Correio Braziliense
O horário eleitoral gratuito
de rádio e televisão, embora já não tenham o mesmo peso de outras eleições,
será um instrumento de projeção nacional de candidaturas regionais
A realização das convenções eleitorais foi
marcada pela polarização nas eleições à Presidência de República, que está
aberta, com pequena vantagem para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que
pleiteia a reeleição, em relação a Flávio Bolsonaro (PL). Esse cenário
provavelmente se manterá até o início da campanha eleitoral no horário gratuito
de rádio e televisão, em 28 de agosto. Essa data é importante para os demais
candidatos que aspiram um lugar no segundo turno e estão embolados em torno de
3% ou 4% dos votos.
Acontece que os ex-governadores de Goiás Ronaldo Caiado (União) e de Minas Romeu Zema (Novo), por serem menos conhecidos fora de seus estados, até agora não conseguiram nacionalizar suas candidaturas. O horário eleitoral gratuito de rádio e televisão, embora já não tenham o mesmo peso de antes nas eleições, será um instrumento de projeção de suas candidaturas para fora dos dois estados. O raciocínio vale também para o candidato do Missão, Renan Santos, mais conhecido em São Paulo.
Domingo, na convenção do PT, Lula apresentou
sua candidatura como continuidade de seu governo, mas procurou afastar a ideia
de simples repetição. “A minha quarta presidência é para mudar muita coisa
nesse país”, afirmou. Ao tratar das prioridades programáticas, colocou a
educação no centro de um eventual novo mandato: “Sem educação, a gente não
chegará aonde nós temos o direito de chegar.” Também convocou o partido a
preparar uma campanha apoiada nas realizações do governo: “Nós temos time, nós
temos futebol, nós temos o que entregar, nós temos argumento.”
Lula tenta ancorar sua campanha na
experiência, nas políticas sociais e na promessa de renovação. O presidente
sabe que precisa defender os resultados do governo, mas isso não é suficiente.
Ao dizer que não quer ser lembrado apenas pelo Bolsa Família e pelo Brasil
Sorridente, Lula reconhece que sua candidatura necessita apresentar um
horizonte de mudanças. A defesa do legado mobiliza sua base, porém não elimina
as resistências que enfrenta entre eleitores de centro e independentes.
Flávio e Caiado
Flávio Bolsonaro conseguiu absorver os
desgastes da crise interna de sua campanha, com a reaproximação de Michele
Bolsonaro e a equalização dos danos de imagem com o caso Vorcaro. “Está na hora
de virar essa página triste da história do nosso Brasil”, afirmou Flávio na
convenção de seu partido, referindo-se ao governo. Procura capitalizar o
prestígio de Jair Bolsonaro, seu pai: “Sei exatamente o tamanho da
responsabilidade que meu nome carrega.”
A anistia dos condenados e investigados pelos
atos de 8 de janeiro, entre os quais o ex-presidente Jair Bolsonaro, continua
no centro de sua agenda. Seu discurso reúne três elementos: continuidade do
bolsonarismo, crítica ao Judiciário e promessa de mudança econômica e política.
Essa estratégia fortalece sua posição no primeiro turno, mas pode dificultar a
conquista dos moderados.
Ronaldo Caiado procura se diferenciar dos
dois líderes por meio da experiência administrativa e de uma imagem de
autoridade. “Eu sou galo de terreiro, sou acostumado na briga, mas brigo pelo
que interessa ao Brasil”, declarou. Defende o agronegócio como instrumento de
inserção internacional: “É o único país continental que tem a maior área
produtiva do mundo”. Ao afirmar que “quem resolve o problema do Brasil somos
nós”, Caiado rejeita tanto a interferência externa quanto a submissão política
aos dois polos da disputa. A apresentação de Gilberto Kassab como vice garante
estrutura partidária, mas não elimina o risco de cristianização.
Zema e Renan
Romeu Zema adotou um discurso mais ideológico
e diretamente antipetista: “A minha bandeira é estar contra o PT, eu vi o PT
destruir o Brasil”, afirmou. Na área fiscal, resumiu sua mensagem numa frase de
efeito: “Não falta recurso no Brasil, sobra ladrão.” O candidato também colocou
o Supremo Tribunal Federal (STF) no centro de sua campanha, ao dizer que
“alguns ministros do STF são uma vergonha não só para o STF como para o
Brasil”.
O problema de Zema é que a radicalização do
discurso não resultou, até agora, em crescimento eleitoral. Sua experiência em
Minas Gerais continua sendo um ativo, mas não se transformou numa narrativa
nacional que empolgue o eleitor de capaz de direita.
Quem mais se encaixa no figurino de candidato
antissistema é Renan Santos, que centraliza sua campanha na radicalização do
discurso da segurança pública, ao lado da defesa do ajuste fiscal e das
críticas simultânea a Lula e Flávio. Ao apresentar as prioridades iniciais de
seu governo, afirmou: “Os brasileiros precisam sentir nos seis primeiros meses
uma queda nos juros, um aumento no poder de compra e a redução do medo de sair
na rua.”
Apesar disso, reconhece que, em regiões sem atividade econômica, “o Bolsa Família se torna uma necessidade”. As duas frases mostram uma candidatura que tenta reunir liberalismo econômico, endurecimento na segurança e manutenção temporária da proteção social. Entretanto, o tom agressivo empregado contra Lula, Flávio e o crime organizado pode não sair da sua bolha, em vez de ampliar sua aceitação junto ao eleitorado moderado.

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