(Pier Luigi Bersani, presidente do Partido Democrático da Itália, Assembleia Nacional do PD)
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
sábado, 28 de novembro de 2009
Reflexão do dia – Píer Luigi Bersani
(Pier Luigi Bersani, presidente do Partido Democrático da Itália, Assembleia Nacional do PD)
Marco Aurélio Nogueira :: O PT à esquerda
DEU EM O ESTADO DE S. PAULOCircula nos ambientes políticos a informação de que o PT pretende retomar um discurso de esquerda para as próximas eleições, fato que estaria a ser demonstrado por recentes declarações e documentos do partido.
Antes de saudar o fato, que pode contribuir para que se ganhe maior clareza no jogo político, é preciso avaliar a situação. O que indica ela? A presença de um movimento para enquadrar Lula, seu governo e sua candidata à sucessão, que carregam uma imagem centrista e moderada bem consolidada? Ou o desencadeamento de uma operação para reerguer o partido e voltar a inseri-lo nos trilhos originais, de onde escapou nos últimos anos?
Enquadrar Lula é algo de que não se deveria cogitar, pois ele se tornou, com o tempo, maior que o PT. Hoje segue carreira-solo, administrada por um seleto grupo de gestores leais e por uma imponente onda de culto e adoração popular, que impede até mesmo o exercício da ponderação, proíbe críticas e lhe concede oxigênio suficiente para dispensar maiores amarras e compromissos institucionais, incluindo os partidários. Seria como imaginar, mutatis mutandis, o enquadramento de um Fidel, um Jânio ou um Prestes.
Mas partidos de esquerda são seres condenados a explicar e justificar todos os seus passos. Nesse movimento, são sistematicamente tentados a reiterar convicções de antes, com as quais foram batizados e ganharam selo de identidade. Vivem de forma dilemática: precisam renovar-se sempre, mas não conseguem fazer isso com facilidade, pois as tradições pesam e muitos de seus integrantes se recusam a seguir as novas orientações, regra geral decididas e impostas pelas cúpulas.
Dá-se algo assim com o PT, que desde o final dos anos 1990 enveredou por um caminho reformista, expulsou parte de suas alas tidas como "radicais", chegou à Presidência da República e se converteu em expoente do universo social-democrata. Ao longo desse percurso, muitos erros foram cometidos, espocaram crises de identidade, diluições ideológicas e regressões fundamentalistas. Seria lógico, portanto, que suas direções se dedicassem a evitar a debandada dos militantes e eleitores saudosos dos velhos tempos, tanto quanto a atrair e soldar a adesão de novos seguidores.
A retomada de um discurso de esquerda pode ser vista como uma resposta a essa situação, uma estratégia direcionada mais ao público interno ampliado (militantes e eleitores) do que à sociedade. É como se as cúpulas partidárias estivessem a dizer: "Continuamos de esquerda, não nos abandonem, não esmoreçam!" - num apelo para que não se multipliquem eventuais fugas rumo ao PSOL ou à candidatura de Marina Silva, por exemplo.
É isso, mas não é somente isso. O PT também deseja se fazer presente nas campanhas de 2010, orientar seus candidatos, dar a eles combustível, recursos de combate e persuasão. Está a se movimentar para isso.
Se pensarmos em termos abstratos, típico-ideais, um partido cumpre essa meta em dois planos: olhando para as amplas massas e para o futuro.
No primeiro deles, elabora um kit de sobrevivência, um conjunto de princípios essenciais traduzidos em expressões simbolicamente eloquentes e de fácil manuseio, estilo Estado x mercado, projeto popular e democrático x projeto do Consenso de Washington, governo nacionalista e internacionalista x governo entreguista, o nosso Brasil x o Brasil deles, e assim por diante. É nesse plano que se apresentam as realizações governamentais, as virtudes do líder e de seus sucessores, os planos sórdidos dos adversários. A intenção, aqui, é organizar um guia para a ação e, acima de tudo, formar opinião. Sim, porque os eleitores precisam de formadores de opinião, mesmo quando são de esquerda.
No segundo plano, o partido elabora uma teoria da sociedade e da transformação social que julga a ela corresponder, determinando o lugar que ele próprio, o partido, e seu entorno ocupam nesse processo. É um plano sofisticado, que requer uma análise do mundo, a definição de estratégias de longo prazo e das alianças fundamentais, o reconhecimento claro dos obstáculos e das possibilidades concretas de mudança. Nele a simplificação não tem lugar e a agitação deve ser substituída pela argumentação.
Na dimensão típico-ideal, esses dois planos caminham juntos, retroalimentam-se. O partido fala para as massas com um discurso sustentado pela tradução criteriosa de uma teoria social consistente, que é corrigida e ajustada à medida que se obtém o feedback da sociedade.
Salvo avaliação mais aprofundada, o que parece estar a ocorrer no Brasil expressa uma disjunção desses dois planos, com uma concentração unilateral no primeiro deles. O PT está esquentando as turbinas para oferecer a seu "povo" o empuxo necessário para uma ação vitoriosa em 2010. Está a produzir armas de combate, agitação e identificação. Como seria mesmo de esperar.
Não há por que alguém ficar surpreso ou incomodado com isso, que é política em estado bruto, igualmente praticada pelos demais partidos. Os puros de espírito, as almas mais sensíveis poderão torcer o nariz para as acusações infundadas, os autoelogios extremados e passionais, as manobras exclusivamente para prejudicar inimigos e adversários. Terão de entender que política também é feita disso.
É feita disso, mas não só disso. Se o PT se julga ou pretende ser um partido de esquerda de fato, não pode permanecer estacionado no plano da agitação, do discurso fácil para as massas. Precisa ir além e acoplar a esse plano um segundo plano, de elaboração teórica, produção cultural e projeção do futuro, como, de resto, se espera que façam todos os demais partidos. Sem isso ficará no meio do caminho e não se completará como partido de esquerda. Poderá até ter sucesso e vencer em 2010, mas não contribuirá para integrar a sociedade, convencê-la da necessidade de uma reforma social e fornecer-lhe algo mais denso e duradouro do que um sonho para sonhar.
Marco Aurélio Nogueira é professor titular de Teoria Política da Unesp.
Merval Pereira:: Insensatez
A sensata posição do presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz Carlos Árias, de apoiar a eleição presidencial em Honduras que se realiza amanhã como a melhor saída para a crise institucional em que se envolveu aquele país desde que o presidente eleito, Manuel Zelaya, foi deposto do poder, cinco meses atrás, é um alento para a democracia na região e um corte na tentativa bolivariana, endossada pelo governo brasileiro, de reduzir à volta de Zelaya ao poder a possibilidade de a democracia sair vitoriosa.
Não há dúvida de que ambos os lados em disputa cometeram erros que levaram à crise, o presidente eleito seguindo a norma chavista, disseminada na América Latina, de alterar a Constituição através de plebiscito para tentar permanecer no poder.
O governo em exercício, considerado golpista pelo Brasil, Venezuela e vários outros países da região, por não ter respeitado as normas legais até os últimos detalhes para tirar Zelaya do cargo.
Houve um processo legal em que tanto a Suprema Corte quanto o Congresso atuaram dentro do previsto na Constituição, e o então presidente teve oportunidade de defender seus pontos de vista, que não foram aceitos.
Mesmo a prisão decretada do presidente está prevista na Constituição, por traição à Pátria, caracterizada pela tentativa de alterar uma cláusula pétrea constitucional através do abuso do poder presidencial.
Mas a deportação de Zelaya para o exterior, à força das armas de militares do Exército, foi uma clara exorbitância extra-legal que manchou o processo de deposição do presidente.
De lá para cá, Manuel Zelaya, com a ajuda do presidente venezuelano Hugo Chávez, tentou mobilizar a população hondurenha para retornar ao governo, mas pelo visto não tem a força que imaginava.
Retornou ao país clandestinamente, em uma operação acompanhada pessoalmente por Chávez, e fez-se "hóspede" do governo brasileiro na embaixada em Tegucigalpa, que o aceitou não como asilado político, mas como "abrigado", numa tentativa de criar um fato consumado para o governo de fato.
A tentativa não deu certo e Zelaya vai ficando cada vez mais isolado dentro de seu próprio país, que caminha para encontrar nas urnas a solução para o impasse político em que se encontra.
Se o ex-presidente da Câmara e presidente em exercício Roberto Micheletti tentasse permanecer no poder em vez de realizar as eleições que estavam previstas na Constituição, estaria caracterizado o golpe.
Como as eleições se realizarão aparentemente dentro da legalidade, o mais sensato é aceitar as peculiaridades da situação e pelo menos tentar que, através de eleições, o país retorne à normalidade.
Como se sabe, uma democracia não depende apenas da realização de eleições, e os constantes plebiscitos em diversos países da região mostram claramente isso.
Será preciso a garantia das liberdades individuais, da liberdade de imprensa, o funcionamento independente dos poderes Legislativo e Judiciário para que se caracterize a volta da democracia ao país.
O presidente da Costa Rica, Carlos Árias, chama a atenção para o fato de que as eleições de domingo devem ser monitoradas por organismos internacionais e ONGs para que não haja dúvidas sobre sua legalidade.
A partir daí, o novo governo vai precisar do apoio dos países da região, inclusive o Brasil, e dos órgãos internacionais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA) para conseguir que o país supere a crise institucional que vive.
O governo dos Estados Unidos evoluiu em sua posição inicial para aceitar o resultado das eleições de amanhã mesmo sem o retorno de Zelaya ao poder, uma condição que ainda permanece ponto de honra para o Brasil, a Venezuela e a maioria dos países da região.
Mas já existem defecções nessa posição rígida, com Colômbia, Peru, Panamá e agora Costa Rica caminhando para endossar a posição dos Estados Unidos, que continua sendo a referência geopolítica da região.
A intransigência do governo brasileiro, em vez de ser uma defesa de princípios democráticos como querem fazer crer o Presidente Lula e o chanceler Celso Amorim, não passa de uma tentativa desesperada de manter o controle político da situação, e de impor uma posição ideológica, que define democracia como melhor convém a seus parceiros.
Não seria preciso nem mesmo lembrar que o governo brasileiro apoia a ditadura de Cuba sem exigir nenhum tipo de compromisso democrático do aliado.
E nem ressaltar que o Ministro da Justiça teve a pachorra de afirmar, para justificar o refúgio dado a Cesare Battisti, que o governo democrático italiano era "fascista" e não oferecia garantias à integridade pessoal do terrorista, condenado por nada menos que quatro assassinatos.
Os pesos diferentes podem ser constatados aqui mesmo na América Latina, onde o governo brasileiro não vê nada demais na ação do presidente da Nicarágua Daniel Ortega, que alterou diretamente na Suprema Corte a Constituição para poder se reeleger, e vê uma conspiração política na decisão da Suprema Corte de Honduras de manter as acusações contra o ex-presidente Manuel Zelaya.
As reiteradas manifestações antidemocráticas do governo de Hugo Chávez na Venezuela, com o cerceamento da liberdade de expressão, a intervenção na economia, a manipulação de instrumentos democráticos como o plebiscito para ferir a própria democracia, a perseguição aos adversários políticos, a interferência nos outros poderes para controlá-los, tudo é desculpado pelo governo brasileiro, e o presidente Lula chega a dizer que na Venezuela existe mesmo é democracia demais.
Mas para o caso de Honduras não há uma flexibilidade que permita sair do impasse. O Brasil fica na estranha situação de torcer para que haja uma convulsão social em Honduras para provar que sua posição é a correta.
Dora Kramer:: Fora de hora e de lugar
DEU EM O ESTADO DE S. PAULODurante um ano e meio um grupo de sete juristas, todos especialistas em direito administrativo, preparou a convite do Ministério do Planejamento uma proposta de reformulação e atualização das normas que regem a administração pública.
A ideia seria organizar o setor de forma abrangente, incluindo os órgãos de fiscalização e controle, mas não só eles, adaptando à realidade e aos avanços da tecnologia uma legislação cuja base é de 1967 e os detalhes uma mistura nem sempre bem ordenada de regras superpostas de acordo com o entendimento dos governos que se sucederam nesses 42 anos.
Tudo caminhava dentro dos conformes e das balizas técnicas para o exame final da proposta na Casa Civil, Advocacia-Geral da União, Corregedoria-Geral da União e Ministério do Planejamento antes do envio ao Congresso, quando o presidente Luiz Inácio da Silva contaminou o processo.
No afã de afastar da ministra Dilma Rousseff a responsabilidade pelos resultados minguados do PAC, Lula comprou uma briga com o Tribunal de Contas da União, acusando-o de extrapolar na fiscalização e atrasar as obras.
Resultado: estabeleceu-se o conflito e, na primeira passada de olhos que os ministros de TCU deram no projeto, enxergaram nele uma tentativa de retaliação.
Um exemplo típico de como o debate eleitoral feito fora de hora e no lugar inadequado pode contrariar os interesses do próprio governo. Claro, os técnicos e os ministros que agora tentam amenizar o prejuízo não põem as coisas nesses termos.
Trabalham como podem. O ministro-chefe da AGU defende os órgãos de fiscalização dizendo que o presidente está mal assessorado, o ministro das Relações Institucionais corre para declarar que o controle não é "vilão" e o Ministério do Planejamento reúne os juristas autores do projeto para, no início de dezembro, explicarem a proposta aos ministros do TCU e os técnicos esclarecem.
Nada disso seria necessário se o presidente da República não confundisse o ato de governar com a missão de agitar eleitoralmente o ambiente.
Mas como desfazer o malfeito?
Tentando redirecionar o debate, mudando o discurso, explicando que a proposta ainda está em aberto, que são aceitas sugestões e, principalmente, que o objetivo não é subtrair prerrogativas de fiscalização, mas organizar um setor obsoleto.
Os dois pontos da discórdia são os seguintes: a instituição da fiscalização das obras depois de prontas como regra geral, à exceção de casos em que houver suspeita e, portanto, necessidade de auditorias no curso da execução; e uma alteração nos procedimentos em relação a entidades de direito privado.
O segundo item foi visto como uma tentativa de liberar os convênios de repasses de verbas da fiscalização. Segundo o secretário de gestão do Ministério do Planejamento, Marcelo Viana, os contratos e a aplicação do dinheiro continuam sob controle.
"O que muda é que os órgãos têm exigido dessas entidades procedimentos típicos do setor público, o que contraria a natureza delas e caracteriza ingerência num ente privado", diz Viana, que ressalva a possibilidade de alterações em todos os tópicos.
"Não é ainda uma proposta de governo. É uma sugestão elaborada por um grupo de especialistas independentes para dar um novo formato à administração pública, atualizando o que pode ser atualizado, acabando com o que não faz mais sentido e inovando no que for possível."
Pois muito bem. Sendo assim tão sóbria a questão, qual a necessidade de o presidente da República e até do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, sócio de Lula nas diatribes ao TCU, azedarem com política o debate?
Perna curta
O ministro Juca Ferreira disse que jornalistas são pagos para mentir. É uma suposição.
Já a mentira contada por ele - que é pago com dinheiro público - no Congresso, quando negou que o Ministério da Cultura tivesse financiado propaganda indevida de deputados, é uma constatação.
De manhã, em audiência no Senado, Juca Ferreira considerou a produção do material "um erro" e assegurou que sua pasta só havia emprestado a assinatura, sem empregar "um tostão" nele.
De tarde, era desmentido em nota do ministério.
Pretexto
O governo dá sinais aqui e ali de que o presidente Lula decidirá pela não-extradição de Cesare Battisti, sob a alegação de que o italiano ainda tem um processo (por uso de passaporte falso) a responder no Brasil.
Extraoficialmente usa o argumento de que a pressão da Itália foi indevida e ofensiva.
Enquanto isso solicita ao ministro Tarso Genro que dê ao mundo a graça do silêncio por um tempo.
Talvez na expectativa de que os italianos esqueçam as declarações recentes do ministro da Justiça sobre o "crescimento do fascismo" naquele país.
Cesar Maia :: Oposição e Federação!
DEU NA FOLHA DE S. PAULOCríticas sobre a passividade da oposição no Brasil são cada vez mais amplas. Listam-se uma série de desvios do governo Lula e um certo silêncio da oposição no dia a dia do governo.
Exceções escapam apenas uma vez ou outra nos grandes temas. Mas isso, para os críticos, não seria suficiente.
Num regime democrático, o eleitor elege uns para governar e outros para fiscalizar, fazer oposição. Uma oposição passiva reforça tendências autocráticas, com todos os riscos relativos. Nesse sentido, a política europeia é exemplar: não há carência. No dia seguinte à eleição, a oposição, mesmo a que foi governo no dia anterior, inicia sua ação questionadora.
Acua o governo no limite de suas promessas eleitorais e de sua natureza e erros no exercício do poder. No caso do Brasil, há um complicador: o regime federado.
É natural que boa parte dos principais quadros políticos dos partidos sejam os que apoiam o governo federal, ou os partidos de oposição estejam em governos estaduais e municipais. É como se o Executivo fosse o objetivo da carreira política. Natural num país onde a hegemonia do Executivo é cada vez maior.
Um certo imaginário popular e a própria imprensa, ao tempo que cobram uma oposição parlamentar firme, pedem que as relações entre prefeitos, governadores e presidente sejam passivas. A isso chamam colaboração em todos os campos. Ou seja: no nível dos Estados e municípios, a função administrativa deve prevalecer sobre a função política, e não serem instâncias próprias.
A democracia brasileira não consegue conviver com o que é práxis nas democracias desenvolvidas. Aqui as críticas políticas abertas não podem conviver com o entendimento administrativo. É visto como distorção. Com isso, parte dos principais quadros políticos da oposição é esterilizada quando se torna governadores e prefeitos.
E estes terminam por pressionar as suas bases parlamentares em nível federal para que elas tenham "paciência" e evitem o endurecimento.
O resultado não poderia ser outro: o debilitamento da oposição, numa relação híbrida, tendo a Federação de um lado, como amortecedor, e o Parlamento de outro, como acelerador. Talvez por isso o Senado tenha abandonado as suas funções constitucionais de representação da Federação. A democracia é afetada. O fato é que a liderança dos Executivos estaduais e das capitais sobre as suas bancadas acaba por fazer prevalecer a passividade da oposição, não como tática, mas como regra.
Carlos Lessa:: O Rio e a cultura
DEU EM O DIA/RJRio - Com urgência, é necessário que a administração pública da Cidade do Rio de Janeiro remova alguns dos obstáculos que instalou em relação à cultura popular. Por que, onde a calçada permitir, os botequins não podem colocar mesas e cadeiras fora do estabelecimento? Por que botequins e restaurantes não podem contratar música cantada ou instrumental?
Hoje, bares ou restaurantes com música ao vivo são considerados, oficialmente, “estabelecimentos de diversão”. E, na maioria dos quarteirões, é oficialmente proibido o funcionamento de estabelecimentos de diversão.
Por que não converter as feias empenas de edifícios e os muros escalavrados em suportes da atividade plástica de grafiteiros e muralistas populares? Seria possível com poucos recursos e algum incentivo tributário “vestir” o Rio de Janeiro com cores e fazê-lo museu dinâmico, de arte popular, a céu aberto.
Por que não ocupar as praças do Rio nos fins de semana com atividades culturais múltiplas? Teatro infantil, mamulengo, aulas e exposições de fotografias, filmes, artes plásticas, leituras teatralizadas de contos, declamações de poesia, apresentações de múltiplos talentos. A praça seria o espaço, próximo à residência, onde os cariocas interatuariam com os bens culturais.
Creio que tudo isso poderia ter um fecho de ouro com bailes dançantes à luz das estrelas. Com facilidade e pequeno orçamento, o poder público poderia promover a conviviabilidade dos vizinhos com um ambiente multicultural.
Este seria o antídoto da cidade contra a propalada violência. De um Rio de Janeiro de novo na vanguarda cultural do País.
Serra exalta Castanhão e Porto do Pecém
DEU NO DIÁRIO DO NORDESTE (CE)O presidenciável tucano chegou atrasado ao compromisso com os empresários e evitou falar sobre sucessão
Convidado para ministrar palestra a empresários do Ceará, em comemoração aos 90 anos do Centro Industrial do Ceará (CIC), o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), chegou ao Estado, ontem, sem intenção de responder qualquer questionamento relacionado à campanha presidencial, que ele diz ter sido antecipada pelo PT em todo o País. Serra, porém, tentou alavancar sua imagem citando obras importantes para o Ceará que ele mesmo ajudou a construir quando comandou os ministérios da Saúde e do Planejamento no Governo Fernando Henrique Cardoso.
Em vários momentos, o tucano reafirmou que não está em "ritmo de campanha eleitoral" e que sua visita a Fortaleza não iria ser usada como palanque. "Não tenho intenção de apresentar plataforma de Governo. Não estou focado nisso agora. Acredito que debater isso aqui não é campanha", disse ao final de sua fala aos empresários do CIC.
José Serra tentou desmistificar a ideia de que ele não gosta do Ceará, o que para os tucanos é uma imagem criada pelo PT para alavancar a campanha de Dilma Rousseff (PT) no Estado. "Sou um político nacional”.
Depois da palestra, José Serra concedeu rápida entrevista, que durou pouco mais de cinco minutos, momento em que afirmou não ter visto nenhuma queda relacionada a ele nas pesquisas eleitorais. Embora uma pesquisa CNT/Sensus tenha constatado este fato, no início da semana. "Eu não vi queda. Pesquisa é a fotografia do momento".
Apesar de garantir que não estava adiantando discursos visando planos de gestão nacional, José Serra fez questão de ressaltar vários projetos realizados no Governo de São Paulo que, segundo o tucano, podem ser tomados como exemplo pelo Governo Federal, como a construção de estradas e a renego-ciação de dívidas.
José Serra dividiu sua palestra aos empresários cearenses abordando assuntos ligados à política macroeconômica, financiamento público, obras estruturantes, segurança, saúde e educação. O tucano evitou críticas ao presidente Lula, mas fez comparações entre obras e projetos da atual gestão apontando falhas e sugestões.
Rumo a 2010: Serra diz que é "político nacional"
O governador de São Paulo, José Serra, um dos pré-candidatos tucanos à Presidência, disse no Ceará que é um "político nacional" e lembrou sua gestão como ministro de FHC. O senador Tasso Jereissati (PSDB), que o acompanhava, disse que Lula "inventou" a candidata Dilma Rousseff, que tem mais exposição que Xuxa e Roberto Carlos.
Cebrap celebra sua "epopeia" nos anos 70 e vê presente incerto
Livro sobre 40 anos da instituição reúne entrevistas com intelectuais e expõe divergências sobre gestões FHC e Lula
Fernando De Barros E Silva
Em maio de 1994, Fernando Henrique Cardoso, então candidato à Presidência da República, foi à USP para fazer uma conferência a respeito dos "Desafios Teóricos dos Anos 70". Comemorava-se o aniversário de 25 anos do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), do qual o sociólogo havia sido o principal idealizador e um dos fundadores, em 1969.
O sociólogo Francisco de Oliveira, à época eleitor de Lula e então presidente do Cebrap, não gostou nada do que ouviu ali. Achou que o amigo havia misturado a história recente do país com sua própria trajetória intelectual e política, de tal forma que tudo confluía para o colo da sua candidatura.
Chico deixou a sala contrariado e os dois ficariam um bom tempo sem trocar palavras. No ano seguinte, quando FHC iniciava seu voo à frente do país, Chico se desligava do Cebrap.
"Quanto mais Fernando ia para a política, mais Chico insistia em dizer que Fernando estava traindo." São palavras do filósofo José Arthur Giannotti, também fundador do centro, numa das entrevistas do livro "Retrato de Grupo - 40 Anos de Cebrap", que acaba de ser lançado pela Cosac Naify.
Organizada pela atual presidente do Cebrap, Paula Monteiro, e pelo editor da revista "Novos Estudos Cebrap", Flávio Moura, a obra reúne 11 entrevistas com membros ligados à instituição e conta ainda com três ensaios em homenagem a Ruth Cardoso, Cândido Procópio Ferreira de Camargo e Vilmar Faria, já mortos.
Na última terça, durante o lançamento do livro, FHC e Chico de Oliveira voltaram a debater diante de 800 pessoas. Alguns temiam faíscas no palco. Houve, porém, um esforço nítido para deixar as diferenças de lado. O clima foi de camaradagem e de celebração, o oposto daquele visto 15 anos atrás.
Tintas heroicas
Divergências e cumplicidade. Essas duas palavras resumem bem o espírito dessa obra comemorativa a respeito de um capítulo importante da história intelectual (e política) do Brasil. O documentário em DVD que acompanha o livro, dirigido por Henri Gervaiseau, reproduz parte das entrevistas. No filme, fica mais explícita, como se pedisse para ser dramatizada, a construção de uma história coletiva e comum pela fala de cada um dos entrevistados.
O que se ouve e lê nos depoimentos é quase uma epopeia, descrita com tintas algo heroicas e marcada por discernimento intelectual e coragem política quando parecia difícil conciliar esses dois traços. "Você não pode imaginar o que era o Cebrap nos anos 70.
Isso aqui era o paraíso (...). O Cebrap sempre apostou na democracia. Era muito difícil porque você estava sufocado por todos os lados." Essa fala de Chico resume o diagnóstico que é de todos. E os depoimentos tornam evidente que, a despeito do sentimento de grupo, a atuação de FHC funcionou ali como farol da instituição.
Há, sintomaticamente, pouca discussão e análise a respeito dos anos 1980 e 90. É uma espécie de silêncio incômodo diante da impossibilidade de dar sequência à narrativa comum.
O crítico Rodrigo Naves, responsável pela revista do Cebrap entre meados dos anos 80 e dos 90, diz: "A pedra de toque daqui era o desejo de mudar o Brasil. Era, porque houve aqui o canto do cisne dessa vontade de mudar o Brasil".
O ajuste dessa vontade genuína às condições do presente é, talvez, o aspecto mais revelador do livro. Ninguém se entende a respeito do significado histórico dos governos FHC e Lula, nem sobre a relação entre eles. Houve ruptura, diz o economista Paul Singer, "basicamente no campo social". Mesmo as políticas que começaram nos anos FHC "mudaram completamente de ênfase, de dimensão e de efeitos na época do Lula", diz Singer, secretário nacional de Economia Solidária.
"O governo do Lula é pior que o do Fernando Henrique. Lula é uma regressão política, propriamente. O governo do Fernando Henrique era uma virada à direita", acusa Chico. São governos de "atualização capitalista", que "têm pé e cabeça, ao contrário dos anteriores, que não tinham direção", diz o crítico Roberto Schwarz, que, no entanto, defende que o intelectual de esquerda deve guardar distância do poder.
"O que me parece errado é adotar uma visão rósea do curso geral do capitalismo porque o Brasil está com o vento a favor ou porque temos amigos no governo", diz Schwarz. Ter esse discernimento intelectual e manter essa distância da política talvez seja hoje o mais difícil.
Arias pede à comunidade internacional que reconheça eleição hondurenha
Ruth Costas, TEGUCIGALPA
O presidente da Costa Rica, Oscar Arias, mediador das tentativas de acordo entre o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, e o governo de facto, pediu ontem que a comunidade internacional reconheça o resultado das eleições presidenciais hondurenhas, caso a votação de domingo ocorra sem incidentes. O pedido é um duro revés para Zelaya, que vê na votação uma forma de legitimar o golpe contra seu governo e defende a abstenção.
Arias foi quem propôs o chamado Acordo de San José numa tentativa de acabar com a crise em Honduras. O principal ponto do pacto era a restituição de Zelaya ao poder, mas ele acabou fracassando e foi substituído pelo Acordo San José-Tegucigalpa, que diz que o Congresso deve se pronunciar sobre o tema, mas não estipula uma data-limite para isso.
Arias segue o conjunto de países dispostos a reconhecer as eleições, que também inclui os EUA, a Colômbia e o Panamá. A comunidade internacional está dividida sobre o tema. Na América Latina, o bloco dos que consideram a votação ilegítima reúne Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Venezuela, Equador e Nicarágua.
Ao sair ontem da reunião do Conselho de Defesa da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), em Quito, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse que as eleições convocadas em Honduras refletem "um enfraquecimento" da Organização dos Estados Americanos (OEA). "Esse enfraquecimento é uma razão a mais para que se trabalhe em organismos como a Unasul", afirmou Amorim.
A divisão, porém, também se estende aos países do bloco sul-americano. Ontem, o presidente do Equador, Rafael Correa, disse que a Unasul não reconhecerá as eleições hondurenhas. "A decisão está tomada", afirmou Correa.
Peru e Colômbia, que também fazem parte da Unasul, não concordaram. "Se vamos reconhecer as eleições? Por que não?", disse o chanceler peruano, José García Belaúnde. "Todos os países de América Latina saíram de ditaduras por meio de processos eleitorais conduzidos por governos que não eram democráticos."
Candidato favorito acena com aproximação com o Brasil
""Pepe"" Lobo diz que se for eleito pedirá ao governo brasileiro que revise sua decisão de não reconhecer votação
Ruth Costas, TEGUCIGALPA
O candidato favorito nas eleições hondurenhas, Porfírio "Pepe" Lobo, tentou ontem fazer um aceno ao governo brasileiro, que se recusa a reconhecer a votação de domingo. Lobo disse que, ser for eleito, uma de suas primeiras medidas será entrar em contato com o Brasil para pedir uma revisão de sua decisão de não reconhecer as eleições hondurenhas. "O Brasil é um país estratégico", afirmou ontem, numa entrevista para a imprensa estrangeira. "Vou procurar o presidente Lula para que ele reflita sobre sua posição."
O candidato também disse ter muita admiração pelo governo brasileiro e citou o caso do programa Bolsa-Família e a "política de investimentos sociais com responsabilidade fiscal". Ao ser questionado sobre se tinha em Lula um modelo, ele respondeu que considera o brasileiro "um bom presidente" e gosta do modo "como ele lida com as coisas".
Isso, obviamente, não se estende à posição brasileira no que diz respeito às eleições. A votação hondurenha dividiu a comunidade internacional entre aqueles que se dispuseram a aceitar seu resultado como a solução para a crise e os que não a reconhecem. O Brasil rompeu relações diplomáticas com Honduras após o golpe que destituiu o presidente Manuel Zelaya, em junho, e acredita que a votação de domingo legitimará esse movimento.
"Pepe" Lobo pertence ao Partido Nacional, de direita, e tem 37% das intenções de voto, segundo pesquisa do instituto Gallup. Em segundo lugar, com 21%, está Elvin Santos, do Partido Liberal, o mesmo de Zelaya e do presidente de facto, Roberto Micheletti.
Lobo, de 61 anos, foi presidente do Congresso de 2002 a 2006 e deputado por mais de 10 anos. Formado em administração pela Universidade de Miami, nos EUA, ele vem de uma família tradicional de políticos, com negócios no setor agropecuário. Em 2005, perdeu a eleição para Zelaya, apesar de ter obtido 46% dos votos.
Nas últimas semanas, Lobo vem tentando se afastar da figura do governo de facto e da polêmica sobre o golpe. "Sou de oposição. Não me importa Zelaya ou Micheletti - quero tirar os dois daí", afirmou ontem. "Meu interesse é que a situação em Honduras volte à normalidade."
O candidato disse que, se vencer as eleições, está disposto a impulsionar um diálogo nacional por meio de negociações das quais Zelaya também participaria, mas se recusou a dizer se daria uma anistia ao presidente deposto ou mesmo se é a favor de sua restituição pelo Congresso depois da eleição. Sua maior preocupação agora é com a aceitação do resultado da votação pela comunidade internacional. "Vou bater até na porta do rei da Espanha se for necessário", disse, ao ser questionado sobre o tema por jornalistas europeus.
Isolado, Zelaya já admite se exilar
Líder deposto estuda pedir asilo à Nicarágua após fim de mandato
Ruth Costas, TEGUCIGALPA
O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, já pensa na possibilidade de sair da embaixada brasileira para exilar-se. A informação foi dada ao Estado por uma fonte próxima de Zelaya, que pediu anonimato.
A saída - que parece a alternativa mais provável caso não haja avanço na solução do impasse hondurenho - ocorreria em 27 de janeiro, quando termina o mandato de Zelaya e ele se torna uma espécie de "peso morto" na representação brasileira.
Segundo a fonte, entre os países que poderiam receber Zelaya está a Nicarágua - governada pelo esquerdista Daniel Ortega. O Brasil, por enquanto, não é cogitado, ainda segundo a fonte, "provavelmente por ser um país distante e caro".
À medida que as eleições gerais se aproximam, Zelaya está cada vez mais isolado. O governo de facto continua ameaçando os zelaystas o que, juntamente com a lembrança da violenta repressão dos últimos protestos, está levando muitos deles a desistir de sair às ruas.
Em entrevista ao Estado, o presidente deposto demonstrou um grande desapontamento com o fato de os EUA e outros países estarem dispostos a reconhecer as eleições - o que, na prática, legitima o golpe que o tirou do poder. "Essa manobra antidemocrática serve para encobrir os autores do golpe", afirmou Zelaya. Ontem, até o presidente da Costa Rica, Oscar Arias, mediador da crise, disse que aceitará a votação.
DESÂNIMO
Em Tegucigalpa, as manifestações de apoio a Zelaya nos últimos dias têm sido esporádicas. A Universidade Nacional Autônoma de Honduras foi tomada na quinta-feira por estudantes, numa tentativa de impedir a colocação de urnas no local.
Mas com muitos pontos da capital repletos de militares, simpatizantes de Zelaya não demonstravam muito empenho para organizar um grande protesto para amanhã.
Pelo contrário. O jornal El Libertador, zelaysta, trazia na capa um apelo do Comitê para a Defesa dos Direitos Humanos em Honduras (Codeh) para que a população não saia de casa no dia da votação. Segundo o Codeh, há "provas do funcionamento de centros de concentração paramilitares que planejam um massacre de mais de mil pessoas no domingo".
"Um líder da resistência foi morto no Departamento del Valle na segunda-feira e todos estamos recebendo ameaças", denunciou Eulógio Chávez, líder da associação de professores e membro da Resistência Democrática, que defende Zelaya.
Com relação às eleições, o presidente deposto preferiu não se manifestar a favor de nenhum partido, mas mesmo assim acabou envolvido na disputa. O esquerdista Partido Unificação Democrática, cuja plataforma também inclui a reforma da Constituição, rompeu com Zelaya para manter suas candidaturas, pois acreditava que o contrário poderia significar sua "morte política".
Dentro da embaixada, o número de simpatizantes de Zelaya é cada vez menor. Quando ele pediu abrigo, em 21 de setembro, estava acompanhado por 70 pessoas. No dia seguinte, havia 300 zelaystas no local. Hoje, há apenas 23 pessoas, segundo encarregado de negócios Francisco Catunda Resende.
A redução do número de "hóspedes" é resultado, em parte, dos esforços feitos por representantes brasileiros, que pretendiam melhorar as condições dentro da embaixada e aplacar as críticas de que o local estaria servindo de palanque político para o presidente deposto. "De fato, as condições estão muito melhores e boa parte das pessoas já está conseguindo dormir em sofás ou colchões infláveis", disse Catunda.
Os serviços administrativos e consulares estão sendo feitos na casa de Catunda. Com a eleição de um novo presidente em uma votação não reconhecida pelo Brasil, há incertezas sobre o que acontecerá com a embaixada brasileira. A princípio, o Brasil não deve manter relações diplomáticas com o novo governo. Segundo rumores, uma das possibilidades é que a embaixada seja fechada ou transformada em consulado ou escritório de interesses, para atender aos cerca de 500 brasileiros que vivem no país.
Mujica fará governo de alianças, diz analista
Eleição de amanhã, à qual o ex-guerrilheiro chega como favorito, encerra o período de "carta branca" para a Frente Ampla
Para o pesquisador Óscar Bottinelli, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle perdeu o status de grande estadista durante a atual campanha
Silvana Arantes
A eleição presidencial no Uruguai, que realiza amanhã o segundo turno entre o candidato de esquerda José Mujica (Frente Ampla) e o de centro-direita Luis Alberto Lacalle (Partido Nacional), manterá a coalizão de esquerda no poder, mas remodelará o jogo de forças partidário.
A opinião é do analista político Óscar Bottinelli. "Mujica fará um governo mais normal em termos de negociação política do que foi o de Tabaré Vázquez [atual presidente], que teve carta branca da coalizão", diz.
O analista é também professor titular do Instituto de Ciência Política da Universidade da República e diretor do instituto de pesquisas Factum. Segundo levantamento do instituto, Mujica será eleito com 51% dos votos, contra 42% de Lacalle.
O respaldo partidário ao presidente é fundamental no Uruguai, onde vigora o sistema "semiparlamentar", como assinala Bottinelli. O mandatário depende do aval do Congresso para designar ministros e dirigentes das empresas estatais.
Vázquez governou enquanto a Frente Ampla tinha maioria absoluta no Parlamento e apoiou sem condições suas escolhas. Bottinelli estima que, embora Mujica tenha tomado de Vázquez a presidência do partido, não desfrutará da mesma "carta branca" e terá de compor com diversos setores do partido, inclusive o de seu vice, Danilo Astori, derrotado por Mujica nas primárias.
A Frente Ampla voltou a garantir maioria parlamentar nas eleições de 25 de outubro. Embora vitorioso, o partido governista teve votação menor do que na eleição anterior, tendo caído de 52 deputados para 50. O professor vê nessa queda "a expressão da discordância de parte do eleitorado com o governo". Um dos fatores de desgaste da gestão Vázquez seria sua "nula capacidade para negociar com a oposição", diz.
EstadistaA mensagem que os eleitores enviaram ao candidato opositor foi mais dura. Lacalle, que foi presidente entre 1990 e 1995, "perdeu a imagem de maior estadista uruguaio em atividade, que tinha antes da eleição", avalia Bottinelli.
Além de encolher -de 34% dos votos na eleição de 2004 para 29% no primeiro turno neste ano-, o Partido Nacional viu seu mais tradicional rival, o Partido Colorado, "que parecia destinado ao desaparecimento", conforme diz Bottinelli, emergir fortalecido das urnas. Os colorados subiram de 10 para 17 em número de representantes no Parlamento.
"Na segunda-feira, é provável que o Partido Nacional entre numa fase de dificuldades internas grandes e questionamento à liderança de Lacalle", diz o analista. Se confirmada sua derrota na disputa presidencial, Lacalle assumirá como senador, acumulando a presidência de seu partido.
Ontem, os candidatos passaram o dia descansando. Há veto à propaganda eleitoral às vésperas da eleição. Para hoje, preveem encontro com a imprensa estrangeira. Lacalle se reúne também com observadores internacionais do pleito.
Paul Krugman: Tributar os especuladores
DEU NA FOLHA DE S. PAULOUm imposto sobre transações financeiras não resolveria todos os problemas, mas teria ajudado a prevenir a atual crise
SERÁ QUE deveríamos usar impostos para reprimir a especulação financeira? Sim, dizem as principais autoridades encarregadas de fiscalizar a City de Londres. Outros governos europeus concordam -e eles estão certos.
Infelizmente, as autoridades econômicas dos EUA se opõem frontalmente à proposta. Seria de esperar que reconsiderem: um tributo sobre as transações financeiras é uma ideia cuja hora, enfim, chegou.
A disputa surgiu em agosto, quando Adair Turner, o principal encarregado da regulamentação financeira no Reino Unido, apelou por um imposto sobre transações financeiras de maneira a desencorajar atividades "socialmente inúteis". Gordon Brown, o premiê britânico, decidiu encampar a proposta.
Por que a ideia é boa? A proposta de Turner e Brown é uma versão moderna de um conceito proposto originalmente em 1972 por James Tobin, economista da Universidade Yale e ganhador do Nobel de Economia. Tobin argumentava que a especulação cambial -dinheiro movimentado internacionalmente para a realização de apostas quanto a taxas de câmbio- estava exercendo efeito perturbador sobre a economia mundial. Para reduzir as perturbações, ele apelou por um pequeno imposto sobre cada transação cambial.
Um tributo como esse representaria despesa trivial para as partes envolvidas em comércio internacional ou investimento em longo prazo, mas representaria forte desincentivo aos agentes que estivessem tentando ganhar dinheiro rápido ao adivinhar os movimentos do mercado em prazo de alguns dias ou semanas. O imposto, como afirmou Tobin, "jogaria areia no bem lubrificado mecanismo da especulação".
O principal argumento oferecido pelos oponentes de um imposto sobre transações financeiras é que ele seria impraticável, porque os operadores sempre encontrariam uma maneira de evitá-lo. Há quem alegue que o imposto tampouco faria muito para impedir o comportamento daninho que causou a atual crise.
Quanto à alegação de que é impossível tributar transações financeiras: os modernos mercados são instituições altamente centralizadas.
Embora os operadores possam estar espalhados, a maioria das transações é liquidada -ou seja, paga- em uma instituição em Londres. Essa centralização serve para manter baixo o custo das transações, exatamente o fator que torna a especulação pesada possível. Mas também tornaria mais fácil identificar e tributar as transações em questão.
E quanto à alegação de que um imposto sobre as transações financeiras não estaria resolvendo o verdadeiro problema? É verdade que não teria impedido as instituições financeiras de realizar maus empréstimos, ou os investidores crédulos, de adquirir lixo tóxico lastrado por eles.
Mas os maus investimentos não são toda a história, na atual crise. O que transformou esses maus investimentos em catástrofe foi a excessiva dependência do sistema financeiro quanto a dinheiro de curto prazo.
Por volta de 2007, o sistema bancário dos EUA havia se tornado dependente de transações conhecidas como "repo", sob as quais instituições financeiras vendem ativos a investidores, mas prometem recomprá-los em curto prazo. Os prejuízos com os empréstimos hipotecários de risco ("subprime") e outros ativos deflagraram uma crise bancária porque solaparam esse sistema -houve "corrida aos "repo"".
E o imposto sobre transações financeiras, ao desencorajar a dependência de financiamento em prazo ultracurto, teria tornado uma corrida como essa menos provável. Assim, um imposto como esse teria ajudado a prevenir a atual crise -e pode nos ajudar a impedir uma futura repetição.
Será que um imposto Tobin resolveria todos os nossos problemas? Não. Mas poderia ser parte do processo de encolhimento de nosso inchado sistema financeiro. Quanto a isso, o governo Obama precisa libertar sua mente do jugo de Wall Street.
Paul Krugman , economista, é colunista do "New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA).
Brasil se abstém na condenação do Irã
A Agência Internacional de Energia Atômica aprovou, com apoio de 25 dos 35 países votantes, uma condenação ao programa nuclear do Irã, exigindo que o país interrompa a construção de usina nuclear considerada suspeita. Até Rússia e China, aliados do Irã, endossaram o texto; o Brasil se absteve. O embaixador na AIEA, José Guerreiro, justificou: “Ninguém faz concessão sob pressão.”
Irã isolado, mas não pelo Brasil
Agência da ONU censura programa nuclear, faz exigências e remete caso ao Conselho de Segurança
Os representantes dos 35 países da Agência Internacional de Energia Atômica da ONU se reúnem: forte censura ao Irã
VIENA
OIrã recebeu uma forte censura da imensa maioria da diretoria da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU, que aprovou uma firme resolução de rechaço ao programa nuclear do país. Ao todo, 25 dos 35 países votaram a favor de exigir a interrupção da construção de usinas nucleares suspeitas de produzir armas atômicas, e de mandar o assunto para o Conselho de Segurança da ONU, com o apoio irrestrito de antigos aliados do Irã, como Rússia e China. Um dos poucos países a não aprovar a medida foi o Brasil, que se uniu a países como Venezuela, Cuba e Paquistão.
Na resolução, a AIEA faz um relato das várias violações que o Irã cometeu nos últimos anos em seu programa nuclear, frisando o fato de o país ter, secretamente, iniciado a construção da usina de Forlow, na cidade de Qom, só revelada em setembro. O documento exige a "suspensão imediata" das obras da usina (que estão em fase final); "esclarecimentos em relação ao propósito" dela; e garantias oficiais de que o país não tem outra usina ou material atômico não declarado.
- O fato de que 25 países de todas as partes do mundo votaram a favor (da censura) mostra a necessidade urgente de o Irã atender ao crescente déficit de confiança internacional sobre suas intenções - afirmou o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. - Se o Irã se recusar, será responsável por seu crescente isolamento e pelas consequências.
O premier britânico, Gordon Brown, afirmou ontem que o Conselho deverá aprovar "sanções mais duras" ao Irã.
Teerã reagiu imediatamente.
- Resoluções da AIEA nem do Conselho de Segurança nem sanções ou ameaças de ataques militares poderão interromper as atividades nucleares pacíficas no Irã, nem por um segundo - disse o representante iraniano na AIEA, Ali Asghar Soltanieh.
Saltou aos olhos o apoio de Rússia e China, países com fortes ligações comerciais e diplomáticas com o Irã. A China não apenas apoiou a resolução como foi responsável por parte de sua redação. Em fevereiro de 2006, a AIEA aprovou sua última resolução contra o Irã, iniciando quatro etapas de sanções da ONU. Naquela vez, China e Rússia não apoiaram a resolução.
Grupo não-alinhado racha ao meio
A aprovação não foi unânime. Três países votaram contra: Venezuela, Cuba e Malásia. O Brasil se uniu a Afeganistão, Egito, Paquistão, África do Sul e Turquia e se absteve. O Azerbaijão faltou à votação.
O governo brasileiro, que recebeu o presidente Ahmadinejad esta semana, tem apoiado o Irã seguidas vezes. O Brasil reconheceu a eleição presidencial fraudada de junho, e o presidente Lula chegou a comparar a repressão à população a uma briga de torcidas.
Defendendo a abstenção, o Itamaraty disse que o Brasil defende o direito ao desenvolvimento de tecnologia nuclear civil, mas não seu uso bélico: "Na recente visita do presidente Ahmadinejad, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou esse direito do Irã. Isso não quer dizer que o Brasil apoie países que intentem desenvolver a tecnologia para fins armamentistas."
O Irã costuma receber apoio dos países que pertencem ao Movimento dos Não-Alinhados, mas, desta vez, o grupo rachou na AIEA. Índia, Quênia, Peru, Camarões, Burkina Fasso e Mongólia votaram a favor da resolução. Egito, Paquistão e África do Sul se abstiveram e três votaram contra.
Dois fatores levaram ao resultado. Serviços de inteligência descobriram que o Irã tem um programa de enriquecimento de urânio mais avançado do que afirma, e desenvolve sistemas capazes de lançar bombas nucleares.
O segundo foi a revelação de que o país está construindo a usina de Fordow. Técnicos da AIEA dizem que Fordow é pequena demais para gerar eletricidade, mas pode produzir bombas. E, como está feita, exige a existência de outra usina, que estaria escondida.
Miriam Leitão:: Fiascos externos
DEU EM O GLOBOA semana foi de fiascos para a política externa. Foi quebrada uma regra diplomática básica na resposta à carta do presidente americano, Barack Obama. A cúpula Amazônica com o presidente francês fracassou. O presidente Ahmadinejad recebeu aval ao seu programa nuclear, quando a Agência de Energia Atômica aprovou um voto contra o Irã pelos indícios de que o programa não é pacífico.
Quando um chefe de Estado escreve carta a outro, a resposta não pode ser dada por uma pessoa de terceiro escalão. Elementar. Marco Aurélio Garcia, o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, respondeu em público à carta de Barack Obama e ainda dizendo desaforos. Um espanto. Esse tipo de grosseria só se faz em diplomacia quando, deliberadamente, se quer demonstrar desprezo ao outro. Não há razão alguma para fazer isso com o missivista, mesmo que dele se discorde.
- O Barão de Rio Branco deve estar se revirando no túmulo pela quebra das boas tradições diplomáticas e pela crescente influência partidária e ideológica no Itamaraty - disse o ex-embaixador nos Estados Unidos Rubens Barbosa ao blog (http://www.miriamleitao.com.br/).
Descortesia tem hora na diplomacia. Ela precisa significar alguma coisa. No caso das críticas feitas pelo secretário Marco Aurélio ao conteúdo da carta do presidente Barack Obama, foi apenas mais um ato desastrado dos muitos cometidos nos últimos anos de diplomacia improvisada. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, tentou reduzir o estrago no dia seguinte recolocando a questão em termos um pouco diferentes. Valeu o esforço, mas esse tipo de erro já virou rotina no governo Lula, que convive há sete anos com essa distorção de um secretário internacional que se comporta como se fosse ele o ministro.
A visita do presidente do Irã provocou grande controvérsia, porque ele é uma pessoa que suscita esse tipo de reação extremada, mas é natural que o Brasil receba visitas de chefes de Estado de países com os quais mantém relação. Quando a figura é um Ahmadinejad, tudo tem que ser bem pesado e medido para não parecer que ele recebe aval justamente naquilo que o mundo combate.
O programa nuclear do Irã está sob suspeição de autoridades internacionais, porque são inúmeros os indícios de que ele não é pacífico. As instalações subterrâneas em Qom, que o país construiu escondido e que foram descobertas em setembro, podem estar sendo usadas para fazer urânio altamente enriquecido. A partir de um determinado nível de enriquecimento, o urânio não é para fins pacíficos e sim para a construção de armas nucleares. Com tudo tão obscuro e ainda sob investigação, o presidente Lula deveria ter evitado o tema. Foi uma imposição do visitante?
Se foi, fica comprovado que o Brasil foi usado para o propósito dele. Foi a troca pelo apoio do Irã à cadeira o conselho de segurança da ONU? Se for isso, é um tiro pela culatra, porque mostra a ingenuidade do Brasil e não sua capacidade de conviver com contrários, como se queria demonstrar. O final de qualquer dúvida vem com a resolução da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) condenando, com os votos da Rússia e China, o programa que Lula endossou. E o Brasil se absteve na votação! Não se entra no Conselho de Segurança sendo ambíguo na questão nuclear.
A cúpula Amazônica com o presidente francês, tão próximo de Copenhague, foi uma boa ideia, mas alguma coisa deu muito errado na execução. Numa Manaus enfumaçada por queimadas na floresta, três presidentes esperaram os outros que desmarcaram na última hora. Foram tantos os ausentes, que não se pode imaginar que tenha sido coincidência. Deve ser a primeira vez, em anos, em que Álvaro Uribe e Hugo Chávez fazem o mesmo gesto.
O caso de Honduras é mais complicado. O Brasil tem defendido uma causa nobre da forma errada. Numa região que foi assolada por golpes de Estado, o Brasil está do lado certo condenando o governo Roberto Micheletti e chamando de golpe o que nunca teve mesmo outro nome. Mas o presidente deposto Manuel Zelaya também cometeu seus erros ao investir contra as regras constitucionais e os poderes hondurenhos. Isso não legitima o que foi feito, mas deveria ajudar o Brasil a relativizar o apoio absoluto dado a um político que, claramente, divide o país e que usou a embaixada brasileira em Honduras como comitê político num claro abuso do refúgio dado a ele.
Zelaya não é a encarnação da democracia hondurenha. Ele é o presidente eleito, num mandato que já está chegando ao fim, de um país que se encaminha para uma eleição. O mais sensato seria ajudar Honduras a sair do impasse, e não ser parte do impasse. A eleição de domingo pode ou não ser essa saída. O que os países amigos e instituições internacionais deveriam fazer é ajudar a fiscalizar a eleição para garantir um processo legítimo e democrático; e depois fazer um esforço diplomático para um governo de reconciliação que anistie Zelaya para que ele saia da embaixada brasileira e tenha uma vida normal.
A intransigência do Brasil virou ofensa aos Estados Unidos com a acusação de que o governo americano está defendendo "golpe preventivo". O Brasil pediu o adiamento das eleições há duas semanas do pleito, e os Estados Unidos não concordaram. O governo Barack Obama nunca fez a defesa do golpismo em Honduras. De novo, uma agressão intempestiva.
Rio Branco deve estar se revirando mesmo. Nada do que a diplomacia brasileira tem feito nos últimos anos - improvisos, quebras de protocolo e decisões ideológicas - faz parte da tradição do Itamaraty.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Reflexão do dia - Luiz Weneck Vianna
Luiz Werneck Vianna, no 33º Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu/MG, de 26 à 30/10/2009)
Merval Pereira:: A síndrome do PMDB
DEU EM O GLOBOO diagnóstico do líder do governo Romero Jucá de que o PMDB, antes de ser a solução, pode ser o grande problema para a montagem da chapa oficial à sucessão de Lula, é o mais fiel retrato de nosso presidencialismo de coalizão. Maior partido do Congresso, o que tem o maior número de prefeitos e vereadores no país, e com 9 governadores, o PMDB não consegue se unir para lançar um candidato próprio desde que cristianizou sucessivamente Ulysses Guimarães e Orestes Quércia.
Mas nenhum presidente eleito consegue governar sem um bom acordo com o PMDB, mesmo que não tenha sido apoiado oficialmente por ele na eleição presidencial.
Apoio, aliás, que não garante que a extensa e eficiente máquina partidária trabalhará integralmente pelo candidato oficial do partido.
Isso quer dizer que mesmo que a convenção, no segundo semestre do próximo ano, confirme o acordo político que está sendo costurado agora, o PMDB pode dar o vice-presidente da chapa oficial, mas certamente não estará integralmente ao lado da ministra Dilma Rousseff na campanha eleitoral.
Foi o que aconteceu, por exemplo, na eleição de 2002, quando o PMDB deu o vice, a deputada Rita Camata, mas não se empenhou na campanha do tucano José Serra.
Existe sempre ainda a possibilidade, que não é pequena, de a cúpula do partido simplesmente não ter condições de entregar ao governo o apoio formal, pois no PMDB quase sempre não há maiorias para uma definição.
A situação atual é exemplar do estado de espírito permanente desta grande federação de líderes regionais.
A direção nacional, capitaneada pelo deputado federal Michel Temer, quer formalizar o apoio, o que daria a ele a vice-presidência na chapa oficial e ao governo 5 minutos diários de propaganda de televisão.
Teoricamente esse apoio formal viria acompanhado da máquina partidária, a mais capilarizada do nosso sistema partidário, o que é fundamental nas eleições presidenciais, especialmente quando se trata de conseguir os votos do interior do país.
Mas essa máquina tão impressionante, que atrai a cobiça de todos os candidatos a presidente, nunca está integralmente à disposição do candidato escolhido, e nada indica que estará desta vez, mesmo com toda a força popular do presidente Lula.
Há setores importantes do partido que já estão comprometidos com a candidatura da oposição, como a seção paulista do PMDB, comandada por Orestes Quércia, que apoia o governador José Serra, ou a de Pernambuco, com o senador Jarbas Vasconcellos. Ou a do Rio Grande do Sul, capitaneada pelo senador Pedro Simon.
E há os estados que, em disputa acirrada com o PT, podem acabar indo para a oposição, em vez de servirem de segundo palanque para a candidata oficial Dilma Rousseff.
A Bahia, do atual ministro Geddel Vieira Lima, e Minas Gerais, do atual ministro Hélio Costa, são bons exemplos de estados fortes comandados pelo PMDB que não estão confortáveis com as alianças regionais.
Há ainda uma terceira face peemedebista, que defende a candidatura própria, que já lançou o governador do Paraná Roberto Requião. Nada indica que exista espaço para uma aventura desse tipo, que já foi tentada em outras ocasiões, sem sucesso, pelo ex-presidente Itamar Franco ou pelo ex-governador Garotinho.
Mas esse movimento é um claro indício de que mais setores peemedebistas não se satisfazem com o apoio à candidata oficial Dilma Rousseff.
Por seu turno, a oposição, na impossibilidade de vir a ter o apoio formal do PMDB, trabalha para impedir que a convenção oficialize o acordo que já foi acertado.
Na pior das hipóteses, consegue que o tempo de propaganda da televisão e do rádio que cabe ao PMDB seja dividido por todos os candidatos, sem engordar apenas a cota da candidatura oficial.
Mas não basta à oposição neutralizar os acordos do governo com sua base aliada, ela precisa ampliar seus pontos de apoio, sob pena de ficar não apenas com menos tempo de propaganda oficial na televisão, como também sem máquina partidária para trabalhar por seu candidato.
A base de apoio do PSDB, apenas com o DEM e o PPS, é muito frágil diante da ampla coalizão que está sendo montada pelo governo.
As negociações regionais estão começando a ser montadas, e não há uma definição do candidato oposicionista que sirva de atrativo para os partidos que não conseguem se entender com o PT.
Mesmo com o presidente Lula fazendo o meio de campo, está difícil chegar a um acordo em alguns estados, e o temor dos aliados, sobretudo as pequenas siglas, é de que, sem a intermediação de Lula, o PT tente ampliar seu espaço dentro da coalizão.
Mais do que para os eleitores, será para os políticos e seus partidos que a mensagem oposicionista realçará o perigo que representa um PT sem quem o controle.
Mas para que o passo seguinte seja dado, isto é, que partidos da base aliada sejam compelidos a deixar a proteção governamental para se aventurar na oposição, é preciso que se defina o candidato oposicionista e que este comande as negociações dos palanques regionais.
Os pré-candidatos tucanos já estão fazendo essas negociações, mas nenhum deles pode assumir compromissos definitivos.
Por isso as pressões para que seja antecipada a definição da candidatura, o que vem sendo reivindicado pelo governador mineiro Aécio Neves.
Tudo indica que ele terá essa primeira vitória.
Mas, no final das contas, quem sairá vencedor, seja qual for o resultado das negociações com governo ou oposição, será sempre o PMDB.
Dora Kramer:: Tranquilos, porém aflitos
DEU EM O ESTDO DE S. PAULOA possibilidade da derrota é assunto proibido em público para políticos e partidos que se preparam para disputas eleitorais. Reza a regra do jogo que todos se posicionem, a princípio, como vencedores.
Manda também a etiqueta que não se menospreze o adversário na frente das visitas - no caso, o eleitorado. É de bom tom - além de prudente - que se considere a peleja "difícil". Às vezes isso denota senso de realidade, às vezes traduz apenas a intenção de cada um valorizar o próprio passe.
Dessa forma supostamente respeitosa, feita na medida exata para transparecer humildade sem deixar de exalar confiança na vitória, é que se apresentam ao embate da sucessão presidencial as forças de governo e oposição reunidas sob os guarda-chuvas do PT e do PSDB.
Mas essa é apenas metade da história. As reais motivações não são postas à mesa, embora sejam elas que de fato mobilizem partidos, candidatos e aliados.
Os de oposição têm verdadeiro pavor de continuar mais quatro ou oito anos fora do poder. PSDB e DEM perderam espaço, correligionários, parlamentares no Congresso e, consequentemente, perderam também influência e destaque no noticiário.
Em público, os oposicionistas nem às paredes confessam. Mas é isso que está por trás da aflição para que o governador de São Paulo, José Serra, assuma logo ou desista de uma vez da candidatura em favor do governador de Minas, Aécio Neves.
Eles temem que o adiamento da decisão os faça perder terreno e, com ele, a eleição. Não pelo sabor da vitória, mas pela certeza de que não sobrevivem a mais uma temporada como oposição.
No campo governista, há diferentes situações. A do PMDB é mais tranquila, já que seja qual for o resultado o partido tem lotes assegurados na administração pública.
Já para o PT a coisa é mais complicada. Embora haja a expectativa de que em caso de vitória do PSDB nem Serra nem Aécio promovam expurgos radicais, a hipótese da derrota no plano nacional aponta para o desemprego de uma massa considerável de companheiros.
Esse pessoal espera ter abrigo em algum lugar, bem como o PT precisará manter algumas ilhas de poder não só por uma questão de sobrevivência, mas até para ter como se reorganizar para uma nova disputa em 2014 sem precisar recomeçar quase do zero.
Esses nichos são justamente os governos dos Estados. E Estados de robusta máquina pública e significativa presença política no cenário nacional.
Quando se diz que Lula prefere que o PT se componha com o PMDB concorrendo ao Senado e deixando de lado a disputa de alguns Estados porque os governadores, mesmo de partidos de oposição, tenderiam a se compor com o governo federal, considera-se apenas a hipótese da vitória na Presidência.
Mas, como nas avaliações internas a possibilidade da derrota é levada sempre em conta, as coisas não funcionam bem assim.
Para o PT é crucial conquistar governos para abrigar seu pessoal. Nessa equação não se perde de vista o fato de que quem tem prioridade no comando do preenchimento dos cargos é o governador, não o vice nem o senador.
Por isso são tão importantes candidaturas próprias em Estados onde o PT tem chance real de ganhar, como Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
Na seção gaúcha tudo foi resolvido com a antecipação da candidatura do ministro da Justiça, Tarso Genro, ao governo. São Paulo é tido como jogo perdido, o Rio de Janeiro quase isso, mas Minas é essencial sob a lógica da conquista de trincheiras estaduais.
Daí que dificilmente se pode esperar que o PT aceite uma aliança com o PMDB no Estado, a menos que houvesse garantia total da permanência do partido na Presidência da República.
Uso do cachimbo
O poder está tão acostumado a desconsiderar a existência de regras, que o avião da Presidência carrega 15 convidados do filho do presidente e o governo acha que o público não tem o direito de saber quem são as pessoas que viajam às suas custas.
O Ministério da Cultura paga propaganda indevida e o ministro se irrita quando é cobrado pelo uso de recursos destinados a promover a cultura na promoção de deputados.
As medidas provisórias existem para ser usadas em caso de urgência, mas o governo edita uma MP para entrar em vigor só em 2011 e considera que é muito natural.
E por que isso acontece? Porque a sociedade, o Ministério Público e o Congresso deixam que aconteça.
Adaptação
Não é o curto espaço de tempo até a Copa de 2014, como alega o governo, que impede a execução do prometido plano de privatizações de aeroportos.
Dilma Rousseff sempre foi contra e agora que o PT se prepara para dar à eleição uma conotação de Fla-Flu com o governo de Fernando Henrique Cardoso qualquer privatização tornaria incoerente o discurso da confrontação.
Alberto Carlos Almeida:: Por dentro do Bolsa Família
DEU NO VALOR ECONÔMICOSerá que algum leitor deste artigo recebe regularmente o Bolsa Família? Eu diria, com relativa certeza, que dificilmente. Quem lê jornal no Brasil, ao menos jornais com o perfil do Valor, são pessoas de grau superior, os assim chamados formadores de opinião, pessoas de renda elevada que fazem parte, em maior ou menor grau, do debate político e econômico brasileiro. Trata-se de um perfil social distante do perfil médio de quem recebe o benefício social do governo federal.
Proponho que nós, leitores deste jornal, pensemos no Bolsa Família sob a ótica de quem o recebe.
Alguns críticos de São Paulo, muitas vezes cariocas, dizem que se trata de uma cidade cheia de restaurantes cercados por escritórios. O interior pobre do Brasil, onde predomina o Bolsa Família, caracteriza-se por um grande aglomerado de casebres cercados de informalidade por todos os lados. É uma grande ilha, ou continente ilhado, de miséria.
Resultado: quem reside em São Paulo, na zona sul do Rio ou na Savassi de Belo Horizonte aprende desde criança que se tiver uma boa educação e trabalhar muito melhora de vida. Isso aconteceu provavelmente com todos os que leram e vão ler este artigo. Isso aconteceu e acontece comigo. Quanto mais trabalho, mais chances tenho de conseguir mais clientes, de vender mais e, consequentemente, de melhorar de vida. O ambiente de São Paulo favorece sobremaneira essa trajetória. Há empresas, negócios, dinamismo. Individualmente, há carreira, há profissão. Muitos dos que se formam nas faculdades cariocas e paulistas saem pensando em como construir uma carreira. Isso é possível no chamado Sul Maravilha.
É possível também no interior do Nordeste? Não, não é. Quem mora no interior de qualquer Estado nordestino e também tem escolaridade baixa, que é pai de família, não tem carreira.
Não tem, nunca teve, nem nunca terá. Para esse chefe de família o trabalho não compensa.
Vamos nos colocar no lugar dessa pessoa. Um homem, de uns 38 anos, que não completou o segundo grau, casado e pai de dois ou três filhos, morador de uma cidade vizinha a Petrolina, no interior de Pernambuco. Esse indivíduo não tem poder de barganha no mercado de trabalho.
Essa criatura imaginária é muito real. Ela não concebe a melhoria de vida por meio do trabalho. Isso é fato, não é uma simples percepção. Isso é real. É aqui que entra o Bolsa Família. Esse benefício social, recebido mensal e regularmente por esse chefe de família, se torna a única oportunidade de melhorar de vida no curto prazo.
Quando se diz que alguém "realmente precisa do Bolsa Família", está-se dizendo que sem o benefício social essa pessoa jamais melhoraria de vida. É verdade. O recebimento do benefício mudou a vida dela e de seus familiares. Houve um imediato aumento na renda corrente e, como se trata de um contrato de longo prazo, essa família passou a poder comprar coisas no crediário. Praticamente 50% dos que recebem o Bolsa estão atualmente comprando alguma coisa em prestações. O mais interessante é que o programa atinge cerca de 30% das famílias brasileiras e custa para o governo federal a quantia irrisória que corresponde a 0,4%, apenas, de nosso PIB.
O Brasil passou longos anos sem cuidar de sua população, sem educá-la formalmente de maneira apropriada. Apenas durante o governo Fernando Henrique, ou seja, depois de 1994, conseguimos universalizar o acesso das crianças à educação básica. Ainda não conseguimos universalizar o acesso dos adolescentes ao ensino médio. Além disso, a evasão e a repetência são um fenômeno avassalador nos dois níveis de ensino. Não investimos há 30 ou 40 anos em educação, temos que gastar agora um pouquinho (0,4% do PIB, como mencionado anteriormente) com política social para "compensar" o não investimento.
Há uma crítica de caráter moral ao Bolsa Família: ele cria acomodação. Ledo engano. O beneficiário do programa já era acomodado. A ambição já veio morta, de berço. Em áreas sem dinamismo econômico, como afirmei, o trabalho não compensa, a ambição não existe. O Bolsa não gera nem vai gerar ambição. Os pais nunca terão uma boa oportunidade no mercado de trabalho, é uma geração perdida em termos profissionais. Se alguém tiver oportunidades de empregos melhores, serão os filhos. Daí a necessidade da obrigatoriedade da matrícula escolar. O Bolsa melhorou o bem-estar geral da família e criou um incentivo a mais, para muitas famílias o único incentivo, para manter as crianças na escola. Salva-se a geração dos mais jovens.
A crítica moral a essa política social não encontra apoio na maioria da população brasileira.
Nada menos do que 77% da população concorda com a seguinte afirmação: "Muita gente que recebe o Bolsa Família continua trabalhando, por isso ele tem que continuar". Essa proporção é menor entre as pessoas que têm o grau superior completo e maior entre as pessoas de escolaridade mais baixa. Quem tem o grau superior completo, ao contrário das pessoas de escolarização baixa, está muito distante da situação financeira e social de quem recebe o Bolsa. Assim, é menos compreensivo em face dos benefícios do programa social. A maioria de nossa população tem a renda e a escolaridade baixas. Sendo assim, o apoio social ao Bolsa Família é muito grande.
Se apenas 30% da população recebe o Bolsa, nada menos do que 60% afirmam ser totalmente a favor do programa. Quando somamos esse número aos 23% que dizem ser a favor, obtemos 83% da população adulta brasileira apoiando o programa social criado no governo Fernando Henrique Cardoso. Só 16% se dizem contrários ao programa. Destes 5% são totalmente contra e 11%, um pouco contra. Quem é mais contra? Quem tem diploma de grau superior. Praticamente um quarto de quem se formou em uma faculdade é contra o bolsa. Essa proporção é de somente 12% para as pessoas do mais baixo nível de escolaridade formal, o primário completo.
Qual é a consequência política dessa informação? Que o Bolsa Família está para a área social assim como a inflação está para a área econômica. A maioria os quer, aceita, valoriza e considera ambos um ganho já estabelecido e com poucas chances de haver retrocesso.
O presidente Lula escreveu e divulgou em 2002 a famosa "Carta aos Brasileiros", eufemismo para uma carta aos banqueiros e investidores internacionais. Nela, Lula prometeu e cumpriu manter os quatro elementos-chave da política econômica de FHC: câmbio flutuante, superávit primário, metas de inflação e responsabilidade fiscal. Em 13 de agosto de 2002, Lula declarou na "Folha de S.Paulo": "Eu me dei conta de que o PT que precisava construir era maior do que o PT de macacão que eu sonhava em construir". Tão grande que trouxe recentemente Fernando Collor como um de seus importantes aliados. Lula foi e é extremamente pragmático.
A oposição, PSDB, DEM e PPS, precisa cometer o "pecado" do pragmatismo para enfrentar Lula. Nesse caso, o pecado é quebrar o omelete de apoiar sem tergiversação o Bolsa Família.
Há várias maneiras de demonstrar que se é a favor de alguma coisa. Uma delas é simplesmente afirmar: sou a favor do Bolsa Família, aliás, ele foi criado durante um governo do PSDB. Outra maneira é afirmar: vamos duplicar o valor do Bolsa Família. Esse é um apoio contundente, um apoio que não dá espaço para desculpas evasivas de quem apoia ou para ataques infames do adversário.
A propósito, dobrar o Bolsa significa sair de 4,0 para 0,8% do PIB nesse gasto. Apenas um pouco a mais do que os 0,6% colocados no benefício da Lei Orgânica da Assistência Social (Loas), mais um programa de proteção social criado no período tucano. Se o programa é bom para quem o recebe, se foi criado (com inspiração de Milton Friedman) por um governo do PSDB e se trará dividendos eleitorais importantes, em particular para quem se caracteriza por gestões eficientes, por que não assumir o compromisso de duplicá-lo? Há uma única razão para não fazê-lo: uma visão de mundo, uma ideologia que rechace o bolsa. Uma ideologia que, nesse caso, é oposta à ideologia do pragmatismo.
Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" (Record).
Maria Cristina Fernandes
DEU NO VALOR ECONÔMICOAs perdas internacionais de Leonel Brizola e o fora FMI de Luiz Inácio Lula da Silva marcaram os limites que, há apenas 20 anos, circunscreveram o tema da política externa nas eleições presidenciais.
É outro o Brasil que, nesse curto espaço de tempo, vê o eixo do discurso político passar das injustiças da ordem internacional contra o país às pretensões nacionais de maior protagonismo na mediação do conflito do Oriente Médio.
A crítica de próprio punho do governador de São Paulo, José Serra ("Folha de S.Paulo", 23/11/2009) à visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, marca a estreia do debate da política externa na campanha presidencial e é, de antemão, um reconhecimento de que o Brasil mudou.
Pela crítica do pré-candidato tucano, depreende-se que o objeto de discórdia é o mérito da visita do governante de um país ditatorial e repressivo e não a pretensão brasileira à mediação.
No dia seguinte o noticiário registraria que nem mesmo o presidente americano questiona as pretensões da diplomacia brasileira. Em carta a Lula, na qual explicitaria suas insatisfações com a visita sem questionar o direito do Brasil de promovê-la, Barack Obama acabaria por aceitar a legitimidade da atuação brasileira ao pedir que a pauta do encontro incluísse direitos humanos e cooperação nuclear.
O historiador brasileiro Luiz Felipe de Alencastro, cuja sede em Paris não o impede de acompanhar detidamente a conjuntura nacional, assistiu à largada do tema na campanha presidencial com incontido interesse.
Custa-lhe entender por que a indignação que cerca a visita de Ahmadinejad não se estende à relação do Brasil com outros países ditatoriais como, por exemplo, a China. O vice-presidente Xi Jinping veio ao Brasil em fevereiro. A visita do representante do país cuja crescente pauta comercial amparou o Brasil na crise não recebeu nenhuma moção de repúdio ou desagrado da oposição.
Alencastro compara a reação contra o presidente iraniano àquela que antecedeu a visita de Lula à Líbia de Khadafi, que precederia sinais de distensão entre as relações do ditador com outros países.
Apesar de Honduras, não vê abandono do princípio da soberania como norteador da política externa brasileira - "O mundo mudou. A não ingerência era uma maneira de se acomodar atrás da liderança americana", diz.
O historiador só vê dois momentos comparáveis ao momento de maior protagonismo das relações exteriores no debate político interno do país, ambos do século XIX - o fim do tráfico negreiro e a Guerra do Paraguai.
E atribui o viés hoje dominante no Itamaraty à retomada da linha que norteou a instituição sob os auspícios de San Thiago Dantas, chanceler do governo João Goulart e paraninfo da turma do ministro Celso Amorim no Rio Branco.
Era o mesmo lado ao qual se perfilava o então presidente da União Nacional dos Estudantes (Une), José Serra. Isso talvez explique por que no seu primeiro libelo de política externa nessa campanha não haja uma única linha de repúdio ao maior protagonismo adotado pelo Itamaraty.
Tão proveitoso quanto observar a linha de confronto que Serra traçará com seus antigos aliados será acompanhar os atritos dentro de sua própria aliança partidária. Herdeiro das forças que derrotaram San Thiago Dantas e sua turma, o DEM, principal aliado serrista, é hoje o partido mais ativo, nos debates parlamentares, à conduta do Itamaraty.
Sem diferenças gritantes em sua política econômica e com quaisquer tentativas de limitar as políticas sociais inviabilizadas pelas urnas, o DEM tem usado a política externa para exercitar um anticomunismo embolorado.
O país das perdas internacionais agora tem poder de veto no FMI, mas o que certamente estará fora do debate é que o ingresso do Brasil não muda o jogo.
Na noite da última terça-feira feira, quando caiu um aguaceiro em São Paulo, tucanos e petistas se misturaram aos intelectuais do Cebrap para comemorar os 40 anos da instituição, da qual Alencastro também foi ativo colaborador. Lá Roberto Schwarz deixaria registrado o depoimento mais contundente sobre os novos tempos do Brasil na ordem mundial.
Dizendo não se arrepender de ter votado em Lula todas as vezes em que este se candidatou e de avaliar positivamente tanto o seu governo quanto o de Fernando Henrique Cardoso, Scharwz assume os riscos de afirmar que, no futuro, ambos os governos, além do de Collor, serão vistos como um único bloco que melhorou a posição relativa do Brasil na globalização.
Fiel às convicções que um dia inspiraram aquele centro de estudos, Scharwz concluiu: "O que me parece errado é adotar uma visão rósea do capitalismo porque o Brasil está com um vento a favor ou porque temos amigos no governo. A irracionalidade e a destrutividade do capitalismo estão aí, visibilíssimos na crise e no despropósito da mercantilização total. E é nessas discussões que o marxismo finca sua crítica, mesmo que, no momento, não faça muitos adeptos".
Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras
PMDB anti-Lula lança Requião
Ato de dissidentes apresentará pré-candidatura de governador do Paraná
Maria Lima e Gerson Camarotti
BRASÍLIA. Mesmo com a cúpula lulista do PMDB garantindo que já abortou o racha, o governador do Paraná, Roberto Requião, promete fazer barulho terça-feira, em Brasília, com o lançamento oficial de sua pré-candidatura a presidente da República pelo PMDB. O líder do PMDB, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), afirmara anteontem que o partido esvaziou o encontro promovido por Requião em Curitiba no último fim de semana, mesmo assim representantes menos expressivos de 15 diretórios regionais assinaram uma moção defendendo o nome do governador.
Requião e o senador Pedro Simon já reservaram o plenário da Comissão de Constituição e Justiça do Senado para fazer o ato.
O presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), também minimizou o impacto da candidatura Requião.
- O que nos interessa são as conversas institucionais com o PMDB - disse Berzoini.
Para o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), essa mobilização é saudável.
- Esse movimento cria ainda mais dificuldades para a homologação da aliança com o PT na convenção - disse Jarbas.
Assinaram a moção de apoio a Requião líderes regionais como Pedro Simon (RS), Orestes Quércia (SP), Luiz Henrique (SC), Paes de Andrade (CE), Mangabeira Unger (RJ), Eliseu Padilha (RS) e Dario Berger (SC) entre outros menos conhecidos
Eliane Cantanhêde:: Vexame
DEU NA FOLHA DE S. PAULOMANAUS - Lula tinha arquitetado dois palanques ontem em Manaus: um, interno, para inaugurar um gasoduto que ainda não serve para nada; outro, internacional, para liderar os presidentes dos oito países amazônicos em Copenhague. Seis deles não deram as caras.
Uribe, Morales, Rafael, Alan Garcia, o arroz de festa Hugo Chávez e até o presidente do pequeno Suriname ficaram de fora. Conclusão: Lula levou o seu troféu para a ocasião, o presidente francês Nicolas Sarkozy, para almoçar com o presidente da Guiana Inglesa e um punhado de ministros e assessores. Dilma, evidentemente, marcou presença nos dois palanques. Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia ficaram no internacional, deitando falação para tentar explicar a complexa relação Brasil-EUA.
Garcia, que já admitira "decepção" com os rumos das coisas nos EUA, tenta explicar: "Decepção e desilusão a gente tem nas relações amorosas". Com os EUA "são divergências".
Mas não são poucas.
Uma delas é que o Brasil se uniu à França -ou melhor, Lula se uniu a Sarkozy- para tomar a dianteira também em Copenhague, enquanto Obama falou, falou, falou, mas ficou limitado por forças econômicas americanas. Só sob pressão externa decidiu ir e apresentar proposta de corte de CO2.
É por isso que Amorim, ontem, depois de uma hora de conversa com Hillary Clinton, disse que ela "reconheceu que a proposta brasileira serviu de inspiração para outros países". Os próprios EUA. O fato é que Lula pensa alto, talvez alto demais. Quer liderar a América do Sul, chegar com a tropa amazônica para a conferência do clima e confrontar, dia sim e outro também, a maior potência.
Audácia é bom, e o eleitorado até gosta. Mas, quando passa do ponto, pode afugentar. Foi isso que ocorreu ontem em Manaus: Chávez, Uribe, a turma toda fugiu da mania de Lula de querer ser o líder de tudo. Soou assim: "Tou fora!"



