segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Morte de Campos zera o jogo eleitoral, avaliam adversários

• Única certeza, dizem integrantes, é que segundo turno está assegurado

• Marina Silva, que será oficializada candidata na quarta, afirmou que "as ideias não morrem", ao falar de Campos

Natuza Nery e Valdo Cruz – Folha de S. Paulo

RECIFE - Integrantes das três principais campanhas presidenciais fizeram neste domingo (17) avaliação semelhante durante o velório de Eduardo Campos: a candidatura de Marina Silva, em meio a uma comoção nacional, zerou o cronômetro da eleição.

Reservadamente, diversos representantes dos comitês eleitorais afirmam que a única certeza agora é de que haverá segundo turno.

Para muitos, o efeito da morte de Campos sobre a popularidade de sua substituta na cabeça de chapa decantará nas próximas duas semanas. Só então então será possível avaliar, com mais clareza, o cenário da sucessão.

Durante o voo que a levou ao Recife, Marina afirmou que a morte do candidato impõe a ela "responsabilidade" e que pretende manter os compromissos que definiu com o aliado. As afirmações foram feitas aos jornais "O Estado de S. Paulo" e "O Globo".

"Penso que existe uma providência divina em relação a mim, ao Miguel [filho mais novo de Campos], a Renata [viúva do candidato] e ao Molina [sobrinho e assessor]", disse Marina ao "O Globo".

Auxiliares de Dilma Rousseff presentes à cerimônia fúnebre não escondiam preocupação com a reviravolta do quadro eleitoral. Tucanos também exibiam apreensão.

No PT e no PSDB, a expectativa é de um segundo turno entre a presidente da República e o candidato do PSDB, Aécio Neves (MG).

Em comum está a avaliação de que Marina tem um discurso fundamentalista em diversos setores e sua eventual vitória traria riscos ao país. Tudo indica que a ex-senadora sofrerá dos dois grupos adversários a mesma investida negativa feita contra Lula em 2002.

Para o PSB, a morte de Campos aumentará o cacife elitoral de Marina para além do conquistado em 2010, quando ficou em terceiro lugar com 20 milhões de votos.

A mexida radical no quadro da sucessão já provocou ajustes no tom da campanha tucana. Se, antes, o slogan era mudança, agora transmitirá a ideia de "mudança com segurança".

Marina, que será oficializada na quarta-feira (20) candidata pelo PSB, afirmou, ao falar de seu ex-companheiro de chapa, que "as ideias não morrem". A ex-senadora tem evitado fazer qualquer comentário sobre seu futuro papel na sucessão.

Seus aliados no PSB acreditam que o principal desafio nas próximas semanas será consolidar o percentual de intenções de voto que novas pesquisas vão mostrar.

Na quarta, a coligação deve escolher o vice na chapa. O mais cotado é o deputado Beto Albuquerque (RS).

A tristeza cruzou o Capiberibe

• Enterro de Eduardo Campos reúne 160 mil, com presença de adversários de todas as correntes

Sérgio Roxo, Júnia Gama, Eduardo Bresciani, Mariana Sanches e Letícia Lins – O Globo

RECIFE - Os pernambucanos foram às ruas ontem para se despedir de Eduardo Campos. Marcadas por um forte tom político, as cerimônias, que reuniram mais de 160 mil pessoas no Recife, tiveram gritos de hostilidade ao PT e palavras de apoio a Marina Silva, herdeira da candidatura, e a Renata, mulher do ex-governador. Marina ficou o tempo todo ao lado de Renata. A frase "Não vamos desistir do Brasil", dita por Campos na véspera de morrer, em entrevista ao "Jornal Nacional", foi impressa em camisetas e faixas, transformando-se em espécie de novo slogan da campanha, que será retomada esta semana.

No PSB, a retomada oficial da agenda política se dará por meio de um acerto de arestas com Marina. Para lhe garantir a cabeça de chapa, o partido coloca como condição básica o respeito aos acordos políticos feitos para as eleições estaduais. A ex-senadora deve ter maior presença mesmo em estados onde antes se negava a fazer campanha por causa das diferenças locais de seu grupo político com o de Campos. Há quem defenda que seja revista a postura de não deixar sua imagem ser usada pelo PSB nas regiões onde não houve acordo com a Rede.

Viúva dará palavra sobre nome de novo vice
Ontem à tarde, antes mesmo do sepultamento, o PSB divulgou nota dizendo que iniciaria as consultas para definir de forma consensual a nova composição da chapa. Renata, Marina e os partidos serão os primeiros a serem procurados. Dentro da legenda, a palavra da viúva é tida como o início do processo para definir o vice. Caso ela decida não opinar, o líder da legenda na Câmara, Beto Albuquerque (RS), passa ser o favorito para ficar com o posto.

Apesar de empecilhos a serem superados, a vice de Campos já é tratada como nova candidata tanto por lideranças partidárias quanto pela população que compareceu ao sepultamento. Quando o caixão chegou ao Palácio do Campos das Princesas, sede do governo de Pernambuco, na madrugada, a multidão que tomava a praça gritou em coro o nome da ex-senadora.

O velório começou ainda na madrugada, após um cortejo em carro aberto do Corpo de Bombeiros que percorreu 11 bairros da cidade e prosseguiu até o fim da tarde. Renata e os cinco filhos do casal permaneceram o tempo todo no Campo das Princesas. O grande número de pessoas dispostas a prestar a última homenagem ao ex-governador fez com que o sepultamento só acontecesse às 18h40m, sob aplausos, com o céu já escuro no Cemitério Santo Amaro, após 19 minutos de queima de fogos.

Pouco antes de o caixão ser colocado na sepultura, o grito "Eduardo, guerreiro do povo brasileiro" tomou o local, seguido por aplausos e uma grande queima de fogos.

Antes, os filhos e a mulher beijaram o caixão. O papel ativo dos filhos havia começado ainda no cortejo da madrugada. Pedro, Maria Eduarda e João, os três mais velhos, percorreram a cidade no carro do Corpo de Bombeiros, boa parte do tempo com os punhos cerrados, acenando para o povo e cantando palavras de ordem.

Dilma foi vaiada e depois aplaudida
Os três vestiam uma camiseta amarela com a frase "Não vamos desistir do Brasil". A frase também estampava uma faixa pregada no caminhão que carregou o caixão pela cidade.

A forte hostilidade ao PT também marcou a cerimônia. Os gritos de "Fora, PT" e "Fora, Dilma, agora é Marina" foram ouvidos inúmeras vezes. Uma pequena vaia, logo abafada por aplausos, foi ouvida no momento da chegada da presidente Dilma Rousseff. O candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves, também compareceu e tentou demonstrar afinidades com as ideias defendidas por Campos.

Marina avalia acordos e aguarda vice

- Valor Econômico

RECIFE, SÃO PAULO e BRASÍLIA - Marina Silva, virtual candidata do PSB à Presidência da República, começou a sua campanha eleitoral este ano em meio ao velório e enterro do ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, em Recife. Foi a maior manifestação política da história de Pernambuco - 160 mil pessoas tomaram as ruas ao redor do Palácio do Campo das Princesas e o cemitério de Santo Amaro. A primeira luta de Marina é pelo controle da própria campanha e da candidatura.

A escolha do novo nome para a vice-presidência deverá ser definido até quarta-feira, em reunião da Executiva em Brasília e passará por Renata Campos, viúva de Eduardo Campos, que convocou reunião da cúpula do partido amanhã, dia de seu aniversário. Renata foi convidada para ser candidata a vice com a anuência de Marina, mas a expectativa é que não aceite. O mais cotado para ser companheiro de chapa é o deputado Beto Albuquerque (PSB-RS).

Os líderes do PSB negociam com Marina um conjunto de concessões em troca da candidatura, que envolve alianças regionais e alterações nos conteúdos das próprias propostas da candidata. De acordo com um governador da sigla, "desta vez Marina vai disputar para ganhar, não para marcar posição e isso envolve concessões com todo mundo".

O PSB vai relatar e pedir de Marina uma posição clara sobre os acordos regionais feitos por Eduardo, entre os quais o de São Paulo figura como um dos mais importantes, em que PSB e PSDB estão juntos no maior colégio eleitoral do país, contra a vontade de Marina - de resto pouco simpática a alianças com os tucanos. Marina deve recepcionar todos os acordos feitos por Campos, mas até agora não garantiu que fará campanha para os candidatos de acordos com os quais não concordou.

Para dirigentes do PSB, essa é uma questão vital para uma candidatura que dispõe de condições de vencer a corrida presidencial, como é consenso no partido. Uma candidata competitiva como Marina não poderia ficar sem campanha no maior Estado da federação. O mesmo ocorre em relação ao Rio de Janeiro, onde o deputado federal Romário Faria (PSB), montou sua candidatura ao Senado em aliança com o candidato do PT ao governo do Estado, Lindbergh Farias.

A entrada de Marina na disputa muda a estratégia eleitoral de seus rivais. A presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, deve reforçar a agenda "desenvolvimentista". Na campanha de Aécio Neves (PSDB), um argumento já está pronto para ser usado contra a ex-senadora. O alvo é sua capacidade e experiência como gestora e seu preparo para discutir temas econômicos com profundidade. O que os tucanos dirão é que Marina não está suficientemente habilitada em nenhuma dessas áreas.

Ao encontrar o ex-ministro Ciro Gomes ontem no velório, Marina sinalizou predestinação: "Essas coisas não acontecem por acaso, mas sim em nome de algo maior". Num num gesto de reaproximação, Marina arrematou: "Tenho saudade do Ciro que me ajudou."

PF liga doleiro a 17 contratos da Petrobrás

• Alberto Youssef intermediou 750 projetos entre grandes construtoras e órgãos públicos

Fausto Macedo , Valmar Hupsel Filho - O Estado de S. Paulo

Alvo central da Operação Lava Jato, o doleiro Alberto Youssef, preso pela Polícia Federal desde março, intermediou 750 projetos entre grandes construtoras e órgãos públicos, entre fevereiro de 2009 e maio de 2012. Somados, os valores referentes a estes contratos ultrapassam a "casa dos bilhões", segundo a PF. Pelo menos 17 deles são da Petrobrás para grandes empreendimentos nas áreas de refinarias e gás, suspeitam os federais. A investigação aponta, preliminarmente, que Youssef recebeu comissões no valor aproximado de R$ 160 milhões.

A PF também apura a suposta participação do ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa nos negócios de interesse do doleiro. Os investigadores suspeitam ainda que Youssef estendeu sua atuação a outros países, como Argentina e Uruguai.

A lista consta do Relatório de Projetos, um documento de 34 páginas apreendido pela PF na casa do doleiro. Youssef já é réu em cinco ações decorrentes da operação. A PF agora vai cruzar informações lançadas na planilha com os dados relativos aos contratos firmados pelos órgãos públicos.

"Para cada projeto destacado há um cliente vinculado, geralmente uma grande construtora, e para cada cliente há um cliente final, quase sempre empresas públicas, como Petrobrás, Copasa, Comperj e algumas empresas privadas", relata a PF. Em outro trecho, o relatório cita sete das maiores empreiteiras do País como detentoras de "inúmeros contratos" com órgãos públicos. "A tabela relaciona cada cliente a um contato e um número de telefone, assim, dessa forma, Alberto Youssef acompanharia o desenvolvimento dos projetos."

Na planilha, de acordo com a PF, há diversas citações ao nome do Consórcio Nacional Camargo Correa (CNCC) ao lado de valores "expressivos, não raros milionários", tendo como cliente final a Petrobrás - Refinaria Abreu e Lima. O consórcio teria, segundo a PF, firmado contrato com a Sanko-Sider no valor de R$ 130 milhões, em que Youssef aparece possuindo "relações diretas com a referida empresa e seus dirigentes, inclusive recebendo valores".

O Grupo Sanko afirmou que já entregou à Justiça "documentos que demonstram a correção de seus contratos e negócios". Segundo a Camargo Correa, o contrato firmado com o CNCC foi objeto de licitação pública pelo menor preço. A Petrobrás não se manifestou.

Luiz Werneck Vianna: "Saúde e educação são os temas centrais da eleição, não a economia"

• Entrevista:  Luiz Werneck Vianna. Cientista social da PUC-Rio

Intelectual renomado e de sólida formação marxista, o sociólogo Luiz Werneck Vianna surpreende e diz que o desenvolvimento econômico não será decisivo na campanha presidencial. "Não vejo o tema da economia, tal como está posto pela mídia, como central. Até porque a economia não está vivendo mares catastróficos". Já os temas saúde e educação, segundo ele, "se fortaleceram enormemente nesses últimos anos e receberam a chancela das ruas, da juventude e da classe média". Professor de Ciências Sociais da PUC-Rio, ele afirma que os candidatos têm dificuldade em se diferenciar a respeito desses temas. "Essa agenda é de todos eles. Irão todos pelo mesmo caminho, é tudo japonês, tudo igual. Vão se distinguir na biografia e no desempenho". Ao analisar o cenário eleitoral após a morte de Eduardo Campos, Werneck não vê tantos riscos para a reeleição da presidenta Dilma, mas alerta para problemas. "Ela é favorita, mas com novas preocupações", pontua, em referência à provável entrada de Marina Silva como cabeça da chapa do PSB. "Tudo ainda é muito prematuro, mas podemos ter um segundo turno entre mulheres", prevê Werneck.

Eduardo Miranda, Octávio Costa - Brasil Econômico

A morte de Eduardo Campos provocou uma reviravolta capaz de alterar os rumos do processo eleitoral. Como o sr. está vendo esse fato novo?

A política parece ter uma certa lógica e obedecer a um certo andamento previsível. Mas tanto os homens quanto os próprios fatos podem alterar esse andamento e colocar os atores diante de situações inesperadas, para as quais eles não tinham nenhuma alternativa, nenhum programa de enfrentamento. Parece ser o caso. A cogitação era que a campanha do Eduardo ainda sofresse um processo eleitoral de fricções e perturbações, em razão da natureza dos dois candidatos — o candidato à presidência e a Marina, que tinha elementos de estranho noninho, em um cenário marcado pelo Eduardo, com o desenvolvimento econômico, ciência... Não que a Marina seja avessa a isso. Mas ela é bem mais moderada nesses objetivos, vem de uma agenda ambiental. O que ficou claro, e que as pessoas estão reconhecendo agora, é que o Eduardo tinha uma enorme capacidade política de administrar diferenças, conflitos. E construiu uma identidade própria.

Marina Silva também faria esse tipo de movimento?

A coisa mudou de eixo. Agora, a Marina vai ter que demonstrar capacidade de viver o outro, mesmo que o outro não esteja presente, mas com o programado outro. Ela não vai poder defenestrar. Caso se torne candidata, ela não pode dizer que seu programa é diferente do dele. Ela está obrigada a fazer uma operação — caso efetivamente seja a candidata — de dizer que o programa dele, agora, é o dela. Que ela fará isso em respeito a ele, em admiração a ele. E, embora não brotasse inteiramente dela, que, diante das circunstâncias, ela se adapta. Acho que esse é o desafio que ela vai enfrentar, de dialogar com o ausente. O nome do Eduardo vai ser uma presença forte na campanha dela. Ela entra, mas, ao entrar, não vai nem ofuscá-lo nem bani-lo. Vai ter que incorporá-lo.

No discurso após a morte dele, Marina Silva não tratou de política, de sucessão, mas se referiu aos sonhos e ideais de Eduardo, que teriam sido o tema da última conversa entre eles.

Acho que esse é um ponto. Se, antes, a dificuldade era o Eduardo criar condições para uma relação harmoniosa com ela e seu programa, agora, isso se inverteu. O programa dele não está erradicado, e sua presença não está banida. Será uma presença permanente caso ela se torne, efetivamente, candidata.

Diz-se que Marina teria mais chances do que ele, por seu desempenho em2010 e seu perfil mais carismático. O sr. vê dessa forma?

Mas isso é um contrafactual que nós não temos como controlar.

O desempenho dela em 2010 não serve como referência?

Não é isso. O desempenho dela serve como referência. O fato é que ela, agora, não era candidata. Ela não conseguiu a candidatura própria, seu partido não conseguiu se construir. Fosse ela no lugar dele e logo no início dos entendimentos entre eles ficasse claro que seria a Marina a candidata, se eles tivessem decidido isso... Mas não foi assim que as coisas ocorreram. Ela começaria bem melhor do que ele, certamente. Mas o teto dela estava dado, eu acho. As chances dela seriam menores do que aquelas que, agora, ela poderá vir a ter, com a presença fantasmal do Eduardo na campanha.

Que dá uma grande carga de emoção à campanha...

Todos estão em apuros, nesta altura. O Aécio tem que se precaver, pois quem lhe garante que ele chega ao segundo turno? E a própria Dilma, porque, dependendo de como as coisas evoluam, a mesma dúvida pode cair no colo dela, nas hostes dela. Tem uma carga de emoção muito forte, que pode ter essa influência na eleição até um ponto que, hoje, não dá para antever. E a biografia do Eduardo, nesta altura, tornou-se muito valorizada, como político, como pessoa, como estilo de vida.

Seu avô, Miguel Arraes, também voltou a ser lembrado.

Voltou . Dependendo d e como essa herança seja administrada e de que ela se demonstre capaz, mesmo manifestando que não são posições originárias dela, mas que, agora, serão o seu programa, que ela vai incorporá-las. Se ela fizer isso direito, vejo-a como uma candidata muito forte. Isso introduziu uma descontinuidade. Não adianta olhar esse processo a partir do momento em que ela lutou pela constituição da Rede Sustentabilidade e encontrou-se com o Eduardo. É uma situação ex novo. Estamos na estaca zero. Não dá para analisar nada responsavelmente agora.

Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, não quis fazer nenhuma previsão logo após a tragédia, limitou-se a dizer que será outra eleição. O sr. concorda?

É isso que estou tentando dizer, é uma outra eleição. A morte de Getúlio Vargas, em1954, mudou todo o ambiente político. A classe média estava irritada com aquela situação, a Aeronáutica em pé de guerra, e, de repente, sua morte virou o jogo completamente. A esquerda também foi surpreendida. Na noite da morte, os militantes do Partido Comunista foram orientados a ir às bancas de jornal e recolher os exemplares do jornal partidário, onde estavam preconizando a saída do Getúlio.

O sr. acha que é comparável?

Não. O momento era muito mais agudo. Não tem a mesma proporção.

Mas mostra que a emoção pode ter influência.

Pode.

Comenta-se que parte do sentimento de mudança, dos votos nulos, podem ir para Marina. É uma especulação embasada?

Não. Ainda tem o Aécio Neves aí. Ele também ficou em uma situação difícil, sob a ameaça de ser ultrapassado. Como ele vai operar? O enterro do Eduardo apresenta uma série de pistas, com todos os políticos presentes. Não é só o jovem político, a esta altura. É, também, o Miguel Arraes. Ele vai ser enterrado com o avô.

Mesmo com essa situação nova, Dilma ainda pode ser considerada favorita?

Pelo peso da máquina e da inércia da política, é favorita, sim. Agora, uma favorita com preocupações novas. Um resultado inteiramente inesperado, que vai deixar todos atônitos, é se, ao final, tivermos no segundo turno duas candidatas. Dilma e Marina. Essa, realmente, vai ser difícil de conceber. Mas isso já está no mundo das possibilidades. Não é algo irreal. Resta saber como o Aécio vai enfrentar essa circunstância, de não ser ultrapassado. É o que o estado-maior dele deve estar pensando agora.

O sr. está vendo, então, que é possível acontecer esse segundo turno entre as mulheres?

Para quem está sempre pensando em quadros, mesmo que eles importem em construções especulativas, não faz nada mal um exercício desses. Você não pode descartar esse exercício, porque ele pode ocorrer. O mais previsível é Dilma e Aécio. E acho que, a esta altura, haverá segundo turno. A gente não deve ser tão peremptório assim.

Tudo indica que Marina não é uma candidata de 10% de votos. E o PSDB, por tradição, também tem mais de 20%.

Ainda tem o Pastor Everaldo e outros...

Foi dito que o grande tema da eleição seria a economia. O próprio Eduardo Campos falou no 7x1, 7% de inflação e 1% de crescimento. Essa campanha será focada aí, ou em questões sociais?

Sempre que tive a oportunidade, procurei desqualificar essa valorização da economia nas decisões do quadro político brasileiro imediato. A meu ver, o que ilustra melhor isso são as jornadas de junho de 2013,quando as demandas eram, todas, de outra natureza. Diziam respeito a direitos.

Saúde, mobilidade urbana, educação...

Direitos. E, olhando bem, quando viramos para 2014 e o processo eleitoral se abre, qual é a agenda dos três principais candidatos? A que foi posta nas ruas pelas manifestações de junho. A discussão econômica não está dominando as intervenções públicas desses candidatos. Domina suas intervenções com comunidades de empresários, de homens de negócio, empreendedores. Tem que ser assim mesmo. Agora, quando falam para o grande público,o tema é outro. O tema é o da agenda de junho de 2013, uma agenda de direitos.

Mas há uma insatisfação nomeio empresarial muito grande. Essa insatisfação se reflete na campanha da Dilma?

Pode parecer uma construção para marcar posição da minha parte, mas eu não estou vendo, neste processo, o tema da economia, tal como está posto pela mídia, como central. Até porque a economia não está vivendo mares catastróficos.

A massa dos eleitores tem outra preocupação, que não a economia?

Não é todo eleitorado, mas os eleitores estão dizendo, especialmente os jovens, que não querem participar disso, ou que não estão satisfeitos em participar disso, não estão encantados por esse processo eleitoral. Está claro. E não se deve a razões econômicas, mas a uma insatisfação com as instituições, com a cultura política do país. E, de repente, o que se vê, com a morte do Eduardo, é que não havia tanto motivo para rejeitar. Havia bons candidatos. A política conhece bons personagens. O Eduardo era um deles.

O sr. acha que os jovens,a partir desse episódio, podem despertar para a política institucional?

Seria charlatanice minha admitir isso, mas acho que eles foram tocados, viram que havia uma cena, com homens interessantes, dignos. Mas ainda é muito cedo para falar disso, fazer essas especulações. Se o Aécio está em palpos de aranha, a Dilma também está. Uma linha forte de fricção do Eduardo era com ela, Dilma. O antagonismo dele era com ela. Não sabemos, por exemplo, como isso vai repercutir no Nordeste.

Mas há, por outro lado, o carisma da Marina?

Tem isso. O público da Assembleia de Deus, que é grande, pode novamente se encontrar com ela, como aconteceu na eleição passada.

O voto religioso existe no Brasil?

Existe, sim.

Entre evangélicos e católicos?

Os evangélicos são mais disciplinados. Na verdade, eles montaram uma relação entre intelectuais e crentes muito apertada, com pastores que conduzem suas ovelhas e se fazem muito presentes. A Igreja Católica tem um distanciamento maior, fala mais sobre temas gerais, não tem essa administração quase do cotidiano, como os neopentecostais têm.

Mas, sendo candidata, ela pode atrair esses votos?

Pode. Mas esse também pode ser um flanco dela. Muita gente vai migrar para a candidatura do PSB, se a candidata for Marina, assim como muita gente vai abandonar. E um dos aspectos é o fato de ela ser evangélica. Imagino, também, que o agronegócio abandone.

O governo joga muito com os programas sociais que tem, como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos. Esse é um trunfo?

Sim, porque essa não é uma política de ocasião. Ela já vem sendo executada e sedimentada há algum tempo. A dificuldade está quando se sai desse nível de sobrevivência e vai para o mundo dos direitos. Nesse aí, a Dilma vai mal.

O governo dela fez pouco nessa área?

Poderia fazer mais, e quando fez muito, fez erraticamente, colocou muito dinheiro que não deu dividendos, não deu rendimentos sociais e políticos. Gasta-se uma barbaridade em saúde no país, e o atendimento é precário e ruim. Na educação, é a mesma coisa. Agora, esses dois temas se fortaleceram enormemente nesses últimos anos e receberam a chancela das ruas, da juventude, da classe média. São temas inerradicáveis. Não se ganhará a eleição com tema de desenvolvimento econômico. Não adianta levantar agora o tema da privatização, como já foi importante em eleições passadas.

A questão da Petrobras terá algum impacto?

Talvez, sim, mas na massa da população isso não chega.

E o aeroporto de Cláudio?

Também, não. Nem a coisa do Eduardo Campos com a mãe, Ana Arraes, teria impacto.

O sistema de denúncias, de outras eleições, não vai funcionar?

Isso já tirou Ciro Gomes de uma eleição presidencial. Ele não Foi treinado suficientemente e não tinha temperamento para ouvir aquelas perguntas. Eduardo e Aécio não só foram treinados, como foram educados politicamente. Ciro Gomes largaria um programa no meio e eles ficaram lá, respondendo direitinho.

Marina se beneficia de alguma maneira dessa pauta social nas campanhas?

Essa agenda é de todos. Foi a agenda consagrada pelas manifestações de junho e ganhou força e uma sedimentação inédita entre nós. A questão nacional, por exemplo, já decidiu eleições anteriores, mas não é mais o centro da eleição, como Leonel Brizola fazia. Não temos mais sociedade para isso. A sociedade brasileira atingiu a dimensão da luta pelos interesses e pelos direitos de uma forma irreversível. Outra questão forte será a da habitação popular, que está hoje nas ruas.

Vai ficar difícil para os candidatos apresentarem propostas distintas para as demandas sociais?

Vai. Eles irão todos pelo mesmo caminho, é tudo japonês, tudo igual. Vão se distinguir na biografia e no desempenho.

O voto vai se dar mais em cima das qualidades pessoais?

Vai.

Mais que o perfil ideológico?

O PT é um partido ideológico? Não é. Mas qual seria? Qual seria??

Não ter ideologia é bom? Ou é ruim?

É bom e é ruim. Temos uma sociedade de massa monumental no Brasil, muito apetitiva em torno de direitos. Eles querem mais. O tema da saúde se tornou fundamental. E ela foi constituída com partidos fracos e retardatários. Isso ocorreu sem eles, por força de mercado, políticas de Estado. Eles chegam depois no processo, erráticos, com problemas de constituição, falta de consistência. Esses partidos são federações de interesses.

Na Europa e nos Estados Unidos, o livro do francês Thomas Piketty ( "O Capital no Século XXI") reabriu a discussão sobre concentração de renda. Esse é um tema válido para o Brasil?

Sem dúvida. E o que me chama a atenção é que o livro ainda não tenha sido incorporado pelas campanhas, pelos organizadores dos programas. Ali, há um manancial imenso sobre a redistribuição da renda. Inclusive, é um flanco em que o Brasil é muito vulnerável, pelo fato de a Receita Federal não ter transparência com a população. O Eduardo chegou a falarem tributação das grandes riquezas.

A questão da concentração de renda é algo que no Brasil já se discute desde os anos 70.

Mas com dados obscuros. A Receita Federal não abre os dados.

É uma discussão que merece ser retomada?

O tema da igualdade vai pegar velocidade aqui. Estive recentemente em um debate para discutir gentrificação. Abaixo do tecido visível da política, há um outro tecido invisível e que está se disseminando, com novas lideranças. Havia nomes lá que se intitulavam como mandatários da liberdade do povo, têm uma carga política forte.

Ao largo da política institucional...

A gentrificação ocorre porque não há partidos que defendam o sistema de habitação, a distância entre intelectuais e povo é imensa. Não sou de fazer demagogia com essas coisas, olho criticamente, mas fiquei impressionado com essas lideranças com ligação para baixo. Aliás, o que está acontecendo embaixo, na política, tem sido mostrado: a presença da milícia, o controle territorial do tráfico.

Outro fenômeno muito falado foi a ação dos Black Blocs.

Mas já passou, eles já perderam o encanto. Os intelectuais performáticos falaram disso, mas já não falam mais. Também os jovens, com quem eu convivo o tempo todo, já não têm todo esse entusiasmo.

Mas, no ambiente acadêmico, cresceu muito o interesse pelo estudo do anarquismo. Talvez por decepção com a política institucional?

As pessoas estão sempre procurando utopias críveis, porque viver sem uma, como diria o Cazuza, é difícil.

No discurso do 1º de maio deste ano, por sinal, a presidenta Dilma adotou um discurso mais enfático.

A questão sindical, operária, não está tendo o mesmo protagonismo que teve em eleições anteriores. São mudanças ocorridas entre os trabalhadores, os sindicatos. A própria maneira como se comemora feriado não é mais cívica, é um festival quase carnavalizado, com músicos cantando. O que não quer dizer que esse voto não tem significação. Mas o programa para atrair esse voto está muito generalizado. É progressão da política de salário mínimo, o tema da Previdência, tudo isso faz parte de uma agenda comum. Está difícil encontrar um ponto que seja só meu e não seja dos outros, que seja bem identitário.

O PT está desgastado?

Está. Ele não se renovou ao longo dos anos, tem líderes que estão aí há 30 anos, porque não acreditaram na democracia interna. Deixaram de ser atraentes e se distanciaram da juventude, dos artistas e intelectuais. Registra-se uma debandada.

Fala-se muito da volta do Lula em 2018.

Mas isso não tem relação com o partido.

Ele tem condições de se reeleger?

Vou responder dando uma "peruada": acho que não. O país não vai parar seis anos à espera de São Sebastião. Não tem isso. O jovem quer o novo.

E vão surgir novos nomes?

Já estão surgindo. Outro dia foi feita uma matéria sobre a oligarquização das famílias. Seria interessante também fazer uma pesquisa sobre os jovens das manifestações de junho que são candidatos agora em todos os estados. Pode significar uma mudança geracional. Esse país muda muito. A superfície pode se apresentar como quase que imobilizada, mas, lá embaixo, nesse oceano, há muita vida.

Os candidatos que estão aí não representam esse fenômeno?

Não dialogam com os jovens. Procuram assimilar seus temas. Todo mundo está dizendo, com razão, que essa campanha será definida no programa de televisão. O voto majoritário, de opinião, idiossincrático, por simpatia, vai depender da televisão.

Fala-se muito da reforma política. Ela mudaria esse quadro?

Acho que pode ajudar muito.

Com mecanismos com o voto em lista fechada, cláusula de barreira?

A cláusula de barreira foi tirada pelo Supremo numa intervenção desastrada.

Em alguma medida, a reforma pode frear o descolamento entre as bases populares e a classe política?

Como tempo, sim. Mas isso precisa ser sedimentado, não vem a jato, tão rápido.

Mercado reduz projeção de crescimento do PIB em 2014 para 0,79%

• Analistas consultados pelo Banco Central no Boletim Focus diminuíram a estimativa de crescimento da economia pela 12ª vez consecutiva

Agência Estado

SÃO PAULO - O mercado reduziu nessa segunda-feira, 18, pela 12ª vez consecutiva, as perspectivas para o desempenho da economia neste ano. Segundo o Boletim Focus do Banco Central, agora economistas acreditam que o Produto Interno Bruto (PIB) deve fechar 2014 em alta de 0,79%. Na semana passada, as projeções apontavam para um crescimento de 0,81%. Há quatro semanas, a expectativa era de 0,97%.

A diminuição das projeções ocorre após o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) apontar recuo de 1,20% da atividade econômica no segundo trimestre, o que para alguns especialistas já acendeu o sinal amarelo de que pode haver recessão da economia no período. O IBGE divulga o PIB no dia 29 de agosto.

As sucessivas quedas das estimativas para este indicador vêm chamando a atenção até da imprensa internacional. Na semana passada, a edição online do jornal britânico Financial Times comparou as projeções da pesquisa Focus do Banco Central com a "dança da cordinha", argumentando que, a cada rodada, a previsão para o crescimento do Brasil cai mais um pouco. A publicação aponta, porém, que os eleitores do País não parecem estar incomodados com esse cenário.

Para 2015, porém, a estimativa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) ficou estacionada em 1,20%. Um mês atrás, a mediana estava em 1,50%. A expectativa para o fraco crescimento é explicada pelas previsões negativas do mercado para o setor industrial. Para 2014, a mediana das estimativas passou de uma retração de 1,53% para uma queda de 1,76%. Para 2015, porém, a previsão segue em alta de 1,70% há quatro semanas antes.

Os analistas corrigiram também suas estimativas para o indicador que mede a relação entre a dívida líquida do setor público e o PIB em 2014. A Focus de hoje aponta uma mediana de 34,89% ante taxa de 34,85% da semana passada e de um mês atrás. Para 2015, segue em 35,00% há nove semanas.

Inflação menor. O Relatório de Mercado Focus revelou que a projeção para o IPCA de 2014 caiu levemente de 6,26% para 6,25%. Há quatro semanas, a estimativa era de 6,44%. Esta é a quinta semana consecutiva em que há diminuição das previsões. Já para 2015, a mediana das estimativas seguiu em 6,25% de uma semana para outra. Um mês antes, a expectativa mediana estava em 6,12%. A previsão suavizada para o IPCA para os 12 meses à frente, porém, aumentou de 6,19% para 6,21%. Há quatro semanas estava em 5,95%.

Juro estável. Os economistas consultados preveem uma taxa Selic menor ao final do ano que vem do que o estimado na semana passada. De acordo com o boletim divulgado esta manhã, a mediana das estimativas passou de 12% ao ano, nível que se encontrava há um mês, para 11,75% ao ano. Mesmo assim, a taxa encerrará 2015, de acordo com a pesquisa, mais alta do que o mercado espera para o final deste ano.

Pela Focus, não houve alteração na mediana da projeção para a Selic no fim de 2014, que segue em 11% ao ano há 11 semanas. Vale destacar que este é o nível atual da taxa básica de juros da economia brasileira. O próximo encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) para definir o rumo dos juros será nos dias 02 e 03 de setembro.

Ricardo Noblat: A guerra dos tronos

"Não vamos desistir do Brasil"
EDUARDO CAMPOS

- O Globo

Tal avô, tal pai adotivo e tal filho . Há nove anos, pouco antes de morrer, o mítico Miguel Arraes, três vezes governador de Pernambuco, cassado e exilado pela ditadura de 1964, ouviu a provocação feita por um amigo do seu neto, Eduardo Campos: "Não está na hora de passar o chapéu?". Arraes respondeu: "Quem quiser que pegue". Isto é: não indicarei um herdeiro. Quem quiser que conquiste o lugar .

Entre amigos, mais de uma vez nos últimos anos,Lula disse que considerava Eduardo uma espécie de filho adotivo seu. Quem, dentro do PT , Lula formou para sucedê-lo no comando do partido? Porto dos os meios possíveis, Lula sempre deu um jeito de apagar quem lhe pudesse fazer sombra. Concorreu à Presidência da República cinco vezes. Para substituí-lo por quatro anos apenas, iluminou um poste chamado Dilma.

O poste rebelou-se, bateu o salto no chão com raiva e decidiu tentar se reeleger. Lula amaldiçoa a hora em que não abriu o jogo e combinou com Dilma que, em 2014, seria novamente a vez dele. Agora é tarde. Nem mesmo o fantasma de Marina Silva será capaz de remover Dilma do caminho de Lula. Se depender de Dilma, Lula brilhará em sua campanha e a seu serviço. Mas não dividirá o protagonismo com ela.

Arraes morreu de morte morrida aos 89 anos. Eduardo, de morte inesperada, trágica, aos 49 anos. Como o avô e o pai adotivo, Eduardo não deixa herdeiros. Primeiro porque não teve tempo para deixar. Segundo porque não fez questão de deixar. Marina disputará a vaga de Dilma porque era vice de Eduardo—não porque fosse sua herdeira. Pernambuco, um dos estados mais politizados do país, ficou órfão.

Tamanha era a força de Eduardo que ele se reelegeu em 2010 com 82% dos votos, ganhou a eleição em todos os municípios do estado, encabeçou nos últimos quatro anos a lista dos governadores mais bem avaliados do país e juntou 20 partidos para derrotar fragorosamente o PT há dois anos e eleger prefeito do Recife quem jamais disputara uma eleição. Os amigos, às suas costas, o chamavam de "O Imperador".

Pois bem: "O Imperador" indicou para seu lugar um ex -auxiliar que, como o prefeito , era novato em matéria de eleição — o técnico Paulo Câmara, ex–secretário da Administração e da Fazenda de Eduardo. O DataFolha, no sábado passado, conferiu a Paulo 13% das intenções de voto contra 47% de Armando Monteiro Filho , candidato apoiado pelo PT . Se estivesse vivo, Eduardo daria um jeito de animar seus seguidores.

Dotado de uma extraordinária autoconfiança, de uma capacidade de trabalho invejada por amigos e adversários e de um admirável poder de persuasão, para Eduardo não existia o talvez ou o quem sabe. Parecia convencido de que nada o impediria de atingir de fato seus objetivos. E, a se levar em conta sua curta, mas meteórica e bem-sucedida trajetória política, estava certo.

Eduardo morreu convencido de que elegeria seu candidato ao governo de Pernambuco e de que venceria Dilma no segundo turno com a ajuda de Aécio Neves, do PSDB. Da única vez que falou para milhões de brasileiros — cerca de 35 milhões, a audiência do "Jornal Nacional", na última terça-feira—, cunhou a frase pela qual começa a se tornar conhecido: "Não vamos desistir do Brasil".

Pouco depois de dizê-la, e como não parasse de falar , ouviu de Patricia Poeta, apresentador a do telejornal, a advertência curta e grossa: "Seu tempo acabou, candidato ". Morreu no dia seguinte . Virou história

José Roberto de Toledo: Os três 'ismos' de Marina

- O Estado de S. Paulo

Aviso ao leitor: se o Datafolha não mostrou Marina Silva (PSB) com um pé no segundo turno presidencial, não vale a pena ler o resto deste texto. Ele foi escrito antes da divulgação dessa pesquisa, a primeira após a morte de Eduardo Campos. Outros sinais, porém, indicavam que a sondagem mostraria Marina muito bem na foto. Se esses sinais estavam certos, boa leitura.

A volta por cima de Marina ganha mais impulso com a pesquisa Datafolha. Feita no auge da comoção nacional com a morte de Campos, a sondagem é um fato político em si. Interfere na campanha ao aumentar o cacife de Marina. Deixa-a em posição de força para ditar os termos de sua candidatura ao PSB.

Mesmo inflada pelo momento da coleta, a pesquisa confere a Marina uma dose de favoritismo que Campos nunca teve. Mas o sabor de virada é agridoce para os pajés sem cacique do PSB. A grande chance de ganharem a Presidência pelo voto não só veio pela perda de seu líder, como ainda convive com a incerteza: será que tal vitória os levaria de fato ao poder? Porque antes de ser do PSB, Marina é do partido de Marina.

O PSB não é o único desconfiado que perdeu mais do que ganhou. Aécio Neves (PSDB) não precisa mais se preocupar se haverá segundo turno, mas corre risco inédito de ficar fora dele. Dilma Rousseff (PT) pode até não perder já, mas vê escapar a possibilidade de reeleição já em 5 de outubro - com o agravante de aumentar seu risco de derrota no turno final.

Muita coisa mudou em pouco tempo e pode continuar mudando. Marina entra na corrida pelo topo. Não será fácil manter-se tão em evidência quanto esteve desde o dia 13. Aumentará o tiroteio contra ela. Por isso, só as pesquisas do fim de agosto mostrarão um quadro decantado do pós-tragédia. Até lá, vale a pena entender como Marina chegou aonde chegou.

Uma parte de seus eleitores é histórica, não muda facilmente. A outra vem na onda emocional em que a pesquisa foi feita. A candidata precisará trabalhar para consolidar esse eleitor neomarinista. Os antigos são, por mais de um motivo, fiéis.

O eleitorado estrutural de Marina é um misto de dois grupos distintos. Na ponta da pirâmide, jovens descontentes com a política tradicional, muitos deles manifestantes de 2013. Têm escolaridade acima da média e se acham qualificados demais para as oportunidades de emprego que lhe aparecem. Na base, eleitores religiosos, principalmente mulheres evangélicas.

Por razões distintas - o conservacionismo da Marina ambientalista, e o conservadorismo da Marina dogmática -, ambos votaram nela há quatro anos. O grupo religioso aderiu na reta final do primeiro turno de 2010, após campanha de neopentecostais associar Dilma à defesa do aborto.

No segundo turno, uma parte desses eleitores votou em Dilma, mas sem convicção. Está sempre pronta a pular fora do barco da petista a qualquer sinal de avanço da presidente no campo dogmático. Foi o que ocorreu em maio deste ano, depois que o governo regulamentou o aborto por razões médicas e legais na rede SUS. A reação foi tão forte que a portaria foi revogada.

Esse eleitor crê quando Marina diz que foi "providência divina" ela não ter viajado no avião que caiu.

Mas desconfia quando Dilma diz "feliz da nação cujo Deus é o Senhor". O voto religioso em Marina rebaixa o piso eleitoral de Dilma - assim como seu eleitorado jovem limita o teto potencial de Aécio. Aí há menos chance de mudanças.

Quem oscila e pode ou não levar Marina à vitória é quem estava insatisfeito com as candidaturas existentes e aparecia na coluna do branco, nulo e indeciso. Esse eleitor estava desligado da eleição até o Cessna Citation explodir em Santos. O estrondo da tragédia despertou-o para a campanha. No susto, aderiu a Marina. Se vai continuar, depende de ela conseguir equilibrar conservacionismo, conservadorismo e messianismo.

Valdo Cruz: Vida bem vivida

- Folha de S. Paulo

Obra do destino, que construímos em dimensões visíveis e invisíveis, a morte de Eduardo Campos põe nas mãos de Marina Silva a chance de ouro de conquistar o posto que seu companheiro considerava projeto pronto a ser realizado.

Projeto que Marina viu escapar de suas mãos até pouco tempo atrás e que, agora, vê o destino, de forma sofrida, lhe devolver. Não da forma como desejaria, mas que passa a ser real na avaliação tanto de aliados como até de seus adversários.

Enquanto seu companheiro de chapa era velado neste domingo, Marina era o tema de conversas reservadas nos jardins interiores do Palácio Campo das Princesas, sede do governo pernambucano.

Ao contrário de Eduardo, que tinha projeto viável de governo, Marina é sonhática, vista como inconsistente. Mas, se somar os dois lados, sobe várias casas no tabuleiro eleitoral e pode chegar ao segundo turno, que garante estando na disputa.

Este é o receio de petistas e tucanos, que preferem apostar em seu lado mais frágil, o fundamentalista, para minar o potencial de votos que conquistará com a comoção nacional gerada pela morte de Eduardo.

Marina, fiel a seu estilo, manteve-se distante destes debates e próxima da família. Teve o nome gritado por populares. Sai daqui com o aval de Renata Campos, figura forte revelada ao país nestes últimos dias desde a morte de seu marido.

Apesar da tragédia, surpreendia a todos com sua serenidade. Em rápida conversa, revelou de onde vem tanta força. Olhos para o alto, mirando um ponto indefinido no céu, assim traduziu seu sentimento de perda. "Vai dar uma saudade danada, mas foi uma vida bem vivida."

Frase-síntese de quem começou a namorar com Dudu Campos aos 13 anos, com quem teve cinco filhos ao longo de vinte anos de casamento. Uma história de amor que o país conheceu no seu final. Uma família que daria, com certeza, vida especial ao Palácio da Alvorada.

Luiz Carlos Azedo: Nasce o mito

• Não está dado a priori que Marina Silva será herdeira de toda a comoção gerada pela morte de Eduardo Campos, embora se beneficie por ser a sua companheira de chapa

Correio Braziliense - 17/08/2014

É imprevisível o impacto da morte trágica de Eduardo Campos (PSB) na política nacional. Seu corpo será enterrado hoje à tarde, no Recife, em cerimônia para a qual estão sendo esperadas as principais lideranças políticas do país, entre elas a presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, e o senador Aécio Neves (PSDB), principal candidato de oposição, contra quem o ex-governador pernambucano concorria. Marina Silva assumirá o lugar de Campos como candidata do PSB em circunstância de grande comoção nacional.

O ex-governador de Pernambuco será sepultado com o caixão fechado, pois seus restos mortais foram carbonizados. O povo não verá o seu corpo. As últimas imagens do líder político pernambucano para a opinião pública serão aquelas gravadas durante a entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo. Campos era desconhecido para 42% dos eleitores; depois de morto, tornou-se símbolo da necessidade de renovação política do país.

Sebastianismo
Se depender da nossa tradição ibérica, por causa do velho “sebastianismo”, sua herança política não pode ser desprezada. D. Sebastião nasceu em Lisboa a 20 de janeiro de 1554 e era filho do príncipe D. João e de D. Joana de Áustria. Faleceu a 4 de agosto de 1578 na batalha de Alcácer Quibir, no norte de África. Mas seu corpo nunca foi encontrado.

Com sua morte, Portugal foi anexado pela Espanha entre 1580 e 1640, juntamente com o Brasil, passando por período muito difícil. Nasceu então uma versão particular de messianismo, de influência judaica: toda opressão, todo sofrimento, toda miséria, toda crise será vencida com o reaparecimento de D. Sebastião.

A concepção religiosa do messianismo acredita na vinda ou no retorno de um enviado divino, o messias; um redentor, com capacidade para mudar a ordem das coisas e trazer paz, justiça e felicidade. É um movimento que traduz inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre.

O mito no Brasil surgiu na narrativa da batalha que expulsou os franceses na fundação do Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1567, e reapareceu na Guerra de Canudos (1896-1897), no sertão da Bahia, entre os fanáticos de Antônio Conselheiro.

Dois movimentos sebastianistas trágicos ocorreram também em Pernambuco: o da Serra do Rodeador, no município de Bonito, em 1819-1820, e o da Serra Formosa, em São José do Belmonte, no período de 1836 a 1838. Foram violentos, com líderes fanáticos. No folclore nordestino, ainda hoje, D. Sebastião reaparece como touro encantado nas festas de bumba-meu-boi, nos meses de junho, julho e agosto.

Os votos
Mitos e lendas à parte, não está dado a priori que Marina Silva será herdeira de toda a comoção gerada pela morte de Eduardo Campos, embora se beneficie por ter sido a sua companheira de chapa. O mais provável é que recupere os próprios votos, que até agora não havia conseguido transferir para Eduardo Campos. Em fevereiro passado, Marina tinha cerca de 20% dos votos, mas vinha numa trajetória descendente.

Já a última pesquisa Datafolha, de 15 e 16 de julho, mostrou que, entre os 8% de eleitores com intenção de voto em Eduardo Campos (PSB) no primeiro turno, 55% votariam em Aécio Neves (PSDB) e 26% em Dilma Rousseff (PT), num eventual segundo turno entre o tucano e a petista.

Outros 15% votariam em branco, nulo ou em nenhum dos dois e 4% não souberam responder à pergunta. Ontem, a cúpula do PSB vazou informações de que uma pesquisa feita por telefone, após a morte de Campos, teria registrado crescimento espetacular de Marina. A conferir nas próximas pesquisas.

A única certeza é de que há um quadro eleitoral novo, no qual se consolida a realização de segundo turno para decidir quem será o próximo presidente da República. Por hora, há dois projetos de poder claramente delineados: a continuidade do governo Dilma, de um lado; e a volta dos tucanos ao Palácio do Planalto, com Aécio Neves, do outro.

A chamada “terceira via”, com a morte de Eduardo Campos (PSB), ainda é uma incógnita como projeto de poder, não importam as pesquisas. Somente deixará de ser quando Marina Silva, que cultiva certo messianismo, disser o que pretende fazer para desenvolver o país e melhorar a vida do povo, caso seja eleita presidente da República.

Renato Janine Ribeiro: Uma substituição sem transparência

• Políticos tendem a tratar os eleitores como crianças

Valor Econômico

A morte de Eduardo Campos foi um choque tremendo. Ele se une, em nossa história, àqueles poucos políticos que morreram no poder ou perto dele. Temos também Getúlio Vargas, em 1954, e Tancredo Neves, em 1985. Nos três casos, o estupor foi generalizado. A morte de Getúlio mudou a conjuntura política, transformando-o de canalha em mártir e retardando o golpe militar por dez anos. A morte de Tancredo iniciou a Nova República com uma decepção e um deságio em relação ao que se esperava.

Eduardo Campos não era presidente e dificilmente ganharia esta eleição, mas parecia quase inevitável que vencesse uma das próximas. Talvez pudesse desatar um nó grave de nossa política, associando a preocupação política à eficiência na gestão. Ninguém ocupará seu lugar, sua liderança. Esse papel, que seria decisivo para o que chamo a "quarta agenda democrática" - a da qualidade na educação, saúde, segurança e transporte públicos - ficou vago, talvez por longos anos.

Desta vez, porém, o Brasil não ficou órfão. O estupor talvez tenha sido maior que o próprio pranto. Sua morte chocou pelo absurdo, tão jovem, tão promissor que era. O Brasil se uniu em ampla solidariedade à viúva e à família, mas não houve as cenas de desespero que, sessenta anos atrás, marcaram o funeral de Getúlio Vargas. Um filme como "O mundo em que Getúlio viveu" (1963, estreou em 1976), de Jorge Ileli, mostra a tristeza, o desamparo, de milhares de pobres que nele investiam suas esperanças. Já a morte de Tancredo Neves, trinta anos depois de Getúlio, trinta anos antes de Eduardo, causou uma comoção nacional, simbolizou a dificuldade de passar da ditadura à democracia, mas nem por isso nos converteu em órfãos. Fomos, sim, interpelados pela necessidade de construir a democracia - a melhor que já tivemos - sem um pai, sem uma figura de autoridade que nos dispensasse de efetuar nossas escolhas. A trágica morte de Campos, num mês despovoado pela partida de grandes e admirados nomes, teve efeito mais político que simbólico. É possível que não nos sintamos mais órfãos, porque não nos portamos mais como filhos dos políticos. O que não reduz, em nada, o sofrimento dos entes queridos, nem nossa perda de um político de perfil único e que, como afirmei acima, na tarefa que poderia cumprir não tem sucessor.
***
Mas Eduardo terá uma sucessora na disputa pela presidência. Muito ainda terá de ser dito a respeito. O óbvio é: o PSB não tem ninguém como Marina para substituir Eduardo e, se escolher outro nome, em vez de disputar com Aécio e talvez com Dilma, medirá forças só com o pastor do PSC; mas Marina pouco ou nada tem a ver com o PSB, o que torna esquisito esse partido ungi-la. Enquanto escrevo, ainda não há anúncio oficial. Contudo, por isso mesmo, quero comentar a falta de transparência no processo de escolha.

O momento inicial foi de choque. No primeiro dia, só pensei no caráter vão das ambições humanas. Não me saía da cabeça que, não fosse ele candidato, sua família ainda o teria. (Mas é claro que sua vocação era o poder, de modo que esta questão não se punha). Pensei também na necessidade de baixar o clima de ódio que toma conta do país: quem somos nós, diante da parca cruel, que ceifa vidas como quem corta barbante? A morte, destino inevitável, deve conter um pouco a paixão da disputa. Não é à toa que se celebram funerais. Não é à toa que no Brasil é feio falar mal de mortos. São sinais de respeito, que prezo.

Porém, enquanto os políticos próximos a Eduardo falavam em só discutir sua sucessão após o enterro ou o luto, o que eles mais faziam era debatê-la e acertá-la, a portas fechadas. Um dia depois, os cinco partidos aliados ao PSB já propunham Marina - que, só ela, parece ter respeitado o luto. Um pouco mais, e a própria família endossava seu nome. Já o PSB discutia, entre sua ala mais à esquerda e a mais à direita, e certamente negociava com a Rede, esse hóspede promovido a possível dono de uma casa que deveria depois abandonar. Foi a imprensa que nos permitiu saber disso. Se déssemos crédito ao que os políticos ligados ao PSB e à Rede nos diziam, estaríamos mal servidos de informação.

Não é esse um mau início? Os analistas políticos debateram o assunto, na mídia assim como nas redes sociais. Quase sempre ouviam uma advertência: que coisa feia, discutir a herança com a morte ainda no ar. Mas está aqui um dos maiores vícios brasileiros no que tange à política: o interdito da fala pública. No caso, o debate franco foi suspenso em nome de argumentos supostamente morais. Em nome de um luto que os principais interessados não respeitaram, os atores da decisão não deram satisfação aos eleitores. Não expuseram à sociedade os dilemas, as possíveis opções, que seriam uma candidatura Marina, a substituição de seu nome por outro do PSB ou mesmo de um partido coligado, a desistência de concorrer, a coligação com Aécio ou Dilma... Tenho certeza de que exigiria muita coragem fazer essas considerações, esses cálculos em público. Quem o fez, em nome do conhecimento, foi criticado; quem o fizesse, podendo decidir, seria crucificado. Mas não é hora de acabar com essa detestável hipocrisia que nos atrasa? A Bolsa reage, o mercado se socorre discretamente de analistas especializados, os políticos negociam - por que somente a sociedade deveria se calar, por que só ela deveria respeitar o luto, quando justamente é o seu destino que os atores resolvem?

Então, crescemos porque não precisamos mais de pai, mas somos tratados como crianças pelos atores políticos. Não dá.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

Paulo Brossard: A incerteza dos fatos políticos

- Zero Hora (RS)

Os últimos dias não poderiam ser mais tristes para o país. Basta dizer que se finou um candidato à Presidência da República. Sem alarde, o governador Eduardo Campos renunciou ao governo de Pernambuco para concorrer à Presidência e só agora, nas vésperas de sua morte, duas aparições na TV, em entrevistas demoradas, suas qualidades se tornaram patentes; a precisão dos conceitos, objetividade e pertinência, simplicidade e espontaneidade na expressão de seus pensamentos, mostraram que o finado possuía qualidades para disputar o alto encargo; ora, seu súbito desaparecimento danificou o quadro esboçado visando à renovação presidencial, e considerando-se sua iminência a mudança ocorrida pode vir a ser decisiva no tocante à eleição do futuro presidente da República.

Outrossim, o país tem dúzias de partidos, o que importa em reconhecer que em verdade não os tem, quando a vida política de uma nação carece deles, não muitos, mas verdadeiros. Querendo ou não, esta a situação que, bem ou mal, terá de ser enfrentada em dias senão em horas.

O quadro existente é de uma candidata a vice-presidente da República cujo companheiro de chapa à Presidência deixou de existir pela lei da morte. Esta situação poderá ou deverá ser alterada.

O caso me faz lembrar o que foi ponderado aos parlamentares que desejavam aumentar o número de cadeiras na câmara dos comuns, que eram insuficientes, ao que Churchill observou que, se a maioria comparecesse, alguns ficariam de pé e o aperto criaria ambiente eletrizado que facilita as decisões. E o recinto dos comuns, que fora bombardeado, foi refeito como ele era.

Ao que parece, no entanto, cresce a possibilidade de a candidata a vice-presidente passar a candidata a presidente e, nas condições atuais, a hipótese poderia ser benfazeja.

Mais uma vez, o sistema presidencial, dos prazos fixos e predeterminados, revela seus inconvenientes, pois os fatos sociais, os políticos em particular, não são como os siderais, secularmente previsíveis. O país tem dúzias de partidos, o que importa em reconhecer que em verdade não os tem

Jurista, ministro aposentado do STF

Luiz Carlos Mendonça de Barros: As provas de uma teoria

• O cidadão que ingressa na economia formal passa a ter um futuro relativamente previsível pela frente

Valor Econômico

Aos 72 anos de idade minha visão da economia brasileira parte sempre de uma leitura estrutural dos fatores principais que comandam sua dinâmica. Neste sentido procuro construir um futuro ainda hipotético a partir de movimentos que entendo devam influir progressivamente no comportamento dos mercados. Este é um exercício quase solitário, pois o número de analistas com esta visão da economia é muito menor do que o dos palpiteiros do dia a dia.

Por isto, quando uma pesquisa de campo, como a realizada pelo diretor do Instituto Data Popular - e publicada pelo Valor na sua edição do último dia 13 -, confirma minha leitura do futuro, sinto um conforto muito grande. No final são dados reais caminhando na direção do cenário idealizado por mim há alguns anos. A entrevista de Renato Meirelles trata dos efeitos da formalização do emprego, ocorrida principalmente a partir de 2005 entre os brasileiros das classes D e E.

Este movimento de formalização do trabalho das classes de renda mais baixa no Brasil ocorreu em dois momentos distintos: o primeiro, nos anos seguintes ao Plano Real, quando o número de brasileiros que viviam no espaço do emprego formal passou de 33% do total para 44%. O segundo momento ocorre a partir de 2005, quando a formalização volta a ganhar força e chega a 67% da população agora no final do mandato da presidente Dilma (veja gráfico). Estudo recente realizado pela equipe do Banco Itaú mostra que este processo deve se estabilizar quando atingir 70% da população brasileira, por volta de 2016.

Minha conversão à tese de que vivíamos realmente uma mudança estrutural importante na sociedade brasileira ocorreu em fins de 2008. Afinal o gráfico nesta página, construído pela equipe da Quest Investimentos em 2005, já falava por si mesmo. A partir de 2008 minha preocupação foi procurar entender os efeitos que este novo desenho da sociedade teria sobre as dinâmicas política e econômica em nosso país. Venho fazendo este exercício de forma continuada desde então e, por isto, a matéria do Valor teve um impacto muito grande para mim. Afinal, uma pesquisa de campo, com credibilidade, mostrava que meu exercício de abstração estava correto e que poderia dar um passo adiante - mais ambicioso - nas minhas previsões.

Antes de fazê-lo vou mostrar ao leitor quais as mudanças importantes que a passagem de um brasileiro comum da informalidade para a formalidade econômica traz no seu comportamento como cidadão. Creio ter encontrado uma ideia que resume de forma sintética estas mudanças: o cidadão na economia formal passa a ter um futuro relativamente previsível pela frente. Entendo como um futuro relativamente previsível o fato de ter um contrato formal de trabalho que lhe permite ter acesso, entre outros, a programas sociais como FGTS e PIS/Pasep, ao credito bancário e, principalmente, ao direito de ter seu salário corrigido anualmente com base na inflação passada e, em certos períodos, com um ganho real no valor de seu salário. Apenas o fantasma do desemprego pode mudar este quadro.

A formalização do trabalho, em uma sociedade em que o nível de consumo tem um valor muito forte, responde por grande parte do boom de consumo do segundo mandato do presidente Lula. A sincronia destas mudanças com o aumento da confiança do sistema bancário na economia acelerou ainda mais seu crescimento. Entre 2006 e 2008, as vendas ao varejo nas regiões Norte e Nordeste chegaram a crescer a taxa anuais superiores a 15%. Na esteira deste aumento do consumo seguiu-se um aumento significativo do investimento na medida em que as empresas mais conservadoras passaram a perder fatias de mercado. E a economia brasileira - e o governo do PT - viveram anos de ouro.


Deixo de lado a questão econômica e volto agora a especular sobre os efeitos defasados no tempo que esta formalização do emprego terá sobre a sociedade brasileira. Mais uma vez recorro a entrevista do presidente do Data Popular ao Valor para reforçar minha tese de que a formalização do emprego trará mudanças no comportamento político destes brasileiros e na sua forma de avaliar o Estado. Renato Meirelles cita, por exemplo, o fato de que pela primeira vez estes brasileiros estão encarando de frente os impostos cobrados em seus salários.

"A favela cresceu junto com a economia e esse cara passou a pagar imposto na fonte. Ele não tem noção de imposto indireto. Então, ele não sabia o que era pagar imposto. Agora sabe. Com isso, passa a cobrar mais dos serviços públicos. Deixa de entender serviço público como um favor do governo e passa a entender como uma contrapartida pelo que ele paga. Isso é ótimo. Ele não quer mais cesta básica. Quer plano nacional de banda larga. Não quer dentadura. Quer ProUni".

Esta é uma diferença fundamental para que possamos entender o Brasil dos próximos anos. Quando o cidadão não tem futuro somente o governo pode garantir a ele alguma segurança em relação ao futuro; quando ele passa a ter o emprego formal e começa a pagar impostos ao governo esta lógica se inverte, principalmente na situação em que os serviços públicos prestados pelo governo são de péssima qualidade. Dentro desta ótica fica mais fácil entender a Constituição brasileira de 1988, quando o emprego formal atingia menos de 30% da população. E certamente poderemos esperar que, talvez no fim dessa década, haja condições políticas para sua revisão.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

Diário do Poder – Cláudio Humberto

- Jornal do Commercio (PE)

• Dilma esconde Temer na campanha e irrita PMDB
Não é à toa que o PMDB se preocupou em organizar estrutura para o vice-presidente Michel Temer nos Estados onde a sigla não apoia o PT. Apesar de cobrar fidelidade, a presidenta Dilma tem escondido Michel Temer em peças publicitárias da reeleição, nas quais ganha destaque apenas o antecessor Lula. O peemedebista não figura em adesivos e materiais distribuídos e mal aparece nos sites de campanha de Dilma.

• Sub do sub
No site, as referências a Temer estão em local obrigatório, onde os partidos costumam colocar suplentes de senadores, CNPJ, tiragem.

• Só na inauguração
O vice Michel Temer só ganhou destaque, com direito à biografia na primeira página, na inauguração dos sites de Dilma. Depois, nada.

• Já é um começo
Apesar da pouca exposição nos sites, aliados se dizem satisfeitos que, ao contrário de 2010, o vice aparecerá no programa de TV no 1º turno.

• Questão de estratégia
A assessoria do vice diz que o material com Dilma e Temer é “pensado de forma conjunta e estratégica com o PT”. Ah, bom.

• Itaú condenado por levar investidora a Madoff
O Itaú Unibanco foi condenado a indenizar uma investidora que, por indicação do banco, aplicou economias na empresa de Bernard Madoff, mega-picareta norte-americano que aplicou um golpe bilionário, num esquema de pirâmide financeira. O Itaú foi condenado pela 22ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, em sentença que separou o risco, inerente a aplicações financeiras, da fraude.

• Negligência
O desembargador Roberto Mac Cracken apontou “clara e objetiva desídia e negligência de quem deve orientar a aplicação financeira”.

• Golpe bilionário
“Bernie” Mardoff foi condenado a 150 anos de cadeia por haver lesado milhares de pessoas, no golpe estimado em mais de R$ 200 bilhões.

• Danos materiais
Condenado em segunda instância, o Itaú Unibanco terá de indenizar em R$ 355.349,78 a investidora lesada, por danos materiais.

• Pânico a bordo
Encalhou o barco de Lindbergh Farias (PT), com sua candidatura patinando nas pesquisas para o governo do Rio: o PCdoB já cogita apoiar o rival Garotinho ainda no primeiro turno.

• Reforma necessária
A Confederação Nacional da Indústria pressiona para diminuir gastos do Brasil com previdência, que chegam a 12% do PIB. Chegam a 13% nos EUA e Canadá, com população idosa quase três vezes maior.

• Causa e efeito
O mensaleiro José Genoino, que obteve regime aberto antes do previsto, foi beneficiado por lei do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), garantindo redução de pena por estudos feitos na prisão.

• CPMI virtual
O relator da CPMI da Petrobras, Marco Maia (PT-RS), diz que já reuniu 25,4 giga de documentos colhidos e até analisados tecnicamente por órgãos de investigação e controle como Polícia Federal, CGU e TCU.

• Sublocação
Políticos garantem que o deputado Luiz Argôlo não só teria usado por um ano o helicóptero de Alberto Youssef, como também seria responsável por sublocar o helicóptero a políticos e artistas baianos.

• Juntos na causa
Apesar da rejeição a Marina Silva no Mato Grosso do Sul, Fábio Trad (PMDB) acha que a tendência é manter apoio ao PSB, caso seja ela a candidata: “Marina sinalizou que os ideais de Eduardo serão mantidos”.

• Vai com Deus
A cúpula do PP comemorou a desfiliação no ano passado do deputado Luiz Argôlo (SD-BA) e de Mário Negromonte, que tomou posse no TCM-BA. Ambos são citados no esquema do doleiro Alberto Youssef.

• Sem sabatina
Com a agenda de vários presidenciáveis cancelada, a Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC) se viu obrigada a desistir de realizar sabatina programada para estas terça e quarta.

• Clorofilocracia
O genial roqueiro e escritor Lobão advertiu para eventual a eleição de Marina Silva presidente: “Teremos uma clorofilocracia evangélica!”

Painel :: Bernardo Mello Franco

- Folha de S. Paulo

Correndo atrás
A campanha de Aécio Neves (PSDB) à Presidência já traça estratégia para duelar com Marina Silva (PSB) por uma vaga no segundo turno. Em reunião na base aérea do Recife, após a missa de Eduardo Campos, os tucanos davam como certo que ela largaria na frente na disputa. A ordem é focar o debate na experiência administrativa, considerada o ponto fraco de Marina, e apresentar Aécio como o mais preparado para fazer um governo de "mudança com segurança".

Na conta Os tucanos tentam tratar a vantagem numérica de Marina com naturalidade. "O clima é de comoção e ela é conhecida por 100% dos brasileiros", justifica um dirigente da campanha.

Na torcida Aliados do tucano dizem que a ex-senadora terá dificuldades, no médio prazo, para manter o patamar inicial de intenção de votos.

Cuidado Aécio foi aconselhado a ser "muito respeitoso" em qualquer crítica a Marina nos debates de TV. Há temor de que os eleitores tomem as dores da candidata de luto e reajam mal a ataques.

Só pensam naquilo Durante a missa, as pesquisas internas dos partidos eram o principal assunto nas rodas de conversa. Políticos do Rio diziam que Marina já estaria em empate técnico com Dilma Rousseff (PT) no Estado.

Eles também O PSB distribuiu camisas e bandeiras com a imagem de Campos e a pomba que simboliza o partido sobre fundo preto.

Hoje pode Driblando a lei que proíbe partidos de espalhar galhardetes nas ruas, o PSB pendurou dezenas de cartazes com a imagem do ex-governador e a logomarca do partido nos postes do Recife.

Não vou ficar A legenda chegou a sondar Marina sobre a possibilidade de ela não se desfiliar caso seja eleita presidente. Na sexta-feira, a candidata avisou que não adiará a criação da Rede.

Pule de dez A equipe de Marina dava como certo, durante o velório, que Beto Albuquerque (PSB-RS) será o vice.

Vote em mim Após o enterro de Campos, o deputado procurou dirigentes do PSB e aliados do ex-governador para conversas individuais.

Troca de guarda Aliados da ex-senadora devem reivindicar mais espaço na campanha presidencial. O comitê financeiro, que estava a cargo apenas do PSB, terá presença maior da Rede.

A postos Coordenador da campanha de Marina em 2010, João Paulo Capobianco deve ganhar cargo de peso. Ele foi secretário-executivo do Meio Ambiente quando ela comandava o ministério.

Apressado Horas antes do fim do funeral, o novo presidente do PSB, Roberto Amaral, soltou uma nota com o seguinte texto: "Sepultado nosso líder, o PSB abre o processo de consultas visando a construção de alternativa política consensual".

Conspiração No enterro, populares entoaram um coro que tratava como um atentado o acidente que matou Campos na última quarta. Ao redor do túmulo, houve gritos de "Justiça".

Tributo As coroas de flores no cemitério de Santo Amaro retratavam o luto da elite e da classe trabalhadora de Pernambuco. As homenagens iam da associação dos usineiros ao sindicato dos estivadores.

Longe das câmeras Assim que a família, as autoridades e a imprensa se afastaram, o povo cercou o túmulo de Campos. Dois chapéus de palha, símbolos do governo Miguel Arraes, foram depositados sobre a lápide. Muita gente chorava.
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Tiroteio
"O voto tem algo de emoção e algo de reflexão. Agora a emoção é forte, mas o eleitor vai escolher Aécio quando for chamado a refletir."
DO SENADOR JOSÉ AGRIPINO (DEM-RN), coordenador da campanha tucana, sobre a manutenção do patamar de intenção de votos em Marina Silva (PSB).
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Contraponto
Atendimento preferencial
A petista Dilma Rousseff e seus aliados pararam em uma barraquinha de cachorro-quente durante caminhada de campanha em Osasco, na Grande São Paulo, no último dia 9. O vendedor se apressou para atender a presidente e as autoridades mais conhecidas da comitiva.
Tesoureiro da campanha, o deputado estadual Edinho Silva (PT-SP) ficou rondando a barraquinha, mas não conseguiu ser servido no meio da confusão.
Vendo a cena, o fotógrafo de Dilma aconselhou:
--Atende esse aí, porque é ele quem paga todas as contas. Inclusive do cachorro-quente!

Paulinho da Viola - Para um amor no Recife

As mágoas da vida:: Graziela Melo

As mágoas
da vida

ficaram
pelo caminho,

como
águas
corredias,

ocupam
o leito
vazio

e
se dispersam
na foz
do rio...


as dores,

sim!!!

Essas
ficaram,

se agasalharam,

fizeram
ninho!!!

E
no albergue
da alma,

plantaram
flores

e
já nem mais

parecem dores!

Apenas,
suaves
saudades...

resquícios...
amores!!!

E,
no fim do dia

a nostalgia,

vizinha
da alma,

lhe afaga,
lhe adoça,
lhe acalma...

lhe faz
companhia!!!