domingo, 10 de maio de 2015

Ex-senadora luta contra isolamento político e para montar a rede

• Partido não deve contar com fundo partidário nem tempo de televisão

- O Globo

SÃO PAULO - Sete meses depois da eleição, Marina Silva ainda busca um espaço para sua atuação política. O partido que ela tenta viabilizar desde 2013, a Rede Sustentabilidade, aguarda que os cartórios eleitorais validem 5 mil assinaturas para que o pedido de registro possa ser enviado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Recentemente, a legenda embrionária sofreu mais um revés: uma lei aprovada no Congresso impede partidos novos de ter acesso a cotas do Fundo Partidário e a tempo de televisão, mesmo com adesão de parlamentares. Se antes integrantes da Rede cogitavam atrair entre seis e nove parlamentares, agora a expectativa é que apenas dois ou três deputados federais ingressem no novo partido.

Formalmente, Marina é ligada ao PSB, mas não se considera filiada ao partido no qual ingressou apenas para ser vice na chapa de Eduardo Campos, depois que a Rede teve o registro negado. A ex-senadora diz que seu desligamento da legenda é certo, mas sem data para acontecer. Enquanto isso não acontece, ela desidrata junto ao eleitorado. Uma sondagem feita pelo Instituto Datafolha em abril aponta que sua atração sobre o eleitor diminuiu ainda mais desde o pleito de 2014: ela aparece com apenas 14% das intenções de votos. Na eleição, ela obteve 21,3% dos votos válidos. Eleitores e correligionários reclamam da timidez de suas manifestações contra o governo - restritas a posts de internet e entrevistas. Com poucos eventos públicos, sua primeira aparição no Congresso Nacional aconteceu apenas seis meses depois da eleição. Acompanhada por caciques indígenas, Marina teve dificuldade para encontrar políticos que a ciceroneassem nos corredores da Câmara, segundo quem acompanhou a visita.

Marina, no entanto, minimiza parte dos problemas que enfrenta. Afirma que não é possível medir queda de voto fora do período eleitoral:

- Não estou no lugar de candidata e não quero ficar preocupada com oscilação de pesquisa.

Mas reconhece que mesmo aliados próximos podem desistir de cerrar fileiras na Rede.

- Há níveis e níveis de engajamento. Tem pessoas que estavam engajadas solidariamente, que não vão sair de seus partidos mas estavam nos ajudando - afirmou Marina, que completou: - Mesmo antes da mudança da lei nós não fazíamos um esforço de ficar recrutando parlamentares por causa de tempo de TV.

Diante das dificuldades de competição impostas pela nova legislação, Marina se mostrou disposta a recorrer à Justiça para ter os mesmos benefícios dos demais partidos.

- Nosso processo teve início ainda com as regras anteriores e está em aberto. Os advogados saberão melhor como lidar com essa questão - disse.

Marina afirmou ainda que sua atuação é condizente com aquela de uma política sem mandato, avaliou que sua decisão de apoiar Aécio no segundo turno de 2014 foi acertada, mas se recusou a falar sobre o comportamento do tucano diante da crise do governo Dilma. E afirmou não ter conversado com ele sobre a situação política após as eleições.

A respeito do governo petista, ela voltou a afirmar que Dilma vive uma "cassação branca" e o país passa por um momento "dramático" de sua história.

- A maior gravidade da crise é a falta de reconhecimento da crise por parte do governo. O governo toma medidas dramáticas sem reconhecer que existe uma crise - afirmou, em referência aos cortes do ajuste fiscal.

Presidente evita expor sua imagem

• Fase difícil faz Dilma 'dosar' aparição pública

Tânia Monteiro, Rafael Moraes Moura - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA- A deterioração econômica, a adoção de medidas impopulares, o pessimismo generalizado com os rumos do País, a instabilidade política na relação com o Congresso e a sombra de um impeachment abalaram a imagem da presidente Dilma Rousseff neste início de segundo mandato e a fizeram reduzir sua exposição pública para evitar mais desgastes.

Após desistir de fazer pronunciamento em rede nacional no Dia do Trabalho e não participar do programa de TV do PT, a presidente se viu obrigada a cancelar a ida à cerimônia de comemoração dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, realizada na sexta-feira no Rio de Janeiro, para não ter o risco de enfrentar novas manifestações, vaias e panelaços em um momento em que ela está focada em emplacar uma agenda positiva para melhorar sua imagem. Dilma entrou na redoma.

Para não ser criticada por não prestigiar importante evento que contou com a presença de presidentes em todos os países aliados na Segunda Guerra, Dilma pediu às Forças Armadas que providenciassem, de última hora, solenidade de premiação aos pracinhas brasileiros, no Planalto, longe de ser submetida a qualquer constrangimento ou manifestação.

Isso a despeito de pesquisas internas do PT já terem detectado uma tendência de recuperação na popularidade de Dilma. Os novos números foram recebidos com alívio. Mas a ordem é que todo cuidado deve ser tomado para evitar que os dados criem um falso ambiente de que é hora para maior exposição.

No governo, a avaliação é de que, em momentos de dificuldades, o trabalho de recuperação da imagem de Dilma deve ser "dosado". Nesta semana estão previstos dois eventos "teste". Ela vai ao interior de Minas lançar o programa Minha Casa Minha Vida e, mais uma vez, todo cuidado com a exposição ao público está sendo tomado. Na terça, vai ao Rio, em diferentes cerimônias, todas com acompanhamento pelo pessoal que negocia com os movimentos sociais, para garantir a presença de apoiadores e evitar manifestantes, formando um novo colchão de proteção à presidente.

A própria Dilma tentou se defender das acusações de que está evitando se expor a manifestações. Em entrevista, na quarta-feira, explicou que no Dia do Trabalho preferiu se pronunciar "através de um forte, um forte veículo, forte e novo, que é a internet", mas ressalvou que irá "manter esses pronunciamentos também na chamada mídia tradicional: televisão, rádio e tudo". Na homenagem ao Dia das Mães a presidente pretende recorrer de novo às mídias sociais.

Na mesma linha, o ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Edinho Silva, disse que Dilma "não está protegida numa redoma de vidro", ao optar por se comunicar pelas redes sociais. "O local em que ela mais se expõe é nas redes sociais. A rede não tem filtro, não tem mediação, tem anonimato."

Em crise, Luiz Fernando Pezão toma o rumo do interior

• Governador do Rio passa mais tempo fora da capital e dos problemas financeiros do Estado

Luciana Nunes Leal - O Estado de S. Paulo

RIO - Não importa a extensão da ponte ou da estrada, o número de casas construídas, se a obra será inaugurada ou vistoriada. Nas últimas semanas, o interior é o destino preferencial do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB). Com arrecadação em queda, pagamento atrasado de serviços, corte de gastos nas secretarias e pedido de empréstimo ao Judiciário para pagar aposentados, o governador incluiu dois dias por semana agenda fora da capital, onde a cobrança é maior.

"Estou inaugurando até capela mortuária. Pareço o Odorico Paraguaçu", disse Pezão, citando o personagem de Dias Gomes que sonhava inaugurar o cemitério de Sucupira em O Bem Amado.

Não é exagero. Este mês, Pezão irá a Cardoso Moreira - cidade de 13 mil habitantes e a 330 km ao norte do Rio - inaugurar uma capela mortuária construída em parceria com a prefeitura. Pronta, a capela espera brecha na agenda do governador. "Já prometi ao prefeito que estarei lá", disse.

A capela faz parte de um pacote de dez obras em Cardoso Moreira que custaram ao todo R$ 13 milhões em recursos estaduais e vêm sendo inauguradas ou vistoriadas por Pezão. Em 24 de abril, o governador inaugurou 7,2 km de pavimentação da RJ-180, em Santa Maria Madalena, na região serrana. Prometeu mais 8 km até o fim do ano. Em Macaé, no litoral norte, no dia 17, o trecho inaugurado da estrada municipal tinha 1,2 quilômetro.

No mesmo dia 24, Pezão foi a Volta Redonda (sul fluminense) inaugurar uma estação de tratamento de esgoto e a São Fidélis (no norte do Estado) para entregar a Clínica da Família. Quatro dias antes, em Petrópolis (região serrana), vistoriou pontes em reconstrução destruídas nas chuvas de 2011, sem data de inauguração. Em Bom Jardim, também na região serrana, em 7 de abril, entregou 28 casas para vítimas dos temporais.

"Fiz calendário que prevê ao menos uma visita a cada um dos 92 municípios, até o fim do ano. Pretendo fazer isso todos os anos do mandato", afirmou Pezão. O governador disse não minimizar os problemas do Estado e que a manutenção dos empregos é sua grande preocupação. Ele previu que no segundo semestre as contas estarão mais equacionadas. "O Estado não pode parar, tem muita coisa em andamento, (...) muita inauguração para fazer."

Lava Jato. Pezão e o antecessor, Sérgio Cabral (PMDB), são investigados na Operação Lava Jato, que apura corrupção na Petrobrás. Em delação premiada, o ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa disse que a campanha de Cabral em 2010, com Pezão de vice, recebeu R$ 30 milhões em propinas pagas por firmas do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

Costa disse ter participado de reunião, com presença de Pezão, em que Cabral pediu dinheiro para a campanha. Pezão repete como mantra que "a reunião nunca aconteceu" e que "não houve dinheiro ilegal na campanha". "É lamentável ver meu nome envolvido nisso sem qualquer prova, tenho 32 anos de vida pública", diz. Cabral também nega a acusação.

Em relação às finanças do Estado, a radiografia é crítica. Pezão teve de pedir R$ 6 bilhões ao Tribunal de Justiça para pagar aposentados e inativos e determinou cortes de R$ 4 bilhões em gratificações e despesas com viagens, combustíveis, gás, luz, telefone e água. Reconheceu dívidas de R$ 750 milhões com fornecedores e promete benefícios, como isenção de juros para pessoas físicas e jurídicas que quitarem dívidas com o governo.

O Estado perderá ao menos R$ 2 bilhões em royalties do petróleo e valor igual em Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), principalmente pela retração do setor de óleo e gás. Após anos de alto investimento e criação de novos postos, o desemprego aflige o governo. Cidades como Itaboraí, sede do Comperj, e Macaé, onde os empregos são ligados à Petrobrás e a firmas do setor, já sofrem impacto da crise.

O governador, que foi duas vezes prefeito de Piraí, no sul do Rio, fez do estilo simples e objetivo a antítese de Cabral, que deixou o governo em abril de 2014 com baixa popularidade e o mandato marcado por denúncias de envolvimento com empresários e viagens de luxo ao exterior.

Pezão enfrentou eleição difícil, vencida em dois turnos. Na posse, em 1.º de janeiro, tocou no tema evitado na campanha: as dificuldades de caixa. Traçou um cenário sombrio para o futuro, que se confirma a cada mês.

Após dois anos nas inserções gratuitas do PMDB, Pezão deixou de ser a estrela da propaganda na capital, papel assumido pelo prefeito Eduardo Paes, em anúncios veiculados de 15 a 22 de abril.

"Tinha algum tempo que não usava a propaganda gratuita do PMDB. Em 2014 e 2013, foram usadas todas pelo Pezão. Tinha o espaço disponível (este ano), e estamos falando de algumas ações do PMDB no Rio. Teve propaganda do Pezão no interior. A nossa ficou mais concentrada na cidade do Rio", disse Paes.

Para o presidente do PMDB fluminense e da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani, "o foco é a eleição municipal de 2016", por isso Paes protagonizou a propaganda. "Estamos concentrados nas eleições de 2016 e o melhor que temos para mostrar é a gestão do Eduardo Paes."

Política Democrática Nº 41 – E agora, Brasil?

As jornadas de protestos de junho de 2013 já indicavam o despertar da sociedade brasileira para uma realidade enganosa vendida pelo lulopetismo. Realidade criada por marqueteiros e pela dupla Lula/Dilma, baseada no ufanismo, no baluartismo e na mentira. Apesar disso, os protestos de junho de 2013 acabaram esvaziados pela ausência de lideranças e organizações com capacidade e reconhecida legitimidade para capitalizar as insatisfações difusas e de transformá-las em um programa objetivo de reformas e levá-lo às ruas e às esferas das instituições nacionais.

Afinal, teríamos logo em seguida àqueles acontecimentos a Copa do Mundo e as eleições gerais, que passavam a chamar todas as atenções. A oposição, tímida e minguante ao longo dos 12 anos de governo do lulopetismo, ficou inerte durante os acontecimentos de junho de 2013, razão pela qual não se habilitara para, com uma ação vigorosa, representar os anseios de mudanças claramente manifestados pela nação. Não se dispôs a desmascarar as imposturas de um suposto “governo de esquerda” que se associou a grupos oligárquicos, institucionalizou o aparelhamento do Estado e empresas estatais, com objetivos claros de se perpetuar no poder.

(Apresentação da Revista Política Democrática Nº 40)

Idioma: Português
Formato: 17X24cm
Páginas: 199
Ano: 2015
Acabamento: Brochuras com orelha
Organizador: Fundação Astrojildo Pereira

A revista Política Democrática nº 41, da Fundação Astrojildo Pereira, pode ser baixada gratuitamente aqui:

Merval Pereira - Decisão do STF atrapalha Fachin

- O Globo

Ao contrário do que alegam os apoiadores do jurista Luis Edson Fachin à vaga de Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal, a proibição de Procuradores exercerem a advocacia privada concomitantemente com a função de Procurador do Estado não é inconstitucional.

O Supremo Tribunal Federal, em decisão da Segunda Turma, sob a presidência da Ministra Cármen Lúcia, por unanimidade, decidiu que cada Estado pode definir os limites de atuação de seus Procuradores, de acordo com o voto do Relator, Ministro Gilmar Mendes em recurso extraordinário em outubro de 2013.

A ação foi impetrada por Procuradores do Rio Grande do Sul cuja Constituição, à exemplo da do Paraná, proíbe essa atividade de advocacia privada. A situação dos Procuradores do Estado do Rio Grande do Sul é idêntica aos do Paraná, e o Supremo chancelou a validade da proibição da advocacia contida na Constituição Estadual.

É um precedente delicado e preocupante para Fachin, e dá força ao estudo da Consultoria Legislativa do Senado, assinado pelo assessor jurídico João Trindade Cavalcante Filho, que afirma que ele não poderia ter exercido a função de Procurador do Estado do Rio Grande do Sul (e não Promotor, como escrevi, por um lapso, na coluna de ontem duas vezes) e advogar privadamente.

Na ação, a agravante alega que ao vedar a advocacia fora das atribuições institucionais, a Constituição do Estado do Rio Grande do Sul e a legislação estadual estariam em dissonância com a Constituição Federal. O ministro Gilmar Mendes entendeu, e foi apoiado unanimemente pela 2º Turma, que as constituições estaduais não estão sujeitas à orientação expressa da Constituição Federal sobre o tema em questão.

Confira-se o que disposto no texto da Constituição de 1988 sobre o assunto:

Art. 132. Os Procuradores dos Estados e do Distrito Federal, organizados em carreira, na qual o ingresso dependerá de concurso público de provas e títulos, com a participação da Ordem dos Advogados do Brasil em todas as suas fases, exercerão a representação judicial e a consultoria jurídica das respectivas unidades federadas. Parágrafo único. Aos procuradores referidos neste artigo é assegurada estabilidade após três anos de efetivo exercício, mediante avaliação de desempenho perante os órgãos próprios, após relatório circunstanciado das corregedorias.

A Constituição Federal, em nenhuma passagem, proíbe o exercício da advocacia pelos Procuradores dos Estados, sendo matéria de competência dos entes da Federação. O ministro do STF Luis Roberto Barroso exerceu a advocacia cumulativamente com o cargo de Procurador do Estado do Rio de Janeiro, já que a legislação estadual não proíbe.

Já Luis Edson Fachin foi nomeado em 1990 Procurador do Estado do Paraná sob a égide da Constituição daquele estado, promulgada no dia 5 de outubro de 1989, que em seu artigo 125, § 3º, inciso I, assevera, § 3°, “É vedado aos procuradores do Estado: I - exercer advocacia fora das funções institucionais”. O artigo 33 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias estabeleceu uma exceção: “O disposto no art. 125, § 3°, I, desta Constituição não se aplica aos atuais procuradores do Estado”.

Os apoiadores de Fachin alegam que quando ele prestou concurso e foi aprovado, não existia essa proibição constitucional, que só veio a aparecer depois. Essa "expectativa de direito" seria suficiente para dar-lhe esse direito,de que muitos juristas discordam.

Por outro lado, como ainda não havia sido empossado Procurador na promulgação da Constituição, não pode ser enquadrado na exceção à regra. Sua posição, como se vê, fica a cada dia mais frágil, tendo que fazer malabarismos jurídicos para provar que não infringiu a lei.

Mesmo que no meio jurídico seja incontestável que Fachin tem, além de "notório saber", "reputação ilibada", e esse imbróglio pareça apenas um discussão teórica sem importância, os senadores, porém, que farão uma análise política de sua nomeação, a suas posições ideológicas muitos podem acrescentar essa infringência da lei para barrá-lo na sabatina.

Eliane Cantanhêde - Ajuste ou desmanche?

- O Estado de S. Paulo

A aprovação da primeira fase do ajuste fiscal foi uma vitória do governo e dá um certo alívio para Dilma Rousseff, mas ainda falta passar pelo Senado e não se pode esquecer que esse ajuste é parte do desmanche de todo o primeiro mandato da presidente. Basta repassar as prioridades entre 2011 e 2014 para confirmar que não sobrou pedra sobre pedra.

Uma por uma, Dilma vem abandonando aquelas ideias que tirava da própria cabeça – não raro passando por cima da área técnica e da perplexidade do mercado – e anunciava com pompa e circunstância. Com o abandono e o desmanche, viram sucatas.

Nem o modelo de exploração do pré-sal resiste à realidade, apesar de Dilma ter feito carreira na área de energia e de ter ocupado, inclusive, o Ministério de Minas e Energia. Depois de tanta badalação, tanta aula com PowerPoint, tanta picardia contra o modelo tucano, o governo volta atrás, falando em deixar o sistema de partilha de lado para recuperar o de concessões, acabando com a obrigatoriedade de a combalida Petrobrás participar de todos os blocos.

Até o Pronatec, um dos carros-chefe dos debates, dos programas de TV e do dia a dia da campanha da reeleição, está devagar. Com a crise na economia, dissimulada no limite da irresponsabilidade, Dilma só conseguiu pagar os subsídios das entidades privadas até outubro, mês da eleição. Depois disso, atrasos, confusão, incerteza.

Outro que embalava o marketing dilmista era o Fies. Sem desprezar os objetivos corretos e as boas intenções, também encheu as burras de universidades de desempenho sofrível e brindou estudantes pobres com diplomas capazes de embelezar paredes, mas de serventia duvidosa para lhes garantir empregos em suas áreas. Em 2014, havia 4,4 milhões de bolsistas, com financiamento de R$ 13,4 bilhões para escolas privadas – boas ou arapucas. Sem dinheiro, muitos dos bolsistas e das escolas estão a ver navios.

E o financiamento da casa própria? É bem verdade que Dilma ainda viaja pelo País – quando não corre o risco de panelaços –, entregando milhares de unidades do Minha Casa Minha Vida, como fará na próxima terça-feira, no Rio. Mas, com o pior resultado da caderneta de poupança em 20 anos (20 anos!), lá se foi o crédito para moradia. A Caixa Econômica Federal limitou o financiamento de imóveis usados à metade do valor total e acaba de anunciar aumento dos juros da compra de casas.

Dilma estufou o peito num pronunciamento em cadeia de rádio e televisão porque tinha decidido na marra a redução da conta de luz para residências e empresas. Patrões, empregados e eleitores em geral bem sabem o que aconteceu depois da eleição. Ou melhor: o que vem acontecendo todo mês, quando a conta bate à porta e arromba o bolso.

Num outro pronunciamento oficial, a presidente se vangloriou da redução dos juros como nunca antes neste país e ainda estendeu um dedo ameaçador para os bancos privados, ordenando que eles fizessem o mesmo. E, afinal, onde foram parar os juros?

A venda de carros caiu 25,2%, no pior abril em oito anos. Mais de 250 lojas foram fechadas. Mais de 12 mil trabalhadores do setor foram para o olho da rua. E a indústria em geral? A produção industrial caiu 5,9% no primeiro trimestre de 2015. É mole?

O desastre afeta outro indicador importante, que ajudou muito o trabalho dos marqueteiros e foi importante para segurar o discurso e os votos da reeleição: o emprego. No entanto, segundo os dados oficiais, o desemprego já subiu para 7,9% no primeiro trimestre. Sabe-se lá onde isso vai parar.

Então, é ótimo que o ajuste fiscal comece a ser aprovado no Congresso e que novas perspectivas se abram para o País, mas não se pode esquecer que isso tudo é parte do desmanche que derrubou a popularidade de Dilma de quase 80% no início de 2013 para 13% em 2015. E agora, com o desmanche do primeiro mandato, a grande pergunta é: para construir o que no lugar?

Bernardo Mello Franco - O mundo dos fundos

- Folha de S. Paulo

O Senado ganhou uma oportunidade para mexer num vespeiro que interessa diretamente a milhões de brasileiros. É a CPI dos Fundos de Pensão, que deverá ser instalada nos próximos dias.

A comissão foi criada para investigar prejuízos em instituições que cuidam da aposentadoria dos servidores de estatais. Estão na mira gigantes como a Petros, da Petrobras, o Postalis, dos Correios, e a Funcef, da Caixa Econômica Federal.

Os fundos reúnem 557 mil servidores aposentados e 2,7 milhões na ativa. É gente que reservou parte dos salários para garantir um futuro tranquilo e agora teme perder o que aplicou devido a decisões estranhas e negócios esquisitos.

Só o Postalis acumula rombo de R$ 5,6 bilhões. No mês passado, os poupadores foram avisados de que teriam que pagar uma contribuição extra superior a um quarto do salário para tapar o buraco. O fundo é controlado por dirigentes indicados por políticos do PT e do PMDB.

Na Petros, que tem 128 mil participantes e mais de R$ 66 bilhões de patrimônio, as perdas no ano passado foram estimadas em R$ 6,2 bilhões. E-mails interceptados pela Polícia Federal indicam que João Vaccari, o ex-tesoureiro do PT, influía na administração do bolo.

"O loteamento político e sindical dos fundos foi selvagem. Isso está na origem de muitos investimentos temerários", diz o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), um dos autores do pedido de criação da nova CPI.

Em abril, o governo pressionou senadores a retirar assinaturas de outro requerimento, o que adiou o início das investigações. Agora o Planalto cochilou, e a comissão terá que ser instalada nesta semana.

Há muita coisa a se investigar no mundo dos fundos, que tem atraído pouca atenção dos órgãos de controle. Um dos caminhos será ouvir quem acompanhou os negócios de dentro. Entre conselheiros e servidores, muita gente pode ser convencida a contar o que sabe.

Eugênio Bucci - Então o povo emana do poder?

• O país da publicidade petista é esquisito, híbrido, torcido e distorcido. Por exemplo: não tem presidente da República

- Época

Na terça-feira passada, às 8 e meia da noite, quando o Partido dos Trabalhadores ocupou as redes de TV com seu programa de propaganda política, uma pergunta ficou no ar: que país é esse que aparece no vídeo do PT?

Claro, é um país que avança no avanço, ura país avançadíssimo. Na tela eletrônica, a moça bonita de sotaque carioca anuncia: "Finalmente vivemos num país onde as mais justas reivindicações da população passaram a ser as mesmas das democracias mais sólidas do mundo". Ou seja, no proselitismo petista, o Brasil já é de "Primeiro Mundo" no quesito "reivindicações da população". O Brasil pode ficar feliz e satisfeito: se suas soluções ainda não são de "Primeiro Mundo", os seus problemas já são.

Quer dizer que o Brasil ficou igual à França? Quer dizer que no Canadá a polícia cai de pau (e de bala de borracha) em cima de professores que protestam na rua? E os salários dos professores no Brasil são equiparáveis aos dos professores belgas? Então agora, na Noruega, os cidadãos estão preocupados com uma Polícia Militar que mata milhares de jovens negros desarmados todos os anos? Os londrinos enfrentam problemas de filas em hospitais? Os alemães acham que a redução da maioridade penal vai resolver o descalabro da segurança pública?

O país da publicidade petista é esquisito, híbrido, torcido e distorcido . Em certos ângulos, é fácil reconhecê-lo. Parece o país de verdade. Em outros enquadramentos, é a própria Terra do Nunca. Por exemplo: o Brasil do PT não tem presidente da República. O filme do PT consegue a proeza inaudita de ser um filme governista e, ao mesmo tempo, falar de um país que não é governado por ninguém (embora, claro, esteja sempre "avançando na direção "correta"). Em seus dez minutos de duração, o programa se dedica a esconder ninguém menos que a chefe de Estado. Chega ao cúmulo de defender mais espaço para a mulher na política sem tocar no nome de Dilma Rousseff.

No lugar de Dilma, quem aparece em close é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O curioso é que Lula não fala como defensor do governo, mas como um líder sindicalista de oposição. Em tom ameaçador, afirma que a mudança da lei que abre espaço para a terceirização de mão de obra colocará o Brasil no mesmo nível em que estava no início do século XX, quando não havia 13-salário. Quer dizer: o Brasil, que não tem presidente da República, só tem um líder, mas de oposição, e o nome desse líder é Lula.

A propaganda petista segue em guerra contra os moinhos do passado. É contra o passado que Lula se insurge. A partir daí, os contrastes entre o hoje um "hoje" publicitário) e o ontem (um "ontem" acusatório, o ontem que é culpa "deles") atingem o clímax. A dona de casa orgulhosa de sua nova sala sorri para as câmeras. O jovem que foi à universidade graças ao Prouni diz que agora pode sonhar. As meias verdades se põem a serviço das meias mentiras (ou mesmo das mentiras inteiras). Por exemplo: é verdade que, nos governos de Lula, o Brasil melhorou sua distribuição de renda, e isso o filme mostra, mas é verdade, também, que a gestão da política econômica não foi nada bem no governo Dilma, e isso o filme esconde {a ponto de ter de esconder a própria Dilma).

Outra coisa é que, ao que tudo indica, parece que andaram roubando um pouquinho nos governos do PT, mas, quanto a isso, o filme tem outra interpretação, insiste que o PT é o campeão no combate à corrupção. O jovem apresentador faz cara de seríssimo e dispara: "Outra virada histórica do Brasil, tem sido o combate contra a corrupção. E, por mais que alguns setores da imprensa omitam, se você buscar a verdade, vai descobrir que o PT também liderou algumas iniciativas contra a impunidade" Em seguida, uma voz em off garante que antes dos governos do PT o Ministério Público e a Polícia Federal não tinham autonomia para trabalhar, mas agora é diferente.

Conclusão: se hoje há ladrões de dinheiro público batendo ponto na cadeia, agradeça ao PT. Alguns são filiados ao PT? Não ligue. Se forem condenados, serão expulsos, garante a propaganda. Aí você pergunta: mas se vão expulsar os que vierem a ser condenados por crime de corrupção, por que não expulsaram os que já foram condenados? O PT não responde, pois não escuta, assim como não escutou os panelaços durante a exibição de seu programa. Empenhado em inventar seu país publicitário, o partido parece acreditar que será capaz de fabricar, com sua propaganda, um povo crédulo, medroso e obediente. Na TV do PT, não é o poder que emana do povo, mas o povo é quem há de emanar do poder.

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Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA USP

Ferreira Gullar - Boca fechada

• Nos discursos de Dilma, não há inflação, a economia está bumbando e a corrupção é combatida como nunca

- Folha de S. Paulo / Ilustrada

Por que será que a presidente Dilma Rousseff decidiu não fazer o discurso de sempre no Primeiro de Maio?

Causou surpresa porque ela, até então, tem se valido de toda e qualquer data e pretexto para falar ao eleitorado. E sempre com aquele discurso nos apresentando um Brasil maravilhoso, de que só ela tem conhecimento.

Nos seus discursos, não há inflação no país, a economia está bumbando e a corrupção é combatida como nunca na história brasileira. E, quando a gente se lembra disso, entende por que ela, no dia dos trabalhadores, preferiu calar a boca.

Parece que a situação chegou a tal ponto que não dá mais para fantasiar. E ainda havia o risco de um panelaço.

Se toco neste assunto é porque me parece que a situação política do governo e seu desprestígio junto ao povo atinge um ponto crítico indisfarçável. Essa fase crítica se agravou quando a Petrobras teve de admitir que realmente foi vítima da corrupção e que seu aparelhamento resultou num prejuízo de quase R$ 22 bilhões, fora os R$ 6 bilhões pagos em propina.

Todo mundo viu, desde que começou a Operação Lava Jato, Dilma e Lula negarem que tivesse de fato ocorrido esse desastre na Petrobras. Segundo eles, aquelas acusações era uma campanha golpista para derrubar o governo petista e privatizar a Petrobras.

Sucede que as delações premiadas tinham procedência e os acusados pelo assalto à empresa foram presos e vão responder a processos.

Por outro lado, esses escândalos atingiram o prestígio da empresa, levando-a à perda de dois terços de seu valor de mercado. Notícias mais recentes dão conta de que está vendendo a outras empresas petrolíferas equipamentos comprados para a exploração do pré-sal, que parece por enquanto descartada.

Essa história de que tudo era invenção chegou ao fim, quando o novo presidente Aldemir Bendine veio a público apresentar o balanço auditado, em que a ação corrupta de gente do governo, de altos funcionários da empresa e das empreiteiras foi afinal admitida. Sim, porque, sem esse balanço auditado, a situação da Petrobras se tornaria insustentável.

Dilma agiu certo em não falar no Dia do Trabalho. Todos sabemos que o modo de conduzir a economia de Joaquim Levy é o oposto do dela: enquanto ele opta pelo controle de gastos e pelo investimento na infraestrutura, ela acha que um pouco de inflação não faz mal e que o consumo é que leva a economia adiante.

São, portanto, posições antagônicas. Logo, Levy só foi nomeado ministro da Fazenda para tentar impedir que o barco afunde. Pois bem, Dilma teve a coragem de afirmar que essa política de contenção é apenas a continuação de sua política de gastos.

Sucede que o próprio Levy, na visita recente que fez aos Estados Unidos, para convencer os empresários a voltarem a investir no Brasil, afirmou que temos agora "uma nova política econômica", desmentindo assim o que dissera Dilma. Tinha que fazê-lo, pois do contrário não os convenceria...

Não por acaso, o índice de aprovação da presidente caiu para 13%, com a agravante (para ela como petista) de que aumentou o número dos que a rejeitam na classe C e D, ou seja, gente beneficiada pelos programas assistencialistas do PT.

E esse nível de rejeição tende a se agravar, uma vez que a implantação da nova política econômica implica em mais aumento nos preços da energia elétrica, da gasolina e do diesel --entre outros--, o que provocará inevitavelmente a elevação dos preços de todas as mercadorias de primeira necessidade, o que, aliás, já está ocorrendo.

Tudo isso concorre para a deterioração das relações do governo com seus aliados políticos e, particularmente, com o principal deles, o PMDB, a quem ela tem sido obrigada a fazer sucessivas concessões.

Mesmo assim, não consegue contê-lo, tal foi o caso da proposta que aumentou, em 181%, os recursos do fundo partidário.

Num momento em que é vital para o governo cortar despesas e conter os gastos, um deputado da base governista propõe aumentar o financiamento dos partidos de R$ 308,2 milhões para R$ 867,5 milhões. E a presidente teve que sancionar esse aumento.

É, Dilma fez bem em não discursar no Primeiro de Maio.

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Ferreira Gullar, ensaísta, crítico de arte, poeta e membro da Academia de Letra (ABL)

Fernando Gabeira - A caçada ao ministro da Pesca

• Na nossa pedestre vida política, a surdez do PT é a tentativa de se manter em cena

- O Globo / Segundo Caderno

Numa semana tensa em Curitiba, consegui encontrar na crise brasileira alguns momentos de humor. O Ministério da Saúde publicou um edital determinando a apresentação de Helder Barbalho para prestar esclarecimentos. Não sabiam quem era e como poderia ser encontrado. Helder tinha o chamado paradeiro incerto. Helder Barbalho é ministro da Pesca e trabalha ao lado dos burocratas que o procuravam. Sequer usaram uma ajuda do Google, que poderia salvá-los.

Ser um dos 39 ministros de Dilma é uma forma de se esconder na gigantesca máquina irracional do governo. Nem eles mesmos se conhecem nesse universo pantanoso.

Os prejuízos que a administração petista trouxe à Petrobras são maiores que os recursos para recuperar o Nepal depois do terremoto. Segundo os cálculos do repórter José Casado, a administração petista torrou cerca de R$ 17 milhões por dia, durante seis anos e seis meses. Reconhecer os estragos de um terremoto, no entanto, não é a escolha do PT. Continuam se achando ótimos administradores.

Nesses momentos de relativa transparência, as notícias nos brindam com novas peças de humor. Como essa gráfica na Casa Verde, em São Paulo, que, sem máquinas, forneceu R$ 22 milhões de material para o PT e cerca de R$ 1,5 milhão para o PSDB. O nome do dono é Beckenbauer Rivelino, um craque na produção de notas frias. Vinte e dois milhões em panfletos é algo que jamais vi uma campanha gastar. Isso mostra que os escândalos sempre nos divertem com os nomes e nos assustam com sua frequência.

E com a quantidade de cifras e porcentagens que atravessam o noticiário, Lula afirmou que era 90% mais honesto que os jornalistas de duas importantes revistas brasileiras. Ele já tinha feito uma incursão desastrosa nas percentagens, afirmando que o processo do mensalão era 80% político. O que é 100% bobagem.

Cifras astronômicas aparecem também na investigação sobre João Santana, o marqueteiro oficial. Ele teria recebido US$ 16 milhões por seus conselhos na campanha de Angola. Estão nadando em dinheiro num oceano que começa a ser singrado pelos barcos da investigação.

A frente da transparência, cuja capital hoje é Curitiba, com a operação Lava-Jato, tem de se ampliar para o BNDES, estatais, fundos de pensão. Saber o que houve no BNDES é desvendar uma parte substancial da trajetória do governo. Tanto os recursos investidos no país como no exterior precisam ser conhecidos. Não há como evitar que se revelem todos os detalhes da operação. Sobretudo essas que envolviam o ex-presidente Lula, a Odebrecht e o banco oficial. Os dados iniciais indicam que Lula prometia uma obra no exterior, o BNDES financiava e a Odebrecht realizava. Isso teve repercussão internacional, maior até do aqui dentro. Mas merece toda a transparência, no momento em que se busca instalar a CPI do BNDES.

Nas ruas de Curitiba, além da operação Lava-Jato, vivem-se conflitos em torno da política de austeridade. A crise econômica que nos envolve é um foco mais dramático ainda do que a frente da transparência, essa possibilidade de conhecer o governo do PT em detalhes, saber que, por hora, davam um prejuízo de R$ 729 mil à Petrobras.

Na crise econômica, existe pelo menos uma chance de empurrar o governo para o mínimo de racionalidade, enxugar a máquina, limitar cargos de confiança. É uma forma inteligente de ajuste porque não só atenua o esforço da sociedade, no momento, como também assegura um alívio para o futuro. Não adianta apenas conter custos. É preciso estabelecer as condições de uma retomada. E não será com essa máquina irracional. Vamos economizar duramente para daqui a pouco publicarem um novo edital buscando um dos 39 ministros de Dilma?

Mais uma vez o Brasil viveu um grande panelaço, durante o programa do PT, no horário gratuito da fantasia. As pessoas rejeitam o cinismo e desejam mudanças. Será preciso bater panela e, simultaneamente, ter uma pequena receita do que se pode obter nesse momento. O Brasil é hoje um país devastado pela corrupção e pela incompetência. Não só é preciso socorrê-lo após o terremoto como pensar em reconstruí-lo de forma mais sólida.

Se pelo menos ouvissem as caçarolas. Crise econômica, política e auditiva. Mas se fazem de Ulisses, exercitam a surdez de quem ouve. No poema, Ulisses goza o espetáculo das sereias, sem assumir as consequências.

Na nossa pedestre vida política, a surdez do PT é a tentativa de se manter em cena, sem assumir os desvios éticos nem responder por sua gestão calamitosa. O PT é apenas uma pedra no caminho. Os contornos desse caminho é que precisam ser discutidos. Não importa se essa é a maior e mais complexa das crises. É a que nós temos. E dela, espero, haveremos de sair.

P.S.: Escrevi numa coluna: fronteira do Piauí com Ceará. O certo é divisa. Maltratei a geografia.

Elio Gaspari - A carta do eu-não-sabia saiu do baralho

- O Globo

Com a inevitável lembrança do Holocausto, acabaram as comemorações dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Numa trapaça do tempo, fica a impressão de que, em 1945, confrontado com a barbárie, o mundo reagiu com repulsa geral. Noutra, em 2015, acredita-se que, hoje, coisas daquele tipo são inimagináveis. Infelizmente, as duas suposições são falsas. Milhares de judeus que saíram dos campos de concentração foram recebidos como intrusos quando tentaram voltar às suas casas na Europa Oriental. Quando Heda Margolius, ex-prisioneira de Auschwitz, regressou a Praga, sua vizinha perguntou-lhe: "Por que você voltou?"

Em Cracóvia, houve um pogrom em agosto de 1945. Nos 18 meses posteriores ao fim da guerra, mataram-se mais judeus na Polônia, na Hungria e na Tchecoslováquia do que nos dez anos anteriores ao início do conflito. O mundo só começou a encarar o Holocausto a partir dos anos 60, depois que o primeiro-ministro israelense David Ben-Gurion, numa centelha de genialidade, mandou que Adolf Eichmann, capturado em Buenos Aires, fosse levado para um julgamento público em Tel Aviv. O gerente da Solução Final foi enforcado em 1962.

A segunda trapaça do tempo é a de que aquilo foi coisa de outra época. O ódio e a violência racial e religiosa continuam aí, expostos no cotidiano do século XXI. O Estado Islâmico, que se assenhoreou de parte do território do Iraque e da Síria, tem os ingredientes da superioridade nazista, com uma diferença: ele mata muçulmanos xiitas, judeus e cristãos. Faz isso ostensivamente e coloca filmes na rede. Um deles, "Clanging of the swords 4" ("O barulho das espadas"), com pouco mais de uma hora de duração. Coisa de profissionais, produzida há um ano. Barra pesadíssima.

Os nazistas não propagavam o que faziam. Pelas suas leis e pelos seus discursos, podia-se supor, mas não se podia ver. O Estado Islâmico usa a selvageria como instrumento de propaganda. Algo como coproduções de Heinrich Himmler, comandante da Solução Final, e de Joseph Goebbels, marqueteiro do regime. Na década de 30, havia quem tivesse uma ponta de compreensão para com os nazistas. Afinal, opunham-se aos comunistas. Hoje, esse engano pode ser alimentado, em ponto menor, pela oposição do Estado Islâmico aos Estados Unidos e a Israel.
Se há uma diferença entre 2015 e 1945, ela está no fato de que agora saiu do baralho a carta do eu-não-sabia. Só não sabe quem não quer, porque os fatos estão aí, mostrados pelo próprio Estado Islâmico.

A comédia da Sete Brasil
Depondo na CPI da Petrobras o doutor Luiz Eduardo Carneiro, presidente da Sete Brasil, informou que auditores externos não encontraram irregularidades nos contratos da empresa para a fabricação de navios e sondas para a Petrobras. Um negócio de US$ 27 bilhões. Segundo ele, Pedro Barusco e João Carlos Ferraz, que presidiu a Sete até sua chegada, em 2014, não foram "bons" executivos.

Pode- se dizer que Eike Batista, com quem Carneiro trabalhou, não foi um bom executivo porque vendeu nuvens. O caso de Barusco e Ferraz, e da própria origem da Sete, é bem outro. Barusco já confessou ter recebido US$ 100 milhões em propinas. Enquanto Carneiro falava em Brasília, Ferraz continuava negociando sua colaboração com a Viúva. Além de informações valiosas, poderá devolver algum dinheiro, quantia muito menor que a de Barusco. A essa altura, Barusco e Ferraz ajudam, Carneiro atrapalha.

O doutor assumiu a presidência da Sete há um ano. Se ele acha que faltaram à empresa "bons" executivos, de duas uma: ou não sabe onde está ou sabe e acha que pode dizer o que bem entende.

Chapa
Pelo menos um tucano assegura que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, do PMDB, ofereceu ao PSDB a Vice-Presidência numa chapa encabeçada por ele.
Falta combinar com Geraldo Alckmin e Aécio Neves, prováveis candidatos do PSDB.

O atraso da CVM
A Comissão de Valores Mobiliários, instituição destinada a proteger os investidores, resolveu investigar a conduta do Conselho Administrativo da Petrobras. Com cinco anos de atraso, viu fumaça em suas decisões.

Tudo bem, mas a CVM poderia se perguntar porque fez sete acordos com o diretor financeiro da empresa durante o petrocomissariado. Ao longo de seis anos, o doutor pagou R$ 1,75 milhão para que não se falasse mais dos motivos que haviam levado a CVM a investigar sua conduta.
É possível que a CVM tenha sido a única xerife do mercado a fazer tantos acordos desse tipo com um diretor financeiro de uma empresa do tamanho da Petrobras. Deu no que deu.

Registro
Os integrantes do Conselho de Administração da Petrobras tinham motivos para achar que suas reuniões fossem gravadas. Os conselheiros estranhos à empresa não sabiam que estavam sendo filmados.

Pode-se entender que os vídeos tenham sido apagados, mas o banco de dados da empresa deve saber quem fez o serviço e quando.

Veneno
Um parlamentar recolheu notas de dólar com a efígie de Lula jogadas sobre o plenário da Câmara para distribuí-las, como lembrancinhas, a pedintes e flanelinhas e eleitores de Dilma.

Fachin
Ninguém pode prever o comportamento do Senado na apreciação do nome do advogado Luiz Fachin para o Supremo Tribunal.

Certamente, há ""çábios"" do Planalto acreditando que ganham a parada, assim como em janeiro acreditavam que derrotariam a candidatura de Eduardo Cunha à presidência da Câmara.

Há uma diferença entre as duas situações: contra Eduardo Cunha já não havia linha de recuo. No caso de Fachin, tanto ele como o governo podem desistir da indicação.

Terceiro tombo
Às 14h de 29 de abril, hora de Tóquio, três empresas do grupo Ishikawajima informaram ao mercado que separaram o equivalente a R$ 207 milhões para cobrir seu prejuízo no estaleiro Atlântico.
Pobre Ishikawajima. É o terceiro tombo que toma por se meter nos projetos megalomaníacos de criação de polos navais dos governos de Pindorama. Todo brasileiro com mais de 60 anos já pagou três. O primeiro com Juscelino Kubitschek. O segundo durante a ditadura e o terceiro com Nosso Guia. A Ishikawajima entrou em todos.

Nas superproduções do petropetismo, construiu-se uma piada. Os japoneses venderam ao Brasil uma refinaria que não refina e o Brasil vendeu-lhe um estaleiro que não produz.

Usina de encrencas
Quando o PT pode achar que sua situação melhorou, inventa uma nova encrenca.
O presidente do diretório paulista, comissário Emídio Souza, quer ir à Justiça para apreender os cartazes de "Procurados", com retratos de Lula e da doutora Dilma.
Grande ideia. Quem tiver uma impressora poderá fabricar seus cartazes, assim como quem tem uma panela consegue fazer barulho.

Esconde-esconde – Editorial / O Estado de S. Paulo

O programa que o PT levou ao ar na última terça-feira e os últimos acontecimentos na Câmara dos Deputados confirmaram que, do poder, o partido quer apenas as delícias. Já o pesado fardo de ser governo, que fique com a presidente Dilma Rousseff e com os partidos da base aliada.
Esse comportamento explica por que razão PT e Dilma estão brincando de esconde-esconde: já não se sabe mais, a esta altura, quem quer mais ardentemente desvincular-se de quem – se o partido da presidente ou o contrário.

Consta que Dilma não apareceu no programa petista na TV por sugestão de seu padrinho, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na verdade, ela nem poderia mesmo ter participado, pois o programa parece ter sido produzido para promover um partido de oposição.

Como se a presidente não fosse petista, o programa do PT informou aos eleitores que o partido entende a necessidade do ajuste fiscal, para “corrigir o que está errado”, mas exigiu que essas medidas “não afetem os mais pobres, mas sim quem tem mais recursos”.

“No ajuste econômico que o governo está fazendo agora, o PT tem defendido que não se cortem direitos dos trabalhadores”, disse um dos apresentadores, fazendo ar sério, para enfatizar o tom de advertência ao mencionado “governo”. Nem o dedo em riste faltou.

No fundo da tela lia-se que o “PT defende direitos dos trabalhadores”, uma mensagem explícita contra aqueles que, como o ministro da Fazenda de Dilma, Joaquim Levy, defendem reformas que racionalizem ou cortem alguns benefícios em nome da urgente necessidade de reorganizar as depauperadas contas públicas.

Mas a estrela foi mesmo Lula. No momento em que Dilma luta para reconquistar sua base aliada no Congresso, justamente para conseguir aprovar o ajuste fiscal, o líder petista usou o programa do partido para atacar a Câmara por ter aprovado o projeto que regulamenta a terceirização da mão de obra.

Lula chegou a dizer que “esse projeto faz o Brasil retornar ao que era no começo do século passado”, um tempo “em que o trabalhador era um cidadão de terceira classe, sem direitos, sem garantias, sem dignidade”. A fala do demiurgo petista e o tom do programa causaram compreensível espanto entre os parlamentares do PMDB, principal sócio da base governista. O líder peemedebista na Câmara, Leonardo Picciani (RJ), chegou a dizer que seu partido terá muita dificuldade em apoiar o ajuste “até que o PT nos explique o que quer”.

Não é difícil de responder a essa questão. O PT quer os dedos e os anéis. Lula, que nunca primou pela lealdade aos companheiros de viagem, não pensará duas vezes antes de atirar Dilma aos leões, se isso for necessário para sua estratégia de manutenção do poder. Lula não quis Dilma no programa do PT porque teria de defender um governo detestado pela maioria absoluta da população.

Dilma, por seu lado, não tinha alternativa senão deixar de aparecer em um programa tão manifestamente danoso aos interesses de sua base aliada, de seu governo – e, por que não dizer, do País.

Embora Lula tenha dito recentemente que Dilma e o PT “têm de ser que nem unha e carne” – uma imagem que serve apenas para constranger sua afilhada a se dobrar ao partido –, a presidente parece ter optado pelo distanciamento prudente. Prova disso é que o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, correu a declarar que o grande panelaço que se ouviu durante a transmissão do programa petista não era dirigido a Dilma. Segundo Edinho, seria um “erro” considerar PT, Lula e governo como se fossem uma coisa só, pois “cada um tem seu espaço de trabalho e sua agenda”.

Pois neste momento a agenda da presidente Dilma é tentar acalmar os ânimos e articular com as demais forças políticas uma maneira de tirar o País do buraco em que ela o enfiou no primeiro mandato. Já a agenda do PT – e, em especial, de Lula – é bem outra. Indiferente às agruras políticas de Dilma no Congresso, o líder petista parece apostar no confronto, especialmente no momento em que o partido aparece como protagonista de escândalos em escala nunca vista na história deste país.

Dilma versus PT – Editorial / IstoÉ

Por mais esquizofrênico que possa parecer, a distância entre o PT e o governo Dilma - de origem essencialmente petista, diga-se de passagem!- aumenta por esses dias. E quem trata de delimitar as diferenças é o próprio Lula, mentor e artífice da presidente.

No programa partidário exibido na semana passada foi ele quem assumiu a posição claramente oposta a que prega o governo em relação ao projeto de terceirização dos trabalhadores, um dos sustentáculos do ajuste fiscal. Foi ele também quem decidiu deixar Dilma de fora do programa, como alguém excluído, apagado dos quadros, temendo que sua impopularidade contaminasse a aura da legenda e protestos fossem ouvidos no horário da exibição.

Ingênua ilusão! Mesmo sem Dilma, o programa foi recebido em todo o País com panelaços, buzinaços e gritos de repúdio. A desaprovação que enfraquece Dilma se esparrama pelo Partido e mesmo sobre o líder Lula. Por mais que tentem disfarçar o elo original, ninguém cai na lorota de dissociar um do outro.

E vieram as vaias. De novo e mais fortes. O PT do programa falou em defesa dos direitos dos trabalhadores para logo depois, no plenário da Câmara, votar a favor e aprovar medidas amargas como o corte de direitos no acesso ao seguro-desemprego, ao abono salarial, a pensões e ao auxílio-doença.

Os partidos aliados, liderados pelo PMDB, temendo ficar com o ônus de um projeto que é cria petista, exigiram coerência da sigla que, mais uma vez, tentou fingir que não era governo, mas acabou vestindo a máscara. Como um dragão de duas cabeças, o PT segue na sua metamorfose ambulante. Está numa crise de identidade sem precedentes. Governa e faz discurso típico de oposição quando lhe convém.

Muda de papel ao sabor das circunstâncias e tenta imputar aos outros erros e decisões que ele mesmo toma no controle do poder. As hesitações estão lhe impondo derrotas fragorosas e, por tabela, prejudicando o País que depende de soluções rápidas para a crise. Cada político filiado - seja deputado, senador ou governador - parece no momento mais preocupado em garantir o próprio prestígio em seus currais antes de se aventurar na defesa de Dilma e de suas deliberações. Vigora no PT o salve-se quem puder.

Lula diretamente já falou a correligionários mais próximos que vai trilhar um caminho próprio, mais à esquerda, assumindo uma agenda que, em muito, deve colidir de frente com as decisões tomadas hoje pelo Governo do qual é patrono. E no Congresso rachado ao meio por essa falta de pulso do Executivo o oportunismo ganha vez. Como uma nave fora de órbita, ali prevalecem os desejos e planos pessoais dos líderes da Casa, a despeito da urgência de algumas pautas como o ajuste fiscal, que está saindo à duras penas em troca de muitas concessões. PT e Governo, na sua ambição e soberba, perderam o controle

Vinicius Torres Freire - Um novo aumento da gasolina

• Alta do petróleo pode levar a Petrobras a perder dinheiro, em breve, se não houver reajuste doméstico

- Folha de S. Paulo

A petrobras vendeu gasolina e diesel a um preço 20% maior que o do mercado internacional entre novembro e fins de abril. Trata-se da diferença média de preço nesses meses, segundo gente da direção da empresa.

De acordo com consultores privados, a diferença andava por aí mesmo, entre 17% e 21%. Na semana passada, os mesmos consultores diziam que a alta do petróleo de março para cá, de mais de 20%, e a desvalorização do real deram cabo desse ganho da Petrobras. Vai haver reajuste de gasolina e diesel?

O governo vai baixar o "imposto da gasolina" (Cide), de modo a permitir que a empresa reajuste seus preços sem que o aumento chegue ao consumidor final e à inflação?

O "ganho" da Petrobras de novembro a abril mal triscou as perdas da empresa durante os anos de tabelamento informal de preços, decretado pelo governo Dilma 1 a fim de maquiar a inflação. A depender do período que se inclua na conta, entre outras mumunhas de cálculo, a Petrobras pode ter perdido até R$ 60 bilhões durante os anos do desenvolvimentismo doidivanas (houve momentos, anteriores, em que a empresa ganhou com a diferença de preços).

A repressão de preços arruinou a empresa e negócios conexos; causou descrédito do mercado brasileiro. A inflação arrebentou a represa artificial e nos inunda.

Tudo isso é história velha. O problema agora é saber se a Petrobras terá liberdade de reajustar preços e tocar seus negócios de modo basicamente normal, como pretende seu novo presidente, Aldemir Bendine. Um primeiro teste virá se o custo do petróleo continuar a aumentar, seja devido ao aumento do preço do barril ou do dólar.

A Petrobras ainda está muito arrebentada. Se o tratamento das suas pestes der certo, vai convalescer devagar, recuperação que deve levar meia dúzia de anos. Se voltar a perder dinheiro, vai para o vinagre a despiora recente da imagem, da administração e das perspectivas financeiras da empresa.

Caso a situação das finanças públicas não fosse desastrosa, o governo teria como atenuar as variações de preços dos combustíveis sem desfalcar a Petrobras. Há um imposto que já foi utilizado justamente para tal fim, para regular preços, a Cide, que voltou a ser cobrada neste ano.

Dentro de certos limites, o preço dos combustíveis poderia variar para a Petrobras sem que variasse demais na bomba, bastando regular o tamanho da cobrança do imposto, que serviria de amortecedor. Caso o preço do petróleo subisse ou caísse além da conta, a diferença enfim seria repassada para o consumidor.

Não se trata de modelo ideal, mas, numa economia ainda cheia de esquisitices como a brasileira, era e é um arranjo útil, pragmático. O governo Dilma 1 zerou a cobrança da Cide, também a fim de maquiar a inflação.

Na pindaíba, Dilma 2 voltou a cobrar o imposto, mais por precisão do que por boniteza: para ajudar a tapar o rombo que Dilma 1 deixou no Tesouro Nacional. Logo, parece improvável que o governo vá baixar o imposto a fim de compensar um eventual aumento de preços dos combustíveis para a Petrobras, evitando assim que a conta chegue ao consumidor.

Como se nota, temos um problema.

Miriam Leitão - Lição esquecida

- O Globo

O governador Franco Montoro estava no Palácio, com convidados ilustres. Era o dia 5 de abril de 1983. A oposição tinha assumido, 20 dias antes, o poder nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Os governadores Tancredo Neves e Leonel Brizola estavam no Bandeirantes, almoçando com Montoro. Foi quando os manifestantes derrubaram as grades e invadiram os jardins do Palácio.

O que fez Montoro foi o que mais me impressionou. O Brasil não sabia o que era ver aqueles políticos, há quase duas décadas na oposição, assumindo o poder. E eles não sabiam como era governar. Tinham estado ao lado de manifestantes durante anos e voltariam a estar do lado deles, um ano depois, na campanha das Diretas. A visão de dentro das grades era inacreditável. Liderados pelo PCdoB e PT, os manifestantes ignoraram a tentativa de negociação do secretário do trabalho Almir Pazzianoto, que foi até a multidão conversar, e rumaram para o Palácio. Com a pressão, as grades vieram abaixo. Montoro saiu do almoço e foi conversar com os manifestantes. Uma mulher mais exaltada, com o dedo em riste, bem perto do governador, disse alguma coisa assim:

— Ô Montoro, você tem que nos ouvir.

O governador respondeu que estava ouvindo. Tudo parecia uma impropriedade: o governador ir direto, de peito aberto, falar com manifestantes; e eles, gritando com o governador.

As cenas que assisti de perto, como repórter, contrastam em tudo com as que foram conduzidas pelo governador do Paraná, Beto Richa, do PSDB — partido que naquele 1983 não existia, mas do qual Montoro foi um dos fundadores. Richa, no dia 29 de abril de 2015, mandou a Polícia, com violência desmedida, sobre professores que tentaram entrar na Assembleia Legislativa do Paraná.

É natural conter manifestações exaltadas, e aquela estava desrespeitando ordem judicial. Contudo, não é normal ferir quase 200 pessoas e não dar resposta em tempo hábil aos excessos cometidos pela Secretaria de Segurança. Desde então, Richa hesita. Primeiro apoiou a ação; em seguida se escondeu.

Dias depois, caiu o secretário de Educação. Em seguida, o comandante da PM. Na sexta-feira, foi a vez do secretário de segurança Fernando Francischini, depois do desabafo de sua mulher em rede social. Ela queria apoio maior ao marido. O governador tucano nem criticou a ação, em tudo condenável, nem pareceu aos seus comandados ter dado apoio suficiente aos atos de repressão. Demissões tardias não falam bem da sua capacidade de tomar decisão durante crises.

Montoro foi criticado pela ditadura e seus porta-vozes. Teria ficado atônito, diziam, não reprimiu como deveria. Em 1983, o país vivia um momento de agitação política e aflição econômica. O desemprego estava alto há muito tempo, pela política recessiva imposta pelo ministro Delfim Netto. 

Duas maxidesvalorizações da moeda decretadas por ele tinham elevado a inflação para o nível de 200%. O protesto começara na segunda-feira, 4, com saques em Santo Amaro e quebra-quebra. Na terça-feira, 5, eles marcharam para o Palácio. O PCdoB, que liderara a marcha e a invasão do Bandeirantes, não tinha ainda existência legal, e por isso se abrigava dentro do mesmo PMDB do governador Montoro. O PT tinha dois anos de vida e estava lá exibindo seu lado radical, que mostra quando não é ele que está no poder. O partido jamais apoiou os avanços democráticos, exceto quando o favoreciam. Naquele momento, a vitória do PMDB, em São Paulo e Minas, e do PDT, no Rio, prenunciava o fim da ditadura, mas tanto o PT quanto o PCdoB atacaram o governo estadual em São Paulo como se o inimigo não estivesse em Brasília, no Planalto.

Um sereno Franco Montoro me recebeu para almoçar, no dia 7 de abril, dois dias depois da invasão do Bandeirantes. Eu havia pedido a conversa ao assessor de imprensa A.P. Quartim de Moraes. Ele levou o pedido ao governador, que aceitou me receber. O que mais me impressionou foi a calma com que ele falava dos protestos. Dizia que na democracia era assim mesmo e que preferia o diálogo. Criticado por excesso de tolerância, Montoro, se estivesse vivo, poderia ensinar ao filho do seu amigo, o tucano José Richa, o que não fazer diante de um protesto na democracia.

Rolf Kuntz* - O arrocho mal começou e o brasileiro já sofre

- O Estado de S. Paulo

Vai piorar, disso ninguém duvida, e os brasileiros já vão mal antes de começar o arrocho para valer. O desemprego chegou a 7,9% no primeiro trimestre, embora a austeridade nas contas públicas, nesta altura, seja pouco mais que uma promessa. Com a indústria em crise e o empresariado à beira do pânico, a economia nacional entra muito fraca na fase do aperto. O pacote inicial do ajuste continua no Congresso, foi amaciado e deverá render menos que os R$ 18 bilhões estimados inicialmente. Os primeiros cortes no Orçamento ainda serão anunciados. O governo terá de agir com mão pesada, nos próximos meses, se quiser mesmo entregar o resultado fiscal prometido - um superávit primário de R$ 66,3 bilhões para pagar juros da dívida pública. A crise do Tesouro é evidente e por enquanto se manifesta em sinais esparsos, como a limitação de verba para o financiamento a estudantes. Mas a terapia pesada está só no horizonte e tentar adiá-la jogaria o País num buraco muito mais fundo.

Quem garante, nesta altura, a execução do programa de ajuste? Os negociadores inicialmente escalados pela presidente, seus petistas de confiança, foram afastados por indisfarçável inépcia para a função. Passaram a negociar em nome do governo o vice-presidente, Michel Temer, e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Acuada e incapaz de se defender, a presidente Dilma Rousseff cumpre a rotina funcional de forma limitada e discreta. Não demonstra disposição para enfrentar os panelaços nem para cobrar apoio de seu partido. Petistas votaram a favor da Medida Provisória 665, na Câmara, porque foram enquadrados pela liderança do PMDB. Os principais temores e esperanças do governo são hoje representados por figuras peemedebistas, especialmente pelos presidentes do Senado e da Câmara, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, e pelo vice-presidente da República.
O aliado mais importante converteu-se na verdadeira base do governo, porque os líderes do PT se negaram, até agora, a suportar o custo político da reparação dos danos causados na última fase da gestão petista.

Enquanto o ministro da Fazenda busca apoio ao seu programa e o vice-presidente se consolida como a imagem política do Executivo, a economia afunda no atoleiro. A inflação oficial diminuiu de 1,32% em março para 0,71% em abril, mas o cenário dos preços continua aterrador. A inflação chegou a 4,56% em quatro meses, superando a meta oficial para todo o ano, 4,5%. A alta de preços acumulada em 12 meses chegou a 8,17%. Se a taxa mensal de 0,71% se repetir até dezembro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subirá 10,65% neste ano.

A combinação de inflação elevada com desemprego imporá aos trabalhadores um sacrifício desconhecido há vários anos. O desemprego continuará a aumentar se a indústria permanecer em crise. A produção industrial diminuiu 0,8% de fevereiro para março. No primeiro trimestre foi 5,9% menor que a de um ano antes. Na comparação de dois períodos consecutivos de 12 meses a queda foi de 4,7%.

Não haverá recuperação segura sem maiores investimentos, mas isso parece, por enquanto, fora da agenda. Nos 12 meses até março a produção de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos, foi 13,8% inferior à dos 12 meses anteriores. De janeiro a abril a importação de bens de capital foi 12,3% menor que a dos meses correspondentes de 2014. A redução de compras de máquinas e equipamentos ocorre há mais de um ano. Não se tem cuidado da ampliação nem da modernização da capacidade produtiva. Isso significa perda de eficiência e de poder de competição.

Com os erros acumulados nos últimos quatro ou cinco anos, o governo montou um conjunto de bombas interligadas. A gastança, os benefícios fiscais mal concebidos e a estagnação econômica - prova do fracasso de todos os truques - arrasaram as contas públicas. O déficit fiscal, incluído o gasto com juros, chegou a 7,8% do produto interno bruto (PIB), um dos piores resultados do mundo. A gastança, o populismo e o crescente descompasso entre a demanda interna e a capacidade produtiva provocaram uma inflação muito acima dos níveis observados nos países desenvolvidos e emergentes. O enfraquecimento da indústria derrubou a exportação de produtos manufaturados. O País tornou-se ainda mais dependente das vendas de bens primários e, portanto, do crescimento da China, hoje sujeito a uma política de ajustes internos.

Com a inflação disparada, o Banco Central tem sido forçado a elevar os juros básicos da economia. A taxa passou a 13,25% no fim do mês passado e provavelmente voltará a subir nos próximos meses. Isso aumentará os custos financeiros de um Tesouro muito endividado e ao mesmo tempo dificultará a reativação dos negócios, especialmente da atividade industrial. Com os negócios em marcha mais lenta, a receita tributária será prejudicada e o ajuste das contas públicas ficará mais difícil. O quadro poderá melhorar nos próximos meses se o governo retomar as concessões de infraestrutura e de exploração do petróleo com eficiência maior que a exibida nos últimos anos. Mas isso também dependerá de maior realismo quanto às condições de negociação. Obviamente a Petrobrás será incapaz de manter os padrões de participação observados nos últimos anos. Nada disso ocorrerá, é claro, sem aumento da confiança dos investidores no governo e nas possibilidades da economia brasileira.

Na sua fantasia, a presidente Dilma Rousseff continua incapaz de admitir ou, talvez, até de entender os próprios erros. Falando a sindicalistas antes da festa de 1.º de Maio, ela atribuiu os males do País à crise internacional e a “anos contínuos de seca no Brasil”. Houve seca em algumas áreas, mas desde 2004-2005 a produção de grãos e oleaginosas só diminuiu na safra 2008-2009. Em todos esses anos o agronegócio foi de longe o setor mais dinâmico. A indústria foi muito mais vulnerável às bobagens de um dos governos mais incompetentes da História nacional.

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*Jornalista

Mapa Filmes, cofundada por Zelito Vianna, completa 50 anos com tributos no cinema e na TV

• Produtora foi a responsável por clássicos de Glauber Rocha, como 'Terra em transe'

Carlos Helí de Almeida – O Globo / Segundo Caderno

RIO - Houve um tempo, no Brasil, em que os cineastas saíam de faculdades de ciências exatas, os filmes nacionais eram produzidos com empréstimos em banco, e as classes mais populares lotavam as salas de cinema — inclusive as que exibiam títulos do Cinema Novo, considerados “cabeça” demais. Fundada em junho de 1965 por um grupo de jovens realizadores, entusiastas do movimento cinemanovista, a Produções Cinematográficas Mapa Ltda, que hoje atende pelo nome de Mapa Filmes, é um ícone desse capítulo de quase ficção científica da história do cinema pátrio.

Foi de lá que saíram clássicos como “Terra em transe” (1966), de Glauber Rocha (1939-1981), “A grande cidade” (1966), de Cacá Diegues, e “Cabra marcado para morrer” (1984), de Eduardo Coutinho (1933-2014). Muitos deles representaram o país em importantes festivais estrangeiros e até saíram de lá premiados, como “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969), de Glauber, vencedor do prêmio de direção em Cannes. E não é por menos que as cinco décadas de atividade da produtora serão homenageadas mês que vem pela programação do Instituto Moreira Salles e do Canal Brasil.

— A Mapa foi criada em uma época em que os diretores, às vezes, iam para o set vestidos de paletó e gravata, porque no meio da tarde precisavam encerrar as filmagens do dia para ir ao banco resolver as pendências com os “papagaios” (notas promissórias) da produção — recorda Zelito Viana, de 77 anos, que criou a empresa junto com Glauber Rocha, Walter Lima Jr., Paulo César Saraceni (1933-2012) e Raimundo Wanderley Reis, ligado ao Banco Nacional. — O Chico (Anysio, irmão do produtor, morto em 2012), aliás, avalizou muitas notas da Mapa, sem saber, porque acabei aprendendo a falsificar a assinatura dele!

Sugestão de Glauber Rocha
Dirigido por Walter Lima Jr. e lançado no final de 1965, “Menino de engenho”, adaptação do livro de José Lins do Rego, foi o primeiro filme com o selo da Mapa. O nascimento da produtora carioca, no entanto, começou a ser traçado no ano anterior, quando Leon Hirszman (1938-1987) convidou Zelito, então um engenheiro da indústria metalúrgica, para trabalhar como produtor de cinema. Pouco tempo depois, durante uma reunião entre cineastas no Teatro Opinião, convocada para decidir o destino de “Cabra marcado para morrer”, interditado pelo recém-instaurado governo militar, Glauber sugeriu que Zelito abrisse uma produtora com ele.

— Na época, ele era um dos produtores do “Menino de engenho”, e estava querendo uma empresa para administrar as contas do filme, e assim poder produzir outros. O longa do Walter, que era um dos sócios originais, foi finalizado pela nossa companhia. Eu mesmo cheguei a narrar o trailer do filme — lembra o produtor cearense, na sala de reuniões do prédio que abrigou, nos últimos 40 anos, a casa da família e os departamentos da produtora, numa rua sem saída do Cosme Velho. — Depois do quinto assalto, eu e minha mulher nos mudamos para Ipanema. Mas a produtora continua aqui.

Cacá e Leon chegaram a ser convidados para serem sócios da empresa, mas declinaram da oferta. A Mapa acolheu os projetos “dos amigos do Glauber”, partidários ou não do Cinema Novo, que atravessava um de seus momentos mais criativos. A ideia era fazer filmes rápidos, baratos e rentáveis, como “Menino de engenho”, visto por mais de um milhão de espectadores. Naquele mesmo ano, um grupo de 11 cineastas, entre eles Luiz Carlos Barreto, Roberto Farias, Joaquim Pedro de Andrade e o próprio Glauber, fundou a distribuidora Difilm, que tinha como função fazer circular a produção da época — em 1966, ela foi responsável pela distribuição de 80% da produção brasileira.

— Naquele tempo, ainda era possível fazer filmes com orçamentos irrisórios, uma equipe mínima, que trabalhava praticamente de graça, por amor ao cinema. Acho que o (fotógrafo) Dib (Lutfi) era um dos poucos técnicos que ganhavam um salário. Hoje, tudo envolve um estrutura enorme, e muita verba. “Villa-Lobos, uma vida de paixão”, que lancei em 2000, tinha 120 pessoas na equipe; filmamos “O Dragão da Maldade” com 12! Não se paga menos de R$ 150 de alimentação por dia, por cabeça, em um set. Fizemos “A grande cidade” (1966), do Cacá, com sanduíches da Genial — compara o produtor. — Herdamos essa estrutura gigante de hoje dos realizadores que vieram da publicidade.

Parte da trajetória da produtora poderá ser revista na programação das homenagens agendadas para junho. A mostra Mapa 50 Anos, organizada pelo Instituto Moreira Salles, exibirá títulos de diversas fases da companhia, como “Menino de engenho”, “A grande cidade”, e “Os condenados” (1974), 

“Avaeté, a semente da vingança” (1984) e “Villa-Lobos”, de Zelito. O Canal Brasil vai disponibilizar em sua grade filmes como “Cabra marcado para morrer”, “Quando o carnaval chegar” (1972), de Cacá, e “Terra em transe” (1966), de Glauber. A Escola de Cinema Darcy Ribeiro, a Casa de Cultura Laura Alvim e o Museu de Arte Naïf também participarão do aniversário da Mapa, mas ainda não fecharam o cronograma de atividades.

Ao longo das décadas, a Mapa perdeu seus sócios originais e diversificou suas atividades para se adaptar aos altos e baixos do audiovisual brasileiro — já produziu comerciais, especiais (“Lambada”) e séries (“Confissões de adolescente”) para a TV aberta e, mais recentemente, programas para canais por assinatura. O cinema deixou de ser uma prioridade.

— Fazer filmes, que era uma coisa muito prazerosa, ficou muito chato, aborrecido. É como diziam: o compositor cria, o cineasta presta contas. Hoje, um diretor tem que ser um gestor de finanças e de talentos. Minha esperança é a tecnologia. Só ela poderá trazer uma nova revolução para o cinema — diz Zelito.

Beth Carvalho - O Mundo é um moinho & As rosas não falam

Charles Baudelaire - A que está sempre alegre

Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tuas vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!

In. As flores do mal