domingo, 28 de setembro de 2008

Gabeira passa Jandira e está em 3º


DEU EM O GLOBO

No Datafolha, diferença para Crivella, em segundo, é só de 3 pontos; no Ibope, de 14


Aoito dias da eleição, duas pesquisas divulgadas ontem, do Datafolha e do Ibope, mostram que Fernando Gabeira (PV) passou Jandira Feghali (PCdoB) e assumiu o terceiro lugar na preferência do eleitor para a prefeitura do Rio. No Datafolha, Gabeira cresceu quatro pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, de 11% para 15%, enquanto Jandira permaneceu com 13%. No Ibope, Gabeira também subiu quatro pontos, de 6% para 10%, e Jandira manteve os 9%.

A diferença entre as duas pesquisas é que o Datafolha registra agora um triplo empate técnico entre Marcelo Crivella (PRB), que manteve seus 18%; Gabeira, agora com 15%; e Jandira, com 13%. A margem de erro é de três pontos, para mais ou para menos, o que caracteriza o empate técnico. No Ibope, porém, Crivella ainda está bem distante dos outros dois, com 24%, 14 pontos percentuais a mais que Gabeira, que chegou aos 10%, e 15 pontos a mais que Jandira.

Nas duas pesquisas, Eduardo Paes (PMDB) cresceu e ampliou a liderança. No Datafolha, ele subiu de 26% para 29% e tem 11 pontos percentuais à frente de Crivella. No Ibope, Paes subiu de 27% para 29%, e tem cinco pontos percentuais a mais que Crivella, que subiu um ponto, de 23% na pesquisa anterior para 24%.

- A distância entre Crivella e Jandira está no limite do empate técnico. Podemos dizer que ele está na frente dela. Mas entre Crivella e Gabeira há, de fato, empate. A clara ascensão de Gabeira é o destaque desta pesquisa - disse Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha.

No Ibope, contudo, a diferença de 14 pontos entre Crivella e Gabeira está bem acima da margem de erro, de três pontos. No Datafolha, Alessandro Molon (PT) foi de 4% para 5%, Solange Amaral (DEM) caiu de 5% para 4%, e Chico Alencar (PSOL) ficou nos 3%. Os demais não superam 1%. No Ibope, Solange caiu de 5% para 3%, Molon foi de 4% para 2% e Chico de 1% para 2%.

O Datafolha informou que o crescimento de Gabeira se deve principalmente à sua performance entre os mais ricos e escolarizados. Ele saltou 12 pontos (de 20% para 32%) entre os que ganham mais de R$4.150, faixa em que Paes perdeu nove pontos (foi de 30% para 21%). Crivella oscilou positivamente, de 7% para 9%. Entre os eleitores com nível universitário, o candidato do PV tinha 18% e pulou para 26%. Paes tinha 25% e caiu para 22%. Crivella permaneceu com 7%.

Paes é mais forte entre os idosos; Gabeira, com jovens

Paes tem maior apoio entre os que têm mais de 60 anos (36%), entre os que têm até ensino fundamental (33%) e entre os que ganham até dois salários mínimos (33%). Crivella tem penetração nas mesmas fatias de eleitorado de Paes, atingindo 27% entre os eleitores com ensino fundamental e 25% dos eleitores que ganham até dois salários mínimos. Gabeira é mais forte entre os jovens, faixa em que obtém 20%; entre os que têm ensino superior (26%) e entre os que recebem mais de dez salários mínimos (32%). Jandira mantém percentuais entre 11% e 14% nas diversas faixas de renda e escolaridade.

O Datafolha não fez simulações de segundo turno envolvendo Gabeira. Paes ganha de Crivella por 57% a 30%, e de Jandira, por 48% a 41%. Mas Jandira vence Crivella por 52% a 34%, no caso de confronto direto entre eles. Já o Ibope fez simulação de segundo turno com a presença de Gabeira. Paes vence Crivella por 44% a 29%, vence também Jandira, por 45% a 28%, e sobre Gabeira tem vantagem ainda maior, de 49% a 17%. O Ibope informou que não houve mudanças significativas na taxa de rejeição dos candidatos.

O Datafolha ouviu 1.184 pessoas entre 25 e 26 de setembro. A pesquisa recebeu o registro RPE 35/2008. O Ibope ouviu 1.204 eleitores entre 23 e 25 de setembro, e registrou a pesquisa na 228ª Zona Eleitoral, sob o número 38/08.

As pesquisas provocaram reações destintas nos candidatos. Alçado ao terceiro lugar, Gabeira deixou de lado a promessa de não atacar adversários e passou a criticá-los, sem citar nomes, sob justificativa de "reafirmar diferenças".

- Tenho promessa de não ocupar máquina pública com os partidos políticos. Não sei se meu adversário que irá ao segundo turno se comprometerá a isso. Há candidatos que pertencem a partidos bastante vorazes em relação a empregos públicos, mas vou deixar para explicitar essas diferenças quando os dois candidatos estiverem na arena (no segundo turno) - disse Gabeira, que fez corpo a corpo em Campo Grande, Santa Cruz e Bangu, na Zona Oeste.

Em relação às diferenças entre os dois institutos, Gabeira acusou o Ibope, que registrou pior desempenho dele, de não ser sério:

- O Ibope é contratado pelo PMDB, por isso não tem nenhuma credibilidade.

Jandira voltou a atacar seus adversários e disse desprezar pesquisas.

- Não comento mais pesquisas. O que marca é que há 50% de indecisos. Podemos ir para o segundo turno. Esses números, em que são utilizadas margens de erro, são objetivamente parciais. Pesquisa para mim é na urna - disse, em carreata por Campo Grande e Santa Cruz.

Paes, em carreata por Vila Valqueire, Bento Ribeiro e Oswaldo Cruz, festejou as pesquisas:


- Vejo com otimismo e alegria. A população está entendendo claramente a nossa mensagem. Vou continuar acordando muito cedo, dormindo tarde e apresentando propostas para a cidade.

Crivella preferiu minimizar os resultados.

- Os números são discrepantes, mas falta apenas uma semana para a gente ver quem está com a razão. Vamos para o segundo turno e ganhar a eleição. Esqueçam pesquisa, há muitos interesses por trás - disse ele, em Cascadura.

Chico Alencar preferiu lembrar que metade dos eleitores ainda não se decidiu:

- Pelo que vejo na rua, essa fatia do eleitorado ainda está sendo disputada.

Solange Amaral, foi lacônica:

- Estou trabalhando, aprofundando a campanha e centrando nas zonas Oeste e Norte.

Já Molon criticou os resultados do Ibope:

- Em relação ao Ibope, nada a comentar, a não ser a evidente manipulação da pesquisa. A discrepância é, no mínimo, estranha. Em relação ao Datafolha, há um altíssimo percentual de indecisos (39%), o que confirma as previsões dos especialistas de que a disputa irá até o último dia, e o nosso crescimento e ultrapassagem em relação a Solange. Vamos continuar crescendo.

Palmas para Lula


Ferreira Gullar
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Nunca os pobres se sentiram tão protegidos e nunca os banqueiros lucraram tanto no Brasil

O ALTO índice de popularidade do presidente Lula tem suscitado a reflexão dos comentaristas que se sentem desafiados a explicá-la. A tarefa não é das mais fáceis e, por isso mesmo, as explicações nem sempre coincidem, muito embora sejam, na sua maioria, pertinentes. E porque o assunto envolve numerosos fatores e causas, resta sempre algum ponto que ainda não foi explicitado.

Vou tentar examinar alguns deles e, para isso, terei que tocar em aspecto já argüidos mas que não se podem excluir na apreciação do tema. Um deles é, sem dúvida, a estabilidade econômica de que o país goza hoje e de que não gozaria se as teses de Lula, contra o Plano Real, tivessem prevalecido. Não faço tal observação com outro propósito senão o de tentar definir a natureza dessa popularidade e suas possíveis conseqüências para o processo político.O fato de Lula, eleito presidente, ter adotado a política econômica que combatera ferozmente, revela-se uma louvável sensatez, revela também, ao mesmo tempo, por ele não reconhecer o débito de hoje e o equívoco do passado, certa carência de escrúpulos, o que explica muita coisa da popularidade de que desfruta hoje.

Certamente, essa popularidade se deve também aos programas sociais de amparo às camadas desfavorecidas da sociedade, antes aplicados em Campinas (SP) e Brasília, depois adotados por Fernando Henrique em âmbito nacional e que Lula manteve e ampliou. Mas também aqui, mais uma vez, procurou turvar a água e apresentar-se como o criador do programa, fundindo os dois programas existentes e mudando-lhes o nome. Com isso, prejudicou-lhes a eficiência, por dificultar a avaliação precisa dos resultados. Como era de se esperar, aumentou a ajuda a cada família e a dotação global para abranger o maior número possível de famílias, que hoje somam cerca de 11 milhões, o que equivale a mais de 40 milhões de indivíduos. Bastaria, portanto, o Bolsa Família para lhe garantir uma ampla aprovação das camadas pobres do povo. Isso é do conhecimento de todos.

No entanto, não bastaria para assegurar a Lula a aprovação de que desfruta hoje. Ele lançou mão de outros recursos, como, por exemplo, manter-se permanentemente no palanque e na mídia, tudo fazendo para, com seus discursos e pronunciamentos, capitalizar, não apenas o resultado dessas iniciativas, como de tudo o que, de positivo, ocorre no país. Tudo o que ocorre de bom, foi ele quem fez; tudo o que ocorre de ruim, tem um culpado, que não é ele. E, como esta é sua principal ocupação, está sempre atento à mais mínima notícia que possa comprometer o "paraíso" em que ele transformou o Brasil: ao surgir uns primeiros sintomas de aumento da inflação, ele imediatamente culpou Bush e os países europeus. Não importa se é verdade ou não, já que a grande massa do povo não entende bem como essas coisas se dão; o que ele diz é aceito, porque ele é seu amigo e salvador e "os outros", seus inimigos.Lula tem a esperteza do demagogo, e não a esconde. Quando surgiu o escândalo do "dossiê", declarou: "O povo não sabe o que é dossiê; pensa que é alguma coisa doce". E por essa mesma razão, quando lhe perguntaram pela crise econômica, respondeu: "Pergunta pro Bush". E assim responsabilizava o presidente americano por uma crise que é do sistema econômico e não do governo.

Por que fez isso? Porque lhe interessa levar o povo a pensar que o presidente de um país é responsável por tudo, donde decorre que, se os Estados Unidos vão mal, a culpa é de Bush e, se o Brasil vai bem, é graças a Lula e a ninguém mais. Mas isso só vale até que alguma coisa dê errado, quando então o responsável será, inevitavelmente, alguém que não ele, a imprensa talvez ou os "inimigos" do Brasil.

E por falar em inimigos, vale lembrar que Lula tem um discurso para cada público e para cada ocasião; ultimamente, comporta-se, nos palanques, como se estivesse num palco: "Dilma, já pensou se isso acontecesse dez anos atrás?". A sorte é que temos no governo um mago das finanças, que é também uma metamorfose ambulante.

A sua popularidade deve-se também a um raro talento político, a que se soma o fato de, originário da classe operária, atuar como uma espécie de amortecedor dos conflitos entre pobres e ricos: em função disso, nunca os pobres se sentiram tão protegidos e nunca os banqueiros lucraram tanto. Os nossos capitalistas -do mesmo modo que Bush- não ligam quando ele posa de esquerdista. Sabem que os fatos valem mais do que as palavras. E daí, os aplausos gerais.
Atenção, auditório, palmas para o Lula, que ele merece!

Sístoles e diástoles


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


O Executivo passou a substituir o Legislativo e o Judiciário. Foram 20 anos de centralização e autoritarismo


Coube ao general Golbery do Couto e Silva, em célebre palestra na Escola Superior de Guerra (ESG), em 1980, resumir a ópera: a história política do Brasil é pendular, oscila entre a centralização e a descentralização. Não era uma idéia inovadora, porque Alberto Torres, no começo do século passado, e Oliveira Viana, pouco depois, já haviam registrado o fenômeno. Mas foi sistematizada para servir à política de Estado. Com base na célebre metáfora cardíaca da sístole (contração) e diástole (dilatação), Golbery formulou a estratégia de abertura política do governo Geisel: os militares se retiraram da política de forma organizada e tutelaram a longa transição à democracia.

Império


As Constituições brasileiras são bons retratos da centralização e descentralização políticas. A primeira sístole foi protagonizada por Dom Pedro I, que dissolveu a Constituinte de 1923 e outorgou a nossa primeira Carta Magna, a Constituição de 1824. A grande inovação liberal foi o direito à propriedade privada, transformado num entrave legal à abolição. Toda vez que se falava em acabar com a escravidão, se invocava a dogma liberal. O “Poder Moderador” do imperador estava acima do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Os presidentes das províncias eram nomeados, votavam apenas homens livres e proprietários.

A Constituição de 1923 foi reformada duas vezes. Primeiro, no Ato Adicional de 1934, que criou as assembléias legislativas provinciais, com certa autonomia, fruto das pressões antiabsolutistas despertadas pela abdicação de Pedro I, três anos antes. Manteve, porém, o caráter unitário do Estado brasileiro. A segunda ocorreu em 1881, quando D. Pedro II já estava desgastado pelo abolicicionismo. Introduziu as eleições diretas e acabou com a divisão entre eleitores de paróquia e de província. Apenas a aristocracia, uma ínfima parte da população, tinha direito a voto.

República

A grande diástole foi a proclamação da República. A Constituição de 1891 foi inspirada nos Estados Unidos. Conferiu autonomia aos estados da federação e liberdade partidária. Foram estabelecidas eleições diretas para a Câmara, o Senado e a escolha do Presidente da República, mas soldados, religiosos, analfabetos e mulheres também não votavam. As eleições “a bico de pena” eram fraudulentas. Tudo veio abaixo na Revolução de 1930.

Com Getúlio Vargas, a Constituição de 1934 fortaleceu o governo federal, garantiu direito de voto às mulheres e aos jovens com mais de 18 anos, além de criar a Justiça Eleitoral e a Justiça do Trabalho. Mas durou pouco. Em 1937, Getúlio implantou o Estado Novo, com uma Constituição de inspiração fascista, a “Polaca”. A eleição para presidente passou a ser indireta, a imunidade parlamentar foi extinta. Era a grande sístole.

O fim da II Guerra Mundial patrocinou nova diástole. A Constituição de 1945 consagrou os princípios da democracia. Estados e municípios recuperaram a autonomia. Os poderes Legislativo e Judiciário voltaram ser independentes. A eleição para presidente da República voltou a ser direta. Em 1961, o Congresso impôs a João Goulart o parlamentarismo, sem o qual não tomaria posse o vice do presidente Jânio Quadros, que havia renunciado. Em 1963, um plebiscito restabeleceu o presidencialismo.

Estava em marcha, porém, nova sístole: o golpe militar de 1964. A Constituição de 1967 institucionalizou o regime militar. Manteve o bipartidarismo criado pelo Ato Adicional nº 2 e estabeleceu eleições indiretas para presidente da República. A sístole foi ainda maior com a Emenda Constitucional nº1, de 1969, que incorporou o Ato Institucional nº5. Dava ao presidente da República o direito de cassar mandatos de parlamentares e magistrados, suspender os direitos políticos dos cidadãos e legislar sobre matéria política, eleitoral, tributária e econômica. O Executivo passou a substituir o Legislativo e o Judiciário. Foram 20 anos de centralização e autoritarismo.

Sindicatos ricos e fracos

Suely Caldas
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A recente edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) apresenta um dado aparentemente contraditório: enquanto o trabalho com carteira assinada e a renda salarial crescem, cai o número de trabalhadores sindicalizados. Veja, leitor, o que aconteceu entre 2006 e 2007: 1) O emprego com carteira assinada cresceu 6,1% e o rendimento salarial, 3,2%; e 2) os sindicatos perderam 555 mil trabalhadores filiados, o que fez a taxa de sindicalização cair de 18,6% para 17,7% da população ocupada. A lógica seria a filiação sindical acompanhar a expansão do emprego formal. Mas os trabalhadores não seguem a lógica. Por que será?

O especialista em economia do trabalho José Márcio Camargo atribui isso a um certo desencanto dos trabalhadores com seus sindicatos, descrédito na forma de representá-los e enfrentar novos desafios da modernização dos meios de trabalho. A luta sindical moderna exige preparo das lideranças para diversificar o foco, ir além do tradicional aumento salarial. Mas a prática continua presa ao modelo das décadas de 70/80, quando o sindicalismo desafiou a ditadura militar e viveu seu auge nas famosas greves do ABC paulista lideradas por Luiz Inácio Lula da Silva.

“Hoje, só 10% dos trabalhadores estão sob a proteção dos sindicatos; os 90% restantes são lei de mercado. Desviar a luta sindical para outras reivindicações dá trabalho e os sindicatos não estão dispostos ou não sabem fazê-lo”, analisa Camargo.

Outro dado da Pnad confirma o que diz o especialista. O recente crescimento do emprego tem amortecido as tensões e propiciado entendimento na relação capital x trabalho. Tanto que 80% das categorias profissionais fecharam acordos com ganhos salariais acima da inflação. São os 90% mencionados por Camargo com reajustes de salários regidos pelo mercado, em que empregados e empregadores se acertam sem interferência dos sindicatos, que só comparecem depois, para formalizar legalmente o acordo.

Há quem considere essa situação transitória, fruto de uma conjuntura de crescimento do emprego e ganhos salariais, que leva os trabalhadores a dispensarem os sindicatos em defesa de seus interesses. Tão logo mude a realidade e aumentos salariais só sejam conquistados com enfrentamento político, eles voltariam a se filiar.

Essa avaliação pode até ser válida para as grandes indústrias, mas desconsidera mudanças estruturais ocorridas no mercado de trabalho: na década de 90 a introdução da automação enfraqueceu o emprego nas grandes indústrias e o fortaleceu no setor de serviços (informática, bancos, telecomunicações, etc.). E é nesse setor, sem tradição de luta e com desempenho sindical extremamente tímido e por vezes ausente, que acontece um fenômeno que precisa ser mais bem pesquisado: o desinteresse dos jovens que ingressam no mercado de trabalho pelos sindicatos e a descrença de que suas lideranças saberão mapear e conduzir seus problemas e carências. É o que Camargo chama de novo desafio para as lideranças sindicais de ampliarem seu foco de atuação além da reivindicação salarial.

Há ainda outras razões que explicam o enfraquecimento dos sindicatos captado pela Pnad. Arrefeceu o estilo aguerrido do ABC paulista, que contaminou o movimento sindical nos anos 70/80. Foi substituído por lideranças acomodadas, que se fecham nas suas sedes, discutindo como obter verbas do Ministério do Trabalho e do imposto sindical, e que descuidam da relação direta com seus representados. Esse fenômeno piorou nos últimos anos em razão da liderança política do presidente Lula, que deixou dirigentes sindicais confusos, tontos, preocupados em ocupar cargos no governo e agir com moderação para não atrapalhar o amigo presidente.

As reformas sindical e trabalhista, defendidas com tanto fervor nos tempos do Lula metalúrgico, foram enterradas; o governo delas desistiu. A sindical andou só um pouquinho, mas em marcha à ré, contra o que o ABC paulista pregava em 70/80. E, pior, com aprovação entusiasmada do ex-líder, hoje presidente. Trata-se do rateio do dinheiro do imposto sindical entre seis centrais sindicais. Aliás, eram três e multiplicaram-se depois que o presidente amigo acenou com a idéia de receberem dinheiro público. Agora querem criar a “contribuição negocial”, que o trabalhador vai pagar sem ser consultado.

Muito diferente dos tempos em que Lula gritava em assembléias em São Bernardo que o imposto sindical só produzia sindicalistas pelegos.

*Suely Caldas, jornalista, é professora da PUC-RJ

Desempate vale o tri


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Longe do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a vocação para o exercício do mau agouro, ainda mais quando se trata do próprio partido. Mas, no ritmo corrente, ele não descarta a hipótese de os tucanos virem a ter uma ingrata surpresa em 2010.

Se não tomarem jeito com urgência, seus correligionários correm o risco de perder a chance de voltar ao Palácio do Planalto e ainda vão deixar para o presidente Luiz Inácio da Silva o título de campeão no balanço de derrotas e vitórias nacionais entre PT e PSDB.

Em embates diretos, o placar registra duas vitórias para cada um. Lula perdeu duas (1994/ 1998), ganhou as duas seguintes (2202/2006) e, dentro de mais 24 meses, ambos os partidos jogarão pelo desempate, valendo a taça do tri.

No jogo de poder a alegoria não tem a menor importância. Inclusive porque, se for para contabilizar perdas e ganhos desde o reinício dos tempos democráticos, Lula estaria no vermelho.

E, como se sabe, está tudo azul para o lado do presidente. Tão azul que seu antecessor, presidente de honra do PSDB e há oito anos dublê de grilo falante e mensageiro de alertas solenemente ignorados pelo partido, anda sinceramente preocupado.

Ainda crê no favoritismo dos tucanos para a eleição presidencial de 2010, mas não menospreza a capacidade do adversário em solapar a dianteira. Muito menos é indiferente à inaptidão de seus aliados para administrar a vantagem, terminando por entregá-la a Lula de bandeja.

Por exemplo, Fernando Henrique já detectou o potencial destrutivo do charivari entre os tucanos por causa da eleição para a Prefeitura de São Paulo. Há tempos ele avisa que, desunido, o partido não sobe de novo a rampa do Planalto. No máximo, chega à beira do abismo e dali ao passo à frente é só uma questão de método.

Não foi ouvido, como de resto seguiu pregando no deserto quando, na quinta-feira, resolveu alertar mais uma vez pedindo que Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab parem com as agressões mútuas.

“Em política, se você não enxerga mais longe, se não vê a estratégica, se olha só o imediato, você perde”, disse em tese a propósito do segundo turno da eleição municipal, mas, na prática, alertou seus navegantes sobre os obstáculos que produzem para uma trajetória satisfatória rumo a 2010.

FH, na realidade, não está explodindo em cataporas lilases por causa do resultado local. Se o tucanato ganhar do PT, com o PSDB ou com o DEM, muitíssimo melhor. Se perder, haverá tempo e condimentos para preparar uma limonada.

O susto pode ter o efeito pedagógico de mostrar aos guerreiros como se desviar do caminho do infortúnio e pode também transferir a guerra para o campo do adversário, uma vez que, eleita prefeita, Marta Suplicy pode até não assumir, mas seus aliados em São Paulo já estão a postos para brigar com Dilma Rousseff pela primazia da legenda do PT na eleição presidencial.

Sob um argumento prosaico: capital eleitoral. Na ministra, uma presunção; na prefeita, uma constatação.

A preocupação é com a conduta do PSDB ao fim do certame atual, início do próximo, este sim, fundamental.

A unidade, FH rebate na tecla, é o pré-requisito básico. Por isso, está entre os articuladores da chapa José Serra presidente, Aécio Neves vice. Garantidos a maioria dos votos em São Paulo e Minas Gerais, acredita, o resto do País vai atrás.

Só que não basta juntar os dois governadores dos maiores colégios eleitorais do País. É preciso, na visão de Fernando Henrique, que comecem a falar à sociedade, de preferência de forma a marcar a diferença em relação ao adversário.

Não significa fazer de Lula o Judas. Além de mau negócio eleitoral, o PSDB precisa aprender a falar bem de si antes de se dar ao desfrute de desconstruir a imagem do alheio. Na opinião do ex-presidente, é uma tarefa para ser executada menos com palavras e mais com atitudes.

Cita um exemplo: “As manifestações populares de apreço a Ruth foram produto de uma identificação com a conduta correta, a imagem limpa, o retrato de uma pessoa ética”, diz, enquanto o interlocutor torce para que as lágrimas continuem contidas e não atrapalhem o esforço de superação pela viuvez recente.

O segredo, na opinião dele, é atitude contrastante. Qualquer contraponto seria bem visto. Do elitismo ao populismo, que seja. “Melhor uma imagem de elite que imagem nenhuma.”
É isso. Fernando Henrique não diz assim, dá a impressão de que, mediante alguma resistência, acabaria assinando embaixo de algum escrito qualificando o PSDB como um partido com cara de nada. Ou de forma mais fina, sem feições definidas.

Na sua análise, a necessária arrumação vai além da forma. Urge alcançar o conteúdo.

Dar uma reduzida na soberba, uma turbinada na indolência e parar de confiar excessivamente na dianteira nas pesquisas: “Isso mostra um quadro atual de vantagem, mas é preciso interpretar as variantes e, sobretudo, não perder de vista que pontos ganhos precisam de cultivo ou se perdem com muita facilidade”.

Para Alckmin, tudo ou nada


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - A eleição municipal chegou à sua última semana com algumas surpresas (Gabeira crescendo no Rio...), indefinições emocionantes (Salvador embolada...) e uma certeza: Geraldo Alckmin tem de rezar aos céus para chegar ao segundo turno com Marta Suplicy.

Do contrário, não estará só perdendo uma eleição, mas jogando fora seu capital acumulado e dificultando suas condições de disputar o governo ou mesmo o Senado.

Alckmin bateu pé e conseguiu a sigla do PSDB para concorrer em 2006, contra todas as pesquisas e as evidências de que José Serra era mais competitivo. O mar estava mais para Lula do que para tucanos, e Serra igualmente poderia ter perdido. Mas a derrota de Alckmin teve peso maior, porque sua responsabilidade também era maior.

Alckmin voltou a bater pé e conseguiu a sigla do PSDB nas eleições municipais, contra a estratégia de Serra de, simultaneamente, fortalecer o aliado DEM e manter a prefeitura. Ou alguém tem dúvida de que a prefeitura é dos tucanos?

A teimosia empurrou Alckmin para o palanque, de onde assiste Gilberto Kassab avançar consistentemente e já passar à sua frente.

Nesta última semana, a disputa entre eles será de vida ou morte, com uma diferença: se Kassab perde essa, capitaliza o que conquistou e parte para outra. A sobrevivência de Alckmin será uma incógnita.

Enquanto isso, Marta Suplicy segue tranqüila na dianteira, mas preocupada com o teto do PT na capital e com uma reviravolta no segundo turno, que depende muito das seqüelas da campanha entre seus opositores. No primeiro turno, Alckmin deixou Marta de lado e elegeu Kassab como seu principal adversário. E no segundo, quem será adversário de quem?

Se recuperar a prefeitura dos tucanos para o PT, Marta poderá creditar o êxito a seus méritos, claro, mas também à divisão do PSDB e ao voluntarismo de Alckmin. Desse carimbo ele não se livra.

Sabor de derrota


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Barack Obama é um político do tipo do lutador de boxe, que dá gosto de ver pela elegância dos movimentos e golpes curtos e certeiros que aplica. Mas chega um momento em que é preciso decidir a luta, e aí falta a ele aquela garra que marca os demolidores. Ele pode ter ganhado o primeiro debate da disputa presidencial dos Estados Unidos por pontos - mais possivelmente houve um empate - mas fiquei com a sensação de que foi um empate com sabor de derrota para Obama. Possivelmente não haverá até as eleições momento mais favorável para ele em um debate político, e McCain temia isso quando tentou adiar o encontro. Depois de uma semana em que a política econômica do governo Bush, que já vinha há um ano dando sinais de falência múltipla, entrou em colapso explícito, não havia momento mais propício para um candidato democrata mostrar à nação o que fará a diferença, a partir de janeiro, na Casa Branca.

Os dois candidatos não se mostraram, até o momento, à altura da crise que o mundo vive. McCain fingiu um gesto de grandeza ao anunciar a suspensão da campanha presidencial para ir a Washington tratar do pacote econômico, mas viu-se logo que não passava de uma politicagem barata para tentar tirar algum proveito da crise econômica que o colocou, como candidato do partido que está no poder, em situação de fragilidade.

Barack Obama, por seu turno, mostrou-se sempre muito tímido diante da crise, e não foi outra sua postura no debate em Mississippi. Fora uma ou duas vezes em que ligou diretamente a política de Bush a McCain, não se aprofundou nas críticas, não apresentou soluções.

Os dois, aliás, pareciam autistas, falando de um orçamento que ninguém sabe como ficará porque ninguém sabe ainda o real tamanho dessa crise nem se o pacote econômico resolverá o problema. Se é que algum pacote será aprovado neste fim de semana.

Os dois candidatos claramente não querem assustar o eleitor, e preferem lidar com a questão econômica, que não é o forte de nenhum dos dois, de maneira mais genérica. Obama tem a vantagem de visar sempre a classe média americana, apesar de manter a promessa de cortar impostos de 95% das famílias, promessa que parece cada vez mais inviável a essa altura da crise.

McCain mantém tese de que liberando empresas e grandes investidores de impostos, eles produzirão mais riqueza para o país, o que beneficiará os mais pobres indiretamente. Uma filosofia econômica que Obama ligou à defesa da desregulamentação do mercado financeiro, que causou a quebradeira de Wall Street.

O cineasta e escritor Michael Moore escreveu recentemente um guia eleitoral onde, entre vários palpites, sugere sarcasticamente que o candidato democrata, Barack Obama, pare de ressaltar o heroísmo de seu adversário republicano John McCain "porque nos Estados Unidos os heróis sempre vencem no final".

Depois do debate de sexta-feira ele deve ter uma outra sugestão para Obama: pare de frisar que "John está certo" a cada resposta. Na enésima vez em que Obama repetiu a frase, como um cacoete, fiquei pensando aonde o levaria toda essa elegância de admitir que o adversário está certo, mesmo quando o contesta. Se fosse um recurso de ironia, o que realmente aconteceu umas poucas vezes, poderia ser usado para desmontar o adversário. Mas Obama é por demais elegante nas suas ironias.

Se, na parte econômica do debate, McCain conseguiu sobreviver a um previsível massacre como se não tivesse laços com o governo democrata, criticando mais duramente a gestão Bush e se colocando como um "maverick" (rebelde) diante da Casa Branca, na parte de política internacional foi a vez de Obama se sair melhor do que seus adversários previam.

Ele se colocou muito à vontade nas questões internacionais, mostrando que tem todo o conhecimento necessário para exercer o cargo que disputa. Apesar de McCain ter tentado o tempo todo fazê-lo passar por "ingênuo" ou inexperiente, repetindo várias vezes que "o senador Obama parece não entender", ou variações do mesmo tipo.

Até mesmo nas expressões faciais, em algumas vezes fazendo-se de nauseado, viu-se um McCain irritadiço com as posturas de Obama no campo internacional, como se não tivesse paciência para ouvir tanta bobagem.

Mesmo nessas ocasiões Obama não perdeu a pose de estadista que procurou exibir durante toda a noite e corrigiu comentários de McCain, sem se intimidar em nenhum instante.

Havia quem temesse, da parte republicana, a comparação na televisão entre a imagem esguia e altiva de Obama e a estatura baixa e o corpo retesado, muito por causa das torturas que sofreu no Vietnam, de McCain.

O senador republicano é um outro tipo de lutador, fecha a guarda e luta olhando para o chão, desferindo golpes curtos e certeiros mas sem o refinamento da oratória. Até mesmo sua cortante ironia ficou sem uso na noite do debate, com uma ou outra exceção.
Mas o que houve mesmo foi o contraste de gerações. O candidato republicano, mais de uma vez, ressaltou sua experiência em acompanhar os temas internacionais, mas ficou claro que McCain, como salientou Obama em um de seus melhores momentos, ainda tem a mentalidade de um político do século XX, quando os Estados Unidos tornaram-se a única potência mundial, em contraste com o mundo multipolar atual, que exige uma postura mais aberta ao diálogo entre as nações.

Não é à toa que o democrata Barack Obama é o candidato preferido no mundo todo. Ele quer que os Estados Unidos voltem a ser admirados e amados pelos outros países, e não temidos e até mesmo odiados. Quer, enfim, que "fazer a América" volte a ser o sonho dos que, como o seu pai no Quênia, via o país como o melhor lugar para se estudar e vencer na vida. A questão é saber se o eleitorado médio americano comunga desses ideais.

Juízo final


Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Visto daqui de Buenos Aires o apocalipse é ainda pior: a Argentina passa pelas mesmas angústias do resto do mundo, acrescida da sua carga particular de tormentos. O efeito tango é um lânguido rodopio em direção à tragédia que jamais se consuma. Dominado pela estridência generalizada, só é percebido nas vizinhanças.

O governo dos Kirchner insiste que não há inflação, mas ela é uma realidade nos supermercados, aumenta a cada dia o escândalo das valises com os dólares de Chávez e, acuada por manchetes cada vez mais estridentes, a Casa Rosada (que não é rosada, mas ocre) investe contra a imprensa, os ruralistas ameaçam reiniciar a pressão sobre o governo e a base sindical começa a mostrar rachaduras.

O que poderia ser visto como um conjunto de telenovelas paroquiais ganha conotações catastróficas no atual cenário econômico-político. O mundo não parou para mudar, está mudando em altíssima velocidade. A vida continua, mas está evidente que não pode continuar desta maneira. Agendas e cronogramas são atropeladas sem a menor cerimônia: as eleicões americanas que deveriam converter-se em marco para os novos tempos foram, de certa forma, antecipadas. O que deveria acontecer a partir de novembro acontece agora, atabalhoadamente, neste fim de semana.

Um dos novos jornais argentinos, Crítica de la Argentina, marcado pelo sarcástico muito portenho, alcunhou o presidente americano de Bushevik (contração de Bush com bolchevique), diante da sua pressa de empurrar o Estado dentro da esfera, até então reservada, aos mercados.

Em pouco mais de duas décadas assistimos ao desmoronamento da Cortina de Ferro e ao desmatamento da selva capitalista. O modelo democrático aparentemente expandiu-se, mas ainda não está claro se foi uma expansão estrutural, profunda, ou apenas cosmética. Democracia é algo mais do que a manutenção de um calendário eleitoral. A existência de três poderes não é garantia de representatividade. Uma democracia incapacitada para criar e exercer os contra-poderes não chega a ser democracia.

O desaparecimento das principais referências ideológicas processou-se com tamanha velocidade que tornou impossível a gestação de alternativas. O fim do comunismo stalinista e este naufrágio do capitalismo selvagem não foram acompanhados pelo gradual surgimento de alternativas, simbioses ou sincretismos. Como se por alguma razão mecânica a dialética tivesse desligado o seu mecanismo gerador de sínteses.

Imaginava-se que era chegada a hora do conceito social-democrático europeu. Mas a social-democracia européia enrolou-se sozinha ao apressar a complementação do seu produto mais legítimo, a União Européia. A ampliação do clube retirou dele algumas das suas matrizes. Partidos de extrema direita, nacionalistas, com tinturas quase-fascistas, jamais poderão produzir parcerias numa entidade vocacionada para um certo progressismo, originalmente supranacional, distributivista. O que sobrou como formato político foi o caudilhismo. E este caudilhismo nao é exclusivamente latino-americano: o que Vladimir Putin está fazendo na Rússia não difere muito dos esquemas voluntaristas de Hugo Chávez. Não por acaso andam tão próximos. A diferença entre eles reside na intensidade: Putin manda matar friamente seus adversários enquanto Hugo Chávez, tocado pelo sentimentalismo latino, não chega a tanto. Pelo menos por enquanto.

Abraçado a este bonapartismo, não muito diferente em matéria de resultados, descortina-se o vasto mundo do fundamentalismo islâmico. Em alguns casos, aparentemente livre de conotações personalistas, na realidade um absolutismo ainda pior porque está entranhado de dogmas religiosos.

Há poucas semanas parecia que caminhávamos para uma reedição do crash de Wall Street em outubro de 1929. Nestas horas angustiantes, parece que outra efeméride está sendo perversamente adicionada: o início da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939.

Temos o privilégio de assistir ao insólito espetáculo da história sendo reescrita. Numa situação-limite como esta, não adianta subir a serra ou descer para a praia. A próxima segunda-feira promete ser um desassossego ainda maior.

» Alberto Dines é jornalista.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1100&portal=

sábado, 27 de setembro de 2008

Paes lidera com 29%; Gabeira sobe e embola disputa pelo 2º turno


DA SUCURSAL DO RIO
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Candidato do PV foi de 11% para 15%; Crivella (PRB) se mantém com 18% e Jandira (PC do B) permanece com 13%


Cesar Maia, que encerra dois mandatos na Prefeitura do Rio, é reprovado por 36% dos entrevistados; governo tem a aprovação de 22%

A nove dias da eleição, pesquisa Datafolha mostra que Eduardo Paes (PMDB) ampliou a liderança pela Prefeitura do Rio, com 11 pontos à frente, e retrata um acirramento na disputa pelo segundo lugar, com Fernando Gabeira (PV) tendo crescido quatro pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.

Paes foi de 26% para 29%, Marcelo Crivella (PRB) manteve 18%, Gabeira subiu de 11% para 15%, e Jandira Feghali (PC do B) permaneceu com 13%. A margem de erro é de três pontos, para mais ou para menos.

"A distância entre Crivella e Jandira está no limite do empate técnico. Podemos dizer que ele está na frente dela. Mas entre Crivella e Gabeira há, de fato, empate. A clara ascensão de Gabeira é o destaque desta pesquisa", disse Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha.

O peemedebista oscilou três pontos positivamente, tendo os maiores índices de apoio entre os que têm mais de 60 anos (36%), entre os que têm até ensino fundamental (33%) e entre os que ganham até dois salários mínimos (33%).O candidato do PRB tem penetração nas mesmas fatias de eleitorado de Paes, atingindo 27% dos votos entre os eleitores com ensino fundamental e 25% dos eleitores que ganham até dois salários mínimos.

Gabeira é mais forte entre os jovens, faixa em que obtém 20%, entre os que têm ensino superior (26%) e entre os que recebem mais de dez salários mínimos (32%).

Jandira mantém percentuais entre 11% e 14% nas diversas faixas de renda e escolaridade.

O crescimento de Gabeira se deve principalmente à sua performance entre os mais ricos e escolarizados. Gabeira saltou 12 pontos (de 20% para 32%) entre os que ganham mais de R$ 4.150, faixa em que Paes perdeu nove pontos (foi de 30% para 21%). Crivella oscilou positivamente de 7% para 9%.

Entre os eleitores com nível universitário, o candidato do PV tinha 18% e pulou para 26%. O peemedebista tinha 25% e foi para 22%. O postulante do PRB permaneceu com 7%.

Os demais candidatos continuam distantes. Alessandro Molon (PT) foi de 4% para 5%. Solange Amaral (DEM), apoiada pelo prefeito Cesar Maia, está numa linha descendente: no início do mês tinha 7%, passou para 5% em meados de setembro e hoje tem 4%. Chico Alencar (PSOL) permanece com 3%. Os outros não superam 1%.

Cesar Maia, que encerra dois mandatos à frente da prefeitura, é aprovado por 22% dos eleitores e reprovado por 36% deles. Mesmo entre os que avaliam sua administração como ótima ou boa, Paes lidera com 36%, Crivella tem 16%, Gabeira, 12%, e Solange, 11%.

O Datafolha não fez simulações de segundo turno envolvendo Gabeira. Paes bateria Crivella por 57% a 30%, e Jandira, por 48% a 41%. A candidata comunista venceria o rival do PRB por 52% a 34%, no caso de confronto direto entre eles.Cresceu de 30% para 35% o número de entrevistados que dizem que Paes está se saindo melhor no horário gratuito.

A avaliação de Gabeira também subiu, passando de 7% para 13% os que dizem que ele tem o melhor programa. Já a de Crivella caiu quatro pontos, passando de 16% para 12%.

O Datafolha ouviu 1.184 pessoas ontem e anteontem. Recebeu o registro RPE 35/2008.

Gabeira fica feliz com pesquisa

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Segundo o Ibope, candidato do PV já teria ultrapassado Jandira Feghali

A passagem de Fernando Gabeira (PV) para o terceiro lugar na pesquisa de intenção de voto realizada pelo Ibope, e ainda não divulgada, embolou ainda mais a disputa de quem vai para o segundo turno. Conforme adiantou o repórter Leandro Mazini, da coluna Informe JB, Gabeira está com 11%, um ponto percentual à frente da candidata do PCdoB, Jandira Feghali, o que caracterizaria empate técnico. O prefeitável do Partido Verde recebeu a notícia com entusiasmo, e considera que sua campanha está em uma reta ascendente com os eleitores.

– Acho que essa subida na pesquisa indica uma tendência, que deve seguir até o dia da eleição – acredita Gabeira.

O efeito decisivo e o efeito marginal


Jairo Nicolau
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


O apoio de Lula será um fator decisivo nas eleições municipais deste ano?


A CAMPANHA eleitoral deste ano tem reforçado duas tendências já vistas em eleições anteriores. Na falta de nome melhor, vou chamar a primeira de rotinização das campanhas.Desde a redemocratização, esta é a sétima eleição para prefeitos e vereadores. As eleições já não são mais a novidade que eram na década de 80.

Aos poucos elas foram assumindo um caráter menos excepcional e mais rotineiro. As campanhas ficaram mais curtas, mais concentradas na TV, viram a maioria dos militantes voluntários desaparecerem, poluem menos as cidades e despertam menos interesse dos eleitores e da imprensa.

Vejo a cobertura rarefeita que a campanha tem recebido dos jornais neste ano e lembro dos cadernos especiais de outras disputas. Observo os carros sem adesivos e lembro de eleições passadas, quando avaliava a força do candidato contando os adesivos.

A segunda tendência é a concentração da discussão da campanha nos temas locais. Aos poucos, eleitores vão aprendendo quais são as reais atribuições do prefeito. Aprendem que ele tem responsabilidade pelo trânsito da cidade, mas pouco pode fazer para gerar emprego em larga escala. Aprendem que as prefeituras podem cuidar bem da educação infantil, mas não da superior. Aprendem que, por mais que se diga o contrário, a responsabilidade maior pela segurança pública é do governador, e não do prefeito.

Cada cidade tem sua agenda particular. Em algumas, a disputa assume um caráter plebiscitário, sobretudo quando o prefeito atual concorre à reeleição. Em outras, a disputa se dá em torno de umas poucas famílias/ grupos dominantes. Em alguns lugares, os partidos influenciam mais a disputa. Em outros, vale o peso de lideranças carismáticas. Mas, em quase todas elas, candidatos e eleitores estão pensando nos problemas e soluções de sua cidade, de costas para o que acontece em outros lugares.

Não conheço candidato a prefeito que tenha sido vitorioso falando de temas nacionais ou concentrando seu programa em grandes questões doutrinárias. A última vez que a política nacional influenciou para valer uma disputa para prefeito foi em 1988, quando o Exército invadiu a CSN, matou e feriu trabalhadores. O evento, ocorrido poucos dias antes do pleito, comoveu o país e produziu uma maré de votos para os partidos de esquerda nas maiores cidades. Alguns analistas e parte da imprensa parecem não gostar da tendência ao municipalismo das eleições e buscam desesperadamente sinais de nacionalização. A premissa é que uma eleição municipal determinará a disputa de dois anos depois. 2008 teria que explicar 2010. Por isso, tanto espaço para os bastidores da escolha em Belo Horizonte. Por isso, a importância da disputa na cidade de São Paulo.

Por isso, o presidente deve influenciar decisivamente o pleito deste ano.Porém, as evidências dessa associação são tênues. Para ficar em um exemplo: em um estudo, comparei os votos obtidos por Lula em 2008 com os dos PT em 2006 e descobri que a associação estatística entre eles é praticamente inexistente.

Pelo que vi em outras campanhas e pelo que tenho acompanhado nesta, continuo convencido de que as eleições municipais são movidas basicamente pelos temas locais. Os atores externos à vida municipal têm quase sempre efeito marginal sobre o resultado final da disputa.

Quando sugiro que as coisas se passam assim ouço a pergunta inevitável: não será diferente com Lula? Não adianta lembrar que já houve uma eleição em 2004, no meio do primeiro mandato de Lula, e que os efeitos de seu apoio não foram tão expressivos.

A confusão talvez ocorra por conta do que cada um de nós chama de influência. Ou, como está na pergunta de hoje, o que cada um entende como "fator decisivo". Não duvido de que o apoio do presidente possa ajudar alguns candidatos a subir um pouco.

Em uma disputa muito acirrada,esses pontinhos podem até fazer a diferença. Mas isso não é o mesmo que dizer que o apoio do presidente é decisivo.

Dito de outra maneira: sem boas propostas para a cidade, sem ser reconhecido pelos moradores como uma liderança importante, sem conseguir criar uma conexão com eleitores, não há quem se eleja prefeito. Isso determina seu sucesso ou seu fracasso. O resto é, no máximo, efeito marginal.


JAIRO NICOLAU, 44, doutor em ciência política, é diretor de Ensino do Iuperj. Durante as eleições deste ano assina uma coluna na veja.com .

Em busca de um eixo


Marco Aurélio Nogueira
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Foi preciso que Soninha Francine, candidata do PPS à Prefeitura de São Paulo, associasse a Câmara Municipal paulistana a um “balcão de negócios” para que os eleitores se lembrassem de que existem vereadores na capital do Estado. Segundo a candidata, ali é bastante usual a prática de aprovar projetos em troca de cargos, favores e propina. Não foi propriamente uma declaração inédita ou contrária à voz do povo. Mas caiu como uma bomba no plenário do órgão.

A poucos dias do primeiro turno das eleições, os vereadores paulistanos assistem a um prolongamento constrangedor da situação de intransparência em que se encontram, como se entre o Palácio Anchieta e a cidade existisse uma névoa espessa a bloquear a visão dos cidadãos. A opinião pública é indiferente aos vereadores, que são por ela vistos como representantes de si próprios, incapazes de exercer papel positivo na vida urbana, no controle dos atos do prefeito ou no processamento das demandas da população. Poucos eleitores sabem em quem votaram nas últimas eleições, quem foi eleito e em quem votarão no próximo dia 5.

Entre os 55 vereadores paulistanos há, evidentemente, pessoas de mérito, combativas e verdadeiramente preocupadas com a cidade, a começar da própria Soninha, mas não somente dela. Mas estes políticos não parecem ter força e articulação suficientes para dar à Câmara maior peso e relevância, nem para desfazer a imagem negativa e a indiferença popular que a cerca. Se levarmos em conta a complexidade dos problemas urbanos de São Paulo, a dimensão da cidade e as tensões que atravessam o cotidiano de seus moradores, é fácil perceber o prejuízo que se tem com esta situação, que despoja a população de uma instância confiável de representação política.

Devemos, com certeza, relativizar o argumento, pois o problema não se esgota na referência a uma suposta má qualidade dos representantes. Tem que ver com o conjunto do sistema político e não pode ser compreendido fora dele. Expressa a resistência notável de uma cultura política de tipo clientelista e fisiológico que remonta ao Brasil colonial e se reproduz como praga pelas frestas da condição ultramoderna em que passamos a viver, ajudando a dramatizá-la e sendo ao mesmo tempo turbinada por ela. Reflete a perda de eixo das instituições políticas em geral, que ficaram vazias de poder, pobres de imaginação e impotentes diante da força do mercado e da fragmentação social, que não se deixa articular nem dirigir.

Olhando as coisas mais em detalhe, a situação é produto de um sistema eleitoral que personaliza as disputas e incentiva os candidatos a constituírem - para si, e não para seus partidos - nichos de legitimação e conquista de votos que, com o passar do tempo, acabam por corporativizar os parlamentares e atrelá-los a uma lógica particularista cega para o coletivo. Vítimas não inocentes deste sistema, os partidos são por ele arrastados e condicionados. Não participam das eleições como forças ideológicas ou programáticas coesas, não se comportam como expressão de um movimento orgânico dotado de opinião, mas somente como instrumentos de luta pelo poder. Enredados pelos fios perversos do sistema e perdendo inserção na sociedade, deixam de selecionar seus candidatos ou de submetê-los a alguma coerência. Basta dar uma espiada nos personagens que passam pela propaganda gratuita para que se visualize a gravidade da situação. O cenário é marcado pelo mais puro bestialógico.

Os programas eleitorais também dão sua contribuição. São mais midiáticos do que políticos ou educativos. Têm maior qualidade na parte dedicada aos candidatos a prefeito, mas são simplesmente patéticos quando se trata dos candidatos à Câmara. Tratam-nos como secundários, aprisionando-os em camisas-de-força que facilitam as coisas para os mais inexpressivos e tolhem os talentosos. Não abrem espaços para debates que valorizem o trabalho legislativo e expliquem à população a sua importância. Não fomentam a discussão substantiva nem dizem ao eleitor qual a relevância e a posição que tal ou qual candidato tem no partido a que está vinculado.

O círculo se fecha depois das urnas. O sistema não cuida da qualificação dos eleitos. Não agrega nada à bagagem técnica e política com que chegam à Câmara. As sessões plenárias são o que são, não há o que esperar delas. Mas algo poderia acontecer fora delas. No entanto, são raras as tentativas de reproduzir no Palácio Anchieta as iniciativas tomadas, por exemplo, pela Assembléia Legislativa de São Paulo e pelo Congresso Nacional para melhorar a formação e a atualização dos quadros parlamentares, tanto dos políticos quanto dos assessores. Cursos, seminários, debates, conferências, muita coisa poderia ser feita para dar maior consistência às bancadas e aos vereadores.

Haverá, certamente, quem questione este diagnóstico, considere-o exagerado e injusto para com as coisas boas que existem na Câmara. É inegável que lá dentro há vida inteligente e que ao longo do tempo os vereadores têm ajudado a escrever a história política e administrativa da cidade. A Câmara Municipal é um espaço estratégico mal aproveitado, um recurso carregado de potência represada e subutilizada. Tão logo encontre um eixo político que a organize e a politize de forma substantiva, produzirá resultados. Para que isso aconteça precisa entrar na agenda democrática, ser discutida, analisada, criticada.

No mínimo por ter destacado a questão, o alerta de Soninha veio em boa hora. Pode ter sido genérico e impreciso, mas criou um fato e deu aos eleitores uma oportunidade a mais para que reflitam sobre o voto que depositarão nas urnas em 5 de outubro. No curto prazo, não é de prever que a qualidade se altere a ponto de modificar o rumo das coisas. Mas oportunidades existem para serem aproveitadas, e é da concatenação delas no tempo que nascem as grandes transformações.

Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria Política da Unesp, é autor dos livros Em Defesa da Política (Senac, 2001) e Um Estado para a Sociedade Civil (Cortez, 2004)

Aécio prega novas alianças para o 'pós-lulismo'

Letícia Lins
DEU EM O GLOBO

Em Pernambuco, governador de Minas fala como candidato e diz que PSDB, PDT e PSB poderiam se unir em 2010

RECIFE. Em Pernambuco para dar apoio aos tucanos que disputam as eleições municipais, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), comportou-se sem disfarce ontem como candidato à Presidência, já de olho em 2010. Deu até o tom da campanha: o pós-lulismo. Ele argumentou que, fechadas as urnas de 2008, o PSDB vai buscar novos aliados - inclusive PSB e PDT - para que, juntos, construam um projeto para o país. Aécio disse não acreditar que nas eleições presidenciais ocorra a reedição da aliança que hoje sustenta o governo Lula:

- Até porque não cabe todo mundo lá dentro - ironizou. - Após as eleições municipais, o PSDB tem que construir um projeto para o Brasil. E aí poderemos ter novos aliados, que hoje estão no guarda-chuva de Lula, na sua base, mas que eventualmente não estarão apoiando uma candidatura do PT. O PSB e o PDT são alternativas. Acredito que, se apresentarmos um projeto ousado e otimista para o país, teremos, sim, condições de construir uma aliança para o pós-lulismo.

Aécio falou, inclusive, da possibilidade de se aproximar do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), um aliado fiel de Lula:

- Tenho grande identidade com Eduardo. Se isso vai nos possibilitar, no futuro, construir um projeto comum, o tempo é que vai dizer. Pessoalmente, gostaria muito - disse, quatro dias após reunir-se com o socialista em Belo Horizonte.

Para tucano, governo Lula deve gastar menos

Aécio condenou os políticos que fazem oposição gratuita:

- O que temos que fazer é qualificar a oposição. Não tem sentido para o PSDB, simplesmente porque perdeu as eleições, desdizer-se, ser contra questões que apoiava, como as reformas política e tributária.

Para o tucano, a oposição não deve se fincar no antilulismo.

- O presidente Lula cumpriu o seu papel. Uns acham que fez muito. Eu acho que fez um governo razoável. Mas a alternância do poder é salutar. O PSDB tem que apresentar e construir uma proposta pós Lula, que passe por reformas e introduza a questão da gestão pública qualificada na agenda do Brasil. Isso, infelizmente, ainda está a léguas de distância do governo que hoje está no Planalto Central. É preciso que o governo compreenda que a gestão de qualidade é necessária, que se gaste menos e melhor, e que se ouse nas reformas.

Auto-elogio e críticas ao governo federal

Para exemplificar o modelo de gestão que propõe, Aécio recorreu ao próprio governo e voltou a criticar o presidente:

- O PSDB tema visão da gestão moderna, gastando menos com a estrutura do Estado e mais com as pessoas. Lula se equivoca e traz um prejuízo ao Brasil no momento em que fragiliza as agências reguladoras, porque está inibindo investimentos importantes.

E recorreu ao auto-elogio:

- Modéstia à parte, digo que em Minas temos avançado muito mais do que avança o Brasil. No segundo trimestre deste ano, de acordo com o IBGE, enquanto o Brasil cresceu 6%, Minas cresceu 9,5%. Igual à China. Minas tinha déficit de R$2,5 bilhões. E hoje investe R$9 bilhões. O emprego formal no Brasil cresceu até julho desse ano 2,2%, comparado com o mesmo período do ano passado. Em Minas, esse crescimento foi de 6,1%. Tenho 15 secretarias. Eram 22. Não há desperdício.

Ele atacou

- Lá (em Minas) não há essa política que o governo federal ainda pratica, de criar cargos e ministérios, órgãos para acomodar companheiros. Em Minas, temos profissionalismo na gestão pública.

À beira do precipício


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. O momento político em Washington é tão confuso que a administração Bush, em fim de mandato, conta com o apoio da maioria democrata no Congresso, mas é bombardeada pela minoria republicana, especialmente na Câmara. Os relatos sobre a reunião da Casa Branca da quinta-feira revelam um presidente atordoado diante da agressividade de seus próprios congressistas, e da óbvia relutância do candidato de seu partido, senador John McCain, em aderir à proposta oficial. Ao contrário, o candidato oposicionista Barack Obama estava muito mais propenso a aceitar o pacote oficial como o início para uma ampla negociação bipartidária.

Uma negociação que jamais teve na Casa Branca um obstáculo, pois nunca houve um "pato manco" mais característico do que o seu atual ocupante. "Pato manco" (lame duck) é como os americanos chamam um político em fim de mandato que não tem condições de fazer seu sucessor. No Brasil diz-se que a esse político não se serve nem café frio no Palácio do Planalto.

Essa "síndrome do pato manco" é exatamente o que faz com que o candidato do partido que está no poder, John McCain, tenha como única chance de vencer a eleição se livrar dos laços partidários que o unem a George Bush, e o pacote de resgate do sistema financeiro é uma questão decisiva nessa percepção.

Como a crise é tão grave que não permite aos republicanos adotar o que defendem em teoria, isto é, a não-intervenção governamental e o estado mínimo, temas que rechearam os discursos na convenção que indicou McCain oficialmente em St. Paul, o que ele procura é uma saída que o separe do pacote oficial e o ligue a um novo pacote, que seria voltado para o cidadão comum, e não para os banqueiros.

Tanto o secretário do Tesouro, Henry Paulson, quanto o presidente do Banco Central, Bem Bernanke, viram logo no primeiro confronto com os parlamentares que não tinham força política para enfrentar a resistência inicial ao pacote que pretendiam fazê-los engolir em questão de horas.

Muitos viram na estratégia do medo que o governo Bush utilizou desde o primeiro momento uma repetição da postura que teve com relação à invasão do Iraque.

Desenhar um futuro cheio de perigos e ameaças para tirar do Congresso a aprovação ao pacote original, que dava superpoderes ao governo na definição da estratégia de compra dos créditos podres, e nenhum compromisso com o contribuinte que, em última instância, é quem pagará a dívida através do aumento do déficit público, era um objetivo politicamente inviável para um governo impopular em fim de mandato.

Mas, enquanto os democratas se dispunham partir da proposta governamental para melhorá-la, os republicanos, ao contrário, pretenderam transformar o pacote original enviado pelo Secretário de Tesouro, Henry Paulson, ao Congresso numa proposta do governo Bush e dos democratas.

A estratégia adotada pelos correligionários de McCain foi rejeitar a proposta da Casa Branca, e eles viram nessa "esperteza" uma possibilidade de virar o jogo a seu favor, mesmo que para isso tivessem que jogar ao mar o presidente Bush e toda sua assessoria econômica.

Eles não trabalham com a possibilidade de não fazer acordo nenhum, porque sabem que alguma coisa terá que ser feita para que a próxima semana não seja a semana do fim do mundo nos mercados financeiros internacionais, não apenas em Wall Street. Mas tentam fazer com que o pacote que afinal irá à votação provavelmente na próxima semana seja visto pela população como uma defesa dos interesses do cidadão comum, e não a proteção dos banqueiros.

Por isso insistem em que, em vez de usar os US$700 bilhões a fundo perdido para pagar pelos créditos podres, o governo apenas faça um seguro desses créditos. Mas, assim como não há certeza entre os economistas de que o plano original de Paulson daria certo, não há também a garantia de que o simples seguro dê ao mercado liquidez suficiente.

Para evitar uma intervenção governamental que pode levar a um prejuízo do contribuinte, o mais provável é que o governo se torne sócio das instituições financeiras que socorrer, o que permitiria uma perspectiva de recuperar o investimento a longo prazo, quando essas instituições tiverem se recuperado da crise.

Os democratas estão claramente à frente das negociações no Congresso, até mesmo porque têm a maioria nas duas Casas, e presidem as principais comissões. Mas, com a saída de Washington de John McCain, houve uma retomada do clima de negociações.

A presença dele impedia nitidamente que as conversas prosseguissem, pois todos os movimentos dos republicanos tinham a intenção de fortalecer sua candidatura, e, como não há uma liderança evidente neste momento entre os republicanos, cada um assume sua posição em público sem consultar os demais companheiros, todos querendo se mostrar mais defensor do que outros dos interesses da "main street" (no sentido de o homem comum da rua), e contra os gananciosos de Wall Street.

Esse será o mote da campanha republicana pós-crise, se for verdade mesmo que a crise aguda será superada com esse pacote. Uma estratégia que pode dar a McCain um fôlego a mais, mas mais provavelmente o colocará na beira do precipício.

O peso do contrapeso


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Sem a mais remota intenção de pregar o arremedo, os acontecimentos em curso nos Estados Unidos nesse período de campanha presidencial servem como aprendizado quando expostos ao cotejo com os usos e costumes políticos brasileiros.

Já tratamos aqui do processo de escolha de candidatos dentro dos partidos - uma eleição direta prévia, se comparada às nossas decisões restritas às conveniências das cúpulas partidárias - e ontem mesmo falamos sobre a consistência dos temas abordados lá, em contraposição às futilidades ditas cá por todos os candidatos sob o beneplácito de um eleitorado culturalmente refratário a cobranças insistentes.

O leitor José Augusto Neves percebe e sugere a abordagem de outro ponto de comparação: os termos da negociação do pacote de US$ 700 bilhões com o qual o governo George Bush pretende socorrer a quebradeira das instituições financeiras.

A despeito da urgência da situação, da proximidade das eleições e da condição sem nenhum conforto do candidato oficial, John McCain, as dificuldades para um acordo que permita a liberação do dinheiro vêm justamente do Partido Republicano.

Não porque os parlamentares pretendam criar dificuldades para individualmente “vender” facilidades à Casa Branca. Simplesmente está no DNA republicano a rejeição à interferência do Estado ao custo de dinheiro público.

Negar a autorização ao presidente está fora do cenário, mas o aval requer o estabelecimento de regras e garantias prévias, cuja negociação se dá à luz do dia. Existem, claro, detalhes atinentes à política interna e ao próprio momento eleitoral que nos escapam à compreensão.

Mas, grosso modo, o que se vê é um Poder Legislativo exercendo seu papel de contrapeso ao peso de eventuais arbítrios do Executivo. Os parlamentares, feios ou bonitos, “cuidam” do uso do dinheiro público antes de cuidar de seus próprios interesses.

Por critérios brasileiros, o primeiro deles seria a submissão inquestionável ao presidente, talvez não para preservar com ele as melhores relações, visto que Bush termina seus dois mandatos com altíssima rejeição popular. Mas, por isso mesmo, para “arrancar” benefícios individuais no momento difícil.

O segundo critério a ser levado em conta por aqui seria o fruto eleitoral: ninguém ia querer se arriscar a pagar a fatura da derrocada por causa de uma discussão árida sobre destinação de recursos públicos sem pagar um charmoso tributo a velharias ideológicas.

Terceiro ponto que não se vê lá é a criminalização do pensamento. Por aqui, nessas alturas, resistências e ponderações já estariam sendo qualificadas como crimes de lesa-pátria. No caso dos EUA, lesa-humanidade.

Isso sem contar que, se debate houvesse, seria sobre a medida provisória já devidamente editada ao arrepio da ilegalidade da concessão de créditos suplementares via MP. A Constituição proíbe, o Supremo recentemente convalidou a regra. Mas, o “vamos que vamos” local não leva em conta esses detalhes.

Balão

Gestos e palavras em defesa da liberdade de expressão têm sempre uma serventia. Mais não seja, a de reafirmar a eventuais incautos a consolidação desse valor na democracia brasileira.

Ainda assim, não se justifica o receio dos promotores de atos públicos e autores de artigos contrários à proposta do governo de quebrar o direito constitucional ao sigilo das fontes de informações, como forma de conter a onda de escutas telefônicas ilegais.
O governo não pretende de verdade investir na “mordaça”. Quando o ministro da Defesa, Nelson Jobim, falou disso na CPI dos Grampos, estava pressionado a provar que a Abin poderia ter grampeado o telefone do presidente do Supremo Tribunal Federal, e queria apenas mudar de assunto.

Tal proposta não passa no Congresso nem ao governo interessa esse inútil desgaste nas esferas mais informadas da sociedade, agora que a popularidade do presidente Lula entra de sola no patamar acima da classe média.

Causa própria

Não há nada de estranho no fato de o governador José Serra atuar nas campanhas de aliados do PSDB País afora, enquanto se mantém na encolha no primeiro turno em São Paulo.

As escaramuças paulistanas só lhe rendem confusão, mas quando aparece no programa de Fernando Gabeira, por exemplo, marca presença no Rio desde já pensando na eleição de 2010.

É claro que Serra não pretende orientar o voto do carioca, assim como Aécio Neves não acredita exercer influência sobre o eleitor quando anda pelas ruas de São Paulo na companhia de Geraldo Alckmin.

Não são os únicos a aproveitar a eleição municipal para aumentar seus respectivos índices de conhecimento no Brasil inteiro. Dilma Rousseff faz o mesmo em seu périplo de “ajuda” aos candidatos do PT.

De forma mais contida, copiam o modelo de Lula que há seis anos alimenta a própria fama.

O imperceptível rombo de bilhões


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

OS SUCESSIVOS SALTOS recordistas da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva furaram o teto baixo da sua modéstia e soterrou a vaidade da origem da criança nordestina que acompanhou a Dona Lindu, mãe de extraordinária fibra de lutadora e os irmãos na mudança de Garanhuns (PB) para São Paulo, onde iniciaria a escalada como líder sindical, fundador do Partido dos Trabalhadores, três vezes derrotado como candidato a presidente da República para emplacar na quarta tentativa, com o bis da reeleição.

De então para cá são reincidentes os escorregões na soberba. A gabolice não é virtude que enfeite biografia. E com freqüência arma arapucas e laços que surpreendem os incautos. Nesta crise financeira que dá volta no mundo, empurra ladeira abaixo os restos de popularidade do presidente Bush e ameaça uma "longa e dolorosa recessão" se o pacote de US$ 700 bilhões não chegar a tempo, o desempenho açodado e espalhafatoso de Lula é responsável por várias situações de constrangimento.

A mais penosa, à beira do ridículo, começou a ser montada com a precipitação com que tentou tamponar o estouro do pânico no país com a sua repercussão no equilíbrio financeiro, penosamente conquistado com aumentos da taxa de juros e o recorde de US$ 200 bilhões em caixa. O otimismo profissional dos autores da proeza, do ministro da Fazenda, Guido Mantega ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles contaminou o presidente Lula, que espalhou a boa nova com a ênfase de campanha eleitoral.

O recado foi repetido para vários auditórios, chegou ao respeitável público na sentença decorada e categórica: "a crise será quase imperceptível no Brasil". No embalo, o desfiar das múltiplas e sábias medidas adotadas pelo governo para consolidar a barreira de proteção contra a implosão das grandes empresas americanas com a quebradeira das firmas de investimento. Uma semana depois de o Banco Central voltar a vender dólares, liberou R$ 13,2 bilhões de compulsórios para melhorar a liquidez do sistema financeiro nacional. Medidas de prudência são as clássicas e só surpreenderam os que caíram no conto da farolice lulista.

Mas é na arena política que o presidente deslumbrado com a popularidade ultrapassa os limites da sua liderança para se intrometer na raquítica faixa da oposição. O episódio no jogo político estadual é preocupante ao sinalizar o estilo de campanha nacional que se vislumbra. Lula manda no PT e escolheu a ministra-candidata Dilma Rousseff sem dar confiança às bases petistas. Até aí, nada a estranhar. Mas na ida à Natal com a sua candidata para apoiar a candidatura de Fátima Bezerra à prefeita da capital do Rio Grande do Norte, repetiu a ameaça de voltar quantas vezes for necessário para garantir a derrota do senador oposicionista José Agripino Maia, líder da bancada do DEM, candidato à reeleição e seu desafeto pessoal, sem poupá-lo e aos seus ministros.

Ora, vamos tentar colocar a coisas nos seus lugares. É exato que o senador José Agripino destaca-se na mediocridade das duas Casas do Congresso pela insistência da sua oposição e a rispidez da oratória que, às vezes, escorrega além dos limites. E daí? Lula conta com ampla maioria na Câmara e apertada maioria no Senado. Não é um presidente largado às traças. E as acusações ao presidente da tribuna parlamentar devem ser respondidas na hora, pelo líder ou por qualquer membro da bancada situacionista. José Agripino Maia não é um parlamentar sem biografia, que caiu no plenário como suplente sem voto, na garupa do dono do mandato. A família Maia, de origem paraibana, há décadas vem firmando a tradição de militância da política potiguar. Tarcísio Maia, pai de José Agripino, foi governador do Estado, tal como seu tio, Lavoisier Maia. E o senador José Agripino escalou todos os degraus da longa militância, iniciada na sua juventude. Foi prefeito de Natal e duas vezes governador do Rio Grande do Norte. Seu tio, João Agripino Maia foi o governador da Paraíba que liderou a aprovação da emenda constitucional que estabelece gabaritos para as construções em toda a orla marítima do Estado ­ o que salvou João Pessoa da praga dos espigões.

O presidente Lula deve ter coisas mais importantes com que se ocupar do que os exageros oratórios do líder dos democráticos. Pois, se a moda pega, daqui a pouco estará batendo boca com vereadores. Em calão.

Otimismo preocupado


Cristovam Buarque
DEU EM O GLOBO

Esta é, certamente, a primeira vez que o Brasil atravessa uma crise mundial com certo grau de tranqüilidade na economia. Mas essa tranqüilidade nos faz esquecer as bases sobre as quais está assentada, e os riscos que ela ainda vai enfrentar.

Para muitos, parece que a tranqüilidade veio de repente. Na verdade, ela foi construída ao longo de diferentes governos. Não fosse o presidente Itamar ter feito o Plano Real, seu ministro da Fazenda Fernando Henrique ter-lhe dado a óbvia continuidade quando presidente e o presidente Lula ter mantido, responsável e competentemente, as mesmas bases, não haveria tranqüilidade. Três governos se sucederam como se houvesse um pacto implícito pela estabilidade financeira e monetária. Embora, no Brasil, o costume seja cada governo desfazer o que fez o anterior, há uma década e meia vêem-se os presidentes e ministros cumprirem as regras para uma economia sólida, assumindo inclusive gestos impopulares, como o superávit fiscal e o Proer. Mas também indo adiante, aumentando as reservas cambiais, sem o que estaríamos totalmente vulneráveis às flutuações lá fora.

Mas essa estabilidade não pode nos tranqüilizar totalmente. Precisamos manter um otimismo preocupado, diante da possibilidade de riscos à frente.

O maior deles são os gastos públicos. Graças a uma elevada arrecadação, tem sido possível manter o superávit primário. Não fosse o excesso de arrecadação, já teríamos déficit primário e a conseqüência imediata seria a desconfiança, que elevaria a taxa de risco, mandaria a taxa de juros aos patamares de antes, reduziria o fluxo de capitais vindos do exterior, derrubaria o nível de investimentos. Os gastos públicos são um problema porque crescem automaticamente, sem a possibilidade de que aumente ainda mais a carga fiscal. O sistema legal e a força das corporações impedem o controle fácil dos gastos públicos que crescem sem limites, ao passo que a arrecadação já está no seu limite máximo.

Outro risco está no sistemático déficit externo na conta das transações correntes. É impossível segurar reservas sólidas se esse déficit continuar. Ele deve ser coberto, seja pelo uso das reservas ou pelo aumento na taxa de juros, atraindo capitais voláteis que podem, a qualquer momento, migrar para outros mercados. A combinação de déficit nas contas externas com a volatilidade das divisas é um risco de altíssima periculosidade e gravidade. Mantém um equilíbrio frágil e dá proporções catastróficas ao desequilíbrio, se ele não for corrigido. Isso pode ser agravado pela falta de uma pauta de exportações de alta tecnologia - o que não temos base para fazer - ou pela necessidade de redução de salários, no estilo chinês - o que não devemos fazer. A opção pela desvalorização cambial teria efeitos negativos imediatos sobre a taxa de inflação.

Mas riscos os mais prováveis estão no médio e longo prazo; são estruturais. A baixa capacidade de poupança interna é um deles. A ganância fiscal reduz a capacidade da poupança privada. A preferência doentia do brasileiro pelo consumo, como uma quase aversão à poupança, impede a formação da poupança necessária. Some-se a isso o fato de que o governo é obrigado a consumir praticamente toda a sua renda, deixando quase nada para investimento público.

Outro risco é o grau de endividamento. Não somente o endividamento público, elevado na proporção do PIB; mais também o endividamento das pessoas, sob a forma de empréstimos diretos ou uso de cartão de crédito para financiar consumo. Apesar de já termos feito competentemente nosso Proer, e da perspectiva de que os bancos brasileiros tenham escapado da orgia suicida cometida pelos norte-americanos, é preciso acender a luz amarela para o risco que corremos, se esses endividados perderem a capacidade de pagamento, ameaçando a solidez de seus financiadores.

O Brasil vive uma tranqüilidade arriscada e não só por causa da crise externa, mas porque ainda precisa de bases mais sólidas.

CRISTOVAM BUARQUE é senador (PDT-DF).

Aécio fala em proposta 'pós-Lula' para 2010

Angela Lacerda
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), falou como candidato a presidente, em entrevista ontem no Recife. Ele disse que a campanha não deverá se centrar no antilulismo e sua grande tarefa será a de construir uma proposta pós-Lula, um projeto de Brasil que possa atrair aliados que hoje estão sob o “guarda-chuva” do presidente, como PSB e PDT, além do DEM, tradicionalmente parceiro tucano.

Em sua avaliação, o PSDB pode oferecer a esses partidos uma postura ética e eficiência na gestão pública - o que não seria oferecido pelo governo Lula. “Não temos a visão de que se governa apenas criando cargo para acomodar os companheiros”, criticou. “O PSDB tem a visão da gestão moderna, gastando menos com a estrutura do Estado e mais com as pessoas. Nossa visão de mundo é mais moderna.”

“Se o PSDB conseguir apresentar um projeto novo, otimista, moderno, ousado para o Brasil, temos condições de construir uma nova aliança para o pós-lulismo que seja boa para o Brasil, sem o radicalismo de hoje”, pregou, ao frisar que Lula se equivoca e traz prejuízo ao Brasil ao “fragilizar agências reguladoras”. “Isso está inibindo investimentos importantes em diversos setores.”

Aécio aposta em ética e gestão eficiente

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, fez questão de buscar se diferenciar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Aécio, o que o PSDB tem para oferecer à população em uma hipotética comparação com o PT é um legado de ética e eficiência administrativa.

“Não devemos centrar nossa campanha no anti-lulismo. Até acho que o presidente fez um governo razoável, mas não um governo ousado. Nós temos que ousar mais e introduzir no debate a questão da gestão pública qualificada, coisa que está muito longe do Planaldo Central”, alfinetou.

Segundo o governador, dizer que Lula vai discriminar municípios administrados por prefeitos tucanos é “terrorismo”. O conselho dado a Ricardo Teobaldo por Aécio, ainda no Clube Colombo – a de qualificar seus projetos de modo a “amarrar” o apoio do governo federal –, serviu para que Aécio fizesse uma provocação: “Conseguimos reduzir o número de crimes violentos em Belo Horizonte em 25%. Isso porque fizemos parceria com a prefeitura do PT. Não discriminei nenhum município do PT. Não aceito discriminação de qualquer tipo”.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1099&portal=

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Na reta final, investida geral na Zona Oeste


Fábio Vasconcellos e Ludmilla de Lima
DEU EM O GLOBO


Região que, com a Zona Norte, concentra 80% dos eleitores é alvo de Paes, Jandira e Gabeira para ir ao 2º turno

Integrantes do PMDB, do PV e do PCdoB já traçaram parte das estratégias de campanha para o último fim de semana antes das eleições. Amanhã e domingo, Eduardo Paes (PMDB) vai intensificar as visitas a bairros das zonas Norte e Oeste. A Zona Oeste também é o alvo de Jandira Feghali (PCdoB) e Fernando Gabeira (PV). As duas regiões da cidade concentram cerca de 80% do eleitorado carioca e costumam definir eleições. Além de bater o martelo sobre o roteiro, os coordenadores de campanha do PMDB orientaram Paes a evitar responder a qualquer provocação dos adversários, seja nas ruas ou na televisão.


Paes terá novamente a ajuda do governador Sérgio Cabral, que vai participar de eventos com o candidato no domingo. A intenção é ampliar a vantagem do peemedebista nas zonas Norte e Oeste. Cabral estará também na campanha de outros candidatos do partido na Baixada Fluminense, no interior e na televisão, pedindo voto para os vereadores do PMDB.


Gabeira vai almoçar em shoppings da cidade


A briga por uma vaga no segundo turno inclui estratégias inusitadas nesta reta final. Gabeira, por exemplo, promete ir a todos os shoppings da cidade, de olho no eleitor de classe média, que, segundo ele, poderá levá-lo à segunda fase.


- Nesta semana, vamos intensificar na classe média e vamos passar o sábado na Zona Oeste. Vamos intensificar onde somos mais fortes e vamos também reforçar onde somos ainda mais fracos - revelou. - Temos falado muito para a população no rádio e na televisão.


Gabeira planeja ainda investir mais o tempo em áreas de grande aglomeração. Segundo ele, a idéia é "não necessariamente falar com todo mundo, mas ser visto e ver todo mundo":


- Vou começar indo a calçadões e áreas de aglomeração, como praias no fim de semana. Mas, na última semana, o melhor caminho, e pela minha experiência histórica esta semana vamos ter chuva, é visitar todos os shoppings. Vou almoçar em cada um deles.


No sábado, a agenda será concentrada na Zona Oeste - Campo Grande e Santa Cruz. Estão previstas visitas a áreas de milícia, como a Favela do Barbante, onde o candidato já esteve. A grande novidade para esta reta final é o jipe apelidado de Gabeirão, que será utilizado nos deslocamentos.


Jandira vai reforçar campanha na Zona Oeste


Jandira Feghali vai investir até domingo na Zona Oeste. Ela, no entanto, promete intercalar as agendas na região com campanha em outras áreas da cidade. No domingo, por exemplo, vai às zonas Oeste e Sul. Mas o foco agora é o eleitor que ela classifica como "de menor grau de informação e renda".


- A Zona Oeste foi a área em que eu mais estive. Mas vamos intensificar em cima do carro (uma caminhonete), porque assim conseguimos atingir uma área maior - conta a candidata, argumentando que essa é a melhor forma de dar visibilidade à campanha e atrair os indecisos. - O eleitor decide quando ouve, fala com você. Quando você fala para ele, ele faz um recall das suas propostas. Não temos a visibilidade na rua como campanhas milionárias têm.


Jandira já vem reforçando o discurso popular nas favelas que têm visitado. A todo tempo, ela é citada como a candidata que pode derrotar "a elite que mora na Barra". Jandira também intensificou os ataques a adversários, principalmente a Paes, a quem chama de "almofadinha" e de candidato do governador Cabral, muito criticado por ela.


- Vamos governar para quem precisa, do lado de cá da Central - dizia Jandira, ao microfone, esta semana na Zona Oeste. - Quantas mulheres aqui dirigem kombis e são agredidas pela polícia do Cabral?


A candidata ainda repete a todo momento sua aliança de anos com o presidente Lula. O tema serve de pretexto para mais ataques a Paes:


- Chamavam o Lula de ladrão. Agora que ele está bem, chamam de amigo.


Sérgio Cabral começa o sábado numa caminhada em Duque de Caxias para ajudar o prefeito Washington Reis (PMDB). Vai ainda a Nova Iguaçu, São João de Meriti e Belford Roxo.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1098&portal=

Teatro político


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. O que seria um "dia histórico", com a reunião dos candidatos à Presidência e a cúpula do Congresso dos dois maiores partidos para chancelar, na presença do presidente George W. Bush, um acordo também histórico para aprovar um pacote de medidas econômicas destinadas a estancar a crise financeira nos Estados Unidos, acabou sendo tachado de "um teatro político". Tanto o democrata Barack Obama, que havia se comprometido a falar depois da reunião na Casa Branca, quanto o republicano John McCain, saíram por portas laterais para não encontrar os jornalistas. Relatos de participantes da reunião davam conta de um clima "de disputa", uma tensão que não estava prevista pela manhã.

A mudança repentina de humor coincidiu com a chegada do senador John McCain a Washington. Três horas antes do encontro "histórico", que colocou na mesma sala da Casa Branca, pela primeira vez, o presidente em exercício e os dois candidatos a sucedê-lo, líderes dos democratas e republicanos deram uma declaração conjunta comemorando a chegada a um acordo sobre o pacote econômico.

Antes mesmo de a reunião na Casa Branca terminar, porém, o senador Richard Selby, republicano do Alabama, dirigiu-se aos jornalistas nos jardins da Casa Branca para anunciar que não havia nenhum acordo assegurado.

Lá dentro, soube-se depois, a reunião se desenrolava em um ambiente inesperadamente disputado, em que os líderes republicanos colocavam-se contra a posição do presidente Bush, que presidia a reunião com uma aparência abatida.

A alegação dos democratas é que o eleitorado estava se manifestando muito fortemente, através de mensagens telefônicas e pela internet, contra o plano apresentado pelo secretário de Tesouro Henry Paulson.

O deputado Barney Frank, democrata de Massachusetts, presidente do Comitê de Finanças, que pela manhã anunciara o acordo, saiu da reunião na Casa Branca claramente irritado com a posição de McCain que, segundo ele, falou pouco e de maneira nada clara: "Não entendi qual é a sua posição", disse o deputado, insinuando que McCain não se posicionara justamente para não ter que assumir compromissos.

Os republicanos alegam que estão tentando fazer um pacote econômico que proteja "os interesses das famílias, dos idosos, do pequeno comerciante e de todos os contribuintes". Os democratas, que têm a maioria no Congresso, não querem aprovar o pacote sem a participação dos republicanos, mesmo que tenham votos para tal.

Mas, estão muito mais dispostos a ajudar a Casa Branca a encontrar uma saída para a crise do que os republicanos, especialmente mais empenhados na viabilização da candidatura de McCain. Com a crise econômica explodindo, a candidatura republicana ficou mais vulnerável, e voltou a cair nas pesquisas de opinião.

Ao mesmo tempo, os democratas no Congresso foram muito mais agressivos que os republicanos no início da discussão do pacote econômico apresentado pelo secretário do Tesouro e pelo presidente do Banco Central, Ben Bernanke.

Deve-se a eles a inclusão no pacote da proteção aos devedores de hipotecas e a redução de salário dos executivos das empresas que forem ajudadas.

Somente quando se convenceram de que o acordo que estava sendo encaminhado favoreceria aos democratas é que os republicanos passaram a boicotá-lo, mesmo com a pressão pessoal a favor do presidente Bush. A expressão abatida com que Bush apareceu na televisão, na abertura da reunião, é a melhor definição de sua fraqueza atual.

Um presidente impopular em final de mandato não recebe o apoio nem mesmo de seu próprio partido. Seu abraço é o de um afogado que pode levar ao afogamento o seu salvador. Seu beijo é o beijo da morte, nem os antigos aliados o querem.

Por isso, a reunião em plena Casa Branca foi tão tensa, e a tentativa de se chegar a um consenso antes da reunião, para que nela houvesse apenas a formalização dos acordos, foi atropelada, ao que tudo indica, por orientação do próprio John McCain, que resolveu tentar tirar partido da situação econômica que, até o momento, só o tem atrapalhado.

E a maneira como os republicanos, que se preparam para disputar também eleições na Câmara e no Senado, com previsão de serem atropelados pelos democratas, estão tratando a atual administração em fim de mandato mostra bem quem eles consideram culpado pela quase inevitável derrota de McCain.

Mas nem todo movimento que parece inteligente surte esse efeito junto ao eleitorado. A decisão de suspender a campanha presidencial e adiar o primeiro debate foi muito mal recebida, inclusive entre parte de seus próprios eleitores.

As televisões passaram o dia de ontem mostrando a reação de eleitores de diversos estados, a grande maioria acusando McCain de fugir da discussão e de estar menosprezando a opinião pública.

McCain também cancelou uma aparição no programa de David Letterman na CBS e foi duramente criticado pelo apresentador: "O que ele pretende fazer se houver uma crise quando for presidente? Adiar a Presidência?".

A ofensiva dos republicanos para retomar a dianteira nos debates sobre o pacote econômico tem a ver com essa tentativa de reverter a situação, levando à opinião pública a idéia de que a candidatura McCain não tem a ver com a administração Bush. Uma ginástica política com poucas probabilidades de dar certo.