terça-feira, 15 de setembro de 2026

PT erra com evangélicos pela terceira eleição consecutiva, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Escolha de Janja como porta-voz expõe a falta de afinidade do partido com o segmento  

Quaest apresentou Flávio Bolsonaro pela primeira vez à frente. Se Lula for derrotado em outubro, uma parte da responsabilidade será do PT, que, pela terceira vez, terá perdido a oportunidade de dialogar com os 26,9% de evangélicos brasileiros.

Nada mudou no desempenho do PT desde a derrota de Fernando Haddad em 2018. A pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 8 de setembro, aponta que Flávio Bolsonaro abriu 18 pontos sobre Lula entre evangélicos no primeiro turno. Em um eventual segundo turno, Flávio marca 58%, e o presidente, 31%.

Quais foram os pecados do partido em relação a evangélicos? A direção não tem afinidade nem simpatia pelo segmento e permite que ele seja tratado de maneira amadora. Não existe um nome no partido com poder de decisão para ser cobrado por seu desempenho.

O PT tem o Setorial Inter-religioso e o Núcleo de Evangélico do PT (Nept) como interfaces para dialogar com esse grupo. O trabalho dos dois é discreto e sem ousadia. Neste momento, eles distribuem santinhos eletrônicos, que são imagens com mensagens como "Sou evangélico e voto em Lula" e "Fé não tem partido".

Há também a Frente Evangélicos pelo Estado de Direito, um coletivo de pastores e teólogos progressistas com acesso ao presidente e à primeira-dama. Representam igrejas pequenas e são mais influentes no Rio de Janeiro. Por esses motivos, sua mensagem não chega ao crente comum espalhado pelo país.

O nome mais conhecido e de confiança do presidente para lidar com evangélicos é um católico. Ex-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto de Carvalho já trabalhou para representar Lula e costurar diálogos institucionais do governo com grandes pastores e suas denominações.

O maior exemplo do amadorismo do PT para lidar com o segmento é a atuação da primeira-dama, Janja da Silva, como porta-voz informal da campanha para dialogar com mulheres evangélicas.

Janja é feminista —um termo rejeitado em igrejas, inclusive por mulheres— e se apresenta como representante das religiosidades de matriz afro, o grupo politicamente mais distante do movimento evangélico.

Apesar disso, Janja aparece cantando um jingle de inspiração gospel desde o lançamento da campanha, em agosto. E, na semana passada, pegou carona no debate sobre o ministro André Mendonça para chamar Lula de "verdadeiro ungido de Deus".

É um vocabulário que ela não domina, e o gesto soa oportunista e eleitoreiro. Essas aparições públicas, falando como se fosse crente, dão origem a material negativo espalhado pela candidatura adversária.

Na semana passada, o Datafolha registrou que a crise no STF não muda o voto da maioria dos eleitores. A menos que surja algo muito grave, teremos Flávio e Lula no segundo turno, com eleitores evangélicos escolhendo o vencedor.

O que resta ao PT é esperar que haja alguma denúncia que exponha seu adversário no quesito moral. É a única coisa que, a esta altura do campeonato, desestimularia evangélicos a votar nele nesta eleição.

 

 

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