Folha de S. Paulo
O mês de julho tem se mostrado um período de
tomada de decisões importantes para a reparação histórica e a preservação da
memória da escravização no Brasil
Cento de Interpretação e Memória Africana no
Complexo do Valongo deverá promover um encontro do Brasil com um passado que
precisa ser lembrado e jamais reprisado
Para além da mobilização política em torno da luta das mulheres negras contra o racismo e o sexismo, o destino tem feito do sétimo mês do ano um período de tomada de decisões importantes para a reparação histórica e a preservação da memória da escravização no Brasil.
Em julho de 1978, nascia o Movimento
Negro Unificado num ato público nas escadarias do Theatro
Municipal de São Paulo. Em 2017, foi em julho que a Unesco reconheceu
o sítio arqueológico Cais do
Valongo, no Rio de Janeiro, como Patrimônio Mundial.
Mais que mera decisão burocrática de gestão
orçamentária, a reestruturação do prédio representa uma vitória política dos
movimentos sociais e um avanço na luta pelo resgate e a preservação da memória
histórica nacional.
Construída pelo engenheiro e abolicionista
negro André
Rebouças, foi a primeira obra pública do país sem o uso de mão de
obra escravizada, num tempo em que a escravização era o meio de produção
dominante.
Agora o local que presenciou o encontro de
muitas Áfricas por reunir africanos de diferentes regiões daquele continente
irá abrigar o Centro de Interpretação da Memória Africana no Complexo do
Valongo. Será um espaço de visitação, ensino, pesquisa e afirmação política e
cultural da herança africana.
O Valongo, para quem ainda não sabe, foi a
principal porta de entrada de africanos escravizados nas Américas. Trata-se do
único local do país reconhecido internacionalmente como lugar de memória
do tráfico
transatlântico de escravizados e da resistência da população
negra diante da violência e da exclusão causadas pela escravização e pelo
racismo.
A região conhecida como Pequena
África está prestes a se tornar um espaço de encontro do Brasil
com um capítulo da história que precisa ser conhecido, lembrado e jamais reprisado.

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