Folha de S. Paulo
Deputado é sintoma das desconfianças e
decepções de evangélicos com a campanha de Flávio
Rompimento aconteceu em 2024, quando
ex-presidente não o apoiou para concorrer à Prefeitura do Rio
O principal adversário de Flávio
Bolsonaro entre os evangélicos é um ex-bolsonarista. Na semana
passada, o pastor e deputado Otoni de Paula (PSD-RJ) anunciou uma proposta
ousada: que a direita apoie Lula contra Flávio, caso os dois se
enfrentem no segundo turno.
O PT nunca precisou tanto de apoio para intermediar sua relação com evangélicos. Otoni cumpre essa tarefa melhor do que um pastor de esquerda: por se identificar como conservador de direita, suas falas chegam à massa de pentecostais pobres, que têm se distanciado do PT pelas pautas morais.
Nomes como o cantor
Leonardo Gonçalves e o pastor Paulo Marcelo sacrificaram suas
carreiras ao apoiar Lula em 2022. O que Otoni faz de diferente das lideranças
evangélicas que foram canceladas por desafiar o bolsonarismo?
Para começar, Otoni é íntimo do bolsonarismo.
Foi vice-líder de Bolsonaro no Congresso, fez parte da tropa de choque do
ex-presidente. O rompimento aconteceu em 2024, quando Bolsonaro não o apoiou
para concorrer à Prefeitura do Rio.
Assim como outros evangélicos de direita,
Otoni viveu a experiência de ser escanteado. A própria escolha de Flávio no
lugar de Tarcísio de Freitas —preferido de pastores— exemplifica a percepção de que o bolsonarismo
exige mais do que dá a seus aliados.
Em entrevista, Otoni foi direto:
"Bolsonaro e sua família nunca foram fiéis à igreja. Nunca. Sempre usaram
o povo de Deus como massa de manobra eleitoral, graças ao antipetismo." E
desafia: "Me diga um projeto do governo Bolsonaro que honrou a
igreja."
Otoni também atua em harmonia com uma igreja
influente: o Ministério Madureira da Assembleia de Deus. Foi a única grande
igreja a desafiar o bolsonarismo declarando, ainda em março, apoio
a Ronaldo Caiado.
Outras lideranças das grandes igrejas estão
descontentes com Flávio, mas sofrem agora com a idolatria por Bolsonaro que
elas mesmas cultivaram. O deputado Marco Feliciano e o pastor Silas Malafaia já
expressaram seu desagrado com a atuação de Flávio. Mas não rompem o vínculo.
Otoni é o único que declara publicamente: votar
em Lula é melhor do que eleger um candidato de direita inexperiente e com
ligações suspeitas —como a negociação com o ex-banqueiro investigado Daniel
Vorcaro para investir R$
134 milhões no filme sobre o pai.
Ao declarar apoio a Lula contra Flávio, Otoni
sinaliza que evangélicos podem atuar com autonomia. Ao comunicar isso antes do
primeiro turno, joga limpo com seus eleitores. Abre mão de votos que poderia
ter para não ser acusado de traidor depois.
O desempenho de Otoni pode ajudar a
dimensionar o tamanho da rejeição ao bolsonarismo dentro da direita. Quantos
querem substituir a idolatria a Bolsonaro por competência administrativa.
Otoni parece ser mais uma consequência das
desconfianças e decepções com Flávio do que alguém que as instiga. O debate
sobre a fragilidade dessa candidatura reverbera dentro da própria direita.

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