Valor Econômico
Simulação de segundo turno é ponto de
partida, e não de chegada
Aumentou a chance do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
vencer as eleições presidenciais deste ano. A pesquisa
Quaest divulgada na segunda-feira (14) mostrou diversos vetores
indicam para o cenário de sua vitória. O mesmo levantamento, contudo, indica
que a rejeição a seu nome não cede, o que faz com que a eleição ainda esteja em
aberto.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) permaneceu no patamar de 36% na simulação de primeiro turno, com crescimento de Flávio de 29% para 31%. Em julho, esta diferença era de 40% a 28%. Na simulação de segundo turno entre os dois, Lula recuou pela quinta vez consecutiva, pontuando em 40%, ante 42% de Flávio.
De acordo com a Quaest, considerando a margem
de erro, Lula pode não ganhar absolutamente nada entre um turno e outro e
Flávio ficar com cerca de dois terços da soma dos adversários, que atingem 16%.
Considerando o noticiário que impera no Brasil desde que uma onda de vazamentos
seletivos lançou suspeitas de tráfico de influência sobre o filho do
presidente, o empresário Fábio
Luís Lula da Silva, conhecido como “Lulinha”, a ascensão da
corrupção como grande preocupação nacional está sendo letal para Lula, que já
vinha com uma avaliação de governo claudicante desde o fim das eleições
municipais de 2024. A corrupção é citada como chaga por 22% dos pesquisados no
levantamento da Quaest. Estava em 14% há um mês.
A condição de Flávio Bolsonaro como
formalmente investigado no caso Master, tornada
pública na sexta-feira (11), é notícia recente para impregnar a pesquisa de
agora e está meio perdida em meio ao tumulto que convulsiona o Supremo Tribunal Federal (STF),
onde o ministro Alexandre
Moraes também é suspeito de manter relação com o
ex-banqueiro Daniel
Vorcaro.
O desprestígio do Supremo — 56% dos
pesquisados não confiam no STF — agrava a situação de Lula, dado que Moraes foi
o protagonista da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, e ser filho de Jair é a única
credencial de Flávio para a disputa.
O que reveste o senador de favoritismo é o
fato de aparentemente ter cauterizado o impacto do caso Master depois que o
ministro André Mendonça,
relator de investigações no Supremo, mudou a pauta do país e paralisou a
discussão eleitoral. Flávio retorna às mesmas posições do tabuleiro em abril,
antes de vir à tona o áudio em que pede dinheiro para Vorcaro. Em abril, a
diferença entre os dois na simulação de primeiro turno na Quaest também era de
cinco pontos percentuais. Lula tinha 37% e Flávio 32%, os adversários somavam
15%. No segundo turno, igualdade com o escore atual.
O principal dado a favor de Flávio é a
avaliação do governo Lula, que não sobe, contrariando uma regra com
candidaturas de incumbentes, que sempre veem a aprovação aumentar à medida em
que a campanha eleitoral avança. Na fotografia de abril, o governo Lula era
aprovado por 43%. Cinco meses depois, continua em 43%. A desaprovação teve uma
leve oscilação de 52% para 50%. Se a fotografia é ruim para Lula, o filme é
pior. De março a julho, na fase pré-escândalo como eixo narrativo do país, a
aprovação vinha melhorando, e chegou a ser maior que a desaprovação: 48% a 47%.
De julho pra cá, fase pós-escândalo, restabeleceu-se o cenário de abril.
Há um marco zero desta reversão que tende a
levar à derrota de Lula. O momento inaugural foi no dia 1 de agosto, quando se
tornou público que o então secretário particular do presidente, Marco Aurélio
Santana, conhecido como Marcola, prestou favores à lobista Roberta Luchsinger
depois de aceitar repasses financeiros.
Neste momento é possível dizer que Flávio já
pode se preocupar em definir o rito da posse e escalar o ministério? Não. Um
dos quadros da Quaest indica que a eleição ainda não está definida. A rejeição
a Flávio Bolsonaro não recua: está em 55%, três pontos percentuais acima do que
tinha em abril. E o seu potencial de voto, ou seja, o índice daqueles que
admitem a possibilidade de votar no candidato, cresce lentamente, se situando
no momento em 43%, com 2% de desconhecimento. Em abril, no seu melhor momento
nas pesquisas, tinha 39%, com 9% de desconhecimento. Já no caso de Lula a
rejeição é idêntica a de Flávio, no mesmo percentual de abril, mas o potencial
de voto é de 45%.
Flávio não conta mais com a mesma blindagem no
Supremo, dado que as circunstâncias obrigaram André Mendonça a revelar que, no
sigilo, sem que nada vazasse, ele vinha sendo investigado.
Muito destaque se dá ao resultado da
simulação de segundo turno, mas ele está marcado para 25 de outubro, e não para
o dia 4. O cruzamento da simulação atual com a de potencial de voto indica que,
faltando um mês e meio para a rodada decisiva, Flávio está no teto de sua
potencialidade máxima, ou muito próximo disso, e Lula abaixo desse limiar. O
erro de igualar em importância o resultado de segundo turno e o de primeiro
turno em uma pesquisa é ignorar que há 21 dias entre uma baliza e a outra. A
simulação de segundo turno é ponto de partida, e não de chegada.

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