domingo, 10 de maio de 2015

Ferreira Gullar - Boca fechada

• Nos discursos de Dilma, não há inflação, a economia está bumbando e a corrupção é combatida como nunca

- Folha de S. Paulo / Ilustrada

Por que será que a presidente Dilma Rousseff decidiu não fazer o discurso de sempre no Primeiro de Maio?

Causou surpresa porque ela, até então, tem se valido de toda e qualquer data e pretexto para falar ao eleitorado. E sempre com aquele discurso nos apresentando um Brasil maravilhoso, de que só ela tem conhecimento.

Nos seus discursos, não há inflação no país, a economia está bumbando e a corrupção é combatida como nunca na história brasileira. E, quando a gente se lembra disso, entende por que ela, no dia dos trabalhadores, preferiu calar a boca.

Parece que a situação chegou a tal ponto que não dá mais para fantasiar. E ainda havia o risco de um panelaço.

Se toco neste assunto é porque me parece que a situação política do governo e seu desprestígio junto ao povo atinge um ponto crítico indisfarçável. Essa fase crítica se agravou quando a Petrobras teve de admitir que realmente foi vítima da corrupção e que seu aparelhamento resultou num prejuízo de quase R$ 22 bilhões, fora os R$ 6 bilhões pagos em propina.

Todo mundo viu, desde que começou a Operação Lava Jato, Dilma e Lula negarem que tivesse de fato ocorrido esse desastre na Petrobras. Segundo eles, aquelas acusações era uma campanha golpista para derrubar o governo petista e privatizar a Petrobras.

Sucede que as delações premiadas tinham procedência e os acusados pelo assalto à empresa foram presos e vão responder a processos.

Por outro lado, esses escândalos atingiram o prestígio da empresa, levando-a à perda de dois terços de seu valor de mercado. Notícias mais recentes dão conta de que está vendendo a outras empresas petrolíferas equipamentos comprados para a exploração do pré-sal, que parece por enquanto descartada.

Essa história de que tudo era invenção chegou ao fim, quando o novo presidente Aldemir Bendine veio a público apresentar o balanço auditado, em que a ação corrupta de gente do governo, de altos funcionários da empresa e das empreiteiras foi afinal admitida. Sim, porque, sem esse balanço auditado, a situação da Petrobras se tornaria insustentável.

Dilma agiu certo em não falar no Dia do Trabalho. Todos sabemos que o modo de conduzir a economia de Joaquim Levy é o oposto do dela: enquanto ele opta pelo controle de gastos e pelo investimento na infraestrutura, ela acha que um pouco de inflação não faz mal e que o consumo é que leva a economia adiante.

São, portanto, posições antagônicas. Logo, Levy só foi nomeado ministro da Fazenda para tentar impedir que o barco afunde. Pois bem, Dilma teve a coragem de afirmar que essa política de contenção é apenas a continuação de sua política de gastos.

Sucede que o próprio Levy, na visita recente que fez aos Estados Unidos, para convencer os empresários a voltarem a investir no Brasil, afirmou que temos agora "uma nova política econômica", desmentindo assim o que dissera Dilma. Tinha que fazê-lo, pois do contrário não os convenceria...

Não por acaso, o índice de aprovação da presidente caiu para 13%, com a agravante (para ela como petista) de que aumentou o número dos que a rejeitam na classe C e D, ou seja, gente beneficiada pelos programas assistencialistas do PT.

E esse nível de rejeição tende a se agravar, uma vez que a implantação da nova política econômica implica em mais aumento nos preços da energia elétrica, da gasolina e do diesel --entre outros--, o que provocará inevitavelmente a elevação dos preços de todas as mercadorias de primeira necessidade, o que, aliás, já está ocorrendo.

Tudo isso concorre para a deterioração das relações do governo com seus aliados políticos e, particularmente, com o principal deles, o PMDB, a quem ela tem sido obrigada a fazer sucessivas concessões.

Mesmo assim, não consegue contê-lo, tal foi o caso da proposta que aumentou, em 181%, os recursos do fundo partidário.

Num momento em que é vital para o governo cortar despesas e conter os gastos, um deputado da base governista propõe aumentar o financiamento dos partidos de R$ 308,2 milhões para R$ 867,5 milhões. E a presidente teve que sancionar esse aumento.

É, Dilma fez bem em não discursar no Primeiro de Maio.

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Ferreira Gullar, ensaísta, crítico de arte, poeta e membro da Academia de Letra (ABL)

Fernando Gabeira - A caçada ao ministro da Pesca

• Na nossa pedestre vida política, a surdez do PT é a tentativa de se manter em cena

- O Globo / Segundo Caderno

Numa semana tensa em Curitiba, consegui encontrar na crise brasileira alguns momentos de humor. O Ministério da Saúde publicou um edital determinando a apresentação de Helder Barbalho para prestar esclarecimentos. Não sabiam quem era e como poderia ser encontrado. Helder tinha o chamado paradeiro incerto. Helder Barbalho é ministro da Pesca e trabalha ao lado dos burocratas que o procuravam. Sequer usaram uma ajuda do Google, que poderia salvá-los.

Ser um dos 39 ministros de Dilma é uma forma de se esconder na gigantesca máquina irracional do governo. Nem eles mesmos se conhecem nesse universo pantanoso.

Os prejuízos que a administração petista trouxe à Petrobras são maiores que os recursos para recuperar o Nepal depois do terremoto. Segundo os cálculos do repórter José Casado, a administração petista torrou cerca de R$ 17 milhões por dia, durante seis anos e seis meses. Reconhecer os estragos de um terremoto, no entanto, não é a escolha do PT. Continuam se achando ótimos administradores.

Nesses momentos de relativa transparência, as notícias nos brindam com novas peças de humor. Como essa gráfica na Casa Verde, em São Paulo, que, sem máquinas, forneceu R$ 22 milhões de material para o PT e cerca de R$ 1,5 milhão para o PSDB. O nome do dono é Beckenbauer Rivelino, um craque na produção de notas frias. Vinte e dois milhões em panfletos é algo que jamais vi uma campanha gastar. Isso mostra que os escândalos sempre nos divertem com os nomes e nos assustam com sua frequência.

E com a quantidade de cifras e porcentagens que atravessam o noticiário, Lula afirmou que era 90% mais honesto que os jornalistas de duas importantes revistas brasileiras. Ele já tinha feito uma incursão desastrosa nas percentagens, afirmando que o processo do mensalão era 80% político. O que é 100% bobagem.

Cifras astronômicas aparecem também na investigação sobre João Santana, o marqueteiro oficial. Ele teria recebido US$ 16 milhões por seus conselhos na campanha de Angola. Estão nadando em dinheiro num oceano que começa a ser singrado pelos barcos da investigação.

A frente da transparência, cuja capital hoje é Curitiba, com a operação Lava-Jato, tem de se ampliar para o BNDES, estatais, fundos de pensão. Saber o que houve no BNDES é desvendar uma parte substancial da trajetória do governo. Tanto os recursos investidos no país como no exterior precisam ser conhecidos. Não há como evitar que se revelem todos os detalhes da operação. Sobretudo essas que envolviam o ex-presidente Lula, a Odebrecht e o banco oficial. Os dados iniciais indicam que Lula prometia uma obra no exterior, o BNDES financiava e a Odebrecht realizava. Isso teve repercussão internacional, maior até do aqui dentro. Mas merece toda a transparência, no momento em que se busca instalar a CPI do BNDES.

Nas ruas de Curitiba, além da operação Lava-Jato, vivem-se conflitos em torno da política de austeridade. A crise econômica que nos envolve é um foco mais dramático ainda do que a frente da transparência, essa possibilidade de conhecer o governo do PT em detalhes, saber que, por hora, davam um prejuízo de R$ 729 mil à Petrobras.

Na crise econômica, existe pelo menos uma chance de empurrar o governo para o mínimo de racionalidade, enxugar a máquina, limitar cargos de confiança. É uma forma inteligente de ajuste porque não só atenua o esforço da sociedade, no momento, como também assegura um alívio para o futuro. Não adianta apenas conter custos. É preciso estabelecer as condições de uma retomada. E não será com essa máquina irracional. Vamos economizar duramente para daqui a pouco publicarem um novo edital buscando um dos 39 ministros de Dilma?

Mais uma vez o Brasil viveu um grande panelaço, durante o programa do PT, no horário gratuito da fantasia. As pessoas rejeitam o cinismo e desejam mudanças. Será preciso bater panela e, simultaneamente, ter uma pequena receita do que se pode obter nesse momento. O Brasil é hoje um país devastado pela corrupção e pela incompetência. Não só é preciso socorrê-lo após o terremoto como pensar em reconstruí-lo de forma mais sólida.

Se pelo menos ouvissem as caçarolas. Crise econômica, política e auditiva. Mas se fazem de Ulisses, exercitam a surdez de quem ouve. No poema, Ulisses goza o espetáculo das sereias, sem assumir as consequências.

Na nossa pedestre vida política, a surdez do PT é a tentativa de se manter em cena, sem assumir os desvios éticos nem responder por sua gestão calamitosa. O PT é apenas uma pedra no caminho. Os contornos desse caminho é que precisam ser discutidos. Não importa se essa é a maior e mais complexa das crises. É a que nós temos. E dela, espero, haveremos de sair.

P.S.: Escrevi numa coluna: fronteira do Piauí com Ceará. O certo é divisa. Maltratei a geografia.

Elio Gaspari - A carta do eu-não-sabia saiu do baralho

- O Globo

Com a inevitável lembrança do Holocausto, acabaram as comemorações dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Numa trapaça do tempo, fica a impressão de que, em 1945, confrontado com a barbárie, o mundo reagiu com repulsa geral. Noutra, em 2015, acredita-se que, hoje, coisas daquele tipo são inimagináveis. Infelizmente, as duas suposições são falsas. Milhares de judeus que saíram dos campos de concentração foram recebidos como intrusos quando tentaram voltar às suas casas na Europa Oriental. Quando Heda Margolius, ex-prisioneira de Auschwitz, regressou a Praga, sua vizinha perguntou-lhe: "Por que você voltou?"

Em Cracóvia, houve um pogrom em agosto de 1945. Nos 18 meses posteriores ao fim da guerra, mataram-se mais judeus na Polônia, na Hungria e na Tchecoslováquia do que nos dez anos anteriores ao início do conflito. O mundo só começou a encarar o Holocausto a partir dos anos 60, depois que o primeiro-ministro israelense David Ben-Gurion, numa centelha de genialidade, mandou que Adolf Eichmann, capturado em Buenos Aires, fosse levado para um julgamento público em Tel Aviv. O gerente da Solução Final foi enforcado em 1962.

A segunda trapaça do tempo é a de que aquilo foi coisa de outra época. O ódio e a violência racial e religiosa continuam aí, expostos no cotidiano do século XXI. O Estado Islâmico, que se assenhoreou de parte do território do Iraque e da Síria, tem os ingredientes da superioridade nazista, com uma diferença: ele mata muçulmanos xiitas, judeus e cristãos. Faz isso ostensivamente e coloca filmes na rede. Um deles, "Clanging of the swords 4" ("O barulho das espadas"), com pouco mais de uma hora de duração. Coisa de profissionais, produzida há um ano. Barra pesadíssima.

Os nazistas não propagavam o que faziam. Pelas suas leis e pelos seus discursos, podia-se supor, mas não se podia ver. O Estado Islâmico usa a selvageria como instrumento de propaganda. Algo como coproduções de Heinrich Himmler, comandante da Solução Final, e de Joseph Goebbels, marqueteiro do regime. Na década de 30, havia quem tivesse uma ponta de compreensão para com os nazistas. Afinal, opunham-se aos comunistas. Hoje, esse engano pode ser alimentado, em ponto menor, pela oposição do Estado Islâmico aos Estados Unidos e a Israel.
Se há uma diferença entre 2015 e 1945, ela está no fato de que agora saiu do baralho a carta do eu-não-sabia. Só não sabe quem não quer, porque os fatos estão aí, mostrados pelo próprio Estado Islâmico.

A comédia da Sete Brasil
Depondo na CPI da Petrobras o doutor Luiz Eduardo Carneiro, presidente da Sete Brasil, informou que auditores externos não encontraram irregularidades nos contratos da empresa para a fabricação de navios e sondas para a Petrobras. Um negócio de US$ 27 bilhões. Segundo ele, Pedro Barusco e João Carlos Ferraz, que presidiu a Sete até sua chegada, em 2014, não foram "bons" executivos.

Pode- se dizer que Eike Batista, com quem Carneiro trabalhou, não foi um bom executivo porque vendeu nuvens. O caso de Barusco e Ferraz, e da própria origem da Sete, é bem outro. Barusco já confessou ter recebido US$ 100 milhões em propinas. Enquanto Carneiro falava em Brasília, Ferraz continuava negociando sua colaboração com a Viúva. Além de informações valiosas, poderá devolver algum dinheiro, quantia muito menor que a de Barusco. A essa altura, Barusco e Ferraz ajudam, Carneiro atrapalha.

O doutor assumiu a presidência da Sete há um ano. Se ele acha que faltaram à empresa "bons" executivos, de duas uma: ou não sabe onde está ou sabe e acha que pode dizer o que bem entende.

Chapa
Pelo menos um tucano assegura que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, do PMDB, ofereceu ao PSDB a Vice-Presidência numa chapa encabeçada por ele.
Falta combinar com Geraldo Alckmin e Aécio Neves, prováveis candidatos do PSDB.

O atraso da CVM
A Comissão de Valores Mobiliários, instituição destinada a proteger os investidores, resolveu investigar a conduta do Conselho Administrativo da Petrobras. Com cinco anos de atraso, viu fumaça em suas decisões.

Tudo bem, mas a CVM poderia se perguntar porque fez sete acordos com o diretor financeiro da empresa durante o petrocomissariado. Ao longo de seis anos, o doutor pagou R$ 1,75 milhão para que não se falasse mais dos motivos que haviam levado a CVM a investigar sua conduta.
É possível que a CVM tenha sido a única xerife do mercado a fazer tantos acordos desse tipo com um diretor financeiro de uma empresa do tamanho da Petrobras. Deu no que deu.

Registro
Os integrantes do Conselho de Administração da Petrobras tinham motivos para achar que suas reuniões fossem gravadas. Os conselheiros estranhos à empresa não sabiam que estavam sendo filmados.

Pode-se entender que os vídeos tenham sido apagados, mas o banco de dados da empresa deve saber quem fez o serviço e quando.

Veneno
Um parlamentar recolheu notas de dólar com a efígie de Lula jogadas sobre o plenário da Câmara para distribuí-las, como lembrancinhas, a pedintes e flanelinhas e eleitores de Dilma.

Fachin
Ninguém pode prever o comportamento do Senado na apreciação do nome do advogado Luiz Fachin para o Supremo Tribunal.

Certamente, há ""çábios"" do Planalto acreditando que ganham a parada, assim como em janeiro acreditavam que derrotariam a candidatura de Eduardo Cunha à presidência da Câmara.

Há uma diferença entre as duas situações: contra Eduardo Cunha já não havia linha de recuo. No caso de Fachin, tanto ele como o governo podem desistir da indicação.

Terceiro tombo
Às 14h de 29 de abril, hora de Tóquio, três empresas do grupo Ishikawajima informaram ao mercado que separaram o equivalente a R$ 207 milhões para cobrir seu prejuízo no estaleiro Atlântico.
Pobre Ishikawajima. É o terceiro tombo que toma por se meter nos projetos megalomaníacos de criação de polos navais dos governos de Pindorama. Todo brasileiro com mais de 60 anos já pagou três. O primeiro com Juscelino Kubitschek. O segundo durante a ditadura e o terceiro com Nosso Guia. A Ishikawajima entrou em todos.

Nas superproduções do petropetismo, construiu-se uma piada. Os japoneses venderam ao Brasil uma refinaria que não refina e o Brasil vendeu-lhe um estaleiro que não produz.

Usina de encrencas
Quando o PT pode achar que sua situação melhorou, inventa uma nova encrenca.
O presidente do diretório paulista, comissário Emídio Souza, quer ir à Justiça para apreender os cartazes de "Procurados", com retratos de Lula e da doutora Dilma.
Grande ideia. Quem tiver uma impressora poderá fabricar seus cartazes, assim como quem tem uma panela consegue fazer barulho.

Esconde-esconde – Editorial / O Estado de S. Paulo

O programa que o PT levou ao ar na última terça-feira e os últimos acontecimentos na Câmara dos Deputados confirmaram que, do poder, o partido quer apenas as delícias. Já o pesado fardo de ser governo, que fique com a presidente Dilma Rousseff e com os partidos da base aliada.
Esse comportamento explica por que razão PT e Dilma estão brincando de esconde-esconde: já não se sabe mais, a esta altura, quem quer mais ardentemente desvincular-se de quem – se o partido da presidente ou o contrário.

Consta que Dilma não apareceu no programa petista na TV por sugestão de seu padrinho, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na verdade, ela nem poderia mesmo ter participado, pois o programa parece ter sido produzido para promover um partido de oposição.

Como se a presidente não fosse petista, o programa do PT informou aos eleitores que o partido entende a necessidade do ajuste fiscal, para “corrigir o que está errado”, mas exigiu que essas medidas “não afetem os mais pobres, mas sim quem tem mais recursos”.

“No ajuste econômico que o governo está fazendo agora, o PT tem defendido que não se cortem direitos dos trabalhadores”, disse um dos apresentadores, fazendo ar sério, para enfatizar o tom de advertência ao mencionado “governo”. Nem o dedo em riste faltou.

No fundo da tela lia-se que o “PT defende direitos dos trabalhadores”, uma mensagem explícita contra aqueles que, como o ministro da Fazenda de Dilma, Joaquim Levy, defendem reformas que racionalizem ou cortem alguns benefícios em nome da urgente necessidade de reorganizar as depauperadas contas públicas.

Mas a estrela foi mesmo Lula. No momento em que Dilma luta para reconquistar sua base aliada no Congresso, justamente para conseguir aprovar o ajuste fiscal, o líder petista usou o programa do partido para atacar a Câmara por ter aprovado o projeto que regulamenta a terceirização da mão de obra.

Lula chegou a dizer que “esse projeto faz o Brasil retornar ao que era no começo do século passado”, um tempo “em que o trabalhador era um cidadão de terceira classe, sem direitos, sem garantias, sem dignidade”. A fala do demiurgo petista e o tom do programa causaram compreensível espanto entre os parlamentares do PMDB, principal sócio da base governista. O líder peemedebista na Câmara, Leonardo Picciani (RJ), chegou a dizer que seu partido terá muita dificuldade em apoiar o ajuste “até que o PT nos explique o que quer”.

Não é difícil de responder a essa questão. O PT quer os dedos e os anéis. Lula, que nunca primou pela lealdade aos companheiros de viagem, não pensará duas vezes antes de atirar Dilma aos leões, se isso for necessário para sua estratégia de manutenção do poder. Lula não quis Dilma no programa do PT porque teria de defender um governo detestado pela maioria absoluta da população.

Dilma, por seu lado, não tinha alternativa senão deixar de aparecer em um programa tão manifestamente danoso aos interesses de sua base aliada, de seu governo – e, por que não dizer, do País.

Embora Lula tenha dito recentemente que Dilma e o PT “têm de ser que nem unha e carne” – uma imagem que serve apenas para constranger sua afilhada a se dobrar ao partido –, a presidente parece ter optado pelo distanciamento prudente. Prova disso é que o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, correu a declarar que o grande panelaço que se ouviu durante a transmissão do programa petista não era dirigido a Dilma. Segundo Edinho, seria um “erro” considerar PT, Lula e governo como se fossem uma coisa só, pois “cada um tem seu espaço de trabalho e sua agenda”.

Pois neste momento a agenda da presidente Dilma é tentar acalmar os ânimos e articular com as demais forças políticas uma maneira de tirar o País do buraco em que ela o enfiou no primeiro mandato. Já a agenda do PT – e, em especial, de Lula – é bem outra. Indiferente às agruras políticas de Dilma no Congresso, o líder petista parece apostar no confronto, especialmente no momento em que o partido aparece como protagonista de escândalos em escala nunca vista na história deste país.

Dilma versus PT – Editorial / IstoÉ

Por mais esquizofrênico que possa parecer, a distância entre o PT e o governo Dilma - de origem essencialmente petista, diga-se de passagem!- aumenta por esses dias. E quem trata de delimitar as diferenças é o próprio Lula, mentor e artífice da presidente.

No programa partidário exibido na semana passada foi ele quem assumiu a posição claramente oposta a que prega o governo em relação ao projeto de terceirização dos trabalhadores, um dos sustentáculos do ajuste fiscal. Foi ele também quem decidiu deixar Dilma de fora do programa, como alguém excluído, apagado dos quadros, temendo que sua impopularidade contaminasse a aura da legenda e protestos fossem ouvidos no horário da exibição.

Ingênua ilusão! Mesmo sem Dilma, o programa foi recebido em todo o País com panelaços, buzinaços e gritos de repúdio. A desaprovação que enfraquece Dilma se esparrama pelo Partido e mesmo sobre o líder Lula. Por mais que tentem disfarçar o elo original, ninguém cai na lorota de dissociar um do outro.

E vieram as vaias. De novo e mais fortes. O PT do programa falou em defesa dos direitos dos trabalhadores para logo depois, no plenário da Câmara, votar a favor e aprovar medidas amargas como o corte de direitos no acesso ao seguro-desemprego, ao abono salarial, a pensões e ao auxílio-doença.

Os partidos aliados, liderados pelo PMDB, temendo ficar com o ônus de um projeto que é cria petista, exigiram coerência da sigla que, mais uma vez, tentou fingir que não era governo, mas acabou vestindo a máscara. Como um dragão de duas cabeças, o PT segue na sua metamorfose ambulante. Está numa crise de identidade sem precedentes. Governa e faz discurso típico de oposição quando lhe convém.

Muda de papel ao sabor das circunstâncias e tenta imputar aos outros erros e decisões que ele mesmo toma no controle do poder. As hesitações estão lhe impondo derrotas fragorosas e, por tabela, prejudicando o País que depende de soluções rápidas para a crise. Cada político filiado - seja deputado, senador ou governador - parece no momento mais preocupado em garantir o próprio prestígio em seus currais antes de se aventurar na defesa de Dilma e de suas deliberações. Vigora no PT o salve-se quem puder.

Lula diretamente já falou a correligionários mais próximos que vai trilhar um caminho próprio, mais à esquerda, assumindo uma agenda que, em muito, deve colidir de frente com as decisões tomadas hoje pelo Governo do qual é patrono. E no Congresso rachado ao meio por essa falta de pulso do Executivo o oportunismo ganha vez. Como uma nave fora de órbita, ali prevalecem os desejos e planos pessoais dos líderes da Casa, a despeito da urgência de algumas pautas como o ajuste fiscal, que está saindo à duras penas em troca de muitas concessões. PT e Governo, na sua ambição e soberba, perderam o controle

Vinicius Torres Freire - Um novo aumento da gasolina

• Alta do petróleo pode levar a Petrobras a perder dinheiro, em breve, se não houver reajuste doméstico

- Folha de S. Paulo

A petrobras vendeu gasolina e diesel a um preço 20% maior que o do mercado internacional entre novembro e fins de abril. Trata-se da diferença média de preço nesses meses, segundo gente da direção da empresa.

De acordo com consultores privados, a diferença andava por aí mesmo, entre 17% e 21%. Na semana passada, os mesmos consultores diziam que a alta do petróleo de março para cá, de mais de 20%, e a desvalorização do real deram cabo desse ganho da Petrobras. Vai haver reajuste de gasolina e diesel?

O governo vai baixar o "imposto da gasolina" (Cide), de modo a permitir que a empresa reajuste seus preços sem que o aumento chegue ao consumidor final e à inflação?

O "ganho" da Petrobras de novembro a abril mal triscou as perdas da empresa durante os anos de tabelamento informal de preços, decretado pelo governo Dilma 1 a fim de maquiar a inflação. A depender do período que se inclua na conta, entre outras mumunhas de cálculo, a Petrobras pode ter perdido até R$ 60 bilhões durante os anos do desenvolvimentismo doidivanas (houve momentos, anteriores, em que a empresa ganhou com a diferença de preços).

A repressão de preços arruinou a empresa e negócios conexos; causou descrédito do mercado brasileiro. A inflação arrebentou a represa artificial e nos inunda.

Tudo isso é história velha. O problema agora é saber se a Petrobras terá liberdade de reajustar preços e tocar seus negócios de modo basicamente normal, como pretende seu novo presidente, Aldemir Bendine. Um primeiro teste virá se o custo do petróleo continuar a aumentar, seja devido ao aumento do preço do barril ou do dólar.

A Petrobras ainda está muito arrebentada. Se o tratamento das suas pestes der certo, vai convalescer devagar, recuperação que deve levar meia dúzia de anos. Se voltar a perder dinheiro, vai para o vinagre a despiora recente da imagem, da administração e das perspectivas financeiras da empresa.

Caso a situação das finanças públicas não fosse desastrosa, o governo teria como atenuar as variações de preços dos combustíveis sem desfalcar a Petrobras. Há um imposto que já foi utilizado justamente para tal fim, para regular preços, a Cide, que voltou a ser cobrada neste ano.

Dentro de certos limites, o preço dos combustíveis poderia variar para a Petrobras sem que variasse demais na bomba, bastando regular o tamanho da cobrança do imposto, que serviria de amortecedor. Caso o preço do petróleo subisse ou caísse além da conta, a diferença enfim seria repassada para o consumidor.

Não se trata de modelo ideal, mas, numa economia ainda cheia de esquisitices como a brasileira, era e é um arranjo útil, pragmático. O governo Dilma 1 zerou a cobrança da Cide, também a fim de maquiar a inflação.

Na pindaíba, Dilma 2 voltou a cobrar o imposto, mais por precisão do que por boniteza: para ajudar a tapar o rombo que Dilma 1 deixou no Tesouro Nacional. Logo, parece improvável que o governo vá baixar o imposto a fim de compensar um eventual aumento de preços dos combustíveis para a Petrobras, evitando assim que a conta chegue ao consumidor.

Como se nota, temos um problema.

Miriam Leitão - Lição esquecida

- O Globo

O governador Franco Montoro estava no Palácio, com convidados ilustres. Era o dia 5 de abril de 1983. A oposição tinha assumido, 20 dias antes, o poder nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Os governadores Tancredo Neves e Leonel Brizola estavam no Bandeirantes, almoçando com Montoro. Foi quando os manifestantes derrubaram as grades e invadiram os jardins do Palácio.

O que fez Montoro foi o que mais me impressionou. O Brasil não sabia o que era ver aqueles políticos, há quase duas décadas na oposição, assumindo o poder. E eles não sabiam como era governar. Tinham estado ao lado de manifestantes durante anos e voltariam a estar do lado deles, um ano depois, na campanha das Diretas. A visão de dentro das grades era inacreditável. Liderados pelo PCdoB e PT, os manifestantes ignoraram a tentativa de negociação do secretário do trabalho Almir Pazzianoto, que foi até a multidão conversar, e rumaram para o Palácio. Com a pressão, as grades vieram abaixo. Montoro saiu do almoço e foi conversar com os manifestantes. Uma mulher mais exaltada, com o dedo em riste, bem perto do governador, disse alguma coisa assim:

— Ô Montoro, você tem que nos ouvir.

O governador respondeu que estava ouvindo. Tudo parecia uma impropriedade: o governador ir direto, de peito aberto, falar com manifestantes; e eles, gritando com o governador.

As cenas que assisti de perto, como repórter, contrastam em tudo com as que foram conduzidas pelo governador do Paraná, Beto Richa, do PSDB — partido que naquele 1983 não existia, mas do qual Montoro foi um dos fundadores. Richa, no dia 29 de abril de 2015, mandou a Polícia, com violência desmedida, sobre professores que tentaram entrar na Assembleia Legislativa do Paraná.

É natural conter manifestações exaltadas, e aquela estava desrespeitando ordem judicial. Contudo, não é normal ferir quase 200 pessoas e não dar resposta em tempo hábil aos excessos cometidos pela Secretaria de Segurança. Desde então, Richa hesita. Primeiro apoiou a ação; em seguida se escondeu.

Dias depois, caiu o secretário de Educação. Em seguida, o comandante da PM. Na sexta-feira, foi a vez do secretário de segurança Fernando Francischini, depois do desabafo de sua mulher em rede social. Ela queria apoio maior ao marido. O governador tucano nem criticou a ação, em tudo condenável, nem pareceu aos seus comandados ter dado apoio suficiente aos atos de repressão. Demissões tardias não falam bem da sua capacidade de tomar decisão durante crises.

Montoro foi criticado pela ditadura e seus porta-vozes. Teria ficado atônito, diziam, não reprimiu como deveria. Em 1983, o país vivia um momento de agitação política e aflição econômica. O desemprego estava alto há muito tempo, pela política recessiva imposta pelo ministro Delfim Netto. 

Duas maxidesvalorizações da moeda decretadas por ele tinham elevado a inflação para o nível de 200%. O protesto começara na segunda-feira, 4, com saques em Santo Amaro e quebra-quebra. Na terça-feira, 5, eles marcharam para o Palácio. O PCdoB, que liderara a marcha e a invasão do Bandeirantes, não tinha ainda existência legal, e por isso se abrigava dentro do mesmo PMDB do governador Montoro. O PT tinha dois anos de vida e estava lá exibindo seu lado radical, que mostra quando não é ele que está no poder. O partido jamais apoiou os avanços democráticos, exceto quando o favoreciam. Naquele momento, a vitória do PMDB, em São Paulo e Minas, e do PDT, no Rio, prenunciava o fim da ditadura, mas tanto o PT quanto o PCdoB atacaram o governo estadual em São Paulo como se o inimigo não estivesse em Brasília, no Planalto.

Um sereno Franco Montoro me recebeu para almoçar, no dia 7 de abril, dois dias depois da invasão do Bandeirantes. Eu havia pedido a conversa ao assessor de imprensa A.P. Quartim de Moraes. Ele levou o pedido ao governador, que aceitou me receber. O que mais me impressionou foi a calma com que ele falava dos protestos. Dizia que na democracia era assim mesmo e que preferia o diálogo. Criticado por excesso de tolerância, Montoro, se estivesse vivo, poderia ensinar ao filho do seu amigo, o tucano José Richa, o que não fazer diante de um protesto na democracia.

Rolf Kuntz* - O arrocho mal começou e o brasileiro já sofre

- O Estado de S. Paulo

Vai piorar, disso ninguém duvida, e os brasileiros já vão mal antes de começar o arrocho para valer. O desemprego chegou a 7,9% no primeiro trimestre, embora a austeridade nas contas públicas, nesta altura, seja pouco mais que uma promessa. Com a indústria em crise e o empresariado à beira do pânico, a economia nacional entra muito fraca na fase do aperto. O pacote inicial do ajuste continua no Congresso, foi amaciado e deverá render menos que os R$ 18 bilhões estimados inicialmente. Os primeiros cortes no Orçamento ainda serão anunciados. O governo terá de agir com mão pesada, nos próximos meses, se quiser mesmo entregar o resultado fiscal prometido - um superávit primário de R$ 66,3 bilhões para pagar juros da dívida pública. A crise do Tesouro é evidente e por enquanto se manifesta em sinais esparsos, como a limitação de verba para o financiamento a estudantes. Mas a terapia pesada está só no horizonte e tentar adiá-la jogaria o País num buraco muito mais fundo.

Quem garante, nesta altura, a execução do programa de ajuste? Os negociadores inicialmente escalados pela presidente, seus petistas de confiança, foram afastados por indisfarçável inépcia para a função. Passaram a negociar em nome do governo o vice-presidente, Michel Temer, e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Acuada e incapaz de se defender, a presidente Dilma Rousseff cumpre a rotina funcional de forma limitada e discreta. Não demonstra disposição para enfrentar os panelaços nem para cobrar apoio de seu partido. Petistas votaram a favor da Medida Provisória 665, na Câmara, porque foram enquadrados pela liderança do PMDB. Os principais temores e esperanças do governo são hoje representados por figuras peemedebistas, especialmente pelos presidentes do Senado e da Câmara, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, e pelo vice-presidente da República.
O aliado mais importante converteu-se na verdadeira base do governo, porque os líderes do PT se negaram, até agora, a suportar o custo político da reparação dos danos causados na última fase da gestão petista.

Enquanto o ministro da Fazenda busca apoio ao seu programa e o vice-presidente se consolida como a imagem política do Executivo, a economia afunda no atoleiro. A inflação oficial diminuiu de 1,32% em março para 0,71% em abril, mas o cenário dos preços continua aterrador. A inflação chegou a 4,56% em quatro meses, superando a meta oficial para todo o ano, 4,5%. A alta de preços acumulada em 12 meses chegou a 8,17%. Se a taxa mensal de 0,71% se repetir até dezembro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subirá 10,65% neste ano.

A combinação de inflação elevada com desemprego imporá aos trabalhadores um sacrifício desconhecido há vários anos. O desemprego continuará a aumentar se a indústria permanecer em crise. A produção industrial diminuiu 0,8% de fevereiro para março. No primeiro trimestre foi 5,9% menor que a de um ano antes. Na comparação de dois períodos consecutivos de 12 meses a queda foi de 4,7%.

Não haverá recuperação segura sem maiores investimentos, mas isso parece, por enquanto, fora da agenda. Nos 12 meses até março a produção de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos, foi 13,8% inferior à dos 12 meses anteriores. De janeiro a abril a importação de bens de capital foi 12,3% menor que a dos meses correspondentes de 2014. A redução de compras de máquinas e equipamentos ocorre há mais de um ano. Não se tem cuidado da ampliação nem da modernização da capacidade produtiva. Isso significa perda de eficiência e de poder de competição.

Com os erros acumulados nos últimos quatro ou cinco anos, o governo montou um conjunto de bombas interligadas. A gastança, os benefícios fiscais mal concebidos e a estagnação econômica - prova do fracasso de todos os truques - arrasaram as contas públicas. O déficit fiscal, incluído o gasto com juros, chegou a 7,8% do produto interno bruto (PIB), um dos piores resultados do mundo. A gastança, o populismo e o crescente descompasso entre a demanda interna e a capacidade produtiva provocaram uma inflação muito acima dos níveis observados nos países desenvolvidos e emergentes. O enfraquecimento da indústria derrubou a exportação de produtos manufaturados. O País tornou-se ainda mais dependente das vendas de bens primários e, portanto, do crescimento da China, hoje sujeito a uma política de ajustes internos.

Com a inflação disparada, o Banco Central tem sido forçado a elevar os juros básicos da economia. A taxa passou a 13,25% no fim do mês passado e provavelmente voltará a subir nos próximos meses. Isso aumentará os custos financeiros de um Tesouro muito endividado e ao mesmo tempo dificultará a reativação dos negócios, especialmente da atividade industrial. Com os negócios em marcha mais lenta, a receita tributária será prejudicada e o ajuste das contas públicas ficará mais difícil. O quadro poderá melhorar nos próximos meses se o governo retomar as concessões de infraestrutura e de exploração do petróleo com eficiência maior que a exibida nos últimos anos. Mas isso também dependerá de maior realismo quanto às condições de negociação. Obviamente a Petrobrás será incapaz de manter os padrões de participação observados nos últimos anos. Nada disso ocorrerá, é claro, sem aumento da confiança dos investidores no governo e nas possibilidades da economia brasileira.

Na sua fantasia, a presidente Dilma Rousseff continua incapaz de admitir ou, talvez, até de entender os próprios erros. Falando a sindicalistas antes da festa de 1.º de Maio, ela atribuiu os males do País à crise internacional e a “anos contínuos de seca no Brasil”. Houve seca em algumas áreas, mas desde 2004-2005 a produção de grãos e oleaginosas só diminuiu na safra 2008-2009. Em todos esses anos o agronegócio foi de longe o setor mais dinâmico. A indústria foi muito mais vulnerável às bobagens de um dos governos mais incompetentes da História nacional.

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*Jornalista

Mapa Filmes, cofundada por Zelito Vianna, completa 50 anos com tributos no cinema e na TV

• Produtora foi a responsável por clássicos de Glauber Rocha, como 'Terra em transe'

Carlos Helí de Almeida – O Globo / Segundo Caderno

RIO - Houve um tempo, no Brasil, em que os cineastas saíam de faculdades de ciências exatas, os filmes nacionais eram produzidos com empréstimos em banco, e as classes mais populares lotavam as salas de cinema — inclusive as que exibiam títulos do Cinema Novo, considerados “cabeça” demais. Fundada em junho de 1965 por um grupo de jovens realizadores, entusiastas do movimento cinemanovista, a Produções Cinematográficas Mapa Ltda, que hoje atende pelo nome de Mapa Filmes, é um ícone desse capítulo de quase ficção científica da história do cinema pátrio.

Foi de lá que saíram clássicos como “Terra em transe” (1966), de Glauber Rocha (1939-1981), “A grande cidade” (1966), de Cacá Diegues, e “Cabra marcado para morrer” (1984), de Eduardo Coutinho (1933-2014). Muitos deles representaram o país em importantes festivais estrangeiros e até saíram de lá premiados, como “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969), de Glauber, vencedor do prêmio de direção em Cannes. E não é por menos que as cinco décadas de atividade da produtora serão homenageadas mês que vem pela programação do Instituto Moreira Salles e do Canal Brasil.

— A Mapa foi criada em uma época em que os diretores, às vezes, iam para o set vestidos de paletó e gravata, porque no meio da tarde precisavam encerrar as filmagens do dia para ir ao banco resolver as pendências com os “papagaios” (notas promissórias) da produção — recorda Zelito Viana, de 77 anos, que criou a empresa junto com Glauber Rocha, Walter Lima Jr., Paulo César Saraceni (1933-2012) e Raimundo Wanderley Reis, ligado ao Banco Nacional. — O Chico (Anysio, irmão do produtor, morto em 2012), aliás, avalizou muitas notas da Mapa, sem saber, porque acabei aprendendo a falsificar a assinatura dele!

Sugestão de Glauber Rocha
Dirigido por Walter Lima Jr. e lançado no final de 1965, “Menino de engenho”, adaptação do livro de José Lins do Rego, foi o primeiro filme com o selo da Mapa. O nascimento da produtora carioca, no entanto, começou a ser traçado no ano anterior, quando Leon Hirszman (1938-1987) convidou Zelito, então um engenheiro da indústria metalúrgica, para trabalhar como produtor de cinema. Pouco tempo depois, durante uma reunião entre cineastas no Teatro Opinião, convocada para decidir o destino de “Cabra marcado para morrer”, interditado pelo recém-instaurado governo militar, Glauber sugeriu que Zelito abrisse uma produtora com ele.

— Na época, ele era um dos produtores do “Menino de engenho”, e estava querendo uma empresa para administrar as contas do filme, e assim poder produzir outros. O longa do Walter, que era um dos sócios originais, foi finalizado pela nossa companhia. Eu mesmo cheguei a narrar o trailer do filme — lembra o produtor cearense, na sala de reuniões do prédio que abrigou, nos últimos 40 anos, a casa da família e os departamentos da produtora, numa rua sem saída do Cosme Velho. — Depois do quinto assalto, eu e minha mulher nos mudamos para Ipanema. Mas a produtora continua aqui.

Cacá e Leon chegaram a ser convidados para serem sócios da empresa, mas declinaram da oferta. A Mapa acolheu os projetos “dos amigos do Glauber”, partidários ou não do Cinema Novo, que atravessava um de seus momentos mais criativos. A ideia era fazer filmes rápidos, baratos e rentáveis, como “Menino de engenho”, visto por mais de um milhão de espectadores. Naquele mesmo ano, um grupo de 11 cineastas, entre eles Luiz Carlos Barreto, Roberto Farias, Joaquim Pedro de Andrade e o próprio Glauber, fundou a distribuidora Difilm, que tinha como função fazer circular a produção da época — em 1966, ela foi responsável pela distribuição de 80% da produção brasileira.

— Naquele tempo, ainda era possível fazer filmes com orçamentos irrisórios, uma equipe mínima, que trabalhava praticamente de graça, por amor ao cinema. Acho que o (fotógrafo) Dib (Lutfi) era um dos poucos técnicos que ganhavam um salário. Hoje, tudo envolve um estrutura enorme, e muita verba. “Villa-Lobos, uma vida de paixão”, que lancei em 2000, tinha 120 pessoas na equipe; filmamos “O Dragão da Maldade” com 12! Não se paga menos de R$ 150 de alimentação por dia, por cabeça, em um set. Fizemos “A grande cidade” (1966), do Cacá, com sanduíches da Genial — compara o produtor. — Herdamos essa estrutura gigante de hoje dos realizadores que vieram da publicidade.

Parte da trajetória da produtora poderá ser revista na programação das homenagens agendadas para junho. A mostra Mapa 50 Anos, organizada pelo Instituto Moreira Salles, exibirá títulos de diversas fases da companhia, como “Menino de engenho”, “A grande cidade”, e “Os condenados” (1974), 

“Avaeté, a semente da vingança” (1984) e “Villa-Lobos”, de Zelito. O Canal Brasil vai disponibilizar em sua grade filmes como “Cabra marcado para morrer”, “Quando o carnaval chegar” (1972), de Cacá, e “Terra em transe” (1966), de Glauber. A Escola de Cinema Darcy Ribeiro, a Casa de Cultura Laura Alvim e o Museu de Arte Naïf também participarão do aniversário da Mapa, mas ainda não fecharam o cronograma de atividades.

Ao longo das décadas, a Mapa perdeu seus sócios originais e diversificou suas atividades para se adaptar aos altos e baixos do audiovisual brasileiro — já produziu comerciais, especiais (“Lambada”) e séries (“Confissões de adolescente”) para a TV aberta e, mais recentemente, programas para canais por assinatura. O cinema deixou de ser uma prioridade.

— Fazer filmes, que era uma coisa muito prazerosa, ficou muito chato, aborrecido. É como diziam: o compositor cria, o cineasta presta contas. Hoje, um diretor tem que ser um gestor de finanças e de talentos. Minha esperança é a tecnologia. Só ela poderá trazer uma nova revolução para o cinema — diz Zelito.

Beth Carvalho - O Mundo é um moinho & As rosas não falam

Charles Baudelaire - A que está sempre alegre

Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tuas vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!

In. As flores do mal

sábado, 9 de maio de 2015

Opinião do dia – Roberto Freire

Lula e Dilma são os grandes responsáveis pelo panorama sombrio da economia brasileira, cujos indicadores negativos se acumulam a cada dia. A crise é grave e, infelizmente, se aprofundará nos próximos meses, especialmente se o malfadado ajuste fiscal for aprovado da forma como o governo defende. Enquanto o sistema financeiro tem seus interesses atendidos pela política econômica em curso no país, a conta a ser paga recai sobre os ombros da sociedade brasileira. Se a crise não tem fim, a incompetência do PT não tem tamanho.

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Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS, em artigo ‘O tamanho da crise’. Brasília, 8 de maio de 2015

Cargos a caminho

Velhas práticas

• Entre novos pedidos de aliados e postos já ocupados pela base, governo negocia 150 indicações

Júnia Gama e Simone Iglesias – O Globo

BRASÍLIA- Para garantir aos aliados que os cargos pedidos sairão, mesmo que as nomeações não sejam publicadas na próxima semana, antes da votação da próxima medida do ajuste fiscal, o governo começou a avisar que todas as indicações já foram encaminhadas à Casa Civil. Esta, por sua vez, vem informando que também já autorizou o envio dos nomes para a triagem da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e aos ministérios que têm a prerrogativa de efetivá-las. Tudo isso porque os aliados tinham cobrado que as nomeações saíssem no Diário Oficial (D.O.) até segunda-feira. A articulação política do governo já conseguiu negociar 150 posições na máquina federal. Nessa conta estão não só as novas indicações pedidas por deputados e senadores, mas também solicitações para que sejam mantidos em cargos-chave servidores que chegaram lá por indicação política. Mas poucos nomes já foram oficializados no DO.

Além da alegada burocracia como fator de demora para efetivar as nomeações, uma parcela significativa dos cargos mais cobiçados, especialmente no setor elétrico, deverão passar diretamente pelo crivo da presidente Dilma Rousseff para serem efetivados. As Companhias Docas são as mais pedidas pelos aliados, e despertam o interesse direto do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do líder do PMDB, Leonardo Picciani (RJ). Onde não houver acordo, explicou uma fonte do governo, a definição será resolvida por arbitragem do vice-presidente Michel Temer. Além das Docas, os deputados da base aliada têm forte interesse pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), Fundação Nacional de Saúde (Funasa), delegacias de Agricultura e superintendências da Pesca. Considerada a "joia da Coroa" até a Operação Lava-Jato, a Petrobras virou uma espécie de patinho feio nas atuais negociações.

Segundo integrantes do governo, não houve pedidos para a estatal. O desinteresse se deveria às investigações pelas quais passa a empresa. Já os cargos no setor elétrico, que concentra empresas e agências importantes em volume de recursos e poder político, passarão diretamente por Dilma. Ela informou a Temer que irá participar de todas as decisões relacionadas à área. As indicações para o setor já provocaram turbulências entre Dilma e Temer. Um acordo entre o PMDB e o PT de Santa Catarina resultou na indicação, para a Eletrosul, de Djalma Berger , irmão do senador Dário Berger (PMDB). Dias depois, o Ministério de Minas e Energia divulgou uma nota dizendo que Márcio Zimmermann, secretário-executivo da pasta e escolha pessoal da presidente Dilma, irá para o cargo.

A nomeação ainda não saiu. Em seis estados — Pará, Santa Catarina, Goiás , Piauí, Sergipe e Tocantins — foram fechados acordos com os partidos da base para a liberação dos cargos. Segundo um integrante do governo, o maior beneficiado é o PT, e o segundo, o PMDB, o que obedece a proporção das bancadas da Câmara. Nos outros 21 estados , há ainda muita disputa e os acordos que haviam sido fechados excluíam um ou outro partido da base, o que levou a articulação política do governo a refazer o mapa das indicações. São Paulo e Rio de Janeiro são os estados em que há mais dificuldade para as nomeações, pela quantidade de deputados envolvidos e pela importância dos cargos. Leonardo Picciani afirma que a expectativa no PMDB é que as nomeações saiam em breve e sinaliza que disso dependerá o sucesso do governo no Congresso .

— Acho que o mais indicado para o governo é tomar a decisão política e acabar logo de vez com a montagem. Isso sempre deixa o ambiente mais tumultuado. Esperamos que o processo possa se encerrar em breve. Até porque, a votação da MP 664 ainda não está definida — diz Picciani. A reorganização da base aliada é o objetivo central nas nomeações, já que quase metade dos deputados são novatos e não têm cargos no governo. Ao mesmo tempo, os antigos, que foram reeleitos, querem manter as suas indicações. Com a remontagem da base aliada, o governo espera ter um grau de confiabilidade no plenário que garanta maioria sólida. Para facilitar a aprovação dos indicados, os responsáveis pelas negociações no Planalto estão pedindo que sejam sugeridos nomes técnicos . O Palácio do Planalto desenvolveu uma fórmula pela qual estão sendo definidas as indicações: tamanho da bancada e a fidelidade ao governo nas votações. Com isso, PDT e PP correm o risco de saírem prejudicados na nova configuração do governo.

Manoel Dias diz que fica
Segundo uma fonte do governo, as negociações com os pedetistas estão "congeladas" em razão da oposição dos deputados à MP 665, que endurece as regras para concessão de seguro-desemprego e abono salarial. Por ora, Manoel Dias permanecerá no Ministério do Trabalho, mas ele pode sair quando a votação do ajuste estiver concluída. Ao participar da comemoração dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, no Rio, Dias negou que exista a possibilidade de ser demitido. —Não existe ameaça. O PDT está muito bem. A bancada tomou uma posição que entendeu ser a mais correta, e ela tem autonomia para isso — afirmou. Com o PP, haverá uma conversa na próxima semana. Os votos contrários ao ajuste foram entendidos como uma reclamação do partido por não ter sido compensado com a troca do Ministério das Cidades pelo da Integração Nacional, que tem menos cargos do que o ocupado anteriormente. (Colaborou: Bruno Góes)

Quem vota com o governo terá preferência no 2º escalão, diz Mercadante

• Chefe da Casa Civil explicita tática do Planalto de nomear inicialmente os indicados por partidos mais fiéis, e provoca reação das bancadas que racharam ou se posicionaram contra a primeira medida do ajuste fiscal; PP ameaça entregar cargos

Tânia Monteiro e Nivaldo Souza - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, explicitou ontem, em entrevista ao Estado, a estratégia do governo para arregimentar os votos necessários com o objetivo de garantir a aprovação das próximas etapas do ajuste fiscal no Congresso. “É evidente que quem ajuda o governo, quem vota com o governo, quem sustenta o governo, governa com o governo e tem prioridade nas indicações do segundo escalão”, afirmou. “Aqueles que querem colaborar serão privilegiados.”

A afirmação do ministro provocou imediata reação de partidos da base que não foram fiéis ao governo. “Não vamos mais aceitar discriminação de ‘seu Mercadante’ por termos votado em Eduardo Cunha (para presidente da Câmara). Somos a quarta bancada de deputados e não vamos ficar recebendo recado por jornal”, rebateu o líder do PP na Câmara dos Deputados, Eduardo da Fonte (PE).

Fonte anunciou ainda que a bancada se reunirá na próxima terça-feira para decidir se entrega todos os cargos no governo, incluindo o Ministério da Integração Nacional. Estará na pauta também a possibilidade de deixar a base aliada e passar a integrar o bloco de oposição. “Ou eles (o governo) querem o PP no governo, como partido com o tamanho que o PP tem, ou então a gente entrega tudo e sai do governo.”

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), avaliou que o pacto político conseguido pelo Planalto para apoiar a Medida Provisória 665 – que altera benefícios trabalhistas – não está consolidado como um novo comportamento da base em relação ao Planalto. “A governabilidade não está assegurada. Essa semana houve um esforço para manter o ajuste fiscal e não ter percepção ruim dos mercados, mas não está consolidada.”

Outro infiel, o PDT, cujos 19 deputados votaram contra o governo, também reagiu às declarações de Mercadante. “Estamos na base porque acreditamos na presidente Dilma, mas lamentamos boa parte da articulação política, que às vezes se faz de cega”, afirmou o líder do partido na Câmara, André Figueiredo (CE). Ele disse que a legenda também pode deixar o bloco de apoio ao governo caso o ministro Manoel Dias (Trabalho) seja demitido (mais informações no texto abaixo). “Vamos esperar essa semana, que tem a (Medida Provisória) 664, e não sei se a presidente vai tomar alguma decisão antes.”

A reação dos infiéis poderá agravar a situação do governo nas próximas votações. A MP 665 passou na Câmara com uma diferença de apenas 25 votos, sendo que 16 deles vieram da oposição. Se os 40 deputados do PP votarem contra o governo – na semana passada, 18 votaram contra e 21 a favor – e o PDT mantiver a rejeição, o pacote fiscal estará ameaçado.

A Medida Provisória 664 restringe o acesso ao pagamento da pensão por morte e auxílio-doença. A votação está prevista para a próxima quarta-feira.

‘Apressadas’. Segundo Mercadante, as indicações e nomeações para os cargos de segundo escalão serão “apressadas” onde “houve acordo na base”.

De acordo com o ministro da Casa Civil, quem do PMDB, por exemplo, votou com o governo terá preferência nas nomeações; quem votou contra, vai para o fim da fila. O mesmo vale para todos os partidos, inclusive o PT, segundo Mercadante. “Os primeiros serão os primeiros e não os últimos”, afirmou.

O ministro disse ainda que o governo vai “avaliar o que houve para saber medidas necessárias” podem ser tomadas em relação ao PDT. Ele, porém, minimizou as dissidências do PT nas votações. “O PT teve papel decisivo porque fechou questão e encaminhou votação”, afirmou o ministro, para quem a legenda “assumiu sua responsabilidade de partido do governo e seu papel foi decisivo para coesão da base, para formar a maioria que se formou para se chegar à vitória.”

‘Começar do zero’. O ministro da Casa Civil avalia que o trabalho de conquista dos votos dos partidos da base e até mesmo da oposição irá “começar do zero”.

Apesar de o governo ter o entendimento de que a votação da próxima MP referente ao ajuste fiscal vai passar pelo plenário da Câmara, as conversas já foram reiniciadas ontem e terão prosseguimento durante o final de semana. Ao mesmo tempo, outras investidas serão feitas para a aprovação da MP 665 no Senado, onde o governo sabe que a batalha também “será dura”.

“Não posso dizer isso (que lá será mais difícil). Há uma percepção de todos os parlamentares da importância estratégica do ajuste fiscal”, ponderou Mercadante, acrescentando que a intenção do governo, dos ministros e dos líderes é dialogar o máximo possível.

Além dessas duas medidas provisórias do ajuste, na semana que vem o governo tentará aprovar a MP 663, que trata da capitalização do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

A medida amplia de R$ 402 bilhões para R$ 452 bilhões o limite da parcela dos empréstimos do BNDES no âmbito do Programa de Sustentação do Investimento e enfrenta grande resistência da oposição, que quer abrir uma CPI na Câmara para investigar contratos do banco.

* José Matias-Pereira - A vitória nem sempre pertence ao vencedor

- O Estado de S. Paulo

As armas e os artifícios políticos utilizados na batalha eleitoral no segundo turno da eleição presidencial de outubro de 2014 pela presidente Dilma Rousseff permitiu que ela e o seu partido atingissem o seu propósito: ficar no poder, a qualquer custo. Nesse sentido, permito-me analisar as "vitórias" que vêm sendo obtidas pela mandatária nos últimos meses, tendo como referência a história de Pirro. Em 281 a.C., Pirro, Rei de Épiro, partiu com o seu exército para conquistar Roma. Após enfrentar e derrotar os romanos na Batalha de Heracleia, constatou que havia sofrido enormes perdas em homens e material bélico. Ao receber de um oficial o cumprimento pelo triunfo, Pirro respondeu: "Mais uma vitória como essa e estarei arruinado".

A presidente Dilma Rousseff, numa situação análoga à de Pirro, se encontra presa numa "enrascada" política, criada por ela e por seus apoiadores. Nessa teia de dificuldades, que vai estreitando a capacidade de manobra do governo e acuando cada vez mais a mandatária, destacam-se dois fatos, que estão conectados entre si. O primeiro diz respeito à postura da então candidata Dilma na corrida presidencial, que na busca de ganhar as eleições, adotou um discurso eleitoreiro, envolto em mentiras, engodos e falsas promessas, que sabia antecipadamente não poder cumprir. O segundo fato, traduzido no envio ao Congresso Nacional de Medidas Provisórias que compõem o denominado "pacote de ajuste fiscal", contradiz os discursos e as promessas da presidente durante a campanha eleitoral.

O pacote de ajuste fiscal proposto pelo governo vem sendo duramente criticado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), bem como por diversos parlamentares petistas. Isso ficou evidenciado na resistência da bancada do PT em fechar questão em relação a matéria, para atender à imposição do PMDB. Com a aprovação da MP no. 665, que restringe as regras de acesso ao seguro-desemprego, ao abono salarial e ao seguro defeso (para o pescador artesanal), o governo precisa também aprovar a MP no. 664, que muda as regras de acesso às pensões da Previdência Social. A estimativa do ajuste fiscal de diminuir R$ 18 bilhões nas despesas da União neste ano não deverá se concretizar em função das alterações que estão sendo feitas nas MP pelo Congresso Nacional.

A presidente Dilma se recusa a reconhecer que essas medidas visam corrigir os graves erros cometidos por ela e pelo governo na gestão da economia nos últimos anos, apoiados no estímulo ao consumo e na "Nova Matriz Econômica". As projeções feitas pelo IBGE, Banco Central e FMI para os próximos anos indicam que o cenário econômico atual vai piorar ainda mais. A inflação já se encontra bem acima do teto da meta, o desemprego está aumentando, a renda do trabalhador estagnada, e juros em patamares elevados. Esse cenário revela-se extremamente cruel com as camadas mais desprotegidas da população, colocando em risco as conquistas sociais.

O preço político a ser pago pela presidente Dilma e pelo PT para aprovar o texto base da Medida Provisória (MP) no. 665 na Câmara dos Deputados (por 252 votos a 227) será muito elevado. O resultado apertado da votação revela a fragilidade da base de apoio parlamentar que o governo tem no Congresso. O refrão cantado pelos parlamentares de oposição, ao ser anunciado o resultado da votação, de um samba de Beth Carvalho, "PT pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão", é um prenúncio dos tempos difíceis que o partido tem pela frente. Dessa forma, o PT, que chegou ao poder com a bandeira de defensor dos interesses dos trabalhadores, se contradiz junto aos seus eleitores ao aprovar o pacote de ajuste fiscal que afeta a vida dos trabalhadores.

Sabe-se que foi a soma do crescimento, da estabilidade da economia e das políticas sociais do Estado, iniciadas com o Plano Real, em 1994, que criaram as condições para garantir o surgimento de uma na nova classe média no Brasil, estimada em 35 milhões de brasileiros, que passaram a ter oportunidades de acesso a bens e serviços, bem como à educação superior. O cenário econômico, no entanto, revelado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua/IBGE) sobre o mercado de trabalho para o Brasil no período de janeiro a março de 2015, sinaliza que essa nova classe média começa a ser afetada pelos erros na condução da política econômica, pela má gestão pública e pela corrupção ocorridos no primeiro governo Dilma. A Região Nordeste, com o maior número de habitantes em situação de risco, registrou neste primeiro trimestre do ano a maior taxa de desemprego, com 9,6% de pessoas desocupadas. A taxa média de desemprego do País é de 7,9%.

A estratégia eleitoreira "vitoriosa", por meio espúrios e populistas, trouxe como consequência a perda de legitimidade e credibilidade junto aos eleitores, evidenciada de forma contundente nas pesquisas de opinião pública e nas manifestações das redes sociais, nos movimentos das ruas e nos sistemáticos panelaços promovidos contra a presidente, o seu mentor político, o seu governo e o seu partido. Observa-se que as "vitórias" obtidas pela presidente Dilma e o PT não podem ser mensuradas pelas suas dificuldades, mas por serem vitórias inúteis. O mito de Pirro serve para mostrar aos detentores do poder que é preciso mudar a forma de fazer política no Brasil, pois a "vitória" nem sempre pertence ao vencedor.

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* José Matias-Pereira, economista e advogado, é doutor em Ciência Política (área de governo e administração pública) pela Universidade Complutense de Madri, Espanha, e pós-doutor em Administração pela Universidade de São Paulo. Professor de Administração Pública e pesquisador associado do programa de pós-graduação em contabilidade da Universidade de Brasília. Autor, entre outras obras, do Curso de Economia Política (2015), publicado pela Atlas

Aliados estabelecem prazo para governo concluir nomeações

• Casa Civil é avisada de que, se quiser manter apoio ao pacote fiscal no Congresso, deve fazer indicações até terça-feira

• Planalto resolveu suspender nomeações ligadas ao PDT, cuja bancada votou em bloco contra o ajuste

Marina Dias, Valdo Cruz – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto suspendeu as nomeações ligadas ao PDT em cargos no segundo e terceiro escalão do governo e pediu à Casa Civil para que acelere as indicações para os demais partidos aliados até, no máximo, terça-feira, dia 12.

A retaliação ao PDT deve-se ao comportamento de seus deputados federais na votação da primeira medida provisória do ajuste fiscal, na quarta-feira (6).

Embora tenha um ministro no governo, Manoel Dias, titular da pasta do Trabalho, nenhum dos 19 deputados pedetistas votaram a favor do governo federal.

A expectativa de aliados e de dentro do Palácio do Planalto é que a presidente Dilma Rousseff --uma ex-pedetista-- opte pela demissão de Manoel Dias.

A ideia seria usar o caso como "exemplo", mas a ordem, por enquanto, é não tirá-lo do cargo para evitar desgaste.

Caso a bancada do PDT mantenha a postura contrária aos ajustes propostos pelo Planalto, Dilma deve reavaliar a situação.

O vice-presidente Michel Temer (PMDB) avisou ao ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que não poderá conter novas defecções na base em futuras votações do ajuste fiscal se os cargos federais prometidos aos partidos aliados não forem liberados até a próxima semana.

Duzentos cargos estão entre os pedidos que foram encaminhados à Casa Civil: 50 federais e outros 150 nos Estados.

O Palácio do Planalto age para que a medida provisória 664, que restringe benefícios previdenciários, seja votada na Câmara já na próxima semana; e que a medida provisória 665, recém-aprovada pelos deputados, passe também pelo Senado na semana que vem.

Em reunião na tarde desta quinta-feira (7), Temer, Mercadante e os ministros Eliseu Padilha (Aviação Civil) e Ricardo Berzoini (Comunicações) mapearam os cargos em distribuição.

O vice-presidente avisou que seu partido, o PMDB, e o PP já disseram que não votarão com o governo caso não recebam os cargos até a próxima terça.

O cenário preocupa diante da vitória apertada do Planalto na aprovação da primeira medida do ajuste: foram 252 votos a favor e 227 contra.

Aviso
O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), disse a Temer que as traições da bancada de seu partido poderão aumentar. Na votação da primeira parte do pacote de ajuste, 18 dos 39 parlamentares do PP votaram contra.

O Palácio do Planalto trabalha para que esse número diminua. Quer que pelo menos 80% do PP vote agora a favor do governo.

O líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani (RJ), mandou o mesmo recado a Temer: o PMDB dará as costas ao governo caso os cargos não saiam em quatro dias.

Dos 64 deputados peemedebistas, 13 foram contra a medida provisória.

Mercadante atribui o atraso nas nomeações à burocracia dos ministérios para alocar os novos servidores.

"O governo precisa cumprir o acordo", disse Temer a Mercadante, que prometeu apressar o processo.

PP ameaça deixar a base aliada do governo

• Líder da sigla que possui o maior número de parlamentares investigados na Lava Jato reagiu às declarações do ministro Aloizio Mercadante sobre distribuição de cargos para quem vota com o governo

Nivaldo Souza e Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - A declaração do ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, em entrevista ao Estado nesta sexta-feira, 8, na qual afirmou que o partido que "vota com o governo, especialmente nas votações relevantes, terá preferência" na distribuição de cargos do segundo escalão, foi a gota d'água na relação do PP com o Palácio do Planalto. "Não vamos mais aceitar discriminação de 'Seu Mercadante' por ter votado em Eduardo Cunha (para presidente da Câmara). Somos a quarta bancada de deputados e não vamos ficar recebendo recado por jornal", afirmou aoBroadcast Político o líder do partido na Câmara, Eduardo da Fonte (PP-PE).

O pepista disse que bancada se reunirá na próxima terça-feira, 12, para decidir se entrega todos os cargos no governo, incluindo o Ministério da Integração Nacional, ocupado por Gilberto Occhi. Estará na pauta também a possibilidade de deixar a base aliada e passar a integrar o bloco de oposição ao governo. "Ou eles (do governo) querem o PP no governo, como partido com o tamanho que o PP tem, ou então a gente entrega tudo e sai do governo", disse.

Embora Fonte diga que "a preocupação da gente não é cargo", o gesto pode ser visto como resposta à ameaça de Mercadante de colocar o PP no fim da fila da distribuição de postos no segundo escalão, após o racha da legenda na votação da medida provisória 665, a primeira do ajuste fiscal, aprovada na última quarta-feira pela Câmara. Só 21 votos dos 40 deputados da bancada foram favoráveis à MP - 18 parlamentares votaram contra. Diante do resultado, o Planalto pretende agraciar primeiro na distribuição de cargos, segundo Mercadante, os partidos cuja proporção de votos favoráveis à MP foi mais relevante.

Fonte avalia que o apoio de cerca de 50% da bancada do PP à medida do ajuste ocorreu porque os deputados ainda estavam "muito constrangidos em relação à votação da terceirização, quando chegaram aos seus Estados e tinha outdoors e corredor polonês nos aeroportos para pressionar". "Isso tudo patrocinado pela CUT e o PT", observou. O partido é também o que possui mais parlamentares (o total de 32) investigados no Supremo por suspeita de envolvimento com o esquema de desvios na Petrobrás revelado na Operação Lava Jato.

O líder acusa o Planalto de "discriminar" o PP em relação a outros partidos depois que a legenda se uniu à Eduardo Cunha para elegê-lo presidente da Câmara, impondo derrota ao candidato do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP). "Essa marcação toda em cima do PP é porque fizemos bloco com o PMDB e ganhamos a eleição na Câmara", disse.
O líder pede respeito ao tamanho da legenda. "Eles (governistas) ficam querendo retaliar o PP por conta disso e não vamos mais aceitar essa retaliação. Ou trata a gente e nos respeita pelo tamanho que temos, com os 40 votos que temos e os cinco senadores, ou então vamos entregar os cargos. Isso inclui o Ministério da Integração. Se for para devolver, tem de devolver tudo, não pode ser pela metade", afirmou.

Fonte diz que "ficar no governo é ser governo" e não ser discriminado. Segundo ele, a bancada do PP "encheu o teto (com) essa discriminação" e que os parlamentares têm pressionado para a legenda aderir à oposição. "Não vamos aceitar ficar em terceiro ou quarto plano. Ou eles (do governo) querem o PP no governo, como partido com o tamanho que o PP tem, ou então a gente entrega tudo e sai do governo", disse.

Ao ser questionado se havia risco real de o PP abandonar o governo, Fonte enfatizou que a possibilidade era "real, real, real".

Renan Calheiros volta a dizer que PMDB não quer mais cargos

• 'O PMDB não pode repetir a velha política na relação com o governo e com o PT', disse o presidente do Senado

Elizabeth Lopes - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), afirmou nesta sexta-feira, 8, que seu partido não quer mais cargos no governo e voltou a cobrar que a administração federal de Dilma Rousseff "corte na carne" e reduza o número de ministérios e de cargos comissionados para que o ajuste fiscal dê certo.

Após encontro com o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, hoje na capital paulista, Renan descartou que a aprovação de parte do ajuste fiscal, na Câmara dos Depurados, tenha sido feita por seu partido com o intuito de obter mais cargos no governo. "Da parte do PMDB, é o inverso do que (imprensa) está colocando."

"O PMDB não pode repetir a velha política na relação com o governo e com o PT", disse o peemedebista. "Não há como fazer ajuste fiscal sem reduzir ministérios e cargos em comissão, é preciso garantir o equilíbrio do ajuste fiscal, o governo precisa cortar na carne." Ele reiterou que a função de seu partido, na coalização com o governo, é dar conteúdo programático. "O PMDB tem de dar o roteiro programático para a coalizão, para o PT e para o Brasil."
Ainda sobre o tema, Renan disse: "Não tem exigência nem barganha, esse será o pior papel do PMDB (se isso for feito)".

Terceirização. O presidente do Senado garantiu que é preciso regulamentar "o mais rapidamente possível" o Projeto de Lei da terceirização, que já foi aprovado na Câmara dos Deputados e tramita agora no Senado.

Renan, que chegou a dar indicações de que não tinha pressa na tramitação dessa matéria, conversou hoje sobre o tema com Skaf, cuja entidade é uma das defensoras da causa. "O mais prudente do ponto de vista do trabalhador, da indústria, do Brasil é regulamentar o mais rapidamente possível, só assim vamos colaborar e estimular a volta dos investimentos e a volta do emprego", afirmou.

Em rápida entrevista coletiva concedida após a reunião com Skaf, o presidente do Senado também mandou um recado ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que vem garantindo a trabalhadores que, se o projeto for aprovado no Parlamento, a presidente Dilma Rousseff irá vetá-lo: "Ninguém substitui o Senado, ninguém substitui a Câmara, é importante aguardar o calendário (de votações)."

Renan destacou que o Senado vai avançar na discussão da terceirização e fará, já a partir da semana que vem, audiências públicas sobre o tema, com a participação, dentre outros, do presidente da Fiesp. "Vamos regulamentar a terceirização e diminuir a insegurança jurídica no País. O Brasil precisa regulamentar seus terceirizados, avançar na conceituação do que é a atividade-fim." O texto aprovado na Câmara dos Deputados amplia a possibilidade de terceirizar trabalhadores de todas as atividades de uma empresa, meio (como limpeza ou segurança, por exemplo) ou fim.

O presidente do Senado disse também que, além de diminuir a insegurança jurídica no País, regulamentar a terceirização, sobretudo a já existente, e avançar na conceituação das atividades fim e meio, vai ajudar na retomada dos empregos. "O Brasil precisa regulamentar seus terceirizados, avançar na conceituação do que é a atividade-fim, para retirar os riscos da precarização, da diminuição de salários", afirmou, argumentando que não se pode regulamentar a utilização de terceirizado na atividade-fim sem criar limites e estabelecer condições.

Empreiteiro diz que doou a Dilma por temer represália

• Dono da UTC afirmou a procuradores que as doações eram ligadas à Petrobras

• Ricardo Pessoa negocia acordo para reduzir sua pena e promete detalhar repasses feitos para o PT desde 2006

Flávio Ferreira, Estelita Hass Carazzai - Folha de S. Paulo

CURITIBA - O empresário Ricardo Pessoa, dono da empreiteira UTC, disse a procuradores da Operação Lava Jato que doou R$ 7,5 milhões à campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff por temer prejuízos em seus negócios na Petrobras se não ajudasse o PT.

Segundo Pessoa, a contribuição da empresa foi tratada diretamente com o tesoureiro da campanha de Dilma, o atual ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Edinho Silva.

Preso desde novembro do ano passado e hoje em regime de prisão domiciliar, o empresário negocia desde janeiro com o Ministério Público Federal um acordo para colaborar com as investigações em troca de uma pena reduzida.

Nos contatos com os procuradores e no documento em que indicou as revelações que está disposto a fazer caso feche o acordo, Pessoa descreveu de forma vaga sua conversa com Edinho, mas afirmou que havia vinculação entre as doações eleitorais e seus negócios na Petrobras.

O empreiteiro contou ter se reunido com Edinho a pedido do então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, apontado como o principal operador do partido no esquema de corrupção descoberto na Petrobras e hoje preso em Curitiba.

As doações à campanha de Dilma foram feitas legalmente. Segundo os registros do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), foram três: duas em agosto e outra em outubro de 2014, dias antes do segundo turno da eleição.

Se Pessoa fechar o acordo de delação premiada com os procuradores, ele terá então que fornecer provas e detalhar suas denúncias em depoimentos ao Ministério Público e à Polícia Federal.

Em janeiro, Pessoa já havia indicado sua disposição de falar sobre a campanha de Dilma Rousseff em documento escrito na cadeia e publicado pela revista "Veja". "Edinho Silva está preocupadíssimo", escreveu o empresário.

Caixa dois
Pessoa também afirmou aos procuradores que fez contribuições clandestinas para a campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição, em 2006, e a do prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad, em 2012.

O empreiteiro disse que deu R$ 2,4 milhões à campanha de Lula, via caixa dois. O dinheiro teria sido trazido do exterior por um fornecedor de um consórcio formado pela UTC com as empresas Queiroz Galvão e Iesa e entregue em espécie no comitê petista.

Pessoa afirmou também que, a pedido de Vaccari, pagou outros R$ 2,4 milhões para quitar dívida que a campanha de Haddad teria deixado com uma gráfica em 2012. O doleiro Alberto Youssef, outro operador do esquema de corrupção na Petrobras, teria viabilizado o pagamento.

Segundo o empreiteiro, o valor foi descontado de uma espécie de conta corrente que ele diz ter mantido com Vaccari para controlar o pagamento de propinas associadas a seus contratos na Petrobras.

Pessoa também promete revelar às autoridades detalhes sobre seus negócios com o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que hoje cumpre prisão domiciliar por seu envolvimento com o mensalão.

O empreiteiro, que pagou R$ 3,1 milhões à empresa de consultoria de Dirceu entre 2012 e 2014, diz que o contratou para prospectar negócios no Peru, mas afirmou aos procuradores que a maior parte dos repasses foi feita após a prisão do ex-ministro, para atender a um pedido de ajuda financeira da sua família, em razão de sua influência no PT.