domingo, 20 de setembro de 2026

Não fale sobre política, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro mostra equívocos de idealizações de inspiração liberal

Autora defende intervenções ambientais para mudar mentalidades

Faço algumas restrições a "Don't Talk About Politics", de Sarah Stein Lubrano, mas o livro é muito bom. É um banho de ciência cognitiva. Recorrendo a exemplos da literatura psicológica e da vida real, ela mostra que várias das nossas idealizações sobre política estão erradas. A esfera pública não é um "mercado de ideias" do qual sempre saem vencedores os melhores argumentos, e o cidadão não é um ator racional que se deixa persuadir por fatos e por lógica.

Nossas crenças e preferências políticas têm origem em processos sociais que nem sempre receberam a devida atenção de teóricos do liberalismo. Não tenho como discordar do principal da argumentação da autora, mas penso que, no afã de decretar a morte do liberalismo –o livro tem essa pegada bem de esquerda—, ela acaba recorrendo à falácia do espantalho.

Já faz décadas que cientistas políticos deixaram de considerar o eleitor como modelo de racionalidade sem que fosse necessário sacrificar princípios do liberalismo clássico como a liberdade de expressão e a própria noção de esfera pública de Habermas, que seguem funcionando, normativamente e como aproximações teóricas. Uma ideia de esquerda vencedora, como a de que é errado discriminar homossexuais, triunfou entre outras razões porque passou um tempo sendo testada no mercado de ideias.

O que Lubrano defende então? Ela acha que o melhor modo de mudar mentalidades é criando ambientes em que as pessoas possam interagir de modo construtivo, o que lhes permite superar preconceitos e a polarização. Ela acerta em algo aí. Anos atrás li um artigo que me impressionou. Dizia que um dos motivos do aprofundamento da cisão entre congressistas democratas e republicanos nos EUA é que, com a maior facilidade de viagens aéreas, eles deixaram de levar suas famílias para morar em Washington.

Regressavam a seus estados nos fins de semana. Com isso, seus filhos deixaram de ser colegas de escola e as famílias deixaram de frequentar os mesmos churrascos de sábado. Ficou fácil se demonizarem.

 

 

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