Folha de S. Paulo
É preciso parar de tratar o assunto como a
história de um filme ou a discussão sobre as inconsistências no seu
financiamento
Coisas parecem claras ao pensar em caso como
caixa 2 para desviar dinheiro que Vorcaro roubava dos aposentados para
financiar uma tentativa de golpe
Novas evidências sugerem que "Dark Horse"
foi o caixa 2 do tarifaço.
Eduardo
Bolsonaro foi para os Estados
Unidos na mesma época em que começaram os pagamentos de Daniel
Vorcaro para o caixa do filme. Até pouco tempo antes, como mostrou
reportagem de Breno Pires na revista piauí de setembro, os esforços de captação de
recursos para "Dark Horse" haviam tido pouco sucesso.
Reportagem de Leticia Casado para o UOL em 13 de setembro mostrou que, no celular de Daniel Vorcaro, havia uma mensagem do publicitário Thiago Miranda com o texto "Flavio B e Eduardo querem marcar uma agenda com vc. Filme".
A mensagem foi enviada em 13 de março de 2025
às 9h34. Duas horas depois, às 11h37, Eduardo postou em suas redes sociais que
faria uma live para anunciar sua mudança definitiva para os Estados Unidos.
Ao que tudo indica, Eduardo Bolsonaro só
decidiu se estabelecer definitivamente nos Estados Unidos quando ficou acertado
que a grana de Vorcaro continuaria chegando.
A história de Eduardo Bolsonaro com o Master
merece ser mais bem conhecida.
Matéria de 12 de junho da coluna da
jornalista Malu Gaspar mostrou fortes indícios de que Eduardo Bolsonaro
trabalhava pelo Master por
meio do deputado Filipe Barros (PL-PR), seu sucessor na presidência da
Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara
dos Deputados.
Sob a presidência de Barros, a comissão foi
utilizada para intimidar autoridades que ameaçavam o Master, um tema
completamente alheio à sua área de atuação. Filipe Barros também é o autor do
Projeto de Lei nº4395/2024, que ampliava o limite de cobertura do FGC como
forma de tentar salvar o Master.
Em julho de 2025, o jornalista João Batista
Jr., da revista piauí, perguntou a Eduardo quem pagava seus vôos de primeira
classe nos Estados Unidos. Eduardo respondeu: "um amigo do amigo do meu
pai".
É preciso parar de tratar "Dark
Horse" como a história de um filme, como uma discussão sobre as
inconsistências de seu financiamento, sobre a trajetória inexplicável do
dinheiro pelos Estados Unidos ou sobre o valor ridiculamente superfaturado de
absolutamente tudo que envolveu sua produção.
Isso tudo parece mal explicado se você
estiver pensando em um filme. Se você estiver pensando em um caixa 2 para
desviar dinheiro que Vorcaro roubava dos aposentados brasileiros para financiar
uma tentativa de golpe de Estado com ajuda de potência estrangeira, as coisas
parecem surpreendentemente claras.
Os R$ 130 milhões de Vorcaro são dinheiro
demais para fazer um filme picareta com Jim
Caviezel de peruca do Zacarias. É dinheiro demais para sustentar mesmo a
vida luxuosa que Eduardo Bolsonaro leva nos Estados Unidos. Mas pode ser um
valor adequado para pagar lobistas e comprar acesso aos escalões superiores do
governo
Trump. O lobby, vale dizer, é permitido pela lei americana.
Os detalhes da operação ainda serão
esclarecidos pela investigação policial em curso. Mas tudo sugere que
"Dark Horse" é o ponto de contato entre os dois grandes temas da
eleição presidencial de 2026: o Banco Master
e a conspiração com potência estrangeira para estrangular a economia
brasileira, dois dos maiores crimes na extensa ficha policial do bolsonarismo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário