quinta-feira, 24 de abril de 2014

Auditoria mostra que US$ 10 milhões saíram de conta de Pasadena com autorização verbal

Operação estava programada e analisou o controle, a gestão e a comercialização do estoque de óleo da refinaria

Vinicius Sassine, Chico de Gois, Danilo Fariello - O Globo

BRASÍLIA - Uma auditoria realizada pela própria Petrobras na refinaria de Pasadena, no Texas, descobriu um saque de US$ 10 milhões feito apenas com uma autorização verbal, sem qualquer registro em documento, como mostra relatório confidencial obtido pelo GLOBO. A auditoria estava programada e analisou o controle, a gestão e a comercialização do estoque de óleo da Pasadena Refining System Inc. (PRSI).

O pente-fino da Gerência de Auditoria de Abastecimento da Petrobras revelou a existência de um saque de US$ 10 milhões em 5 de fevereiro de 2010, sem documento que o autorizasse. Naquele ano, as sócias Petrobras América e Astra Oil, companhia belga, travavam uma disputa judicial sobre a aquisição, pela empresa brasileira, dos 50% remanescentes das ações. A joint venture original foi firmada entre as empresas em 2006.

A compra de Pasadena, que resultou em um gasto total de US$ 1,2 bilhão, e a afirmação da presidente Dilma Rousseff de que se baseou num parecer “falho e incompleto” para aprovar a aquisição, desencadearam uma crise no governo e uma movimentação pela instalação de CPI no Congresso. Dilma era presidente do Conselho de Administração da Petrobras na ocasião da compra.

O relatório de auditoria sobre o estoque de óleo é o R-1111/2010, elaborado pela Gerência de Auditoria de Abastecimento, com data de 29 de março de 2011. O episódio do saque está descrito no item 3: “Falta de autorização documental para saque em corretora”. Os US$ 10 milhões foram retirados da conta da refinaria numa corretora, a MF Global, que entrou com pedido de falência em 2011.

“A falta de documentação prejudica o controle e acompanhamento de transações”, cita o relatório.

“A autorização verbal, conforme informação da unidade, não encontra amparo em norma interna nem nas boas práticas de controle interno”, conclui.

Os auditores recomendam, então, que a gestão da refinaria de Pasadena passe a formalizar e arquivar a documentação referente aos saques feitos em contas mantidas em corretoras. Conforme a resposta da PRSI, incluída no relatório, ficou acordado com a área financeira que não haveria mais “nenhuma autorização de pagamento ou movimentação financeira de forma verbal”. Para a movimentação de dinheiro da conta da refinaria, passaria a ser necessária uma formalização por meio de documentos de suporte ou comunicação por escrito.

O documento confidencial da Petrobras não detalha quem fez o saque nem o destino e a finalidade do dinheiro. O GLOBO questionou a Petrobras sobre os responsáveis pelo saque e sobre a recorrência da prática de movimentação de dinheiro na refinaria de Pasadena apenas com base numa ordem verbal. Por meio da assessoria de imprensa, a estatal disse que aguarda a conclusão dos trabalhos da comissão interna instaurada neste ano para investigar as condições da aquisição da refinaria. Enquanto isso, a empresa não faz nenhum comentário sobre as irregularidades detectadas.

A compra dos estoques de óleo de Pasadena alimenta suspeitas sobre as condições do negócio, que passou a ser investigado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pelo Tribunal de Contas da União, pela Controladoria Geral da União e pela própria Petrobras. Somente os estoques de óleo custaram US$ 343 milhões à estatal brasileira, levando-se em conta os valores desembolsados nas duas etapas da compra. Toda a refinaria saiu por US$ 1,2 bilhão. A Astra adquiriu o empreendimento em janeiro de 2005 por R$ 42,5 milhões, valor contestado pela Petrobras.

A auditoria se concentrou na gestão dos produtos. Entre janeiro e agosto de 2010, conforme o levantamento, o faturamento chegou a US$ 2,2 bilhões, equivalentes a 4,2 bilhões de litros de óleo.

A investigação analisou a movimentação de petróleo, gasolina e óleo diesel. “O grande número de processos e rotinas manuais, e a utilização de sistemas não integrados, são pontos críticos de controle quanto à qualidade das informações relativas aos estoques. As divergências nessas informações têm ocasionado uma série de lançamentos de estornos que podem prejudicar a gestão da atividade na companhia”, registra o relatório.

Segundo os auditores, práticas internacionais estabelecem que os tanques de armazenamento de produtos devem ser arqueados (medidos, para que se saiba a quantidade de produto armazenada) em intervalos de dez a 15 anos, ou após reparos. Alguns tanques da refinaria de Pasadena tiveram a última arqueação nas décadas de 1970 e 1980. Um deles foi arqueado em abril de 1970, 40 anos antes da realização da auditoria. “A situação pode causar prejuízo à informação de estoques e incertezas nas medições para faturamento, havendo risco de perda financeira para a companhia”, cita o documento.

"Divergência de US$ 2 milhões"
Outro problema detectado é a existência de operações simultâneas de recebimento e envio de produtos, supostamente em razão da falta de espaço para armazenamento. A prática dificulta medir o volume movimentado pela refinaria e impossibilita apurar “de forma consistente” eventuais perdas ou sobras de óleo. A lista de problemas no controle do estoque da refinaria é ainda mais ampla: não há integração entre os sistemas de faturamento, estoque e registro das contas a receber. Assim, não é possível emitir relatórios automaticamente.

Os auditores detectaram uma “divergência” de US$ 2 milhões no estoque referente a maio de 2010, em razão de um lançamento incorreto. Conforme o relatório, 23 mil barris de petróleo oriundos da empresa armazenadora foram considerados como estoque em trânsito. Após a transferência, o volume deixou de ser considerado como em trânsito, mas sem registro da entrada no sistema. “A quantidade foi lançada incorretamente como sobra de produção e impactou a valoração do custo de produção do mês”, diz o relatório.

Câmara vai ouvir Gabrielli sobre compra de refinaria

Além de convite a ex-presidente da Petrobrás, colegiado também quer ouvir atual presidente, Graça Foster, que na semana passada falou a senadores

Erich Decat -Agência Estado

BRASÍLIA - Integrantes da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara aprovaram, nesta quarta-feira, 23, um requerimento que convida o ex-presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli a prestar esclarecimentos sobre a compra da refinaria de Pasadena (Texas) por parte da estatal. O requerimento de autoria de integrantes da oposição também recebeu apoio de integrantes do PT. "Nunca via integrantes da base e da oposição unidos para convidarem ministros aqui", ironizou o presidente do colegiado, Hugo Motta (PMDB-PB).

A data da audiência com Gabrielli ainda não foi definida, mas por se tratar de um convite, o ex-presidente não é obrigado a comparecer. Na mesma sessão, os deputados da comissão agendaram para o próximo dia 30 de abril uma audiência com a atual presidente da Petrobrás, Graça Foster, para tratar do mesmo tema. Na semana passada ela compareceu à audiência no Senado para prestar esclarecimentos sobre a negociação.

Em entrevista concedida ao Estado no último domingo, Sérgio Gabrielli admitiu sua parcela de responsabilidade no polêmico negócio da refinaria de Pasadena, mas dividiu o ônus com a presidente Dilma Rousseff.

Segundo ele, o relatório entregue ao Conselho de Administração da estatal foi "omisso" ao esconder duas cláusulas que constavam do contrato, mas Dilma, que era ministra da Casa Civil e presidia o conselho, "não pode fugir da responsabilidade dela".

Dois dias depois das declarações do ex-presidente da Petrobrás, Dilma, por meio de seu ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, reafirmou ter aprovado o negócio em 2006 com base em um resumo executivo que não continha duas cláusulas importantes do contrato.

A compra aprovada por Dilma foi de 50% da refinaria em 2006 por US$ 360 milhões. A cláusula Put Option obrigava a Petrobrás a adquirir a outra metade da belga Astra Oil em caso de desacordo comercial, enquanto a Marlin previa uma rentabilidade mínima à sócia devido a investimentos que seriam feitos para que a refinaria passasse a processar óleo pesado, como o produzido no Brasil.

Após uma disputa na justiça norte-americana, o negócio acabou custando US$ 1,25 bilhão à estatal brasileira. Em 2005, a Astra tinha comprado a mesma refinaria por US$ 42,5 milhões. Segundo a Petrobrás, porém, a empresa belga teve outros gastos e teria investido US$ 360 milhões antes da parceria.

Rebelião contra o pacote de energia

- Correio Braziliense

A assembleia geral extraordinária da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) que aprovou na terça-feira o empréstimo bancário de R$ 11,2 bilhões para socorrer 40 distribuidoras do setor, afetadas pelos altos preços da energia no mercado de curto prazo, evidenciou a revolta dos 4 mil associados da entidade privada. A decisão provocou a renúncia de três dos cinco conselheiros, movimento iniciado por Luciano Freire, no mesmo dia, e seguido ontem por Paulo Born e Ricardo Lima.

O inesperado protesto dos executivos foi considerado pelas empresas participantes um gesto de coragem, refletindo o descontentamento geral com a forma como foi conduzida a operação arquitetada pelo governo para retardar aumentos na conta de luz. Pivô da crise, o presidente da CCEE, Luiz Eduardo Barata, vai assinar amanhã o inédito contrato de financiamento, em São Paulo, acompanhado apenas de Antônio Carlos Machado, o outro conselheiro que restou após o levante.

Diante da rebelião, a diretoria executiva da CCEE tentou minimizar os efeitos do ocorrido. Em nota, se limitou a agradecer os executivos pela dedicação durante seus respectivos mandatos. Freire, que assumiu o cargo em 2008, estava no seu segundo mandato. Born era membro do conselho desde 2012 e Lima estava no posto desde 2011. Oficialmente, a entidade informou que os três renunciaram por "questões pessoais" e acrescentou que convocará uma assembleia para o começo de maio para eleger conselheiros substitutos.

Segundo a diretoria da CCEE, a contratação do financiamento para cobrir o rombo no caixa das companhias de distribuição foi aprovada por 87% dos agentes na reunião de terça-feira. Cerca de 12% dos presentes se abstiveram e apenas 0,13% votou contrariamente à proposta. A CCEE ressaltou, ainda, que estavam presentes representantes de 70% dos associados. Críticos do acordo apontam manobra do governo para aprovar a tese, empenhando os votos de estatais federais do setor.

Para o diretor da CMU Comercialização de Energia, Walter Fróes, a renúncia revelou um claro desconforto pelas decisões que a CCEE tem tomado ao atender as demandas do Planalto. "A Câmara não foi feita para isso, não é esse o seu papel", protestou. Ele concordou, contudo, que a situação financeira das concessionárias beneficiadas pela operação é dramática. "Na forma como as coisas chegaram, não há alternativa a não ser contratar empréstimos para poucos beneficiários", resumiu.

Ontem, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) publicou no Diário Oficial da União o valor da primeira parcela do financiamento por um grupo de bancos, fixada em R$ 4,7 bilhões. O montante será liquidado em 28 e 29 de abril para cobrir a despesa das distribuidoras com os preços recordes da energia gerada pelas termelétricas, com impacto direto no mercado à vista, desde fevereiro. O crédito restante, R$ 6,5 bilhões, cobrirá despesas de março a dezembro de 2014.

Essa primeira parcela representa 42% do total, mas, segundo explicou o diretor-geral da Aneel, Romeu Rufino, "as próximas parcelas serão decrescentes porque a necessidade de financiamento vai diminuindo à medida que novos contratos de energia das distribuidoras vão entrando no sistema". Para pagar o empréstimo, o governo atendeu ao pedido das instituições financeiras e criou um encargo na conta de luz, que começará a cobrar diretamente dos consumidores em 2015. A medida substituiu a promessa de reajuste futuro nas tarifas e foi decisiva para a negociação feita em curto prazo de tempo.

Rufino reconheceu ontem que a renúncia dos conselheiros da CCEE "foi uma surpresa", mas descartou qualquer risco para o sucesso da operação financeira, chancelada pela assembleia. "A operação é robusta e bem garantida e não traz nenhum risco para os conselheiros", garantiu. Dirigentes do setor discordam e não encontram razão para um grupo grande de empresas assumir solidariamente um passivo bilionário. "Quem saiu também não queria que pesasse uma responsabilidade dessas sobre os ombros", observou um empresário.

Irritação geral
Guilherme Berejuk, advogado especializado no setor elétrico, ressaltou que, além da irritação gerada pela forma como a negociação aconteceu, os executivos das associadas à CCEE temiam futuros riscos jurídicos em caso de colapso financeiro das distribuidoras. "O empréstimo beneficia poucos, mas recai sobre todos", sublinhou. Nessa direção, a regulamentação da conta ambiente de contratação regulada (ACR), criada pela câmara para receber os recursos tomados, previa que a eventual quebra de concessionárias manteria o passivo para as associadas da CCEE.

Para refrear o impacto sobre os futuros reajustes tarifários do crescente rombo financeiro do setor elétrico, provocado pelos preços recordes da energia a curto prazo, o governo anunciou, em 13 de março último, um pacote de R$ 12 bilhões, sendo R$ 4 bilhões em aportes diretos do Tesouro e o restante numa inédita modalidade de empréstimos bancários, estimados atré então em R$ 8 bilhões. (Colaborou Sílvio Ribas)

Greve na Eletrobras
O sindicato de trabalhadores do Sistema Eletrobras anunciou ontem o início de uma greve de dois dias a partir da 0h de hoje. Essa "paralisação de advertência" visa assegurar o pagamento de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) de 2014, apesar do prejuízo de R$ 6,3 bilhões registrado pela estatal no ano passado. No Rio de Janeiro, prometem cruzar os braços os funcionários da Cepel, Eletrobras, Eletronuclear e Furnas. A previsão de sindicalistas é de que, em todo o país, a adesão alcance de 90% a 95% dos cerca de 21 mil empregados das 16 empresas do grupo.

Eduardo Campos ouve demandas de representantes do agronegócio

- Diario de Pernambuco

Área sensível da aliança entre Eduardo Campos e Marina Silva, o agronegócio é o foco da viagem que o pré-candidato à Presidência da República faz ao Sul do país. Ele está no Paraná nesta quarta-feira (23) e esteve em Santa Catarina ontem (22). Nos dois estados, ele visitou a região Oeste, onde a economia gira na produção de grãos, como milho, soja, trigo e feijão, e no processamento e exportação de carnes de suínos, aves e derivados. Ouviu as reivindicações de empresários e produtores e se reuniu com lideranças políticas.

Eduardo afirmou que, neste momento da pré-campanha, tem percorrido os estados para ouvir as demandas dos diversos setores produtivos para a construção do programa de governo. Para ele, há uma queixa comum do setor agroindustrial brasileiro, que é a "ausência do estado". "Falta um olhar estratégico, de prioridade para o setor. Vim ouvir, sentir de perto e isso permite que seja construído um caminho conjunto", disse o presidenciável em entrevista a uma rádio paranaense.

Entre as principais demandas do setor, estão a construção de ferrovias, de melhorias das rodovias, além da criação de alternativas de armazenamento da produção, com a construção de silos, armazéns. Eduardo lembrou, na entrevista, que o agronegócio gera 30% dos empregos no país e a exportação do setor é responsável por pagar as contas externas brasileiras.

Desde que formalizou a aliança com Marina Silva, Eduardo tem circulado entre representantes do agronegócio por causa da resistência deles à ex-ministra do Meio Ambiente. O ex-governador assegurou que vai construir o diálogo. Nas diretrizes para a elaboração do plano de governo, a atividade agropecuária é apresentada como essencial e responsável por alimentar o mercado interno e externo, mas que deve ser pensada pela ótica do desenvolvimento sustentável.

Visita
Eduardo Campos, durante a entrevista, voltou a tratar sobre o baixo índice de crescimento do Brasil, sobre a ameaça de novos protestos durante a Copa do Mundo e sobre a necessidade de realizar uma reforma tributária e um choque de gestão. "A primeira reforma que temos que fazer é do jeito de governar e fazer alianças no país. Temos que assumir um compromisso de quebrar o pacto político que está lá", disse. O presidenciável repetiu que pretende colocar na oposição "aquelas pessoas que usam o Brasil sem servi-lo". "Temos que vencer o fisiologismo, a política atrasada que comanda o Brasil", completou.


Depois da entrevistas, o presidenciável participou de um evento da Associação dos Municípios do Oeste do Paraná (Amop). A entidade reúne 52 municípios, com um PIB estimado de R$ 28 milhões. A Amop entregou um documento com algumas sugestões para o programa de governo do PSB, como a melhoria da logística para escoamento da produção da região e a revisão do pacto federativo. Em seguida, Eduardo falou sobre a mudança da Lei do ICMS e da criação do Fundo Estadual de Apoio aos Municípios (FEM).

Ainda no Paraná, o socialista almoçou com cerca de 300 empresários, numa atividade promovida pela Associação Comercial e Industrial de Cascavel. Ele ainda participou de uma palestra para 200 lideranças políticas na Câmara de Vereadores do município.

Para Campos, quem está 'de costas para o Brasil' vai descer a rampa do Planalto

Em evento no interior do Paraná, pré-candidato à Presidência pelo PSB afirmou que vai 'quebrar o pacto político' vigente no País

Miguel Portela - O Estado de S. Paulo

CASCAVEL - O ex-governador de Pernambuco e pré-candidato à Presidência da República, Eduardo Campos (PSB), voltou a se apresentar como alternativa nesta quarta-feira, 23, em Cascavel, no Oeste do Paraná, e afirmou que vai "quebrar o pacto político" em vigor no País.

"Nós vamos subir a rampa e vai descer àquela turma que está lá de costas para o Brasil. Não vamos governar com aquelas velhas raposas que estão lá roubando o sonho do povo brasileiro de construir uma nação melhor. É insustentável esse padrão político brasileiro, com 39 ministérios que os partidos chamam de seus. Vamos fazer de outro jeito", afirmou.

Eduardo Campos cumpriu uma agenda recheada de compromissos em Cascavel, que é um dos polos do agronegócio no Estado, com empresários, líderes partidários e prefeitos. Em entrevista na sede da Amop (Associação dos Municípios do Oeste do Paraná), o ex-governador disse que o Brasil "percebe que as mudanças pararam de acontecer, os ganhos cessaram e a vida começou a piorar para todos".

"Em três anos tivemos o menor crescimento do país. A sociedade já tomou a decisão que quer mudar e 70% nas pesquisas já dizem que desejam mudança", afirmou. O ex-governador disse que é hora de unir as forças e que a sua candidatura - que tem como pré-candidata a vice, Marina Silva - é uma alternativa e voltou a criticar o modelo petista.

Ele garantiu que chapa socialista já está definida e que ela será homologada nas convenções do PSB em junho. "Estamos em outra etapa, que é a construção do programa de governo, ouvindo as lideranças políticas, militantes, entidades de classe. É um programa que vem do Brasil real porque eu e Marina teremos essa tarefa que é tirar esse programa de papel e colocar para o povo brasileiro".

Pleitos regionais. Depois da coletiva, o pernambucano se reuniu com os prefeitos associados à Amop. O presidente da entidade e prefeito de Tupãssi, Jose Carlos Mariussi (DEM), entregou um documento contendo as demandas municipalistas, como a expansão da malha ferroviária da Ferroeste, construção do Aeroporto Regional e duplicação das rodovias federais que cortam a região Oeste.

"A nossa intenção é trazer todos os pré-candidatos a presidente para discutir com os prefeitos os problemas que os municípios enfrentam para o seu desenvolvimento. A região também tem os seus gargalos que impedem o desenvolvimento econômico", frisou o presidente da Amop.

Após o encontro com os gestores públicos, Campos participou de um almoço, patrocinado pela Acic (Associação Comercial e Industrial de Cascavel), em um restaurante da cidade. Mais de 200 pessoas, entre empresários, agricultores e líderes do agronegócio estiveram presentes.

Na oportunidade, o presidente da Acic, José Torres Sobrinho, entregou uma pauta com algumas reivindicações do setor produtivo. Dentre as demandas obras de infraestrutura e logística, reforma tributária e mais investimentos em ensino profissionalizante.

Campos afirmou que, além de fortalecer a agricultura e de investir em projetos estruturais, valorizando a iniciativa privada e PPPs (Parcerias Público Privada), que sua intenção é oferecer uma nova proposta de governo à grande maioria dos brasileiros que demonstram desejo por mudanças.

O último compromisso na cidade foi uma reunião na Câmara de Vereadores com líderes e simpatizantes do PSB, PPS e PPL, partidos que dão sustentação a candidatura socialista. De Cascavel, a comitiva de Campos seguiu de avião para São Paulo.

Campos é questionado por ruralista sobre posições de Marina Silva

Pré-candidato do PSB a presidente enfrentou saia justa em almoço com empresários do agronegócio

Luciano Barros - O Globo

CASCAVEL (PR) - O pré-candidato do PSB à Presidência da República, Eduardo Campos, enfrentou nesta quarta-feira uma saia justa ao ser questionado sobre as posições da vice-presidente de sua chapa, a ex-senadora Marina Silva, em relação ao agronegócio.

Em um almoço com cerca de 200 empresários e produtores rurais na cidade de Cascavel (PR), uma das perguntas enviadas por escrito pela plateia questionava Campos se o alinhamento de Marina com ONGs do setor ambiental influenciava o seu pensamento sobre o setor.

— Eu nasci no meio rural, conheço a realidade do homem do campo e sou o primeiro a agir em defesa deste setor que é fundamental para o desenvolvimento do país — respondeu.

O pré-candidato do PSB nasceu em Recife, mas passou os primeiros anos da infância em um engenho em Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata pernambucana. Na eleição de 2010, ele declarou ser dono de um propriedade rural no município de Garanhus, no interior de Pernambuco. Ele também é dono de uma empresa agropecuária. Em outubro do ano passado, o anuncio da aliança entre Marina e Campos acabou produzindo o afastamento de produtores rurais da candidatura do PSB. O deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO), um dos líderes da bancada ruralista na Câmara, rompeu, na época, as negociações com o PSB para uma aliança em Goiás.

O ex-governador de Pernambuco também disse que Marina não é contra o setor.

— Marina mostrou apreço a quem produz os alimentos e que alçam o Brasil à condição de destaque no cenário econômico internacional.

Mais cedo, em encontro com prefeitos da região, fez críticas ao Legislativo brasileiro.

— A omissão do Legislativo está permitindo que o Judiciário extrapole limites e, ao invés de fazer cumpri-las, ele elabora as leis.

Campos manteve os ataques ao governo Dilma Rousseff.

— É preciso substituir as raposas que estão há 40 anos no poder e que dão às costas à nação. Eles descerão de costas a rampa do Palácio do Planalto.

O ex-governador de Pernambuco prometeu reduzir ministérios pela metade e fez críticas à gestão Dilma em áreas como segurança, saúde e educação. Na segurança pública, citou a diminuição do efetivo da Polícia Federal. Na saúde, afirmou que, em 1998, a União financiava 70% de cada R$ 100 investidos no setor. Hoje, esse percentual teria caído para 40%.

Na educação, afirmou que os investimentos que o governo faz no Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), de R$ 10,5 bilhões por ano, são ínfimos diante da arrecadação do governo, que é de R$ 1 trilhão.

— O Brasil deveria se espelha no exemplo da Coreia do Sul e dos Tigres Asiáticos, que investiram em longo prazo e, hoje, colhem os resultados.

Campos creditou à burocracia o fato de o Brasil ter crescido menos do que o esperado e afirmou que a Brasil é um país cartorial.

— Em Brasília, há 14 mil pessoas aptas a carimbar documentos. Às vezes, um prefeito precisa cumprir em torno de 30 exigências legais, entre certidões negativas e outros comprovantes, e, ao cumprir a última exigência, a primeira delas já está vencida — disse.

Em Belém, Eduardo Campos promete reforma política

Pré-candidato do PSB à Presidência diz que essa será sua primeira medida caso eleito

Ex-governador afirma que não vai “ministerializar” governo

Lais Menezes – O Globo

BELÉM (PA) – Em visita a Belém, o pré-candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos, afirmou a empresários que sua primeira medida, caso seja eleito presidente da República, será realizar uma reforma política. Campos não detalhou como promoverá as mudanças, que precisam de aprovação do Congresso, e se referiu mais ao excesso de ministérios no governo Dilma Rousseff, que seu partido integrou até outubro do ano passado.

— Estou convencido que do jeito que está o arranjo em Brasília, o Brasil não vai para frente. No nosso governo, nós não vamos distribuir ministérios como se distribui bananas. Temos que reduzir o número de ministérios e colocar pouca gente que sabe o que está fazendo, e não muita gente que não faz nada — afirmou a empresários, em almoço promovido pelo Fórum das Entidades Empresariais, na sede da Federação das Indústrias do Pará (Fiepa).

Mais cedo, logo em sua chegada a Belém, Campos afirmara que não iria “ministerializar” a política se chegasse à Presidência, em referência ao loteamento de cargos no governo.

— Partido nenhum vai ser dono de nenhum ministério — disse Campos, acrescentando que não pretende se apresentar como um candidato de direita ou de esquerda.

O pré-candidato do PSB também disse que o país teve no governo Dilma o crescimento mais baixo dos últimos anos, e ressaltou que o país sofre com obras de infraestrutura paradas, crise na Segurança Pública e na Saúde.

Numa rápida entrevista coletiva no aeroporto de Belém, onde chegou por volta das 11h40m com um pequeno atraso, Campos disse que não chegava ao Pará em busca de alianças políticas, mas para conhecer o estado e apresentar sua visão do que seria um projeto de governo novo, que contemplasse as necessidades da Região Norte. Ele afirmou que as alianças surgirão com o tempo.

No almoço com os empresários, Campos disse que a Região Norte foi esquecida pelo governo:

— Temos que mudar a visão que se tem com relação a essa região: de que é uma região que elege, mas que não tem participação política no país. A região Norte é vista como celeiro de eleitores, mas não como celeiro de gente.

O Pará é o quarto dos seis estados que o pré-candidato do PSB pretende visitar esta semana.

Campos diz que governo não pode tolerar inflação

Lorenna Rodrigues – Valor Econômico

CASCAVEL (PR) - O pré-candidato a presidente da República Eduardo Campos (PSB) disse que o governo não pode tolerar a inflação com o argumento de gerar mais empregos. Em entrevista ao Valor em Cascavel (PR), Campos disse que ainda não foi decidido qual meta para a inflação será estipulada em seu programa de governo, mas que ela será cumprida sem recorrer a intervalos permitidos pela lei.

"Quando lançarmos a meta não é para cumprir o teto ou fazer uso da banda para afrouxar as metas, porque desse jeito você vai quebrando a confiança da sociedade", afirmou. "Não podemos ter tolerância com a inflação e achar que isso vai preservar empregos, até porque a inflação hoje, na vida sobretudo dos mais pobres, já está corroendo grande parte da renda, do crescimento real que teve ao longo dos anos." Campos participou em Cascavel de encontro com prefeitos e almoço com empresários.

Para o candidato, o Brasil está vivendo o pior cenário possível, com inflação e juros em alta e crescimento em baixa. Ele ressaltou que é preciso coordenar as políticas fiscais e monetária e resgatar a confiança no país para que o crescimento econômico seja retomado já em 2015. Segundo Campos, seu objetivo é baixar juros por meio do compromisso com o cumprimento das metas de inflação e de superávit primário.

"Juro não baixa por decreto nem por voluntarismo. Juro baixa com a coordenação de políticas macroeconômicas, que exigem uma gestão eficiente. Enquanto a gente insistir em fazer mágica para baixar os juros a gente vai ter repiques como estamos vendo agora", disse.

O ex-governador afirmou que sua primeira medida na área econômica será a redução da máquina pública, com o corte do número de ministérios pela metade. Ele ressaltou que os dirigentes das agências reguladoras serão escolhidos por "head hunters" junto ao mercado e que não haverá distribuição desses cargos entre os partidos.

Campos disse que integrantes da base aliada de Dilma Rousseff irão "descer a rampa" do Planalto caso ele vença as eleições de outubro, em entrevista à rádio CBN de Cascavel. Ele não mencionou a quais pessoas ou partidos se referia. Chamou o grupo apenas de "aquela turma". " Nós vamos subir a rampa no dia 1º de janeiro, e eles descem", afirmou.

Carlos Alberto Sardenberg: A inflação do povo e dos economistas

Estão subindo bem acima da média preços que afetam todos: comida e serviços, de corte de cabelo a mensalidade escolar

- O Globo

Em fevereiro deste ano, o Datafolha perguntou em uma de suas pesquisas nacionais: você acha que a inflação vai aumentar ou vai cair? “Vai aumentar”, responderam 59% dos entrevistados. Já mostrava uma expectativa negativa.

No mesmo mês, analistas de fora do governo, consultados pelo Banco Central, estimavam que a inflação chegaria ao fim deste ano em 5,9%, medida pelo IPCA, índice do IBGE. Não chegava a ser uma novidade, pois a média de inflação nos últimos anos tem ficado em torno dos 6%. Mas continuava sendo um número alto, considerando que a meta oficial é de 4,5%, podendo ir até 6,5%, na margem de tolerância.

Vamos para abril. O Datafolha fez a mesma pergunta. E nada menos que 65% disseram que a inflação vai aumentar. Uma alta de seis pontos percentuais.

O BC, como faz toda semana, consultou novamente os analistas. No último dia 17, eles elevaram a previsão de inflação para este ano para 6,51%, conforme mostra o Boletim Focus, que pode ser acompanhado no site do BC. É só um pouquinho acima do teto da meta (a margem de tolerância), mas o movimento tem sido de alta direto. Além disso, é a primeira vez no ano que passa do teto.

Logo, especialistas e povo têm a mesma expectativa. Os economistas não acreditam que a alta de juros promovida pelo Banco Central e a promessa de corte de gastos do governo farão o efeito de bloquear a inflação. As pessoas ou os eleitores não acreditam nas repetidas afirmações da presidente Dilma, do ministro Mantega e do presidente do BC, Alexandre Tombini, segundo os quais o governo vai derrubar o IPCA.

Do ponto de vista técnico, se diz que o BC não está conseguindo “ancorar” as expectativas. No regime de metas, é meio caminho andado quando o mercado acredita que a “autoridade monetária” está mesmo empenhada em colocar a inflação no alvo e tem instrumentos e autonomia para fazer isso. No caso, autonomia para elevar os juros o quanto for necessário. O mercado acha o contrário, neste momento, e opera, negociando taxas de juros, por exemplo, na expectativa de que a inflação é alta e resiliente.

De ponto de vista da população, vale a experiência de compras. Índice de inflação de 6% é uma média entre preços que sobem e caem. Tem cigarro e cerveja no índice. Se você não fuma nem bebe, não percebe a inflação desses itens. Ocorre que estão subindo mais, bem acima da média, preços de itens que afetam todo mundo: comida e serviços em geral, desde corte de cabelo a mensalidade escolar. E, mais recentemente, tarifas de energia elétrica e de transporte público.

Até chegaram a cair preços de alguns eletrodomésticos, por causa da demanda mais fraca e do crédito mais difícil. Muitas pessoas perceberam, mas você não compra geladeira todo ano. Já supermercado e salão de beleza...

Nesse ambiente, acontece algo muito conhecido: quando todos acham que a inflação vai subir... ela sobe.

O empresário trata de colocar no preço a expectativa de alta. Os sindicatos começam a pedida salarial de 7% para cima. Se o mercado está aquecido, o prestador de serviço eleva seus preços mais frequentemente.

A persistência da inflação relativamente alta vai incomodando aos poucos. A pessoa está empregada, com salário em dia, mas toda semana vê que algo ficou mais caro. O dono do negócio, a um determinado momento, não sabe mais que preço estimar — e dá uma parada. O próprio governo vai ficando incomodado, pois seus integrantes percebem que precisam elevar alguns preços e salários.

A sensação de desconforto econômico se transforma em disposição de voto contra o governo. Esse é o maior risco para a presidente Dilma, além, claro, do caso Petrobras: entrar na campanha em ambiente inflacionário.

Mas, pergunta o leitor, não seria possível combater e derrubar essa alta de preços? Sim, é possível, mas, como o governo errou na política econômica, colhendo inflação alta e crescimento baixo, e como tolerou por muito tempo o ritmo elevado dos preços, o remédio necessário é cada vez mais amargo. E de efeitos demorados. Trata-se de juros ainda mais altos e de um forte corte nos gastos públicos, atitudes politicamente negativas e nas quais, a rigor, a presidente Dilma e o ministro Mantega nem acreditam.

Por isso, tentam controlar alguns preços “no braço” e ganhar a batalha das expectativas no grito.

Toda hora repetem que a inflação está sob controle. Mas não é o que dizem os analistas e o povo, numa rara combinação.

*José Serra: As quatro leis da entropia petista

- O Estado de S. Paulo

Arrumando meus papéis, encontrei transcrições completas dos debates em rede nacional da campanha presidencial de 2010. De forma um tanto masoquista, li todas elas e lembrei de um juízo que formei na época e disse a uma assessora: "Dilma Rousseff tem o dom de empregar o máximo de palavras para expressar o mínimo de pensamento (*). Mesmo assim, um mínimo errado".

Ao longo desses debates, eu tinha duas preocupações essenciais. A primeira, como é óbvio, perder no segundo turno, não tanto pelo desempenho de Dilma, mas pela avaliação do governo Lula: no período entre junho e setembro, mais de 75% das pessoas achavam o governo ótimo ou bom e 85% o aprovavam. As vendas a varejo cresciam a 11%, a massa real de rendimentos, 8%, e a supervalorização cambial chegava ao seu ponto máximo, subsidiando o consumo importado e o turismo no exterior - naquele ano, o dólar valeu em média R$ 1,7. Precisava mais?

A outra preocupação era com o futuro do Brasil em si, independentemente de minha participação no processo. Estava convencido de que o boom econômico capotaria logo, de que a herança de Lula seria bastante adversa e de que, se fosse eleita, Dilma Rousseff faria um governo atrapalhado e ruim, pisando no acelerador do atraso. Passara a campanha mostrando que não conhecia os problemas brasileiros e que não tinha nenhuma qualificação especial como administradora pública. Pelo contrário.

Uma coisa é fazer uma previsão pessimista, outra é vê-la se cumprir, ver a intuição virar razão: quando isso ocorre, não fico exatamente surpreso, mas sou tomado de certa estupefação.

A lei do máximo de palavras para um mínimo de conteúdo está acoplada a três "antileis" afins, a começar pela que estabeleceu que a menor distância entre dois pontos não é uma linha reta, mas alguma curva tridimensional e espiralada, teorema antieuclidiano que o governo Dilma segue à risca. Outra "antilei" sagrada tem origem na volta ao geocentrismo, ou seja, à ideia de que o sol e os planetas giram em torno da Terra, que é o centro do universo. A presidente Rousseff e o PT se comportam como se fossem o centro do universo brasileiro, em torno do qual tudo e todos têm de girar: o conhecimento, a moral, a ética, a Justiça, a imprensa e todos os políticos e seus respectivos partidos.

Por fim, adotaram a "antilei" que afeta o funcionamento da economia: a da inépcia inovadora, segundo a qual as facilidades não devem ser aproveitadas, mas tornadas em dificuldades. Por exemplo, se o modelo anterior de concessão na exploração de petróleo funcionava bem, para que aproveitá-lo no pré-sal? Não! Preferiu-se um novo método, que não traz mais dinheiro ao País e ao Fisco, mas colabora para quebrar a Petrobrás.

Houve bastante originalidade nos erros do governo Dilma, mas quase nada que não pudesse ter sido previsto em 2010, seja pelo que já estava se fazendo no governo Lula (com forte participação da então ministra), seja pelo que ela já anunciava na disputa eleitoral. Suas intervenções na campanha presidencial daquele ano preconizavam a conversão das quatro leis citadas em verdadeiro método de governo. Ilustro com dois exemplos eloquentes.

Volto aos meus papéis e vejo como é fácil banalizar com conversa mole e discursos balofos ações que dizem respeito à vida de milhões de pessoas. Afirmou, por exemplo, a então candidata petista: "No caso da segurança pública, nós iremos apostar nisso que está dando muito certo que são as Unidades de Polícia Pacificadora já implantadas no Rio de Janeiro". Ou ainda: "(Para combater o tráfico de drogas) compramos veículos aéreos não tripulados, chamados Vants, que são aqueles que policiam as fronteiras e permitem que a gente localize o tráfico. Os Vants chegaram em setembro e até o final do ano mais dois vão chegar, e eu pretendo transformar esse policiamento das fronteiras num policiamento sistemático, com mais 14 Vants".

Como se sabe, as UPPs não foram implantadas Brasil afora e, em setembro de 2010, não havia nenhum Vant em funcionamento. Neste ano, 2014, só há dois voando de fato nas fronteiras do País, apesar dos 14 anunciados pela candidata.

Das alturas cerúleas para as profundezas da Terra, mais uma fala da candidata Dilma: "Com o pré-sal, eu vou poder ter no Brasil mais milhares de equipamentos para controlar a fronteira... Mas não se pode deixar de olhar que a questão do pré-sal é fundamental. Quando eu coloco o problema da privatização, eu estou preocupada com o quê? Com esses recursos do pré-sal, que, segundo o candidato Serra, só vão chegar no final da década. Mas ele é mal informado. Os recursos do pré-sal já começaram".

O "candidato Serra", como ela se referiu a mim, não dizia nada que o "indivíduo Serra" não pudesse sustentar. A ideia de que o óleo do pré-sal iria proporcionar "milhares de equipamentos" para controlar a fronteira é emblemática não só da ignorância desmedida de quem preparou as fichas nas quais a então candidata acreditou, mas também da ligeireza com que se tratava algo tão sério: observem que se acusava o candidato da oposição de pretender privatizar o pré-sal e acabar com os recursos que seriam destinados ao narcotráfico... Um completo despropósito. Note-se à margem que a produção de petróleo no governo Dilma estagnou, a proclamada autossuficiência não aconteceu, jogaram-se muitos bilhões de dólares na aventura das refinarias, nada sobrou para o controle das fronteiras nem para a Petrobrás, que hoje é a empresa não financeira mais endividada do mundo, tendo perdido 50% do seu valor de mercado.

Poderia me estender aqui com dezenas de exemplos, mas esses dois, que saltaram primeiro à mão ao mexer nas minhas anotações, são bastante eloquentes. Essas "antileis" - ou as quatro leis da entropia petista - não são uma questão corriqueira, que se resume ao discurso. Elas têm consequências práticas na vida dos brasileiros e no futuro do País. Formam os alicerces do atraso, que sustentam um projeto de poder.

(*) Referência ao que dissera Winston Churchill sobre o primeiro-ministro Ramsay MacDonald.

*Ex-prefeito e ex-governador de São Paulo

Merval Pereira: Feitiço contra o feiticeiro

- O Globo

Graças a um erro estratégico da presidente Dilma, o governismo, de maneira geral, abrangendo mesmo aqueles que não gostariam de ter que apoiar a reeleição da presidente, está tendo dificuldades para enfrentar os problemas políticos decorrentes do “mau negócio” que a Petrobras realizou comprando a refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos.

Digo erro estratégico porque até pouco tempo atrás todos os envolvidos na transação, inclusive a própria presidente, tinham a mesma versão de que a compra fora um bom negócio, justificável pelo plano estratégico da empresa.

Mesmo que hoje se saiba que essa explicação não corresponde à verdade, foi graças à irritabilidade da presidente Dilma que ficamos sabendo disso, e com detalhes como as cláusulas omitidas no resumo técnico levado ao Conselho da Petrobras.

Muitos se espantaram com minhas críticas ao “sincericídio” de Dilma, como se estivesse criticando-a por ter falado a verdade. Minha crítica é mais extensa: acho que a presidente Dilma não tem condições políticas para esclarecer o caso, e tentou, com sua nota oficial de próprio punho, livrar sua responsabilidade no caso, como acentuou o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli.

Tanto é verdade que ainda presidente do Conselho, mas já sabendo que as negociações para a compra de Pasadena haviam sido omitidas, aceitou que o diretor responsável pelo relatório “falho técnica e juridicamente” fosse transferido para outra diretoria da Petrobras Distribuidora, com elogios formais do Conselho por sua atuação. E em nenhum momento fez críticas à atuação da diretoria da Petrobras.

A ministra-chefe da Casa Civil toda-poderosa conviveu com a diretoria da Petrobras, da qual discordava, sem criar marolas políticas, pois já estava trabalhando para ser a candidata oficial à sucessão de Lula em 2010.

Portanto, o seu “sincericídio”, em vez de significar uma reação a uma maneira de fazer política empresarial da qual discorda, é muito mais um ato voluntarioso de uma pessoa que não está acostumada a ser contrariada, não tem maiores consequências na mudança de rumos da gestão da Petrobras.

Mas, voltando às dificuldades que o PT está tendo para justificar sua posição na crise da Petrobras, é bom lembrar que logo depois da eleição de 2006, em entrevista a Fernando Rodrigues, da “Folha”, o marqueteiro João Santana revelou que o debate sobre as privatizações fora utilizado como maneira de reavivar “emoções políticas” no imaginário do brasileiro comum.

Santana admitiu na entrevista que a impressão de que “algo obscuro” acontecera nas privatizações deveu-se a um “erro de comunicação do governo FH, que poderia ter vendido o benefício das privatizações de maneira mais clara”.

O erro do PSDB fora, segundo ele, “não ter defendido as privatizações como maneira de alcançar o desenvolvimento”. No caso da telefonia, “teve um sucesso fabuloso” que não foi capitalizado pela oposição, dizia ele.

João Santana foi claro quando respondeu se não seria desonesto explorar sentimentos que ele sabia não exprimirem a verdade: “Trabalho com o imaginário da população. Numa campanha, trabalhamos com produções simbólicas”.

Pois hoje a exploração das produções simbólicas no imaginário da população está causando graves problemas para o governismo, acusado pela oposição de ter “privatizado” a Petrobras para um grupo político.

O governo ainda tenta sair das cordas acusando a oposição de estar fazendo uma campanha “contra a Petrobras”, mas a falta de sentido dessa acusação não encontra eco no cidadão comum, que está vendo a crise na Petrobras como uma grave falha do governo.

Aliás, o PT no poder tem como hábito assumir o papel do Estado brasileiro, e, quando sua atuação é criticada, seus líderes atribuem as críticas a uma campanha “contra o país”.
O ex-presidente Lula já se cansou de acusar o ex-presidente Fernando Henrique de “falar mal” do país em suas conferência internacionais. A presidente Dilma Rousseff volta e meia diz que “tem gente torcendo para o país dar errado”.

Na verdade, tanto Lula quanto Dilma se referem a oposicionistas que criticam a atuação do governo, e não o país. Um governo representa o país, é fato, mas pode representar mal e merecer críticas. Assim como críticas à gestão de uma empresa não representam campanha contra ela.

Eliane Cantanhêde: Refresco para Dilma

- Folha de S. Paulo / EBC

Assim como a espionagem americana garantiu um bom momento para Dilma na ONU, a NETMundial proporciona um refresco político para ela nesta semana.

Com a denúncia de espionagem de Edward Snowden, em 2013, Dilma pôde empinar o nariz, cancelar a visita a Barack Obama e fazer um discurso forte e afirmativo na ONU, recebendo elogios a torto e a direito.

Com a NETMundial, ontem e hoje em São Paulo, ela cobrou lealdade da base aliada, demonstrou força no Congresso e criou um bom momento para foto ao sancionar o Marco Civil da Internet diante de representantes de dezenas de países. O texto serve de base para os debates no encontro e pode ser bastante útil para novas legislações mundo afora.

Um momento de alívio para quem tropeçou nas próprias pernas --e no próprio voluntarismo-- ao jogar a crise da Petrobras dentro do gabinete presidencial no Planalto e ficar durante semanas sob tensão pelo prejuízo da compra da refinaria de Pasadena e pelo mau desempenho da principal empresa brasileira.

Dilma, porém, não deixou de cair em suas próprias pegadinhas na NETMundial. Tudo bem que voltasse a criticar a espionagem americana como "inaceitável" e defendesse uma governança da internet "em pé de igualdade" (ou seja, não imposta por uma única potência). Mas não precisava espicaçar os EUA de graça.

Como relatado pela própria internet, ela sorriu e aplaudiu de pé quando enalteceram Snowden, um dos piores inimigos de Washington neste momento. Foi uma provocação boba, quase tão infantil e impensada quanto a nota em que, ao tentar lavar as mãos no caso Pasadena, incendiou uma questão até então fria.

Além disso, o NETMundial acaba, mas a Petrobras e o renitente deputado André Vargas ficam --e assombrando o PT, Dilma e candidaturas petistas que resvalam na dupla Vargas-Youssef. O Marco Civil da internet é só refresco, a fervura continua.

Jarbas de Holanda:Do possível ao agora esperado 2º turno

No último trimestre de 2013, predominava ampla-mente entre os analistas a avaliação de que a disputa presidencial deste ano seria concluída logo no 1º turno com a reeleição de Dilma Rousseff, mesmo que por uma vitória pouco elástica em face das perspectivas do comportamento da economia, que já se prenunciava precário. Este cenário prospectivo foi progressivamente substituído ao longo do primeiro trimestre pela configuração da possibilidade de transferência da disputa para um 2º turno pelos reflexos de dois fatores: a deterioração de tais perspectivas (com sensível piora dos indicadores da economia e do potencial de efeitos sobre a inflação) e a contra-posição de concorrentes competitivos (com o PSDB, enfim unido em torno da candidatura de Aécio Neves, e com a de Eduardo Campos assumindo clara postura oposicionista, recebendo o apoio de Marina Silva e, assim, consolidando-se). As duas – juntas e engrossadas por um potencial de votos acima de 5% de candidaturas chamadas nanicas – tornariam possível, embora improvável, a referida transferência.

Uma sucessão de fatos políticos e econômicos, ocorridos e em andamento desde o início de abril, vai convertendo essa possibilidade em provável – ou seja, esperada – solução da disputa no 2º turno. Cenário agora previsto pela maioria dos analistas e admitido, já até explicitamente, por dirigentes do PT. A eclosão dos escândalos envolvendo a Petrobras, combinada com um salto dos preços de alimentos e de serviços, amplia na sociedade, no eleitorado, a percepção do despreparo e da ineficiência do governo Dilma, bem como a respeito do enorme aparelhamento partidário (à frente o lulopetismo) da máquina administrativa federal e dos consequentes atos de corrupção e desvio de recursos públicos. Que passa a manifestar-se em quedas de avaliação da presidente/candidata, de acordo com as recentes pesquisas do Datafolha e do Ibope. Isso numa fase em que, usando intensa e caríssima publicidade como chefe do Executivo e postulante à reeleição, precisaria manter e elevar os índices de respaldo social para quando tiver, enfim, que enfrentar os adversários na propaganda eleitoral “gratuita”. E percepção que se manifesta também entre os diversos atores da cena política (inclusive entre os dirigentes e parlamentares da base governista), que partem para reavaliar acertos anteriores de apoio à reeleição. Após generalizar-se entre os agentes econômicos, internos e externos, cujo pessimismo se reforçou esta semana com as projeções do boletim Focus – nova redução no crescimento do PIB, de 1,65% para 1,63%, e aumento da taxa oficial de inflação, para 6,51%, além do teto da meta, 6,50%.

Essa reavaliação não inclui ainda dados que só as pesquisas do final de abril ou a serem feitas em maio poderão somar às fortes quedas da popularidade de Dilma Rousseff: os do começo de provável capitalização dessas quedas pelos adversários Aécio e Campos. O que reforçará as pressões do “volta Lula” no PT e em lideranças das legendas aliadas mais próximas, ou eleitoralmente dependentes do ex-presidente. O qual, entretanto, insistirá na candidatura Dilma “até para perder”, como afirmou dias atrás a um parlamentar petista, conforme foi revelado por um colunista político.

Em seu artigo de hoje no Globo, o jornalista Merval Pereira resume, assim, os “pontos-chave dos problemas políticos do governo e do petismo: “1 – Cada notícia sobre os atrasos das obras para a Copa é mais um ponto negativo na avaliação da capacidade de gestão do governo. 2 – A crise da Petrobras poderia ter sido evitada se Dilma não tivesse furado, com seu “sincericídio”, a bolha de mentiras que protegia o mau negócio da refinaria de Pasadena. 3 – O caso de André Vargas, que insiste em não renunciar, porém, é exemplar de como a situação política foge ao controle dos caciques petistas, até mesmo do maior deles, o ex-presidente Lula.” Cabendo acrescentar, quando à gestão de nossa maior estatal, o seguinte trecho do editorial do Valor: “É estranha e nefasta a propensão de a Petrobras meter-se com refinarias de custos inflados. Se Pasadena custou, na melhor das hipóteses, quase quatro vezes o que a Petrobras diz que os belgas pagaram por ela (US$ 345 milhões), o que dizer da refinaria de Abreu e Lima, cujo orçamento de US$ 2,5 bilhões já saltou para US$ 18 bilhões. O preço de Pasadena é baixo perto da instalação de Pernambuco, que já deveria ter sido investigada há muito tempo”

Jarbas de Holanda é jornalista

Tereza Cruvinel: Onde nada mudou

- Correio Braziliense

Neste abril em que o Brasil ainda celebra a democracia, ao evocar os 50 anos do golpe, a ditadura e sua derrota tardia, as notícias sobre a violência policial avisam que, para uma parte do Brasil — os pobres, os negros, os favelados e os esquecidos em geral —, a mudança não chegou. Para eles, o Estado continua sendo um patrão cruel, omisso quanto a seus deveres e truculento ao garantir a ordem, através de uma polícia que faz tudo o que o aparelho repressivo da ditadura fazia. Os "clientes" é que mudaram. Agora, em vez de estudantes e militantes da resistência, a tortura e a morte alcançam os Amarildos. Reações como a dos moradores do Pavão-Pavãozinho ao assassinato do dançarino Douglas Pereira são um grito de revolta há muito reprimido. Copacabana sofreu e a imagem do país pagou. Não está provado (ainda) que o tiro que o matou foi dado por um PM, mas a certeza da comunidade vem de sua própria experiência.

A polícia militar aprendeu muito com o aparato da repressão. Ela serviu ao DOPS, ao Doi-Codi, aos porões. Já sabia torturar, sempre soube, mas "sofisticou" suas técnicas. Que fim levaram os paus de arara usados na ditadura? Muitos estão nas delegacias do Brasil pobre. Há quem não veja relação entre uma coisa e outra, mas, se a Lei da Anistia não tivesse garantido o perdão para os torturadores e assassinos do regime, hoje as PMs não torturariam com tanta desenvoltura, confiadas na impunidade e na proteção corporativa. Se meia dúzia de verdugos da ditadura tivessem sido condenados, PMs pensariam duas vezes antes de torturar, como tudo indica que fizeram com Douglas antes de matá-lo. Não teriam torturado o pedreiro Amarildo, da Rocinha, e desaparecido com seu corpo, tal como a ditadura fez com Rubens Paiva e outros tantos. Não teriam trucidado Claudia, do Alemão, nela atirando sem necessidade e depois atirando-a como fardo no porta-malas do camburão, de onde caiu e foi arrastada pela rua. Lembra o que fizeram com Gregório Bezerra.

Desmilitarizar as PMs, reformar a cultura policial e construir uma outra lógica de segurança pública é o desafio brasileiro numa segunda rodada de redemocratização. As UPPs, unidades de polícia pacificadora, criadas no governo Sérgio Cabral, partiram de outra lógica. Foram instaladas nos morros de onde o Estado conseguiu destronar o tráfico de drogas. Ali ficaram, em contato com os moradores. A nova cultura, entretanto, não vingou. As UPPs acabaram se tornando ilhas dentro de uma estrutura maior, ainda intocada. Os eventos recentes mostram que o todo prevaleceu sobre a parte. Isso vale para o Rio, onde houve uma experiência inovadora. Nos demais estados, nem isso foi tentado.

Enquanto isso, o sistema carcerário vai se afundando na barbárie. Ontem a ONG internacional Conectas lançou campanha para acabar com a chamada "revista vexatória" dos que visitam parentes presos, especialmente as mulheres. Segundo a campanha, "toda semana, milhares de mães, filhas, irmãs e esposas de pessoas presas são obrigadas a se despir completamente, agachar três vezes sobre um espelho, contrair os músculos e abrir com as mãos o ânus e a vagina para que funcionários do Estado possam realizar um dos procedimentos mais humilhantes de que se tem notícia nos presídios brasileiros: a revista vexatória". Contra esses absurdos, a democratização precisa avançar.

Base pacificada
Pelo menos um dos problemas que atazanaram a presidente Dilma este ano parece estar resolvido. A base aliada, que começou o ano nos cascos contra o governo, parece pacificada e vem aprovando as questões mais importantes para o governo. Anteontem, o Senado concluiu às pressas a votação do Marco Civil da Internet, antes de vencido o prazo da urgência constitucional, para garantir a Dilma o palanque em que ela brilhou ontem. Sancionou a lei em pleno evento NetMundial, em São Paulo, onde tocou bumbo para a iniciativa pioneira do Brasil em relação à governança da Internet e à preservação da privacidade.

Na base, o PMDB ganhou mais poder: o senador Romero Jucá foi indicado ontem, pela terceira vez nos últimos anos, para o cobiçado cargo de relator-geral do Orçamento de 2015. Nos estados, ainda há problemas entre PT, PMDB e aliados, mas as coisas já estiveram piores. O PT neste momento tem outro nome: o deputado André Vargas, pressionado a renunciar para o partido não "pagar o pato".

Minas se move
Desistindo de concorrer ao governo de Minas para apoiar a candidatura do petista Fernando Pimentel, o senador Clesio Andrade (PMDB) arranhou a estratégia dos tucanos, mas eles não acusaram o golpe. O senador Aécio Neves avisa que não se cogita da substituição do candidato Pimenta da Veiga. No comando de sua campanha, a aposta é num crescimento nas próximas pesquisas, puxado pelo último programa de televisão do partido. Nele, pela primeira vez, Aécio recorreu à força mítica de seu avô, Tancredo Neves.

Receita: o inferno da malha
Como faz todos os anos, a Receita Federal aprimorou seu programa de declaração do imposto de renda. Apesar do know-how, entretanto, mantém prisioneiros os contribuintes que caíram em malha. Eles podem verificar pelo site que enfrentam exigências e quais são elas, mas não conseguem agendar o atendimento. Nem mesmo presencialmente. O contribuinte é condenado a esperar a intimação da Receita, que pode levar até cinco anos. Enquanto isso, o imposto devido engorda.

Demétrio Magnoli: Marcha sobre Brasília

Projeto petista de reforma não toca no alicerce do sistema de poder, que sustenta o atual sistema político-partidário: a colonização do Estado pelos partidos

- O Globo

Benito Mussolini comandou a Marcha sobre Roma, em 1922, para assestar o golpe final no frágil governo conservador italiano. A marcha fascista reuniu menos de 30 mil militantes, mas triunfou: sob o temor da guerra civil, e estimulado pela crença de que Mussolini salvaria a Itália dos sindicatos vermelhos, o rei Vittorio Emanuele III entregou ao Duce a chefia do governo. Hoje, o PT anuncia uma Marcha sobre Brasília para impor a sua versão de uma reforma política. O projeto tem o aval de Dilma Rousseff, expresso na declaração presidencial de que “é preciso uma conjuntura que envolva as ruas para pressionar o Congresso a fazer a reforma política”. A história se repete, obviamente como farsa. A farsa, contudo, esclarece muita coisa.

Um embrião do projeto veio à luz num artigo assinado pelo governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, no fim de janeiro. Intitulado “Uma perspectiva de esquerda para o Quinto Lugar”, o texto elucubrava sobre as virtudes do modelo econômico chinês para, na conclusão, preconizar a convocação de “uma nova Assembleia Nacional Constituinte no bojo de um amplo movimento político inspirado pelas jornadas de junho”, mas “com partidos à frente”. Não era uma proposta de médio prazo, mas um chamamento à ação: “Penso que as esquerdas no país devem abordar programaticamente estas novas exigências para o futuro, já neste processo eleitoral”, escreveu Genro.

As palavras de Genro têm um sentido. Assembleia Constituinte é, por definição, o órgão que, concentrando a soberania popular, introduz um novo regime. Historicamente, ela nasce da falência do Estado — ou seja, do desabamento do “antigo regime”. Quando, porém, é o próprio governo que, em plena democracia, conclama o povo a exigir a mudança de regime, estamos diante de uma tentativa de concentração de poder cujo alvo são as liberdades públicas e os direitos políticos da oposição. Por sorte, Genro não fala em nome do governo (e, aliás, esse é o motivo pelo qual ele se dá ao desfrute de publicar desvarios autoritários dessa espécie).

A mobilização anunciada pelo PT segue rota um tanto distinta. O partido prepara a coleta de 1,5 milhão de assinaturas para respaldar um projeto de lei de iniciativa popular articulado em torno das propostas de financiamento público de campanha eleitoral e voto em listas partidárias fechadas. No projeto petista, a “Assembleia Nacional Constituinte” cede lugar à curiosa ideia de uma “Constituinte exclusiva” destinada a legislar unicamente sobre a reforma política. A conclamação de Genro tinha uma certa coerência política: Assembleia Constituinte é, sempre e inevitavelmente, um órgão soberano, pois reúne os representantes eleitos pelo povo para produzir uma Constituição. A versão branda da Marcha sobre Brasília, por outro lado, equivale a inventar uma roda quadrada: uma Constituinte amputada de soberania, circunscrita a uma esfera de decisões desenhada pelo Executivo e pelo Congresso. É farsa — e um tanto ridícula.

A farsa, porém, tem a sua própria lógica. Por que, no 12º ano de poder, o lulopetismo proclama a urgência de uma ampla reforma política? A primeira resposta encontra-se no calendário eleitoral. Os estrategistas da reeleição de Dilma pretendem, por meio da Marcha sobre Brasília, colorir a campanha com as cores de um “mudancismo” ilusório, conectando-se de alguma forma com a vontade de mudança expressa nas jornadas de junho e registrada nas sondagens eleitorais. O sucesso do truque depende das reações — ou da ausência delas — dos candidatos oposicionistas.

A primeira resposta, entretanto, não perfura a película da questão. Segundo depoimento de uma militante, Dilma explicou a interlocutores de “movimentos sociais” que a reforma política “não é só uma questão de caneta”, pois “a maioria que ela tem no Congresso não é uma maioria em todos os temas”. As palavras da presidente têm um sentido. O lulopetismo almeja, efetivamente, um tipo singular de reforma política: a criação das regras mais propícias à cristalização de seu poder. A Marcha sobre Brasília é o instrumento escolhido para atemorizar os parceiros da santa aliança governista, dobrando-os à vontade do PT.

Os dois eixos da proposta petista de reforma política têm objetivos distintos. O financiamento público de campanha, que não exclui o recurso subterrâneo ao caixa 2, destina-se a libertar completamente os partidos da necessidade de arrecadar dinheiro junto à sua base eleitoral. Somado à manutenção do Fundo Partidário e do horário “gratuito” nos meios eletrônicos de comunicação, ele cristaliza a constelação de “partidos estatais” (que abrange os partidos de aluguel), funcionando como um escudo defensivo do conjunto da elite política. É, sobretudo, uma contrarreforma.

Já o voto em listas partidárias fechadas destina-se a reforçar o controle das direções partidárias sobre os representantes eleitos e, também, a ampliar o potencial eleitoral da sigla partidária com maior reconhecimento, que é o próprio PT. O principal prejudicado seria o PMDB, um partido-ônibus, heterogêneo e descentralizado, que congrega máquinas políticas estaduais. No cenário dos sonhos do PT, o parceiro privilegiado da coalizão de poder seria reduzido a um partido de porte médio, condenado a orbitar inerme, ao lado de outros, em torno da estrela vermelha.

Elucidativamente, o projeto petista de reforma não toca no alicerce do sistema de poder, que sustenta o atual sistema político-partidário: a colonização do Estado pelos partidos políticos. A oportunidade de conquistar frações valiosas do poder público — aparelhos ministeriais, empresas estatais, agências regulatórias — constitui o motor do sistema político brasileiro e, também, a fonte primária da corrupção estrutural no país. A Marcha sobre Brasília passará ao largo desse tema, que ocupa o lugar de um tabu no discurso falsamente reformista do PT.

Vargas vai para cima: O Estado de S. Paulo / Editorial

O deputado petista André Vargas, que se viu compelido a deixar a vice-presidência da Câmara ao emergirem os seus negócios com o grão-doleiro Alberto Youssef - o que levou o Conselho de Ética da Casa a abrir contra ele processo por quebra de decoro parlamentar -, deve se achar um guerreiro. Não tem, é claro, a movimentada biografia de um José Dirceu, o ex-presidente do PT, ex-deputado e ex-ministro da Casa Civil que cumpre pena na Papuda como capo do mensalão, a quem os companheiros assim reverenciam, acrescentando, para rimar, "do povo brasileiro".

Mas, para quem ignorasse os métodos, não propriamente solares, graças aos quais André Luiz Vargas Ilário fez carreira no PT de Londrina - começando por dirigir o Albergue Noturno local até chegar ao comando da sigla no Paraná em 1998 e ao Congresso Nacional em 2006 -, foi na esteira do encarceramento de Dirceu que ele apareceu na mídia nacional. O robusto parlamentar valeu-se da circunstância de estar ao lado do presidente do STF, Joaquim Barbosa, na abertura do atual ano legislativo, para erguer o punho esquerdo em solidariedade aos mensaleiros condenados, vítimas, segundo ele, de um julgamento injusto.

O bravo Ilário acabaria, porém, metendo os pés pelas mãos, quando se revelou que viajara de férias a bordo de um jatinho providenciado por Youssef. O episódio virou notícia porque, a essa altura, ele tinha sido preso sob a acusação de operar uma usina de lavagem de dinheiro que branqueara R$ 10 bilhões. (O mundo é pequeno. Como o Estado revelou, o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, que fugiu para a Itália para não fazer companhia aos correligionários cumprindo pena pelo mensalão, é considerado pela Justiça italiana suspeito de ligações com uma lavanderia chefiada por um certo Valter Lavitola, que prestava serviços ao ex-premiê Sílvio Berlusconi.)


Primeiro, Vargas negou que conhecesse Youssef. Depois se enrolou em um cipoal de novas mentiras até, contrito, dizer que se "equivocou". Tudo poderia ser reduzido a um pecadilho, e punido, quem sabe, com advertência ou suspensão do mandato. Mas o seu mundo caiu quando a Polícia Federal descobriu que ele atolara com o doleiro na tentativa de tomar R$ 31 milhões do Ministério da Saúde para medicamentos a serem produzidos por uma empresa cujo dono oculto é Youssef. Exposto o tráfico de influência, Vargas imaginou que, se renunciasse ao mandato, mataria o processo no Conselho de Ética. Assim, poderia candidatar-se de novo este ano.

Desfeita a ilusão, renunciou à anunciada renúncia - e deixou o PT em polvorosa, a ponto de ameaçá-lo de expulsão se insistisse em manter-se deputado. O partido tem pelo menos dois bons motivos para tirar Vargas de cena - e nenhum deles tem que ver com um improvável surto ético pós-mensalão da legenda de Lula. O primeiro se chama Gleisi Hoffman. O segundo, Alexandre Padilha. A ex-ministra da Casa Civil de Dilma é candidata ao governo do Paraná, onde os adversários poderiam usar contra ela a folha corrida de Vargas. Já o ex-ministro da Saúde, candidato em São Paulo, teria de ficar explicando que, afinal, a pasta não fechou o negócio com Youssef mediado pelo parlamentar.

No limite, a própria campanha reeleitoral da presidente poderia ser atingida pelos detritos da era Vargas. Nem esse argumento dissuadiu o deputado valentão. Numa reunião com a cúpula partidária, na terça-feira, ele peitou os cobradores. "Não renuncio. Agora vou até o fim", avisou. E, no que poderia ser tomado como um acesso de megalomania não fossem o que são os conflitos internos do PT, provocou: "Vou fazer o meu sucessor (na Mesa da Câmara)". De fato, embora o presidente da sigla, Rui Falcão, tenha lhe dito que "já devia ter renunciado", porque não conseguirá "sustentar a sua versão dos fatos no Conselho e no plenário", há quem divirja.

Figuras carimbadas como os deputados paulistas José Mentor e Cândido Vaccarezza e o carioca Luiz Sérgio estão fechados com o teimoso, que se gaba de ter o apoio de 1/3 dos 88 membros da bancada. Como diria Lula, ele "foi para cima".

Diário do Poder – Cláudio Humberto

- Jornal do Commercio (PE)

• Lula e Wagner tentam calar a boca de Gabrielli
O ex-presidente Lula e o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), foram acionados para tentar “acalmar” o ex-presidente da Petrobras Sergio Gabrielli. Irritado, ele afirmou que a presidenta Dilma Rousseff, então presidente do conselho de administração da estatal, “precisa assumir as responsabilidades dela” pela decisão de comprar por US$ 1,3 bilhão a refinaria norte-americana avaliada em US$ 42,5 milhões.

• O mandante
Lula anda preocupado porque decisões tão importantes, como comprar a refinaria, passavam por ele. E sabe que o caso impactará na eleição.

• Tirando o corpo
Após o caso ser denunciado, Dilma informou em nota que um parecer do ex-diretor Nestor Cerveró a induziu ao erro de aprovar o negócio.

• Mau negócio
Também irritou Gabrielli a afirmação de Graça Foster, que o substituiu na presidência da Petrobras, de que a refinaria foi um mau negócio.

• Até o pescoço
Indicado por Jaques Wagner, Sergio Gabrielli presidia a Petrobras em 2006, quando foi fechado o negócio da refinaria de Pasadena.

• Greve por ‘lucro’ de estatal quebrada virou piada
Funcionários do sistema Eletrobras iniciaram à meia-noite uma “greve de advertência”, como esta coluna antecipou, exigindo “participação nos lucros”. Parece notícia de “1º de abril”, mas não é piada: a estatal registrou prejuízos de R$ 6,8 bilhões em 2012 e R$ 6,2 bilhões em 2013. Grevistas não mencionam “participação nos prejuízos” de mais de R$ 13,2 bilhões em apenas dois anos. Devem culpar o contribuinte.

• Impeachment
O Movimento de Combate à Corrupção protocola hoje na Assembleia do RN pedido de impeachment da governadora Rosalba Ciarlini (DEM).

• Tremei, russos
Agora vai: após um mês e meio, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovou moção pela “soberania territorial da Ucrânia”.

• Salada no sofá
Para combater a inflação, o governo federal vai tirar os alimentos do índice. Deveria começar pelo pepino, nabo, abacaxi e batata quente.

• Chega de esquivas
Após tentativas frustradas de notificar André Vargas (PT-PR) do seu processo de cassação, o presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PSD-SP) decidiu publicá-la no Diário Oficial da União.

• Marco Civil
Na Câmara dos Deputados, “marco civil” deve ser o gesto de meter a mão no bolso do contribuinte desavisado: suas excelências deverão ganhar notebooks novinhos, da Lenovo, ao preço de R$ 23,7 milhões.

• Mãe dos pobres
O Brasil vai emprestar R$ 18 milhões ao Quênia para comprar tratores, sem taxas de importação, aliviando produtores de cana de açúcar. De lá. E fazendo a festa de vendedores de tratores. De cá.

• Que pena
Em Modena, para o aniversário da tomada de Montese pelo Brasil, em 1945, o embaixador em Roma, Ricardo Tavares, não encontrará a comitiva chefiada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, que irá a cerimônia de santificação de João Paulo II e João XXIII, domingo.

• Marqueteiro
O candidato do PSDB ao governo do DF, Luiz Pitiman, fechou contrato com Chico Santa Rica, para tocar sua campanha eleitoral. Santa Rita foi marqueteiro, em São Paulo, de políticos como Orestes Quércia.

• Diligência
A Comissão de Direitos Humanos fará diligência na Papuda, para verificar eventuais regalias do ex-ministro José Dirceu. O ministro Joaquim Barbosa usa a suspeita como pretexto para manter na gaveta o processo que concede ao preso o direito de trabalhar durante o dia.

• Dos males o menor
Com medo de cassação no plenário, Carlos Leréia (PSDB-GO), amigo do bicheiro Carlos Cachoeira, fez périplo ontem na Câmara para pedir aos deputados que aprovem apenas sua suspensão de 90 dias.

• Embrapa, 41
A presidenta Dilma foi convidada pelo presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, a participar nesta quinta (24) com o ministro Neri Geller (Agricultura), em Brasília, da comemoração dos 41 anos da empresa.

• Pensando bem…
…o deputado petista indeciso André Vargas é o Delúbio Soares amanhã. Só falta mesmo a Papuda.

Brasília-DF: Denise Rothenburg

- Correio Braziliense

Uma vaga para Freire
Discretamente, o PPS de São Paulo trabalha com os tucanos a composição do deputado Roberto Freire como candidato ao Senado na chapa de Geraldo Alckmin à reeleição para o governo do estado. Parte do PSB apoia a iniciativa como um motivo para fortalecer o apoio dos socialistas ao projeto do governador. Afinal, numa aliança em que o PPS é o único partido conhecido nacionalmente a fechar com a candidatura de Eduardo Campos à Presidência, fica difícil negar essa ajuda a Freire e a todo o partido. Falta combinar com o próprio Eduardo e com Marina Silva, que insiste em uma chapa própria no estado que hoje é o berço dos votos e onde todos consideram que, desta vez, terá mais poder de definir a sucessão presidencial.

Barba, cabelo...
As contas tucanas indicam que, nos sete estados mais importantes do ponto de vista eleitoral, o PSDB terá palanques promissores por causa das alianças que fechou e por erro dos adversários, em especial o PT. Na quota das alianças, eles incluem seis: São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Paraná.

...E bigode
O Rio de Janeiro está inserido na quota dos erros, uma vez que a tendência hoje é de isolamento do PT na sucessão estadual. Há quem veja a provocação feita há dois dias pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) a Lindbergh Farias (PT-RJ) como mais uma pitada nessa direção.

A conta da idade
Ex-ministro da Previdência Social, o deputado Reinhold Stephanes (PMDB-PR) é direto ao comentar por que votou contra o projeto de lei que institui a aposentadoria especial para as mulheres policiais federais. "Isso aí provocará um efeito cascata em todo o país, talvez até em outras profissões. As pessoas estão vivendo cada vez mais. Muitas vão se aposentar bem antes dos 50 anos. E quem vai pagar essas aposentadorias? Não tem almoço grátis", comenta.

Dudu, a esfínge
O deputado Dudu da Fonte (PP-PE) é o único que ainda não definiu o caminho na eleição para governador de Pernambuco. Ele, que tem pontes tanto com o PTB de Armando Monteiro, quanto com o PSB de Eduardo Campos e do pré-candidato Paulo Câmara, tende mesmo a lançar a missionária Michelle Collins ao governo. Assim, o PP tenta puxar um segundo turno para negociar o apoio a peso de ouro, caso a sua candidata não chegue à final.

Preocupou I/ O jantar de Eduardo Campos ontem na casa do presidente da Sky, Eduardo Baptista, deixou a nacional de cabelo em pé. É que as grandes redes a cabo, como a Sky, não são lá muito amigas da obrigatoriedade de conteúdo nacional e regional na programação.

Preocupou II/ Produtores nacionais observam que conversar com os peixes graúdos do setor não tem problema. Entretanto, o candidato que se comprometer em reformular as quotas nacionais e regionais para baixo terá problemas no meio artístico brasileiro. A coisa pode ficar de tal forma que não vai ter Guel Arraes que dê jeito. (Para quem não sabe, Guel é tio de Eduardo Campos).

No mês das mães.../ Em maio, a presidente Dilma Rousseff anunciará um novo afago aos prefeitos e apresentará a terceira etapa do PAC 2, voltada especialmente para as pequenas obras nos municípios. E a tentativa de engajá-los no projeto de mais quatro anos. Nem que seja apenas para tentar cumprir as promessas feitas até aqui.

Tenores/ O deputado Manoel Júnior causou inveja a vários colegas na Câmara. E nem tem a ver com o fato de estar quase anunciado como candidato ao Senado pelo PMDB da Paraíba. Ele teve o privilégio de ser um dos primeiros convidados a ouvir o CD gravado pelo ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) José Múcio Monteiro. Explica-se: os dois sempre se revezavam na cantoria nos tempos em que José Múcio era ministro de Relações Institucionais do governo Lula.

Beth Carvalho - Se Você Jurar (Ao vivo no Teatro Municipal)

Poesia - Murilo Mendes: Somos todos poetas

Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.

In: A poesia em pânico. Rio de Janeiro, Cooperativa Cultural Guanabara, 1938.