quinta-feira, 27 de junho de 2024

Maria Cristina Fernandes - O discurso que torna Lula sócio da inflação

Valor Econômico

Se a descriminalização da maconha reacende a polarização, o discurso de Lula sobre a economia coloca em risco até a estreita vantagem sobre o bolsonarismo

Com a descriminalização do porte de maconha, o Supremo Tribunal Federal tomou uma decisão destinada a impedir a superlotação dos presídios com jovens negros de periferia. O caráter civilizatório da medida não impede a constatação de que o STF acendeu o fósforo no paiol da polarização.

Ainda que o faça por desconhecimento, a maioria da população é contrária. Campanhas de esclarecimento podem minorar esta percepção, mas há um risco de que a medida caia no colo do governo e dos seus candidatos às eleições municipais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parecia estar pisando nesse terreno movediço quando respondeu, ao UOL, que o Supremo fazia uma intervenção indevida em tema do Congresso.

César Felício - Fala tem consequências na economia, na política e nas relações externas

Valor Econômico

Fala sobre desvinculação de benefícios fecha uma porta em relação ao ajuste fiscal

Da longa entrevista desta quarta-feira do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao menos quatro afirmações irão provocar consequências nos campos econômico, político e diplomático. Talvez a mais importante, porque impacta diretamente as expectativas do mercado financeiro, seja a afirmação taxativa do presidente de que não proporá a desvinculação do pagamento de benefícios previdenciários ao salário mínimo. "O mínimo é o mínimo para sobreviver", garantiu.

Uma porta foi fechada, portanto, em relação ao ajuste fiscal. Como o presidente também garantiu que não se deve também gastar mais do que se arrecada, o corolário óbvio é que o governo federal continuará buscando formas de arrecadar mais. E redobrará apostas no Estado indutor da economia. "Se o PIB não crescer, você não tem o que distribuir", disse.

Anne Krueger - Pelo fim do flagelo protecionista

Valor Econômico

Se o sistema comercial internacional continuar em seu rumo atual, o mundo ficará mais pobre, mais dividido e muito mais vulnerável a ameaças existenciais iminentes

A Organização Mundial do Comércio (OMC) é uma das maiores histórias de sucesso da era pós-Segunda Guerra Mundial. Ao criar regras baseadas em princípios, como a não discriminação entre parceiros comerciais e o tratamento equitativo para bens nacionais e internacionais, a OMC permitiu o florescimento do comércio exterior, com enormes benefícios para o crescimento econômico geral e a redução da pobreza. Nesse sentido, a OMC é como o oxigênio: essencial, mas muitas vezes dado como certo.

Antes de 1800, o comércio internacional representava uma parcela muito pequena da atividade econômica mundial, tanto porque os custos de transporte e comunicação eram altos quanto porque a maioria dos países adotava políticas mercantilistas. Ao longo do século XIX, porém, esses custos foram caindo e as barreiras comerciais sendo reduzidas - primeiro no Reino Unido, e depois em toda a Europa - e teve início uma era de crescimento econômico extraordinário nas economias avançadas de hoje.

Cora Rónai - A dialética do caos

O Globo

Soprar as chamas de uma situação já tensa com uma ameaça de guerra civil, como Macron está fazendo, realmente não é coisa de adulto responsável

É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que fica impossível prestar atenção a tudo. A França, por exemplo. A jogada de Macron, que até pareceu ousada num primeiro momento, agora parece inconsequência pura e simples. Adultos responsáveis não fazem apostas loucas quando estão no governo porque, ora, são adultos responsáveis, e vida de adulto responsável é mais Angela Merkel do que James Dean, mais trilha do que escalada, mais quarteto de cordas do que rock’n’roll.

Os eleitores do país votaram em massa na extrema direita para o Parlamento Europeu. O que faz um adulto responsável? Qualquer coisa, menos dissolver a Assembleia, convocar novas eleições e pagar para ver: “É direita mesmo que vocês querem?”

Marina Gonçalves - Fracasso de golpe de Estado revela força política de Arce na Bolívia

O Globo

Presidente disputa protagonismo interno com o ex-aliado, Evo Morales, e agora seu maior rival dentro do Movimento ao Socialismo (MAS)

A demissão do comandante do Exército boliviano, Juan José Zúñiga, após uma série de ameaças contra o ex-presidente Evo Morales, foi o estopim para uma tentativa fracassada de golpe de Estado, que durou poucas horas e terminou com o militar preso. Mas acabou revelando a força política do presidente Luis Arce — ex-aliado de Morales e agora seu maior rival dentro do Movimento ao Socialismo (MAS).

Na segunda-feira, Zúñiga fez ataques contundentes contra Morales durante uma entrevista na TV, quando disse que o líder do MAS “não poderia mais ser presidente deste país” — Evo já anunciou que será candidato ao pleito do ano que vem; Arce, por sua vez, vem mostrando a intenção de tentar a reeleição.

Poesia | Falhei em tudo, de Fernando Pessoa

 

Música | Tendência - Luciana Mello (Sambabook Jorge Aragão)

 

quarta-feira, 26 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Eleição na França traz tensão ao projeto europeu

O Globo

Eventual vitória da extrema direita lançaria país em período de instabilidade sem precedentes

Quando os franceses forem às urnas no domingo eleger os ocupantes das 577 cadeiras da Assembleia Nacional, estará em jogo mais que o legado das reformas do presidente Emmanuel Macron. Um Parlamento dominado pelo ultradireitista Reunião Nacional (RN), seguido pela Nova Frente Popular (NFP), coalizão liderada pela extrema esquerda, lançaria o país num período de instabilidade sem precedente, prejudicial ao projeto europeu. O mandato de Macron, líder mais vocal da União Europeia (UE), acaba em 2027, mas, a depender do resultado, problemas domésticos o enfraquecerão no bloco.

Se confirmados, os ganhos eleitorais dos extremistas de direita (e de esquerda) aumentarão a erosão dos partidos no centro do espectro político. É verdade que a coalizão liderada pelo centrista Olaf Scholz segue governando a Alemanha, e o Partido Trabalhista, depois de uma guinada ao centro, é favorito nas próximas eleições no Reino Unido. Mas essas conquistas em nada diminuem a insatisfação dos europeus. Entre as décadas de 1960 e 1980, a fatia de votos dos partidos social-democratas se manteve em 34% do total. De lá para cá, houve uma queda de pelo menos 10 pontos percentuais. Na França, os socialistas, representantes da tendência moderada, são coadjuvantes dos extremistas na coalizão de esquerda.

Bernardo Mello Franco - Assange livre

O Globo

Casa Branca não explica por que libertou ativista agora, após 12 anos de confinamento e prisão

As Ilhas Marianas do Norte foram descobertas em 1521 por um navegador português a serviço do rei da Espanha. Tempos depois, seriam vendidas à Alemanha, tomadas à força pelo Japão e finalmente ocupadas pelos Estados Unidos.

Nesta quarta (noite de terça no Brasil), o pequeno arquipélago do Pacífico foi palco de uma notícia global. O australiano Julian Assange reconquistou a liberdade, depois de 12 anos de prisão e confinamento no Reino Unido.

Elio Gaspari - A jogatina ganhou mais uma

O Globo

Por 14 votos contra 12, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o Projeto de Lei que autoriza o funcionamento de cassinos, jogo do bicho, bingos e outras modalidades de jogos de azar no Brasil. Como o projeto já passou pela Câmara, falta só o voto do plenário dos senadores para que ele vá à sanção de Lula, restabelecendo a legalidade da jogatina no país.

O projeto não foi apreciado pela Comissão de Segurança Pública. Isso acontece enquanto abundam as notícias da expansão do crime organizado em Pindorama. Facções criminosas infiltraram-se nas redes de transportes de diversas cidades, controlam negócios que vão do tráfico de drogas a postos de gasolina.

Há dias os repórteres Bernardo Mello e Rafael Soares mostraram que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho disputam o domínio do mercado de apostas legais no Rio, no Ceará e em Rondônia. Em abril, a Polícia Federal prendeu operadores dessa conexão, e eram um sobrinho e uma cunhada do notório Marcola, um dos chefes do PCC. Aquilo que se presume ser um mercado de apostas legalizado tornou-se um biombo para alimentação de organizações criminosas metidas com o tráfico de drogas e de armas. Segundo a Polícia Federal, apenas numa rede de 20 investigados foram movimentados R$ 301 milhões.

Luiz Carlos Azedo - STF descriminaliza maconha, e Pacheco reage

Correio Braziliense

O julgamento tirou um gênio da garrafa no Congresso, porque a tendência da Câmara é aprovar a emenda à Constituição que endurece e engessa a política de drogas

Antes mesmo de acabar o julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que descriminalizou o porte de maconha para o próprio consumo, por 8 a 3, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), concedeu entrevista coletiva na qual discordou da decisão e afirmou que houve invasão da competência do Congresso. Sua manifestação corrobora a intenção de setores conservadores do Congresso, sobretudo os evangélicos e a chamada bancada da bala, de proibir não só o tráfico como criminalizar o consumo da droga.

Pacheco argumenta que há um critério técnico para dizer se uma substância deve ser considerada um entorpecente ilícito ou não. “Há uma lógica jurídica e racional que, na minha opinião, não pode ser tomada por uma decisão judicial, invadindo a competência técnica, que é da Anvisa, e a competência legislativa, que é do Congresso Nacional”, disse, logo após o ministro Dias Toffoli anunciar que havia se expressado mal ao votar, na quinta-feira passada, e que seu voto era pela “descriminalização da posse de maconha.”

Vera Magalhães - STF e Congresso no cara ou coroa

O Globo

A decisão do Supremo sobre maconha levará à reação da Câmara, que deve correr com a PEC da criminalização

O Supremo Tribunal Federal formou ontem maioria para descriminalizar o porte de maconha para consumo pessoal. A quantidade considerada para esse fim será definida na continuação do julgamento, hoje, bem como as divergências de interpretação quanto à constitucionalidade de um artigo da Lei das Drogas que surgiram nos votos dos ministros. A decisão do STF vai na contramão da Proposta de Emenda à Constituição em discussão na Câmara, depois de aprovada pelo Senado, por iniciativa do seu presidente, Rodrigo Pacheco.

Não demorou para que Pacheco reagisse à conclusão do julgamento do Supremo, dizendo que cabe ao Congresso deliberar sobre a questão. Mas a bola estava quicando desde 2015 — quando chegou ao STF a ação cujo julgamento está prestes a ser concluído, depois de sucessivos adiamentos — sem que o Parlamento tomasse a frente do debate.

Bruno Boghossian - Arbítrio burro e inconstitucional

Folha de S. Paulo

STF foi chamado para corrigir defeito do sistema de Justiça permitido por uma lei deficiente

Acabar com a prisão de usuários de drogas foi uma decisão do Congresso Nacional. Até 2006, quem tivesse entorpecentes para consumo pessoal podia ser condenado a detenção de seis meses a dois anos. Naquele ano, os parlamentares cumpriram seu dever constitucional e aprovaram uma lei que estabelecia medidas alternativas nesses casos.

Foi uma inovação feita pela metade. Sem estabelecer uma distinção objetiva, a lei foi um convite ao arbítrio. Na prática, policiais e juízes ganharam o poder de definir as condições em que alguém seria considerado usuário ou traficante. Não é preciso dizer que tipo de circunstância pesa mais, dependendo da pessoa que é flagrada com a droga.

Hélio Schwartsman - O dilema de Lula

Folha de S. Paulo

Bons números da economia não se traduziram em popularidade para Lula

É difícil afastar a sensação de que o governo Lula está meio perdido. O petista foi eleito para impedir a permanência de Bolsonaro no poder. Nisso, Lula, ou melhor, o Brasil triunfou.

O passo seguinte seria fazer um governo bom o bastante para assegurar a recondução do próprio Lula ou do petista ungido como seu sucessor. Sabendo que caminhava em terreno pantanoso —a vitória foi por um triz—, Lula negociou com o Congresso, ainda na transição, uma PEC que lhe rendeu R$ 145 bilhões extras para gastar no início da gestão. O cálculo era o de que a administração precisaria produzir resultados positivos já no primeiro ano, para não ter a legitimidade contestada.

Fernando Exman - Cenários para a articulação política e um ajuste fiscal

Valor Econômico

Mapeamento do sentimento do Congresso pode aferir que existem aliados interessados em promover um ajuste

Em uma de suas célebres frases, o ex-senador Antonio Carlos Magalhães dava a receita para um político se relacionar com jornalistas. “Há três tipos de repórteres: o que quer dinheiro, o que quer notícia e o que quer emprego. O correto é não dar dinheiro a quem quer notícia, notícia a quem quer emprego e emprego a quem quer dinheiro”, dizia o baiano do extinto PFL, morto em julho de 2007. Transpondo para a política, esse é o desafio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na articulação com o Congresso.

Existe uma fórmula para os articuladores de qualquer governo. É um tripé composto pela liberação de emendas parlamentares ao Orçamento, acesso a aliados às estruturas de poder e coparticipação na formulação de políticas públicas.

Lu Aiko Otta - Tripé macro sob pressão alimenta turbulências

Valor Econômico

Atual governo flerta com alternativas que, num passado recente, provocaram recessão

Colocar água na fervura foi a opção do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao comentar a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada ontem. O documento fala em “eventuais ajustes futuros” na taxa de juros, mas o ministro preferiu enfatizar a mensagem que os cortes na taxa Selic foram “interrompidos” para melhor avaliação dos cenários externo e interno.

Fez bem o ministro, ao empurrar o debate para o campo da normalidade institucional. As bases da política econômica brasileira estão hoje sob pressão, e isso tem sido ruim.

Gera nervosismo a incerteza quanto à manutenção do tripé que organizou a macroeconomia brasileira nos últimos 30 anos: geração de superávits primários para manter o endividamento sob controle, inflação domada pelo regime de metas e câmbio flutuante.

Vinicius Torres Freire - O dólar a R$ 5,45 e outros riscos

Folha de S. Paulo

Desvalorização do real já parece exagerada, mas agenda do semestre tem problemas

Quem quer que soubesse predizer o valor do dólar, amanhã ou daqui a cinco meses, não contaria para ninguém, claro. Ganharia dinheiro com isso.

Mas, como é fácil perceber, não se sabe fazer tal coisa. No que nos interessa, há motivos para mais incertezas, daqui até o final do ano, o que pode ser um fator de exageros extras nos preços da finança (juros, dólar).

Quem quer que se interesse pelo assunto, por preocupação com o país, com a economia, com sua empresa ou com seu dinheiro, tem consciência de que, no caminho adiante, há lombadas de tamanho desconhecido. Antes de pegar essa estrada, o dólar custa R$ 5,45.

Dieese: mais de 87% dos reajustes salariais negociados em maio ficaram acima da inflação

O Globo

No ano, 85,2% das negociações resultaram em resultaram em ganhos reais aos salários, contra 3,2% que se mantiveram abaixo do índice inflacionário

Mais de 87% dos reajustes salariais negociados em maio, até o dia 4 de junho (87,3%), ficaram acima do Índice de Preços ao Consumidor (INPC), informou nesta terça-feira o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Outros 10,4% registraram resultados iguais à inflação e apenas 2,3% ficaram abaixo do índice inflacionário.

O INPC, medido pelo IBGE e usado nas negociações salariais, ficou em 0,46% em maio.

Os resultados de maio, embora preliminares, apontam para a volta aos patamares registrados no primeiro trimestre de 2024, quando ao menos 85% dos reajustes alcançaram ganhos reais. A variação salarial real média foi de 1,86%, a maior desde julho de 2023.

Zeina Latif - Quando o patrimonialismo se disfarça de justiça social

O Globo

Se o Congresso ceder aos grupos que buscam a ampliação da lista das isenções, o tiro poderá sair pela culatra

O projeto de lei complementar para a regulamentação da Reforma Tributária está em discussão na Câmara. O objetivo é definir a lista de itens com isenção total ou parcial dos tributos (CBS e IBS), uma vez que a emenda constitucional promulgada apresenta apenas grupos gerais que poderão contar com esses benefícios.

Pela proposta, a alíquota zero é prevista para 15 produtos da cesta básica e outros tantos itens, por exemplo, na área de saúde e cuidados básicos, e transporte público coletivo, enquanto 13 categorias são contempladas com o desconto de 60% na alíquota padrão, incluindo, por exemplo, serviços de saúde e educação e atividades culturais diversas.

Fábio Alves - Como o BC prevê 2026?

O Estado de S. Paulo

O próximo Relatório Trimestral de Inflação será chave para entender os novos movimentos do Copom

Quando manteve os juros inalterados em 10,50% na última reunião, o Copom avisou que estava interrompendo – e não encerrando – o ciclo de afrouxamento monetário, o que deixou analistas em suspense sobre a possibilidade de a taxa Selic voltar a cair ainda neste ano ou, provavelmente, em algum momento de 2025. O Relatório Trimestral de Inflação (RTI), que será divulgado amanhã, dará pistas cruciais ao mercado sobre qual o próximo movimento do Copom, quando abandonar a pausa em curso na política monetária.

Nilson Teixeira - Novos avanços na comunicação do BC

Valor Econômico

O Banco Central (BC) melhorou muito sua comunicação nas duas gestões dos últimos oito anos. Apesar dos avanços, a comunicação pode ser aperfeiçoada ainda mais, com aprimoramento da relação com os demais entes públicos, maior transparência das mensagens da instituição, bem como com cuidados extras para conter a propagação de informações falsas ou viesadas. Avanços na comunicação sobre a gestão monetária incluem, por exemplo:

Maior detalhamento do comunicado do Copom: desde julho de 2016, o documento é detalhado --ao invés do formato anterior com uma ou duas frases obscuras. O comunicado contém previsões de inflação, fatores de risco em ambas as direções, votação de todos os membros e explicações sobre as decisões. Os ruídos gerados após o comunicado da reunião de maio de 2024, sem justificativas sobre a votação a favor do corte da taxa Selic de 50 pontos-base pelos quatro diretores indicados no atual governo e contra a decisão de redução de 25 pontos-base pelos cinco diretores escolhidos na gestão anterior, confirmam que é necessário maior aprofundamento sobre visões e votações divergentes. A postergação dessas explicações para a ata, publicada na terça seguinte à reunião, é equivocada. Informações mais precisas e tempestivas trazem benefícios óbvios, apesar dos custos da ocupação de uma maior parte do 2º dia de reunião com a discussão sobre o teor do comunicado.

Martin Wolf - A tolice dos plutocratas pró-Trump

Valor Econômico

Retorno de Trump é um risco que ninguém deveria querer correr

Muitos bilionários e empresários apoiam Donald Trump. Isso não é surpresa. Ele seria bom para os lucros, acreditam eles. Ele promete impostos mais baixos e menos regulamentação. Alguns, como Jamie Dimon, do JP Morgan, têm argumentado que algumas das políticas dele - os cortes nos impostos e o rigor contra a China e os aliados que querem se aproveitar dos Estados Unidos, por exemplo - não foram disparatadas. Além disso, em contraste com a maioria dos democratas, Trump e o Partido Republicano gostam das empresas e dos empresários. Por que eles não deveriam apoiá-lo em troca?

Isso não faz muito sentido, mesmo se analisado de forma bem rasteira. Quando no governo, os democratas têm sido frequentemente bons para os negócios. A crise financeira mundial de 2007-09 ocorreu sob um governo republicano. O mercado de ações tem decolado (e desabado) sob democratas e republicanos. O mesmo tem acontecido com a participação dos lucros no Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA. A confiança no governo desmoronou nos anos 1960 e, desde então, tem aumentado e diminuído sob ambos os partidos.

Erika Solomon - O homem que prepara o terreno para uma Alemanha extremista

The New York Times / O Estado de S. Paulo

Björn Höcke tem feito mais que levar a extrema direita para o mainstream; ele está fazendo o mainstream pender para a extrema direita

Em cima de um pequeno palco de um bar numa cidade de arquitetura enxaimel do leste alemão, o ideólogo de direita Björn Höcke contava para um grupo de seguidores, no ano passado, uma história sobre seu iminente julgamento. Ele tinha sido indiciado por dizer, “Tudo pela Alemanha” em um comício político — infringindo leis alemãs que proíbem a propagação de slogans nazistas.

Apesar da iminência daquele julgamento, ele olhou para os fãs e lhes abriu um sorriso maroto. “Tudo pela?”, perguntou ele.

“ALEMANHA!”, gritaram todos.

Depois de uma década colocando em teste os limites do discurso político na Alemanha, Höcke, um dos líderes do partido Alternativa para a Alemanha, ou AfD, não precisa mais passar dos limites sozinho. A multidão faz isso por ele.

Aquele momento amalgama o motivo pelo qual, segundo seus críticos, Höcke, além de representar um desafio para a ordem política, ameaça também a própria democracia alemã.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* e Alexandre Quintas Filgueiras Quintão** - PAC da Saúde: 181 mil agentes para atender os municípios

Sua tese de  doutorado, "Um Sertão Chamado Brasil', conquistou o maior prêmio  em Sociologia, no Instituto de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj), e sua publicação ganhou uma  2ª edição. Tem um currículo acadêmico e uma obra, como gestora,  de fazer inveja à qualquer intelectual e governante.  Foi diretora da Casa de  Oswaldo Cruz (1998-2005), unidade da Fiocruz, voltada para pesquisa e memória em ciências sociais, história e saúde. 

Esta é a nossa ministra da Saúde, Nísia Trindade, a quem está prometido R$30,9 bilhões, em 2024, para o chamado PAC da Saúde  - recurso sobre o qual tem sido  cogitado, entretanto,  cortes orçamentários significativos  -  para atender 3.500 unidades de saúde em todo território nacional. Contudo,  um dos programas considerados mais importantes do Ministério  é a colocação em campo, via SUS - Sistema Único de Saúde: Governos Federal, estaduais e e municipais -  de 181mil agentes populares de saúde para  atender diretamente a 87 por cento dos municípios brasileiros. 

Poesia | Quando encontrar alguém, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Paulinho da Viola e Brasil Jazz Sinfônica - Para um amor no Recife

 

terça-feira, 25 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Legalizar cassinos e jogos de azar é a melhor solução

O Globo

Não faltam exemplos no mundo para inspirar legisladores a mitigar os riscos associados à atividade

Desde 1946, quando cassinos e jogos de azar foram proibidos no Brasil, nada impediu que a jogatina se expandisse na clandestinidade — basta lembrar a popularidade do jogo do bicho. O Estado se tornou o único banqueiro autorizado com as loterias, mas o poder público deixou de exercer sua função de regulador. Com a internet, o brasileiro passou a apostar em sites no exterior, sem ter a quem reclamar caso enganado. Só com a recente regulamentação das apostas esportivas a situação começou a mudar. Um novo passo é o Projeto de Lei que legaliza cassinos, bingos e o jogo do bicho, aprovado na Câmara e na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

Passados 78 anos da proibição, está claro que a melhor alternativa é legalizar o jogo. É preciso, é verdade, tomar cuidados para mitigar riscos como lavagem de dinheiro ou dependência dos apostadores. Mas há formas de punir responsáveis por manipulações criminosas. E sobram exemplos no mundo para inspirar a regulação de cassinos e outras modalidades de apostas. “Os indicadores econômicos e sociais dos países melhoraram, não houve aumento da violência nem da evasão fiscal”, diz o senador Irajá (PSD-TO), relator do projeto na CCJ do Senado.

Merval Pereira - Sinais para o futuro

O Globo

Lula parece ter compreendido que precisa dos órfãos do PSDB, de centro-esquerda, para combater a direita

O presidente Lula — que passou os últimos anos tentando jogar o PSDB e o ex-presidente Fernando Henrique para a direita como parte de uma estratégia política que visava a isolar seu principal rival partidário — foi ontem visitá-lo em São Paulo, no mesmo roteiro que o levou a Noam Chomsky e ao escritor Raduan Nassar, dois próceres da esquerda. Pelo menos no momento em que se comemoram os 30 anos do Plano Real, que na origem o PT chamou de “estelionato eleitoral”, Lula parece ter compreendido que precisa dos órfãos do PSDB, de centro-esquerda, para combater a direita.

A direita, a reboque de seus extremistas, absorveu quase integralmente os eleitores tucanos num primeiro movimento de rejeição ao petismo, que desaguou na eleição de Bolsonaro em 2018. Depois do desastre que foi seu governo, parte desses tucanos votou no PT, uns pela primeira vez na vida cívica, para tentar recuperar a força da social-democracia. O terceiro governo de Lula, no entanto, não tem dado a esses eleitores, e não apenas a eles, a expectativa de um futuro melhor, mesmo que o clima político tenha amenizado.

Míriam Leitão - As causas do fogo no Pantanal

O Globo

O incêndio no bioma tem diversas razões, todas ligadas ao desmatamento e à conversão de áreas para a agricultura e pecuária

"O Pantanal está secando. Literalmente secando”, diz o engenheiro florestal e ambientalista Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas. São várias as razões, todas ligadas ao desmatamento e à conversão de áreas para a agricultura e pecuária. Estamos longe do período em que geralmente há incêndio, o normal é que seja lá para agosto ou setembro. Por que está batendo recorde de focos de calor antes da época? Porque este ano não teve cheia. O regime de águas no bioma das águas está mudando. Isso está conectado com o que acontece em outros biomas.

Luiz Carlos Azedo - A caixa d’água do Brasil está pegando fogo

Correio Braziliense

A greve dos agentes ambientais, cujo papel na defesa dos biomas é fundamental, em meio às queimadas, chantageia um governo que mudou o tratamento dado à questão ambiental

O governo foi pego de surpresa em relação às queimadas, mas não foi por falta de advertência das instituições responsáveis pelo monitoramento do clima nem da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Depois das enchentes no Rio Grande Sul, que se enquadram na categoria dos eventos extremos, os incêndios no Pantanal e no Cerrado estão só começando — e já são avassaladores.

Ontem, no Palácio do Planalto, Marina se reuniu com o gabinete de crise formado também pelos ministros Simone Tebet (Planejamento e Orçamento) e Valdez Góes (Integração), além da secretária-executiva da Casa Civil Miriam Belchior, que substitui o ministro Rui Costa, em férias. A situação é ainda mais crítica porque os servidores dos órgãos ambientais anunciaram, também ontem, uma greve por tempo indeterminado. Ou seja, o governo federal está com as mãos atadas.

Hélio Schwartsman - Superprodução de elites

Folha de S. Paulo

Jovens bem formados e sem emprego fortalecem a direita radical?

Mesmo que o presidente Emmanuel Macron consiga evitar que o Rassemblement National (RN) saia com um primeiro-ministro das eleições legislativas que começam no próximo domingo (30), é líquido e certo que o grupo da ultradireita avançará várias casas. E, a crer nas pesquisas, os jovens são em grande medida responsáveis pelo crescimento do partido comandado por Marine Le Pen.

Boa parte da imprensa se pergunta como jovens, cujos avós deflagraram a revolução sexual e cujos pais asseguravam boas votações a partidos de esquerda, puderam ir tão para a direita. Sabe-se que a orientação política tem forte componente hereditário.

Dora Kramer - Arthur Lira derrapa na rampa

Folha de S. Paulo

Deputado caminhava bem, até decidir render homenagem à obsolescência legislativa

O poder é bicho traiçoeiro. Tanto confere altitude ao dono como lhe retira de sob os pés a escada quando a esperteza despreza os conselhos do bom senso. É nessa zona de perigo que entrou o presidente da Câmara, Arthur Lira (PL), ao abrir o baú de anacronismos para atrair a ala reacionária do eleitorado interno ao plano de fazer o sucessor.

O deputado pode, e tudo indica que conseguirá, eleger o substituto em fevereiro de 2025. Mas se arrisca a sair do posto menor do que entrou e a descer a rampa do Congresso Nacional sob a égide de inimigo da opinião pública representada pela instituição que preside.

Joel Pinheiro da Fonseca - Responsabilidade e vontade política

Folha de S. Paulo

Qualquer alta da receita é neutralizada por aumento de gastos obrigatório

Nenhuma regra, por si só, garante seu próprio cumprimento: se governo e Congresso quiserem, ela será violada. Vimos isso com as sucessivas violações do teto de gastos e agora com o novo arcabouço. Quando o tema é gasto público (ou isenção tributária, o que dá no mesmo), Lula e a maioria dos deputados e senadores estão juntos: querem sempre mais. Sem vontade política, as regras são só palavras mortas num papel.

No momento, quem pressiona por algum tipo de responsabilidade fiscal são o ministro da Fazenda, a ministra do Planejamento e os sinais preocupantes que vêm do mercado. Lembrando que responsabilidade fiscal não significa nenhum tipo de austericídio caricato, mas simplesmente que o aumento de despesas se dê de forma controlada, sem que a relação dívida/PIB cresça de maneira explosiva.

Andrea Jubé - O Lula de 2002 ajuda a decifrar o de 2024

Valor Econômico

Passado bate à porta provocando reflexão sobre o presente e o futuro

Na era da velocidade, do instantâneo Instagram, do conciso X (o ex-Twitter), quando tudo soa efêmero, o passado bate à porta provocando uma reflexão sobre o presente e o futuro. Por isso, a estreia há poucos dias do documentário “Entreatos”, de João Moreira Salles, na grade da Netflix nos desafia a apertar a tecla “stop” e olhar para trás, para o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva na iminência de vencer a eleição para a Presidência da República em 2002. Para compreender o Lula de 2024 é importante não esquecer o Lula de 22 anos atrás.

Pedro Cafardo - Um olhar não ortodoxo para juros astronômicos

Valor Econômico

A despeito de ajudar a controlar a inflação, taxas elevadas deixam sequelas devastadoras para a sociedade, como baixo crescimento, aumento da dívida pública e ampliação da desigualdade de renda e riqueza 

Muitos jovens que trabalham na Faria Lima, em São Paulo, nem haviam nascido quando o Brasil viveu seus terríveis anos de hiperinflação, nas décadas de 1980 e 1990. Mas é possível que eles carreguem nas costas, além dos característicos coletes almofadados, algum resquício do trauma daquele período, transmitido pelas gerações então castigadas.

Semanas atrás, o mercado se assustou quando o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse ser a meta de inflação brasileira “exigentíssima” e “inimaginável”. O alvoroço se deu porque, para o mercado, ajustar para cima a meta de 3% ao ano seria um estímulo à volta da inflação e, talvez, aos anos terríveis.

Debelada a hiperinflação, em 1995, o país viveu quase sempre sob as taxas de juros reais mais altas do mundo. Um cálculo do professor Carlos Alberto de Augustini (FGV), publicado pela “Folha de S.Paulo”, mostra que as aplicações em renda fixa (CDI) deram retorno de 7.927% nos 30 anos do real, período em que a inflação (IPCA) acumulou alta de 704%. Ou seja, os ganhos foram mais de 11 vezes superiores à inflação.

Eliane Cantanhêde - Veredicto: o sistema não tem culpa

O Estado de S. Paulo

Por que a democracia brasileira sobreviveu? Uma resposta corajosa e racional

Quando Lula e Fernando Henrique se encontram amigável e até carinhosamente, é hora de esquecer as guerras e encrencas de outros tempos e pensar em como pode haver civilidade, parceria e convivência democrática entre adversários políticos, no caso, dois dos grandes líderes contra a ditadura e os maiores presidentes pós-redemocratização. É nesse clima, menos negativo, menos carregado, que escrevo sobre Por que a democracia brasileira não morreu?, dos cientistas políticos e professores Marcus André Melo e Carlos Pereira.

Corajoso, desmistificador e otimista são os três adjetivos que definem o livro, que joga luzes sobre dez anos da política, desde o impeachment de Dilma Rousseff até a derrota de Jair Bolsonaro. Na contramão da onda de desqualificação, irritação, desânimo, desistência, os autores nos fazem refletir sobre esses tempos turbulentos e tirar uma conclusão reconfortante: apesar de todos os pesares, o sistema político brasileiro não é tão imprestável assim.

Carlos Andreazza - Política de Estado

O Estado de S. Paulo

O orçamento secreto é camaleônico, e sua dinâmica se adapta a qualquer superfície

Arthur Lira e Ciro Nogueira são presenças confirmadas no Fórum de Lisboa. O Parlamento em semaninha de folgança, a três semanas do recesso, para que o País seja discutido na Europa; o restante do Congresso pulando as fogueiras de São João. E há um compromisso por votar as regulamentações da reforma tributária até 18 de julho.

Ninguém reclamará das comissões atropeladas e dos regimes de urgência impostos, afinal aprovado texto desconhecido enquanto se lhe metem ainda mais contrabandos. Lira quer uma marca para sua gestão. Gostaria que fosse a reforma tributária. Será a instituição do orçamento secreto.

Rubens Barbosa - ‘O Brasil é um deserto de homens e ideias’

O Estado de S. Paulo

As reuniões do G-20, da COP-30 e do Brics talvez sejam as últimas oportunidades de o País firmar sua voz na defesa de seus interesses concretos

O comentário sobre o Brasil de Oswaldo Aranha, feito há cem anos, continua atual. A falta de liderança no governo, no Congresso, no meio empresarial e na sociedade civil em geral torna difícil pensar um Brasil acima de interesses partidários, particulares e setoriais. A divisão política interna e a polarização de opiniões impedem que se discuta e, muito menos, que se forme consenso sobre um projeto nacional ou sobre a relevância do Brasil no mundo, suas prioridades e vulnerabilidades, com uma visão estratégica de médio e longo prazo.

A tarefa ainda é mais complicada não só pelas dificuldades internas, mas sobretudo porque o mundo passa por rápidas transformações com a emergência de uma nova ordem internacional. Na economia global, as regras são colocadas de lado e prevalecem o poder e interesses dos países individualmente considerados, com ênfase no protecionismo e em medidas restritivas unilaterais que desrespeitam as regras vigentes e chegam a ser utilizadas como armas na competição entre Estados.

Poesia | Os três mal amados (Trecho), de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Geraldo Azevedo - Óia eu aqui de novo (Antônio de Barros)