terça-feira, 4 de agosto de 2026

Otoni de Paula desafia bolsonarismo ao defender voto em Lula, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Deputado é sintoma das desconfianças e decepções de evangélicos com a campanha de Flávio

Rompimento aconteceu em 2024, quando ex-presidente não o apoiou para concorrer à Prefeitura do Rio

O principal adversário de Flávio Bolsonaro entre os evangélicos é um ex-bolsonarista. Na semana passada, o pastor e deputado Otoni de Paula (PSD-RJ) anunciou uma proposta ousada: que a direita apoie Lula contra Flávio, caso os dois se enfrentem no segundo turno.

O PT nunca precisou tanto de apoio para intermediar sua relação com evangélicos. Otoni cumpre essa tarefa melhor do que um pastor de esquerda: por se identificar como conservador de direita, suas falas chegam à massa de pentecostais pobres, que têm se distanciado do PT pelas pautas morais.

Nomes como o cantor Leonardo Gonçalves e o pastor Paulo Marcelo sacrificaram suas carreiras ao apoiar Lula em 2022. O que Otoni faz de diferente das lideranças evangélicas que foram canceladas por desafiar o bolsonarismo?

Para começar, Otoni é íntimo do bolsonarismo. Foi vice-líder de Bolsonaro no Congresso, fez parte da tropa de choque do ex-presidente. O rompimento aconteceu em 2024, quando Bolsonaro não o apoiou para concorrer à Prefeitura do Rio.

Assim como outros evangélicos de direita, Otoni viveu a experiência de ser escanteado. A própria escolha de Flávio no lugar de Tarcísio de Freitas —preferido de pastores— exemplifica a percepção de que o bolsonarismo exige mais do que dá a seus aliados.

Em entrevista, Otoni foi direto: "Bolsonaro e sua família nunca foram fiéis à igreja. Nunca. Sempre usaram o povo de Deus como massa de manobra eleitoral, graças ao antipetismo." E desafia: "Me diga um projeto do governo Bolsonaro que honrou a igreja."

Otoni também atua em harmonia com uma igreja influente: o Ministério Madureira da Assembleia de Deus. Foi a única grande igreja a desafiar o bolsonarismo declarando, ainda em março, apoio a Ronaldo Caiado.

Outras lideranças das grandes igrejas estão descontentes com Flávio, mas sofrem agora com a idolatria por Bolsonaro que elas mesmas cultivaram. O deputado Marco Feliciano e o pastor Silas Malafaia já expressaram seu desagrado com a atuação de Flávio. Mas não rompem o vínculo.

Otoni é o único que declara publicamente: votar em Lula é melhor do que eleger um candidato de direita inexperiente e com ligações suspeitas —como a negociação com o ex-banqueiro investigado Daniel Vorcaro para investir R$ 134 milhões no filme sobre o pai.

Ao declarar apoio a Lula contra Flávio, Otoni sinaliza que evangélicos podem atuar com autonomia. Ao comunicar isso antes do primeiro turno, joga limpo com seus eleitores. Abre mão de votos que poderia ter para não ser acusado de traidor depois.

O desempenho de Otoni pode ajudar a dimensionar o tamanho da rejeição ao bolsonarismo dentro da direita. Quantos querem substituir a idolatria a Bolsonaro por competência administrativa.

Otoni parece ser mais uma consequência das desconfianças e decepções com Flávio do que alguém que as instiga. O debate sobre a fragilidade dessa candidatura reverbera dentro da própria direita.

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