terça-feira, 4 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Faltar a debates é desrespeito ao eleitor

Por O Globo

Lula e Flávio não deveriam fugir ao questionamento a suas propostas dentro de ambiente jornalístico

Os debates entre candidatos servem de guia ao eleitor antes de depositar o voto na urna. Postulantes aos mais altos cargos da República deveriam se empenhar em participar desses eventos para apresentar suas propostas e compará-las às dos adversários, sem receios de se expor a perguntas ou situações incômodas. Infelizmente não é o que se vê. São frustrantes os sinais dados até agora pelos candidatos à Presidência pelo PT, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e pelo PL, senador Flávio Bolsonaro, líderes nas pesquisas de intenção de voto.

Eles têm sido ambivalentes sobre a participação nos debates. Lula tem manifestado dúvidas. Na semana passada, disse que avaliará o “nível” antes do encontro. “Enquanto presidente, não vou para debate para ouvir bobagem”, afirmou ao podcast Inteligência Ltda. A decisão de Lula pode ter reflexo em Flávio. Estrategistas da campanha do senador têm dito que ele só comparecerá se confirmada a presença do presidente, informou o blog Malu Gaspar, no GLOBO. Representantes das duas campanhas já participaram de reuniões preparatórias sobre o primeiro debate, marcado para o dia 23, mas por ora a incerteza persiste.

Nenhum dos dois deveria evitar debater. Para o eleitor, há questões relevantes e urgentes a tratar, e seria péssimo o silêncio às vésperas do pleito. Uma delas é a dramática situação fiscal herdada pelo próximo ocupante do Palácio do Planalto, seja ele quem for. É fundamental que Lula e Flávio digam o que farão a respeito da pressão sobre os cofres públicos. Disso obviamente dependerão todas as políticas que pretendem implantar. Há visões diferentes sobre esse e outros assuntos que precisam ser confrontadas. É o caso de segurança pública, hoje a maior preocupação dos brasileiros, educação e saúde.

Os candidatos podem se sentir mais à vontade quando entrevistados por youtubers, podcasters ou influenciadores digitais, quase sempre de canais amigos que os tratam com deferência. Em geral, são entrevistas sob medida para alavancar as campanhas. Mas elas normalmente não têm espaço para o questionamento aprofundado e o contraditório, que caracterizam o jornalismo profissional, cujo compromisso não é produzir cortes atraentes para as redes sociais, mas honrar princípios editoriais transparentes regidos pelo interesse público. As campanhas têm direito a fazer propaganda que siga a legislação eleitoral, mas debate é outra coisa. Nele, o candidato é confrontado por jornalistas e demais candidatos sobre temas relevantes, para os quais exigem-se respostas concretas, e não firulas midiáticas.

Líderes nas pesquisas de intenção de voto, Lula e Flávio não deveriam fugir dos debates temendo perder apoio. A ausência dos dois, além de desrespeitar o eleitor, reduz o acesso a informações relevantes sobre propostas de governo e representa um retrocesso para a democracia. Apenas debates conduzidos pelo jornalismo profissional de forma equilibrada e com regras claras podem informar a sociedade de modo fidedigno e competente. Antes de se dirigirem à cabine de votação, os brasileiros têm o direito a saber detalhadamente o que os candidatos pensam e o que pretendem fazer sobre os problemas que afligem a população. Seria trágico se, por capricho desses candidatos, descobrissem em quem votaram só depois das eleições.

Deficiências crônicas na educação perpetuam desigualdade social

Por O Globo

Apenas 1,6% dos que nascem entre os mais pobres obtêm diploma superior, revela Atlas da Mobilidade

O Brasil tem registrado avanços na escolarização de crianças e jovens, mas ainda insuficientes para transformar a realidade de um dos países mais desiguais do mundo, demonstram dados do mais recente Atlas da Mobilidade Social, elaborado pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), associado ao Prospera Lab. Na parcela dos 25% que nasceram nas famílias mais pobres do país, 48% estão na mesma faixa de renda ao chegar à vida adulta. Dos demais 52%, 74% ainda permanecem na metade de menor renda, apenas 8,3% chegam ao grupo dos 25% mais ricos — e um grupo ínfimo de 1,3% passa a integrar a parcela dos 10% com maior renda.

“É necessário oferecer melhores oportunidades aos filhos das famílias mais pobres, como educação de qualidade e empregos com remuneração mais elevada”, afirma Fernando Veloso, diretor de pesquisa do IMDS. A educação, em particular, é a barreira preponderante. É consenso entre os economistas que se trata do melhor antídoto contra a desigualdade. No Brasil, porém, embora 47% dos que nascem no quarto mais pobre da população já terminem o ensino médio, apenas 1,6% obtém diploma universitário, principal passaporte para a ascensão social.

Na classe média, 60% terminam o médio e 4,2% o superior. Entre os 25% mais ricos, as proporções são, respectivamente, 91% e 38%. Trata-se, segundo Veloso, de “grande obstáculo” para a mobilidade social. “A conclusão do ensino superior permite acesso a empregos com remuneração mais elevada e maiores oportunidades de ascensão na carreira, especialmente diante do avanço de novas tecnologias como inteligência artificial”, diz ele.

A experiência internacional mostra que todos os países que conseguiram galgar estágios de desenvolvimento deram atenção especial à educação. Em especial, aos cursos das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, reunidas na sigla em inglês STEM. Um caso citado com frequência é a Coreia do Sul. Na década de 1980, o país tinha renda per capita de US$ 8,5 mil (a preços de 2011), mesmo nível do Brasil. No ano passado, segundo o Banco Mundial, a renda per capita brasileira estava em US$ 22,7 mil e a sul-coreana em US$ 64,2 mil. Na Coreia do Sul, 32% concluem cursos das áreas STEM. No Brasil, apenas 16%, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) relativos a 2023.

O Atlas da Mobilidade Social permite quantificar a armadilha da renda média a que o Brasil continua preso. Por mais que governos ampliem gastos sociais, enquanto a qualidade do ensino não melhorar, a ascensão social continuará rarefeita. A educação é a principal engrenagem que permite a mobilidade entre gerações. Sem ela, perpetuam-se a pobreza endêmica e a estratificação. Como a população brasileira já está em estágio acelerado de envelhecimento, não há tempo a perder para qualificá-la.

Promessas de eventual Lula 4 são pouco críveis

Por Folha de S. Paulo

Candidatura à reeleição recoloca no centro do debate os impasses da governabilidade e das contas públicas

Sem reformas e maior produtividade, intenção de elevar crescimento do país esbarra em restrições fiscais estimuladas pelo governo petista

Ao oficializar sua candidatura à reeleição no domingo (2), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) optou por uma coligação restrita aos partidos de esquerda. A escolha delimita com clareza seu campo político e acentua o contraste com um Congresso Nacional de maioria de centro-direita, que tende a manter perfil semelhante após as eleições.

Um eventual quarto mandato pode começar com um Legislativo pouco alinhado ao Planalto.

Lula afirmou não querer ser lembrado apenas como o "presidente do Bolsa Família" e prometeu enfrentar o poder das emendas parlamentares. A intenção de devolver ao Executivo capacidade de planejamento e investimento é meritória. A promessa, porém, esbarra na realidade.

Sem maioria parlamentar e diante de um Congresso fortalecido justamente pelo controle do Orçamento, a disposição de "brigar" pelas emendas soa mais como mote de campanha do que compromisso exequível.

No âmbito da política fiscal, o governo passou a admitir um aperto nas regras do arcabouço para conter a deterioração das contas públicas. A intenção seria bem-vinda, não fosse o déficit de confiança. Depois de sucessivas exceções e brechas abertas para ampliar despesas, poucos acreditam que o Executivo esteja disposto a impor limites mais rígidos ao próprio gasto.

O desafio central continua sendo, portanto, a economia. Ao fim do atual mandato, Lula terá governado o Brasil por 12 anos, tempo suficiente para que seu legado seja medido também pela capacidade de enfrentar os entraves estruturais ao crescimento. Nesse aspecto, os resultados permanecem bastante modestos.

A produtividade brasileira segue estagnada e as contas públicas estão em franca deterioração. Nos 12 meses até junho, o déficit nominal atingiu R$ 1,3 trilhão, o equivalente a quase 10% do PIB. Sob Lula 3, a dívida bruta passou de 71,7% do PIB para 81,9%, alcançando R$ 10,8 trilhões.

Essa combinação de dívida crescente e déficits primários, em que há seguidamente despesas maiores do que receitas, mantém os juros elevados e desestimula o investimento produtivo.

Forma-se um paradoxo. Enquanto o petista critica a desigualdade social, sua política fiscal a mantém. A conta de juros da dívida destinada a poucos aproxima-se de R$ 1 trilhão neste ano, valor semelhante ao destinado aos benefícios de cerca de 41 milhões de aposentados e pensionistas do INSS. Juros altos encarecem o crédito, reduzem os investimentos e concentram a renda.

A recente reforma tributária representou um avanço substantivo que deve melhorar o ambiente de negócios, mas resultou de um longo processo de construção no Congresso, em quase nada dependente do atual governo.

Fora isso, Lula pouco avançou em mudanças estruturais capazes de elevar a produtividade e o potencial de crescimento da economia. Depois de 12 anos no poder, promessas já não bastam.

Milei avança contra a liberdade de expressão

Por Folha de S. Paulo

Argentino usa ataques à seleção na Copa do Mundo para restringir imigração com base em críticas ao país

Segundo o decreto, governo pode proibir a entrada ou expulsar estrangeiros que tenham proferido discursos contra a nação ou sua população

No front da guerra cultural travada num cenário global de polarização ideológica, parte da direita tem se colocado em defesa da liberdade de expressão para conter restrições abrangentes de discursos nas redes sociais que setores da esquerda tendem a aceitar ou promover.

Mas esse direito fundamental pode ser deixado de lado de acordo com interesses políticos do momento, como mostra medida recente do governo argentino.

Durante a Copa do Mundo, a seleção da Argentina foi alvo de críticas —desde piadas até duros ataques— por uma conjunção de fatores: erros de arbitragem que geraram acusações de favorecimento; uso excessivo de faltas e provocações; e o histórico de cantos ou gestos discriminatórios realizados por sua torcida.

O fenômeno não ficou restrito à América do Sul, onde a rivalidade com os argentinos é tradicional.

Aproveitando-se do imbróglio, na última quarta (29), o presidente Javier Milei alterou por decreto a Lei de Migrações para que o governo proíba a entrada ou expulse do país estrangeiros que tenham proferido ataques contra a população da Argentina ou ultrajado seus símbolos pátrios.

O texto se refere a pessoas que tenham "proferido discurso de ódio oralmente ou por escrito, ou incitado violência contra o povo argentino como um todo, ou contra qualquer cidadão argentino, motivado por sua nacionalidade". Mesmo com a ressalva a "expressões de dissidência ideológica ou de crítica política, acadêmica ou cívica", ainda é capaz de descambar em autoritarismo.

"Discurso de ódio" é um termo vago que enseja abusos, como punir imigrantes por falas que, mesmo ofensivas, deveriam ser protegidas em democracias liberais.

Esse identitarismo nacionalista do argentino emula o do presidente americano.

Em 2025, o governo de Donald Trump ampliou a triagem das redes sociais de solicitantes de visto e benefícios migratórios e determinou que manifestações consideradas hostis aos Estados Unidos ou antiamericanas pudessem pesar contra a admissão de estrangeiros.

A própria narrativa usada por Milei deixa claro o alinhamento retórico com o republicano, ao compartilhar postagens nas redes sociais que relacionavam as críticas à seleção argentina com um suposto movimento global do "wokismo" —termo usado pela direita dos EUA para se referir a setores progressistas.

O decreto já está em vigor, mas será avaliado pelo Congresso. De todo modo, trata-se de mais um caso que escancara os efeitos nefastos da polarização na proteção de direitos fundamentais.

Lula, mais uma vez

Por O Estado de S. Paulo

Será a sétima eleição com Lula na cédula. Portanto, os brasileiros estão cansados de saber quem ele é. Mas o petista é imbatível na arte de engambelar: agora promete ‘fazer diferente’

O nome do petista Luiz Inácio Lula da Silva aparece na cédula eleitoral como candidato a presidente desde os tempos imemoriais do voto em papel, lá se vão quase 40 anos. Anteontem, o presidente foi oficializado como candidato pela sétima vez, e estará em busca de seu quarto mandato. Logo, os eleitores brasileiros estão cansados de saber quem ele é e o que é capaz de fazer quando está no poder. Mas Lula é imbatível na arte de engambelar: agora ele promete fazer diferente, “fazer o que a gente ainda não fez”.

Na convenção do PT que oficializou sua nova candidatura, Lula encarnou um super-herói boquirroto disposto a salvar o Brasil de vilões daqui e de fora. O petista prometeu blindar as terras raras da cobiça estrangeira, jurou que investirá em defesa para que o País jamais seja “invadido” como a Venezuela pelos EUA e anunciou que brigará com o Congresso para, ora vejam, retomar o controle do Orçamento e pôr fim à “promiscuidade” do Fundo Partidário. Para ficar perfeito na personagem, só faltou Lula vestir uma esvoaçante capa vermelha com a estrela do PT.

Esse Lula vingador mascarado é o mesmo que, na campanha de 2022, prometeu acabar com o orçamento secreto, mas que, uma vez no poder, deixou tudo como está. O insulto à inteligência alheia também vale para o suposto combate ao Fundo Partidário.

Mas o auge da farsa lulopetista veio no momento em que Lula anunciou que vai “mudar muita coisa neste país”. Para começar, o petista disse que vai recuperar os “direitos” do presidente da República, entre os quais o de definir o Orçamento, cada vez mais capturado pelos parlamentares e seus interesses paroquiais. Lula disse que não dá mais para ficar “chorando atrás da miséria que sobra do Orçamento”.

Ora, com que base parlamentar Lula pretende fazer isso? Se hoje o governismo no Congresso é uma massa disforme e incontrolável, a próxima legislatura promete ser ainda mais hostil ao presidente petista. Num surto delirante, Lula pode escolher a ingovernabilidade e brigar com o Congresso, mas, depois de tanto tempo no poder, ele sabe que isso não acaba bem.

Contando com a ingenuidade dos eleitores, contudo, Lula anunciou que será “mais ousado”: “Eu não quero o Lulinha Paz e Amor, eu quero o Lulinha Porreta. Eu quero o Lulinha que vai fazer o que a gente ainda não fez. Porque o básico nós já cuidamos, o povo já está comendo. Agora que estamos com o básico garantido, agora é hora de dar um salto de qualidade”.

Trata-se de uma fantasia recorrente do lulopetismo. Se estivesse realmente interessado num “salto de qualidade”, Lula teria ao menos mencionado a necessidade urgente de um ajuste fiscal. Mas esse tema, obviamente, esteve ausente do palavrório do presidente.

Aqui e ali, gente do governo diz que o quarto mandato será diferente. O último a fazê-lo foi o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, que disse ao jornal Valor que o “ajuste fiscal do próximo governo” teria “vários caminhos” e que seria preciso discutir “poupança de longo prazo” e mecanismos para estimular famílias e o poder público a poupar mais. Chega a ser ultrajante ouvir de um assessor de Lula que, depois de décadas incentivando os brasileiros a gastar o que têm – e, principalmente, o que não têm –, o governo petista agora acha que é o caso de estimular a poupança dos brasileiros.

Os números desmentem o suposto compromisso com a responsabilidade fiscal até como discurso. O País bateu recorde de arrecadação no primeiro semestre – R$ 1,587 trilhão – e, mesmo assim, fechou o período com déficit de R$ 92,2 bilhões, o segundo pior resultado desde 1997. A dívida pública federal chegou a R$ 9,268 trilhões em junho e deve encerrar o ano em R$ 10,3 trilhões, cerca de 82% do PIB, com custo médio no maior patamar desde a recessão de 2016.

Com esse histórico, Lula pode achar que ainda ilude os incautos com seu discurso de “fazer diferente” e “dar um salto de qualidade”, mas a verdade é que, se vencer a eleição, não será porque os eleitores acreditaram nessa patacoada, e sim porque a ojeriza ao bolsonarismo terá se provado maior do que a hostilidade ao lulopetismo.

O STF na república dos penduricalhos

Por O Estado de S. Paulo

A autorregulação do Judiciário fracassou. Executivo e Congresso têm a obrigação de retirar das mãos das corporações jurídicas o regime remuneratório convertido em usina de privilégios

Em março passado, sob o desgaste de uma crise reputacional agravada pelo suposto envolvimento de alguns de seus ministros no escândalo do Banco Master, o Supremo Tribunal Federal (STF) anunciou limites para verbas pagas no Judiciário acima do teto constitucional. Passados três meses, diante da reação das corporações jurídicas, os ministros afrouxaram as restrições. Ou seja, o STF apenas “jogou para a plateia”, na opinião – compartilhada por este jornal – de Guilherme Cezar Coelho, fundador da República.org, ONG que se dedica a estudar modos de aperfeiçoar o serviço público, em entrevista ao Estadão.

Era um desfecho previsível. A decisão de março já preservava uma faixa generosa de pagamentos extraordinários e deixava intacta a engrenagem que os produz. Caberia aos órgãos do Judiciário aplicar uma contenção contrária a interesses consolidados dentro deles. O Conselho Nacional de Justiça logo abriu a primeira exceção. Sob a pressão das associações de magistrados, o Supremo recuou. A disciplina de ocasião cumprira sua finalidade: produziu muitas manchetes moralizantes e poucos efeitos práticos.

O método de construção de exceções segue intacto. Funciona assim: uma atividade comum é promovida a “acúmulo excepcional”; uma parcela remuneratória recebe o nome providencial de “indenização”; criada a vantagem, uma resolução pode fazê-la retroagir, enquanto valores acima do teto são guardados como crédito futuro; o órgão de controle a reconhece, uma decisão judicial a protege e outras carreiras invocam o precedente. Assim avança a espiral de “puxadinhos criados em benefício próprio” mencionados por Coelho.

A lei, nesse circuito, serve menos como limite do que como matéria-prima para fabricar privilégios. O STF interpreta o teto, escolhe suas exceções e julga contestações apresentadas por integrantes do mesmo sistema remuneratório. É árbitro e parte interessada. Suas decisões depois se espalham pelos tribunais e pelo Ministério Público.

Levantamento da República.org estima em quase R$ 20 bilhões por ano o custo dos supersalários. As carreiras jurídicas concentram parcela decisiva da conta e sua criatividade vocabular sai cara ao contribuinte.

O Brasil mantém dois regimes. No oficial, agentes públicos recebem subsídio submetido ao teto constitucional. No efetivo, licenças, gratificações, indenizações presumidas e retroativos inflam os contracheques muito além dele. O teto permanece solene na Constituição e ornamental na folha de pagamento. Essa arquitetura se sustenta no poder de criar, validar e julgar as próprias exceções.

Magistrados e procuradores exercem funções de alta responsabilidade, podem receber salários elevados e devem ser ressarcidos por despesas extraordinárias. Uma indenização legítima, porém, corresponde a gasto efetivo, eventual, razoável e comprovado. Benefícios ordinários não mudam de natureza ao receber um nome mais conveniente. Se o subsídio é insuficiente, sua revisão deve ocorrer às claras, pelo processo político regular.

O fracasso da autorregulação obriga Executivo e Congresso a retirar o sistema remuneratório do circuito corporativo. Uma lei nacional precisa submeter a remuneração total ao teto, admitindo fora dele apenas ressarcimentos reais. Também terá de impedir que vantagens inconstitucionais sobrevivam como dívidas intocáveis sob a forma de retroativos. Para que essas regras possam ser fiscalizadas, as folhas precisam seguir um padrão nacional e os pagamentos definidos por tribunais devem ficar sujeitos a controle externo efetivo – o que exige uma reforma dos conselhos, que hoje atuam como centrais sindicais.

O risco é que, sob pressão das corporações, o Congresso aprove uma lista extensa de parcelas extrateto e converta a reforma em legalização dos penduricalhos. Para eliminá-lo, a sociedade civil deve exigir critérios materiais rigorosos, sem os quais uma nova lei apenas trocará a gambiarra pela planta aprovada e dará acabamento ao regime paralelo.

O ambíguo acordo com o Hamas

Por O Estado de S. Paulo

Sem querer, Trump pode preservar o poder do grupo terrorista e adiar mudanças reais em Gaza

O presidente americano Donald Trump anunciou um acordo “histórico” entre seu Conselho da Paz e o Hamas, que prevê, em fases, o desarmamento do grupo terrorista, a retirada de Israel de Gaza e a transição para uma administração palestina apoiada por uma força internacional. A iniciativa tenta transformar o cessar-fogo em um caminho para o fim da guerra. Mas o termo que sustenta esse arranjo – “desarmamento” – abriga uma ambiguidade.

Desarmar pode significar recolher arsenais ou perder poder. As duas coisas não se confundem e dificilmente coincidirão por si sós. Fala-se em armazenamento supervisionado de armas e em fases condicionadas por verificação externa. Evita-se a linguagem de entrega definitiva ou eliminação. O processo depende de reciprocidade entre desarmamento do Hamas e retirada israelense, o que o transforma numa negociação contínua.

O ponto cego está no objeto que se pretende desarmar. O poder do Hamas nunca dependeu do volume ou do tipo de armamento. As chamadas “armas pesadas” já não definem sua capacidade de controle. Ela se apoia em coerção e redes organizacionais, sustentadas por uma infraestrutura difusa – como túneis – que preservam sua influência mesmo após concessões formais. Movimentos armados como o Hezbollah já demonstraram capacidade de ceder visibilidade institucional e manter poder nos bastidores.

Essa dissociação aparece na distância entre quem negocia e quem controla o terreno. A autoridade real segue nas mãos dos combatentes em Gaza, não dos representantes que discutem termos no exterior. Sem um deslocamento desse centro de poder, qualquer compromisso corre o risco de se dissolver no contato com a realidade.

A força internacional e a nova polícia palestina levarão meses para se tornar operacionais. Até lá, o controle cotidiano permanece inalterado. Esse descompasso cria um incentivo: ajustar-se ao processo, preservar capacidades essenciais e, se necessário, preparar alternativas para o caso de as fases finais não se concretizarem. O risco não é de descumprimento aberto, mas de adaptação silenciosa.

O desarmamento pressupõe que as armas sejam instrumentos contingentes. No caso do Hamas, elas são parte de uma identidade política construída em torno da “resistência” armada. Sem uma revisão dessa base – e de sua expressão ideológica e programática –, a entrega parcial de meios tende a produzir apenas uma suspensão do conflito, não sua transformação. A experiência da Organização para a Libertação da Palestina nos anos 1990 mostra que a mudança decisiva não foi apenas material, mas política.

Há mérito em organizar um roteiro e mobilizar atores regionais. Mas a mesma urgência que viabiliza compromissos também favorece zonas cinzentas. Marcos diplomáticos podem anteceder mudanças reais – e, por vezes, substituí-las.

A cautela israelense reflete essa leitura. A alternativa exclusivamente militar mostrou limites, mas isso não elimina o problema de fundo: sem uma autoridade palestina capaz de impor regras e sustentar legitimidade, a segurança permanece contingente. O risco, portanto, não está apenas no fracasso do acordo. Está em seu sucesso aparente.

Candidatos evitam discutir temas fiscais cruciais

Por Valor Econômico

O próximo presidente tem encontro marcado com a arrumação das contas públicas em 2027

O Estado brasileiro gasta muito e mal os recursos públicos e está entre os países emergentes mais endividados do mundo. O choque de juros a que o país está hoje submetido, para deter uma inflação insuflada pelos déficits fiscais, levou o resultado negativo nominal a 9,99% do PIB, o maior entre 41 países acompanhados pela revista The Economist (Valor, ontem). Sem que o governo economizasse um centavo para cobrir despesas financeiras, a dívida pública bruta chegou a R$ 10,8 trilhões em junho. A conta só cresce. Enquanto paga juros altos, o Estado mal consegue investir e colabora para uma taxa de poupança pífia, muito aquém da necessária para que a economia possa dar um salto de produtividade.

Cálculos apresentados ontem pelo jornalista Fernando Nakagawa, na Globonews, mostram que o pacote de “bondades” anunciado por Lula em 2026 chega a R$ 282,3 bilhões, mas seu antecessor não foi diferente. O valor de Lula aproxima-se dos R$ 325 bilhões (corrigidos pela inflação) de Jair Bolsonaro quatro anos atrás.

Este é um problema de primeira ordem, mas os candidatos à Presidência preferem ignorá-lo, dando-lhe tratamento genérico, só para constar nos autos de suas receitas de política econômica. Não será surpresa se forem esquecidas após a vitória.

Do presidente Lula pouco se pode esperar sobre ajuste fiscal caso seja reeleito. Ele tem feito discursos de acordo com cada plateia e, na convenção do PT que o consagrou candidato, disse que controlará o orçamento e haverá "briga" com emendas parlamentares e com o Congresso. Não é o que fez nos últimos quatro anos, e, ao que tudo indica, não é o que fará nos quatro próximos. Lula acomodou-se ao fisiologismo das lideranças partidárias, da qual tenta tirar proveito para manter-se no poder. Estão mais perto da verdade suas declarações de que não pleiteia um novo mandato para ficar "cortando o orçamento".

O candidato melhor posicionado da oposição, o senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ), não se sente confortável com o tema, por falta de conhecimento ou mesmo de interesse. Se o prenúncio de futuro se basear no passado, um governo de Flavio dispensaria pouca atenção ao tema. Das poucas vezes que falou sobre ele foi para desmentir informações colhidas junto a sua própria equipe, de que faria um ajuste drástico nas contas públicas. Seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado, terceirizou o assunto para o economista Paulo Guedes, que previu que obteria R$ 1 trilhão com a venda de imóveis da União. Ele mal trabalhou para isso e arrecadou irrisórios caraminguás.

Daniella Marques, ex-presidente da Caixa no governo Bolsonaro e atualmente na equipe de campanha Flávio, apresentou ontem ideias para obter um ajuste de 1,5 % do PIB nas contas públicas, um ponto de partida quase consensual entre economistas de vários matizes econômicos para o início de consolidação fiscal crível. Seu esboço fala em enxugar o número de ministérios (como Guedes fez), criar um Conselho de Governança Fiscal, vender imóveis da União, privatizar estatais, securitizar patrimônio público etc. Até agora, pelos discursos de Flávio, essas ideias constarão do programa porque qualquer candidato à Presidência terá de abordar o assunto. Não é, porém, uma ideia forte do candidato, como merece ser, nem parece estar entre as prioridades.

Jair Bolsonaro entregou a gestão do orçamento ao Congresso, que deu origem ao repasse secreto de bilhões de reais. Oriundo do Centrão, e sem qualquer projeto que se destacasse na área das finanças públicas, Flavio se beneficia do poder alavancado do Congresso com as emendas e não há registro de que veja algo errado nelas. O ex-presidente Bolsonaro não mostrou o menor empenho na reforma da Previdência, um elo vital dos desequilíbrios fiscais, e não opinava sobre economia, cujos fundamentos ignorava, e o filho parece seguir o mesmo rumo, ou pior. Uma das maiores rupturas benéficas com o passado foi a aprovação da reforma tributária durante o governo Lula, que Flávio pretende suspender.

Um governador bem avaliado no quesito fiscal, Ronaldo Caiado (PSD-GO) prefere discursos ideológicos a discussões sérias sobre a emergência fiscal. Caiado também quer rever a reforma tributária, e seu programa, pouco conhecido, mantém políticas que ajudaram destruir a confiança no atual regime fiscal, como a correção real do salário mínimo e dos programas previdenciários, e se baseia fortemente em redução dos gastos fiscais (7% do PIB). Se eleito, dificilmente seu partido o acompanhará nessa empreitada, tentada pour quase todos os últimos governos e conseguida por nenhum.

O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) se declara a favor do ajuste. Já disse que pretende repetir no plano federal a política adotada em Minas, onde, segundo ele, mais de 115 empresas e participações estatais foram vendidas em sua gestão. Mas igualmente não detalha as questões fiscais difíceis.

O ajuste fiscal, tema difícil que pode roubar votos, mas vital para o futuro do país, passará ao largo das eleições. O país só teria a ganhar com um debate sério e técnico a respeito, que os candidatos provavelmente não o promoverão. Não falar no problema não significa que ele deixou de existir. O próximo presidente tem encontro marcado com a arrumação das contas públicas em 2027. Seria bom que os eleitores o conhecessem com clareza antes de irem às urnas.

Pacto pela vida e contra o sarampo

Por Correio Braziliense

Não há dúvidas de que, pela importância logística, populacional e econômica, São Paulo exerce papel preponderante para frear o sarampo. Mas, ainda que complexa, essa batalha não é única

Juntas, as cidades de São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo têm cerca de 14 milhões de habitantes — praticamente 2 milhões a mais do que toda a população de Portugal e 2 milhões a menos que os moradores do Centro-Oeste brasileiro. Não é exagero, portanto, afirmar que o que se passa nesse grande bolsão populacional do Sudeste deve despertar a atenção de gestores públicos, incluindo as questões sanitárias.

As cidades enfrentam um surto ativo de sarampo — respondem por quase 85% dos casos da doença registrados no país neste ano — e deram início ontem à estratégia de vacinação em massa para conter a crise. Todas as pessoas com idade entre seis meses e 59 anos que moram ou trabalham nesses locais devem ser imunizadas, inclusive as que estão com o esquema vacinal completo. Em número absoluto, o problema pode parecer pequeno — são 16 infecções confirmadas, sendo 13 na capital, duas em São Bernardo do Campo e uma em Guarulhos. Mas não faltam motivos para entrar em estado de alerta.

Um deles é o encontro perfeito de condições para o vírus: o patógeno de alto poder de disseminação está se infiltrando na maior metrópole da América Latina. Destino final e pouso transitório de um número expressivo de pessoas, brasileiras ou não, São Paulo corre o risco de se tornar um polo disseminador de uma doença que tem um dos maiores poderes de transmissibilidade de que se tem notícia. Estima-se que um infectado passe o sarampo para 12 a 18 pessoas não imunizadas. Para se ter uma ideia, o coronavírus causador da covid chega a alcançar seis.

A baixa cobertura vacinal deixa o cenário ainda mais propício para o sarampo. A imunização se dá pela aplicação de duas doses da tríplice viral — que protege também contra caxumba e rubéola. A recomendação dos órgãos de saúde é de que a taxa de imunizados seja de 95%. Neste ano, em São Paulo, os números são de 77,5% para a primeira dose e 65,5% para a segunda. Impõe-se à pasta de Saúde renovar estratégias para bater a meta sanitária. A vacinação em massa durante o mês de agosto ajuda nesse sentido, principalmente se impulsionada por dinâmicas que facilitem o acesso, como ações nos fins de semana e em áreas de grande fluxo.

Também não se pode perder de vista que o cobertor sanitário contra o sarampo é ainda mais curto em outras regiões brasileiras e nações fronteiriças: Bolívia e Peru, por exemplo, têm confirmados, respectivamente, 85 e 1.139 casos neste ano, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), sendo a situação peruana aparentemente mais preocupante, já que o número de infectados quase dobrou em um mês. Ampliando a perspectiva, a preocupação também se expande. Isso porque, nesses mesmos 30 dias, o número de infectados nas Américas pulou de 22.674 para 47.026, um aumento de 107%.

Não há dúvidas de que, pela importância logística, populacional e econômica, São Paulo exerce papel preponderante para frear essa ameaça à saúde coletiva. Mas, ainda que complexa, essa batalha não é única. Infecções tão perigosas quanto o sarampo também são beneficiadas pela baixa cobertura vacinal no país, impulsionadas sobretudo por movimentos negacionistas. Todas elas precisam ser combalidas o quanto antes. A imunização ampliada nas cidades paulistas se dará concomitantemente à Campanha Nacional de Multivacinação, focada na atualização da caderneta de crianças e adolescentes. Trata-se, portanto, de oportunidade para cumprir o dever cívico de se vacinar sem restrições e em qualquer lugar do país. Essa é a atitude esperada de qualquer sociedade que pactue com o respeito à vida.

A escalada da crise entre Brasil e Argentina

Por O Povo (CE)

É hora de um ajuste nas relações de Estado do presidente do Brasil com seu correspondente na Argentina. A postura de Javier Milei, que voltou a atacar o colega de instância de poder, Luiz Inácio Lula da Silva, em termos grosseiros e agressivos, já exige uma resposta que o traga ao campo da responsabilidade diante do risco real de chegarmos ao nível de um rompimento entre os dois países, caso a crise continue escalando.

O presidente argentino, em entrevista na noite do último domingo para uma emissora de TV do seu país, tratou o político brasileiro como "ladrão", "corrupto" e outros termos de igual violência verbal. A troco de nada e, ao contrário, recusando a oportunidade que lhe tinha sido oferecida pelo entrevistador de fazer uma reflexão sobre ataques semelhantes que havia feito anteriormente, com o agravante de estes terem acontecido durante passagem por São Paulo, onde esteve para prestigiar o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência da República.

Uma postura que contraria palavras do seu chanceler, Pablo Quirno, que indicavam da parte da Argentina o caminho da compostura institucional, procurando separar os interesses de Estado das diferenças político-ideológicas que há entre Milei e Lula. O novo episódio de agressões vai de encontro à ideia e começa a indicar com mais clareza a necessidade de uma resposta brasileira diplomática mais firme, no âmbito das possibilidades previstas nas regras de convivência entre os países e seus dirigentes políticos.

Brasil e Argentina são países vizinhos, que se têm ajudado quando a situação assim o exige, de povos amigos, de economias complementares, com razões várias para uma admiração mútua que tem resistido a governos de visões diferentes ao longo do tempo, especialmente nas fases democráticas.

O certo é que um Chefe de Estado não pode fazer comentários acerca da política interna de um outro país, sob qualquer que seja o pretexto. Não apenas atacando políticos, como ele tem feito, mas questionando nosso sistema institucional ao colocar em dúvida decisão tomada pela principal Corte de Justiça, com agressões a um ministro em termos chulos e inaceitáveis.

A insistência do presidente Javier Milei em sustentar sua conduta inadmissível, colocado diante da chance de trazer as coisas ao seu ponto certo, já justifica que o Brasil dê passos mais firmes como uma resposta de Estado. Parece claro que não basta apenas chamar o embaixador em Buenos Aires ou convocar o representante argentino em Brasília, gestos formais para deixar clara uma insatisfação.

Não é questão de partido ou de ideologia e o lado em que está cada um dos envolvidos tem pouco significado diante da situação. Infelizmente, o comportamento reiterado do político argentino impede que a crise seja superada e a relação com o Brasil seja restabelecida no nível de respeito que tem marcado os últimos anos e décadas. 

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