terça-feira, 15 de setembro de 2026

A batalha do Supremo e a exaustão do eleitor, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A sessão desta terça não é a de um processo judicial mas de uma disputa política

Em uma semana, o grupo formado pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes, transformou o clima de linchamento em praça pública deste último num ambiente em que também pairam suspeitas de partidarismo na atuação do ministro André Mendonça.

Vem daí a aposta de que agirão no limite para evitar que a sessão desta terça siga o rito anunciado: leitura do relatório do caso pelo presidente do STF, manifestação da Procuradoria-Geral da República, defesa de Moraes e a apresentação do primeiro voto, de Edson Fachin, que também é do relator. Este é o rito para uma corte judicial. O que se verá nesta terça é uma sessão política.

Ao acolher todos os pedidos de quebra de sigilo, Fachin tentou equilibrar sua decisão de deixar a investigação de Mendonça proposta por Moraes, para a sessão do dia 23, mas acabou franqueando prerrogativas que são suas.

Já esticou mais a corda do que pretendia, como na decisão de avocar a troca de mensagens entre Moraes e Daniel Vorcaro, mas o fez, na avaliação de Oscar Vilhena (FGV), um dos arregimentadores da carta de apoio a Fachin divulgada neste domingo, para proteger a integridade do tribunal.

Não há muita dúvida de que o presidente do STF se manifestará pela abertura da investigação. Conta, para isso, com manifestos tão amplos quanto aqueles que, em 2022, se opuseram ao golpismo.

Entre os signatários da carta deste domingo, estão presidentes de todas as centrais sindicais, da CUT à UGT, e um rol que vai de André Lara Resende a Marcos Mendes, de Cristina Pinotti a Luiz Felipe Alencastro, de Josué Gomes da Silva a Luis Stuhlberger. São pessoas que se colocariam em lados opostos em quase tudo, mas subscreveram uma carta pela apuração dos fatos e pela responsabilização dos que violaram a lei e a dignidade de seus cargos.

A despeito de tudo isso e dos 13 ex-ministros do STF que estarão perfilados na primeira fila da Corte, Fachin terá dificuldade de atravessar o mar de preliminares para chegar a seu voto. Na condição de investigado, Moraes teria que se afastar da Corte, desfalcando sua turma no confronto com a de Mendonça. As decisões tomadas por Dino no domingo e nesta segunda podem ser lidas como uma tentativa de mostrar que, se a turma de Moraes ficar desfalcada, a do outro lado agirá para dar vitória ao candidato do PL à Presidência e senador Flávio Bolsonaro.

Dino fez isso com a decisão que abriu o sigilo do “Dark Horse” e, principalmente, com a desta segunda que autorizou operação de busca e apreensão em imóveis do deputado federal, Cezinha de Madureira (PL-SP). A partir da quebra de sigilo da ex-assessora da Câmara, Mariângela Fialek, alvo de outra operação no âmbito das emendas parlamentares, mostrou como o deputado agia, supostamente a soldo, para influenciar decisões em tribunais superiores.

A decisão expõe a articulação de Cezinha para a visita do banqueiro Daniel Vorcaro ao instituto de Mendonça, em São Paulo, já reconhecida pelo ministro, e a aposta do deputado e de Fialek de que a pressão sobre o ministro Kassio Nunes resultaria em votos favoráveis aos seus clientes. Da busca e apreensão nos imóveis do deputado poderão chegar a um outro caso, o do Master.

Há relatos de que o deputado chegou a despachar, em São Paulo, no escritório de Daniel Bialski, um dos mis recentes advogados de Daniel Vorcaro. Bialski é advogado da Assembleia de Deus e de um de seus principais pastores, Samuel Ferreira, se diz amigo do deputado, mas nega que tenha cedido o escritório a Cezinha.

A quebra de sigilo já autorizada e ainda em curso, dos pagamentos efetuados por Vorcaro, concretizará a transformação do Master de caso criminal em comissão da verdade, dada a amplitude de personagens, da política e do Judiciário, a serem atingidos. O imperativo eleitoral faria prevalecer o esclarecimento sobre o que aconteceu e quem esteve envolvido, em detrimento da possibilidade de se processarem punições de um caso tão amplo.

A distopia escancarada pela disputa política em curso no STF é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem buscado se distanciar de Moraes (“Quem quiser ficar rico não pode ir para o STF”) e tem adotado um discurso mais agressivo contra Flávio Bolsonaro associando-o mais diretamente ao Master. Lula queria transformar esta campanha num plebiscito sobre seu governo, mas foi convencido de que não tinha alternativa. A Quaest desta segunda, porém, mostrou que não tem se beneficiado nem de uma nem de outra investida.

A despeito disso, petistas que estão na linha de frente da eleição, como a ex-prefeita de Contagem (MG) e candidata que lidera a disputa ao Senado em seu Estado, Marilia Campos (PT), não vê alternativa. Os programas e obras do governo foram, paulatinamente, sendo apropriadas pela oposição. E, assim, a associação de Lula com feitos de seu governo, diz, já esbarrou no teto.

A crítica mais pesada a Flávio também tem um limite porque o eleitor bolsonarista, na avaliação de quem está todo dia na rua pedindo voto, não acredita na honestidade do senador do PL mas desgosta da conciliação do petismo com corruptos. Daí porque não restaria alternativa a Lula senão se afastar de Moraes. A dúvida é sobre o impacto, sobre um eleitor já exausto pelo endividamento, de uma sucessão de decisões confusas e conflituosas deste caso.

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