Folha de S. Paulo
Livro mostra equívocos de idealizações de
inspiração liberal
Autora defende intervenções ambientais para mudar mentalidades
Faço algumas restrições a "Don't Talk About Politics", de Sarah Stein Lubrano, mas o livro é muito bom. É um banho de ciência cognitiva. Recorrendo a exemplos da literatura psicológica e da vida real, ela mostra que várias das nossas idealizações sobre política estão erradas. A esfera pública não é um "mercado de ideias" do qual sempre saem vencedores os melhores argumentos, e o cidadão não é um ator racional que se deixa persuadir por fatos e por lógica.
Nossas crenças e preferências políticas têm
origem em processos sociais que nem sempre receberam a devida atenção de
teóricos do liberalismo. Não tenho como discordar do principal da argumentação
da autora, mas penso que, no afã de decretar a morte do liberalismo –o livro
tem essa pegada bem de esquerda—, ela acaba recorrendo à falácia do espantalho.
Já faz décadas que cientistas políticos
deixaram de considerar o eleitor como modelo de racionalidade sem que fosse
necessário sacrificar princípios do liberalismo clássico como a liberdade de
expressão e a própria noção de esfera pública de Habermas, que seguem
funcionando, normativamente e como aproximações teóricas. Uma ideia de esquerda
vencedora, como a de que é errado discriminar homossexuais, triunfou entre
outras razões porque passou um tempo sendo testada no mercado de ideias.
O que Lubrano defende então? Ela acha que o
melhor modo de mudar mentalidades é criando ambientes em que as pessoas possam
interagir de modo construtivo, o que lhes permite superar preconceitos e a
polarização. Ela acerta em algo aí. Anos atrás li um artigo que me
impressionou. Dizia que um dos motivos do aprofundamento da cisão entre
congressistas democratas e republicanos nos EUA é
que, com a maior facilidade de viagens aéreas, eles deixaram de levar suas
famílias para morar em Washington.
Regressavam a seus estados nos fins de
semana. Com isso, seus filhos deixaram de ser colegas de escola e as famílias
deixaram de frequentar os mesmos churrascos de sábado. Ficou fácil se demonizarem.
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