criar, da Igreja que o apoiava e de um conjunto de intelectuais desgarrados com a queda das monarquias comunistas, ditas populares.

Conseguiu ardilosamente vender a ideia, falsa aliás, de que estaria mudando tudo o que estava aí, apesar de, em um acesso de bom senso inicial, ter mantido todas as importantes reformas de seu antecessor. A ilusão vingou e foi compartilhada pela maioria dos súditos daquele reino.

Contudo, a farsa não resistiu por muito tempo. Imbuído de uma ideia messiânica de que estaria resgatando o país e, em particular, os pobres, terminou por criar uma corte — na linguagem moderna, de militantes e aproveitadores dos mais diferentes tipos, alguns riquíssimos. Nela, não faltaram os “bobos da Corte”, na verdade, um bando de espertos que passou a contar com benefícios próprios, oriundos do exercício arbitrário do poder.

Passado o tempo, o rei e o seu grupo partiram para uma próxima etapa, a de apropriação privada dos bens públicos, com os seus membros aparelhando o Estado, uma espécie de assalto ao Tesouro. É bem verdade que continuavam vendendo a ideia, acreditada por muitos, de que estavam pondo o país na rota do “progresso social”, quando, de fato, estavam destruindo o Estado, as leis e as suas empresas.

A rota que seguiam era a do dinheiro. Ávidos em busca dele, esqueceram, inclusive, das Leis do Reino, que disciplinavam, entre outras coisas, a relação entre o público e o privado. Achavam que isto era coisa de “burguês”, nome utilizado para qualificar qualquer inimigo seu. Não havia mais, na visão deles, adversários, mas, tão somente, inimigos a serem aniquilados. O ódio foi instalado.

O rei tornou- se milionário, embora quisesse ocultar para a massa dos seus súditos essa realidade. Fazia parte da ficção de seu poder. Sua fortuna, graças a diligentes funcionários públicos, juízes, promotores e policiais, que não compactuavam com o arbítrio, foi estimada em dezenas de milhões de reais. O império das leis tornou- se o “seu” império. Dom Lula da Silva, o onipotente.

Curioso que o rei apresentava- se como metalúrgico, embora o tenha sido em um período curtíssimo de sua vida, pois, logo, tornou- se sindicalista e líder partidário, sua verdadeira “profissão”. Manteve, porém, esta imagem, porque era- lhe útil para o exercício do poder. Veio a ser o mais ilustre membro da elite dominante.

Entretanto, o reino guardava um traço democrático, o de realização de eleições periódicas, voltadas para a renovação de seus quadros dirigentes. Era uma espécie de monarquia eleitoral. Frente a tal situação e na impossibilidade, naquele momento, de alterar essa regra, embora o tenha cogitado, optou por um esperto estratagema, o de criar uma sucessora que seria a sua própria criatura.

Crédulos, os súditos aceitaram a sua escolha e a ungiram. Nomearam- na Dona Dilma, a desconexa. Sua trama política consistia em seu retorno futuro. Ocorre que sua “criatura” botou os pés pelas mãos, como se diz em linguagem popular. Gastou o que o reino não tinha para gastar, maquiou as contas públicas, colocou o país na recessão, destruiu empregos e empresas e produziu uma perigosa inflação. Um desastre total.

Neste meio tempo, a máscara começou a cair. Os cidadãos crédulos tornaramse incrédulos em relação ao culto dominante. As manifestações iniciaram. Aquele grupo de funcionários públicos dedicados passou a investigar e vasculhar as contas públicas.

Estarrecidos, descobriam que essas contas tinham se tornado privadas, apropriadas pelo rei, pela sua corte partidária e por um grupo de empresários inescrupulosos. Todos juntos participavam do festim dos bens públicos. Aos súditos, as migalhas!

Começaram um impecável trabalho de resgate do império da Lei. Sociedades livres não podem viver sob o arbítrio de poucos, uma oligarquia de esquerda, que vestia tais roupagens com o intuito de esconder os seus crimes. O esforço produziu resultados.

O ex-rei, embora vendesse para os seus crédulos — cada vez menos numerosos — a sua santidade, começou a fugir da Justiça. Foi um alvoroço no palácio e na corte. Todos corriam para todos os lados, chocavam- se sem cessar, até que algum “iluminado” — de poucas luzes — lançou uma ideia genial, própria de gênios desmiolados. Por que não fazer o ex-rei vizir, uma espécie de primeiro-ministro da rainha.

Esta teria inicialmente hesitado em aceitar essa proposta, pois se tornaria uma mera figurante de seu criador. De fato, seria o destino real da criatura. Logo, teve de fazer uma escolha entre ser figurante e coisa nenhuma, pois arriscava perder todo o seu poder.

Ocorre que a impunidade tinha acabado no Reino. Ninguém estava mais fora do alcance da Lei. Dom Lula da Silva, o onipotente, já não mais tinha a potência de antanho. Ficou desacorçoado. Em conversas privadas, primava por insultos e palavras de baixo calão. Coisa de bêbado em botequim. Tomou a decisão de fugir.

A questão foi: para onde? Poderia ter escolhido países “amigos”, com os quais sempre desfrutou de uma relação privilegiada. No continente, havia a monarquia comunista cubana ou o projeto terminal da oligarquia bolivariana venezuelana. Seria, porém, patético!

Optou, então, por fugir para dentro do palácio, como se este fosse um lugar em que as leis não valeriam. A rainha concedeu-lhe uma espécie de salvo-conduto, o título de ministro, como se assim pudesse escapar dos juízes, promotores e policiais que estavam em seu encalço. A manobra foi pueril.

Os ministros da Corte Máxima, insultados por Dom Lula, o onipotente, reagiram com dignidade e proclamaram que o inaceitável tinha sido atingido. As ruas se inflamaram. Os cidadãos disseram em alto e bom som: basta!

Sem medo, proclamaram: abaixo a monarquia esquerdista, viva a democracia!
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Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul

A guerra final – Valdo Cruz

- Folha de S. Paulo

Tucanos recolhem as armas para 2018, Lula arrependido por aceitar a Casa Civil, Marina a postos e Dilma abatida pelo tempo que perdeu em chamar seu criador para seu time e iniciar uma reação.

Este é o retrato que a pesquisa Datafolha revela sobre como está o campo da batalha final que definirá o destino da presidente petista.

Mais do que nunca o PSDB opta pelo impeachment como a melhor solução para a crise atual, colocando o vice Temer no lugar de Dilma.

Não apenas pelo Datafolha, que mostra Aécio, Alckmin e Serra em queda na corrida presidencial. Mas também porque dizem por aí que vem chumbo grosso contra tucanos nas delações da Operação Lava Jato.

Melhor, então, fechar com o vice-presidente Michel Temer, ele assumir, arrumar a casa e o PSDB tentar recuperar o poder apenas em 2018.

Já Lula, que não escondia seu constrangimento na posse como ministro da Casa Civil, perdeu o papel de vítima da Lava Jato. A maioria dos eleitores acredita que ele aceitou o convite de Dilma para fugir de ser preso pelo juiz Sergio Moro.

O ex-presidente entra na guerra final alquebrado e fragilizado, sem saber inclusive se poderá assumir o posto, mas com o trunfo de ser o único capaz de reanimar a tropa petista como se viu na sexta-feira (18) nos protestos pró-Dilma e pró-Lula.

A presidente, do seu lado, dormiu no ponto. Teve uma janela de sossego no início do ano e não soube aproveitá-la. Chega na batalha final com impopularidade em alta e ameaça de debandada de aliados.

Marina Silva surge, até aqui, como a maior beneficiária da crise que arrasta a tudo e a todos para a vala comum da corrupção. Mas também não empolga, afinal está onde sempre esteve. Os outros é que caíram.

Enfim, a oposição e o PMDB dão o jogo como jogado e já pensam no dia seguinte. O governo teme cada vez mais este destino. Mas esta crise tem sido tão eletrizante que esta novela pode ganhar novos capítulos.

Lava-Jato chegou a Brasília para o impeachment - Marcos Nobre

• Bastão está agora com Teori Zavascki

- Valor Econômico

A característica marcante do momento atual é a coincidência entre o processo de impeachment e uma mudança estrutural no desenvolvimento da Lava-Jato. É uma mudança ainda pouco evidente, obscurecida pelo impeachment e pela fase curitibana da operação. Depois de dois anos, está praticamente encerrada a fase empresarial da Lava-Jato. Tem início agora a fase da política oficial. O que significa que o juiz Sergio Moro acaba de passar o bastão para o ministro Teori Zavascki.

A senha da troca de guarda veio com o recado do responsável pela Lava-Jato no STF ao juiz federal de Curitiba: "Papel de juiz é o de resolver conflitos, não o de criar conflitos." O recado foi muito além de um pito funcional. A mensagem do ministro Zavascki foi a de que o ritmo e o tempo da operação estão agora sob sua responsabilidade. Não serão tolerados vazamentos ou recursos diretos à opinião pública com o objetivo de influenciar o andamento do processo.

A Lava-Jato se transferiu de vez para Brasília. Ao mesmo tempo, a nova etapa do processo reacendeu a expectativa de figuras centrais do tabuleiro de que seja possível não apenas adiar a exclusão inevitável do jogo político, mas encontrar até mesmo uma maneira de se manter nele. A primeira condição para isso seria o estabelecimento de um ritmo de delações e de condenações bem menos acelerado do que aquele imposto por Sergio Moro no caso de empresários e políticos sem mandato ou cargo.

Não se trata de trancar a Lava-Jato. Essa é tarefa impossível, mesmo se desejada por boa parte da política oficial. O que é possível é tentar encontrar um andamento tal que a sequência do processo deixe de significar um travamento permanente do sistema político e permita alguma reorganização que viabilize a constituição de um governo o quanto possível estável, seja com Dilma, seja sem ela.

Essa é a moldura em que se desenrola o processo de impeachment. Sua indefinição explica também por que o sistema político ainda não se decidiu em definitivo sobre o destino da presidente, apesar de sua extrema fragilidade. Da perspectiva da política oficial, o decisivo é a demonstração de que há governo viável no horizonte. E, desse ponto de vista, é uma demonstração que coincide com a apresentação de garantias de que o andamento da Lava-Jato ficará menos veloz com a chegada da fase político-oficial do processo. Na lógica do sistema político, ganha a queda de braço o lado que conseguir convencer de que somente seu governo está apto a fornecer os anteparos necessários para que um ritmo mais lento se instale na nova etapa da Lava-Jato. Um novo andamento a ser então apresentado e justificado publicamente como aquele de fato adequado ao Estado Democrático de Direito.

Mesmo acuado, mesmo ao custo de uma união forçada da esquerda, o governo conseguiu demonstrar nas ruas que não está inteiramente isolado. Conseguiu demonstrar que há uma parcela minoritária, mas significativa do país que não concorda com o afastamento de Dilma nem com a aniquilação do PT. Minou assim a pretensão de Temer de se apresentar como líder de um governo de união nacional, tirou-lhe uma pretensa aura de unanimidade. Só que conseguir introduzir alguma desconfiança em um possível governo Temer a partir de manifestações de rua está muito longe de ser o mesmo que conquistar 171 votos na Câmara e barrar o atual pedido de impeachment. Até mesmo alcançar um número de votos contra o impeachment próximo do mínimo necessário não resolve, apenas adia a derrota.

De seu lado, Temer tem a enorme vantagem da rejeição acachapante de Dilma. Mas, do ponto de vista do sistema político, ainda não conseguiu demonstrar que é viável um governo em que o PMDB deixa de ser sombra para se tornar vidraça. O emparedamento de Dilma produzido pelos presidentes da Câmara e do Senado pode parecer brisa de verão perto do que fariam com Temer na Presidência da República. Não bastasse isso, também não ficou claro como seria possível desfazer a teia de interesses eleitorais conflitantes para 2018 sobre a qual Temer teria de construir a coalizão de um futuro governo.

Tanto no caso da permanência de Dilma como no de um eventual governo Temer, um dos anteparos considerados necessários pelo sistema político para aderir a um ou a outro lado é a perspectiva de que as ruas se acalmem. Mas nada indica até o momento que a carga irá arrefecer, seja qual for o resultado, seja qual for o governo. Se a promessa de que será possível administrar o andamento da Lava-Jato já é aposta de alto risco em um ambiente controlado como o da política oficial, prometer que a crise não continuará a transbordar para as ruas beira a galhofa. Para que esse transbordamento continue a acontecer basta, por exemplo, que o farto material já recolhido pela Lava-Jato contra políticos com cargo ou mandato ganhe de alguma maneira a esfera pública.

Em política, quando a situação é desfavorável, ganhar tempo passa a ser o único objetivo. Mas o que é ganhar tempo em política costuma ser perder tempo em economia, especialmente do ponto de vista do seu sensor de alarme primeiro, o mercado financeiro. Acontece também que querer encurtar o tempo da democracia costuma ter por resultado apenas mais confusão do que se tinha antes.

O fato de o governo Dilma estar condenado não garante automaticamente a viabilidade de um governo Temer. Esse é o cerne do impasse atual. Nenhum dos lados conseguiu garantir até agora às brigadas de autodefesa do sistema político o que é por elas exigido para escolher o vencedor. Para tomar uma decisão em relação ao impeachment, o sistema político está exigindo garantias que nenhum dos lados pode dar, o que dá ao processo ares de salve-se quem puder. Os momentos de grande angústia e emoção ainda estão longe de terminar. Em meio a tal balbúrdia, qualquer sinalização por parte de Teori Zavascki adquire a partir de agora dramática importância. Sua devida interpretação pode ser dos poucos indicadores de como deve ser lido o rótulo em que vai se inscrever o prazo de validade do governo de Dilma Rousseff.
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Marcos Nobre é professor de filosofia política da Unicamp e pesquisador do Cebrap.

Cunha, Temer e Gilmar - José Roberto de Toledo

- O Estado de S. Paulo

Pelo calendário de Eduardo Cunha, a comissão do impeachment deve receber a defesa de Dilma Rousseff, analisá-la e votar um parecer até 11 de abril. Se passar na comissão, o pedido de impeachment poderá ser votado pelo plenário da Câmara dos Deputados logo em seguida. Aprovado lá, o Senado tende a virar apenas um carimbo burocrático. Logo, pelo Plano Cunha, a crise acabaria em três, quatro semanas. É a trilha coreografada pelo dueto PMDB-PSDB. Mas o fim desta crise é só o começo da próxima.]

O impeachment tocado a toque de caixa pelo denunciado Cunha em uma comissão com dezenas de investigados e, finalmente, aprovado por um plenário onde - como lembra o New York Times - 271 deputados enfrentam acusações que vão da fraude ao homicídio é uma admirável obra de engenharia política. Quisera o Metrô paulista e as obras do PAC andassem com a mesma velocidade. Se essa é a luz no fim do túnel, o que há do outro lado dele?

O governo Temer - porque, com exceção de Marina Silva e sua Rede, nenhum outro ator político topa se arriscar em uma nova eleição presidencial agora. Nem quem diz que sim. Em caso de dúvida, ver o desempenho cadente de Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra (os presidenciáveis que, por ora, estão no PSDB) nas mais recentes pesquisas do Datafolha. Para quem não confia em estatísticas, é só lembrar como os dois primeiros foram tratados por manifestantes durante os protestos de 13 de março.

Para se erguer, o governo Temer precisará, necessariamente, lotear cargos e ministérios para a maior quantidade de partidos que toparem encarar esse empreitada. Se conseguir comprometer as 25 siglas com representação no Congresso, tanto melhor. Até o PT? Não será por falta de convite. Os empreiteiros do novo governo se verão diante de contradições de difícil superação.

A primeira delas, produzir a retomada do crescimento econômico e realizar um ajuste fiscal ao mesmo tempo. Ou seja, cortar gastos públicos e fomentar investimentos. Talvez o espírito animal dos capitalistas desperte após o eventual impeachment. Atender à expectativa de dois terços da população pelo fim do governo Dilma produzirá uma onda de otimismo. Mas por quanto tempo?

Dependerá de o novo governo conseguir mostrar serviço logo. Não é nada fácil. Após o impeachment de Fernando Collor, o governo Itamar Franco queimou três ministros da Fazenda antes de nomear Fernando Henrique Cardoso. E o próprio FHC precisou de mais um ano para engendrar e colocar em prática o Plano Real.

Com o agravante, no caso de Temer e companhia, de que não havia a politização do Judiciário que há hoje. Procuradores não faziam comícios, juízes não faziam passeata e ministros do Supremo Tribunal Federal só falavam nos autos - não nos alto-falantes. Durante o governo Itamar, Sérgio Moro era estudante de Direito, delação premiada não era legal e não havia processo de cassação da chapa que elegera o vice correndo na Justiça Eleitoral.

Essas novidades não são inconsequentes. Se empossado, Temer será o presidente com um olho no Supremo e outro do Tribunal Superior Eleitoral. A pessoa mais poderosa da República não será ele, mas alguém de toga. Gilmar Mendes deve assumir a presidência do TSE dias após Temer - pelo Plano Cunha - mudar-se do anexo para o Palácio do Planalto. Gilmar ditará o ritmo do processo contra o eventual novo presidente. Pode sentar em cima ou apressá-lo.

Se Temer não se comportar, se arriscará a ter o mesmo fim da antecessora. Imaginando-se que essa hipótese só aconteceria após 31 de dezembro, significa que o sonho dos parlamentaristas enfim se tornaria realidade. Caberia aos 271 investigados da Câmara, seus equivalentes no Senado e o resto dos congressistas escolherem um novo presidente - por eleição indireta.

Mais do que um desejo, uma necessidade histórica - Marcus Pestana

- O Tempo (MG)

O domingo amanheceu pintado de verde e amarelo. As praças transpiravam cidadania e brasilidade. As avenidas repletas gritavam em alto e bom som: “basta de mentira, corrupção e incompetência”. Mais de 4 milhões de brasileiros abraçaram o Brasil, pegaram o destino pelas mãos e apontaram o caminho da mudança. Diante da maior recessão desde 1930 e do maior escândalo da história, a sociedade brasileira resolveu dar uma demonstração clara de sua indignação. Com irreverência, emoção e força, a população lançou o momento histórico que vivemos em outro patamar.

O Poder Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal estão fazendo sua parte. Foram reconhecidos nas ruas por isso. Cabe agora às instituições políticas terem a capacidade de captar o sentimento majoritário na sociedade e construir alternativas para a mudança necessária e desejada, dentro dos marcos constitucionais e dos princípios republicanos e democráticos.

Quem semeia vento colhe tempestade. Lula, Dilma e o PT tiveram uma resposta retumbante ao conjunto da desastrosa obra construída, na maior manifestação política da história brasileira. No domingo, dia 13, nos lembramos dos bons tempos das Diretas Já. E de nada adianta a retórica do “nós contra eles”, da conspiração das elites, do suposto golpismo. A máscara caiu. Nunca antes neste país o patrimonialismo foi levado a tal extremo numa confusão absoluta entre os espaços público, privado e partidário. A população demonstrou de forma cabal e inequívoca que não tolera mais isso.

A manobra de nomear Lula para o ministério sairá pela culatra. É um duplo erro: confissão de culpa definitiva e temor do juiz Sérgio Moro, por um lado, e aniquilamento completo do pouco de autoridade que restava a Dilma, por outro.

Existem quatro saídas dentro da legalidade: impeachment, cassação pelo TSE, renúncia ou antecipação de eleições e mudança no sistema de governo. Essa conversa de parlamentarismo é inoportuna no momento. Mais confunde do que ajuda e queima uma ideia essencial para o futuro. A renúncia ou alguma antecipação de eleições negociada não fazem parte do cardápio de Dilma. Os processos no TSE ganham cada vez mais densidade frente o avanço da Lava Jato, mas só deverão ser julgados no segundo semestre em função de suas próprias instruções.

O Brasil tem pressa. A sociedade foi eloquente no dia 13. A crise está levando a economia ao naufrágio. A qualidade de vida das pessoas está despencando. Dilma não tem mais condições de governar (ainda mais agora, sob a tutela de Lula). O caminho da mudança madura tem nome: impeachment. As bases sólidas estão dadas pelo pronunciamento do TCU sobre as pedaladas fiscais e pela corrupção institucionalizada revelada pela Lava Jato. O Supremo determinou as regras e o rito. A Câmara deve votar o impeachment até maio. Fique de olho em seu deputado.

O afastamento de Dilma, mais do que um desejo, é uma necessidade histórica
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Marcus Pestana é deputado federal (PSDB-MG)

Sem futuro – Ferreira Gullar

Folha de S. Paulo, 20/03/2016

Durante meus 70 anos de observação da vida política brasileira, não me lembro de ter visto tanta gente nas ruas manifestando-se contra um governo. E não apenas para protestar contra esta ou aquela medida considerada inaceitável. Não, as manifestações do último domingo (13) exigiam o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Essas manifestações, que se alastraram por todo o país, desde as grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, a capital da República e demais capitais até as médias e pequenas cidades do interior dos Estados.

Outro aspecto a destacar é o fato de que tais manifestações não foram convocadas nem organizadas por partidos políticos mas, ao contrário, por iniciativa da própria cidadania. Esse fato por si só impede que o Lula e o Wagner aleguem que se trata da iniciativa golpista dos partidos de oposição. Nada disso; as figuras de oposição, que se atreveram a juntar-se aos manifestantes, foram simplesmente hostilizadas.

Noutras palavras: quem pede o impeachment de Dilma e o fim da corrupção petista é o cidadão comum, que se cansou da aventura populista, imposta ao país por Lula e que o levou à situação desastrosa em que se encontra hoje.

Nos cartazes e faixas que exibiam mostravam seu apoio à Operação Lava-Jato e, particularmente, ao juiz Sérgio Moro. Cabe observar também o nível de organização destas manifestações, cujos participantes se vestiam de verde e amarelo, exibindo, além de faixas, cartazes e máscaras dos principais personagens, carros e alegorias denunciando os abusos dos governos petistas. Se se leva em conta que esta foi, certamente, a maior e mais ampla manifestação popular contra um governo, deve-se concluir que Dilma, Lula e o petismo estão postos contra a parede, sem alternativa.

Ninguém dirá que esse impasse ocorre por acaso. Aos crimes praticados contra a Petrobras e ao uso irresponsável dos recursos públicos soma-se a incompetência administrativa, responsáveis por uma crise política e econômica sem igual em nossa história.

O povo nas ruas exige que Dilma deixe o governo. Ela, por sua vez, dois dias antes, convocou a imprensa para dizer que não renunciará, nem que a vaca tussa. Garantiu isso, embora, de fato, não governe, como todos sabem. Cabe então perguntar: pode manter-se à frente do governo de um país alguém que não o governa?

Um dia antes das manifestações referidas, houve a convenção do PMDB, o principal apoio político do governo no Congresso. A expectativa era grande, já que uma parte considerável do partido já se manifestara contra a manutenção da aliança com Dilma Rousseff.

A ruptura, porém, não ocorreu, como aliás já previam os analistas políticos, levando em conta, além do caráter dos peemedebistas, certos interesses em jogo que poderiam provocar uma divisão, muito inconveniente nesta hora. É que, no caso do impeachment se efetivar, o vice Michel Temer assumiria a Presidência.

Não obstante –como dizem os comentaristas– foi um aviso prévio a Dilma Rousseff, uma vez que o PMDB prometeu dentro de 30 dias dar sua palavra final, ou seja, desligar-se do governo. Aliás, o discurso de Michel Temer, encerrando a convenção, deixou isso subentendido, quando, sem confirmar a manutenção do apoio a Dilma, afirmou que o fundamental era manter a unidade (dos peemedebistas, claro) para recuperar o país e superar a crise, ou seja, aquilo que o governo petista não consegue fazer.

Enquanto isso, a situação de Lula se agravava, com o risco de ele ser preso a qualquer momento. Essa possibilidade assustou a todos eles, e foi quando se passou a falar na ida de Lula para um ministério, o que lhe garantiria foro privilegiado. Dilma negou que fosse isso, mas o pior estava por vir: a divulgação de uma conversa telefônica sua com Lula, quando ela o avisa de que está lhe enviando um termo de posse, para que ele usasse se necessário. Ou seja, para não ser preso. Uma bomba que pode levar à deposição de Dilma.

Não é a Lava Jato que está fora da lei – Editorial / O Estado de S. Paulo

Em várias ocasiões – e muito especialmente no julgamento do mensalão –, o Partido dos Trabalhadores (PT) tentou vender a ideia de que as atividades ilícitas de seus membros não eram assim tão ilícitas. Seriam “apenas” caixa 2. Seriam “apenas” a manutenção de práticas já existentes desde os tempos do Brasil colônia. De vez em quando, os petistas tentavam ir um pouco mais longe, dizendo que as ações da tigrada seriam na verdade meritórias. Desse delírio partidário nasceu o ridículo ímpeto de proclamar como heróis do povo brasileiro alguns réus condenados na Ação Penal 470 pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Agora, o PT mostra que é capaz de ir ainda mais longe em sua perversa retórica. Diante dos avanços da Operação Lava Jato, o partido não tem se contentado em dizer que o que fez não foi ilegal ou que seu líder e seu séquito não são criminosos. Apregoam abertamente a ideia de que os criminosos estão do outro lado do balcão. Nessa tresloucada visão, os contrários à lei seriam a Polícia Federal, o Ministério Público e o Poder Judiciário – muito especialmente o juiz da 13.ª Vara Federal de Curitiba, Sergio Fernando Moro.

É uma completa inversão de valores – como se os petistas estivessem do lado da lei e fossem as instituições as descumpridoras da lei. Haja descaramento. Sem conseguir apresentar uma explicação convincente para as inúmeras denúncias e escândalos em que estão implicados, os líderes petistas partem para o ataque.

Parece maluquice, mas é apenas a exacerbação da sem-vergonhice: o PT anda querendo criminalizar a Operação Lava Jato. Tal tentativa só pode ser a reação desesperada de quem não tem fatos nem argumentos a apresentar em sua defesa.

Afinal, responde pelo saque do Brasil. Manifesta completo desespero, pois o movimento de criminalizar o Poder Judiciário, a Polícia Federal e o Ministério Público não tem qualquer respaldo jurídico, nem muito menos apoio popular.

É evidente que a sociedade está do lado de quem cumpre a lei. As manifestações do dia 13 de março foram suficientemente elucidativas quanto a isso. A população respeita e admira a Operação Lava Jato, vislumbrando no trabalho realizado em Curitiba um Brasil sério, que trabalha, que funciona, que não se detém diante de poderosos políticos ou de influentes empresários. Pôr-se contra esse esforço anticorrupção, como vem fazendo o PT, é nada mais nada menos que um suicídio político.

No aspecto jurídico, é um absoluto despautério a tentativa do PT de criminalizar a Operação Lava Jato e, em concreto, a atuação do juiz Sergio Moro. Vige no País a garantia do duplo grau de jurisdição – tem-se sempre a possibilidade da revisão de uma decisão de um juiz monocrático por um órgão colegiado. Na verdade, o problema do PT não é tanto com o juiz de primeira instância, mas com os tribunais, que têm reconhecido sobejamente a correção das decisões de Moro.

Nos últimos dias, a campanha contra o juiz da 13.ª Vara Federal de Curitiba recrudesceu sensivelmente, após a retirada do sigilo do processo envolvendo o ex-presidente Lula e a consequente divulgação de áudios gravados. Como o que foi revelado não agradou nem a Lula nem a Dilma – afinal, a cafajestagem explícita nas conversas faz corar frades de pedra –, o PT e o Palácio do Planalto tentaram tratar como criminosa a decisão de Moro.

Pura encenação. Sabe-se bem que as escutas foram feitas de acordo com a lei e, portanto, podem ser usadas em juízo como prova contra Lula. A tentativa de criminalizar a decisão de Moro de levantar o sigilo das gravações é coisa de aloprados. Entre os pilares da isenção do Poder Judiciário está o princípio do livre convencimento do juiz. Pretender que uma decisão judicial fundamentada – com amplos e sólidos argumentos, diga-se de passagem – seja tratada como se fosse um crime, pela simples razão de haver produzido efeitos políticos contrários aos interesses dos inquilinos do Palácio do Planalto, equivale a querer que o País volte aos tempos do absolutismo. Um Estado Democrático de Direito tem muitas garantias, mas entre elas não está a imunidade para o ilícito.

Tiro pela culatra – Editorial / Folha de S. Paulo

Parece pouco dizer que a presidente Dilma Rousseff (PT) acertou um tiro no pé ao abrigar seu padrinho no Palácio do Planalto. A acomodação de Lula na Casa Civil representou muito mais que isso: foi provavelmente o erro mais grosseiro de um governo pródigo em decisões deploráveis do ponto de vista político, econômico e moral.

Pesquisa Datafolha realizada nos dias 17 e 18 e publicada neste final de semana traduziu em números o tamanho do descompasso que se verifica entre o governo petista e a população brasileira.

Nada menos que 73% dos entrevistados responderam que Dilma agiu mal ao convidar o ex-presidente para assumir o ministério. Além disso, para 36% a gestão deve piorar com a chegada de Lula, e 38% entendem que nada mudará.

Há mais. Na opinião de 68% dos brasileiros, Lula aceitou o cargo só para obter o chamado foro privilegiado e escapar de um processo em primeira instância comandado pelo juiz federal Sergio Moro.

Como se vê, a expressiva maioria da sociedade rechaça não só a repulsiva manobra mas também a cândida explicação difundida pelo Palácio, segundo a qual Lula estava sendo chamado somente por suas conhecidas capacidades de articulação política e na esperança de reanimar a economia.

Também pudera. As interceptações telefônicas que Moro tornou públicas na semana passada, a despeito das críticas que se possam fazer à atitude do juiz nesse caso, tiveram enorme impacto na população. Elas revelaram o quanto Lula se mobilizava para tentar interferir nas investigações –e dá arrepios imaginar o que poderá fazer uma vez dentro do governo.

A esse respeito, são alarmantes as declarações do novo ministro da Justiça, Eugênio Aragão. Em entrevista a esta Folha, ele afirmou que vai trocar toda a equipe de uma investigação da Polícia Federal se houver sinais de vazamento de informação –e o fará mesmo que não tiver provas, o que configura uma monstruosidade jurídica.

Impressiona a desfaçatez do ministro, e não só pela deslavada intenção de usar a presunção da inocência somente quando interessa. Justamente quando o governo que agora integra é acusado de querer driblar a Operação Lava Jato, Aragão dobra a aposta com essa tentativa de intimidar a PF.

Não surpreende, diante dos acontecimentos frenéticos das últimas semanas, que a rejeição a Lula tenha disparado entre os entrevistados pelo Datafolha. Se em 2010 o petista deixou o Planalto com 83% de aprovação, hoje 57% dizem que não votariam nele caso estivesse disputando uma eleição.

Na prática, desse modo, a presença de Lula no Planalto serve somente para sublinhar as notórias inépcia administrativa e falta de liderança presidencial, antes exacerbando os defeitos estruturais do governo Dilma Rousseff do que evitando a rota do desastre.

Colocar Lula como ministro era uma encrenca anunciada – Editorial / Valor Econômico

Isolada em seu bunker no Planalto Central, cercada de alguns poucos auxiliares para os quais o mundo está contra o PT, a presidente da República, Dilma Rousseff, talvez não tenha prestado atenção aos avisos de que a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o ministério levaria a Operação Lava-Jato para o colo do governo. Ou simplesmente não quis ouvir, por entender que se tratava de mais uma cilada golpista da oposição. Mas foi exatamente o que aconteceu, apenas algumas horas depois de Lula ser anunciado como o novo ministro chefe da Casa Civil.

Não que a presidente seja uma personagem inocente na trama urdida para dar a Lula a proteção do foro privilegiado, como se vê nas gravações das conversas entre Lula e a própria Dilma, Lula e o ministro Nelson Barbosa (Fazenda) e o agora ex-ministro Jaques Wagner, entre outros integrantes menores da república sindical petista. Mas o erro da presidente, talvez o maior de todos os seus erros no Palácio do Planalto, que não foram poucos, foi de avaliação política, combinado com o desprezo olímpico ao recado enviado pelas manifestações realizadas no domingo anterior, que reuniram milhões de pessoas.

Nomear Lula para a Casa Civil já era uma temeridade, conforme advertiram mais de um analista e mesmo aliados importantes que conseguem analisar a conjuntura pelo que ela é. Depois do ronco das ruas, então, equivalia a um suicídio político. Junto com Lula subiriam a rampa do Palácio do Planalto o tríplex, o sítio em Atibaia, as perigosas relações do ex-presidente com as empreiteiras e a suspeita - que se comprovou uma certeza - de que Lula buscava, mais que qualquer outra coisa, um salvo conduto para circular sem a ameaça de ser preso por uma ordem do juiz Sérgio Moro. Era muito peso para uma canoa que já apresentava furos.

Foi exatamente contra tudo isso que se manifestaram mais de seis milhões de brasileiros, no domingo. As palavras de ordem do protesto eram justamente o "Fora Dilma", "Fora Lula", "Fora PT" e "Viva Sergio Moro". Tudo o que a população repudiou foi abrigado por Dilma no governo. O ato da presidente, ao nomear Lula, soou como um insulto aos milhões de manifestantes que foram às ruas mostrar seu desagrado com os rumos do governo e repulsa à corrupção.

Até a última quarta-feira, a presidente Dilma tinha o mandato ameaçado por um pedido de impeachment cuja justificativa, as "pedaladas" fiscais, não causava maior entusiasmo nem sequer entre defensores do seu afastamento. O requerimento, agora, ganhou cores vivas, quando se viu Dilma em ação para proteger seu padrinho político ou concordando com as ofensas dirigidas pelo ex-presidente aos poderes constituídos, notadamente o Ministério Público Federal e o Supremo Tribunal Federal.

Na campanha de 2014, Dilma disse que faria "o diabo" para ganhar a eleição. Ao se submeter ao vexame de abdicar para Lula assumir o governo, a presidente mostra que está disposta a fazer o mesmo para preservar o mandato. Joga fora os 54 milhões de votos que teve na eleição de 2014 e que a levaram ao Palácio do Planalto para governar para todos os brasileiros.

A presidente, aparentemente, não se importa com o fato de que dois terços da população rejeitam seu governo e se declaram favoráveis ao impeachment, de acordo com todos os institutos de opinião. No universo de uma governante isolada tudo se resume a uma luta do "nós contra eles", não importa que "eles" sejam os partidos da oposição ou os seis milhões de pessoas que estavam nas ruas no dia 13 de março.

Levada por seus próprios erros, Dilma chegou à antessala do impeachment, mas sobreviveu a 2015 e ao início de 2016, com mais ou menos possibilidades de chegar ao fim do mandato. Abraçada a Lula, a presidente entrou no que pode ser o corredor da morte. As engrenagens do impeachment começaram a funcionar. Encurralada, a presidente tem a opção da renúncia que poderia abreviar a crise. Mas Dilma parece disposta a morrer em combate, agora ao lado de seu mentor, não importam as consequências que o vale tudo para salvar o mandato possam ter para o país. Resta torcer por uma solução rápida que tire o país do impasse que o paralisa e que eleva o risco de uma depressão econômica. Sem o "nós contra eles", mas para todos os brasileiros.