segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Marcus André Melo* - O mito do Nordeste vermelho revisitado

Folha de S. Paulo

O que explica o abismo entre o voto para o Legislativo e Executivo?

O mito do Nordeste vermelho retornou à opinião pública; mas, como já discuti na coluna, não resiste às evidências. Vejamos: na região, o núcleo duro do chamado centrão (PL, PP, Republicanos), somado ao PSC e Patriotas, elegeu 35% dos deputados federais. As legendas de esquerda —PT, PSB, PC DO B, Verde, Rede, PSOL, Solidariedade— lograram eleger 33%.

O percentual regional de eleitos pelo PL, PP e Republicanos é similar ao nacional (36%). Assim, dois terços dos representantes do Nordeste na Câmara pertencem a legendas do núcleo duro do centrão, de centro ou centro direita, em uma classificação convencional.

Em Sergipe, no primeiro turno da eleição presidencial, Lula obteve quase dois terços dos votos. Mas nenhum candidato dos partidos de esquerda foi eleito; metade é do núcleo duro do centrão. Em Alagoas, a esquerda elegeu apenas 1/5 dos deputados, mesmo percentual encontrado no Rio Grande do Norte e no Maranhão. Em Pernambuco, o núcleo do centrão elegeu 1/3 dos deputados; a esquerda, 40%.

Celso Rocha de Barros - Se for Jair agora, será Jair pra sempre

Folha de S. Paulo

Direita deve escolher apoiar ou não presidente em meio a anunciadas ameaças às instituições

A eleição de uma bancada de senadores de extrema direita no dia 2 teve uma grande vantagem: deixou claro o que está em jogo na eleição deste ano. Se Jair Bolsonaro vencer, terá maioria para mudar a Constituição e neutralizar o Supremo Tribunal Federal. Não é mais eleição para presidente. É plebiscito para ditador.

Bolsonaro disse à Veja que um projeto sobre isso "já chegou até ele", mas que só falará dele depois da eleição. Hamilton Mourão já entregou o jogo na GloboNews.

Daí em diante, é o roteiro da Hungria, da Venezuela, de todos os novos autoritários: se você tiver a suprema corte aparelhada, tudo o que você fizer será declarado constitucional, e o golpe raiz, com tanque na rua, se torna desnecessário.

Senado e STF foram as principais salvaguardas da democracia brasileira contra Bolsonaro no primeiro mandato. Se Jair vencer agora, não tem mais nada disso. Ele faz o que quiser.

Lygia Maria - Estamos presos na polarização

Folha de S. Paulo

Desde 2018, o brasileiro é obrigado a votar mais contra do que a favor

O segundo turno será entre Lula e Bolsonaro: um déjà vu da polarização de 2018. A esquerda refuta o termo "polarização", alegando que Lula não é da esquerda radical como Bolsonaro é de extrema direita. O próprio Lula disse que sempre houve polarização no Brasil, lembrando o embate histórico entre PT e PSDB. Ora, se isso fosse verdade, o PT não teria feito uma campanha baixa e vil para tirar Marina Silva do páreo em 2014, por exemplo.

Na verdade, o termo "polarização" se refere mais à ideia de magnetismo, como um ímã que possui dois polos sempre conectados (corte esse ímã ao meio e veja como os polos negativo e positivo se mantêm nas partes separadas). Ou seja, há uma interdependência entre PT e Bolsonaro, como atestou o jornalista militante do PT Breno Altman, em 2018: "Por que iríamos querer tirar Bolsonaro do segundo turno? Para perdemos as eleições?". O PT precisa de Bolsonaro e vice-versa.

Ana Cristina Rosa - O meu país é meu lugar de fala

Folha de S. Paulo

Cada brasileiro possui, de fato e de direito, a mesma relevância: um eleitor, um voto

Afirmar o óbvio nunca foi tão necessário e urgente. Por isso o registro: independentemente de características e condições individuais —como origem regional, crença, orientação sexual, cor da pele, grau de escolaridade e nível de renda—, todo cidadão brasileiro tem igual valor no processo eleitoral.

Desde a redemocratização, conquistamos o poder de participar diretamente da construção do destino do nosso país a partir das manifestações de vontade daqueles que se alistam para comparecer às urnas. E cada um possui, de fato e de direito, a mesma relevância: um eleitor, um voto.

Embora alguns expressem extrema dificuldade de aceitar, uma das grandes virtudes do Estado democrático é a tolerância e o respeito às diferenças. Isso pressupõe que os governados não podem ser subjugados ou tratados de forma agressiva por manifestarem oposição. Democracia não condiz com arroubos autoritários e tampouco com manifestações preconceituosas e mesquinhas.

Bruno Carazza* - Congresso conservador ou bolsonarista?

Valor Econômico

Perfil dos eleitos indica maior radicalismo na próxima legislatura

A aliança entre o bolsonarismo e o Centrão sagrou-se vencedora na eleição para a Câmara e o Senado. Para entender as implicações desse movimento, no entanto, é preciso fazer um raio-X dessa composição de forças da direita.

Somando-se os eleitos pelo PL, PP e Republicanos e colocando na conta o União Brasil (que negocia uma fusão com o PP) serão 246 deputados e 35 senadores - o que representa 48% e 43% dos plenários de cada Casa legislativa, índices bem próximos para se garantir maiorias.

A esquerda (PT/PCdoB/PV, Psol/Rede, PSB e PDT) terá 125 deputados e 13 senadores. É muito pouco: apenas 24,4% da Câmara e 16% do Senado.

Quatro anos depois da eleição de Bolsonaro, o Congresso também dobrou à direita, para citar o título do livro de Jairo Nicolau.

Para saber qual a margem que o próximo presidente terá para governar, contudo, é preciso identificar se essa direita eleita é mais bolsonarista ou apenas fisiológica, como o Centrão sempre foi.

Alex Ribeiro - BC deve reforçar sinal conservador para o juro

Valor Econômico

Juro de mercado caiu no dia seguinte à reunião do Copom

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deverá reagir com um tom mais duro na sua comunicação de política monetária nos pronunciamentos oficiais programados para esta semana, depois que o seu comunicado conservador da semana passada surtiu o efeito inverso do esperado nos mercados.

O colegiado procurou alertar que o trabalho para combater o surto inflacionário está longe de estar completo, que será preciso manter os juros altos por um bom tempo e que não se pode descartar a hipótese de mais aperto monetário, caso não se confirme o cenário de convergência da inflação à meta e de reancoragem da expectativas de inflação.

A nota divulgada após a reunião do Copom foi talhada para segurar as apostas do mercado em torno de uma baixa de juros já no começo do ano que vem, que vinham ocorrendo mesmo sem um cenário de queda da inflação para os objetivos estabelecidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Mas o que se viu no mercado, no dia seguinte, foi o oposto: os juros futuros caíram, intensificando a aposta numa distensão monetária prematura. Na sexta, os juros subiram, mas o movimento não teve a ver com o nosso BC, e sim com o aperto monetário feito pelo Federal Reserve (Fed).

Entrevista | Joaquim Falcão: ’A proposta é sair da democracia para uma monocracia’

O Estado de S. Paulo

Cientista político diz que ideias como ampliar colegiado do STF podem ‘neutralizar demais Poderes’

Declarações recentes do presidente Jair Bolsonaro (PL) e do vice-presidente e senador eleito Hamilton Mourão (Republicanos) sobre possíveis interferências no Supremo Tribunal Federal (STF) levantaram questionamentos sobre a constitucionalidade de medidas como aumentar de 11 para 16 o número de cadeiras na Corte.

Para Joaquim Falcão, cientista político e autor do livro O Supremo: Compreenda o poder, as razões e as consequências das decisões da mais alta Corte do Judiciário no Brasil, o problema não é a ampliação do colegiado do STF, mas, sim, o momento em que a ideia é cogitada.

Mourão também defendeu o fim da PEC da Bengala, que adiou a aposentadoria compulsória de ministros de 70 para 75 anos, e citou a possibilidade de impeachment de integrantes da Corte. Ao Estadão, Falcão – que é professor de Direito Constitucional e foi o responsável pela coordenação jurídica da campanha de Sérgio Moro, quando ele tentava disputar o Planalto –, disse ver nas medidas riscos à democracia.

Denis Lerrer Rosenfield* - Qual direita?

O Estado de S. Paulo

O bolsonarismo adquiriu um perfil mais claro de movimento de extrema direita, e veio para ficar, sejam quais forem os resultados do segundo turno.

O novo quadro político-partidário já apresenta uma mudança significativa no que diz respeito às forças de direita em jogo e aos seus diferentes significados. Isso diferentemente das eleições de 2018, quando Bolsonaro representava genericamente a direita em sua aversão ao lulopetismo, a saber, contra as simpatias petistas pelas ditaduras de esquerda, a corrupção, o desrespeito à propriedade privada rural e o descalabro fiscal. Amalgamava ele posições conservadoras, liberais e de extrema direita, nem sempre diferenciadas. O bolsonarismo, nestes quatro anos, adquiriu um perfil mais claro de movimento de extrema direita.

Felipe Moura Brasil - Um Supremo para chamar de seu

O Estado de S. Paulo

A diferença é que Lula já conseguiu a impunidade, enquanto Bolsonaro ainda teme a prisão

Em abril de 2018, após a prisão de Lula, o petista Wadih Damous declarou: “Tem que fechar o Supremo e criar uma Corte Constitucional, de guarda exclusiva da Constituição e com seus membros detentores de mandato”. Em setembro daquele ano, José Dirceu reforçou a posição do entorno de Lula: “Primeiro, deveria tirar todos os poderes do Supremo e ser só Corte Constitucional”.

Cinco anos antes, a ex-prefeita de São Paulo pelo PT e então deputada federal pelo PSB Luiza Erundina havia apresentado a PEC 275/13, que transforma o STF em Corte Constitucional, reduz sua competência e amplia o número de ministros, de 11 para 15. Erundina acaba de ser reeleita pelo PSOL e apoia Lula contra Jair Bolsonaro.

Desde a soltura do petista e a anulação de suas condenações, porém, o PT e suas linhas auxiliares têm deixado para o atual presidente a beligerância com o Supremo.

Irapuã Santana – Polarização e ressentimento

 

O Globo

Precisamos ouvir o grito de desespero no resultado e aproveitar a chance de transformar o futuro

A dicotomia Lula versus Bolsonaro se apresentou não apenas na corrida presidencial, mas também nos demais cargos eletivos. A esquerda quase manteve seu número de cadeiras, mas sem tirar o espaço da direita, e sim avançando sobre partidos do centro e da centro-esquerda. O mesmo movimento ocorreu do outro lado, onde a direita e a extrema direita dizimaram os grupos de centro e centro-direita.

A carnificina do centro demonstra que não bastava apenas ser simpatizante de um dos dois principais candidatos. A população exigia mais. Era preciso estar colado em Lula ou Bolsonaro para se eleger. Se observarmos o péssimo desempenho de políticos que abandonaram o bolsonarismo e compararmos com quem o abraçou de corpo e alma, confirmaremos isso.

Miguel de Almeida – Deus não é brasileiro

O Globo

O discurso de Michelle e Damares ameaça quem não comunga com suas crenças

Em 1941, Getúlio Vargas baixou decreto que proibia as mulheres de jogar futebol. O ditador já vinha matando e prendendo oposicionistas desde a implantação do Estado Novo, em 1937, quando avançou ainda mais nas liberdades individuais.

Dizia o texto:

— Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza.

A proibição obrigou as entidades esportivas, então atreladas ao Estado, a vetar campeonatos femininos. Várias mulheres foram detidas (!), acusadas de organizar jogos. Houve sedição. Desobediência. À revelia do ditador, continuaram a ocorrer partidas em campos distantes. A estapafúrdia lei só caiu em 1983.

O decreto de Getúlio atendia à pressão de setores conservadores, junto aos religiosos, interessados em cercear o comportamento feminino. Defendiam que a mulher deveria limpar a casa, ter filhos e cuidar do marido. Exatamente o que pensa a terceira mulher de Bolsonaro.

Fernando Gabeira - Paisagem depois da batalha

O que pode acontecer é um candidato de esquerda vencer e governar com um Congresso de maioria conservadora

Na semana passada, tive pouco mais de 20 minutos para concluir meu artigo sobre as eleições. Era preciso conciliar o resultado ainda nebuloso com o limite para a entrega do texto.

Foi pouco tempo para entender tudo. Na verdade, até agora ainda existem zonas escuras, à espera de alguma luz que talvez só nos ilumine, plenamente, em 30 de outubro, data da votação em segundo turno.

Na terça-feira, numa entrevista ao jornal português Expresso, já pelo menos percebia algo: a frustração causada pelo resultado era superior ao que a realidade autorizava.

O problema central: todas as previsões foram baseadas nas pesquisas. Quando a realidade desmentiu parcialmente as pesquisas, em vez de aceitá-la, a tendência foi lamentar a perda de uma ilusão e subestimar as possibilidades da situação tal como ela era.

É inegável que o bolsonarismo avançou, elegendo senadores, dando votações espetaculares a ex-ministros que tiveram péssima atuação, como Eduardo Pazuello, na Saúde, ou Ricardo Salles, no Meio Ambiente.

A reação inicial foi afirmar que o Brasil é um país conservador. Aceitaria a expressão se fosse acompanhada do advérbio “majoritariamente”. É um país conservador, mas o candidato que defendeu políticas sociais mais amplas chegou à frente, com 6,2 milhões de votos de dianteira. Em alguns casos, São PauloBrasília (votação distrital) e Espírito Santo, candidatos de esquerda foram campeões de voto. Quatro índias foram eleitas para o Congresso, duas mulheres trans, 19 deputados LGBTQIA+.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Agenda ambiental desafiará novos congressistas

O Globo

Retrocesso do governo Bolsonaro impõe urgência na revisão de projetos nocivos ao meio ambiente

Marcado pela polarização entre a direita bolsonarista e a esquerda liderada pelo PT, o Congresso que assume em 1º de fevereiro de 2023 será acompanhado com especial atenção pelos ambientalistas. Espera-se uma relação tensa entre os dois blocos em torno de projetos-chave para o meio ambiente, já bastante castigado nos quase quatro anos do governo Bolsonaro.

A eleição para a Câmara da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede-SP) e de seu sucessor na gestão Bolsonaro, Ricardo Salles (PL-SP), é garantia de duros embates no plenário. Certamente será lembrado que Salles cumpriu com eficiência a determinação do Planalto para desmontar o arcabouço de fiscalização ambiental, assentado no Ibama e no ICMBio. Está aí a maior causa do crescimento recorde da devastação na Amazônia e da invasão de terras públicas e indígenas por garimpeiros. Marina, que se demitiu no segundo governo Lula por não sentir apoio para endurecer as medidas de proteção, reconciliou-se com o ex-presidente e será ardorosa defensora de seu trabalho. Seu período na pasta marca a maior queda do desmatamento na região.

Poesia | Bertolt Brecht - A minha mãe

 

Música | Chico Buarque - Pelas tabelas

 

domingo, 9 de outubro de 2022

Paulo Fábio Dantas Neto* - Armadilhas mentais no outubro largo

Há pouco mais de uma semana parecia à grande maioria dos analistas (incluído este que vos escreve) que estava em curso uma onda pelo “voto útil” que poderia levar à vitória de Lula no primeiro turno. Muitos admitiam que a hipótese se tornara provável, alguns mais afoitos a consideravam quase certa. Secundei aqueles que apenas a consideravam mais possível do que antes e resumi o que via, no artigo do dia 01.10, numa disjuntiva: outubro breve ou outubro largo. Argumentei sobre vantagens e desvantagens das duas opções - inclinando-me a preferir a do outubro largo – e sobre a lucidez de uma atitude positiva diante de qualquer desfecho que o eleitor soberano determinasse para o turno do dia 2.

Pois bem, deu outubro largo e cá estamos, a meu ver, ainda em busca da atitude mais positiva possível diante dessa realidade que a democracia engendrou. Mais necessário ainda do que há uma semana retornar à questão de Luiz Sergio Henriques, que mencionei no artigo passado: “Não se trata só de ganhar eleições, mas de reconstruir a esfera pública. Será possível ter uma normal dialética democrática com uma extrema-direita capaz de mobilizar, pelo que parece, 30 ou 40% dos eleitores em estado de insubmissão latente?”. Abertas as urnas do primeiro turno e embora ainda esteja em aberto a disputa principal, leio com cada vez mais frequência análises que dizem não à pergunta de Luiz Sergio, partindo da premissa de que sim, a extrema-direita mostrou-se capaz de mobilizar tantos eleitores, que se formou uma gigantesca bancada bolsonarista na Câmara e teria mobilizado até a maioria do eleitorado, a ponto de eleger uma maioria bolsonarista no Senado. São descrições mais ou menos próximas de um apocalipse, absoluto ou relativo, conforme a ponderação do analista. Mas como apocalipse e relatividade não combinam, acaba que, nessas análises, em diferentes graus, qualquer nuance morre no veredicto de que o eleitor brasileiro autorizou uma mais que provável destruição da nossa democracia.

Merval Pereira - As nossas bolhas

O Globo

Estudo identifica perfis de brasileiros sob o ponto de vista de como se comunicam e dialogam

É inescapável constatar pelas pesquisas de opinião, e pelo debate político nas redes sociais, que o país está dividido, e qualquer candidato que vença a eleição terá problemas para governar. O ex-presidente Lula continua numericamente à frente de Bolsonaro depois do primeiro turno, mas a diferença está se estreitando. O Congresso eleito, no entanto, é mais conservador, e talvez mais reacionário, do que o eleito em 2018, o que faz prever que Lula vencendo, encontrará uma forte barreira ideológica que limitará suas ações.

As possibilidades de barganha com o Congresso estarão bloqueadas pelo controle do orçamento secreto, que não será apenas do Centrão, mas do grupo ideológico que apoia Bolsonaro. O ex-presidente terá problemas para acabar com ele, mas poderá ter o apoio do Supremo Tribunal Federal (STF), o que, por outro lado, provocará a reação da maioria governista, uma novidade no Senado, responsável pelo impeachment de ministros do STF.

O controle do Poder Judiciário deverá ser o objetivo maior de um governo Bolsonaro renovado, um golpe parlamentar semelhante ao que já aconteceu em países de esquerda como a Venezuela. Paradoxalmente, esse receio de um golpe esquerdista é a bandeira maior da candidatura Bolsonaro. Como não se cansa de defender o golpe militar de 1964, é fácil entender que Bolsonaro não é contra ditaduras, desde que sejam de extrema-direita.

Bernardo Mello Franco – A marcha da autocracia

O Globo

Mourão expôs plano para dominar a Corte: aumentar número de ministros, encurtar mandatos e restringir alcance de decisões

Bastaram cinco dias, a contar do primeiro turno, para o bolsonarismo voltar a mostrar as garras. Na sexta-feira, o general Hamilton Mourão expôs o plano da extrema direita para subjugar o Supremo.

O vice-presidente acusou a Corte de violar o processo legal e invadir competências do Executivo. A pretexto de restabelecer a harmonia entre os Poderes, defendeu mudanças que limitariam as atribuições e a autonomia do Judiciário.

O roteiro inclui aumentar o número de ministros, encurtar mandatos e restringir o alcance das decisões do Supremo. A cartilha já foi seguida na Hungria e na Polônia, onde aliados de Jair Bolsonaro governam com poderes imperiais.

Recém-eleito senador, Mourão indicou que também defenderá a cassação de atuais ministros do Supremo. Expôs a ideia com seu novo sotaque gaúcho, ensaiado para pedir votos no Rio Grande do Sul.

Dorrit Harazim - Voto no segundo turno é decisão sem volta

O Globo

Na escolha entre Bolsonaro e Lula para presidente estará gravado nosso retrato. A escolha é final e definitiva

Algumas coisas são tão autoevidentes que não precisam ser revisadas nem debatidas. Exemplo: o fato de a alimentação ser, há milênios, a única linguagem genuinamente universal. Do ser humano ao reino animal, passando pelo mundo das plantas, todo organismo vivo já nasce conhecendo essa gramática — sabe que, sem comida, sua vida se extingue. Em contrapartida, o que exige esforço máximo, quase inalcançável por cada um de nós, é a obrigação não nata de pensar no que somos. Toda a obra de Hannah Arendt trafega por essa necessidade. Somente quando admitirmos que “em nosso tempo” (seja ele qual for) tudo é possível, seremos capazes de nos confrontar com o que somos, de olhar com honestidade para o que nos tornamos e de saber o que queremos, ensinou a filósofa magna do século XX. Só assim “o homem consegue viver na fenda do tempo entre o passado e o futuro”, argumentava. No entender da autora, pensar é a única atividade capaz de se interpor entre nós e o mais hediondo dos males. Talvez pensasse estar encerrado o longo período da História em que a tradição, a religião e a autoridade funcionavam como substituto.

Elio Gaspari - O basta de Malan, Arminio, Arida e Bacha

O Globo

Nota dos quatro economistas é um documento histórico e recupera um momento emocionante de 1976 da história do país

A nota dos economistas Pedro Malan, Arminio Fraga, Persio Arida e Edmar Bacha antecipando seus votos no segundo turno de eleição presidencial é um documento histórico. Teve apenas uma frase de 14 palavras: “Votaremos em Lula no 2º turno; nossa expectativa é de condução responsável da economia.”

Os quatro perderam parte da juventude na ditadura. Sob a liderança de Fernando Henrique Cardoso (e de Itamar Franco), fizeram o Plano Real, que devolveu ao país o valor da moeda.

Para quem associa ditaduras a desempenhos, vale lembrar que, ao fim de 1984, o regime se acabava com uma inflação de 215% e o país na bancarrota. Em 1996, ao fim do segundo ano do Plano Real, ela estava em 9,6%. (O posto Ipiranga de Jair Bolsonaro fechou 2021 com 10%.)

É possível que algum deles já tenha votado em candidatos do PT, mas não em Lula. Votarão nele porque defendem a democracia.

Cacá Diegues - Ficar igual ou mudar

O Globo

No último domingo, ninguém perdeu nada; nossa maior meta era a democracia, e ela foi respeitada

E agora? Agora está na hora de encerrar as dúvidas, escolher um candidato que será definitivo por quatro anos. O que aconteceu no primeiro turno não interessa mais, já votamos nele e agora temos que escolher o candidato definitivo de nosso gosto. Tudo isso até o dia 30 de outubro, quando a coisa se encerra de vez.

Os eleitores de Bolsonaro não foram surpreendidos, duvido que a grande maioria deles já não esperasse resultado semelhante. As urnas eletrônicas não deram o que falar, ninguém reclamou de nada, vencedores e vencidos só tiveram que pensar em como atrair mais votos para garantir a vitória ou virar o jogo. Uma aspiração democrática, perfeitamente dentro do que permitem as regras do regime e seu sistema de escolha. Ou eleição.

Míriam Leitão - Bolsonaro quer cheque em branco

O Globo

Bolsonaro não tem proposta fiscal e quebrou o teto. Muito pior, quer tirar a independência do STF, cláusula pétrea da Constituição

O presidente Bolsonaro avisou que recebeu uma proposta de mudar a composição do Supremo Tribunal Federal e que vai tratar disso depois das eleições. Então o que ele está pedindo aos eleitores brasileiros é que votem nele apesar de ele estar avaliando um projeto que vai ferir de morte a independência dos poderes da República, e informa que tratará disso depois de eleito. Na entrevista à “Veja”, ele mostrou claramente que seus propósitos para o segundo mandato são exatamente os que se temia.

Mas e a economia? Sobre esse tema sabe-se extraoficialmente que a equipe de Bolsonaro prepara umas mudanças nas regras fiscais. Os jornalistas ficam sabendo disso em conversas nas quais não podem revelar a fonte ou ouvindo palestras de integrantes da equipe. Uma delas foi a do chefe da Assessoria Especial de Assuntos Econômicos, Rogério Baueri, em debate na UnB. Ele falou em aumento real de despesas com um teto atrelado ao PIB. Seja lá o que for isso, o que fica claro é que na economia o governo não diz, ou não sabe, o que vai fazer se conquistar um segundo mandato.

Luiz Carlos Azedo - Vamos falar de exclusão estrutural

Correio Braziliense

Não existe apenas uma via de ascensão social, pautada pelas políticas públicas inclusivas, de caráter social-democrata; também há o empreendedorismo e o esforço individual na via iliberal, com outros valores

“Toca para a frente, berrou o cabo. Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender uma acusação medonha e não se defendeu.
— Está certo, disse o cabo. Faça lombo, paisano.
Fabiano caiu de joelhos, repetidamente uma lâmina de facão bateu-lhe no peito, outra nas costas. Em seguida abriram uma porta, deram-lhe um safanão que o arremessou para as trevas do cárcere. A chave tilintou na fechadura, e Fabiano ergueu- se atordoado, cambaleou, sentou-se num canto, rosnando.
— Hum! hum!
Por que tinham feito aquilo? Era o que não podia saber. Pessoa de bons costumes, sim senhor, nunca fora preso. De repente um fuzuê sem motivo. Achava-se tão perturbado que nem acreditava naquela desgraça. Tinham-lhe caído todos em cima, de supetão, como uns condenados. Assim um homem não podia resistir.
— Bem, bem.
Passou as mãos nas costas e no peito, sentiu-se moído, os olhos azulados brilharam como olhos de gato. Tinham-no realmente surrado e prendido. Mas era um caso tão esquisito que instantes depois balançava a cabeça, duvidando, apesar das machucaduras.
Ora, o soldado amarelo…”

Essa passagem de Vidas secas, de Graciliano Ramos (1852-1953), publicado em 1938, um clássico de nossa literatura moderna, retrata a relação de poder no sertão nordestino, num determinado momento na vida de uma família de retirantes, que foge de miséria e da seca. Fabiano é brutalmente agredido, depois de se retirar de um carteado, para o qual fora intimado pelo soldado amarelo, sem pedir autorização. Hoje, é uma situação corriqueira nas grandes cidades brasileiras, e não só nas periferias.

Hélio Schwartsman - Como ainda votam em Bolsonaro?

Folha de S. Paulo

Boa parte do eleitorado releva as atitudes mais inflamadas do presidente

Um vulcano que chegasse à Terra desconfiaria das capacidades lógicas da espécie humana. Pelas pesquisas, 75% dos eleitores brasileiros consideram a democracia a melhor forma de governo e 25% são contrários ou indiferentes a ela ou não opinaram. Entretanto, 41% dos nossos conterrâneos sufragaram o nome de Jair Bolsonaro nas urnas (votos totais, incluindo brancos e nulos). Uma conclusão possível é que 16% ignorem o princípio da não contradição (se você é pró-democracia, não deve votar em quem a ameace), outra é que as pessoas são mais complicadas.

Confesso que tenho dificuldades para compreender como alguém pode votar em Bolsonaro após ter vivido quase quatro anos e uma pandemia sob sua gestão. Mas são justamente os fenômenos mais intrigantes que mais demandam explicação. Ela vem em duas etapas.

Bruno Boghossian - O baú do segundo mandato

Folha de S. Paulo

Presidente tenta copiar líderes autoritários para reduzir controles sobre o governo e sua família

Jair Bolsonaro decidiu levar para o centro da campanha a ideia de aumentar o número de cadeiras do STF. O presidente tenta pegar carona num sentimento coletivo de indignação para criar no plenário uma maioria artificial que atenda a seus próprios interesses políticos.

Bolsonaro não busca uma discussão séria sobre os limites dos tribunais ou uma proposta para melhorar o funcionamento do Judiciário. Se for reeleito, ele vai tentar mexer na composição da corte porque quer tranquilidade para fugir da polícia e manter seu grupo político no poder.

O presidente não disfarça a motivação. Em entrevista publicada na sexta (7) pela revista Veja, Bolsonaro disse que vai discutir após a eleição o plano de indicar mais cinco ministros ao STF e deu entender que a prioridade é frear investigações que ameaçam a família presidencial. "O próprio Alexandre de Moraes instaura, ignora o Ministério Público, ouve, investiga e condena", queixou-se.

Vinicius Torres Freire – Não era Portugal, era a Turquia

Folha de S. Paula

País bem-pensante sonhou com social-democracia e acordou sob risco de autocracia

No domingo do primeiro turno, uma parte bem-pensante do país acordou sonhando que poderia viver em uma espécie de Portugal e sua geringonça social-democrática. Foi dormir temendo que talvez more em um lugar propenso a se tornar uma Turquia autocrática, ao menos dado a votar de modo conservador e religioso.

As pesquisas mais ajustadas de voto no segundo turno e os resultados mais mastigados do primeiro turno delineiam melhor esse quadro descrito aqui com a pena da galhofa: não somos Portugal ou Turquia. Mas deve ter dado para entender a metáfora.

Quem ainda não entendeu, ouça Hamilton Mourão (Republicanos), vice de Bolsonaro. Recém-eleito senador pelo Rio Grande do Sul, defendeu a mudança da composição do SupremoJair Bolsonaro (PL) foi na mesma linha. Já reiterou também que quer um STF "cristão". "Vai vendo", como diz o povo.

Muniz Sodré* - O macaco do dia seguinte

Folha de S. Paulo

Entre nós, brasileiros, falta estabilidade ao 'ismo' característico das ideologias

Nunca foi tão oportuna uma tirada reflexiva de Mário Quintana: "O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser o nosso futuro". A frase vem ao encontro de conjeturas sobre a possibilidade de um bolsonarismo sem Bolsonaro, insinuada pelo próprio Lula. A sobrevivência pós-eleitoral do trumpismo suscita naturalmente questões comparativas dessa natureza.

O poeta dá uma estocada irônica no criacionismo com sua negação histriônica da teoria darwiniana da evolução das espécies em favor da descendência humana direta de Adão e Eva. Mas é também pretexto para a hipótese de que opções eleitorais pregressas sejam menos relevantes do que os riscos de sua repetição como fenômeno social. Afinal, pode-se votar com cérebro de macaco e depois, alertado por um neurônio humano, corrigir-se.

Janio de Freitas - Silêncio sem defesa

Folha de S. Paulo

Oposição à democracia não isenta de deveres

Em condições anormais, o percurso daqui ao dia 30 se encerrará com vitória do ex-presidente Lula. Contudo, não está extinto o risco de que se volte ao que é a normalidade destes tempos, sucessão impune de aberrações e crimes do governo, um tanto contidos desde o primeiro turno eleitoral.

A combinação de derrota inapelável do golpismo na batalha inicial e condições mais promissoras para Lula, nos dados preliminares, não garante sucessão tranquila com possível derrota de Bolsonaro.

Tribunal Superior Eleitoral proclamou os 100% de aprovação às urnas e à contagem. Importa pouco ou nada o silêncio de Bolsonaro a respeito. Não é o caso do Ministério da Defesa e do general-ministro Paulo Sérgio Nogueira.

Foram a infantaria no ataque às urnas e à lisura eleitoral, dando realidade às circunstâncias golpistas em que Bolsonaro foi e é o "laranja".

Eliane Cantanhêde - O plano bolsonarista

O Estado de S. Paulo

É com o Congresso, não com as Forças Armadas, que Bolsonaro pretende invadir o Supremo

O ano de 2022 marca o estrangulamento do centro e a polarização entre os extremos para além das eleições, com a esquerda de um lado e a extrema direita de outro, ambos servindo como ímã para as demais forças políticas. E é assim que os movimentos no 2.º turno, de certa forma naturais, são da centro-esquerda para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da centro-direita para o presidente Jair Bolsonaro.

Esse estrangulamento do centro parece, mas não é, exclusivo do Brasil. Basta olhar a Colômbia, há décadas presidida pela direita, que viveu neste mesmo 2022 uma eleição entre um ex-guerrilheiro do M-19, Gustavo Petro, e um ricaço que, em 2016, fez loas “ao grande pensador alemão Adolf Hitler”. Queria dizer Albert Einstein...

Pedro S. Malan* - Uma decisão, uma expectativa

O Estado de S. Paulo

Se vitorioso, Lula terá de tentar unir o Brasil. Terá de ampliar, em muito, sua base de apoio na sociedade, contrariar muitos seguidores.

 Há quase 20 anos escrevo neste espaço. No artigo inaugural (Falsos dilemas, difíceis escolhas..., 8/6/2003, A2), dizia: “Ao longo dos últimos 12 meses o Brasil mostrou ao mundo que continua avançando em termos de maturidade político-institucional e de racionalidade no debate econômico”. Gostaria de começar um artigo futuro, talvez repetindo essa mensagem. Esse desejo me veio à mente nessa semana que passou ao subscrever, com Arminio Fraga, Edmar Bacha e Persio Arida, uma singela nota que continha uma decisão e uma expectativa. A decisão: votaremos no segundo turno na chapa Lula-Alckmin. A expectativa: por uma condução responsável da economia num eventual novo governo. Cabe, talvez, tentar explicar a decisão e a expectativa.

O segundo turno será decidido, como apontou Marcus André Melo, por aquela parte do eleitorado que “vai votar em quem não aprova muito para evitar quem rejeita ainda mais”. Não é uma situação ideal, mas para o eleitor que não pretende se abster ou votar branco ou nulo restam apenas as duas opções: Lula ou Bolsonaro.

Rolf Kuntz* - Primeiro, a democracia

O Estado de S. Paulo

Fala-se muito em teto de gastos, em âncora fiscal e em programa econômico, mas o mais importante, neste momento, é garantir para o País uma forte âncora institucional.

Democracia é o principal valor político em jogo nesta eleição. Valores fundamentais, como a vida e as condições de sobrevivência, também estão em jogo, mas dependem, há milênios, das formas de cooperação social e da organização do poder. Programas de governo foram cobrados de alguns candidatos. Compromissos com o teto de gastos ou com alguma âncora fiscal foram apontados como essenciais. Todos esses pontos são relevantes, mas os compromissos e limites mais preciosos, no Brasil de hoje, são de outra natureza. Ao anunciar apoio a um dos candidatos, grandes economistas destacaram a defesa da democracia, dando muito menos atenção a detalhes econômicos. Nem precisaram justificar essa prioridade. O ritual democrático funcionou até agora, mesmo com o presidente insistindo no uso de meios públicos para sua campanha. Mas ninguém deveria esquecer os perigos, quando autoridades se mostram saudosas do período militar, elogiam torturadores e já convocaram multidões para pressionar o Legislativo e o Judiciário.

Cristovam Buarque* - Equipe para os fundamentos

Blog do Noblat / Metrópoles

No mundo de hoje, não há nome icônico para a economia. Nem Keynes, nem Marx, nem Friedman, como antes

Todos sabem da incompetência e da irresponsabilidade do atual presidente. Por isto, as lideranças econômicas sérias, do Brasil e do mundo, temem fortemente reeleição de Bolsonaro. Esta é uma das razões pelas quais grandes nomes da economia brasileira, os melhores, mais brilhantes e mais testados de nossos economistas têm se manifestado em apoio ao Lula no segundo turno. O apoio se dá pelo horror ao Bolsonaro, mas ainda com certas desconfianças em relação ao Lula e ao PT. Apesar do comportamento exemplar entre 2003 e 2008, ainda está presente a resistência ao Plano Real, a manipulação de preços da Petrobras, o desdém por âncoras fiscais.

Por isto, o mundo econômico, desejoso de se afastar de Bolsonaro, mas ainda assustado com a visão econômica do PT no passado, pede que Lula indique desde já o nome de seu ministro da economia. Seria erro político, eleitoral e técnico.

No mundo de hoje, não há nome icônico para a economia. Nem Keynes, nem Marx, nem Friedman, como antes. O nome depende de ganhar a eleição, avaliar corretamente o momento, no Brasil e no exterior, e selecionar quem traga confiança e competência. Nesta ordem, porque a competência depende da equipe, e a confiança depende de quem fala na mídia.

Fernando Carvalho* - Bolsonaro é fascista?

Este artigo é baseado de uma entrevista que o historiador argentino, Frederico Finchelstein autor do livro Uma Breve História das Mentiras Fascistas nos últimos anos surgiram no mundo grupos populistas de direita que estáo se aproximando perigosamente do fascismo. Segundo ele Trump e Bolsonaro deixaram para trás Berlusconi e Menen.

Em entrevista à revista La Tercera, o historiador concorda que há um abuso do termo fascista. Mas quem o usa dessa forma não tem noção de que o fascismo é um ideal antidemocrático de extrema direita, baseado em um nacionalismo extremo (Brasil acima de tudo!), com uma ideia da política entendida como culto ao líder (mito...mito...mito).

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões 

Lula tem de explicar o que entende por ‘reindustrialização’

O Globo

Essa foi uma de suas raras propostas econômicas na campanha, mas o histórico petista recomenda ceticismo

Na visita que fez à Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) no início da campanha, o candidato petista Luiz Inácio Lula da Silva falou o que a plateia queria ouvir: anunciou a “reindustrialização” do país como uma das plataformas de seu governo. Como foi uma das raras ideias econômicas concretas que aventou ao longo de toda a campanha, torna-se essencial entender o que o líder nas pesquisas de opinião entende por isso.

O Brasil tem longa tradição de subsídios e programas protecionistas para indústrias “estratégicas” ou “nascentes”. Os gastos se perpetuam, a proteção não as expõe à competição e eterniza as ineficiências, cujo custo é pago pelo consumidor e pela sociedade. O protecionismo é a receita para emperrar o principal motor do crescimento saudável: a produtividade. São tantas as iniciativas do tipo no país, que não é coincidência a produtividade brasileira estar estagnada há décadas.

Os defensores dessa escola de pensamento poderão alegar agora que os efeitos da pandemia e da guerra na Ucrânia nas cadeias globais de suprimento aconselham os países a produzir o máximo possível internamente, de modo a blindar-se de choques externos. Fala-se muito em “desglobalização”, mas isso não pode significar políticas autárquicas e dirigistas para impor a produção local a qualquer custo.