O Globo
Cultivamos dois grupos intolerantes na
sociedade
Falsa equivalência. Dentre os muitos
vocábulos e expressões que entraram em nosso cotidiano político nestes últimos
dez anos desde o impeachment, essa é uma das mais perigosas. Quando gente de
esquerda saca a frase do bolso, quer dizer, na verdade, que não vem de seu
campo a ameaça de golpe de Estado. E é verdade, não vem mesmo. Mas quem resume
a crise da democracia brasileira ao golpismo do ex-presidente Jair Bolsonaro
não entendeu o tamanho do buraco.
Democracia não se resume a instituições de pé. Deputados batendo ponto na Câmara de terça a quinta, o presidente aparecendo no Planalto de segunda a sexta, e ministros do Supremo Tribunal Federal decidindo processos semanalmente não tornam uma democracia plena. O que faz uma democracia funcionar é a capacidade de a sociedade acreditar nela. E nós, coletivamente, não acreditamos na nossa. Afinal, acreditar numa democracia quer dizer confiar que a maior parte das pessoas, numa sociedade, vota de boa-fé. Vota com as melhores intenções. Vota partindo de valores legítimos, mesmo quando distintos dos nossos. Mais: tem plena capacidade de avaliar as melhores escolhas de acordo com sua leitura de prioridades.
Quantas pessoas de esquerda são capazes de
dizer, de boa-fé, que confiam na decisão dos brasileiros? Não muitas. A
convicção hoje, na esquerda, é que evangélicos são facilmente manipuláveis por
pastores. Quem trabalha como autônomo é engabelado por acreditar que tem chance
de crescer na vida por esforço pessoal. Uma geração que abandonou a CLT não tem
consciência de classe. Sabe como é: pobre de direita. Na contramão de boa parte
da ciência levantada nestes últimos dez anos, ainda há forte crença em que a
desinformação tem papel ativo na escolha dos eleitores. Pois é: parecia que
tinha, mas não tem. Quem repassa o meme da “mamadeira de piroca” sabe que o
governo petista nem sequer cogitou uma medida assim. O repasse das muitas
mentiras, dos xingamentos, tem outra função. Sinaliza identidade política.
Significa mais uma piscadela de um amigo ao outro dizendo “estamos juntos” que
um aviso alarmado.
O mesmo problema existe na direita. Não é, de
forma alguma, exclusivo da esquerda. Mas esse é o mecanismo da polarização
afetiva. Na pesquisa Brasil no Espelho, a Quaest levou aos brasileiros uma
pergunta clássica: você se sentiria infeliz se um filho ou filha se casasse com
alguém do campo adversário? Pois 28% dos bolsonaristas disseram que sim. E 43%
dos eleitores do presidente Lula. (Nos Estados Unidos, quando a pergunta foi
feita pelo Ipsos, 38% em média disseram não gostar da ideia.) Há dois grupos,
no Brasil, que olham com repulsa um ao outro.
O eleitor de Flávio Bolsonaro não é, em sua
maioria, seguidor cego da família. A maioria, aliás, até preferia outro, só não
vê espaço. A maior parte dos evangélicos não decide o voto pelo que o pastor
manda — embora, sim, as conversas dentro da comunidade da igreja tenham
influência. Motoristas de Uber sabem que a vida ao volante é muito dura. Mas
sabem também que a ascensão social não vem pelo tipo de emprego CLT existente
para quem tem ensino médio ou mesmo nível superior de escola desconhecida. Não
existem “os bolsonaristas”.
O que mudou o Brasil profundamente é a classe
C. A classe média baixa sentiu o gosto de ascender e quer mais. Não sabe por
onde conseguir crescimento, mas não acha que virá do governo. (Até porque não
virá mesmo.) Essas pessoas precisam de serviços públicos — segurança, educação,
saúde. E, como usuárias desses serviços, sabem que a entrega tem bem pouca qualidade.
Se existem brasileiros realmente conscientes de o que a vida de verdade é, são
eles.
O que a expressão “falsa equivalência” faz é
bloquear o debate. Enquanto houver o filho de um golpista na sala, ninguém pode
questionar absolutamente nada do outro lado. E, assim, cultivamos dois grupos
intolerantes na sociedade. Um golpista, o outro não, ambos irmãos na completa
incapacidade de olhar com respeito sincero valores divergentes. O que chamamos
de democracia nasceu de dois séculos de católicos e protestantes se odiando
profundamente na Europa. Dois séculos. Foi o que demorou para um descobrir que
não conseguiria expulsar o outro da sala.
Socialistas e conservadores terão de
descobrir, em algum momento, que um não mudará os valores dos outros. Teremos
de aprender a conviver. Nós, democratas, agradeceríamos imensamente se viesse
mais cedo do que tarde.

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