O Globo
Políticos
construíram um edifício de facilidades, benesses, macetes e espertezas que
resultou num clube fechado
Com
as convenções partidárias em andamento, começam oficialmente as eleições de
2026. É uma rotina sem tropeços ou obstáculos autoritários desde a derrubada da
ditadura. Parece um sonho de verão, só que a realidade de escândalos, a miséria
de ideias e a grossa corrupção levam às perguntas:
—
Sou representado pelos políticos eleitos para o Congresso?
Ou,
mais direto:
—
O Congresso é a cara do Brasil?
Para
ambas as perguntas, a resposta só pode ser:
—
Não.
Como
os critérios de assunção à legenda e ao financiamento das candidaturas se
encontram na mão dos chefes partidários, pode-se dizer adeus à renovação, salvo
milagre. A Constituição de 1988 e a legislação eleitoral deixaram em aberto
vários flancos, a começar pela possibilidade de reeleição infinita do
parlamentar. Pelo arcabouço institucional, é o próprio Congresso que se
autolegisla e, portanto, autobeneficia-se como demonstram os escândalos dos
últimos anos.
Nos
dados publicados pela Justiça Eleitoral, a sombra e água fresca aparece
estampada nos seguintes números:
1.
Os 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral devem receber para as
eleições de 2026 quase R$ 5 bilhões do fundo eleitoral.
2.
O fundo partidário, cujo nome de fato é Fundo Especial de Assistência
Financeira aos Partidos Políticos, repassou a 19 partidos, em 2025, R$ 1,1
bilhão.
De
acordo com a Lei Eleitoral, retrofitada a cada novo ciclo pelos políticos,
cerca de 95% do fundo partidário é distribuído aos partidos na proporção de
votos obtidos na eleição para a Câmara dos Deputados. É um sistema de
retroalimentação: a votação conseguida com dinheiro público resulta no montante
dado à agremiação política para disputar o pleito seguinte.
Parece
algo bacana, mas é essa esperta engenharia que faz o Brasil ter uma das piores
representações desde a redemocratização. A partir da proibição de doações
empresariais, o país passou por duas eleições gerais (2018 e 2022) e três
municipais (2016, 2020 e 2024). Sob a nova legislação, o que se viu foi uma
baixíssima renovação — além do aumento absurdo das verbas públicas destinadas
às agremiações partidárias por iniciativa dos próprios beneficiários.
O
novo modelo de financiamento tirou a roupa de um santo para vestir outro. Se o
argumento era que somente algumas empresas controlavam as doações — falava-se
em 1% delas —, talvez parte da chamada polarização e da vigente miséria
intelectual dos parlamentares tenha relação com os bilhões públicos colocados
na mão dos dirigentes partidários nos últimos anos (desde 2015). É um dinheiro
que não vem por mérito.
Estudo
publicado no American Economic Journal: Economic Policy, em 2024, mostrou que a
decisão de 1995 na França, semelhante à tomada pelo STF,
provocou uma maior radicalização nos discursos de candidatos fora do mainstream
da política — segundo Julia Cagé e coautoras em citação no artigo de Manoel
Gehrke no site da Transparência Internacional.
Pode
ser cedo para cravar no financiamento público, nos moldes costurados pelos
políticos, o gosto amargo da polarização. Não custa, porém, colocar os números
na mesa. Os maiores beneficiários em 2026 são os dois polos da polarização:
o PL,
com R$ 881 milhões; e o PT, com R$
615 milhões. Em seguida, União
Brasil, com R$ 526 milhões. Aos fundos destinados às agremiações, se somam
os diversos tipos de emendas parlamentares, que vão diretamente aos mandatos
individuais — em 2025, R$ 58,4 bilhões.
Sendo
dinheiro público, é melhor aprofundar a análise, lembrando os salários anuais
dos dirigentes partidários. Entre as melhores remunerações, em números de 2025,
estão o conhecidíssimo Ovasco Resende, do famoso PRD, que recebeu R$ 630 mil;
José Luiz Penna, do PV, com R$
501 mil; e Valdemar
Costa Neto, do PL, com R$ 404 mil.
Sempre
que é citada uma maracutaia na Câmara, Hugo Motta defende
que querem criminalizar a política. Como notou Joaquim Falcão em “A oligarquia
dos Poderes — E a crise da democracia”, há um arranjo estranho entre os Poderes
da República para não cumprir seus deveres — eu diria: um cobrindo o erro do
outro. O Congresso é só uma peça dentro do arranjo. É assim que o Brasil deixou
de ter um Parlamento que seja a sua cara. Em seu lugar, uma minoria esperta que
esfacelou a democracia representativa.

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