segunda-feira, 27 de julho de 2026

Por uma nova direita, por Denis Lerrer Rosenfield*

O Estado de S. Paulo

Urge que uma nova direita se apresente ao País, com contornos claros e isenta dos problemas que têm surgido em sua encarnação pela família Bolsonaro

Urge que uma nova direita se apresente ao País, com contornos claros e isenta dos problemas que têm surgido em sua encarnação pela família Bolsonaro. Liberal ou conservadora ou mesmo uma mescla dos dois, ela não pode permanecer apenas tributária do antipetismo ou das vicissitudes erráticas do bolsonarismo em geral. Tudo indica, aliás, que o potencial eleitoral deste último está se esgotando, não sendo uma alternativa viável ao governo Lula. Suas fórmulas só capturam a adesão dos convertidos. O Brasil precisa de algo novo.

A esquerda lulo-petista já deu o que tinha de dar. Governa o País há mais de 18 anos e sempre atribui aos outros os seus fracassos ou o que não consegue fazer.

O País só cresce moderadamente, o problema fiscal e da dívida pública está ganhando contornos dramáticos, a inflação é controlada com dificuldades e os juros altos estão asfixiando a economia brasileira. O que não entrega, porém, para o bem do País, esbanja em discursos de cunho eleitoral, ancorados em uma polarização nociva, como se o nosso destino se jogasse no “nós contra eles”, como se fossem os petistas a incorporação do bem em sua cruzada contra o mal: a direita.

Dito isto, as chances de reeleição do atual presidente são fortes, não apenas por gastos bilionários para a captura de eleitores, criando nichos específicos de uma clientela própria, como a do Bolsa Família e a de outros projetos assistencialistas, mas, sobretudo, pela ausência de alternativas. O candidato de oposição mais forte, Flávio Bolsonaro, devido ao seu próprio comportamento, já se encontra em clara desvantagem em pesquisas eleitorais, tendo perdido o seu ímpeto inicial. Não está conseguindo recuperar as intenções de voto perdidas. E isso por razões que se devem única e exclusivamente a ele.

Suas relações com Daniel Vorcaro são simplesmente escandalosas, avaliadas em milhões, com desculpas que não se sustentam em pé. Nem seu partido consegue mais seguilo integralmente. Suas relações conflituosas com sua madrasta Michelle Bolsonaro vieram a público e escancararam uma disputa aparentemente sem solução.

Em vez de evitar que isso acontecesse, terminou por radicalizar e enfrentá-la, alienando, assim, um eleitorado feminino e evangélico vital para sua ambição eleitoral. Como se não bastasse, surge uma foto sua com Sicário, um meliante a serviço das atividades criminosas de Daniel Vorcaro. Além disso, volta a “questionar” as urnas eletrônicas. E não estamos livres de novas surpresas.

Tudo sinaliza para a sua derrota, o antipetismo não sendo um instrumento suficiente para uma eventual vitória sua. Acontece, e aí está o problema, que a família Bolsonaro não abdica de um controle total sobre a herança eleitoral do ex-presidente.

Tudo, segundo eles, deve se resolver dentro do clã, de sangue, excluindo, então, Michelle Bolsonaro como se não fosse família, apenas “esposa”. O despropósito é total. E nenhum de seus membros tem a estatura requerida para uma candidatura presidencial. Entretanto, convém assinalar, o cálculo bolsonarista é extremamente arriscado, pois se perseverar nessa atitude, o clã amargará uma derrota eleitoral, que afetará diretamente a própria família. Flávio Bolsonaro ficará sem mandato e Jair Bolsonaro continuará na prisão por tempo indeterminado. O bom senso reclamaria uma composição com outros candidatos de direita, renunciando à cabeça de chapa.

O bolsonarismo já está implodindo, com Michelle Bolsonaro e a senadora Damares Alves demarcando suas posições de olho no futuro. A antiga unidade em torno do ex-presidente quebrou. Torna-se necessário, inclusive, para este agrupamento político-ideológico, uma porta de saída, que poderia vir na forma de uma união da direita tendo a ex-primeira-dama na posição de vice. Negociações certamente pressuporiam, entre outras medidas, o estabelecimento de uma pauta conservadora-liberal e em uma anistia a Jair Bolsonaro. Embora os prazos sejam agora curtos, ainda há tempo.

Os outros candidatos da direita, ou um deles, poderiam fazer parte deste tipo de composição eleitoral em nome do País. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos seriam figuras proeminentes neste processo, sem descartar uma função que poderia igualmente ser preenchida pelo ex-presidente Temer. Deveria haver abnegação e renúncia a paixões secundárias. Há, sim, espaço eleitoral para uma terceira via, mas parece não haver vontade política de trilhá-la. Deveria ela passar por um programa que proporia as medidas mais urgentes de reforma do País, seus gargalos mais relevantes, programa esse que deveria também levar em conta as profundas transformações geopolíticas, científicas e tecnológicas em curso no mundo.

Se nada for feito, as futuras gerações pagarão o preço da inação atual. E do movimento bolsonarista exigiria uma grandeza no abandono dos interesses familiares e das pequenas rivalidades pessoais e partidárias em proveito de algo muito maior: o Brasil.

 

*Professor de filosofia na UFRGS.

Um comentário:

Mais um amador disse...

Este colunista ajuda a compor o grupo de formadores de opinião de arquibancada. São mais torcedores que analistas de contextos. Neste texto, ainda se supera sendo mais um engenheiro de obra pronta, dentre os vários. Enfim.