O Estado de S. Paulo
A falta de pudor da rede de apoiadores da internacional trumpista pode ajudar Lula
A convenção que lançou a candidatura do
senador Flávio Bolsonaro à Presidência pelo PL, neste sábado, escancarou a
falta de rumo de sua campanha. Os discursos e as participações especiais
consagraram a aposta no antipetismo e na evocação da imagem do ex-presidente
Jair Bolsonaro, mas falharam em ocultar a falta de brilho pessoal daquele que
deveria ser o protagonista do evento, ou seja, o candidato Flávio.
Em um discurso curto, o senador recorreu a dois temas centrais: o mito da perseguição política a Jair e o PT como culpado por todos os males da sociedade brasileira. Mas suas falas tiveram pouca repercussão, ofuscadas que foram pela participação do presidente argentino Javier Milei – que falou praticamente as mesmas coisas, mas com mais “stamina” (como diria o americano Donald Trump), e roubou as atenções.
Não que Milei ajude Flávio Bolsonaro em
alguma coisa. Antipetismo e antibolsonarismo são as maiores forças políticas do
país atualmente. Para vencer a eleição, ele precisa dos votos do centro ou,
numa definição mais precisa, dos independentes. A convenção do PL não o
aproximou nem um milímetro desses eleitores. Ao contrário, só afastou, marcada
que foi pela figura de um argentino debochado metendo-se em assuntos internos
do Brasil, com direito a ofensas contra autoridades do Executivo e do
Judiciário.
O episódio deu mais munição para Lula usar em
sua retórica de defesa da soberania nacional. Pode-se não gostar da gestão do
presidente petista e pode-se criticar a atuação do ministro Alexandre de
Moraes, do STF, mas vídeo de apoio de premiê israelense e discurso frenético do
hermano ultralibertário, como se viu na convenção de Flávio, só pegam bem junto
aos já convertidos.
Não que Lula seja inocente nessa história de
não influenciar as escolhas políticas dos povos de outras nações. Em 2012, por
exemplo, a campanha pela reeleição de Hugo Chávez, na Venezuela, contou com o
marketing político de João Santana, por indicação de Lula, que não escondia sua
preferência pela continuidade do chavismo no país vizinho. Mas, no caso das
eleições deste ano no Brasil, a falta de pudores da rede de apoios da
internacional trumpista pode acabar ajudando o petista.
Algo vai mal quando o melhor que uma
candidatura à Presidência pode fazer é explorar o apoio de líderes estrangeiros
e o carisma de um líder que só pode aparecer em imagens geradas por
inteligência artificial.

Nenhum comentário:
Postar um comentário