O Globo
A ameaça à soberania brasileira é uma questão
brasileira, na qual o Estado falha em larga escala
Sim, há ameaças à soberania do Estado
brasileiro. Mas não vêm dos Estados Unidos. Estão aqui mesmo, escancaradas. São
aqueles locais onde o Estado não entra e a lei não vale.
Todo mundo sabe onde estão: nas comunidades,
bairros e regiões controlados pelas facções do crime organizado. O caso mais
evidente é do Rio de Janeiro.
Mas na vasta e longínqua Amazônia, nem se pode dizer que a soberania do Estado está ameaçada. Já foi perdida para traficantes de cocaína e quadrilhas de garimpeiros. Conseguem despachar seu “produto” de lá até os principais portos brasileiros, burlando (ou corrompendo) diversas polícias estaduais e federais.
O presidente Lula e seus assessores
manifestaram preocupação com a decisão do governo americano de considerar as
facções brasileiras como organizações terroristas. Dizem que isso cria
condições para intervenção militar dos Estados Unidos.
Admitamos que, para fins políticos e
eleitorais, isso faça sentido. Abre espaço para discursos nacionalistas, de
defesa da pátria contra o agressor estrangeiro: “Aqui ninguém entra!”.
Mas vamos falar francamente. Tropas
americanas desembarcando no Morro do Alemão? Ou tentando ocupar uma vasta e
desconhecida Amazônia? Já pensaram na quantidade de tropas e equipamentos
necessários para esse tipo de aventura?
Está certo que Trump não é dado ao pensamento
rigoroso, mas certamente não é louco. E já está atolado no Oriente Médio. Por
que se meteria logo com o Brasil, o maior país da América Latina? Com todo o
respeito, há alvos muito mais fáceis, não é mesmo?
Eliminado o argumento do inimigo externo,
caímos na real: a ameaça à soberania brasileira é uma questão brasileira, na
qual o Estado falha em larga escala.
As facções criminosas obviamente não são
terroristas, pelo menos não no sentido clássico. Não têm uma ideologia, nem se
propõem a conquistar o governo.
Agem por dinheiro, claro, mas isso não as
torna menos perigosas ou menos desestabilizadoras. O problema hoje é até mais
complexo do que nos territórios ocupados no Rio de Janeiro. As facções se
espalharam pelo país, infiltrando-se na economia e na política, aproveitando-se
do ambiente de corrupção. Não conquistaram o governo, mas exercem, sim, um tipo
de poder.
São, portanto, problemas relacionados: a
ameaça local à soberania e a corrupção. Daniel Vorcaro não agia como um líder
do PCC. Não ocupava territórios, não mandava matar adversários ou policiais,
não traficava drogas. Tinha lá seus capangas, ameaçou jornalistas, o que foi
muito grave, mas não comparável à violência das facções. Os objetivos,
entretanto, eram os mesmos: esquemas ilegais para ganhar dinheiro. Alguns meios
também coincidiam, como a montagem de redes de proteção em diversas instâncias
do Estado.
Pode parecer a alguns que estamos exagerando.
Mas as operações da parte sadia da polícia, do Ministério Público e do
Judiciário revelaram o grau de infiltração do crime nas instituições nacionais.
Pesquisas mostram que a população coloca a
segurança entre suas principais preocupações. Isso, de um lado, resulta da
sensação de insegurança nas ruas. De outro, decorre do conhecimento do grau de
corrupção revelado pela imprensa. E, em terceiro lugar, da percepção da
impunidade.
Não é de estranhar que pesquisas mostrem
também a falta de confiança da população nas instituições do Estado —
Executivo, Legislativo e Judiciário. Certamente está aqui a questão mais grave.
Mas por que estamos falando disso num momento
em que o país é alvo dos tarifaços de Trump?
Porque isso de tarifaço não é só com a gente,
nem especialmente com a gente. Vale para todos os países que negociam com os
Estados Unidos — ou seja, o mundo todo. E neste, o alvo preferencial de Trump é
a China, a única potência que pode de algum modo incomodar o domínio dos
Estados Unidos.
Há saídas para o tarifaço. Mas não se vê o
caminho para a recuperação da soberania local e o combate eficaz contra a
corrupção. Dizia-se que a corrupção é uma questão moral. E é. Mas, no Brasil de
hoje, é mais um desafio político, econômico e social.

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