quarta-feira, 6 de junho de 2018

Manifesto para unir centro não empolga e expõe divisão

Vera Rosa | O Estado de S. Paulo

O lançamento do manifesto Por um Polo Democrático e Reformista mostrou que a proposta de união do centro político, no primeiro turno da campanha eleitoral, é cada vez mais difícil de sair do papel. Nos bastidores, dirigentes de partidos do bloco dizem que a ideia tem o objetivo de alavancar a pré-candidatura do exgovernador Geraldo Alckmin (PSDB), em dificuldades nas pesquisas.

Com a chancela do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – que não compareceu ao ato no Salão Verde da Câmara, mas enviou mensagem pregando convergência –, o manifesto não pareceu empolgar nem mesmo quem deveria se interessar por ele. Nenhum dos pré-candidatos à Presidência apareceu.

A proposta feita dois dias antes pelo ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, foi chamada de “utópica” e criticada dentro do seu próprio partido, o MDB. Marun sugeriu que todos os presidenciáveis de centro retirem suas pré-candidaturas e durante um mês discutam um programa “arrojado” para o País, antes de decidirem quem será escolhido para liderar a chapa e para ser vice. “Ou os partidos que fizeram o impeachment (da ex-presidente Dilma Rousseff) se unem ou é a derrota, porque o segundo turno será entre os extremos”, afirmou Marun. O ministro admitiu até a possibilidade de apoio do MDB ao PSDB na disputa.

“Discordo frontalmente de Marun, que não tem autoridade partidária para retirar nenhuma candidatura”, disse ao Estado o presidente do MDB, senador Romero Jucá (RR). “Não vamos abrir mão do Meirelles. A escolha de um candidato não é prova oral para ser feita por uma comissão, como quer Marun. Precisamos mesmo ter nervos de aço nessa campanha.”

Idealizador do manifesto, o secretário-geral do PSDB, deputado Marcus Pestana (MG), ditou a receita para nada mais desandar. “Queremos fazer o papel do fermento, e não da massa do bolo”, resumiu ele, ao garantir que ninguém ali roubará o protagonismo dos pré-candidatos. Para o senador Cristovam Buarque (PPS-DF), que também ajudou a preparar o documento, a constatação de que a iniciativa foi feita sob medida para jogar holofotes sobre Alckmin “não faz sentido”, mas revela o racha do centro político.

União do 'centro' é defendida em evento esvaziado

Por Raphael Di Cunto | Valor Econômico

BRASÍLIA - Num evento esvaziado, sem representantes dos principais partidos que o grupo pretendia atrair, aliados do pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, lançaram ontem manifesto "por um polo democrático e reformista" com o objetivo de unir as candidaturas de "centro" em torno de um único nome já no primeiro turno da eleição.

O secretário-geral do PSDB, deputado Marcus Pestana (MG), principal articulador do movimento ao lado do senador Cristovam Buarque (PPS-DF), citou como candidatos do "centro" o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (MDB), o senador Alvaro Dias (Pode-PR), a ex-senadora Marina Silva (Rede) e o empresário Flávio Rocha (PRB). No ato, contudo, não havia representante desses partidos.

A maioria dos 19 deputados presentes era do PSDB, com um parlamentar do PSD, três do PPS - incluindo seu presidente, Roberto Freire (SP), que já declarou apoio a Alckmin - e um do MDB, o deputado Jarbas Vasconcellos (PE). O MDB governista, ligado ao presidente Michel Temer, passou longe do lançamento.

Três deputados do DEM chegaram a participar da elaboração do documento, mas decidiram não aparecer no ato ontem e dizem que não assinaram o texto, apesar de aparecerem como signatários. "Participamos da ideia, mas não poderíamos fazer nada que gerasse atrito com o partido, que tem pré-candidato próprio", disse José Carlos Aleluia (BA).

O grupo lançará um site para que o manifesto receba adesões da sociedade e os pré-candidatos à Presidência serão procurados. Alguns, como Dias e Maia, já rejeitaram compor com o PSDB.

Alckmin perde a paciência e pergunta se tucanos querem outro candidato

Em jantar com líderes, presidenciável foi cobrado por falta de coordenação da pré-campanha

Igor Gielow | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Pressionado a deslanchar sua pré-campanha ao Planalto,Geraldo Alckmin perdeu a proverbial paciência beneditina.

Cobrado por lideranças do PSDB sobre falta de coordenação nessa etapa da corrida, o ex-governador paulista jogou um guardanapo sobre a mesa e perguntou aos presentes se eles preferiam ter outro candidato —e, nesse caso, disse para que eles o escolhessem.

A cena ocorreu, conforme a Folha apurou, durante jantar em um hotel do bairro paulistano dos Jardins, na noite de segunda (4). Estavam presentes diversos expoentes do tucanato, como os ex-governadores Marconi Perillo (GO) e Beto Richa (PR), os líderes de bancada Paulo Bauer (Senado) e Nilson Leitão (Câmara), o ex-ministro Bruno Araújo (PE), o ex-senador José Aníbal (SP) e o coordenador de campanha Samuel Moreira.

No cardápio, menos a conhecida inanição das intenções de voto do tucano (que patina pouco abaixo dos 10% nas pesquisas) e mais o diagnóstico consensual no partido de que a pré-campanha está com problemas organizacionais.

Alguns dos presentes relataram situações estaduais sem encaminhamento e o que consideram um problema crônico de comunicação. Foi a famosa "lavagem de roupa suja", mas segundo a reportagem apurou, com o comedimento típico das reuniões com Alckmin e com tom propositivo por parte dos presentes.

Alguns dos presentes relataram situações estaduais sem encaminhamento e o que consideram um problema crônico de comunicação. Lideranças tucanas de fora de São Paulo vêm se queixando, há meses, da falta de interlocução com Alckmin —que designou nomes com pouca densidade nacional para representá-lo, o trio Sílvio Torres, Luiz Felipe D´Ávila e o próprio Moreira.

O ex-governador ouviu até explodir, dando um susto nos comensais. Elevou a voz, fez o discurso em que sugeriu que escolhessem outro nome para a vaga de presidenciável e na sequência os admoestou. Disse que todos sabiam exatamente qual o trabalho que deveriam fazer e que não lhe caberia indicar nomes para todas as tarefas.

Alckmin reclama de aliados do PSDB

O pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, tem acusado aliados do partido de fazer corpo mole. Para o tucano, eles estariam mais preocupados com suas campanhas nos estados. Estagnado nas pesquisas e irritado com as críticas, Alckmin chegou a dizer, em jantar com tucanos, que, se quisessem, poderiam retirar a sua candidatura.

Alckmin acusa aliados de corpo mole na campanha

Irritado, ex-governador chegou a sugerir a líderes que o substituam

Silvia Amorim, Cristiane Jungblut e Maria Lima | O Globo

-SÃO PAULO E BRASÍLIA- O pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, manifestou de forma dura o descontentamento com o corpo mole dentro do partido, especialmente em São Paulo, estado que governou por sete anos. E admitiu que sua campanha apresenta desempenho negativo até o momento. Em um jantar com lideranças tucanas na capital paulista, anteontem, o tucano chegou a sugerir, em tom de desabafo, que a legenda poderia substituí-lo, caso não estivesse satisfeita. O resultado foi imediato. Ontem mesmo, a bancada do PSDB da Câmara fez uma verdadeira fila para gravar mensagens de vídeo, de 20 a 30 segundos de duração, em apoio ao colega.

A reunião em São Paulo havia sido marcada pelo presidenciável para discutir questões de organização para as eleições estaduais e nacional. Mas acabou servindo para uma ampla avaliação da campanha. E para uma discussão sobre mudanças de rumo e cobranças pela definição de um coordenador político de peso. Bastante nervoso e mostrando cansaço, Alckmin, segundo os presentes, “explodiu”.

— Eu estou fazendo tudo que posso, estou andando, viajando sem parar, resolvendo problema de Minas Gerais, Maranhão. O que vocês querem que eu faça mais? O PSDB me escolheu como candidato, preciso de ajuda nos estados — desabafou Alckmin.

Um dos presentes avalia que Alckmin está nervoso por causa de delações que podem impactar sua campanha, e pela divulgação de pesquisas em que aparece atrás de Marina Silva e Ciro Gomes.

— Nós falamos que é preciso ele ter um coordenador político para tomar conta das articulações. Ele não pode fazer tudo sozinho. O pessoal vê a estrutura de campanha do (João) Doria em São Paulo azeitada, muito bem estruturada, com uma equipe de comunicação que funciona, e olha para a campanha nacional e não vê nada disso, cobra — disse um dos presentes.

Alckmin diz que Bolsonaro não vai para o segundo turno das eleições

Ex-governador de São Paulo afirmou que pleito está muito indefinido e que a corrida eleitoral só deve começar, de fato, após a largada campanha

Marcelo Osakabe, O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - Apesar de estar na liderança de todas as pesquisas de intenção de voto nos cenários em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não está presente, o deputado Jair Bolsonaro (PSL) não deve chegar ao segundo turno, afirmou nesta terça-feira, 5, o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB).

"Acho que ele (Bolsonaro) não chega no segundo turno. Vocês (jornalistas) se impressionam com pesquisa antes da hora", afirmou o pré-candidato tucano, que participou de um encontro da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústria de Base (Abdib).

Sem entrar em detalhes sobre as razões pelas quais descarta o deputado fluminense na segunda etapa de votação, Alckmin repetiu o mantra de que a eleição só começa depois de definidos os candidatos.

"Depois de acabar a Copa do Mundo e depois de umas duas semanas de (campanha na) televisão e rádio, aí você esta mais perto e a população está interessada. Aí é que começa a corrida eleitoral", resumiu. A menos de duas semanas da Copa, Alckmin continua estagnado nas pesquisas de intenção de voto, o que causa apreensão em seus aliados.

Elogios a Marina Silva
Geraldo Alckmin também teceu elogios à sua adversária nas eleições deste ano, a ex-senadora Marina Silva (Rede), dizendo que ela é uma "pessoa de convicções, mas sem radicalismos". "Tenho grande respeito pela Marina desde a época de ministra. Pessoa idealista, correta, tem espírito público", disse.

Questionado sobre a possibilidade de uma eventual união com Marina Silva, em chapa única, Alckmin manteve o seu estilo comedido. "Não posso cometer uma indelicadeza dessa com alguém que é candidata. Mas independentemente de disputar ou não, é uma pessoa por quem tenho até apreço pessoal. Gosto do estilo da Marina", declarou.

Segundo o ex-governador, a última vez em que os dois estiveram juntos foi durante o Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, no início de abril. Questionado sobre se acredita que a ex-senadora tem se mostrado mais disposta ao diálogo que nas eleições anteriores, Alckmin disse achar que sim.

Sobre a possibilidade de união de centro, Alckmin disse ser importante evitar uma fragmentação do centro político. "Não vai ter convergência de todos, mas se tiver um mínimo de convergência é bom para todos".

Alckmin acena e Marina nega articulação para aliança

Por Fernando Taquari e Daniela Chiaretti | Valor Econômico

SÃO PAULO - De olho em uma eventual aliança na eleição presidencial, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) fez ontem uma série de elogios à ex-senadora Marina Silva e sugeriu que uma aproximação com a pré-candidata do Rede Sustentabilidade seria bem-vinda. O tucano, porém, procurou ser cauteloso ao tratar da possibilidade de um acordo com a ex-senadora, cuja a premissa seria ter ele na cabeça de chapa.

"Não posso cometer uma indelicadeza dessas com um pré-candidato que está trabalhando [para se viabilizar]. Independentemente de disputar ou não, Marina é uma pessoa pela qual tenho até apreço pessoal. Eu gosto do estilo da Marina", disse Alckmin após encontro, na capital paulista, com empresários da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB).

As declarações do tucano foram dadas no mesmo dia em que foi lançado, em Brasília, um manifesto suprapartidário pela união das candidaturas presidenciais de centro. Há especulações de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos signatários da iniciativa, estaria propondo, em conversas de bastidores, uma aproximação entre Alckmin e Marina.

Aliados do ex-governador avaliam que a aliança com a ex-senadora seria positiva. No entanto, não acreditam nesta hipótese. Argumentam que nenhum dos dois pré-candidatos ao Palácio do Planalto estão dispostos a abrir mão da cabeça de chapa.

Em meio aos rumores, o presidenciável do PSDB fez questão de ressaltar as qualidades da ex-senadora ao classificá-la como "idealista, correta e com espírito público". Alckmin disse, inclusive, que Marina amadureceu e parece mais disposta ao diálogo. "É uma pessoa lúcida, amadurecida. Tem convicções, mas não radicalismos", frisou.

Pode? 'Usei boné e camiseta com seu nome', afirma Bretas ao lembrar que já militou por Lula

Juiz da Lava-Jato disse ter ido a um comício do então candidato petista nas eleições de 1989

Jeferson Ribeiro / Juliana Castro | O Globo

RIO — Ao final do depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que durou cerca de 1h, o juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal, disse que já foi a comício do petista no Rio, vestindo boné e camiseta do então candidato à Presidência, em 1989. O magistrado afirmou ainda reconhecer a relevância política de Lula.

— Muito obrigado pela sua postura no depoimento. É relevante sua história para todos nós, para mim inclusive que quando tinha 17, 18 anos, fui num comício na Avenida Presidente Vargas, com um milhão de pessoas, e o país vivia outro momento — disse arrancando risos do ex-presidente dos presentes na audiência.

E completou:

— Eu estava usando um boné e uma camiseta com seu nome — contou o juiz, admitindo ter sido fã do ex-presidente, que agora cumpre pena por corrupção, em Curitiba.

Lula entrou no clima da brincadeira ao final do depoimento e disse que ia chamar Bretas para um futuro comício.

— Quando eu fizer um comício agora, eu vou lhe chamar para participar — disse o ex-presidente também fazendo a plateia rir.

Lula foi ouvido como testemunha de defesa do ex-governador Sérgio Cabral no processo da Operação Unfair Play. O emedebista é acusado pelo Ministério Público de participar de um esquema de compra de votos para fazer do Rio de Janeiro a sede da Olimpíada em 2016. A mesma ação penal levou à prisão o então presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Carlos Arthur Nuzman.

O petista foi ouvido por videoconferência, porque está preso desde abril, na Policia Federal, em Curitiba, após ser condenado a 12 anos e um mês por corrupção. Cabral foi autorizado a deixar o complexo penitenciário de Bangu para acompanhar o depoimento.

*Almir Pazzianotto Pinto: Greve ou motim?

- O Estado de S.Paulo

O fato de deter um monopólio não dá à Petrobrás o direito de ignorar os consumidores

O movimento desencadeado por caminhoneiros, sacrificando a vida de milhões de pessoas, causando prejuízos irrecuperáveis e expondo a fragilidade do governo, deve ser objeto de análise, conquanto difícil de ser feita agora por nos acharmos sob o impacto dos acontecimentos.

Exercício do direito de greve, assegurado pelo artigo 9.º da Constituição, não houve. Avaliações superficiais tentaram nos convencer de que motoristas autônomos de caminhões e carretas teriam entrado em greve para reivindicar da Petrobrás a redução do preço do óleo diesel. Não foi o que aconteceu. A paralisação caracterizou-se pela voluntariedade, ignorou as organizações sindicais e logo se espalhou em razão da postura autoritária da empresa, que errou ao subestimar a força dos adversários.

A mobilização explodiu de baixo para cima, impulsionada por repetidos aumentos do preço do óleo diesel. O governo federal, aturdido e incapaz, revelou-se desinformado. Afinal, era impossível não imaginar, diante da agressiva política da empresa, insuportável para transportadores autônomos, que, dia mais, dia menos, a revolta explodiria como panela de pressão sem válvula de segurança.

Distribuição de combustíveis é atividade essencial (Lei n.º 7.783/1990). Não pode ser interrompida (Constituição, artigo 9.º). Greve ocorre, segundo a definição legal, quando há cessação coletiva, total ou parcial, dos serviços prestados ao empregador. Antes de deflagrá-la o sindicato deve ouvir os trabalhadores em assembleia geral e definir as reivindicações. Houvesse greve, competia ao Ministério Público do Trabalho ajuizar dissídio coletivo com o objetivo de encerrar o movimento (Constituição, artigo 114, § 3.º). Se não o fez, é por não haver relação de emprego entre caminhoneiros autônomos e Petrobrás. Como não houve greve, não poderia haver locaute, prática que ocorre quando o empregador cessa as atividades para frustrar negociação com os empregados.

No caso dos petroleiros, cujos sindicatos falaram em paralisar refinarias, o Tribunal Superior do Trabalho fez o que dele se esperava: por decisão liminar da ministra Maria de Assis Calsing, considerou que havia perigo iminente de greve política e fixou multa diária no valor de R$ 2 milhões em caso de desobediência. Os sindicalistas recuaram e o trabalho não foi interrompido.

Elio Gaspari: A Petrobras corre real perigo

- O Globo

Desde a crise dos caminhoneiros, nada aconteceu de bom com a Petrobras e ela tomou o caminho da empulhação

A Petrobras arruinou-se no mandarinato petista por diversos motivos. Deles, o mais pueril foi a retórica da arrogância. Infelizmente, dela e do governo têm partido declarações destinadas a iludir a boa-fé do público fingindo desconhecer a barafunda criada pela política de preços dos combustíveis. Podiam ficar só nisso.

A retórica da arrogância foi exercitada à exaustão pelos petrocomissários. Basta que se recapitule um caso. Em 2012, um funcionário da companhia holandesa SBM denunciou suas maracutaias internacionais. Elas foram confirmadas por uma investigação interna que resultou numa indenização milionária ao governo holandês. Sabia-se, pela denúncia, que a SBM teria distribuído pelo menos US$ 139 milhões a intermediários e hierarcas da estatal brasileira para azeitar contratos de aluguel de plataformas.

Dois anos depois, uma equipe da Petrobras foi à Holanda verificar o caso e anunciou-se que nada acontecera de anormal. Engano, pois a SBM começaria a negociar um acordo de leniência com a Controladoria-Geral da União. Até hoje ele não foi concluído.

Entre 2012 e 2015 foram para a cadeia os ex-diretores Pedro Barusco e Renato Duque, ambos mimados pela SBM. O representante da empresa no Brasil, Julio Faerman, passou a colaborar com a Justiça e repatriou US$ 54 milhões.

Varrida pela Lava-Jato, a doutora Dilma colocou na Petrobras Aldemir Bendine, que estava no Banco do Brasil. Ele levou consigo para uma diretoria Ivan Monteiro. Num dos lances grotescos do período, Bendine chegou a anunciar que a Petrobras “talvez” voltasse a contratar serviços e equipamentos da SBM, “uma importante fornecedora". Como, não explicou.

A retórica da arrogância era um pastel de vento. Não havia como esconder a roubalheira denunciada em 2012 e, em 2015, não era possível contratar a SBM para coisa alguma.

Monica de Bolle: Reservas, para que te quero

- O Estado de S.Paulo

Pelo menos US$ 140 bi das reservas externas excedem ao recomendado pelo FMI. Qual o melhor uso para elas?

Experiência recente revelou para mim o quão complicado está tecer análises ou aventar ideias que fujam dos dogmas de diferentes grupos. Começo esse artigo, portanto, com uma ressalva e um alerta. A ressalva é que se trata de uma reflexão sobre as nossas reservas internacionais, hoje em cerca de US$ 380 bilhões. O alerta é para que, sabendo que alguns haverão de distorcer ou desqualificar o que tenho a dizer sobre o assunto, haja cuidado para diferenciar discordâncias saudáveis de ataques pessoais. Triste ter de começar um artigo assim, mas, adiante.

Há vários debates econômicos que jamais desaparecem. Dentre essas discussões está o nível adequado das reservas internacionais. Nos anos 90, quando das crises em série nos países emergentes, concluiu-se que o mais prudente era estocar o máximo de reservas possível para fazer frente às turbulências. Durante os anos 2000, tal estratégia foi possibilitada pelo bom momento da economia internacional, a alta dos preços das commodities, as reformas que muitos países emergentes haviam feito. Havia comprovação empírica de sobra para justificar colchões de reservas como medida precautória: as reservas eram um seguro contra crises financeiras. Contudo, sempre houve custo associado ao colchão: as reservas, como são mantidas em ativos líquidos e de baixo rendimento justamente para que possam ser usadas em caso de necessidade, não podiam ser aplicadas em investimentos de risco mais elevado e retorno maior.

A existência de um benefício – o seguro – e de um custo, isto é, a oportunidade perdida ao não se poder investir em ativos mais rentáveis, levou a intenso debate sobre o nível “ótimo” das reservas, aquele que maximizaria o benefício, ou minimizaria o custo. Na ocasião, o FMI produziu diversas análises que buscavam estabelecer o nível ótimo das reservas internacionais de cada país. Ao final, concluiu-se que o ótimo não existia, dada a complexidade de se mapear cenários. Mais produtivo seria calcular o nível adequado das reservas diante das necessidades de dólares e de outros ativos externos de cada país.

Vinicius Torres Freire: Medo e desejo de ser Venezuela

'Venezuela' como metáfora é sintoma da degradação do embate político e ideológico

A Venezuela entrou de vez no vocabulário do conflito social e político brasileiro.

Ainda é mais frequente que se recorra ao nome do desgraçado país vizinho como apenas outro insulto do glossário do ódio: "fascista", "bandeira vermelha", "petralha", "chavista" etc. Nas duas últimas semanas, pelo menos, a menção a "Venezuela" ganhou novos sentidos, sintoma da nossa degradação.

Durante o caminhonaço, empresários e executivos mencionavam o "risco", o "medo" ou o "surto" de "venezuelização do Brasil". Pibopesquisa Ibope encomendada pelo governo mostrou que 59% dos brasileiros acreditavam que era possível "acontecer no Brasil o que aconteceu na Venezuela" caso persistisse o paradão caminhoneiro.

O resultado da pesquisa parece apenas uma comparação óbvia e trivial, restrita à hipótese de que a interrupção do transporte causaria escassez crítica de bens, a imagem mais midiática do colapso liderado por Nicolás Maduro. Ainda assim, é uma imagem que vai pela cabeça dos brasileiros, que poderiam por um motivo ou outro negar a semelhança entre os países.

"Risco de venezuelização" era também um ataque a políticas ditas de esquerda, mais restrito aos embates de facções mais militantes e ideológicas da opinião pública. Mais recente é seu uso como metáfora em conflitos mais cotidianos.

"A Venezuela começou assim", disse nesta terça-feira (5) Leonardo Gadotti, presidente da Plural, associação de distribuidores de combustíveis. Criticava o tabelamento do diesel, um dos termos da rendição incondicional de Michel Temer ao caminhonaço.

A crítica de Gadotti é apenas um conflito derivado da aceitação das exigências do paradão caminhoneiro, que emergem mesmo dentro da coalizão que apoiou, sem mais, o caminhonaço.

Associações de produtores de soja, que deram corda à paralisação, agora criticam o tabelamento do preço do frete. Governadores estão fulos com a perda de receita de impostos. Persiste a fúria extensa contra a Petrobras que "lucra para servir ao mercado".

Cristiano Romero: Lições não aprendidas do outono de 2013

- Valor Econômico

País parece não estar preparado para ter economia de mercado

Não há sociedade de consumo de massa mais parecida com a americana do que a brasileira. A exemplo dos americanos, os brasileiros poupam muito pouco e, quando a conjuntura permite, consomem além do necessário. Nos tempos de bonança, endividam-se sem prudência alguma para consumir já, agora, sem nenhuma preocupação com o futuro que legarão a seus descendentes.

A semelhança que faz do Brasil uma espécie de Estados Unidos com 50 anos de atraso - o avanço tecnológico lá está aumentando de forma muito rápida a distância entre as duas economias em termos de desenvolvimento - decorre do fato de americanos e brasileiros não possuírem traços culturais ou religiosos que amaldiçoem o consumo. Uma diferença é que, aqui, o lucro é visto como sinônimo de ganância, enquanto, no país mais rico do mundo, trata-se de uma virtude. De toda forma, abençoados pela natureza, EUA e Brasil são os países da abundância, logo, do gasto excessivo, do consumo inconsequente e insustentável, do desperdício - tudo isso está mudando, mas as características típicas da exuberância de ambos seguem hegemônicas.

No último boom econômico (2004-2010), milhões de brasileiros tiraram proveito do aumento da renda e da taxa de câmbio valorizada para passar férias nos EUA. A maioria voltava intrigada com alguns fatos: os preços de produtos de qualidade bem superior aos encontrados aqui são bem menores lá; a variedade de marcas oferecidas no mercado americano é infinitamente superior; serviços como hotel, em geral, são melhores e mais baratos; a infraestrutura de estradas, trens, metrôs e aeroportos, por onde trafegam os turistas, é incomparavelmente mais ampla, funcional e arrojada.

É natural que, depois de conhecerem Miami, Nova York, Chicago, San Francisco ou Los Angeles, brasileiros se perguntem por que as coisas deram certo lá e aqui, não; por que o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA é mais de dez vezes o do Brasil; por que nascem no ambiente universitário americano as principais inovações tecnológicas; por que os gringos conseguiram ficar tão ricos e nós continuamos sendo "o país do futuro" que nunca chega - a profecia de Stefan Zweig tem mais de 80 anos -, uma vez que os dois países são tão parecidos - em território, riquezas naturais, sistema político (presidencialismo), regime econômico, sociedade de consumo de massa, valores culturais etc.

O PCC ameaça a democracia: Editorial | O Estado de S. Paulo

O poderio bélico e econômico e a periculosidade do Primeiro Comando da Capital (PCC), quadrilha formada há 25 anos no Centro de Reabilitação Penitenciária de Taubaté, no Vale do Paraíba, já eram tristemente conhecidos. Entretanto, o assassinato de Rogério Jeremias de Simone, o “Gegê do Mangue”, um dos líderes do bando, desencadeou uma investigação que revelou detalhes do funcionamento da facção criminosa capazes de estarrecer até os que se debruçam sobre ela por dever de ofício.

Os documentos apreendidos pela polícia revelam a estrutura operacional montada pelo PCC para extrapolar os limites de São Paulo, ampliar sua presença em outros Estados e operar no tráfico internacional de drogas. A facção criminosa já está presente na Colômbia, no Paraguai, no Peru, na Bolívia e na Guiana. Apenas no Brasil, cerca de 30 mil criminosos fazem parte da folha de pagamento da facção.

Uma série de ataques coordenados a ônibus e agentes de segurança pública de Minas Gerais e do Rio Grande do Norte mostra a força dessa política expansionista do PCC. Áudios obtidos pela Polícia Militar (PM) de Minas Gerais indicam a responsabilidade da facção nos ataques. Entre domingo e segunda-feira, 24 ônibus foram incendiados em 17 cidades mineiras. Em Natal, um ônibus foi queimado e um PM foi assassinado. “Parece-nos que houve, em parte, a orquestração de facção criminosa, mas não podemos determinar isso. A investigação é que vai ditar se esses áudios correspondem aos ataques que foram efetivados”, informou o major Flávio Santiago, porta-voz da PM mineira.

De acordo com a apuração feita pelo Estado, os ataques teriam sido represálias ao que o PCC chama de “opressão” supostamente praticada em presídios de MG e do RN. É sabido, no entanto, que o emprego da violência em ações espetaculares é uma tática do PCC para marcar “território”.

A obsessão dos políticos por subsídios: Editorial | O Globo

A proximidade das eleições estimula Planalto e Congresso a buscarem fórmulas que transfiram para o contribuinte aumentos de custo em combustíveis

A discussão no governo sobre a definição de uma política de preços para a Petrobras que atenue a ligação direta entre a bomba dos postos com o preço internacional do petróleo e o câmbio interno reúne vários ingredientes que atraem os políticos. É assim mesmo, pois eles têm mandato para tratar de temas de interesses da sociedade. Este é um deles.

O risco é que, por se tratar de um assunto que afeta de maneira instantânea o bolso das pessoas, há uma tendência de certos políticos de serem supostamente magnânimos com a população, transferindo custos da nova fórmula de ajuste dos combustíveis para o conjunto dos contribuintes, na forma de subsídios pagos pelo Tesouro.

Quase sempre estas operações são dissimuladas e mesmo os alegadamente beneficiários ajudam a pagar a conta final. Acontecerá com os caminhoneiros no congelamento do diesel por 60 dias. Pagarão mesmo sem saber.

A proximidade das eleições excita ainda mais o espírito de benemerência dos políticos populistas, estejam eles no Planalto, no Congresso, onde for. Um caminho para o exercício da demagogia pode ser o tal “colchão” que seria criado para absorver parte ou o todo do impacto direto nas bombas da elevação do custo do petróleo.

Lições orçamentárias: Editorial | Folha de S. Paulo

Custos de concessões dão mostra da necessidade de adaptação a um cenário de escassez

Por vezes parecem demasiado abstratas as noções de que o dinheiro do governo é de todos e, sobretudo, de que é finito. Já no Brasil de hoje, tais fatos estão visíveis a olho nu.

Por aqui, estreitou-se dramaticamente a margem do poder público para a ampliação de sua dívida —o expediente de que os Estados nacionais se valem para acomodar mais despesas em seus Orçamentos, tornando menos perceptíveis os conflitos por recursos escassos.

Na atual situação do país, cada compromisso adicional assumido em favor de um determinado setor da sociedade implica perdas claras e imediatas para outros.

Nesse sentido, foi quase pedagógico o recente episódio da paralisaçãodos caminhoneiros e das concessões feitas pelo governo Michel Temer (MDB) à categoria.

A um custo total estimado em R$ 13,5 bilhões neste ano, tomaram-se decisões para baratear o óleo diesel: eliminar a cobrança da Cide, um tributo regulador, e baixar as alíquotas de PIS e Cofins sobre o produto, cujo preço também será diretamente subsidiado com verbas do Tesouro Nacional.

Greve dos caminhoneiros impacta balança comercial: Editorial | Valor Econômico

O comércio exterior foi uma das várias atividades econômicas indiscutivelmente prejudicadas pela greve dos caminhoneiros em maio. A média diária das exportações entre os dias 21 e 31 caiu 36% em comparação com a das três primeiras semanas do mês, de US$ 1,063 bilhão para US$ 679 milhões. As importações também diminuíram, embora menos, 26%, de uma média diária de US$ 702 milhões nas três primeiras semanas do mês para US$ 516 milhões nas duas de paralisação.

No mês fechado, as exportações somaram US$ 19,2 bilhões, 10,7% a menos do que no mês anterior, e com aumento de apenas 1,9% em relação a maio de 2017. A queda das exportações teria sido maior não fosse a existência de soja, carnes e algumas mercadorias básicas estocadas nos portos quando a greve começou. Além disso, outros produtos importantes da pauta brasileira, como minérios, chegam aos portos principalmente por ferrovias. De toda forma, todos perderam. Mais dependentes das rodovias, os produtos manufaturados foram os mais afetados, com redução de 46% nas exportações durante a paralisação na comparação com o período anterior. Houve queda de 30% nos embarques de calçados, de 23% das autopeças e de 17% de automóveis. Já as exportações de semimanufaturados caíram 37%; e a de produtos básicos, 31%.

As importações totalizaram US$ 13,3 bilhões, com queda de 8,6% em relação a abril e salto de 14,5% na comparação anual. Houve queda de 16,1% nas compras de bens de capital; de 9,1% de produtos intermediários; de 21,7% de bens de consumo duráveis; e de 1,5% de combustíveis e lubrificantes. Apenas as importações de bens de consumo não-duráveis aumentaram no mês, 5,7%. Em relação a maio de 2017, cresceram 14,5%.

No balanço final, o superávit comercial de maio ficou em US$ 5,981 bilhões, cerca de 20% abaixo da expectativa média do mercado. No ano, o superávit comercial soma US$ 26,155 bilhões. O governo ainda espera que a balança feche o ano com saldo acima de US$ 50 bilhões. No mercado financeiro, as previsões são mais elevadas. Pesquisa Focus realizada pelo BC mostrou que a previsão das instituições financeiras e consultorias para o saldo comercial do ano ficou praticamente inalterada, em US$ 57 bilhões.

Greve expôs fragilidades, diz Arida

Por Sergio Tauhata | Valor Econômico

SÃO PAULO - - A greve dos caminhoneiros expôs fragilidades e problemas estruturais do país, avaliou Persio Arida, coordenador do programa econômico do pré-candidato à Presidência Geraldo Alckmin (PSDB) e um dos idealizadores do Plano Real. O economista, que participou de evento na Casa do Saber, em São Paulo, explicou que o país vive hoje "um momento de desalento e de descrença nas instituições, [no qual as pessoas pensam] nossos partidos não nos representam, o Congresso não nos representa e o Judiciário não funciona".

Segundo Arida, existe uma frustração com a retomada da atividade. "O cenário de recuperação econômica, que se achava vigorosa, cada dia que passa perde ímpeto e agora todas as previsões estão abaixo de 2% ao ano."

Para o coordenador de campanha de Alckmin, "bastou uma pequena virada de vento no exterior, com a subida dos preços do petróleo, para mostrar nossa fragilidade". O economista listou uma série de exemplos de como o mau planejamento ficou explícito no episódio: uso excessivo de rodovias em lugar de ferrovias, distorções causadas pelo sistema tributário, fábricas em Manaus que têm incetivo tributário, mas a mercadoria vai a Porto Alegre.

Conforme Arida, os governos petistas, com políticas intervencionistas, criaram "uma sobra de caminhões, agravada pelo subsídio do BNDES para produzir caminhões".

O economista apontou ainda a falta de competição no sistema de refino de óleo no Brasil. "A Petrobras que é monopolista na prática simplesmente repassa o preço, tem de ter um sistema mínimo de competição e só aí apareceram vários defeitos de infraestrutura", afirmou.

O economista do PSDB também criticou a estratégia de preços implementada pela Petrobras. "A regra diária de reajuste de preços de combustíveis foi uma regra mal pensada." Segundo Arida, se houvesse uma previsibilidade, pelo menos, semanal já ajudaria o setor de transporte a se planejar.

Arida também não poupou a reação do governo Michel Temer à crise do transporte. "O governo deixou que a greve bloqueasse as estradas, o Brasil se tornou complacente, bloqueia-se o direito de ir e vir e fica por isso mesmo", disse.

De acordo com o economista, "a decisão de subsidiar o preço do diesel é espantosa, porque então não subsidiar o preço do GLP, que subiu igual e muito mais gente depende dele?" Arida acrescentou ainda que "não bastasse essa confusão o governo tabelou o preço do frete e agora quer impor na marra que a queda do preço anunciada".

Elba Ramalho - Ai que saudade d'ocê

João Cabral de Melo Neto: O Cão sem plumas

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Opinião do dia: Manifesto: Por um polo democrático e reformista

"O Brasil vivenciou recentemente uma das maiores crises de sua história com múltiplas faces que interagem e se retroalimentam. Instabilidade política aguda, recessão econômica profunda, estrangulamento fiscal, corrupção endêmica e institucionalizada, radicalização em um ambiente social marcado pela desesperança, a intolerância e o sectarismo, conflitos e desarmonia entre os poderes republicanos. Faltam pouco mais de quatro meses para as eleições presidenciais. É uma oportunidade rara e única de recolocar o país nos trilhos, desenhando uma trajetória de retomada dos valores fundamentais da ética, do trabalho, da seriedade, do espírito público e dos compromissos com a liberdade, a justiça social e o desenvolvimento sustentável.

A eleição de 2018 se apresenta talvez como a mais complexa e indecifrável de todo o período da redemocratização. Existem ameaças e oportunidades, interrogações e expectativas, perplexidades e exigências da realidade povoando o ambiente pré-eleitoral.

Tudo que o Brasil não precisa, para a construção de seu futuro, é de mais intolerância, radicalismo e instabilidade. Para nos libertarmos dos fantasmas do passado, superarmos definitivamente a presente crise e descortinarmos novos horizontes é central a construção de um novo ambiente político que privilegie o diálogo, a serenidade, a experiência, a competência, o respeito à diversidade e o compromisso com o país.

É neste sentido que as lideranças políticas que assinam este manifesto conclamam todas as forças democráticas e reformistas a se unirem em torno de um projeto nacional, que a um só tempo, dê conta de inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento social e econômico, a partir dos avanços já alcançados nos últimos anos, e afaste um horizonte nebuloso de confrontação entre populismos radicais, autoritários e anacrônicos.

Esta iniciativa, e isso é vital para seu sucesso, deve agregar, de forma plural, liberais, democratas, socialdemocratas, democratas cristãos, socialistas democráticos, numa discussão franca e aberta, sobre os nossos atuais dilemas e os caminhos para a construção do futuro desejado para o Brasil.
Este projeto nacional, visando à construção da necessária e urgente unidade política nas eleições, não deve ser obra de uma dúzia de líderes políticos e intelectuais. Para pavimentar o caminho da unidade terá obrigatoriamente de ser obra coletiva, envolvendo partidos políticos, lideranças da sociedade civil e todos aqueles que pensam o Brasil fora do paradigma autoritário, populista, atrasado e bolivariano.

Os que assinam esse manifesto lançam, como contribuição inicial ao debate e ao esforço coletivo que poderá ser desencadeado, pontos essenciais que podem gerar consensos progressivos em torno da agenda nacional e dos avanços necessários, a partir de uma perspectiva democrática e reformista."

Murillo de Aragão*: Um novo ciclo da política

- O Estado de S. Paulo

Caminhamos para uma República submetida ao poder burocrático dos atores do Judiciário

Independentemente de quem venha a ganhar as eleições presidenciais deste ano, algumas questões já estão postas. A primeira é que o próximo governo manterá o presidencialismo de coalizão.

Afinal, sem uma grande coalizão o presidente da República não conseguirá governar, já que o polo central da política se deslocou do Planalto para o gabinete do presidente da Câmara dos Deputados. Portanto, sem uma identificação política entre governo e presidência da Câmara a administração funcionará aos soluços e dependente de medidas provisórias que poderão ser rejeitadas in limine.

Outra questão posta e assegurada é que a Operação Lava Jato e seus sucedâneos continuarão a produzir efeitos e a emparedar o mundo político. Em consequência, a imprensa - que nunca nutriu simpatia pelo establishment político - continuará sua faina diária de desinstitucionalizar o universo político. Independentemente do tamanho e da gravidade da culpa de seus atores.

A terceira questão posta é que o mundo político, entre cético e acovardado, assiste à sua destruição institucional sem esboçar reação. Aceita a perda de terreno para o Judiciário, não se rebela contra o seu ativismo de forma consequente e não constrói uma narrativa minimamente coerente.

Políticos caminham em meio aos destroços como se as bombas atiradas pelo Ministério Público e pela Justiça não os atingissem. Engana-se o mundo político, pois vivemos tempos em que praticamente tudo na política foi criminalizado e a presunção da inocência deu lugar à certeza antecipada de culpa.

Bruno Boghossian: Incerteza eleitoral amplia tentação contra planos de economistas

- Folha de S. Paulo

Ressaca da paralisação pode provocar refluxo de medidas econômicas mais duras

A ressaca da paralisação dos caminhoneiros sugere que a eleição poderá ser resolvida em estradas cada vez mais distantes das plataformas elaboradas pelos economistas. O brasileiro quer subsídios para combustíveis, mas não quer pagar impostos que cobrirão essa conta. Pede um Estado eficiente, mas a maioria rejeita privatizações.

A aparente incoerência do eleitorado e a incerteza da disputa ampliam as tentações pelo caminho. À medida que a campanha avança, o receituário dos especialistas corre risco de valer menos do que os apelos que rendem voto fácil.

Boa parte dos presidenciáveis escalou conselheiros dispostos a empunhar a bandeira do ajuste das contas públicas —com corte de despesas, aumento de impostos ou venda de patrimônio. É difícil saber se os candidatos terão coragem de defender essa agenda até o fim.

Jair Bolsonaro (PSL) colocou algumas travas nas propostas mais impopulares de seu economista, o ultraliberal Paulo Guedes. O ex-capitão defende uma reforma da Previdência mais suave do que os planos de seu assessor e diz que a Petrobras só pode ser privatizada se o governo mantiver ações com poder especial.

Joel Pinheiro da Fonseca: O Brasil precisa da Copa

- Folha de S. Paulo

Trocamos a bola pela política, e isso não é nada bom

Segundo o Datafolha divulgou em maio, o número de pessoas que diz não ter interesse por futebol subiu de 31% para 41% de 2010 para cá.

A camisa verde-amarela virou uniforme de manifestante, não de torcedor. Trocamos a bola pela política, e isso não é nada bom.

O futebol é um fator de união nacional. Ao torcer, o sujeito se une a pessoas de cor, classe social e posições políticas diversas da sua.

Interage fora de seus círculos mais óbvios, aumentando sua empatia com quem é e pensa diferente.

A identidade do time fala mais alto que outras diferenças e serve, por isso, para superá-las. Na torcida pela seleção, o país inteiro se une em torno de um grande objetivo conjunto.

A ciência respalda essa percepção. Um estudo do National Bureau of Economic Research feito com seleções da África (Building Nations Through Shared Experiences: Evidence From African Football) conclui que vencer a Copa da África ou se qualificar para a Copa do Mundo aumenta o senso de identidade nacional dos habitantes do país e a confiança entre membros de diferentes etnias.

Toda união coletiva pressupõe um inimigo. É impossível que haja apenas uma torcida; sem uma torcida rival, ela perde a razão de ser.

Gaudêncio Torquato*: Mocinho agora é bandido

- O Estado de S. Paulo

Vamos diretamente ao ponto: Pedro Parente foi derrubado. Não saiu por vontade própria. Fez uma densa carta de demissão ao cargo, mas naquela escrita lê-se um desabafo do tamanho do mapa do Brasil. Foi vencido pela visão populista daqueles que acham que o preço dos combustíveis não pode e não deve ter como espelho aumento ou diminuição do barril de petróleo no mercado internacional. Essa foi a visão que balizou a era Dilma, com sua decisão de represar artificialmente preços e, desse modo, deixar nossa maior empresa no buraco.

Nos tempos de dona Rousseff, que se arvorava como exímia conhecedora de questões de petróleo e energia, o país vivia a artificial situação de alto consumo e certo conforto, graças à mistificação adotada para esconder a péssima planilha de contas. Como lembra o bom economista Adriano Pires, ele mesmo profundo conhecedor do mercado de petróleo, países onde os preços dos combustíveis seguem regras do mercado “são democracias consolidadas, e a sociedade tem um alto nível de bem-estar, como a Noruega e os Estados Unidos”. Outros que se ancoram no populismo para definir preços dos combustíveis são pouco democráticos e não atendem à população em suas necessidades básicas, como segurança pública, saúde e educação.

Assistimos, nos últimos dias, a um espetáculo canhestro. Atores com o intuito de chamar a atenção passaram a expressar um discurso populista, onde o apoio aos caminhoneiros era seguido de apelos por intervenção militar. Oportunistas e interesseiros de toda a espécie – inclusive empresários malandros – quiseram tirar proveito do movimento paredista. O candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro, posando de herói, foi o alvo maior das Hosanas por encarnar a força militar, a ordem, a segurança nesse ciclo de tensões e perturbações. Felizmente, a cúpula militar reagiu negativamente ao apelo doidivanas de aventureiros.

Raymundo Costa: Faltou um Pedro Parente para gerir a crise

- Valor Econômico

Risco é o Congresso congelar preços

Rescaldo da paralisação dos caminhoneiros: se o assunto fosse conduzido com mais profissionalismo, não teria acabado na confusão que foi a greve e nem Pedro Parente teria saído da presidência da Petrobras. Faltou comando e vontade política para acelerar uma saída para a crise que tornou a população refém, por mais de uma semana, dos caminhoneiros e seus patrões.

Uma grande trapalhada. Uma das poucas pessoas a se salvar na confusão que o presidente Michel Temer e seus ministros mais próximos armaram foi um novato no governo, o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia. Deve-se a ele o fato de o governo Temer, contrariando tudo o que escreveu e disse desde o impeachment, não repetir os piores momentos do governo de Dilma Rousseff.

O ministro da Fazenda cresceu na crise, porque foi claro e direto em suas posições. Em nenhum momento concordou em dar aval que comprometesse ainda mais a questão fiscal - se tivesse que haver subsídio teria que cortar no Orçamento. A Petrobras também considerou correta a maneira como tratou a empresa. Resta esperar a reação da base aliada do presidente, que teme chegar à eleição às voltas com explicações sobre o preço dos combustíveis.

Em nenhum momento Guardia foi o ministro que tentou impor soluções a qualquer custo. Sempre declarava que o melhor era a solução que preservasse os princípios mais importantes da política econômica.

A fórmula encontrada para segurar o preço do diesel na bomba existia antes mesmo do bloqueio total das rodovias. A Petrobras, ao contrário do que foi dito de início, já havia concluído pela inviabilidade dos reajustes diários. Era preciso sentar e negociar. Dez pra cá, cinco pra lá. Mas sobretudo estabelecer também uma política para os preços do gás de cozinha e da gasolina. Como se diz na estatal, ninguém é bobo de achar que o problema acabou com o acordo do diesel.

Eliane Cantanhêde: O eleitor militar

- O Estado de S.Paulo

Assim como a maioria dos eleitores, militares também estão cheios de dúvidas

De supetão, o general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, pergunta:

– Você é a favor da intervenção militar?

A resposta é óbvia e rápida:

– Eu? Sou absolutamente contra!

E ele, com um sorriso:

– Você é? Pois eu sou mais ainda!

É assim que as Forças Armadas se esforçam para afastar mais esse fantasma, nesses tempos já tão conturbados e assombrados, e tentam focar em questões mais imediatas e objetivas: fazer as contas dos seus gastos durante as missões extras durante a greve dos caminhoneiros, cumprir bem o mandado de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) no Rio e se informar sobre candidatos e propostas para outubro.

Alvaro Dias, por exemplo, já debateu com oficiais em Santa Maria (RS) e a intenção é convidar todos os presidenciáveis bem colocados nas pesquisas para apresentar seus programas, suas ideias e suas intenções a oficiais da Força. Sem preconceito.

O Exército já ouviu ou está pronto a ouvir Ciro, Marina, Alckmin, Meirelles, Rabello de Castro, Bolsonaro... E o candidato do PT? A resposta dos oficiais é rápida e dada com naturalidade: assim que ficar definido o nome do PT, também será convidado.

As Forças Armadas, aliás, não tiveram dificuldade com os governos civis, muito menos com Lula, que nomeou Nelson Jobim para a Defesa, patrocinou a “Estratégia Nacional de Defesa” e bancou os maiores programas de reaparelhamento em décadas, como os submarinos da Marinha e os jatos da FAB anunciados já com Dilma Rousseff.

A boa relação continuou com Dilma. Quando ela queria reclamar de alguém ou de um programa, apontava o dedo para generais, brigadeiros e almirantes e tascava: “Vocês deveriam fazer como os militares! Aprendam com eles!”.

Merval Pereira: Freud explica

- O Globo

A revelação pela repórter da GloboNews Andréia Sadi de que a Polícia Federal encontrou na casa de Carlos Alberto Costa, sócio do coronel Lima, documentos que indicam uma relação direta entre o amigo de Temer e empresas que estão sendo investigas na Operação Skala como a Rodrimar e grupo Libra, trazem de volta uma intrigante questão, evidenciada durante vários momentos da Operação Lava-Jato: por que tantos envolvidos em falcatruas mantém guardados documentos e celulares com informações que poderiam ser destruídas para não incriminá-los?

Um dos caixotes com documentos comprometedores foi descoberto no quarto do bebê, o que demonstra claramente a intenção de escondê-los. É verdade que picotadoras de papel têm funcionado bastante desde 2014. Houve muita destruição de documentos em papel e eletrônicos durante a investigação. O depoimento de Ricardo Pessoa, da UTC, confirma esse, digamos assim, hábito entre os executivos envolvidos na Lava-Jato.

É difícil manter controle de tudo, e às vezes as pessoas são incautas. Outras guardam as provas para negociar uma delação premiada mais tarde, ou para chantagear seus cúmplices, ou para se vingar. O próprio ex-presidente Lula foi vítima dessa síndrome, pois deixou em sua casa um documento rasurado com referências ao tríplex do Guarujá.

O fato é que os achados incriminadores foram uma constante. No caso de Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empreiteira que leva seu nome, os celulares foram fontes inesgotáveis de informações mais de um ano depois de as primeiras prisões de executivos serem feitas. O diretor do setor de operações estruturadas da Odebrecht, Hilberto Silva, depôs reclamando de Marcelo, que sempre orientava os executivos a não registrar nada no celular, mas foi incauto com o próprio.

Marcelo Odebrecht se vangloriava de que ninguém entraria na sua casa. Mandava que executivos que estivessem sob a mira de investigações fossem se hospedar em sua casa, como se fosse uma fortaleza inexpugnável.

O sentimento de impunidade certamente é uma explicação razoável para a reiteração de crimes, mas é sintomático que presos no mensalão tenham reincidido no crime. A psicopatia pode ser outra explicação. Estudo realizado pela Universidade Bond, na Austrália, conduzido pelo psicólogo forense Nathan Brooks, revelou que um em cada cinco CEOs ou diretores executivos apresenta características clínicas de psicopatia.

Outro estudo, liderado pelo psicólogo Paul Babiak, de Nova York, mostra que até 4% dos líderes de negócios nos Estados Unidos poderiam ser considerados psicopatas. A explicação para esse fenômeno seria o cenário competitivo do mundo empresarial — executivos que colocam a ambição acima de tudo e não têm escrúpulos de manipular as pessoas para sua vantagem. Esse seria um perfil vencedor no mundo corporativo.

Ricardo Noblat: Concurso para fiscal de Temer

- Blog do Noblat

Você topa ajudar o governo?

O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o general da reserva Sérgio Etchegoyen, disse que o governo federal utilizará todo o seu poder de polícia para garantir que o óleo diesel tenha desconto de R$ 0,46 nos postos de gasolina, mas, porém, contudo…

São quase 39 mil postos de gasolina no país. Desta vez não há como apelar para o Exército que tem mais o que fazer, e que já faz coisas para as quais não foi criado. Quanto às polícias, estão sobrecarregadas em um dos países campeões de mortes violentas.

Então… Embora Etchegoyen não tenha dito isso, o governo alimenta a esperança de que os brasileiros colaborem espontaneamente com ele fiscalizando os postos e denunciando os que desrespeitarem o desconto prometido aos caminhoneiros.

Seria a reedição dos “fiscais de Sarney”. Em 1986, o presidente José Sarney congelou preços e salários para tentar conter a inflação. A medida foi tão aplaudida que milhares de brasileiros viraram os fiscais do presidente, com autoridade até para prender.

FAP Entrevista – Marcus Pestana defende união frente à fragmentação das forças democráticas

- Assessoria FAP/Germano Martiniano

Em um ano em que milhões de brasileiros irão eleger um novo presidente da República, a esperança de propostas políticas progressistas e que girem em torno de um ambiente reformista e democrático ainda está assentada no centro democrático, que no atual momento se encontra bastante fragmentado.

De Marina Silva (Rede Sustentabilidade) ao governador Geraldo Alckmin (PSDB), nenhum candidato conseguiu emplacar candidaturas fortes. Por quê? E quais propostas devem estruturar e unir o centro democrático para fazer frente ao radicalismo que tem imperado em nossa política? São essas respostas que o manifesto por um polo democrático e reformista” busca dar à população brasileira.

Sob a iniciativa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do senador Cristovam Buarque (PPS-DF), do ministro Aloysio Nunes Ferreira e do deputado federal Marcus Pestana (PSDB-MG), o documento será lançado nesta terça-feira (05), em Brasília, às 16h, no Café do Salão Verde da Câmara dos Deputados.

A série FAP Entrevista desta semana é com o deputado federal Marcus Pestana (PSDB-MG), um dos autores do manifesto e ex-presidente do PSDB de Minas Gerais. Na conversa, o tucano lembra como surgiu a ideia de se criar o manifesto. “A iniciativa surgiu de uma conversa minha com o senador Cristovam Buarque”, conta.

“Decidimos nos movimentar frente à fragmentação das forças democráticas”, disse o parlamentar, citando uma frase do senador do PPS do Distrito Federal para sintetizar a situação. “Precisamos encontrar um caminho entre o desastre a catástrofe, por isso tivemos essa ideia que contou com o apoio entusiasta de FHC, Aloysio Nunes e mais trinta signatários”, disse.

Formado em economia, Marcus Pestana iniciou sua vida política como vereador de Juiz de Fora (MG) em 1983. Em 2006, foi eleito deputado estadual, porém se afastou do cargo em 2007, quando se tornou secretário de Estado da Saúde de Minas Gerais. Em 2010, foi eleito deputado federal e reeleito em 2014. Nesta função votou a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e também da reforma Trabalhista. Em 2013 foi avaliado pela revista Veja como o segundo melhor deputado federal do País naquele ano.

A entrevista com o tucano integra uma série que a FAP está publicando com intelectuais e personalidades políticas de todo o Brasil, com o objetivo de ampliar o debate em torno do principal tema deste ano, as eleições de outubro.

Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista com o parlamentar tucano.

Centro e esquerda atuam por candidaturas únicas

Partidos apostam em redução do número de pré-candidatos à Presidência; Manuela fala em união das siglas esquerdistas, enquanto centro articula ‘polo democrático’

Pedro Venceslau e Ricardo Galhardo | O Estado de S.Paulo

A um mês e meio do início das convenções partidárias que vão definir os candidatos ao Palácio do Planalto, o cenário eleitoral começa a indicar uma depuração dos 17 nomes que se apresentaram até agora como pré-candidatos. Na avaliação de especialistas e líderes políticos, as articulações que vão levar a um “filtro” das pré-candidaturas serão intensificadas até agosto.

O temor de uma eleição polarizada entre um nome da esquerda e o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) motivou um grupo de parlamentares e líderes de vários partidos a lançar nesta terça-feira, 5, na Câmara o “Manifesto do polo democrático”, movimento que vai tentar unificar o “centro” em torno de uma candidatura.

Na esquerda, a deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB) admitiu ontem abrir mão de sua pré-candidatura à Presidência. Pela primeira vez um dos presidenciáveis deste campo político fez uma declaração explícita a favor de uma união dos partidos já no primeiro turno da eleição presidencial.

“Nós já fizemos o gesto. Se eu não for candidata, os outros três se entendem para nós estarmos unidos? A unidade da esquerda representa isto: nós estaremos todos unidos em uma única candidatura? Os outros três têm essa disposição? Eu não sou óbice”, disse a deputada gaúcha ao Estadão/Broadcast.

O objetivo, segundo fontes do PCdoB, é “chamar o PT à razão” de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Operação Lava Jato, terá a candidatura barrada pela Lei Ficha Limpa e dificilmente deixará a prisão até a eleição. Lula foi sentenciado em segunda instância a 12 anos e 1 mês por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Na análise do cientista político Marco Antonio Teixeira, professor do departamento de gestão pública da FGV-SP, a tendência é de que as pré-candidaturas de centro-esquerda e esquerda se afunilem mais rapidamente na comparação com o campo do centro. “É possível que PDT, PSB e PCdoB se acertem antes do primeiro turno e fortaleçam a campanha de Ciro Gomes”, afirmou.

Reservadamente, deputados e líderes partidários dizem que depois da Copa do Mundo o debate deve avançar para a escolhas de nomes que devem compor a chapa nos dois campos. Os partidos que indicarem os candidatos a presidente e a vice terão que sacrificar projetos estaduais em nome da unidade. “O processo vai se afunilar. Haverá uma diminuição no número de candidatos”, disse o presidente do PPS, Roberto Freire.

Critério. O autointitulado “polo democrático” é formado por parlamentares do PSDB, DEM, PPS, PSD, PTB e PV e intelectuais. Um dos critérios para a união em torno de um candidato único é a avaliação das pesquisas de intenção de voto. A sigla tucana, porém, não aceita que este seja o único.

“Esse não é um movimento de avaliação de pesquisas, de ver quem está melhor. Se fosse nortear por pesquisa, não precisava de carta. É uma mobilização que tem como pano de fundo a ideia de alertar o risco que corre o País de ter um rumo de radicalismo muito à esquerda ou muito à direita”, disse o deputado Silvio Torres (SP), secretário-geral do PSDB.

Entre os signatários do manifesto que será lançado hoje está o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Políticos lançam manifesto por união do 'centro'

Por Marcelo Ribeiro e Carla Araújo | Valor Econômico

BRASÍLIA - Um manifesto suprapartidário será lançado hoje com o objetivo de defender a formação de um bloco único das legendas ditas de centro, já no primeiro turno da disputa eleitoral. Até agora, são cerca de 30 signatários, entre intelectuais e parlamentares ligados a vários partidos, como PSDB, MDB, DEM, PPS, PTB, PSD e PV. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) foram alguns dos que assinaram o texto.

Batizado "Por um polo democrático e reformista", o documento avalia que a eleição de 2018 é "uma oportunidade rara e única" de recolocar o país nos trilhos e "se apresenta talvez como a mais complexa e indecifrável de todo o período da redemocratização".

"Existem ameaças e oportunidades, interrogações e expectativas, perplexidades e exigências da realidade povoando o ambiente pré-eleitoral. Tudo que o Brasil não precisa, para a construção de seu futuro, é de mais intolerância, radicalismo e instabilidade. Para nos libertarmos dos fantasmas do passado, superarmos definitivamente a presente crise e descortinarmos novos horizontes é central a construção de um novo ambiente político que privilegie o diálogo", propõe o manifesto.

Dois dos principais signatários, Cristovam e deputado Marcus Pestana (PSDB-MG) negam que o manifesto seja para favorecer o pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, que, entre os postulantes do centro, é o que aparece em melhor posição nas pesquisas mais recentes. "Não é uma articulação pró-Alckmin. É um chamado pela unidade do centro político para evitar que a dispersão nos tire do segundo turno e para impedir o duelo do apocalipse, entre a catástrofe e o desastre", disse Pestana. "Se fosse um movimento parcial, pediríamos que os outros pré-candidatos do centro deixassem a disputa. A unidade deve ser em torno de quem estiver alinhado com os pontos do manifesto e despontar nas pesquisas", completou Cristovam.

Alckmin foca em SP para impulsionar intenções de votos

Por Raphael Di Cunto | Valor Econômico

BRASÍLIA - Pressionado pelo desempenho fraco nas pesquisas em seu próprio território, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) finalmente decidiu dar atenção especial ao Estado, afirmam seus principais aliados, e encomendou um plano estratégico para tentar crescer no Estado e com isso impulsionar suas projeções de votos nacionalmente.

A estratégia é tornar mais conhecida sua candidatura e rivalizar com outro presidenciável, o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ), o mostrando como alguém intolerante e de posições contraditórias na economia e muitas vezes próximas as do PT. Embora não vá deixar de viajar pelo resto do país para se tornar mais conhecido, a decisão de intensificar as ações em São Paulo decorre da avaliação de que é lá o maior potencial de crescimento na pré-campanha.

Alckmin tem repetido que só haverá mudanças expressivas nas pesquisas quando a campanha começar de fato, em agosto. Até lá, a população não prestará atenção o suficiente para alterações relevantes no quadro - que, aposta o tucano, repetirá a velha polarização PT x PSDB das últimas seis eleições, segundo relatou a deputados do partido esta semana.

A falta de apoio até em São Paulo, contudo, é um problema que o tucano avisou a aliados que precisa ser superado ainda na pré-campanha. Figurar atrás de Bolsonaro no Estado que ele governou por quatro mandatos é uma fragilidade que dificulta a formação de uma aliança mais ampla, que garanta o maior tempo de propaganda eleitoral na TV durante a campanha.

Competência como problema: Editorial | O Estado de S. Paulo

O Brasil, ao que parece, não está pronto para uma gestão profissional e apolítica de suas empresas estatais. Sempre que uma estatal ou banco público começa a ter critérios racionais de administração, tornando-se infenso aos usos e costumes clientelistas e patrimonialistas, os grupos de pressão - sejam políticos, sejam sindicais - tratam logo de sabotar esses esforços. Donde se pode concluir que estatais, geralmente em nome de um obscuro "interesse nacional", jamais serão gerenciadas para manter seu equilíbrio financeiro e ter recursos para investir, pois só existem - é o que parece - para satisfazer objetivos estranhos ao seu negócio.

O recente caso da Petrobrás é apenas um exemplo. Como se sabe, a estatal chegou à beira da ruína depois de anos servindo aos projetos megalomaníacos dos governos de Lula da Silva e de Dilma Rousseff. Felizmente, o impeachment de Dilma interrompeu esse processo, pois o sucessor da petista, o presidente Michel Temer, tratou rapidamente de entregar a administração da empresa a Pedro Parente, um executivo com indiscutível capacidade administrativa. Nenhuma das qualidades de Parente, contudo, teria sido suficiente para salvar a Petrobrás se o presidente Temer não tivesse atendido às principais exigências do executivo para aceitar o cargo, isto é, total autonomia para definir os rumos da Petrobrás e garantia de que não haveria interferência política na sua gestão.

Mais competição no mercado de combustíveis: Editorial | O Globo

Além de ser necessária absoluta transparência na formação dos preços, no próprio setor é preciso que haja efetiva competição, para que ele reduza seus custos

A saída de Pedro Parente da Petrobras, em que esteve à frente de mudanças que levaram a estatal para a racionalidade, como uma política de preços reais dos combustíveis, derrubou o valor de mercado da empresa em vários bilhões. Com títulos em bolsa dentro e fora do país, muito natural que a Petrobras sofresse uma fuga de investidores, em função do longo passado de intervenções de cunho populista na empresa, feitas pelo seu maior acionista, a União.

Ações desvalorizadas são um alarme que chama a atenção dos administradores da companhia para as dificuldades que terão quando precisarem capitalizar a empresa no mercado e mesmo na obtenção de crédito no sistema bancário. O risco financeiro da Petrobras voltou a crescer.

Mas depende do governo reverter ou não a má impressão que ficou do entendimento a que chegou com os caminhoneiros, fazendo concessões cujo resultado é sobrecarregar o contribuinte, por praticar congelamento e controle de preço, instrumentos que já se deveria saber que não funcionam.

E ainda foi além, ao intervir no mercado de fretes, com a criação de valores mínimos a serem recebidos pelo transportador, vítima de uma política desregrada de incentivo à compra de caminhões, entre 2009 e 2015, com Lula e Dilma. Caso clássico de aumento de oferta (de transporte de carga) que superou a procura e fez com que o preço (o frete) caísse. Há incontáveis exemplos de como este tipo de tabelamento também não funciona.

Causa própria: Editorial | Folha de S. Paulo

Uso do Sistema S para promover Skaf mostra riscos criados por falta de renovação de entidades

Sustentadas por contribuições compulsórias das empresas, as entidades do chamado Sistema S arrecadaram R$ 17 bilhões no ano passado. A maior parte do dinheiro foi aplicada em escolas, centros culturais e outros empreendimentos. Uma fatia não desprezível dos recursos serviu apenas para promover o emedebista Paulo Skaf.

Presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) desde 2004, ele dirige as seções estaduais do Sesi (Serviço Social da Indústria) e do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) sem nenhuma inibição.

Às vésperas das eleições de 2014, quando Skaf foi candidato ao governo do estado, elas investiram R$ 22 milhões para produzir e veicular anúncios em que o empresário exaltava as suas realizações à frente das duas entidades.

As inserções permitiram que ele alcançasse exposição maior do que a de celebridades e apresentadores de televisão na época, numa fase da campanha eleitoral em que os candidatos estavam impedidos pela legislação de fazer propaganda.

Destino da política de preços da Petrobras é incerto: Editorial | Valor Econômico

O pedido de demissão de Pedro Parente da direção da Petrobras deixou um ponto de interrogação sobre o destino da política de preços da estatal. O fantasma do passado recente, do controle político de preços durante o governo de Dilma Rousseff, voltou a assombrar o presente, e há quem tema o retorno de uma estratégia danosa. O vislumbre dessa ameaça teria levado Parente a deixar o cargo. Desgastado politicamente com a paralisação dos caminhoneiros, Parente, ao ver a volta da gambiarra dos subsídios e movimentos à luz do dia dentro do governo para modificar a estratégia de preços da empresa, teria resolvido que era melhor ir embora.

Estatal, a Petrobras depende dos interesses de seu acionista majoritário, sejam eles virtuosos ou daninhos. Pedro Parente ascendeu ao comando da empresa para eliminar os resquícios de influência político-partidária que a colocaram no centro do maior escândalo de corrupção da história republicana, e pôr os negócios em ordem. Isso significava recuperar a rentabilidade da empresa, equacionar uma dívida gigantesca, revalorizar a estatal para os acionistas, redimensionar seu tamanho vendendo ativos, e maximizar suas receitas. A Petrobras foi profissionalizada sob sua gestão, sob a promessa de que a política de preços adotada sob sua direção não mudaria aos sabores das conveniências do Planalto.

O curto circuito da greve dos caminhoneiros pôs em xeque a autonomia da Petrobras em ditar seus preços, embalados pelo repasse imediato das variações das cotações do petróleo no mercado externo e da taxa de câmbio. A escalada dos preços tornou-se o alvo primeiro da revolta, que foi, no entanto, gerada por acúmulo de adversidades: ampliação excessiva, com subsídios, da frota de caminhões no governo Dilma, uma aguda recessão que fez desaparecer a demanda e a exasperantemente lenta recuperação que não a fez reagir.

Asa Branca - Auditório Ibirapuera

Carlos Drummond de Andrade: Brinde no banquete das musas

Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida

Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.

Poesia sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.

Poesia, sobre o telúrio,
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva...
Poesia, morte secreta.