O Globo
Segundo a pesquisa Quaest, o atual presidente
perdeu tração no público feminino, que foi decisivo na disputada eleição
passada
O presidente Lula está perdendo seu maior trunfo: as mulheres. Na pesquisa Quaest mais recente, em que ele reduz consistência em vários dos segmentos nos quais sempre venceu, um dado salta aos olhos. Hoje há um empate entre as mulheres quando perguntadas do que elas têm mais medo, se da reeleição de Lula ou da volta de Bolsonaro. Em um mês caiu de 49% para 42% as que têm medo da volta dos Bolsonaro, e subiu de 36% para 42% o medo da reeleição do Lula. Há um empate no medo.
Esse movimento no eleitorado feminino fez com
que, pela primeira vez, no geral o temor da volta dos Bolsonaro fosse 42%,
menor do que o da reeleição de Lula, 44%. Isso é visível em outros pontos da
pesquisa. A intenção do voto feminino em Flávio
Bolsonaro saiu de 26% para 29% no primeiro turno. Lula está
estável na pesquisa do primeiro turno oscilando positivamente de 36% para 37%,
mas cai no segundo turno. Nas últimas três pesquisas foi de 45% para 43% para
41% a intenção de voto feminino em Lula.
O que alimentou o medo das mulheres em
relação aos Bolsonaro foram fatos concretos. O incentivo às armas, as falas
misóginas, as ofensas às mulheres, a política contra a proteção à vida durante
a pandemia. Foram muitas as cenas de selvageria de Jair Bolsonaro quando a
interlocutora era uma mulher. Isso pesou em 2022 para o resultado favorável a
Lula.
A campanha de Flávio Bolsonaro não tem
qualquer mudança importante de política e orientação em relação à do seu pai,
mas na propaganda ele se concentrou na retórica de defesa das mulheres. Isso
tem dado certo, ainda que no seu grupo político haja até quem defenda o fim do
voto feminino. O debate tem sido encoberto pela propaganda que se apresenta
como de defesa das mulheres. A queda do medo, entre as mulheres, da volta de um
Bolsonaro ao poder é considerada como um fator determinante, pelo papel que
esse eleitorado teve na última eleição.
Lula tem perdido consistência em outros
setores que sempre dominou. O presidente perdeu intenção de votos, de 47% para
43% entre os pretos, oscilou negativamente de 38% para 37% entre os pardos.
Caiu de 49% para 45% entre os eleitores com até dois salários mínimos.
A três semanas da eleição, o debate público
está dominado pela crise do Supremo Tribunal Federal que terá hoje um dia
decisivo. Mesmo assim, não é isso que move o voto: 67% dos eleitores ouvidos
pela Quaest disseram que a crise no STF não influenciará seu voto e apenas 7%
admitem que a crise pode levá-los a mudar o voto. Quando perguntados a quem a crise
afeta negativamente, 46% dizem que “todos eles”, 17% dizem que é o STF — sendo
que só 5% avaliavam que afetava o Supremo na pesquisa de julho — 15% dizem que
é a família Bolsonaro, e 9% o governo Lula.
Essa parte da pesquisa surpreende pela pouca
influência que os eleitores dizem que ela terá na sua decisão de voto, e
porque, consultados, eles têm ideias muito majoritárias sobre que mudanças
gostariam de ver numa possível reforma do STF.
Saltou de 46% para 56% os que não confiam no
Supremo e isso se soma aos 30% que dizem confiar pouco. Porém 68% se dizem a
favor de mudanças que aumentem as exigências para ser ministro, como elevação
da idade mínima e maior experiência. Dos entrevistados, 53% são a favor de se
criar um código de ética e haver mandato para os ministros. O brasileiro, ainda
que abalado em sua confiança institucional no Supremo, quer que ele seja
reformado. E não fechado, como o bolsonarismo defendeu algumas vezes.
O dia de hoje será inédito, o Brasil estará
vendo pela primeira vez o Supremo Tribunal Federal tomar decisão a respeito de
abrir ou não uma investigação contra um de seus ministros. Alexandre de
Moraes estará no centro desse debate, pela natureza das
mensagens enviadas a ele pelo banqueiro corruptor Daniel Vorcaro.
Nos últimos e tensos dias, o ministro
Luiz Edson Fachin fez
movimentos precisos e decisivos para chamar a si a responsabilidade da solução
da crise de dimensões históricas que se abateu sobre o STF. Fachin decidiu pela
suspensão do sigilo que o ministro André
Mendonça preferia manter, chamou a si o comando do julgamento
de hoje e assumiu as relatorias dos casos Master, INSS e Inquérito das Fake
News.
A democracia brasileira ainda caminha sobre
gelo fino. Os que defenderam e comandaram a tentativa de golpe de Estado de 8
de janeiro avançam nas pesquisas. É perigoso não perceber os sinais do vento.

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