Valor Econômico
Otimismo do mercado precisa ser ponderado por realidade política em 2027
A pergunta do título é retórica e
especulativa. A duas semanas do primeiro turno das eleições, parte
significativa dos agentes do mercado financeiro se mostra eufórica com as
perspectivas de uma vitória de Flávio Bolsonaro e do fim da era lulista.
Há motivos concretos para não duvidar da eleição do candidato do PL. Embora empatados dentro da margem de erro, Flávio já aparece numericamente à frente de Lula em algumas pesquisas e, considerando que os institutos sempre subestimaram o percentual de votos do bolsonarismo nas eleições, não será surpresa se ele conquistar a Presidência da República.
Investidores então sonham que, após subir a
rampa do Palácio do Planalto, um governo sob o comando de Flávio Bolsonaro
levará adiante profundas reformas para destravar o crescimento do país. A
inspiração, reforçada pelo discurso de Daniella Marques, virtual ocupante do
cargo de ministra da Economia, será o choque de austeridade fiscal produzido
por Javier Milei na Argentina, com um revogaço de normas infralegais e um pacote
de emendas à Constituição e projetos de lei para cortar gastos.
Existem, porém, três riscos que podem levar à
paralisia de um eventual governo Flávio Bolsonaro desde a largada,
comprometendo o sucesso desse ímpeto reformista tão aguardado pelo mercado.
O primeiro deve-se às prioridades que serão
escolhidas para o início do mandato - período de ouro em que presidentes
recém-eleitos gozam de apoio da maioria do eleitorado e da boa vontade dos
parlamentares. Flávio concorre tendo como principal bandeira a anistia do pai e
dos demais condenados pela tentativa de golpe em 08/01/2023. Ao dedicar toda a
energia política dos primeiros meses a essa batalha, ele perderá a oportunidade
de passar uma agenda econômica mais arrojada, frustrando os atores econômicos.
Outro perigo surge do prolongamento da
disputa com o Supremo Tribunal Federal. Após a manobra política de Flávio Dino,
que pediu vista do processo para abrir investigação sobre os supostos desvios
éticos e legais do ministro Alexandre de Moraes no caso Master, empurra-se para
2027 uma crise que vai mobilizar a base bolsonarista pelo impeachment de seu
inimigo nº 1 na política nacional. Assim, será pouco provável que temas
espinhosos como as reformas da Previdência e administrativa avancem num clima
de guerra instalado entre os Três Poderes da República.
A terceira frente de incertezas também
envolve o STF, porém diz respeito às indicações para as vagas a serem abertas
no próximo mandato. Além da posição decorrente da renúncia de Luís Roberto
Barroso, ainda não preenchida após a rejeição da indicação de Jorge Messias,
teremos as aposentadorias compulsórias de Luiz Fux (abril de 2028) e de Cármen
Lúcia (abril de 2029) - o substituto de Gilmar Mendes, que completa 75 anos em
30/12/2030, só deverá ser indicado na legislatura seguinte (2031-2034). Cada um
desses processos deve monopolizar as atenções do Congresso por semanas ou
meses, como ocorreu na apreciação dos nomes de André Mendonça e do próprio
Messias.
A agravar esses três pontos de indefinição da
agenda política numa provável gestão de Flávio Bolsonaro, a composição do
Congresso pode não ser tão favorável a ele tal qual se imaginava no início da
campanha.
Na Câmara, o Centrão continuará dando as
cartas, e, no Senado, as pesquisas estão apontando para a formação de um bloco
de oposição capaz de rejeitar o impeachment de ministros do Supremo e
comprometer a aprovação de PECs. Vamos aos números.
Dos 27 senadores que têm mandato até 2030,
pelo menos oito pertencem à esquerda ou são declaradamente antibolsonaristas:
os petistas Beto Faro (PA), Camilo Santana (CE), Teresa Leitão (PE) e
Wellington Dias (PI); Lourdinha Pereira (PSB-MA), suplente de Flávio Dino; e o
trio Renan Filho (MDB-AL), Omar Aziz (PSD-AM) e Otto Alencar (PSD-BA).
É bem verdade que a decisão do voto para o
Senado costuma ocorrer às vésperas do pleito, mas, segundo os últimos
levantamentos do Datafolha e da Quaest, candidatos que assumiriam uma postura
de oposição a um eventual governo Flávio Bolsonaro podem somar em torno de 20
cadeiras.
Se confirmar, a oposição terá pelo menos 28
cadeiras, o que já inviabiliza um impeachment de ministro do Supremo (quórum
mínimo de 2/3 dos 81 membros, o que dá 54 votos).
Por outro lado, Flávio Bolsonaro contará com
pelo menos 12 senadores que manterão seus mandatos - sendo 9 do PL e mais
apoiadores fiéis como Hamilton Mourão e Damares Alves (Republicanos) e Tereza
Cristina (PP) - e algo como 25 bolsonaristas a serem eleitos em 4 de outubro,
também levando em conta as pesquisas atuais. Uma base de menos de 40
parlamentares, portanto, facilitaria a ratificação de uma indicação para o STF
(41 votos a favor), embora esteja longe de dar conforto à aprovação de uma PEC
(mínimo de 49 votos).
Olhando para a outra possibilidade - uma
vitória de Lula - a mesma configuração política sinaliza para um próximo
mandato de difícil governabilidade.
É bom o mercado recalibrar suas projeções
para 2027 e além.

Um comentário:
O pessoal com dinheiro, o pessoal sem dinheiro, tá todo mundo querendo ver o Lula pelas costas não aguentam mais esse desgoverno , essa baderna institucional verdadeiro gângsteres ocupam o STF
O Flávio traz um alento , Umaesperança para novos rumos para o nosso Brasil
Postar um comentário