quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Fernando Exman - O experimento do PT para atrair o voto evangélico

Valor Econômico

Resultado da estratégia será crucial para 2026

Muito se fala sobre a realização de campanhas eleitorais por igrejas evangélicas, mas pouco se sabe sobre a metodologia aplicada por pastores para alavancar candidaturas de aliados.

É tema delicado. A legislação proíbe propaganda “em bens de uso comum”, ou seja, locais aos quais a população em geral tem acesso, e a interpretação da lei não costuma ser consensual em relação ao que é vedado ou permitido. Mas um influente parlamentar da bancada evangélica assegura que é possível saber com relativa precisão quantos votos a igreja dá para candidatos a deputado federal, deputado estadual e vereador.

Vera Rosa - Lula convida Moraes para 7 de Setembro

O Estado de S. Paulo

Presidente quer prestigiar STF horas antes de Bolsonaro pedir cabeça de ‘Xandão’ na Paulista

No 7 de Setembro, horas antes de ser alvo de um ruidoso protesto na Paulista, no qual aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro pedirão o seu impeachment, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes deverá estar a 1.037 quilômetros dali. É que Moraes foi convidado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assistir com ele ao desfile do Dia da Independência, na Esplanada dos Ministérios.

O porta-voz do convite foi o ministro da Defesa, José Múcio. “Eu convidei o ministro Alexandre, em nome do presidente, e ele respondeu prontamente que vai ao nosso desfile de 7 de Setembro. Estou chamando todos os ministros do STF”, disse Múcio à coluna.

Martin Wolf - Lições da grande inflação

Financial Times / Valor Econômico

O regime de metas de inflação sobreviveu a dois grandes testes, mas mais choques grandes podem vir, alguns deles até muito em breve

O discurso de Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, no Simpósio Econômico de Jackson Hole no mês passado, foi o mais próximo de um hino da vitória que um banqueiro central sensato poderia proferir. “A inflação caiu significativamente”, observou ele. “O mercado de trabalho não está mais superaquecido e as condições agora são menos apertadas do que aquelas que prevaleciam antes da pandemia. As restrições de oferta se normalizaram”. Ele acrescentou que “com uma redução apropriada da contenção política, há bons motivos para pensar que a economia retornará a uma inflação de 2%, mantendo ao mesmo tempo um mercado de trabalho forte”. Tempos felizes, portanto!

Vinicius Torres Freire – Motivos do PIB melhor, na visão do governo

Folha de S. Paulo

Subestima-se efeito de certo gasto público, por exemplo, diz secretário da Fazenda

Desde fins de 2020, as previsões de crescimento da economia têm subestimado a variação que viria a ocorrer de fato no PIB. A previsão era de alta de 0,36% do PIB em 2022; o crescimento foi de 3% (consideradas as previsões de economistas do setor privado, feitas na última semana do ano anterior e compiladas no Boletim Focus, do Banco Central). Para 2023, previsão de 0,8%, alta de 2,9%. Para este 2024, previsão de 1,5% —o PIB deve crescer mais de 2,5%.

Muito importante é saber se, ou em quanto, o erro de previsão está relacionado a erros de diagnóstico sobre o funcionamento da economia e do efeito de políticas econômicas ou sobre problemas e potencial produtivo do país. Por que o erro tem sido notável? Guilherme Mello, secretário de Política Econômica do ministério da Fazenda, tem o que ele mesmo chama, por ora, de "hipóteses".

Zeina Latif - Celebração incompleta

O Globo

Desempenho da economia vem surpreendendo positivamente, mas expansão de gastos públicos traz preocupação

desempenho da economia vem surpreendendo positivamente desde 2021, depois de muitos anos de decepção. É o que mostram as discrepâncias entre as projeções dos analistas para o PIB a cada início de ano e os resultados efetivos.

Com o crescimento de 1,9% no primeiro semestre deste ano em relação ao semestre anterior, descontada a sazonalidade, a história se repete agora. Mantido o atual patamar do PIB no segundo semestre (variando apenas conforme o padrão sazonal), a alta de 2,5% em 2024 já estará garantida, ante projeção de 1,5% ao final de 2023.

Outra boa notícia é o crescimento mais disseminado entre setores e regiões do país nos últimos anos, além da queda do desemprego. Os vários vagões da locomotiva estão em movimento.

Sergio Lamucci - PIB acelera, com crescimento forte de investimento e consumo das famílias e do governo

Valor Econômico

Expansão de 3% no ano ganha força, ao mesmo tempo que eleva chance de alta dos juros

O ritmo de crescimento da economia brasileira acelerou no segundo trimestre de 2024, com expansão de 1,4% sobre o trimestre anterior, feito o ajuste sazonal. É uma taxa mais alta que o 1% registrado de janeiro a março, equivalendo a quase 6% em termos anualizados, a maior desde os 3,7% do quarto trimestre de 2020.

Pelo lado da demanda, os destaques foram o investimento, o consumo das famílias e também o consumo do governo. Pelo lado da oferta, a indústria e os serviços puxaram o avanço do PIB.

A atividade avança num cenário marcado por um mercado de trabalho forte, com grande impulso fiscal, especialmente por meio de transferências de renda, e pela retomada do crédito. Os efeitos das chuvas no Rio Grande do Sul, em maio, não tiraram o dinamismo da economia no período.

José Ronaldo de C. Souza Jr. - Crescimento acima do potencial, riscos e perspectivas

Valor Econômico

Apesar do crescimento recente, investimento ainda está apenas retornando aos valores observados no final de 2022, com taxas que permanecem abaixo de 17% do PIB

Nos últimos anos, o desempenho do PIB brasileiro tem surpreendido positivamente. Em 2023, o crescimento foi impulsionado não apenas pelo setor agropecuário, que se recuperou de uma safra perdida no ano anterior, mas também por uma combinação de fatores que estimularam a demanda. Ainda assim, esse crescimento acima do esperado não garante que continuaremos a ter surpresas positivas em relação às projeções de crescimento nos próximos anos.

Em contraste, o cenário para os investimentos tem sido mais desafiador. Após uma queda de 3% em 2023, o primeiro semestre de 2024 trouxe sinais de recuperação. No entanto, apesar dessa recente alta, o nível de investimento ainda está apenas retornando aos valores observados no final de 2022 e a taxa de investimento permanece abaixo de 17% do PIB. O crescimento recente é um alento, mas o caminho para alcançar níveis de investimento que possam impulsionar de forma consistente o crescimento da capacidade produtiva ainda é longo.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Eleição traz para o cenário cidadãos tidos como residuais

A cada eleição, categorias sociais ignoradas   emergem da invisibilidade, assumindo seu lugar na sociedade brasileira reconhecidamente multiétnico e pluricultural. Mulheres, negros, deficientes, índios e representantes das novas gerações tecnologizadas e conectadas, promovem um    "rapa" pantagruélico nas pretensões políticas, inconfessas, das elites nacionais, hegemônicas. Só mesmo um Antonio Gramsci para explicar o fenômeno.

 A Resolução 23.724-23, do Tribunal Superior Eleitoral, instituiu um regime de quotas para concursos públicos, que se estende, vagarosamente, para os   direitos de representação política de cidadãos tratados   como resíduos identitários. Eles começam a sair da obscuridade reprimida para dar voz e cidadania a seus povos. 

Livro de Antonio Segatto


Poesia | Minha Terra, de Ascenso Ferreira por Chico Anysio

 

Música | Velho Ateu (Regina Benedetti e Eduardo Gudin)

 

terça-feira, 3 de setembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brecha para excluir terceirizados da LRF cria ameaça fiscal

O Globo

Senado precisa barrar projeto aprovado na Câmara que cria exceção na lei para facilitar contratações

A Câmara aprovou na semana passada um projeto que muda a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para excluir dos limites dos gastos com pessoal as despesas com o pagamento de funcionários terceirizados. A proposta, que será ainda submetida ao Senado, cria no Orçamento a rubrica “Outras despesas com pessoal”, em que abriga uma espécie de folha de pagamentos paralela. O risco de descontrole fiscal é evidente, por isso os senadores precisam derrubá-la.

A mobilização política no Congresso para facilitar a contratação de terceirizados coincide com o início do entendimento entre estados e União para renegociar dívidas. Caso o Projeto de Lei seja aprovado no Senado, as despesas com pessoal tenderão a crescer, pondo em risco, além do equilíbrio fiscal, a própria operação de socorro financeiro.

As despesas de União, estados e municípios com a folha dos servidores estão na faixa dos 9% do PIB, acima do que gastam Peru (6,2%), Chile (6,8%) e países ricos como Alemanha (5,9%), França (8%) ou Reino Unido (7,3%). A LRF estabelece que os gastos com salários não podem ultrapassar 50% da receita corrente líquida federal e 60% da estadual ou municipal. Essas barreiras de contenção serão demolidas se o projeto for aprovado pelo Senado.

Míriam Leitão - Os ruídos em torno da transição no BC

O Globo

A cada declaração de diretores do Banco Central, o mercado tenta comprovar sua tese de divisão no colegiado. Com isso, juros e dólar futuro oscilam

Há um fato afetando preços no mercado financeiro, principalmente nos juros futuros, que é artificial, gerado por interpretações. Não há conflito nem duplo comando no Banco Central. O presidente atual, Roberto Campos Neto, é quem comandará as próximas três reuniões e, apesar de muitos analistas terem visto uma posição branda de Campos Neto e outra mais dura de Gabriel Galípolo, eles têm dito a mesma coisa. Não haverá pré-indicação do que acontecerá em setembro, nem nas reuniões seguintes. Portanto, sem forward guidance.

Merval Pereira - Direitos ameaçados

O Globo

Várias empresas já procuraram ministros alegando haver ordens que aparentemente não se justificam e que não recebem as explicações legais para o desligamento compulsório das contas.

Sem entrar diretamente na questão envolvendo a rede social X, do multibilionário Elon Musk, e o relator dos relatores do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, há uma preocupação real dos ministros com o potencial de influência que as redes, não apenas o antigo Twitter, têm sobre os cidadãos, sem que haja regulamentação que limite suas atividades.

A ministra Cármen Lúcia, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), lançou ontem seu livro “Direitos de/para todos” na Academia Brasileira de Letras (ABL). O livro é uma visão humanista, quase poética, sem juridiquês, da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU. Como Austregésilo de Athayde, presidente da ABL durante 34 anos, foi o brasileiro que participou da redação do documento, o lançamento não poderia ter sido em local mais apropriado. Inevitavelmente, a ministra, uma defensora da liberdade de expressão, falou sobre a questão atual, mostrando que estudos de neurociência revelam que há quatro “vês” que marcam a atuação das redes sociais: velocidade, verossimilhança, volume e viralização.

Pedro Doria - O espírito da democracia

O Globo

No momento em que Elon Musk escolheu parar de acatar decisões judiciais, plataforma não poderia mais operar no país

A decisão de fechar o X é uma tragédia. Vinte milhões de brasileiros com contas ativas na plataforma foram privados do espaço onde discutiam regularmente sobre toda sorte de assunto. Tecnologia, ciência, celebridades, futebol e, sim, política. Quando uma democracia cassa o direito de 10% da sociedade conversar no ambiente que escolhe, três liberdades essenciais, cláusulas pétreas da Constituição, são extirpadas: o direito à livre expressão, à livre associação e, se considerarmos que o ambiente digital é um espaço real, a ir e vir. A decisão do ministro Alexandre de Moraes, ratificada pela Primeira Turma do STF, era esperada. Nem por isso é menos grave.

Eliane Cantanhêde - Deboche de um lado, teimosia do outro

O Estado de S. Paulo

Com excessos, STF contribui para confundir o que é patriotismo, democracia e liberdade de expressão

Ao apoiarem por unanimidade a suspensão do X (ex-Twitter), os cinco ministros da Primeira Turma do STF rechaçaram energicamente o descumprimento de decisões judiciais por Elon Musk, mas... houve ressalvas às decisões do relator Alexandre de Moraes e sinais favoráveis a negociações tanto com X quanto com a Starlink, outra empresa do grupo, buscando saídas para o impasse.

Assim, o julgamento reforçou a união do Supremo contra ataques externos, mas deixou no ar o incômodo de parte dos ministros com a teimosia de Moraes, que, segundo um colega, “não gosta de ser controlado, mas quer controlar todo mundo” e tem imensa dificuldade para recuar, mesmo quando extrapola e enfraquece a imagem do STF.

Carlos Andreazza - Barroso indeterminado

O Estado de S. Paulo

A jurisdição xandônica surge do inquérito das Fake News, onipresente e infinito. Tudo bem para Barroso

 Luís Roberto Barroso deu entrevista à Folha. Aula de indeterminação, ou não teria meios de defender-avalizar o colega. Informou-nos de que “vazamento é vazamento”. Não é, não. Alexandre de Moraes não “está investigando um vazamento” – não um de que se possa omitir o complemento. Está investigando o vazamento de mensagens em que assessores seus articulam como esquentar ordens suas, instrumentalizado o poder de polícia do TSE. O vazamento de mensagens em que é a voz – o delegado – que se ocultava, em proteção ao juiz-total. Ele, Moraes.

Luiz Gonzaga Belluzzo - Linguagem e economia

Valor Econômico

Linguagem dos mercados financeiros contemporâneos não descreve e muito menos “analisa objetivamente” um determinado estado de coisas, mas produz imediatamente significados “reais”

No livro “Power”, publicado em 1938, o filósofo e matemático Bertrand Russel observou: “A economia como uma ciência separada é irrealista e enganosa, se tomada como um guia na prática. É um elemento - um elemento muito importante, é verdade - de um estudo mais amplo, a ciência do poder”.

Entre os poderes da economia, brilha de forma intensa o Poder Performático da Linguagem. Apoiado no linguista John Austen, Christian Marazzi em seu livro “Capitale e Linguaggio” cuida das marchas e contramarchas da finança dos últimos 40 anos. Marazzi sublinha a natureza performativa da linguagem do dinheiro e dos mercados financeiros, indicando que a linguagem dos mercados financeiros contemporâneos não descreve e muito menos “analisa objetivamente” um determinado estado de coisas, mas produz imediatamente significados “reais”.

Bertrand Benoit - Populismo cresce na Europa também pela falta de confiança nos governos

Dow Jones / Valor Econômico

Pesquisadores e analistas acreditam que um dos principais motivadores subjacentes para os eleitores é a diminuição da confiança nos seus governos

populismo antiestablishment está em ascensão na Europa, alimentando não só pela migração e temores com economia e segurança, mas também por uma tendência mais profunda: a corrosão da confiança na capacidade dos governos de superar esses desafios.

Na Alemanha, no domingo, a Alternativa para a Alemanha (AfD), o partido de extrema direita, e um novo partido populista de extrema esquerda obtiveram quase metade dos votos no Estado da Turíngia, e juntos também conseguiram mais de 40% na vizinha Saxônia. Na Turíngia, o AfD terminou em primeiro lugar, na primeira vez que um movimento de extrema direita vence uma eleição estadual na Alemanha desde a Segunda Guerra.

Na França, uma eleição legislativa que resultou em um parlamento sem maioria absoluta e deu ao Reunião Nacional, de extrema direita, quase um quarto de todas as cadeiras — um aumento de mais de 50% em relação à última eleição — e ainda não produziu um governo dois meses depois.

Uma série de crises que vão da imigração à inflação e a guerra na Ucrânia, ajudou os populistas a obter vitórias eleitorais na Itália, Holanda, Suécia e Finlândia nos últimos anos. Para alguns pesquisadores e analistas, no entanto, crises não são novidade. O que há de novo é a confiança cada vez menor dos eleitores de que os governos eleitos podem resolver essas crises.

Maria Cristina Fernandes - Entre STF e Starlink, disputa sobe de patamar

Valor Econômico

Moraes vai precisar desse respaldo da Primeira Turma numa decisão que agora atinge o setor real da economia e da vida das pessoas

A recusa da Starlink em cumprir a determinação do Supremo Tribunal Federal de bloquear o acesso de seus usuários ao X mostrou que o fio puxado pelo ministro Alexandre de Moraes era do bigode de um elefante. Ao contrário do X, que nem publicidade mais dispõe, a Starlink tem 224 mil contratos - desde navios da Marinha na Antártica a cidades-símbolo do agronegócio (Sinop-MT) ou turismo (Fernando de Noronha-PE).

A unanimidade de Moraes na Primeira Turma respalda a decisão do ministro mas não conduz ao bloqueio da empresa. Se concorrentes do X, como Bluesky ou Threads, já se arvoram a conquistar ex-tuiteiros, a substituição da empresa que lidera a banda larga por satélite no país, com 42% do mercado, não se faz em dois cliques.

A disputa é gigante mas paquidérmica. A recusa da Starlink foi comunicada por WhatsApp ao presidente da Anatel, Carlos Baigorri, que tem até a sexta-feira para receber a notificação formal da recusa ou verificar, in loco, o descumprimento. Só então fará a comunicação oficial ao STF que, por enquanto, bloqueou as contas, mas não a operação.

Gideon Rachman - Elon Musk é um míssil geopolítico descontrolado

Financial Times / Valor Econômico

Apesar de toda sua riqueza e inegável brilhantismo como engenheiro e empreendedor, Musk continuará sujeito à lei dos países nos quais opera. Isso explica a crescente fúria de seus ataques verbais contra o Brasil e qualquer outro que ouse ficar em seu caminho.

Grandes empresas e bilionários costumam ficar loge de controvérsias políticas. Se exercem o poder, preferem fazê-lo nas sombras. Elon Musk é diferente.

Nas últimas semanas, ele manifestou seu apoio a Donald Trump e fez uma entrevista em tom amigável com o ex-presidente dos EUA no X, a plataforma de relacionamento social on-line pertencente a Musk. Também está envolvido em uma briga pública com o Supremo Tribunal Federal do Brasil, que na semana passada suspendeu o X. Recentemente, ele sustentou que uma guerra civil no Reino Unido é inevitável e reagiu à prisão de Pavel Durov na França com a seguinte publicação: “POV [ponto de vista]: É 2030 na Europa e você está sendo executado por curtir um meme”.

Luiz Carlos Azedo - Turma do Supremo endossa medidas contra Musk

Correio Braziliense

O referendo ocorreu em sessão extraordinária virtual nesta segunda-feira, por unanimidade. No julgamento, Moraes disse que tomou a decisão depois de realizar todos os esforços possíveis para que as ordens judiciais fossem cumpridas pelo X

A 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou decisão do ministro Alexandre de Moraes que suspendeu a plataforma X, antigo Twitter, em todo o território nacional. O referendo ocorreu em sessão extraordinária virtual nesta segunda-feira, por unanimidade. No julgamento, Moraes disse que tomou a decisão depois de realizar todos os esforços possíveis para que as ordens judiciais fossem cumpridas pelo X, como o pagamento das multas.

Joel Pinheiro da Fonseca - O Supremo mina sua legitimidade

Folha de S. Paulo

Um ministro julga ser a própria lei, e o povo paga a conta do cabo de guerra

Aconteceu. Desde a meia-noite de domingo eu e milhões de brasileiros perdemos acesso à rede X. Não havia lugar melhor para sentir o pulso instantâneo do debate público e ver as reações imediatas de todos os lados. O povo pagou a conta de um cabo de guerra entre um bilionário megalomaníaco que se julga acima da lei brasileira e um ministro do Supremo que julga ser a própria lei.

Esse desfecho era juridicamente inevitável dado o passo imediatamente anterior: a desobediência reiterada de decisões judiciais, o não pagamento das multas e o fim de qualquer representação no país.

Alvaro Costa e Silva - Quem 'vai de arrasta', Moraes ou Musk?

Folha de S. Paulo

Armadilha do bilionário é fabricar uma convulsão política em cima do ministro

Foi divertido acompanhar a expectativa que antecedeu a suspensão do Twitter dentro das redes sociais —e principalmente dentro do próprio Twitter. A zoeira, que antes da invasão de comentários, mentiras e ódios relacionados à política era a atividade preferida dos usuários, voltou com tudo, enchendo de graça o momento que muita gente considera uma tragédia sem precedentes, algo como a destruição da biblioteca de Alexandria, durante séculos o maior provedor de conteúdo do mundo antigo.

Dora Kramer - Queridos zeladores

Folha de S. Paulo

Para o eleitor municipal vale mais a zeladoria das cidades que a guerra ideológica

eleição em São Paulo galvaniza atenções porque mobiliza emoções políticas. Fator importante, senão crucial, nas disputas nacionais. Ambiente que a Luiz Inácio da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) interessa atrair para o âmbito municipal.

Ou melhor, interessava ao menos no caso de Lula. Na semana passada, deu um passo atrás em entrevista a uma rádio da Paraíba: disse que pretende reduzir sua participação em campanhas devido à pesada agenda presidencial.

O recuo tático em relação à ideia de que a disputa de 2024 deveria ser vista como uma prévia de 2026 provavelmente se deu em função das pesquisas. Elas indicam baixa adesão do eleitorado aos ditames dos padrinhos de candidatos que também atraem rejeição.

Cláudio Carraly - Reforma do Conselho de Segurança da ONU: Adaptação às Demandas Globais

O Conselho de Segurança das Nações Unidas, estabelecido em 1945 após os horrores da Segunda Guerra Mundial, emergiu como uma instituição central na promoção da estabilidade e paz internacionais. Composto por cinco membros permanentes - Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China - e dez membros não permanentes, o Conselho foi encarregado da responsabilidade vital de zelar pela paz e segurança globais. No entanto, ao longo dos anos, a estrutura do Conselho tem sido desafiada pela evolução do cenário geopolítico e pelas demandas emergentes do século XXI.

À medida que avançamos, o Conselho de Segurança enfrenta uma série de desafios que destacam a inadequação de seu modelo atual. A ascensão de novos atores globais, incluindo economias emergentes e potências regionais, tem ampliado a disparidade entre a composição do Conselho e a distribuição real do poder. Países com influência significativa, mas não representados permanentemente, sentem-se sub-representados no órgão de decisão mais importante da ONU.

Além disso, a natureza dinâmica das ameaças à paz e à segurança internacional exigiu uma resposta mais ágil e flexível do Conselho. Questões como terrorismo, mudança climática, pandemias e conflitos internos demandam abordagens multifacetadas e soluções inovadoras, muitas vezes impossíveis dentro do atual quadro institucional do Conselho de Segurança. Por exemplo, a crise climática, que está se tornando cada vez mais urgente, requer a cooperação internacional em níveis sem precedentes, no entanto, o Conselho, com sua estrutura rígida, muitas vezes lutou para oferecer respostas eficazes e abrangentes a essas ameaças, sem obter sucesso.

Poesia | Leonardo Bigio - Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Moacyr Luz - Apoteose ao Samba / Meu Drama / Aquarela Brasileira

 

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Efeito fiscal de pente-fino em benefícios é incerto

O Globo

Revisão em pagamentos do INSS e no cadastro do BPC é positiva. Mas economias projetadas são otimistas

Ao anunciar o detalhamento dos R$ 25,9 bilhões de cortes que pretende implementar no Orçamento de 2025, o governo deu destaque aos gastos sociais. Do total, a estimativa é que R$ 6,4 bilhões venham do Benefício de Prestação Continuada (BPC), R$ 10,5 bilhões de benefícios do INSS (incluindo o auxílio-doença) e R$ 2,3 bilhões do Bolsa Família. Só nessas três rubricas, o governo acredita haver R$ 19,2 bilhões em pagamentos indevidos.

Ao todo, 5,9% dos gastos do governo em 2023 (ou R$ 261,6 bilhões) foram destinados a programas como Bolsa Família e BPC. Numa definição mais elástica de gastos sociais que inclui a Previdência, 16,7% do PIB — ou quase R$ 800 bilhões — tem por finalidade a proteção social.

Ana Luiza Albuquerque - No turbilhão do passado

Folha de S. Paulo

Estratégia usada pelo nazismo e fascismo italiano é reeditada no século 21 por movimentos populistas e pela ultradireita

[RESUMO] A fabricação do mito de um passado glorioso, estratégia utilizada nas experiências fascistas do século 20, é reeditada no século 21 pela extrema direita e pela direita populista, com o mesmo intuito de implementar valores reacionários e fustigar o modelo de Estado de Direito liberal. No Brasil, percebe-se isso no movimento bolsonarista e na construção de um passado compartilhado judaico-cristão.

"Ele é o leão da tribo de Judá", cantava a senhora com a mão direita ao alto e a mão esquerda no microfone. O animal aparecia no manto que ela carregava nos ombros, junto às bandeiras de Israel e do Brasil. "Oh, esperança de Israel", a mulher repetia, entoando os versos de uma canção carimbada nos cultos evangélicos.

Naquele domingo, a reunião não era religiosa. O canto da senhora enchia a esvaziada casa de eventos que abrigou a convenção municipal do PRTB em São Paulo, confirmando a pré-candidatura do influenciador, empresário e ex-coach Pablo Marçal à prefeitura da capital.

Sem o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Marçal ativou símbolos caros para a direita bolsonarista: Deus, família e os perigos do comunismo, das drogas e da "ideologia de gênero". Israel foi mais um deles.

Cinco meses antes, as bandeiras do país judaico haviam tomado as ruas da avenida Paulista, no centro da cidade, em manifestação em defesa de Bolsonaro. Do alto do carro de som, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) pregou que política e religião devem, sim, se misturar, e anunciou que o povo brasileiro é cristão.

Terminou seu discurso com um recado ao Senhor: "Que tua verdadeira shalom esteja dentro dos muros de Israel. Nós abençoamos o Brasil. Nós abençoamos Israel. Em nome de Jesus, amém".

Oswaldo E. do Amaral - Populistas em série

CartaCapital

As redes sociais continuarão a produzir clones de Pablo Marçal

No começo de fevereiro deste ano, prestei atenção em Pablo Marçal pela primeira vez. Como alguém com uso apenas profissional de redes sociais, não me recordava de ter visto seu rosto ou ouvido sua voz. Lembrava apenas vagamente de sua aventura eleitoral, frustrada pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2022.

Meu filho, um adolescente de 13 anos, foi o responsável pela apresentação por meio de um vídeo em que o agora candidato explicava como conseguiu salvar sua família de um desastre de helicóptero usando a sua mente. Depois disso, passei a acompanhar as notícias sobre ele, invariavelmente polêmicas, produzidas para o engajamento nas redes. Em abril, ele filiou-se ao PRTB, pequeno partido de direita. Estava claro que seria candidato e que tinha potencial para influenciar a disputa na cidade de São Paulo.

Marcus André Melo - O semipresidencialismo é terapia para o Brasil?

Folha de S. Paulo

São múltiplos os fatores que poderão restaurar um equilíbrio de presidente forte

Como analisei em detalhes aqui, as patologias que os defensores do semipresidencialismo identificam no nosso sistema político são:
1. crises de governabilidade quando presidentes perdem sustentação parlamentar;
2. ascensão de outsiders sem base partidária;
3. ingovernabilidade devido à irresponsabilidade fiscal legislativa;
4. perda de racionalidade das políticas públicas em virtude do neolocalismo legislativo; e
5. malaise política que resulta de acordos não programáticos.

Carlos Pereira - Janela de oportunidade perdida?

O Estado de S. Paulo

Constitucionalidade das emendas impositivas é o problema mais relevante a ser enfrentado

Existem várias abordagens dos problemas decorrentes das emendas dos parlamentares. Pode-se analisar sob a perspectiva do volume de recursos. Hoje representa cerca de 23% das despesas discricionárias, muito superior a países da OCDE onde as emendas raramente chegam a 1%.

Outra abordagem é interpretar o problema sob a perspectiva da baixa transparência na alocação dos recursos públicos, como fez o STF. Decidiu suspender a execução das emendas impositivas e das Pix até que Executivo e Legislativo apresentem proposta que as tornem transparentes, rastreáveis e fiscalizáveis pelos órgãos de controle.

Bruno Carazza - O PT conhece o eleitor de Marçal há anos e o ignorou

Valor Econômico

Pesquisas feitas por fundação do PT já captavam a receptividade do eleitorado ao discurso proferido por Pablo Marçal, mas pouca gente deu importância

A fora a decisão de Alexandre de Moraes de tirar o X-Twitter do ar, as conversas sobre política nas últimas semanas giram sobre um só personagem: Pablo Marçal.

Muito se tem falado de seus métodos (os legítimos e os ilegais) comerciais, de seu marketing digital aplicado à campanha eleitoral e de seu discurso teológico coach (como caracterizou a cientista política Ana Carolina Evangelista), mas pouco ainda se discute sobre o seu potencial eleitorado.

E o mais interessante é que os eleitores que aderem em velocidade estonteante a Marçal hoje (não só em São Paulo, mas no Brasil todo) já vêm sendo mapeados há anos pelo PT - embora ninguém tenha dado a importância devida a esse fenômeno.

Nas eleições municipais de 2016, o então prefeito, Fernando Haddad, mesmo apoiado por Lula e Dilma Rousseff, foi derrotado por João Doria no primeiro turno, com menos de um terço dos votos válidos (53,3% a 16,7%). O tucano venceu em todas as regiões da cidade, com a exceção de Parelheiros e Grajaú, em que a maioria dos eleitores preferiu Marta Suplicy (então no MDB).

Perplexo por ter perdido por larga margem até nos bairros mais pobres da cidade, onde tradicionalmente era muito bem votado, o PT resolveu investigar as causas do desempenho tão ruim. Especialistas contratados pela Fundação Perseu Abramo realizaram então uma série de entrevistas qualitativas entre novembro de 2016 e janeiro de 2017 para entender o que pensava o morador dessas regiões.

Sergio Lamucci - Expansão fiscal se combina ao mercado de trabalho aquecido

Valor Econômico

Conjuntura se diferencia não tanto pelo fiscal expansionista ou pelo mercado de trabalho forte, quanto pelo fato de ocorrerem em paralelo, diz Fernando Montero

A economia brasileira passa por um momento de expansionismo fiscal e aquecimento do mercado de trabalho, com alta expressiva do nível de ocupação e da renda. Esse cenário impulsiona a atividade econômica, levando os analistas a projetar um crescimento do PIB no segundo trimestre perto de 1% em relação ao primeiro e de 2,5% ou até mais neste ano [ler mais em PIB pode trazer nova surpresa positiva no 2º tri, estimam economistas). Essa combinação de impulso das contas públicas, especialmente por meio de transferências de renda, e robustez do mercado de trabalho deverá perder força mais à frente, o que obviamente terá efeito sobre o ritmo da economia. Reduzir incertezas, para ter uma cotação mais baixa do dólar e retomar a ancoragem das expectativas de inflação, é fundamental para que a política monetária não jogue com força contra a atividade, num momento em que o estímulo fiscal deverá perder o ímpeto e o emprego e a renda terão menor dinamismo.

L. C. Bresser-Pereira e Tiago Porto - Abrir mais uma porta já escancarada?

Valor Econômico

É falso que a indústria continua gostosamente protegida

Edmar Bacha, no Valor (17.07.2024), procurou explicar por que a indústria brasileira encolheu tanto no período 1995 a 2023. Disse que a literatura econômica oferece duas explicações para o problema: a desindustrialização precoce e a doença holandesa.

Ele curiosamente descarta a explicação da desindustrialização precoce no mundo rico, porque verificou que na OCDE, no curto período por ele escolhido, a desindustrialização foi muito pequena. Quanto ao Brasil, ele informa ter calculado que para cada 1 ponto percentual de desindustrialização na OECD ocorre uma desindustrialização de 1,6 ponto percentual no Brasil.

Aqui, portanto, ocorreu desindustrialização prematura, ainda que ele diga que “a tese da desindustrialização precoce não parece explicar grande coisa da desindustrialização brasileira”. Claro que não explica. No Brasil houve desindustrialização precoce, mas isto não é uma ‘causa’ do encolhimento da indústria; é a própria desindustrialização precoce que é o problema que precisa ser explicado, porque então estará explicado o encolhimento.

André Gustavo Stumpf - Festival de besteiras

Correio Braziliense

As eleições municipais tendem a reduzir a reduzida capacidade de os políticos se preocuparem com o país. É mais importante produzir frases de efeito, atacar o oponente e ter o cuidado de não fixar nenhuma promessa na mente do eleitor

Coivara: substantivo feminino, quantidade de ramagens a que se põe fogo nas roçadas para desembaraçar o terreno e adubá-lo com as cinzas, facilitando a cultura; fogueira. Os melhores dicionários explicam o que é coivara. O hábito de limpar o terreno com fogo é muito antigo e tradicional no Brasil. Os índios faziam, e ainda fazem isso, nas suas áreas para afastar bichos e limpar o terreno. Os fazendeiros praticam. Além disso, há quem coloque fogo no mato para proteger a propriedade. É o fogo contra fogo, entre um e outro, constrói-se um acero — área capinada de três ou quatro metros de largura para impedir a progressão do incêndio. 

Fernando Gabeira - Queimar neurônios para deter o fogo

O Globo

Seca prolongada favorece os incêndios. É preciso remover do solo o que pudermos de material combustível

Grande parte do Brasil arde em chamas. Brasília amanhece enfumaçada, suas claras manhãs ficam cinzentas. Na cantina da Câmara, em torno de cestas de pão de queijo, deputados mal notaram as mudanças no céu do Planalto Central. Falam do Supremo:

— O STF nos sacaneou proibindo emendas Pix. Vamos sacaneá-los também, acabar com isso de decisões monocráticas. Vamos criar uma lei que nos permita dar a palavra final sobre o que decidem. Não é constitucional? Rui Barbosa já foi contra um dia? Foda-se o Rui. Temos voto; isso é o que importa.

A fumaça vem de São Paulo, talvez Minas, de Mato Grosso, onde queimam ao mesmo tempo pedaços de três biomas: Cerrado, Pantanal e Amazônia.

O deputado mantém o pão de queijo entre os dedos e diz em voz alta:

— Vamos cozinhar essas votações em banho-maria. Esse projeto na pauta, punição de devedor contumaz, faremos com ele o que fazem os devedores: empurrar com a barriga.

Preto Zezé - A Zona Franca das Favelas

O Globo

Vamos buscar incentivos para que os negócios desses territórios ganhem voo próprio e ocupem o espaço de protagonismo

Recentemente, na sede da ApexBrasil, estive com o CEO e criador da Favela Holding, a primeira do gênero, que reúne um ecossistema de 27 empresas atuando e desenvolvendo inovação e impacto social e econômico exclusivamente em favelas. A ApexBrasil é a agência responsável por promover os negócios do Brasil no exterior e tem escritórios nos países com as maiores economias do mundo. Como incentivadora de empreendimentos brasileiros, agora volta seu olhar de maneira diferenciada para as favelas.

Numa conversa com o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, foram apresentadas iniciativas que já existem e estão em pleno funcionamento, movimentando a economia e demonstrando a capacidade de inovação das favelas e sua pujança. As favelas brasileiras, para além das notícias trágicas e diagnósticos negativos, produzem R$ 212 bilhões em poder de consumo. Isso reflete a capacidade de gerar riquezas, superando o PIB de alguns países.