Folha de S. Paulo
Escolha de Janja como porta-voz expõe a falta
de afinidade do partido com o segmento
A Quaest apresentou Flávio Bolsonaro pela primeira vez à
frente. Se Lula for
derrotado em outubro, uma parte da responsabilidade será do PT, que, pela terceira
vez, terá perdido a oportunidade de dialogar com os 26,9% de evangélicos
brasileiros.
Nada mudou no desempenho do PT desde a
derrota de Fernando Haddad em 2018. A pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 8 de setembro, aponta que Flávio
Bolsonaro abriu 18 pontos sobre Lula entre evangélicos no primeiro turno. Em um
eventual segundo turno, Flávio marca 58%, e o presidente, 31%.
Quais foram os pecados do partido em relação a evangélicos? A direção não tem afinidade nem simpatia pelo segmento e permite que ele seja tratado de maneira amadora. Não existe um nome no partido com poder de decisão para ser cobrado por seu desempenho.
O PT tem o Setorial Inter-religioso e o
Núcleo de Evangélico do
PT (Nept) como interfaces para dialogar com esse grupo. O trabalho dos dois é
discreto e sem ousadia. Neste momento, eles distribuem santinhos eletrônicos, que são imagens com mensagens como
"Sou evangélico e voto em Lula" e "Fé não tem partido".
Há também a Frente Evangélicos pelo Estado de
Direito, um coletivo de pastores e teólogos progressistas com acesso ao
presidente e à primeira-dama. Representam igrejas pequenas e são mais
influentes no Rio de Janeiro. Por esses motivos, sua mensagem não chega ao
crente comum espalhado pelo país.
O nome mais conhecido e de confiança do
presidente para lidar com evangélicos é um católico. Ex-chefe da
Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto de Carvalho já trabalhou para
representar Lula e costurar diálogos institucionais do governo com grandes
pastores e suas denominações.
O maior exemplo do amadorismo do PT para
lidar com o segmento é a atuação da primeira-dama, Janja da
Silva, como porta-voz informal da campanha para dialogar com mulheres
evangélicas.
Janja é feminista —um termo rejeitado em
igrejas, inclusive por mulheres— e se apresenta como representante das
religiosidades de matriz afro, o grupo politicamente mais distante do movimento
evangélico.
Apesar disso, Janja aparece cantando um
jingle de inspiração gospel desde o lançamento da campanha, em agosto. E, na
semana passada, pegou carona no debate sobre o ministro André Mendonça para
chamar Lula de "verdadeiro ungido de Deus".
É um vocabulário que ela não domina, e o
gesto soa oportunista e eleitoreiro. Essas aparições públicas, falando como se
fosse crente, dão origem a material negativo espalhado pela candidatura
adversária.
Na semana passada, o Datafolha registrou
que a crise no STF não muda o
voto da maioria dos eleitores. A menos que surja algo muito
grave, teremos Flávio e Lula no segundo turno, com eleitores evangélicos
escolhendo o vencedor.
O que resta ao PT é esperar que haja alguma
denúncia que exponha seu adversário no quesito moral. É a única coisa que, a
esta altura do campeonato, desestimularia evangélicos a votar nele nesta
eleição.

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