Há um ano, fui surpreendido pela publicação,
em uma plataforma digital, de carta do Presidente Donald Trump que impunha
tarifa de 50% a produtos brasileiros. A menção, logo no primeiro parágrafo, ao
ex-presidente Jair Bolsonaro — condenado no ano passado e hoje preso por
tentativa de golpe de Estado no Brasil — deixava explícita a motivação política
da medida.
Nos diálogos que mantive com Trump desde
então ressaltei que não é necessário compartilhar as mesmas visões de mundo
para buscar relação mutuamente benéfica entre nossos países. Afinal, somos
líderes das duas maiores democracias e economias das Américas. Negociações
entre nós e decisões da Suprema Corte dos EUA desmontaram a primeira versão do
tarifaço.
Mas este mês, desconsiderando dezenas de reuniões entre nossas equipes, sólidos argumentos técnicos e documentos que entreguei pessoalmente ao próprio Trump, o governo norte-americano decidiu adotar novas tarifas contra o Brasil que vão de 12,5% a 37,5%. Como resultado, a Global Trade Alert, organização independente baseada na Suíça, estima que o Brasil e a Turquia são hoje os segundos países mais tarifados pelos Estados Unidos, depois apenas da China. E isso apesar do superávit norte-americano no comércio bilateral de bens e serviços, que ao longo de quinze anos consecutivos acumula 428 bilhões de dólares.
Além de injustas, as novas tarifas são um
erro estratégico: elas prejudicam a economia dos Estados Unidos e a parceria
com o Brasil. Diversos segmentos industriais dos Estados Unidos dependem de
insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças e vários
outros produtos chegarão mais caros ao consumidor norte-americano. As
exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para o menor patamar
desde 1997.
Na comparação entre os primeiros 6 meses de
2025 e 2026, o comércio bilateral com os EUA recuou 12,8%, enquanto o comércio
com a União Europeia cresceu 6,1% e com a China aumentou 15,9%. No médio prazo,
essas tarifas vão levar à desorganização de cadeias produtivas que hoje se
encontram densamente integradas e as empresas brasileiras vão substituir
fornecedores norte-americanos por outros parceiros. Isso diz muito da
inconsistência entre os interesses dos EUA anunciados em sua estratégia de
segurança nacional e as políticas que adota em relação ao Hemisfério Ocidental.
A América Latina e o Caribe não precisam de
porta-aviões rondando suas águas nem de punições tarifárias. O que nos falta
são parceiros confiáveis e previsíveis. Neste momento em que os EUA isolam seu
mercado, outros países se apresentam como alternativas, oferecendo uma agenda
positiva, capaz de fomentar o desenvolvimento econômico e social.
Estou convicto de que a união de esforços em
torno de iniciativas concretas de investimento, comércio e combate ao crime
organizado é o caminho a seguir para superar as mazelas que afligem um
hemisfério que é de todos nós.
A divisão do mundo em zonas de influência e
investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos
e retrocessos. Apesar da longa história de intervenções políticas e militares
dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, houve momentos em que
Washington soube ser um parceiro à altura de nossos interesses de
desenvolvimento.
O Presidente Franklin D. Roosevelt
implementou uma política de Boa Vizinhança que tinha como objetivo substituir o
uso da força pela diplomacia em sua política externa para a região. Essa postura
contribuiu de forma decisiva com os primórdios da industrialização no Brasil. O
presidente George W. Bush, ao enfrentar a crise financeira de 2008, incluiu 3
países latino-americanos na primeira reunião de líderes do G20.
Para o Brasil, a única guerra que precisamos
travar nesta parte do mundo é contra a fome, a pobreza e a desigualdade. E as
únicas armas a empregar são as dos investimentos, da transferência de
tecnologia e do comércio justo e equilibrado. Tentativas de impor amarras
ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins
eleitorais, não se sustentam.
Nunca antes um secretário de Estado
norte-americano havia qualificado o Brasil como um país não-amigo. Ninguém vai
nos derrotar com base em mentiras. As alegações do Presidente Trump contra o
Brasil, na tentativa de justificar as tarifas, são infundadas. A liberdade de
expressão não é carta branca para a criminalidade nas plataformas de redes
digitais — não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças
contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas.
Nosso sistema de pagamentos, o Pix, não
discrimina empresas norte-americanas e é uma referência internacional de
infraestrutura pública digital. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023,
combatemos de forma incisiva os ilícitos ambientais e reduzimos drasticamente o
desmatamento em todos os biomas brasileiros.
Respeitamos a soberania de outros Estados e
negociamos com todos aqueles que saibam respeitar a nossa. A reciprocidade é a
base de toda relação entre nações e temos mecanismos apropriados para
assegurá-la. Estamos prontos a continuar dialogando de maneira aberta e
construtiva, como o relacionamento entre dois países como o Brasil e os Estados
Unidos requer. Mas o destino do Brasil compete apenas aos brasileiros, sem
interferência externa, nem subserviência.
*Presidente do Brasil

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