sexta-feira, 14 de maio de 2021

Hélio Schwartsman - Alucinação coletiva

- Folha de S. Paulo

Reação da opinião pública vista na pesquisa Datafolha é tardia e insuficiente

Organismos vivos desenvolveram sentidos como visão, audição, propriocepção, ecolocação para captar instâncias daquilo que chamamos de realidade e se posicionar de forma mais adequada para sobreviver e deixar descendência. Mas é claro que nada é tão simples.

As informações que chegam pelos sentidos nem sempre permitem interpretações unívocas; por vezes, estão em contradição umas com as outras. O cérebro, que não pode se dar ao luxo de esperar até que só existam certezas, se vale de uma miríade de elementos extrassensoriais, como expectativas, preferências e até manias, para dar sentido à profusão de dados que lhe chegam a cada instante. É nesse contexto que alguns neurocientistas descrevem a percepção como uma alucinação controlada.

Ruy Castro - Todos os Bolsonaros da CPI

- Folha de S. Paulo

Bolsonaro não está em pessoa no banco da comissão. Simbolicamente, sim. Cada um de seus cúmplices é ele

Há quase um ano (20/5/2020), publiquei neste espaço uma coluna que começava assim: “No dia ainda incerto, mas infalível, em que Jair Bolsonaro se sentar no banco dos réus, veremos se usará a tática a que se habituou no poder para se impor numa discussão —silenciar seus interlocutores cortando-lhes a palavra e repetindo aos gritos seus bordões, como ‘Chance zero!’, ‘Ponto final!’, ‘Caso encerrado!’, ‘Próxima pergunta!’, ‘O recado está dado!’, ‘Cala a boca!’ e ‘E daí?’”. De lá para cá, Bolsonaro acrescentou várias ejaculações ao seu vomitório, como “Página virada!”, “Acabou, porra!” e o imortal “Enfia no cu!”.

Na coluna, eu dizia que a Justiça não se contentaria com uma argumentação tão lacônica. “Bolsonaro”, escrevi, “terá de responder extensivamente sobre os episódios em que violou a Constituição, estuprou as instituições, acusou sem provas, jogou o povo contra o Congresso e o STF, botou órgãos de Estado a seu serviço, encobriu sujeiras dos filhos e dos asseclas, mentiu compulsivamente, agrediu minorias e promoveu o desmoronamento da nação com seu ministério de celerados. O crime de mandar os humildes para a morte, exortando-os a sair de casa em plena pandemia, talvez tenha de ser julgado por um tribunal com sede na Holanda”.

César Felício - Quem de fato manda

- Valor Econômico

Bolsonaro chegou ao ponto de não retorno com o Congresso, com as concessões que fez em relação ao Orçamento

Para um candidato a autocrata, a dependência do presidente Jair Bolsonaro de sua base no Congresso é surpreendente, como ficou evidente na série de reportagens do jornal “O Estado de S. Paulo” sobre a apropriação de uma fatia do Orçamento pela cúpula parlamentar alinhada ao Planalto.

O presidente pode passar seu tempo chamando o relator da CPI da Covid de “vagabundo” e o vice-presidente do colegiado de “senador Dpvat”, mas ao promover um varejo de negociações em troca de apoio, ao criar uma gigantesca Codevasf e loteá-la entre caciques políticos, Bolsonaro indicou de que forma quer levar sua relação com o Legislativo. Um modelo nada inovador, que deve se amplificar no futuro próximo.

 “Cachorro quando morde galinha pela primeira vez, sente o gosto de sangue e vai querer morder sempre”, comentou um veterano da política, o ex-deputado e ex-ministro das Comunicações Miro Teixeira, que teve 11 mandatos na Câmara e hoje é um dos coordenadores da pré-campanha presidencial de Ciro Gomes. Em outras palavras, do ponto que se chegou não há retorno: o presidente perdeu sua autonomia para determinar a execução do Orçamento.

Claudia Safatle - Reforma do PIS-Cofins é positiva no pós pandemia

- Valor Econômico

Os dois impostos respondem por cerca de 90% das demandas judiciais da área tributária

É possível votar, neste ano, a proposta de unificação do PIS e da Cofins em um único imposto: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), conforme projeto de lei 3887/20 enviado pelo governo ao Congresso em meados do ano passado. O relatório apresentado anteontem pelo deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), na última reunião da Comissão Mista Temporária da Reforma Tributária, é uma síntese de duas PEC (propostas de emenda constitucional), as de número 45 e 110. Nele, o relator acatou a sugestão de juntar cinco impostos - ICMS, IPI, PIS/Cofins e ISS - no Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).

A diferença entre contribuição e imposto é que, no primeiro caso, a União não reparte a receita com os Estados e municípios. Ribeiro, porém, cuidou para que o imposto arrecadado em operações que geram crédito não seja dividido com os entes da federação, para que a receita se destine à devolução dos créditos às empresas. O ponto central da CBS (ou IBS) é o crédito financeiro: tudo que a empresa comprar vai gerar crédito desde que esteja destacado em nota fiscal.

PIS e Cofins são os impostos mais complexos do já intrincado sistema tributário brasileiro, responsáveis por cerca de 90% da demanda judicial. O emaranhado de contenciosos chegou a tal ponto que a simplificação é boa tanto para o setor privado quanto para a Receita Federal.

Fernando Abrucio* - Bolsonarismo é inimigo da educação

- Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Bolsonaro toma medidas para colher no futuro um país atrasado e subserviente

Um dos principais pilares do governo Bolsonaro é a destruição das estruturas educacionais do país. O MEC é o epicentro desse processo. Desde a redemocratização, nunca suas políticas foram tão irrelevantes, o seu orçamento tem se reduzido nestes dois anos e meio de mandato e os recursos existentes não são gastos. A completa ausência do governo federal em meio à pandemia aumentou a desigualdade educacional e milhões de alunos pobres brasileiros terão negado o seu direito ao aprendizado. Agora o alvo da vez é o INEP, principal responsável pelas provas e indicadores nacionais, que passa por uma operação de desmonte. Mas por que o bolsonarismo quer destruir a educação? Quais os efeitos disso para o desenvolvimento brasileiro?

Três razões explicam a visão e a estratégia bolsonarista em relação à educação. A primeira é que o governo Bolsonaro prioriza a guerra cultural em detrimento das políticas públicas. Ou seja, o mais importante é defender um conjunto de valores, mais do que se preocupar com a garantia dos direitos e a qualidade dos serviços públicos. Além disso, como segundo fator, os atores educacionais são considerados inimigos fundamentais na batalha do bolsonarismo para conquistar e manter o poder, não só no plano político imediato, mas na busca da hegemonia social. Por fim, o enfraquecimento da política educacional significa reduzir informação, reflexão e debate, algo essencial para um presidente que busca reduzir ao máximo o controle sobre seu poder.

A predominância da guerra cultural como norteador do modelo bolsonarista de governo tem sido apontada por vários estudiosos, com destaque para o trabalho de João Cezar Rocha. Trata-se, na verdade, de um formato que se espalha internacionalmente entre os grupos populistas de extrema direita. No fundo, o embate dos valores ganha proeminência sobre a gestão das políticas públicas. O bolsonarismo ignora os consensos técnicos em cada setor e as evidências científicas, além de evitar o diálogo com os especialistas, quando não os confronta ou até os persegue.

Maria Cristina Fernandes - Memórias mostram um FHC para desarmar os espíritos

- Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Ex-presidente conta causos como se estivesse sentado ao sofá de sua casa e partilha reflexões ante a finitude da vida

Na tentativa de entrar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, bombou em latim; no curso de ciências sociais, bombou em matemática; já doutor pela USP, claudicava no inglês; fez pesquisa de campo no Araguaia nos anos 1970 e só soube da guerrilha porque o dono da fazenda que o hospedava lhe contou; péssimo poeta e escritor sem imaginação literária, cometeu alguns textos pedantes.

Às vésperas de completar 90 anos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deixou a lendária vaidade ao desabrigo em “Um intelectual na política - memórias” (Companhia das Letras, 432 págs., R$ 69,90). Não abdica do lugar que imagina ter na história, o de quem buscou percorrer, da academia ao poder, a trajetória da institucionalização da democracia no país. Mas chega ao pé do ouvido do leitor, num tom confessional, para desfazer impressões preconcebidas. É generoso com aqueles que o antecederam e o sucederam no poder e a quem a crônica política atribui rixas históricas. Conta causos como se estivesse sentado ao sofá de sua casa e partilha reflexões ante a finitude da vida.

Não se trata de um acerto de contas. Fala das motivações dos atos, com franqueza às vezes surpreendente, para se fazer compreendido. Não se delonga com sua passagem pelo poder, tema dos quatro volumes de “Diários da Presidência” (Cia das Letras, 2015-19). Mas menciona um erro cometido, o de ter forçado a barra na reforma da previdência. Ao dizer que assustou as pessoas e pagou caro por ter querido salvar o sistema previdenciário, deixa implícito o incômodo com as repercussões duradouras do dia em que chamou de “vagabundos”, num país de pobres e miseráveis, aqueles que se aposentam antes dos 50 anos.

Passa ao largo da falsa modéstia. Ao reconstituir o pedigree familiar e acadêmico, mostra como se valeu de ambos sem se prender a um ou ao outro. O resultado é que o filho, neto, sobrinho-neto de generais e marechais protagonistas da proclamação da República ao gabinete de Guerra de Getúlio Vargas não parece, no livro, ter chegado à Presidência porque estava escrito nas estrelas, mas porque, a partir de sua ancestralidade, se reinventou.

Entrevista | Marina Silva: 'Os ganhos ambientais obtidos com décadas de trabalho de diferentes governos foram pisoteados'

Fundadora do partido Rede Sustentabilidade diz que texto aprovado na Câmara é inconstitucional e prejudicará economia brasileira no exterior

Renato Grandelle / O Globo

RIO — Marina Silva é taxativa: no projeto de lei aprovado nesta quinta, a Câmara não flexibilizou o licenciamento ambiental — ele, na verdade, foi erradicado. Para a ex-ministra do Meio Ambiente e ex-senadora pelo Acre, o Senado será pressionado a mudar o texto, mas a Casa é, em sua maioria, dominada pelo “que há de pior no ruralismo brasileiro”.

Ela destaca que muitos juristas já preveem uma chuva de processos contra os licenciamentos liberados com base na nova lei, caso ela seja aprovada pelos senadores e sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro. O aval do Palácio motivaria um movimento em massa de flexibilização da legislação ambiental em estados e municípios, empenhados em atrair empreendimentos.

 Marina está entre os nove ex-ministros que publicaram uma carta alertando que o “projeto de Lei Geral do Não-Licenciamento Ambiental” poderia provocar, além de atritos em tribunais, o agravamento da crise econômica. A imagem do país no exterior ficaria ainda mais arranhada. Segundo ela, enquanto a comunidade internacional se esforça para acirrar as leis ambientais, o Brasil segue na contramão.

O projeto de licenciamento ambiental aprovado na Câmara foi elaborado sob a justificativa de que era necessário desburocratizar a legislação. A senhora concorda com esse argumento?

Não, é falacioso. Na verdade, a intenção é acabar com o licenciamento ambiental e favorecer empreendimentos sem cumprir regras de proteção ao meio ambiente e às comunidades. Há necessidade de modernizar a lei, mas isso não significa perder sua qualidade. Esse é um projeto complexo, que estava em debate há 17 anos, mas que foi aprovado sem audiências públicas com especialistas, cientistas, gestores públicos, ambientalistas e povos que serão potencialmente afetados, como ribeirinhos e indígenas. Os ganhos ambientais obtidos com décadas de trabalho de diferentes governos foram pisoteados.

Por que o projeto demorou tanto tempo para ser votado?

Porque é, de fato, muito polêmico. De um lado, há um grupo que tem um interesse legítimo em atualizar o licenciamento ambiental; do outro, há aqueles que querem acabar com ele, como aconteceu ontem. O Congresso passou a boiada porque sabe que a sociedade está com a atenção dividida, porque há um verdadeiro pugilato na CPI da Covid. O governo está aproveitando a pandemia, que já deixou mais de 400 mil mortos, para votar temas que não têm caráter de urgência urgentíssima.

Em carta, ex-ministros, inclusive a senhora, dizem que o projeto pode fulminar com o seu propósito principal, que é criar um ambiente de negócios. Por quê?

O empresariado será altamente prejudicado. Como o projeto é inconstitucional, haverá uma chuva de judicializações. O governo federal está dando a senha para que estados e municípios também mudem suas legislações, e haverá uma guerra ambiental entre eles, cada um querendo atrair investimentos a toque de caixa, acenando com o chapéu de todos nós, que é a destruição dos ecossistemas.

Entrevista | Fernando Henrique ‘Posso ter influência, mas não poder. E não sinto falta'

Ex-titular do Planalto lança livro de memórias, o último da lista, indica voto em Lula contra Bolsonaro e diz que atual ocupante do cargo ‘piora o país’

Vera Magalhães / O Globo

SÃO PAULO — “Este é meu último livro”, vaticina Fernando Henrique Cardoso logo no início da entrevista, por videoconferência, marcada em razão do lançamento de “Um Intelectual na Política”, volume de memórias em que o ex-presidente passa em revista sua formação acadêmica, ao mesmo tempo em que mostra como ela foi entrelaçada com a política.

A menos de um mês de completar 90 anos, FH mostra uma memória espantosa ao enfileirar datas, árvores genealógicas (de sua família e de outras), endereços, títulos acadêmicos, histórias dos tempos em que viveu em Paris e no Chile e a linha do tempo que o levou a construir em paralelo sólidas carreiras como professor e como político.

Também sobram críticas a Jair Bolsonaro, que ele considera “mal sentado” na cadeira da Presidência. E FH faz uma declaração de voto: se o segundo turno se der entre o atual presidente e Lula, o voto será no petista.

Este foi o livro em que o senhor colocou mais aspectos da sua vida pessoal? E de onde vem essa memória prodigiosa?

Do ponto de vista intelectual, sim. Embora eu me refira a processos sociais, do Brasil e de fora, estou mais preocupado ali em mostrar como eu apreendi as coisas, como foi minha formação. Isso fica entranhado na gente. Não é que custe grande esforço, não. Eu sempre tive facilidade em lembrar coisas, e mesmo para falar e escrever. Enquanto tiver memória, tem vida. Não consultei nada para escrever este livro. É tudo de cabeça. Eu guardo. Agora me vem a preocupação contrária: começo a esquecer as coisas. Não é que me esqueça, mas começo a confundir.

Quanto tempo demandou a escrita do livro?

Escrevi durante a pandemia. Se demorar a terminar a pandemia, terei de escrever outro (risos).

A forma como a vida familiar, acadêmica e política se mesclam na sua trajetória chama muito a atenção.

É, foi mais ou menos assim. Também por essas circunstâncias, acabei me mudando muito, viajando muito. Uma das coisas que sinto falta nessa pandemia é de viajar. Eu digo isso no livro: não basta ler, você tem de observar, viver as situações, experimentar. Quando está em um país estrangeiro, tem de absorver a vida, viver como se vive naquele país. Você tem de deixar o vento te levar. Eu me adapto. Você só tem uma alternativa: mergulhar na vida.

Em relação às ideias, o senhor participa dos primeiros círculos de leitura de Marx, ainda antes dos anos 1960. Depois, abraça a social-democracia e acaba sendo chamado de neoliberal. Como foi essa evolução?

Neoliberal nunca fui. Mas essa evolução também veio de forma natural. A gente tem de acompanhar as transformações do mundo. Nasci numa família que tinha participação política desde o Império. Meu bisavô já era senador no Império, e meu avô conspirou contra o imperador. Fui evoluindo, mudando sem dor.

O que sente quando olha para o Brasil de hoje, em que existe um certo elogio da ignorância, sucateamento da universidade, da educação da ciência?

Hoje existe um verdadeiro culto da violência. Veja o que houve no Rio de Janeiro. Violência sempre houve na História do Brasil. Mas hoje é um culto que vem da classe dirigente. Violência passou a ser virtude. Nunca assistimos a algo como vemos hoje, em que uma pessoa como Bolsonaro vira presidente da República. Ele está mal sentado ali. Dá pena. O Brasil merecia estar mais bem representado. Farei o que puder para que o Brasil supere isso. Veja os Estados Unidos: lá a barbárie não prevaleceu. O (Donald) Trump tentou, mas não conseguiu, porque lá os valores e as instituições são muito mais fortes.

J-AmLat - Não a uma guerra desnecessária !

A J-AmLat lamenta profundamente a perda de vidas humanas em uma renovada e inaceitável escalada de violência em Israel e Palestina.

A J-AmLat -Judeus Latino-americanos Progressistas pela Paz- se pronuncia, mais uma vez, a favor de uma via política que ponha um fim aos ciclos recorrentes de violência, priorizando uma saída que anteponha a segurança e os direitos humanos dos cidadãos de toda a população de Israel e da Palestina.

Esta não é uma nova guerra. É a continuação e inevitável consequência de um chamado “status quo” inoperante, que não oferece nem paz nem segurança a Israel. É o reflexo de um vazio de poder em Israel e na Palestina, ante o fracasso das diferentes lideranças políticas, preocupadas em se manter no poder a todo custo. E não no bem-estar das populações que dizem representar.  Igualmente está claro que a violência entre israelenses e palestinos se dá num marco assimétrico. É claro que a solução para o conflito entre Israel e Palestina será política e não através da violência.

Condenamos os ataques massivos com mísseis contra civis israelenses por parte do Hamas e a Jihad Islâmica a partir da Faixa de Gaza, que tem tirado vidas humanas. Bombardear centros de população civil é um crime de guerra.

Condenamos a operação militar que Israel move contra a Faixa de Gaza, território densamente povoado sob um bloqueio desumano, que não consegue cumprir seu objetivo de acabar com o regime do Hamas, ao contrário. Os ataques do exército israelense têm ceifado vidas humanas.  Bombardear centros de população civil é um crime de guerra.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

STF à prova

Folha de S. Paulo

Acusação contra Toffoli precisa de resposta que preserve credibilidade da corte

Ao pedir autorização para investigar acusações feitas pelo ex-governador Sérgio Cabral contra o ministro Dias Toffoli, a Polícia Federal colocou o Supremo Tribunal Federal sob inédita pressão.

Pela primeira vez em sua história, a corte precisará decidir se um dos seus integrantes deve ser investigado por suspeita de corrupção, ou se os indícios apresentados contra ele são tão frágeis que o caso merece ser arquivado.

Cabral diz que um dos seus operadores pagou R$ 4 milhões a Toffoli para que favorecesse dois prefeitos em processos no Tribunal Superior Eleitoral. Segundo ele, os pagamentos foram feitos por meio do escritório de advocacia da mulher do ministro. Toffoli nega tudo, assim como o suposto operador.

Condenado a mais de 300 anos de prisão por corrupção e outros crimes, Cabral mudou sua estratégia de defesa há dois anos e fechou um acordo de colaboração premiada com a PF, passando a fornecer informações na tentativa de obter algum alívio para suas penas.

O ministro Edson Fachin homologou o acordo e autorizou a abertura de vários inquéritos em 2020, mas Toffoli usou os poderes que tinha como presidente do tribunal na época para arquivar todos, argumentando que faltavam indícios mínimos para justificá-los.

Música | Chico Buarque - Eu te Amo

 

Poesia | Joaquim Cardozo - Recordações de Tramataia

    

Eu vi nascer as luas fictícias
Que fazem surgir no espaço a curva das marés
Garças brancas voavam sobre os altos mangues
De Tramataia.
Bandos de jandaias passavam sobre os coqueiros
                                                     [ doidos
De Tramataia.
E havia um desejo de gente na casa de farinha e
                                   [ nos mocambos vazios
De Tramataia.
Todavia! Todavia!
Eu gostava de olhar as nuvens grandes, brancas
                                                    [e sólidas,
Eu tinha o encanto esportivo de nadar e de
                                                    [ dormir.

                         II

Se eu morresse agora,
Se eu morresse precisamente
Neste momento,
Duas boas lembranças levaria:
A visão do mar do alto da Misericórdia de Olinda
                                      [ ao nascer do verão.
E a saudade de Josefa,
A pequena namorada do meu amigo de
                                           [ Tramataia. 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Merval Pereira - Mentiras perigosas

- O Globo

Que o ex-secretário de Comunicação de Bolsonaro Fabio Wajngarten mentiu na CPI da Covid, disso não há dúvida. A partir daí, é possível detectar como os senadores estão despreparados para os interrogatórios e prospectar um resultado muito mais político do que real, se não mudarem de postura. Um resultado político pode ser sem grande valia, pois a própria característica da decisão poderá dar ao presidente Bolsonaro uma escapatória, atribuindo às acusações da CPI um teor eleitoral.

Poucos foram como o senador Tasso Jereissati, que citou uma campanha de volta ao trabalho — “O Brasil não pode parar”—, claramente negacionista, feita pela Secom, em contraposição ao depoimento do ex-secretário, que se apresentou como um seguidor da ciência e favorável às medidas de prevenção, como o distanciamento social.

Frequentemente as perguntas dos senadores eram confusas, inclusive as do relator Renan Calheiros, que, por precipitação, perdeu um grande momento quando pediu ao depoente que enviasse à CPI os e-mails que ele dissera à revista “Veja” ter “guardado”. A primeira reação de Wajngarten foi concordar, com um gesto de cabeça, para logo em seguida se aproveitar da confusão reinante para dizer que os tinha guardado no computador da Secom.

Mandar prender um depoente, mesmo que ele seja um mentiroso evidente como Fabio Wajngarten, não resolveria a situação da CPI, mas criaria um fato político que poderia reverter até mesmo em favor do governo Bolsonaro. Mesmo que a lei permita que se dê voz de prisão durante o depoimento, as mentiras de Wajngarten foram tantas e tão evidentes que dispensam essa medida extrema.

Malu Gaspar – Está liberado mentir

- O Globo

Então fica combinado assim: de agora em diante, está liberado mentir em sessão de Comissão Parlamentar de Inquérito. Também não tem problema chamar o colega parlamentar de “vagabundo” para melar um depoimento. E tudo bem escancarar ao distinto público a constatação de que, afinal, a apuração das responsabilidades pelo descaso no combate à pandemia da Covid-19 só não é mais importante que uma ampla gama de conveniências políticas.

Qualquer brasileiro medianamente informado sabe que o destino mais provável de uma CPI é terminar em pizza. Mas as cenas exibidas ao vivo e em cores durante o depoimento do ex-secretário de Comunicação do governo federal Fabio Wajngarten, na CPI da Covid, elevaram a expressão popular a um novo patamar.

Primeiro por causa da insistência do ex-secretário em desdizer tudo o que havia afirmado à revista “Veja” em abril, numa entrevista cheia de recados subliminares ao presidente da República e ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello.

Em seis horas de exposição, Wajngarten recusou-se a repetir que o governo poderia ter comprado vacinas meses antes do que de fato ocorreu, negou ter afirmado que houve “dolo, incompetência ou as duas coisas” na ação do ex-ministro da Saúde e, mais de uma vez, tentou sepultar a versão de que Bolsonaro o havia autorizado a negociar a aquisição dos imunizantes, passando por cima do colega de Esplanada Pazuello.

Míriam Leitão - O falso testemunho

- O Globo

Pegue-se de qualquer ponto o depoimento que o ex-secretário Fabio Wajngarten deu à CPI e é possível encontrar uma inconsistência. Foi tanta mentira e contradição que, durante a tarde, instalou-se uma discussão entre o presidente Omar Aziz e o relator Renan Calheiros. O relator queria prender. O presidente, não. Renan temia a desmoralização, Aziz disse que estava salvando a CPI. A prisão faria a Comissão Parlamentar escalar o grau de conflito. A não prisão daria a qualquer um o direito de mentir ali. Cada um dos dois tinha um ponto, não era fácil decidir. Senadores que a coluna ouviu acham que era caso de prisão. O senador Alessandro Vieira, que é suplente, quando acabou de interrogá-lo e pegar novas contradições, concluiu:

— Eu apenas reforço, e pode ser uma tendência desta comissão. Não há nisso ameaça. Há um justo alerta à testemunha. Cabe ao senhor presidente determinar se é o caso de prisão em flagrante por mentir à CPI. Essa decisão será constante. É impressionante vir aqui e agir com essa desfaçatez.

Wajngarten negou que tivesse dito à “Veja” que foi incompetência do Ministério da Saúde. A “Veja” postou o áudio em que ele dizia “incompetência, incompetência”. A senadora Leila o colocou para ser ouvido. Ele disse que fez 11 campanhas vinculadas à pandemia. O senador Humberto Costa mostrou que algumas eram para estimular as pessoas a saírem para as ruas. O senador Tasso Jereissati perguntou sobre a campanha “O Brasil não pode parar”. Ele alegou desconhecimento, dizendo que em março do ano passado estava em casa com covid. Na época, deu entrevista a Eduardo Bolsonaro dizendo que de casa continuava trabalhando e aprovando campanhas.

Ricardo Noblat - No seu pior momento e no melhor de Lula, Bolsonaro perde feio

- Blog do Noblat / Metrópoles

Ainda faltam 20 meses para a eleição presidencial do ano que vem. É preciso cautela na análise de pesquisa eleitoral

Um truísmo, mas vá lá. Pesquisa de opinião é um retrato do momento. Tendência, a evolução de alguma coisa num sentido determinado. O que uma pesquisa revela só vira uma tendência se confirmada por futuras e sucessivas pesquisas.

Os resultados da pesquisa Datafolha divulgada nas últimas horas foram péssimos para o presidente Jair Bolsonaro e ótimos para o ex-presidente Lula. Manda a prudência, contudo, que se esperem novas pesquisas para conferir se isso configura uma tendência.

Pode ser também o que pesquisadores chamam de “soluço”, algo ocasional que, mais tarde, será naturalmente corrigido. De resto, faltam 20 meses para o primeiro turno da eleição presidencial do ano que vem. Mesmo uma tendência pode ser revertida.

Tais ressalvas não tiram a importância do que a pesquisa Datafolha registrou: se a eleição tivesse sido realizada nessa quarta-feira (12/5), Lula teria batido Bolsonaro com folga de votos no primeiro ou no segundo turno. Bolsonaro deve preocupar-se, e Lula comemorar.

William Waack - Acabou o ‘toma lá’

- O Estado de S. Paulo

As verbas que Bolsonaro distribui aos parlamentares sinalizam descontrole político

Qualquer o nome que se dê ao monte de dinheiro que Bolsonaro entrega a parlamentares amigos, do ponto de vista político equivale à esperteza de amarrar uma corda ao redor do próprio pescoço. Desde a redemocratização não há registro de chefe do Executivo brasileiro que tivesse se rendido dessa forma às amorfas forças políticas conhecidas como Centrão, especializadas em manter-se próximas dos cofres públicos.

Desde sempre (tomando 1988 como data-base) o sistema de governo brasileiro opõe uma figura forte (o presidente da República, vencedor de uma eleição plebiscitária) a um Legislativo com extraordinárias prerrogativas (e cada vez mais fracionado e sem coesão ideológica). O instrumento “tradicional” nesse regime, desde sempre, foi a troca de cargos políticos (especialmente os que “furam poços”) e verbas orçamentárias por apoio no Congresso.

Carlos Melo* - A mentira e a linha de um tempo de absurdos

- O Estado de S. Paulo

Precipitadamente, esperava-se que o depoimento de Fabio Wajngarten trouxesse revelações bombásticas e viesse a entregar ex-colegas de governo. Afinal, o ex-secretário viveu os bastidores da presidência de Jair Bolsonaro, foi integrante do núcleo dirigente e, sobretudo, por meio da Revista Veja havia dirigido artilharia pesada contra o Ministério da Saúde.

No entanto, sendo evasivo, Wajngarten buscou se caracterizar como um burocrata distante do centro do poder. Defendeu-se e optou pela fidelidade ao presidente e à sua alma mater, o bolsonarismo. E era mesmo essa a perspectiva mais realista a respeito do depoimento.

Contudo, ele não combinou com a maioria da CPI. Determinados em revelar erros do governo e do presidente da República, os membros não governistas da comissão resolveram apertar o ex-secretário. E assim explicitaram inúmeras contradições em suas declarações. Sobretudo, em relação ao que disse à revista Veja.

José Serra* - Orçamento sem bom censo

- O Estado de S. Paulo

Indicadores censitários são fundamentais para decidir e formular políticas públicas

O Orçamento público aprovado no final de abril, com atraso e inconsistências técnicas, compromete o desempenho das políticas públicas no País e cancela, na prática, os recursos para a realização do Censo 2021. Nos Estados Unidos, o presidente Joe Biden defende seu ambicioso plano de Estado para os próximos dez anos; já no Brasil, os formuladores de políticas governamentais promovem desorganização das contas públicas e desmantelamento de programas de governo indispensáveis ao desenvolvimento do País.

Soma-se a esse inadmissível desacerto na condução da política econômica a inepta tese de que o Orçamento público deve ser decidido pelos parlamentares. Como se o papel do Executivo fosse somente largar na porta do Congresso Nacional o principal instrumento de planejamento e gestão do País. Não é admissível que um governo se exima de governar.

Nossa Constituição federal confere ao Poder Executivo competência privativa para elaborar o Orçamento, em função de metas e prioridades estabelecidas pelo presidente da República. Quando o governo abre mão dessa prerrogativa durante o processo de elaboração do Orçamento, o Parlamento ocupa esse espaço e, por inércia, tende a avançar na alocação unilateral dos recursos públicos, por meio de emendas orçamentárias.

Bruno Boghossian - Petista retorma territórios, e presidente vê base mais restrita

- Folha de S. Paulo

Petista tem vantagem em grupos de baixa renda, enquanto presidente vê deserções em núcleo fiel

A fidelidade da base lulista e a hesitação do eleitorado que aderiu a Jair Bolsonaro (sem partido) em 2018 ajudam a explicar o descolamento entre os dois principais personagens da próxima corrida presidencial.

De volta ao jogo depois que o STF (Supremo Tribunal Federal) anulou condenações que o impediam de concorrer no ano que vem, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) retomou o controle de territórios tradicionalmente petistas, de acordo com números da primeira pesquisa do Datafolha para a disputa de 2022.

Uma fatia da vantagem que o ex-presidente abriu sobre seus adversários aparece principalmente no grupo mais pobre da população —o que sugere que bandeiras petistas como as plataformas de distribuição de renda e redução da pobreza ainda ressoam nesse eleitorado.

Maria Hermínia Tavares* - Autobiografia de uma nação

- Folha de S. Paulo

O crescimento da extrema direita, na última década, é um lado da história recente do país

Em um artigo publicado em 1994 no jornal turinês La Stampa, sob o título "Aquela Itália modelo Berlusconi", o filósofo Norberto Bobbio (1909-2004) se perguntou, com um misto de espanto e tristeza, se o berlusconismo não seria "uma espécie de autobiografia da nação, da Itália de hoje".

A pergunta vale para o Brasil, embora talvez seja precipitado falar em bolsonarismo para designar, seja os seguidores militantes do presidente —os seus minions—, seja o sentimento difuso de apatia benevolente ou simpatia aberta de quase a metade dos brasileiros em relação ao chefe do desgoverno. A despeito da administração catastrófica da pandemia —responsável por um número decerto elevado de mortes evitáveis e estagnação econômica—, sucessivas sondagens indicam que segue estável o contingente dos que consideram o desempenho de Bolsonaro ótimo ou bom, na casa de 30%, e o dos que lhe atribuem conceito regular (da ordem de 20%).

Bruno Boghossian – Jogando no desespero

- Folha de S. Paulo

Na CPI, Wajngarten esconde campanhas negacionistas e tenta proteger autores do desastre

O ex-secretário Fabio Wajngarten lançou mais do que um punhado de contradições, versões desencontradas e puras mentiras na CPI da Covid. Ele queria proteger o antigo chefe Jair Bolsonaro, mas provou que é impossível defender o governo falando a verdade.

O aliado do presidente tentou descrever uma gestão que seguia orientações das autoridades de saúde na área de comunicação. Não colou. Ele teve que esconder a campanha que dizia que a cloroquina apresentava “bons resultados” contra a Covid e as postagens contra medidas de isolamento, feitas em março de 2020 pela Secretaria de Comunicação.

Mariliz Pereira Jorge - Wajngarten, o tchutchuca na CPI da Covid

- Folha de S. Paulo

Nas redes sociais, ex-secretário faz o tipo tigrão

Pelo que vimos nesta quarta (12), bolsonarista é o tipo tigrão nas redes sociais, quando escorado pelo aparato do governo, mas muito tchutchuca quando precisa enfrentar uma CPI. Fabio Wajngarten gaguejou, disse e desdisse, caiu em contradição, suou, tremeu e, sobretudo, mentiu em seu depoimento à comissão que investiga a má gestão da pandemia.

O ex-secretário da Secom sofre do mal que acomete essa turma que chegou ao Planalto com a eleição de Jair Bolsonaro. Cria as suas próprias narrativas, seguro de que pode manipular não apenas a opinião pública mas os fatos. Ignora que uma coisa é alimentar a militância bolsonarista com mentiras, a outra é bancá-las quando o que está em jogo é prisão.

Vinicius Torres Freire – Falta gente para mentir na CPI

- Folha de S. Paulo

Senadores deveriam chamar Braga Netto e Paulo Guedes para saber de vacinas

CPI da Covid e parte do país parou para discutir se Fabio Wajngarten deveria ser preso por ter mentido em seu depoimento no inquérito parlamentar. O país já deveria ter aprendido a besteira violenta que dá sair prendendo gente a torto e a direito, mas o assunto de interesse mais imediato nem é esse. A CPI não deve ameaçar os depoentes. Deve chamar mais gente para mentir mais ou até contar a verdade. Seja qual for a opção dos inquiridos, o governo Bolsonaro vai ficar exposto, para usar um eufemismo juridicamente seguro.

general Eduardo Pazuello, ex-chefe do almoxarifado da Saúde, é o próximo da fila do vexame e de um futuro programa de acareações, mas já é uma figura manjada. A fila tem de andar. Por exemplo, quando a CPI vai convocar o general Braga Netto, ora ministro da Defesa e ex-ministro da Casa Civil?

Braga Netto tomou decisões relativas à vacina. Um documento do governo diz que ele liderou o “processo decisório” de adesão do Brasil à iniciativa da OMS (ACT Accelerator) do qual fazia parte a Covax (distribuição de vacinas para países mais pobres). Muito bem. O que ele mais sabe sobre os processos decisórios? A Casa Civil, o ministério da Saúde e o ministério da Economia fizeram reuniões para decidir o que fazer da vacina da AstraZeneca, em 19 de junho de 2020, por exemplo. Os ministros dessas pastas também receberam a célebre carta ignorada em que a Pfizer oferecia vacinas.

Maria Cristina Fernandes - Bolsonaro aposta na polarização e radicaliza

- Valor Econômico

No melhor das hipóteses, embate será resolvido nas urnas

Com a manifestação marcada para este sábado, o presidente Jair Bolsonaro antecipou sua reação ao Datafolha que registrou a maior vantagem da temporada para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Se Lula está focado em atrair, pela base, os palanques regionais que dariam sustentação a uma terceira via, Bolsonaro mira na mobilização de setores anti-petistas por excelência: ruralistas, fundamentalistas religiosos, caminhoneiros e movimentos pró-armas.

O clímax, dizem os organizadores, será a chegada do presidente da República, a cavalo, por trás do Itamaraty, para se unir aos apoiadores. À Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, o coordenador da Marcha da Família Cristã pela Liberdade, Wellington Macedo informou a previsão de cinco trios elétricos, 200 ônibus e, como o céu é o limite, 100 mil pessoas.

À marcha, que reúne batistas, adventistas, as igrejas Universal, “Deus é amor”, “Plenitude do trono de Deus”, “Ministério da fé”, várias denominações da Assembleia de Deus e o movimento católico “Dom Bosco”, se unirão ruralistas e entidades de caminhoneiros, como o “Lux Brasil”, de Emílio Dalçóquio, aliado bolsonarista desde a greve de 2018.

Os ruralistas são liderados por Antonio Galvan, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja). Conta com entusiastas em quase todas as entidades do setor e o silêncio daqueles que, embora não subscrevam o apoio à radicalização do bolsonarismo, cruzam os braços à espera de que projetos como o da flexibilização do licenciamento ambiental, em pauta na Câmara, passem.

Fabio Graner - Melhora da economia não é jogo ganho

- Valor Econômico

Se governo não agir, espaço fiscal será menor, diz Claudio Considera

Indicadores econômicos menos piores do que se previa em março levaram, nas últimas semanas, a um processo de alta nas projeções de crescimento do país neste ano. A estimativa média do mercado passou de 3,04% de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021 para em torno de 3,2%, no espaço de um mês. Casas como XP Investimentos e Itaú ficaram mais otimistas e já anunciaram novos números, vendo expansão da ordem de 4%.

No governo, os dados mais recentes colocaram tendência de alta na estimativa atual, de 3,2%. Não está garantida, porém, uma revisão já no próximo relatório bimestral, a ser divulgado neste mês. A mudança pode ficar para depois, quando houver mais números disponíveis, como o PIB do primeiro trimestre.

De qualquer forma, esses primeiros meses do ano foram melhores do que se esperava para a atividade. Um número positivo para o período já não é mais uma hipótese distante, na avaliação do governo. A tese do abismo fiscal (“fiscal cliff”) de grande parte dos economistas, que era rebatida enfaticamente pela equipe econômica, não se confirmou. Ao contrário.

Jorge Arbache* - A política industrial do século XXI

- Valor Econômico

Agenda do clima pode criar oportunidades de negócios que passariam dos US$ 70 trilhões até 2030 e muitos empregos

A pandemia da covid-19 nos alertou para a relevância da cooperação para o enfrentamento de grandes desafios comuns. Essa advertência também é oportuna para outro grande desafio coletivo: as mudanças climáticas. As previsões científicas do aquecimento do clima são bastante preocupantes e apontam para consequências sociais e econômicas devastadoras, o que vai requerer transformações estruturais para o seu enfrentamento e mobilização de recursos e esforços próprios de períodos de guerra.

Dentro do espírito surgido durante a pandemia para aproveitar a ocasião e reconstruir um mundo melhor, estão avançando esforços políticos e econômicos para fortalecer acordos e instituições e encorajar o desenvolvimento de inovações, tecnologias, mercados e modelos de negócios para acelerar a transição para a economia de baixo carbono e oferecer soluções para a prevenção, adaptação e mitigação dos riscos das mudanças climáticas.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

Lula x Bolsonaro

Folha de D. Paulo

Datafolha sobre 2022 mostra liderança do petista no pior momento do mandatário

Embora a dimensão da liderança de Lula seja algo surpreendente, era previsível que o ex-presidente assumiria protagonismo nas pesquisas após a anulação de suas condenações por corrupção e lavagem de dinheiro. O PT, não é demais lembrar, foi ao segundo turno nas últimas 5 eleições presidenciais, das quais saiu vitorioso em 4.

A volta por cima do provável candidato do partido ocorre num momento especialmente negativo para Bolsonaro —logo depois de recordes trágicos de infecções e mortes provocadas pelo novo coronavírus, durante uma CPI que expõe os desmandos de seu governo na gestão da pandemia e com inflação e desemprego em níveis elevados.

Não por acaso, a aprovação ao presidente, que nunca foi majoritária no eleitorado, caiu ao menor patamar desde o início de seu mandato. Consideram a gestão boa ou ótima apenas 24%, ante 30% em março. Já a reprovação se manteve estável, oscilando de 44% para 45%.

Liberdade! Liberdade! Abra as Asas Sobre nós! Samba Enredo - Imperatriz (1989)

 

13 de maio de 1888 - Abolição da escravatura

Na época em que os portugueses começaram a colonização do Brasil, não existia mão-de-obra para a realização de trabalhos manuais. Diante disso, eles procuraram usar o trabalho dos índios nas lavouras; entretanto, esta escravidão não pôde ser levada adiante, pois os religiosos se colocaram em defesa dos índios condenando sua escravidão. Assim, os portugueses passaram a fazer o mesmo que os demais europeus daquela época. Eles foram à busca de negros na África para submetê-los ao trabalho escravo em sua colônia. Deu-se, assim, a entrada dos escravos no Brasil.

Os negros, trazidos do continente africano, eram transportados dentro dos porões dos navios negreiros. Devido as péssimas condições deste meio de transporte, muitos deles morriam durante a viagem. Após o desembarque eles eram comprados por fazendeiros e senhores de engenho, que os tratavam de forma cruel e desumana.

Poesia | Castro Alves - O Navio Negreiro (poema completo)

 

Pablo Neruda - Castro Alves do Brasil

Castro Alves do Brasil, para quem cantaste?
Para à flor cantaste? Para a água
cuja formosura diz palavras às pedras?
Cantaste para os olhos para o perfil recortado
da que então amaste? Para a primavera?

Sim, mas aquelas pétalas não tinham orvalho,
aquelas águas negras não tinham palavras,
aqueles olhos eram os que viram a morte,
ardiam ainda os martírios por detrás do amor,
a primavera estava salpicada de sangue.

- Cantei para os escravos, eles sobre os navios
como um cacho escuro da árvore da ira,
viajaram, e no porto se dessangrou o navio
deixando-nos o peso de um sangue roubado.

- Cantei naqueles dias contra o inferno,
contra as afiadas línguas da cobiça,
contra o ouro empapado do tormento,
contra a mão que empunhava o chicote,
contra os dirigentes de trevas.

- Cada rosa tinha um morto nas raízes.
A luz, a noite, o céu cobriam-se de pranto,
os olhos apartavam-se das mãos feridas
e era a minha voz a única que enchia o silêncio.

_ Eu quis que do homem nos salvássemos,
eu cria que a rota passasse pelo homem,
e que daí tinha de sair o destino.
Cantei para aqueles que não tinham voz.
Minha voz bateu em portas até então fechadas
para que, combatendo, a liberdade entrasse.

Castro Alves do Brasil, hoje que o teu livro puro
torna a nascer para a terra livre,
deixam-me a mim, poeta da nossa América,
coroar a tua cabeça com os louros do povo.
Tua voz uniu-se à eterna e alta voz dos homens.
Cantaste bem. Cantaste como se deve cantar.