sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Cora Rónai - Democracia, a palavra mágica

• Quero ouvir a voz do meu país denunciando ditaduras, e não compactuando com elas

O Globo / Segundo Caderno

Amigos petistas (sim, ainda tenho alguns) dizem que votam no PT por causa das suas políticas sociais. É um bom argumento: não há pessoa com um mínimo de sensibilidade e compaixão que possa ser contra políticas de inclusão social, especialmente num país tão desigual quanto o nosso.

A questão é que ele parte do princípio de que o PT detém o monopólio das boas intenções sociais, e aí entramos na área da desqualificação do adversário, da qual o partido tanto entende. Que eu me lembre, em momento algum Aécio ou o PSDB afirmaram que pretendem mudar o que, a duras penas, já se conquistou; mas a propaganda do PT insiste nisso e pronto, basta a palavra do marqueteiro João Santana para transformar o que jamais foi dito em verdade sacramentada.

Outro problema com esse argumento é que, por melhores que sejam as intenções sociais de quem quer que seja, elas não existem fora de um contexto mais amplo. Sem dinheiro não se faz nada, nem bom ensino, nem boa saúde, nem distribuição de renda. Simplesmente não há política social que consiga se manter, a médio ou longo prazo, diante de uma economia desastrosa como a do governo Dilma.

Eu até poderia dizer, parafraseando os meus amigos petistas, que não voto no PT justamente porque prezo as conquistas sociais do país, e não quero que elas desapareçam levadas por uma política econômica que vai de mal a pior.

Mas não é só isso.

Entre outros incontáveis motivos, não voto no PT porque tenho vergonha do papel que o meu país está fazendo no cenário internacional, abraçando ditaduras obsoletas, financiando tiranos e dando apoio a terroristas.

Ao contrário de tanta gente que prestigia o partido, eu não acho que democracia seja essencial para nós, brasileiros, mas desnecessária para iranianos, cubanos ou venezuelanos. Eu quero que todo mundo tenha as mesmas prerrogativas que eu tenho, quero que todas as pessoas do mundo possam viver e respirar em ambientes de liberdade, dizendo o que têm vontade de dizer sem risco de ir para a cadeia no dia seguinte.

Eu quero ouvir a voz do meu país denunciando ditaduras, e não compactuando com elas.

Passei vários anos da minha vida brigando por liberdade no Brasil e pedindo uma imprensa livre. Na minha cabeça, não faz o menor sentido votar, agora, num governo que apoia regimes que perseguem seus cidadãos por crimes de opinião — e que, vira e mexe, fala em “democratizar” a mídia.

Eu vi esse filme há muito, muito tempo, e não gostei.

Eduardo Giannetti - Dupla herança

- Folha de S. Paulo

Democracia e mercado são sistemas de registro e processamento de preferências. Ao votar no candidato X ou comprar o produto Z, o indivíduo expressa a sua preferência e decide, com os demais, o destino de X e Z. A diferença básica está no método de agregação das escolhas.

Se 50% + 1 dos votos válidos forem dados a X para presidente, então todos terão que aceitá-lo no cargo durante o mandato, tendo ou não votado nele. Aos que optaram por votar em Y, anular ou se abster --mesmo sendo a maioria-- só restará enfiar a viola no saco, aderir ou fazer oposição.

Com o mercado é diferente. Se 90% dos consumidores deseja, por exemplo, comprar Z, paciência. No entanto, isso não obriga os demais a adquirir o mesmo bem. Eles podem ainda perfeitamente escolher, entre inúmeros de outros itens, como desejam gastar o seu orçamento. (Se W não tiver um mínimo de "votos" dos consumidores, ele desaparece do mercado).

Tanto o voto do eleitor como o gasto do consumidor expressa escolhas individuais. Cada um se informa como pode sobre as alternativas e decide por si o que fazer. A diferença está na agregação das preferências. No processo político --ao contrário do econômico-- a decisão final é coletiva. Uma vez tomada, vale para todos --ninguém escapa.

Candidatos a presidente, é claro, não são artigos de consumo. A julgar, porém, pela absoluta hegemonia dos marqueteiros nas campanhas e debates é difícil saber se o que estamos em vias de eleger é um programa de governo, aliás sonegados, ou uma estratégia de marketing. E se os marqueteiros dos dois contendores fossem invertidos, como teria transcorrido a eleição?

Marina tentou romper com a lógica da maximização de votos a qualquer preço e deu com os burros n"água. O marketing selvagem falou mais alto do que o apelo ao discernimento; a exploração da credulidade, a mentira calculada e a excitação do medo levaram vantagem. Como diria o poeta latino Petrônio, "se o povo quer ser enganado, então deixemo-lo ser enganado".

Uma coisa, porém, é eleger-se, outra governar. Na democracia representativa o poder efetivo é exercido por poucos em nome de todos. Seja quem for eleito --e seja como for-- os problemas não desaparecerão a golpes de marketing. O novo governo será refém de uma dupla herança.

Na política, uma nação polarizada e cindida ao meio em facções hostis, com a bomba-relógio do petrolão pronta para explodir. Na economia, o fracasso inapelável da "nova matriz". Dobrar a aposta nesse caminho significará não só inflação, recessão e fuga de capitais, o que já se anuncia, mas por em risco ganhos de inclusão social dos últimos 20 anos.

Rogério Furquim Werneck - Campanha de desinformação

- O Globo

Muito ainda será dito e escrito sobre a tumultuada evolução da campanha presidencial de 2014, que agora chega ao fim. Mas, com o benefício da visão retrospectiva, é preciso que, nas análises do que de fato ocorreu, seja dada importância adequada à situação delicada em que se encontrava a presidente Dilma no início da campanha.

O desafio da reeleição, que há alguns anos parecia trivial, havia se tornado muito mais difícil. Ao final de quatro anos de crescimento medíocre, a economia entrara num quadro claro de estagflação, com crescimento zero e inflação acima do teto de tolerância da meta. Na esteira de intermináveis desmandos, improvisações e manipulações do registro das contas públicas, o descrédito em que caíra a condução da política econômica parecia irremediável. E o governo nem mesmo conseguia articular uma narrativa minimamente respeitável de como pretendia superar as dificuldades com que se defrontava a economia.

Não bastasse esse flanco frágil do lamentável desempenho da economia, o projeto da reeleição, visto da perspectiva do início da campanha, parecia também altamente vulnerável à evolução das investigações sobre o grande esquema de corrupção que aflorara na Petrobras. Afinal, não se tratava de mais um escândalo qualquer. Mas de irregularidades de proporções gigantescas, com alegado desvio sistemático de recursos para dezenas de parlamentares da base aliada, em uma empresa estatal com a qual a presidente teve longo e estreito envolvimento.

Tendo sido nomeada presidente do Conselho de Administração da Petrobras no início do primeiro governo Lula, Dilma Rousseff permaneceu ocupando essa posição mesmo depois de ter deixado a pasta de Minas e Energia e passado a responder pela Casa Civil. Lá ficou por mais de sete anos, até se candidatar a presidente em 2010.

De início, o Planalto ainda alimentava a fantasia de que seria possível conduzir a campanha de 2014 deixando de lado esses dois temas espinhosos: o desempenho da economia e a corrupção na Petrobras. Com Pronatec, Mais Especialidades, Banda Larga para Todos, Segurança Integrada e assemelhados, João Santana teria material farto para dar corpo à campanha eleitoral.

Mas esse temário escapista mostrou-se inviável. Desde o primeiro turno, a candidata oficial vem tendo de lidar com os dois temas embaraçosos que, a todo custo, tentou evitar. E, tendo sido arrastada para um debate em que tem plena consciência da extensão da sua vulnerabilidade, Dilma Rousseff passou a exibir seu pior lado. Partiu para a negação peremptória de aspectos incontestáveis da realidade que hoje vive o país e para inescrupulosa distorção dos fatos, empenhada em lamentável campanha de desinformação do eleitor.

Isso já havia ficado claro, no primeiro turno, quando a candidata se permitiu alardear que conceder independência ao Banco Central era "tirar do presidente da República e do Congresso Nacional, eleitos pelo povo, as decisões sobre a política econômica do país, para entregá-las aos bancos". Agora, sem ter o que dizer sobre como pretende superar a estagnação da economia e combater a inflação, passou a denunciar que a proposta, aventada pela oposição, de reduzir a meta de inflação, aos poucos, para 3% ao ano, exigiria que a taxa de desemprego fosse elevada a 15%.

Martelando empulhações de tão baixo nível, Dilma pode até ter enganado vasto contingente de eleitores menos informados, mas à custa de insanável perda de respeito entre parcelas mais esclarecidas do eleitorado.

O mesmo discurso escapista e mistificador vem marcando a maneira como a candidata tem tentado se defender das notícias negativas que emanam da Petrobras. Em vez de se autocongratular por seu inabalável compromisso com o combate à corrupção e pelos feitos da "sua" Polícia Federal, Dilma precisa explicar como um esquema de corrupção dessas dimensões pôde prosperar por tantos anos na Petrobras sem que o Conselho de Administração, por ela presidido com suposta mão de ferro, sequer tivesse tomado conhecimento de sua existência.

Economista e professor da PUC-Rio

Merval Pereira - Tendências e denúncias

- O Globo

As duas pesquisas divulgadas ontem, que colocam pela primeira vez acima da margem de erro a distância entre a presidente Dilma e o candidato do PSDB, Aécio Neves, têm resultados parecidos , mas chegam a eles com medidas completamente distintas , o que pode fazer toda a diferença.

Para o Ibope, Dilma teve um crescimento de 6 pontos percentuais , enquanto Aécio caiu 4 pontos , e a diferença entre os dois é de 8 pontos . Já para o Datafolha, a presidente subiu 1 ponto e Aécio caiu 1, o que aumentou a distância entre os dois de 4 para 6 pontos . As duas pesquisas apontam uma tendência de crescimento da candidata à reeleição Dilma Rousseff, mas a velocidade dessa aceleração é distinta, com o Ibope sinalizando uma melhoria em todas as regiões do país e em todas as classes sociais. Já o Datafolha registra diferenças pelas regiões, com apenas um destaque: Aécio perdeu 6 pontos no Sul do país. No Sudeste, por exemplo, onde Dilma havia subido 5 pontos na última pesquisa, principal razão de ter ultrapassado numericamente Aécio, dessa vez foi Aécio quem subiu 1 ponto enquanto Dilma perdeu 1. No Nordeste, onde Dilma é hegemônica, o resultado ficou igual, com a presidente caindo 1 ponto e o candidato da oposição subindo 1.

No Centro-Oeste, Aécio Neves caiu 3 pontos e no Norte a presidente Dilma subiu 4 pontos , re forçando sua liderança. Segundo o Ibope, as intenções de voto em Dilma crescem em todos os segmentos analisados, mas alguns merecem especial atenção do instituto de pesquisas: as menções à atual presidente crescem 9 pontos entre os jovens , onde tinha baixo desempenho atingindo 46%; ao passo que Aécio vai de 49% para 45%. Entre eleitores que cursaram até a 4ª série, Dilma cresce 12 pontos, enquanto Aécio diminui 9 pontos neste grupo. No Nordeste, o Ibope encontra praticamente o mesmo número do Datafolha (64% e 68%), mas registra um aumento de 12 pontos para Dilma e uma queda de 10 pontos de Aécio. No Sul, há uma diferença grande entre as duas pesquisas: no Ibope, Dilma tem 46%, e para o Datafolha, 33%. Já Aécio tem para o Ibope agora 45%, caindo de 53%, enquanto Dilma passa de 32% e chega a 46%, empatando com o adversário.

O Ibope diz que as menções a Dilma também crescem "expressivamente" entre eleitores com renda familiar até 1 salário , indo de 54% para 69% — neste grupo , Aécio cai de 34% para 22%. Apesar de todas as divergências entre os dois institutos, a tendência parece estar no crescimento da presidente Dilma, a caminho da reeleição. Restarão ainda dois dias até a eleição, e um debate fundamental hoje à noite na Rede Globo, que colocará os indecisos para fazer perguntas aos candidatos. Pode ser a última chance de Aécio convencê-los de que é a melhor escolha. O debate será fortemente impactado pela edição especial da re vista "Veja", que circula a partir de hoje em caráter excepcional, revelando o depoimento do doleiro Alberto Youssef no processo de delação premiada incriminando a presidente Dilma e o ex-presidente Lula nos desvios da Petrobras. Segundo a revista, o doleiro garantiu diretamente que os dois sabiam o que estava acontecendo na estatal brasileira e para que servia pelo menos parte do dinheiro desviado.

Como na delação premiada é preciso provar as denúncias para que os benefícios dela se concretizem, o decorre r do processo mostrará se existem condições de incluir a atual e o ex-presidente em um processo criminal. Nesse caso, o impeachment da presidente ser á inevitável, caso ela seja reeleita no domingo. Corremos o risco de estarmos condenados a uma crise institucional das grandes com membros do Congresso, governadores e até a presidente eleita envolvidos em um processo criminal mais grave do que o mensalão. A situação eleitoral parece estar se definindo a favor da presidente Dilma, a não ser que as revelações do doleiro Yousseff atinjam o eleitorado no que pode ser definida como a última bala de prata da oposição. Há a possibilidade também de o eleitorado considerar essa uma mera manobra política e simplesmente não levar em conta o depoimento. Só o futuro dirá se essa é a melhor maneira de encarar os graves desvios que estão sendo denunciados por um ex-diretor da estatal, Paulo Roberto Costa, e pelo doleiro Alberto Yousseff.

Dora Kramer - Tudo junto e desregrado

- O Estado de S. Paulo

Na última segunda-feira a repórter Tânia Monteiro fez as contas: há exatos 31 dias a presidente Dilma Rousseff não pisava no Palácio do Planalto. Hoje faz 35 e há muito mais tempo que isso não se tem notícia de um ato dela que não seja como candidata à reeleição.

O mais grave é que não parece fazer falta. Ou pior: só vamos saber disso depois da eleição, quando o País voltar a funcionar - se é que voltará - ao ritmo normal. Quando, por exemplo, o governo liberar os números sobre economia, desempenho do ensino público, desmatamento e pobreza no País, cuja divulgação foi adiada para não afetar a votação da presidente, considerando indicações de que os resultados seriam negativos.

Já os dados positivos sobre o baixo índice de desemprego não sofreram adiamento; foram divulgados ontem. Problema algum não fosse o fato apontado pela Folha de S. Paulo de que as outras estatísticas tinham datas previstas para serem conhecidas entre os meses de agosto e outubro. Ficaram para novembro.

Às diversas peculiaridades da presente campanha eleitoral é de se acrescentar a eliminação por completo da separação entre as agendas da presidente e da candidata. Até a eleição passada, ainda havia alguma preocupação em se manter as aparências. Agora não. Dilma Rousseff ultimamente só foi vista em dependências oficiais ou no exercício da função presidencial quando lhe interessou o uso da prerrogativa. Por exemplo, para dar entrevistas no Palácio da Alvorada, cenário a ela favorável, ou para usar a tribuna da ONU como palanque.

Sem falar em toda a estrutura que deve cercar um chefe de nação. Agora, quando o postulante se afasta completamente de suas funções e passa apenas a se dedicar à campanha em tempo integral, a coisa muda de figura. Está tudo desregulado e em contraposição aos preceitos da impessoalidade, da transparência e da probidade exigidos de todo funcionário público, a começar por aquele que preside a República.

Seria esse tipo de coisa defeito do instituto da reeleição? Não necessariamente. Mas é um dado que poderia ser ponto de partida para se pensar em instituir a obrigatoriedade do afastamento temporário aos postulantes de um novo mandato, como ocorre em caso de desincompatibilização seis meses antes para disputa de cargos diferentes.

Pesquisas. Sobre a dianteira de Dilma no Ibope e Datafolha não há mistério: ponto para o marqueteiro João Santana. A vantagem obtida é obviamente fruto da campanha negativa. Até porque não aconteceu nada na última semana além de ataques.

Mútuos. A questão é que Aécio Neves sendo muito menos conhecido é mais permeável a eles, pois aquela faixa do eleitorado que havia aderido sem muita convicção tende a ser mais sensível às maledicências e a mudar o voto com mais facilidade. Em eleição acirrada, tal montante nem precisa ser muito numeroso.

Correção. Assessoria de imprensa dos Correios envia o seguinte e-mail: "Com relação ao texto 'De oito a 80', esclarecemos que nenhuma agência dos Correios foi transformada em comitê eleitoral por qualquer candidato ou partido. A rede de agências dedica-se unicamente à prestação de serviços aos clientes, fato que pode ser verificado por todo cidadão brasileiro, já que as unidades são de acesso público. Caso a colunista tenha provas da afirmação realizada, solicitamos comunicar aos Correios para que seja realizada apuração sobre os fatos".

Realmente, a referência feita não estava correta. O uso não foi de agências. Mas de funcionários. Pelo menos em Minas Gerais onde, conforme disse o deputado Durval Angelo em reunião na presença do presidente da empresa, o PT conseguiu bom desempenho no Estado porque "tem dedo forte dos petistas nos Correios".

Eliane Cantanhêde - Onda

- Folha de S. Paulo

A eleição deu todas as voltas possíveis, mas chega aos últimos dias como começou lá atrás: com o favoritismo da candidata à reeleição, Dilma Rousseff.

O trator Dilma passou por cima de Marina Silva no primeiro turno e está atropelando Aécio Neves no momento decisivo do segundo. Além disso, ela e Lula atropelaram também vários limites. Atacaram a pessoa Aécio, o governador Aécio, o partido de Aécio. Nem sempre com verdades.

Funciona assim: o marqueteiro João Santana consulta os grupos das pesquisas qualitativas para construir uma Dilma e um governo Dilma melhores do que são na realidade e para desconstruir o adversário, ou adversária, criando um mostrengo do que eles são na realidade.

A partir daí, vem a ordem unida: Dilma fala em entrevistas, Lula berra para a militância, a propaganda gratuita massifica, as redes sociais deturpam e panfletos anônimos trucidam. Bom sujeito, político hábil, jeitoso com as mulheres e governador de Minas com 92% de aprovação, Aécio chega ao fim da eleição como um "playboy" agressivo com as mulheres e um péssimo governador. É a força do marketing negativo.

Não há, porém, que se ter pena da oposição. Aécio sabia o adversário que iria enfrentar, mas ficou na retranca, passando de bom moço, fazendo uma campanha "limpa". Depois de duas eleições, o eleitorado conhece bem os avanços sociais da era petista, mas não ouviu falar da personalidade da presidente e metade não entendeu a gravidade do buraco na economia e ainda acredita em qualquer coisa que Lula diz.

A diferença é pequena, mas o PT chegou à última semana armado até os dentes, enquanto Aécio chegou sem munição. Dilma cresceu entre os jovens e entre as mulheres, disparou no Nordeste, subiu no Sudeste, conquistou o que havia a ser conquistado: a nova classe média.

O debate desta sexta (24) na Globo? É importantíssimo, mas talvez não suficiente para furar a onda.

Maria Cristina Fernandes - Domingo na praça

• Sugerir que o voto é manipulável desqualifica o eleitor

- Valor Econômico

Esta campanha termina como começou. As aglomerações são menores, mas as pessoas voltaram às ruas, como em junho de 2013. Reclama-se que o clima está radicalizado mas a turma nem de vinagre precisou. Os eleitores que voltaram a ocupar as ruas nesta reta final são menos criativos mas se juntam pela cor das bandeiras. Saem em busca de sua turma, o que parece útil numa eleição.

A tarifa segue congelada e os 12 monumentos não evitaram o 7 x 1. Tudo isso mais o voto de domingo os levaram de novo ao asfalto. Celso Russomanno arrebentou, mas o fim da democracia representativa vai ter que ficar para depois.

As pessoas podem ter sido estimuladas a se manifestar pelo clima quente dos debates e pela guerra que se trava na internet, mas o que se assistiu no Tuca, no Largo da Batata e em outras praças do país não foi a reprodução da sarjeta. A rua civilizou ou, no pior das hipóteses, domesticou os black blocs da guerra virtual.

A eleição mais engajada do século é também aquela que ameaça ter o maior percentual de absenteísmo. As pessoas deixam de votar porque não têm como se deslocar, não sabem que é preciso levar documento com foto nem se recadastraram para a identificação digital, detestam fila ou preferem pagar R$ 3,50. A multa é tão baixa que quem se envergonha do voto obrigatório pode até tirar esta saúva dos males do Brasil. O enfado eleitoral só será uma preocupação no dia em que deixar de haver brasileiros ausentes da urna por não poderem pagar passagem.

Há mais petistas tanto entre aqueles para quem é caro votar quanto entre aqueles que se viram melhor com menos teclas a manejar. É difícil saber se a ausência de um será compensada pelo desembaraço do outro. Pode haver mais tucanos entre eleitores que se sentem mais intimidados diante de pesquisadores de institutos do que na urna. E é ainda mais difícil saber se a vantagem se anula com a ausência de antigovernistas enfadados.

Findas as disputas parlamentares que aumentam o volume de campanha, a máquina de votos fica mais concentrada nos Executivos municipais, onde a coligação governista leva vantagem, e estaduais, onde os tucanos competem em maior pé de igualdade. A ver o que se passa em São Paulo. Petistas apostam que a inclusão do Estado no polígono das secas tiraria de Aécio Neves aquilo que os eleitores deram generosamente a Geraldo Alckmin.

A despeito da vantagem petista que ontem extrapolou a margem de erro, os partidos tabulam o absenteísmo sob o temor de que, consolidado o eleitorado, a parada será ganha nos decimais. É possível que os eleitores que virão depois da vírgula não sejam fundamentais para garantir a eleição, mas aqueles que virão antes terão feito a campanha mais disputada desde que a maioria começou a votar.

Não faltaram motivos para desgosto. Depois de tão longa campanha não surgiu nenhuma proposta que redimisse o caráter regressivo do sistema tributário que penaliza mais quem gasta a maior parte do salário para comer e se locomover. Apesar do financiamento da saúde pública ocupar o topo das preocupações, não apareceu quem se perguntasse por que servidores de um Estado que gasta quase 10% do seu PIB com o SUS têm planos de saúde privados custeados pelo erário.

As lacunas do debate não foram suficientes para desmobilizar o eleitorado. E uma razão possível é que o Estado se fez mais presente na vida dos cidadãos. É porque apareceu onde não existia que passou a ser mais disputado entre aqueles que não querem perdê-lo e aqueles que pretendem deslocá-lo.

Como mostrou Denise Neumann na comparação das propostas de campanha dos dois candidatos (Valor, 22/10), a campanha teve feitos prodigiosos como o de o PSDB ter passado a cogitar uma contribuição nos moldes da CPMF para custear o Minha Casa Minha Vida e a revisão do fator previdenciário, aprovado no governo Fernando Henrique Cardoso. Para ser reconduzida, Dilma Rousseff teve que apalavrar uma taxa de retorno dos investimentos em concessões em infraestrutura arbitrada pela disputa entre os interessados e reconhecer que as políticas setoriais de incentivo a indústria passaram do limite.

A política externa talvez tenha sido o tema em que as duas candidaturas menos fizeram inflexões no sentido de agradar a torcida alheia. O PT mantém a ênfase no Mercosul e nos Brics enquanto o PSDB explicita a determinação de fazer avançar acordos bilaterais e de um Brasil mais aberto aos Estados Unidos e à Europa. Sem convergências, constituem o núcleo duro de ambas as campanhas.

Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva mantiveram um protagonismo na campanha que guarda pouca relação com o papel que podem vir a exercer no eventual mandato de seus candidatos.

Saudado por banqueiros e empresários como o único petista capaz de moderar um eventual segundo mandato da presidente inflexível nas suas convicções e embates, Lula esteve endiabrado nos palanques. Além do candidato tucano, alvejou Fernando Henrique. resgatado por Aécio como nenhum dos dois paulistas que o antecederam na disputa pelo cargo o fizeram.

Alguns eleitores que vão às urnas neste domingo votam para o outro, mas a grande maioria vota para si - uns poucos por ganância e outros muitos por necessidade.

A consciência do eleitor se prestou às mais diversas interpretações nesta campanha, até à de que é determinada pelo seu grau de informação. Por esta visão, o eleitor que não teve oportunidade de estudar se presta mais facilmente à manipulação da propaganda. Sugere que o eleitor capaz de sobreviver ao ônibus lotado, à carestia e a assaltos cai facilmente nos contos das campanhas eleitorais. Daí para a desqualificação do eleitor e do resultado das urnas é um passo.

Um outro palpite, tirado de um livro amarelado na estante, é que o bafômetro, a Lei Maria da Penha, Igor Rousseff, o adolescente que não forra a cama, as levianas, os bares do Leblon, Lindsay Lohan, Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef não fazem a cabeça dos brasileiros. É a vida do eleitor e o que as urnas podem fazer dela que determinarão o domingo na praça.

Míriam Leitão - Fim do modelo

- O Globo

Chega-se ao fim do segundo turno e a presidente da República que concorre à reeleição nada disse sobre seu programa na área econômica. O silêncio foi deliberado. Não podia falar o que vai fazer porque teria que admitir o quadro lamentável na economia: inflação alta, crescimento zero, recessão na indústria, superávit primário quase desaparecido, aumento da dívida.

Não é o fim do mundo, mas será o fim de um modelo. Se for reeleita a presidente terá que mudar o rumo da economia ou vai aprofundar a crise. A situação chegou no ponto em que está por escolhas feitas pela equipe econômica sob direta supervisão de Dilma. Ela não delegou o tema, cada decisão tomada foi baseada em suas convicções na economia.

O modelo está num beco sem saída. Incentivar mais o consumo com as famílias endividadas não será possível até porque as próprias pessoas estão preocupadas em quitar suas dívidas. O país é mais sensato que seu governo.

Dar mais subsídios a setores específicos perdeu o efeito de elevar o consumo e tem diminuído a arrecadação. O governo terá de pedir para mudar a lei do orçamento porque não cumprirá a meta fiscal do ano. Mesmo com descontos e as falsidades contábeis, não há possibilidade de chegar a R$ 81 bilhões de superávit do governo federal quem conseguiu economizar apenas R$ 300 milhões até agosto.

Proteger setores industriais com barreiras ao comércio nos levará a mais isolamento. Quem mostra que estamos isolados e não nos integramos às cadeias internacionais de comércio é a própria Organização Mundial de Comércio, dirigida por um brasileiro. Esse equívoco é mais velho que o governo Dilma, mas nele se aprofundou a ideia de que elevando-se impostos sobre produtos importados a indústria cresceria. Ela encolheu.

O comércio internacional está com déficit no ano. Os preços das commodities estão caindo. O valor da soja só subirá num cenário de queda da produção brasileira. O minério de ferro está com cotação bem mais baixa.

A economia está em recessão e quem diz isso não é o mal-afamado FMI, mas o IBGE. No primeiro trimestre o crescimento foi de menos 0,2%, no segundo trimestre foi de menos 0,6%. Tudo o que se pode torcer é por um segundo semestre melhor do que o primeiro que leve o PIB a fechar em torno de zero.

A inflação está alta demais, por tempo demais, para ser efeito de um choque, um evento isolado. É o resultado do descuido e da escolha ideológica pela inflação. Foi o que a presidente mostrou nos debates: ela acredita que derrubar a inflação levará a desemprego. Não viu o quanto a teoria econômica avançou nos últimos 40 anos, não olhou os exemplos virtuosos, não entendeu o que aconteceu na hiperinflação brasileira.

No desemprego, a escolha da campanha foi exibir os números de um índice que está condenado a desaparecer. A desocupação só está em 4,9% na Pesquisa Mensal de Emprego, que é feita apenas em seis capitais e por isso vai ser substituída pela Pnad Contínua, amostra de 3.500 municípios, que tem registrado um desemprego quase dois pontos percentuais maior.

As crenças econômicas da presidente e do seu grupo de assessores estão erradas. E por isso estão tendo um resultado desastroso. Não é culpa da conjuntura internacional. A crise que Lula definiu como "marolinha" era aguda e perigosa. Levou o Brasil à recessão em 2009. Hoje, a economia mundial está em transição para um novo patamar de crescimento. Existem riscos, mas não são de colapso iminente da economia americana, como em 2008-2009. A Europa está crescendo pouco e teme a deflação, mas não se fala em implosão do euro. A previsão de crescimento da Alemanha está com viés de baixa, agora de 1,5% para 1,2%. A nossa previsão é de zero.

A estagflação brasileira foi feita aqui dentro e o mundo em descompasso não vai nos acudir. Não haverá uma onda boa, como o boom de commodities que alavancou o primeiro governo Lula.

Se vencer, a candidata terá que mudar de rumo ou o país vai piorar. Nada há no receituário da presidente Dilma que nos tire da crise em que o Brasil está. E ela não nos governou nos últimos meses: fez campanha em que escondeu seu programa, falsificou o pensamento alheio, e adiou os números ruins e as más notícias para depois das urnas.

Nelson Motta - O day after

- O Globo

Não é preciso ser astrólogo ou economista para saber que o ano que vem vai ser um dos mais difíceis de nossa história recente. Com a inflação em alta, o crescimento em baixa e a expectativa de o escândalo da Petrobras se tornar uma tsunami na política brasileira, quem vencer a eleição terá pouco tempo para comemorar, num país dividido entre nós e eles, quando a união nacional é indispensável para as reformas que a sociedade exige e estão paralisadas pela luta política.

Campanhas eleitorais não são para fracos, mas, desta vez, 71% dos eleitores dizem que elas ultrapassaram todos os limites, rebaixando a política a um ramo da publicidade e do marketing de destruição, em que o principal objetivo foi mostrar, provar e reafirmar ao eleitor quem era o pior, fazendo as qualidades dos candidatos despertarem menos entusiasmo do que a repulsa aos adversários. É assim que a emoção vence a razão e o medo vence a esperança.

O pior efeito colateral das campanhas é dificultar ao máximo a convivência democrática de quem vencer com uma oposição forte, representativa e combativa, num momento dificílimo para o país, quando será mais urgente tomar providências do que apontar vilões e perseguir adversários.

A tsunami da Lava-Jato provocará uma devastação no Congresso Nacional, que dividirá com o/a presidente a responsabilidade de enfrentar o que vem pela frente. Com os partidos desmoralizados, com que representatividade serão feitas as reformas tributária, política e eleitoral ?

Algumas grandes empreiteiras que financiam as campanhas já estão procurando a Justiça para negociar acordos de leniência, dispostas a colaborar nas investigações e pagar os prejuízos à Petrobras e pesadas multas para não ter seus diretores, ou até presidentes, presos.

Além de rezar para o cenário da economia internacional não piorar, o maior desafio da/o eleita/o, mais do que baixar a inflação, fazer o país voltar a crescer, ampliar a inclusão social, melhorar os serviços e desbaratar as quadrilhas que assaltam o Estado, será unir o país - para viabilizar essas ações e atravessar as turbulências de 2015.

Feliz 2016!

Marisa Monte & Cesária Évora - É doce morrer no mar

Graziela Melo - Sorrisos

Sorrisos
existem
os cínicos
e debochados...

alguns!

Outros

estridentes e
escrachados...

Sorrisos
doces,
suaves,
denotam

consentimento,
cumplicidade!

Outros,
disfarçam,
escondem
os caminhos
da verdade...

Sorrisos!!!

Existem
os fingidos
carregados
de maldade!!!

E...

os plácidos,
serenos
que transmitem

a tranquilidade
da alma...

o pudor,
o escrúpulo,
a lucidez
e a calma!!!

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Opinião do dia – Aécio Neves

Essa campanha vai ficar marcada na história do Brasil como a campanha da infâmia por parte dos nossos adversários. Mas para eles não há limites, não há limites para se manterem no poder. A campanha da minha adversária é a campanha da mentira. A campanha adversária tem na mentira o seu instrumento mais vigoroso de ataque político.

Aécio Neves, senador (MG) e candidato a presidente da República, na entrevista em Belo Horizonte, 22 de outubro de 2014.

CVM investiga Petrobras em meio a escândalos

• Órgão regulador do mercado de capitais abre processo para apurar denúncias da Lava-jato

Rennan Setti e Bruno Rosa – O Globo

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), xerife do mercado de capitais brasileiro, abriu um processo administrativo para investigar a Petrobras. Embora a CVM não informe o motivo da investigação - alegando que "não comenta casos específicos, inclusive para não afetar negativamente trabalhos de análise" -, uma fonte ligada à estatal informou que o objetivo do processo é tomar ciência das denúncias surgidas com a Operação Lava-Jato, da Polícia Federal.

- A CVM abriu esse processo para tomar pé de tudo o que está acontecendo com a Operação Lava-Jato, já que há uma investigação em curso, envolvendo vários órgãos. Esse é o objetivo - disse uma fonte ligada à estatal.

Já fontes próximas à CVM disseram que, mesmo sem ter instaurado processos sancionadores até então, o órgão já vinha apurando as denúncias surgidas na Operação Lava-Jato. Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras preso na operação, aceitou fazer acordo de delação premiada e contou que o dinheiro da estatal era desviado para pagar propina a políticos de PT, PMDB e PP.

Na última sexta-feira, a Petrobras esclarecera, em resposta a um ofício da CVM que pedia informações sobre os crimes denunciados na Lava-Jato, que constituiu comissões internas para averiguar indícios de irregularidades na empresa. Além disso, a companhia afirmou que requereu acesso aos autos da operação - o que foi deferido pela Justiça -, e que solicitou acesso ao conteúdo da delação premiada do seu ex-diretor Paulo Roberto Costa - o que ainda não foi deferido pelo Judiciário.

Estatal na mira da SEC, nos EUA
A abertura do processo, de número RJ-2014-12.184, foi requerida na segunda-feira pela Superintendência de Relações com Empresas (SEP) da CVM. A apuração tem caráter preliminar e, caso se identifiquem irregularidades, dará origem a processo administrativo sancionador, que pode resultar em punições para a companhia.

- A impressão que dá é que a CVM se sentiu pressionada a abrir uma investigação depois que a SEC (Securities and Exchange Commission, o órgão regulador do mercado financeiro dos Estados Unidos), começou a apurar a conduta da empresa - disse um gestor, que preferiu não ser identificado.

Na semana passada, a consultoria política Arko Advice havia divulgado que a Petrobras é alvo de investigação semelhante nos Estados Unidos. A SEC, porém, não informa quais empresas estão sob investigação. A estatal possui recibos de ações (ADRs, American Depositary Receipts) negociados na Bolsa de Nova York, e por isso está submetida também às leis do mercado acionário americano.

A investigação seria preliminar e contaria com 28 advogados e analistas da SEC e do Departamento de Justiça dos EUA. A depender do resultado da apuração, a Petrobras responderia não apenas por irregularidades no mercado acionário, mas também criminalmente, além de estar passível de cobrança de multas - as leis americanas preveem punições à corrupção, mesmo que ocorrida fora do país.

- A CVM não é a Polícia Federal, ela não tem como objetivo apurar se houve crimes na empresa, mas se as informações prestadas pela companhia em balanços financeiros e comunicados estão corretas. Então, a investigação é positiva, porque trará mais transparência à companhia - disse Rogério Freitas, da gestora de recursos Teórica Investimentos.

Procurada, a Petrobras não se manifestou sobre o processo aberto pela CVM.

Em fevereiro, a CVM já havia arquivado sua investigação sobre as supostas irregularidades na compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), feita em 2008. A apuração foi iniciada após queixas de acionistas da estatal. A autarquia não deu continuidade ao caso porque as possíveis irregularidades no negócio já haviam prescrito - o prazo de ação do órgão é de cinco anos após a ocorrência dos fatos.

Em carta, Conselheiro critica auditoria
Mas, segundo fontes próximas à CVM, o órgão está acompanhando de perto todas as denúncias surgidas com a Operação Lava-Jato porque, caso a investigação descubra que houve, de fato, crime na aquisição da refinaria americana pela Petrobras, o órgão poderá reabrir o caso. Isso porque, em casos de crime, o prazo de prescrição é maior.

Ontem, em carta aberta, Silvio Sinedino, membro do Conselho de Administração da Petrobras eleito pelos funcionários, afirmou que a estatal deveria identificar funcionários envolvidos nas fraudes. Ele ressaltou ainda que há indícios de corrupção na gestão da petroleira.

"Como entender que a Auditoria Interna não tenha sido capaz de identificar nenhum desses desvios? Eram mesmo indetectáveis?", destacou Sinedino, que também é presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet). "Se o esquema de corrupção existiu, e tudo indica que sim, com certeza há outros petroleiros envolvidos, ou alguém acha que é possível que seja armado um esquema de desvio gigantesco de valores por uma única pessoa e que não desperte a atenção de ninguém?"

Doleiro afirma que 'testa de ferro' mentiu

• Defesa de Alberto Youssef afirma que dono do Labogen, Leonardo Meirelles, está mentindo ao dizer que ele ‘trabalhou’ para tucanos

Ricardo Brandt e Fausto Macedo - O Estado de S. Paulo

A defesa de Alberto Youssef desafiou nesta quarta-feira, 22, Leonardo Meirelles, apontado como “testa de ferro” do doleiro no laboratório Labogen, a provar o envolvimento do PSDB no esquema de corrupção da Petrobrás desbaratado pela Operação Lava Jato da Polícia Federal.

O criminalista Antônio Figueiredo Basto, que defende Youssef, afirmou que seu cliente está disposto a fazer uma acareação com Meirelles, colocando-se frente a frente com o juiz federal Sérgio Moro, da 13.ª Vara Federal, em Curitiba, no processo criminal que apura superfaturamento e desvios nas obras da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.

A obra da Petrobrás, iniciada em 2008 e ainda não concluída, teve superfaturamento já constatado. “Meu cliente afirma peremptoriamente que nunca falou com Sérgio Guerra, nunca teve negócio com ele e nunca trabalhou para o PSDB”, afirmou Basto. “Estamos pedindo uma impugnação do depoimento do Leonardo e uma acareação entre eles.”

Em depoimento prestado na segunda-feira à Justiça Federal no Paraná, Meirelles afirmou que o doleiro trabalhou, dentro do esquema da Petrobrás, também para o PSDB, além de PT, PMDB e PP, partidos governistas que haviam sido apontados por Youssef e pelo ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa.

Meirelles disse ainda ter presenciado uma conversa telefônica de Youssef na qual o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra era mencionado. Guerra, que morreu em março deste ano, é suspeito de ter recebido R$ 10 milhões do esquema quando era senador a fim de ajudar enterrar uma CPI que funcionou em 2009 no Congresso e tinha a estatal como alvo.

A Queiroz Galvão é suspeita de ter feito o pagamento. A empreiteira faz parte do Consórcio C II Ipojuca Interligações, contratado por R$ 2,7 bilhões para implantar as tubulações na Abreu e Lima que transportam produtos entre as unidades. A construtora negou qualquer irregularidade e disse que todas as doações são feitas dentro da lei.

A acusação foi feita por Costa no âmbito da delação premiada ao Ministério Público Federal. No caso de Meirelles, a referência ao PSDB foi feita após seu advogado, Haroldo Nater, questionar sobre o envolvimento de outras legendas no esquema além de PT, PMDB e PP.

O homem apontado como “testa de ferro” de Youssef afirmou ainda que haveria um segundo tucano envolvido no esquema, além de Guerra. Ele não citou o nome deste político porque o processo da Lava Jato no Paraná é de 1.º instância, portanto não tem competência para investigar parlamentares.

Mas Meirelles, que é réu na ação, disse se tratar de alguém que é conterrâneo do doleiro. Foi uma referência indireta a Álvaro Dias, senador reeleito do PSDB que fez a carreira política em Londrina, no interior paranaense, cidade natal de Youssef. Dias, que integrava a CPI da Petrobrás que funcionou em 2009, nega manter qualquer relação com o doleiro.

Posteriormente, ainda durante a oitiva de segunda-feira, seu advogado perguntou especificamente sobre a ligação com Guerra. Foi então que respondeu ter presenciado uma conversa de Youssef em que ele citou ao telefone o ex-presidente do PSDB. “Em uma das ocasiões eu estava na sala, teve um contato telefônico do Alberto Youssef quando do qual surgiu o nome (Sérgio Guerra). Faltava um ajuste, alguém não estava reclamando, estava atribuindo alguma coisa que não estava acontecendo, que não estava caminhando em virtude do que tinha uma coisa do passado que estava parado”, disse Meirelles.

No pedido do advogado de Youssef, anexado nesta quarta ao processo, o criminalista afirma que o documento visa a “repudiar na integralidade o depoimento de Meirelles, vez que este não corresponde à realidade dos fatos ora processados”. Segundo o advogado do doleiro, Youssef está à disposição da Justiça “para o esclarecimento dos pontos contraditórios e conflitantes existentes entre as suas (doleiro) declarações e as que foram realizadas por Meirelles”.

Na terça, a defesa de Youssef já havia apontado estranhamento com o depoimento de Meirelles. O advogado do doleiro falou em “ influência estranha” no processo e em “ interesse eleitoral”.

No pedido formalizado nesta quarta, o criminalista ressalta que seu cliente depôs sob juramento de dizer a verdade. “Enquanto Meirelles falou na qualidade de acusado, descompromissado com a veracidade de suas alegações”.

Meirelles é oficialmente dono do Labogen, um laboratório que, segundo a Polícia Federal, é de propriedade, na verdade, de Youssef – que estava prestes a assumir formalmente o negócio. O Labogen tinha plano de atuar em contratos da Petrobrás para o fornecimento de insumos. A suspeita é que o intermediador do negócio era o deputado federal André Vargas, que foi expulso do PT após ter o nome envolvido no caso. Vargas nega irregularidades na transação.

Tucanos. O PSDB defendeu mais uma vez em nota que o caso seja investigado. “O PSDB defende que todas as denúncias sejam investigadas com o mesmo rigor, independente da filiação partidária dos envolvidos.”

Dias voltou a dizer que a oposição fez um relatório paralelo com 18 representações ao procurador-geral da República sobre irregularidades na Petrobrás, em 2009, após concluir que o governo não deixaria a CPI fazer investigações.

Governo adia divulgação de resultados negativos

• Estatísticas sobre 7 milhões de alunos e resultado da arrecadação de tributos em setembro ficam para depois da eleição

• Órgãos responsáveis apontam questões administrativas, técnicas e legais para justificar adiamento

Fábio Takahashi, Sofia Fernandes – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO e BRASÍLIA - Por decisão do governo federal, o país chegará ao segundo turno da eleição presidencial no domingo sem ter dados atualizados sobre o desempenho dos alunos em português e matemática e a arrecadação de tributos, estatísticas potencialmente negativas para a campanha da presidente Dilma Rousseff.

Como a Folha informou, também só serão divulgados depois da eleição dados sobre o desmatamento e um novo estudo sobre o contingente de pobres e de miseráveis.

Avaliações independentes ou informações oficiais já publicadas sinalizam que os indicadores mostrarão piora nessas duas áreas.

Diferentes instituições do governo Dilma Rousseff responsáveis por esses dados apontam questões técnicas, administrativas ou legais para explicar o que houve.

No caso da educação, tradicionalmente até agosto são apresentados os resultados de um exame nacional aplicado, a cada dois anos, a mais de 7 milhões de alunos.

Em setembro, o Ministério da Educação divulgou indicador que usa como base a prova de 2013 e a taxa de aprovação dos alunos --o Ideb--, sem mostrar qual foi o resultado em cada âmbito.

Assim, não é possível saber como está o nível atual dos estudantes brasileiros em português e matemática.

Por meio de dados secundários do próprio ministério, é possível estimar que os estudantes do ensino médio tiveram notas piores na prova nacional, mas menor reprovação nas escolas.

Os colégios nesse nível de ensino são mantidos majoritariamente pelos Estados, mas cabe à União induzir melhorias no sistema.

Já os alunos do ensino fundamental devem ter obtido desempenho positivo nas duas matérias.

Associação de funcionários do Inep (órgão que organiza a prova) divulgou carta pedindo autonomia ao órgão e "proteção frente a demandas de caráter privado".

O professor da USP Ocimar Alavarse, especialista em avaliações educacionais, afirma que o intervalo entre a aplicação da prova (novembro de 2013) e a divulgação dos resultados (provavelmente novembro de 2014) "limita a análise" dos dados.

Economia
Outra informação que será divulgada apenas após as eleições é o resultado da arrecadação de tributos em setembro. Mantida a tendência recente, a arrecadação será menor do que a esperada pela gestão Dilma.

O anúncio normalmente ocorre até o dia 25. Em abril, maio e junho, porém, foi feito após essa data (nos dias 27, 26 e 28, respectivamente).

Na aferição do desmatamento da Amazônia, cujos resultados são divulgados todo mês, apenas em novembro serão publicados os dados de agosto e setembro.

Segundo análise da ONG de pesquisa Imazon, a taxa subiu 191% se comparado os bimestres de 2013 e 2014.

Outra divulgação postergada foi o estudo do Ipea que analisará o número de miseráveis no país. Um diretor chegou a pedir afastamento devido à decisão.

Segundo pesquisa do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade), houve, no ano passado, pequeno aumento no número de indigentes. A informação já foi usada pelo tucano Aécio Neves em sua campanha.

Aécio diz que vai libertar o Brasil como Tancredo libertou o país da ditadura

• Em comício em Belo Horizonte, o presidenciável afirmou que sua maior vitória será em Minas Gerais

Cristiane Jungblut – O Globo

BELO HORIZONTE — Em um comício realizado numa praça da região central da capital mineira, o candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, disse que no próximo domingo vai “libertar o Brasil como fez Tancredo Neves há 30 anos, quando libertou o país da ditadura”. Cercado de políticos mineiros, Aécio se comparou ao avô no desafio de devolver o país a um governo mais democrático. Tancredo liderou o processo de redemocratização e a campanha das “Diretas Já”. Escolhido presidente, por voto indireto, no Colégio Eleitoral, Tancredo morreu antes de assumir.

— São pouquíssimos dias que nos separam da libertação do Brasil. Porque, se há 30 anos atrás, o pai de minha mãe, o presidente Tancredo Neves nos libertou da ditadura, e eu vou libertar o Brasil de um grupo que se apropriou do poder em benefício de de um pequeno grupo e em detrimento dos interesses maiores da nossa gente. Não venho para dividir, venho unir esse país em torno de valores como os da ética e da honradez — disse Aécio Neves.

Ele lembrou ainda do ex-presidente, também mineiro, Juscelino Kubitschek.

— Sempre que a dificuldade é grande, o Brasil descobre em Minas o líder para conduzir as mudanças. Foi assim com Juscelino Kubitschek há 50 anos. E há 30 anos coube a outro mineiro nos conduzir à liberdade e à democracia. E quase como a construção do destino, outros 30 anos se passaram e e estou aqui com os mesmos valores, a mesma coragem, a mesma determinação para governar o Brasil — discurso o tucano.

Aécio disse que está nas mãos do eleitor eleger um novo governante, com um novo projeto para o país.

— Vamos dizer não à corrupção e ao desgoverno. Vamos convencer o indeciso e virar o voto contrário e mostrar que Minas não se curva à mentira e à ofensa. Alguns não acreditam, mas minha maior vitória será em Minas. Minas é minha casa, minha causa, minha vida — disse Aécio, com voz rouca, durante o comício.

Numericamente atrás nas últimas pesquisas, Aécio pediu que cada um “arregace as mangas” e tente virar o voto dos indecisos.

— Neste próximo domingo, estaremos escolhendo o país no qual queremos viver. Se no Brasil que respeita sua história e que constrói o seu futuro. Ou nesse país da vergonha, da mentira, do achincalhe e das ofensas em que se transformou a campanha da nossa adversária — disse o tucano, criticando a adversária Dilma Rousseff (PT).

Ele reclamou dos ataques que têm sofrido.

— Nossa história é de dignidade e honradez. Ninguém viu nessa campanha eleitoral o que eu vi, a energia que eu senti. Sou hoje um vitorioso, mas no domingo serei mais do que vitorioso. Peço a vocês: faltam apenas poucos dias. Vamos arregaçar as mangas, de cabeça erguida.

Pouco antes, o senador eleito Antonio Anastasia (PSDB) reclamou dos ataques a Aécio, especialmente desferidos pelo ex-presidente Lula.

— Vamos calar a boca daqueles que vem aqui falar baixarias — disse Anastasia.
O cantor Fagner, presente no comício, disse que o Nordeste estava com Aécio.

— Tem gente que acha que é dono do Nordeste — alfinetou o artista.

Durante o comício, os cantores sertanejos acabaram descumprindo a legislação eleitoral. O cantor César Menotti —da dupla César Menotti e Fabiano — cantou o jingle da campanha, enquanto o clipe passava no telão. A legislação proíbe a realização de showmícios, com a apresentação de cantores.

Vários artistas estavam no palco, assim como Pimenta da Veiga, que perdeu a eleição estadual para Fernando Pimentel (PT). Confiantes, esta foi a primeira vez que o PSDB realizou o comício na Praça da Estação.

Aécio diz que PT faz ‘campanha da infâmia’ e que Lula ‘apequena sua biografia’

• Tucano disse que petista faz ataques ‘torpes e absurdos’

Cristiane Jungblut – O Globo

BELO HORIZONTE - O candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, disse que o PT faz uma "campanha da infâmia" e que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva "apequena sua biografia" ao fazer ataques pessoais e ao PSDB. Aécio disse que Lula faz ataques "torpes e absurdos" e que não se comporta como um ex-presidente da República. O tucano mudou a estratégia, que era não responder ao petista. Nos últimos dias, Lula elevou o tom; chegou a comparar o PSDB aos nazista. Em comício no sábado, Lula foi para os ataques pessoais, chamando Aécio de "filhinho de papai". Aécio afirmou que os brasileiros "não merecem ser governados pelo PT".

Aécio disse que está sendo vítima de uma campanha do "medo" feita pelo PT, acusando a campanha da presidente Dilma Rousseff de distribuir panfletos apócrifos afirmando que ele acabará com os programas sociais, como o Bolsa Família, e que vai privatizar os bancos públicos.

Perguntado sobre Lula, Aécio primeiro disse que iria "ignorar" os comentários do ex-presidente. Mas mudou de ideia.

— Ele apequena sua biografia com ataques torpes e absurdos como esse (de comparar o PSDB aos nazistas). Lula não está disputando a eleição, ignoro. Lamento apenas que um ex-presidente da República se permita cumprir um papel tão inexpressivo como esse que ele vem cumprindo no final dessa campanha eleitoral. É triste para sua própria biografia. Só quem perde com isso é ele — disse Aécio.

O tucano disse que os eleitores responderão a todos os ataques. Essa resposta foi dada quando perguntado sobre as insinuações de Lula e da própria presidente Dilma de que ele tem sido agressivo com as mulheres:

— Não vou responder. Deixe que as pessoas respondam nas urnas a todas essas infâmias. A minha campanha é a da verdade, da responsabilidade.

Enfático, Aécio disse que a campanha de Dilma ficará marcada como a campanha "da infâmia e do medo".

— Essa campanha vai ficar marcada na história do Brasil como a campanha da infâmia por parte dos nossos adversários. Mas para eles não há limites, não há limites para se manterem no poder. A campanha da minha adversária é a campanha da mentira. A campanha adversária tem na mentira o seu instrumento mais vigoroso de ataque político.

Mas não receio o PT. A minha candidatura vai vencer a mentira, vai vencer o PT. Os brasileiros não merecem ser governado pelo medo — disse Aécio, acrescentando:

— O medo daqueles que anunciam o fim dos programas sociais se perderem as eleições e que colocam em dúvida afirmações tão claras como estamos fazendo em relação a empresas públicas. Vou até o final desta campanha falando a verdade.

Segundo ele, há a distribuição de material apócrifo.

— Acredito que a verdade vai vencer a mentira, as propostas vão vencer os ataques. Vai vencer o Brasil velho, o Brasil antigo, que é representado por esse governo. Quem não tem o que falar sobre o futuro é porque, realmente, perdeu as condições de governar o Brasil. Hoje mesmo são boletins, jornais apócrifos, anônimos sendo distribuídos em todo o Brasil, exatamente dando a ideia de que poderíamos exatamente de que poderíamos estar indo na direção da diminuição ou do fim dos programas sociais ou da privatização dos bancos públicos. Os nossos adversários sabem que isso não vai acontecer — disse Aécio, acrescentando que seu dever é tranquilizar os beneficiários do Bolsa Família e os servidores dos bancos públicos, que estão "aparelhados por partidos políticos".

'Que investigue', diz Aécio sobre Aeroporto
Em relação aos aposentados, Aécio repetiu que vai acabar com o fator previdenciário. Também rebateu as acusações da presidente Dilma sobre a valorização do salário mínimo, afirmando que vai manter o atual mecanismo até 2019.

— Hoje quero reiterar alguns compromissos: o primeiro deles é o compromisso de garantir os programas sociais em andamento, em especial o Bolsa Família, e o compromisso com os bancos públicos, com o seu fortalecimento e profissionalização, valorização dos seus funcionários.

— Já não sou candidato de um partido, de uma coligação, mas de um amplo sentimento de mudança, que já venceu no primeiro turno e acredito que vencerá no segundo turno.

Aécio disse que o Ministério Público Federal em Minas pode investigar as obras do aeroporto de Claudio, que foi construído em terra desapropriada que pertencia à família do candidato. A Procuradoria Geral da República arquivou a denúncia criminal sobre o caso, mas o MP em Minas investiga se houve improbidade administrativa.

— Tem que investigar. Que investigue — disse apenas.

Mais tarde, à imprensa local, ele disse que, se vencer, terá uma relação "republicana" com o governador eleito Fernando Pimentel (PT). Ainda prometeu democratizar a mídia, fortalecendo os veículos regionais, e novas regras para times de futebol.

Democratização da mídia
Aécio defendeu a democratização da mídia e disse que, se eleito, vai fortalecer esse princípio e ainda as mídias regionais. A questão da liberdade de imprensa se tornou foco de debate e polêmica na campanha, porque o PT da presidente Dilma Rousseff defende a regulamentação da mídia no país.

— A regionalização da mídia é muito importante. A democratização da mídia é algo muito importante. E eu quero poder, se presidente for, fortalecer a mídia do interior. Tenho o compromisso de democratização da mídia para que os veículos do interior possam crescer — disse Aécio.

O tucano, depois da coletiva, se reuniu apenas com órgãos regionais. Ele disse que sempre procura fazer esses encontros, como em São Paulo e no Nordeste e que não poderia deixR de fazê-lo justamente em Minas Gerais.

'Lula apequena biografia', afirma Aécio sobre ataques

• Candidato diz ignorar declarações de ex-presidente, segundo quem o tucano é 'filhinho de papai', e evita falar sobre decisão do Ministério Público Federal de investigar construção de aeroporto

Pedro Venceslau e Elizabeth Lopes - O Estado de S. Paulo

BELO HORIZONTE - O candidato Aécio Neves respondeu em Belo Horizonte na tarde desta quarta-feira, 22, os ataques feitos contra ele pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula Silva, que chamou o tucano de "filhinho de papai" em um comício. "Eu ignoro. Lamento apenas que o ex-presidente cumpra esse papel inexpressivo. É triste. Lula apequena sua biografia", afirmou.

O presidenciável falou com os jornalistas nesta quarta antes de participar de um comício no centro de Belo Horizonte. O tucano também reclamou da produção de materiais de campanha apócrifos que, segundo ele, tentam criar rumores de que ele acabaria com programas sociais e prejudicaria os servidores públicos. "Essa campanha será marcada como a da infâmia. Jornais apócrifos estão sendo produzidos em todo o Brasil, dizendo que somos contra os programas sociais e bancos públicos. O meu dever é tranquilizar os beneficiários do Bolsa Família e os servidores."

Questionado sobre propagandas elaboradas pela campanha da presidente Dilma Rousseff (PT) com insinuações de que ele desrespeita as mulheres, Aécio voltou a se queixar das "infâmias". "Eles acham que podem enganar a todos o tempo todo, mas não podem", disse.

Aécio cumpre agenda em seu Estado natal, local também escolhido para encerrar a campanha tucana, no sábado, 25. No sábado, ele vai visitar o túmulo do avô, Tancredo Neves, em São João Del Rey, mas no domingo volta a Belo Horizonte.

Aeroporto de Cláudio. O candidato foi econômico nas palavras ao comentar a decisão do Ministério Público Federal em Divinópolis, na região central de Minas, de abrir procedimento para apurar suspeita de improbidade administrativa na construção do aeroporto de Cláudio. "Tem que investigar", afirmou.
A obra, iniciada na gestão de Aécio à frente do governo de Minas em 2009, custou R$ 13,9 milhões ao Estado e foi feita em terreno desapropriado de um tio-avô do tucano, Múcio Guimarães Tolentino. O caso foi divulgado pelo jornal Folha de S.Paulo. Aécio nega irregularidades.

Democratização da mídia. Durante entrevista coletiva concedida a jornalistas de veículos do interior de Minas, Aécio defendeu a democratização da mídia e do futebol. "A democratização da mídia é muito importante, quero fortalecer a mídia do interior", disse. Sem entrar em detalhes, o candidato sinalizou que a proposta seria no sentido de garantir mais repasse de publicidade a jornais menores. A ideia, portanto, não se assemelharia à bandeira da democratização dos meios de comunicação tradicionalmente defendida por lideranças de esquerda e setores do PT. Aécio é sócio de uma rádio no Estado. A sociedade foi formalizada depois que o tucano deixou o comando do governo mineiro, em 2010.

O tucano também disse ter conversado nesta quarta com o senador eleito pelo PSB do Rio e ex-jogador Romário e falou sobre a democratização do futebol brasileiro. "Temos que democratizar o futebol brasileiro. Vou estimular um debate sobre a profissionalização da gestão dos clubes", afirmou. Aécio sugeriu ainda que o calendário do Campeonato Brasileiro seja reformulado. / Colaborou Marcelo Portela

Dilma tem que responder pelos atos 'igual um homem', diz tucana

• Deputada estadual Terezinha Nunes liderou o movimento 'Todas com Aécio', no Recife, e rebateu pesquisa mostrando de que eleitores condenam agressividade de tucano na campanha

Clarissa Thomé - O Estado de S. Paulo

RECIFE - Centenas de pessoas se reúnem na Praça do Marco Zero, no Recife (PE), em evento de apoio à candidatura de Aécio Neves à presidência, nesta quarta feira, 22. O ato, batizado de "Vem Pra Rua", ocorre um dia depois de grande evento de campanha da presidente Dilma Rousseff (PT) na cidade, com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Dilma e Aécio disputam os votos de Marina Silva (PSB) no Estado onde foi a mais bem colocada no primeiro turno, com 48% dos votos. Dilma teve 44% e Aécio, 5%.

A manifestação começou com caminhada do movimento Todas com Aécio, liderado pela deputada estadual Terezinha Nunes (PSDB), que não se reelegeu. Cerca de 2 mil mulheres, segundo a organização, saíram da Praça Maciel Pinheiro e caminharam pelas ruas centrais em direção ao Marco Zero.

"Quando o PT foi agressivo com Marina e ela chorou, disseram que era coitadinha. Agora estão reclamando que Aécio foi agressivo com Dilma. Dilma não é coitadinha. Uma mulher que chega à presidência da República tem que responder pelos seus atos igual a homem", disse a deputada.

A fala ocorre após a pesquisa Datafolha, divulgada nesta quarta-feira, mostrar que 71% dos eleitores condenam a agressividade nas eleições e que destes, 36% consideram que Aécio está sendo mais agressivo que a presidente no 2º turno. 24% consideraram a petista mais agressiva.

Convocação. O ato "Vem Pra Rua" marcado para esta quarta-feira foi organizado nas redes sociais e, apesar de a campanha do PSDB alegar que o ato não tem líderes, vários tucanos divulgaram vídeos convocando a população para participar do movimento e pedindo voto para o candidato do PSDB, Aécio Neves. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a pedir para a população se juntar "contra essa podridão que está havendo no Brasil".

O estudante de engenharia João Campos, filho de Eduardo Campos, morto em acidente aéreo em agosto, também postou em seu perfil no Facebook na terça um vídeo convocando os jovens que participaram da onda de protestos iniciada em junho de 2013 a votarem em Aécio.

"Se engajem e participem da campanha do futuro presidente Aécio Neves nesta reta final. Principalmente você que é jovem, que foi às ruas no ano passado. Agora chegou a hora de escolher o caminho da mudança. Eu sou brasileiro. Eu sou Aécio 45", diz o rapaz, que veste camisa amarela estampada com a frase "Não vamos desistir do Brasil", lema repetido por Eduardo Campos.

Mobilização pró-Aécio em SP reúne cerca de dez mil pessoas

• Para Walter Feldman, apoio à tucano é 'muito semelhante ao que aconteceu nas manifestações de junho do ano passado'

Ana Fernandes e Ricardo Chapola - O Estado de S. Paulo

Segundo a Polícia Militar, a manifestação de apoio ao candidato a presidente Aécio Neves (PSDB) na capital paulista reúne cerca de 10 mil pessoas. A concentração começou no Largo da Batata, na zona oeste, e segue na Faria Lima. Jingles da campanha se misturam a gritos de ordem contra o PT. A cantora Wanessa Camargo cantou em cima do carro de som a música oficial da campanha, que já havia gravado para o programa de TV de Aécio. Ela cantou também o Hino Nacional.

Entre os gritos anti-PT, repetidos à exaustão pelos manifestantes, destacaram-se hostilidades contra o ex-presidente Lula. "Lula, cachaceiro, roubou o meu dinheiro", gritavam. Também ouviu-se:"Dilma vai embora, o Brasil não quer você, aproveita e leva o Lula e os vagabundos do PT"; "O PT roubou" e "Fora PT".

"É uma coisa impressionante, muito semelhante ao que aconteceu nas manifestações de junho do ano passado", disse Walter Feldman, que coordenou a campanha de Marina Silva e que agora se dedica à campanha do tucano, ao Broadcast Político, em meio à manifestação. Com nome #VemPraRuadia22, o movimento tenta reavivar o espírito das manifestações que causaram abalo à avaliação da presidente Dilma Rousseff (PT), em 2013.

Foi anunciado no carro de som atividades simultâneas em mais de 15 cidades. O carro tocou o jingle da campanha e chamou para gritos de "Fora PT", "O PT roubou" e até uma marchinha de "Dilma vai embora, que o Brasil não quer você / aproveita e leva o Lula e os vagabundos do PT".

A ideia é partir em seguida para uma caminhada pela Avenida Faria lima. O tom ufanista se vê em camisas e bandeiras do Brasil e se mistura a falas de revolta contra o PT.

Muitas pessoas trouxeram crianças e até cachorros. Misturam-se eleitores tradicionais do PSDB a eleitores que também já votaram no PT. "Sempre votei no PSDB, sou anti-PT desde a 'revolução de 64'", disse a confeccionista Acrisia Monteiro. Já Vitor Sanches, auxiliar de escritório, que votou em Dilma em 2010, diz hoje apoiar o tucano por ter ficado decepcionado com a capacidade de gestão do governo Dilma. "Nas manifestações, eu fui pra rua e não houve mudança, a mudança vai ser na urna."

Já subiram no carro de som, no Largo da Batata, o candidato presidencial do PV, derrotado no primeiro turno, Eduardo Jorge , o vereador do PV Gilberto Natalini e o jurista e ex- ministro do governo Lula, Miguel Reali Jr. "O PV foi o primeiro partido que decidiu apoiar Aécio no segundo turno", disse Jorge, que afirmou que o apoio se deve ao atual governo ser "avesso" ao povo e porque o governo "infiltrou até a medula" ministérios e agências reguladoras.

"Estamos indignados ou não estamos indignados? Vamos reagir no voto e vamos pôr o PT fora do governo", disse Reali Jr. Os famosos Juca Chaves e Ronaldo Fenômeno são esperados. Também foram citados os tucanos Jose Serra e Mara Gabrilli, que devem chegar em breve.

Manifestações. Para garantir a vantagem de Aécio no Estado, o PSDB também investiu em agenda de forte apelo popular nesta última semana. A estratégia foi promover atos inspirados na onda de protestos de junho de 2013. A aposta é vincular o candidato à ideia de mudança expressa pelos manifestantes, como o tucano já vem fazendo em seus programas de TV.

Na segunda-feira, aliados de Aécio se concentraram na Avenida Paulista. Na quarta-feira, o local escolhido foi o Largo da Batata, em Pinheiros, na zona oeste, que em 2013 foi o palco de uma das maiores manifestações da série junina.

Como Aécio passou o dia em campanha em Minas, seu Estado natal, coube ao ex-presidente Fernando Henrique e o senador eleito José Serra representá-lo no evento. De cima de um carro de som, Serra puxou o coro de “Adeus, PT”, que foi rapidamente ecoado pelas mais de 10 mil de pessoas que se reuniram no local.

FHC também se pronunciou: “Não dá mais para seguir com a incompetência, vamos vencer. Em São Paulo, temos a obrigação de eleger Aécio Neves presidente.” Além dos tucanos, o ex-jogador de futebol Ronaldo engrossou o time ao subir no carro de som e bradar por mudança.

Apesar de não ter comparecido ao ato de quarta-feira, o governador Geraldo Alckmin também tem realizado agendas de campanha para o candidato tucano aos finais de semana. No domingo, por exemplo, ele foi a São Bernardo do Campo, na região metropolitana, para fazer uma caminhada.

Segundo o presidente do PSDB paulista, deputado Duarte Nogueira, somente na capital paulista cerca de 600 pessoas do partido foram recrutadas e estão sendo pagas pelo comitê financeiro da campanha de Aécio para fazer a panfletagem nas ruas.

O estafe do presidenciável também foi reforçado pela estrutura de campanha de Alckmin, que foi reeleito no 1.º turno. Cerca de 50 pessoas que trabalharam para a campanha do governador foram realocados para o comitê de Aécio. /

Ato pró-Aécio com FHC e Serra reúne 10 mil em SP com clima antipetista

- Valor Econômico

SÃO PAULO - Em evento de apoio ao candidato a presidente Aécio Neves (PSDB) que reuniu, segundo a Polícia Milit ar, cerca de 10 mil pessoas nesta quarta-feira (22) na zona oeste de São Paulo, predominaram declarações e gritos de guerra antipetistas.

Em concentração no Largo do Batata, antes de saírem em passeata pela avenida Faria Lima, o público ouviu discursos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do senador eleito José Serra, do ex-jogador Ronaldo Nazário e de outros aliados do tucano.

"O Brasil não aguenta mais inflação com corrupção e incompetência", discursou FHC.

"Nós temos a obrigação de levar Aécio Neves à Presidência da República para que ele realmente reponha o Brasil no caminho correto, no caminho do crescimento econômico com distribuição de renda, com manutenção das políticas sociais --que nós implantamos. No caminho da manutenção do aumento do salário mínimo, que no meu tempo foi o dobro do tempo da Dilma Rousseff", acrescentou.

A origem de programas de distribuição de renda foi fruto de discussão entre a presidente Dilma Rousseff (PT) e Aécio nos debates televisivos. A petista diz que o alcance dos programas no governo tucano é suficiente para considerá-los como embriões do Bolsa-Família.

Ronaldo engrossou o coro. Disse que o país está "cansado de tanta corrupção" e pediu "mudança".

Aliado de Aécio, o deputado federal Paulinho da Força (SDD) disse que o tucano "vai ganhar a eleição no próximo domingo" e, em referência a Dilma, "pôr a chefe da quadrilha lá na Papuda", complexo penitenciário federal onde foram presos parte dos condenados no mensalão.

A passeata foi organizada nas redes sociais e divulgada com ajuda de artistas e aliados de Aécio. Coordenadores dizem que o ato não foi organizado por partidos. "O PSDB e o Solidariedade deram só uma ajuda ou outra, com material [de campanha] e divulgação", afirmou o economista Humberto Laudares, 34, um dos organizadores.

A marcha seguiu com gritos de "fora PT", "nossa bandeira jamais será vermelha" e ao som do jingle do candidato e o hino nacional interpretados pela cantora Wanessa Camargo.