O Povo (CE)
O que nos restou foi o testemunho de um
debate que teve pouco de valor jurídico e que mostrou o quão grave é a crise
ética que se abate sobre o STF como um todo. Levará muito tempo e um grande
esforço para reconstruir o plenário
A sessão do Supremo Tribunal Federal da
última terça-feira foi um melancólico momento histórico. Observamos, num
intervalo de horas, o ápice de um ciclo de decadência da corte suprema do país. Trata-se de uma
afirmação arriscada tanto política como eleitoralmente, mas é preciso admitir a
crise ética diante de nós.
Como tribunal composto por pares sem hierarquia entre si, o STF depende, para funcionar bem, mais do respeito tácito entre seus juízes do que do exercício da coerção por um presidente. Por isso, diante de uma disputa fratricida entre seus ministros, em que duas alas se mostram tão inflamadas, um presidente pode pouco, especialmente se se tratar de uma pessoa conhecida pela serenidade e fleuma, como o ministro Edson Fachin.
Dada a precocidade das investigações, dada a
irregularidade do rito, o ideal seria que a sessão não fosse marcada, porque
nada estava amadurecido para ser debatido e julgado. Cedendo à pressão, Fachin
acabou por dar palco para a cena que vimos: uma arena de luta hostil entre os
dois grupos, com a ala de Moraes, Mendes e Dino em vantagem em termos
estratégicos.
Por isso, o placar diz muito pouco sobre o resultado
efetivo: diante de uma avalanche de questões formais mal resolvidas, era
natural que o grupo explorasse durante o julgamento os aspectos relacionados à
ordem. Os ministros, mais afiados tecnicamente, aproveitaram bem a oportunidade
de falar antes dos seus antagonistas, algo que o presidente, por si, não tinha
o poder de controlar. Mendes, Moraes e Dino se sucederam por boa parte da manhã
e tarde explorando, ponto por ponto, fragilidades que beneficiavam seus
interesses, ao mesmo tempo em que escamotearam questões importantes, como o
impedimento de Moraes para julgar questão em que figura como diretamente
interessado.
Acuados, tanto pelas fragilidades formais
como pela veiculação de notícias nas horas anteriores, Fux e Mendonça viram Kássio
Nunes Marques abandonar o palco, declarando um impedimento por motivação um
tanto esdrúxula. Os três, cujos contatos com Daniel Vorcaro têm sido
especulados pela mídia a partir do levantamento do sigilo do material coletado
pela PF, mostraram-se no mínimo constrangidos diante de uma ala extremamente
confortável na posição de acirrar os ânimos e o debate.
O que nos restou foi o testemunho de um
debate que teve pouco de valor jurídico e que mostrou o quão grave é a crise
ética que se abate sobre o STF como um todo. Levará muito tempo e um grande
esforço para reconstruir o plenário. Para que as decisões não sejam
contaminadas pela descrença e pela suspeição. A autoridade é uma força que leva
tempo para conquistar e que pode, num ato coletivo de irresponsabilidade,
facilmente se diluir.

Um comentário:
Muito bom! CartaCapital poderia aprender um pouco com esta menina. Mas a arrogância e a ideologia arraigadas impedem qualquer mudança positiva naquela publicação.
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