quinta-feira, 20 de julho de 2023

Merval Pereira - Olho grande

O Globo

Lula pode fazer troca-troca de ministros

“Quem oferece o ministério é o presidente, não é o partido que escolhe o ministério”. Com os ataques especulativos do Centrão ao seu ministério, especialmente aos que têm um caixa reforçado, como a Saúde, o presidente Lula foi obrigado a colocar limites nessa gulodice dos partidos que querem aderir ao governo, mas estão mesmo de olho nas verbas, não nas linhas gerais do programa petista.

Interessante acompanhar como será feita a reformulação do ministério – que vai ser feita, já está decidido. A frase que abre o texto, dita por Lula em Bruxelas, é muito esclarecedora, e dá esperanças de que a adesão de partidos que não estavam na aliança eleitoral que levou Lula à presidência será orientada pelo próprio governo, e não por interesses particulares de grupos políticos que buscam o governo devido às verbas, e não ao verbo que define o objetivo eleito.

Isso é fundamental, porque, se for cumprido, o governo se define pelos ministérios intocáveis; Saúde, Educação, Bolsa Família. São intocáveis não porque a substituição seja delicada, mas porque foram entregues a pessoas que entendem do assunto ou estão conectadas com o espírito do governo eleito.

Míriam Leitão - Os vários sinais da economia

O Globo

Há seguidas boas notícias na área econômica, mas há sombras. Brasil vai crescer mais no ano do que se imaginava, mas agora é uma hora de baixo crescimento

O Fundo Monetário Internacional (FMI) informou em relatório que o Brasil tem recebido fluxos “consideráveis” de recursos estrangeiros e que a tendência é que o investimento direto vá ganhando mais peso no total de capital externo que entra no Brasil. Este é considerado o melhor tipo de investimento, já que é direcionado à produção e é de longo prazo.

O Ministério da Fazenda revisou ontem para 2,5% a previsão de crescimento do ano. Contudo, no mesmo dia, o monitor do PIB da FGV apontou que a atividade tombou 3% em maio, e o IBC-Br de maio, divulgado segunda-feira, registrou queda de 2%, um número pior do que o previsto pelos bancos. Afinal, a conjuntura econômica é boa ou ruim?

Malu Gaspar - Aras e uma lista de absurdos

O Globo

A Procuradoria-Geral da República fez no início da semana um pedido ao Supremo Tribunal Federal, na investigação sobre a responsabilidade de Jair Bolsonaro nos atos golpistas de 8 de janeiro: que o ministro Alexandre de Moraes mande as redes sociais entregarem ao Ministério Público uma lista com os nomes e dados de identificação de todos os seguidores do ex-presidente.

O subprocurador-geral que assina a requisição, Carlos Frederico Santos, diz que a lista servirá para analisar o alcance da publicação, por Bolsonaro, de um vídeo com um procurador de Mato Grosso lançando suspeitas sobre a lisura das eleições de 2022. O ex-presidente postou a peça no dia 10 de janeiro e apagou duas horas depois. Sua defesa diz que ele apagou porque publicou por engano e afirma que o vídeo não prova envolvimento com os atos golpistas, porque, àquela altura, eles já tinham acontecido. Desculpa esfarrapada.

Luiz Carlos Azedo - PT resiste a entregar ministérios ao Centrão

Correio Braziliense

O presidente Lula tomará decisões sobre as mudanças na equipe de governo ainda hoje. É um político pragmático. A entrada do Centrão no governo é uma mudança de natureza estratégica

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva opera uma negociação complexa para incorporar o PP e o PR ao governo e ampliar a base parlamentar de seu governo. Esse movimento não começou agora, de certa forma foi iniciado na negociação da PEC da Transição e na reeleição do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), mas ganhou força com a aprovação do arcabouço fiscal e da reforma tributária pela Câmara.

Aos que temiam a formação de um governo de esquerda, essa possibilidade está sendo sepultada; a incorporação das duas legendas consolidará um governo de ampla coalizão democrática, o que não significa que não surjam críticas desses mesmos setores ao “loteamento” dos ministérios.

Bruno Boghossian - A bola está com Maduro

Folha de S. Paulo

Participação do Brasil apressa ajustes suaves de Lula sobre democracia na Venezuela

A declaração assinada em Bruxelas por eleições justas na Venezuela manda a bola para Nicolás Maduro. A oposição do país pode participar de quantas reuniões quiser, mas quem vai definir se a disputa merece o adjetivo é o regime que controla as instituições, concentra autoridade política e opera o poder econômico.

A participação de Lula na jogada apressou um suave ajuste de posição. O presidente defendia que Maduro mostrasse ao mundo que é capaz de vencer eleições livres e transparentes, mas a assinatura no documento fez com que o petista tivesse que afinar ao menos três pontos durante sua passagem pela Bélgica.

Ruy Castro - Toda a música pertencia a Donato

Folha de S. Paulo

Ele nunca se disse da bossa nova. A bossa nova é que se dizia dele, e estava certa

No Rio de 1950, para os meninos que sabiam das coisas, o mundo se dividia em dois hemisférios: o Sinatra-Farney Fan Club, na Tijuca, formado pelos fãs de Dick Farney, tendo Frank Sinatra como patrono, e seu rival de morte, o Haymes-Lucio Fan Club, em Botafogo, pelos fãs de Lucio Alves, rival de Dick, tendo como patrono Dick Haymes, rival de Sinatra. Exigia-se fidelidade absoluta. Era-se de um ou de outro —exceto por um membro do Sinatra-Farney, que atravessava a cidade e ia em segredo às reuniões do Haymes-Lucio: o garoto João Donato, 16 anos.

Vinicius Torres Freire - El Niño, floresta e preços de comida

Folha de S. Paulo

Verão de 23-24 será de risco de seca ou chuva forte, o que pode afetar safra, PIB e Amazônia

É muito provável que o planeta tenha de lidar com efeitos relevantes de um El Niño neste ano. Como se sabe, trata-se de um aumento de temperatura do Oceano Pacífico em torno do Equador que muito contribui para alterar ventos, umidade, temperatura e chuvas no planeta.

Os efeitos típicos no Brasil são seca no norte, em particular na Amazônia, chuvaradas no Sul e mais calor e umidade no Centro-Sul e Sudeste. Típico: quer dizer que não é certo, mas frequente. O impacto maior costuma ocorrer de outubro a janeiro.

E daí? Qualquer administrador prudente, seja de governo, de floresta, de cidade, de fazenda ou de investimentos deve prestar atenção na possibilidade de um El Niño "forte", como os que ocorreram na temporada 1997-98 ou de 2015-16 (quando houve incêndios terríveis na Amazônia).

Maria Cristina Fernandes - Uma vaga para quem só quer julgar

Valor Econômico

Preservação do legado de Rosa Weber deveria nortear substituição

Em apenas onze meses na presidência do Supremo Tribunal Federal, a ministra Rosa Weber terá produzido uma revolução silenciosa na Corte. Treze dias antes da depredação, os ministros aprovaram uma emenda ao regimento com regras inauditas de prazo para a devolução de vista e julgamento automático de decisões liminares.

Se os vândalos do 8/1 queriam acabar com os superpoderes dos ministros do STF, quem, de fato, o fez foi a gestão da discreta presidente. Os pedidos de vista no STF chegaram a vigir por duas décadas e as liminares bateram uma média de dois anos até serem julgadas pelo colegiado.

O debate sobre a substituição de Rosa Weber, que se aposenta em outubro, esquentará em agosto. Já se falou que a cota da lealdade não se esgotou com Cristiano Zanin, que a vaga pode ser usada para tirar concorrentes petistas em 2026, ou ainda para contemplar o Senado, Casa aliada do governo. Nada se diz sobre o legado a ser preservado.

William Waack - A harmonia da inércia

O Estado de S. Paulo

Executivo, Legislativo e Judiciário se entendem para que nada mude muito

Lula tem nas mãos uma inédita oportunidade de moldar a composição de tribunais superiores, dos quais tanto dependem governantes brasileiros. São as três próximas indicações para o STJ, e a segunda que fará para o STF (com a aposentadoria da atual presidente Rosa Weber).

Essas nomeações coincidem com a escolha de um próximo ou a recondução ao cargo do atual procurador-geral da República. Operadores políticos, especialmente no Supremo, consideram que esse conjunto de escolhas tem o potencial de solidificar o que se chama de “harmonia” entre os Poderes, especialmente Executivo e Judiciário.

Felipe Salto* - A missão inescapável do Senado

O Estado de S. Paulo

O presidente Rodrigo Pacheco poderia recriar a comissão do presidente Sarney. Esse respaldo técnico viria a calhar com a chegada da PEC 45 ao Senado

Há pouco mais de dez anos, o presidente do Senado José Sarney compôs uma comissão de técnicos para tratar dos temas federativos, inclusive da guerra fiscal. Boas propostas foram exaradas, sob a presidência de Nelson Jobim, com relatoria de Everardo Maciel. Colaboraram: Bernard Appy, Fernando Rezende, o saudoso João Paulo dos Reis Veloso, Paulo de Barros Carvalho e outros. O presidente Rodrigo Pacheco poderia recriar a comissão. Esse respaldo técnico viria a calhar com a chegada da PEC 45 ao Senado. Vejo ao menos oito desafios: Conselho Federativo. O órgão foi desenhado para comandar o Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) subnacional, o chamado IBS, a fundir o ICMS (estadual) e o ISS (municipal). Há dois problemas: 1) fere o pacto federativo; e 2) incentiva a emissão de notas fraudadas para elevar artificialmente o pagamento de créditos aos contribuintes, na presença da transferência automática.

Cada Estado deveria fazer a gestão do respectivo IBS e partilhar a receita com os seus municípios, além de remeter as receitas arrecadadas ao Estado de destino. Também seria o responsável por devolver os créditos aos contribuintes, com prazo suficiente para promover a devida fiscalização e evitar o risco que apontei em 2. O descumprimento dessas obrigações implicaria crime de responsabilidade e aplicação de sanções.

Celso Ming - As pontas soltas da reforma tributária

O Estado de S. Paulo

A aprovação da reforma tributária pela Câmara dos Deputados, depois de mais de três décadas de discussões, foi enorme avanço em direção da remoção da barafunda que é o sistema atual.

No entanto, o texto-base contém emendas e jabutis de última hora, que deformam os objetivos da proposta. Cabe agora ao Senado, sob a relatoria do senador Eduardo Braga (MDB-AM), exercer função revisora, que remova as escórias e evite a desidratação do sistema que se quer modernizar.

O que se pretende é a neutralidade das mudanças (sem aumento da carga tributária), a não cumulatividade (sem impostos em cascata), simplificação do sistema e cobrança no destino final da mercadoria e do serviço, de modo a acabar com a guerra fiscal entre os Estados.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Da reforma tributária à moeda digital: enigmas, quase charadas

Aí pela frente, o cidadão brasileiro vai se surpreender angustiado com novas  confusões, encrencas,  ideias e  falas escatológicas    dos nossos dirigentes políticos, bem como com os resultados  de novas leis, projetos de sentido ambíguos e casuísticos gerados no Executivo e sancionados com a conivência do Congresso Nacional  e a conveniente omissão do Judiciário. O Governo Brasileiro acaba de abrir seus portos para navios iranianos, país que está sob sanção no Ocidente, devido a teimosia em  fabricar uma bomba nuclear própria, uma ameaça aos pares no Oriente Médio. Para os analistas da política internacional, a atitude do Brasil poder ser interpretada como  uma provocação do Brasil ou  um desalinhamento explícito.

E assim vai. Na semana passada,  a  Câmara dos Deputados aprovou  a tão aguardada   Reforma Tributária ,   cuja alma é a instituição do novo  e  único  Imposto sobre Valores Agregados (IVA)  que surge engolindo  tributos federais , estaduais e municipais: IPI, PIS, Confins, ICMS e ISS.  Com ele, o governo Federal pretende  corrigir algumas distorções arrecadatórias, assumindo o seu controle por meio  do IVA, e é ele mesmo fazendo a  redistribuição dos valores entre as unidades federativas - 26 estados e 5.600 municípios - cujas alíquotas serão fixadas por um novo órgão oficial  - não mais via Fundo dos Estados e Municípios -  mas um  Conselho Federativo. Se governadores e prefeitos quiserem mais do que lhes forem destinados , restou, na reforma, um dispositivo que permite a esses entes governamentais regionais e locais criarem outros encargos junto às respectivas comunidades, aplicáveis sobre   produtos semi-elaborados,  commodities agrícolas,  minerais e até mesmo sobre o consumo.  Tudo isso constitui-se em enigmas, quase charadas... 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Pressão sobre ditador Maduro representa avanço

O Globo

Brasil, Argentina, Colômbia, França e União Europeia pedem eleições ‘justas’ na Venezuela em 2024

O ditador Nicolás Maduro despachou a vice-presidente, Delcy Rodríguez, para a III Reunião de Cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e da União Europeia (UE), em Bruxelas, certamente sem nada esperar do encontro a não ser declarações esporádicas em defesa da democracia. Provavelmente não contava que Argentina, Brasil, Colômbia e França, assim como a UE, divulgariam declaração conjunta na terça-feira pedindo que o governo e a oposição venezuelana retomem o “diálogo e a negociação” para chegar a um acordo e ter eleições em 2024 “justas para todos, transparentes e inclusivas”.

O documento também defende “a suspensão das sanções, de todos os tipos” impostas ao regime, com a finalidade de eliminá-las por completo a depender do desfecho do pleito, que precisa transcorrer de acordo com a lei e sob supervisão internacional. No dia anterior, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Alberto Fernández, Gustavo Petro e Emmanuel Macron tinham se reunido com a vice Delcy e um representante da oposição venezuelana, mas não era esperada uma declaração com linguagem tão direta.

Poesia | O que há em mim é sobretudo cansaço | Poema | Fernando Pessoa

 

Música | Carinhoso (Pixinguinha) - Orquestra Unisinos Anchieta e Convidados

 

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Vera Magalhães - O vício do cachimbo entorta a boca

O Globo

Depuração do Cadastro Único vira uma arma para fritar Wellington Dias e entregar ministério e a chave do Bolsa Família ao PP

Voltar atrás de medidas eleitoreiras, populistas ou excepcionais é um dos principais desafios das democracias nos tempos de hoje. Lula foi eleito para fazer o contrário do que Jair Bolsonaro fez. E isso inclui desarmar várias bombas que ele deixou no vale-tudo para se reeleger.

Mas como fazer isso em casos nos quais desfazer a arapuca bolsonarista significa exibir números mais modestos que os do antecessor justamente na área social, carro-chefe das gestões e das campanhas petistas desde que o partido chegou ao poder, em 2003?

Esse dilema já tinha aparecido na decisão de voltar atrás no subsídio aos combustíveis que o ex-presidente concedeu no pacote de desespero de 2022.

Agora, a bem-vinda depuração do Cadastro Único — que veio junto com outra medida acertada, a busca ativa para incluir no programa pessoas e famílias que de fato precisam ter renda, mas estavam alheias ao sistema — vira uma arma para fritar o ministro Wellington Dias e entregar a pasta ao PP, partido que comandava a Casa Civil de Bolsonaro e que é presidido por Ciro Nogueira, justamente quem está fazendo o maior estardalhaço sobre Lula ter minguado o benefício, nas redes sociais. No mínimo irônico, para não dizer nonsense.

Luiz Carlos Azedo - A defesa das instituições e a mão pesada do Supremo

Correio Braziliense

Na sexta-feira passada, o ministro Moraes foi hostilizado por três brasileiros no Aeroporto Internacional de Roma, na Itália. O filho do ministro chegou a ser agredido por um dos envolvidos

O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Ayres Britto, após os atos golpistas de 8 de janeiro, em diversas entrevistas, uma das quais ao Correio, disse que as medidas tomadas à época pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, contra os envolvidos na invasão dos palácios dos Três Poderes, com base no polêmico inquérito das fake News do STF, foram necessárias e legítimas.

A tese de Ayres Britto é a seguinte: “O indivíduo está autorizado pelo direito a utilizar da chamada legítima defesa, por meios próprios. A democracia também tem o direito à legítima defesa. Se a sua vida, a minha vida, as nossas vidas são o bem jurídico maior, individualmente, o bem jurídico maior da coletividade, de personalidade coletiva, por definição, é a democracia. Então, a democracia tem mesmo o poder de abater, por meios que ela prevê, de abater quem se arma para abatê-la”.

Elio Gaspari - Os alertas de Fishlow e do Ipea

O Globo

A mordida dos impostos pode vir a ser mais simples e mais funda

Deve-se ao professor americano Albert Fishlow a introdução do debate sobre a desigualdade de renda no Brasil numa época em que só se falava do “milagre”. Devem-se ao Ipea décadas de estudos acadêmicos sobre a economia de Pindorama. Ambos acenderam a luz amarela para conter o triunfalismo das promessas do governo.

O Ipea apontou o risco de o Brasil vir a ter um dos maiores IVAs do mundo. A expressiva vitória obtida com a aprovação da emenda constitucional da reforma tributária embaçou a questão central de qualquer política do gênero. Ela apareceu com a virtude de simplificar o sistema, mas uma coisa pode ser mais simples e também mais pesada.

O ministro Fernando Haddad reconhece que “quanto mais exceções houver, menos a reforma vai funcionar”. Ainda há muito chão pela frente, e as exceções já superam a prática internacional. Pelo andar da carruagem, em vez de serem reduzidas, poderão ser aumentadas.

Fishlow não tratou a reforma tributária, limitou-se a observar que “não é óbvio de onde virá mais investimento”. De fora, “é bastante incerto”. De dentro, “por algum motivo, nunca ocorre”. Sua preocupação está no risco de Lula repetir uma política que já deu errado.

Roberto DaMatta - Classe ou parentesco?

O Globo

Eleito prefeito de sua cidade, ele não nomeou nenhum parente ou amigo. Foi posto pela esposa de quarentena amorosa

Um leitor interessado na questão há de perguntar: trata-se de uma reflexão ou de uma escolha? No que eu replico: as duas coisas! Porque estou focando um sistema cultural reacionário (contrarreformista, pós-aristocrata, escravista, elitista, mesquinho e autoritário) que, a partir das consequências engendradas pela Revolução Industrial e pelo ambíguo triunfo do liberalismo, funciona por meio de um sistema de classes contratualista, mas continua inevitavelmente enredado numa cadeia de relacionamentos imperativos, definidores irredutíveis de identidade e posicionamento social axiomático, como rezam as nossas sacralizadas certidões de nascimento. Esse “papel” que legalmente nos inaugura e atesta legalmente a nossa origem. Documento “mãe” que informa e legitima nossa entrada como atores neste palco que — como dizia Shakespeare — é a existência.

Zeina Latif - O governo não pode temer o debate

O Globo

O amadurecimento do debate facilita o avanço em temas polêmicos ou que demandam enfrentamento de grupos organizados

Com frequência se minimiza a importância do debate público tecnicamente embasado em dados e evidências, mas trata-se de ingrediente essencial para o avanço de reformas estruturantes, inclusive em contextos de alternância de poder, reduzindo o risco de um governante não dar sequência a reformas iniciadas pelos antecessores.

O amadurecimento do debate facilita o esforço e até empurra a classe política para avançar em temas polêmicos ou que demandam enfrentamento de grupos organizados. O debate tecnicamente robusto reduz o espaço de manipulação de informações com vistas a ganhar a opinião pública. Um exemplo recente, na discussão da Reforma Tributária, foi afirmar que os pobres serão prejudicados, quando pesquisas mostram o contrário.

Fernando Exman - Fim de ciclo no STF com uma pauta robusta

Valor Econômico

Presidente da Corte aposenta-se no dia 28 de setembro

Cinquenta e oito dias separam o fim do recesso do Judiciário e a aposentadoria da presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Rosa Weber, no dia 28 de setembro. Se tudo correr como o planejado no STF, será um período intenso, com uma lista de julgamentos que inclui a descriminalização do uso pessoal de drogas e do aborto, a implementação da figura do juiz de garantias e o marco temporal para a demarcação de terras indígenas.

Uma pauta que desperta paixões. O julgamento sobre a implementação do juiz de garantias, por exemplo, deve marcar, na prática, a estreia do ministro Cristiano Zanin, além de mobilizar garantistas e lava-jatistas.

Hélio Schwartsman - Inimigo público

Folha de S. Paulo

Inércia do procurador-geral contribuiu para deterioração da democracia

Custa-me crer que figuras de escol do governo Lula cogitem de reconduzir Augusto Aras ao posto de procurador-geral da República (PGR)Lula, não custa lembrar, foi eleito prometendo recompor a democracia brasileira, e Aras é, na minha avaliação, um dos grandes responsáveis pela deterioração por que ela passou nos últimos anos.

Eu não saberia precisar se o PGR cometeu ou não crimes omissivos. Penso que o debate jurídico-filosófico é válido, mas, politicamente, a questão nem se coloca. Nessa esfera, não vejo como deixar de classificar o PGR como um inimigo público. Vejamos por quê.

Bruno Boghossian - Aras é um pacote completo

Folha de S. Paulo

Políticos festejam ação da PGR contra excessos da Lava Jato, mas é impossível ignorar pacote completo

Para conseguir o cargo pela primeira vez, Augusto Aras piscou para Jair Bolsonaro. O aspirante ao comando da PGR driblou a eleição para a tradicional lista tríplice e moldou uma candidatura que agradava ao presidente. Definiu seu perfil como conservador, defendeu um alinhamento com a agenda do governo e disse que ações de proteção do meio ambiente "não podem ser radicalizadas".

Foi "amor à primeira vista", como disse Bolsonaro. E era só o começo. Sentado na cadeira, Aras ofereceu um procurador-geral que não incomodava e, em momentos de crise, ajudava a desviar alguns disparos feitos pelo caminho. Foi reconduzido ao cargo sem esconder essa aliança.

Wilson Gomes* - Quem teme o professor doutrinador?

Folha de S. Paulo

O mérito da extrema direita foi extrair do medo e da raiva do brasileiro o combustível para sua boataria

Fábulas são eficientes recursos pedagógicos. Fábulas infantis foram usadas desde sempre para que toda noite as crianças assimilem valores, representações e significados compartilhados em sua comunidade.

E tão cientes estamos de que se educa por meio de mitos, relatos e lendas mais do que por qualquer outro meio, que até os textos sagrados mais arcaicos, transmitidos oralmente ou por escrituras, são em grande parte coleções de histórias.

Há vários lugares-comuns nas histórias que contamos. Um desses lugares-comuns diz respeito aos personagens usados para se colocar os ouvintes exatamente na posição cognitiva e na disposição emocional que o narrador deseja.

O bicho-papão, por exemplo, representa o que nos assombra e deve ser temido, a condensação do mal. O sedutor —que, literalmente, nos desvia do caminho— é outro lugar-comum das fábulas moralizantes. Não por nos assombrar, mas, ao contrário, porque captura nosso desejo, como o lobo mau que desencaminhou a menina do chapeuzinho vermelho e a levou sorrateiramente à floresta sombria.

Vinicius Torres Freire - A Epidemia mundial de calor

Folha de S. Paulo

Notícias de verão tórrido do Norte falam de crise climática, mas falta consciência do desastre

A primeira semana de julho teve os dias mais quentes de que se tem registro na história, uma medida lá não muito precisa, mas que diz algo sobre a que fim chegou o nosso tempo. Chegam mais números do calor. O Hemisfério Norte torra outra vez no verão, com um El Niño. Fala-se de aquecimento global, de crise climática, embora a maioria de nós reaja como passantes diante de um acidente de trânsito horrível, mas que será esquecido no dia depois de amanhã.

No Canadá, desde a primavera o fogo já levou uma área que equivale a duas vezes e meia a do estado do Rio de Janeiro. Alguns de nós soubemos disso por causa da notícia da nuvem de fumaça em Nova York. Em Phoenix, Arizona (EUA) fez mais de 43,3º por 19 dias seguidos. Conta-se que governos da metade norte do planeta abrem prédios com ar condicionado a fim de aliviar o calor, que os chineses dizem que suas cidades se tornaram saunas, que escolas fecham, que a Europa do frio da nossa imaginação tropical torra de novo.

Marcelo Godoy - Parem de matar os mortos

O Estado de S. Paulo

Sergio Moro viveu dias de Alexandre de Moraes na Lava Jato; e Moraes viverá dias de Moro?

Em Non gridate più (Não gritem mais), Giuseppe Ungaretti inicia seu poema com o verso “Cessate d’uccidere i morti” – Parem de matar os mortos, na tradução de Aurora Bernardini. O leopardiano Ungaretti fazia as palavras assumirem uma intensidade em que um simples vocábulo se tornava um termo elegante, no qual vagavam fantasia e sentimento.

Mas, se aos poetas é possível levar ao verbo o inexprimível, aos iracundos permite-se apenas a aridez monótona, vulgar, cansativa e vexatória do xingamento. Dar a Alexandre de Moraes a alcunha de “comunista” mostra que o criador do apodo não leu sequer uma linha do autor que tanto odeia: Karl Marx. Ele escreveu há quase dois séculos, em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, que a reação do partido da ordem diante de qualquer ação da oposição era sempre o mesmo e invariável veredicto: “socialismo!”. “Até mesmo o liberalismo burguês é declarado socialista.” O desenvolvimento cultural, a reforma financeira, a construção de ferrovias e o “defender-se com um porrete quando se é atacado com um florete”: tudo era socialismo.

Nicolau da Rocha Cavalcanti - O perigoso encanto da indignação

O Estado de S. Paulo

Se o Brasil for apenas o país da indignação, ele continuará a ser exatamente isto: um país com muitos motivos para indignar-se

Por suas desigualdades, preconceitos, privilégios, incertezas e injustiças, o Brasil oferece muitíssimas ocasiões de indignação. E, verdade seja dita, nós sabemos aproveitar as oportunidades. Não temos receio de expor nossa revolta e perplexidade diante dos variados absurdos que testemunhamos frequentemente.

A proficiência brasileira na indignação é refletida em expressões famosas, que fazem parte de nossa identidade nacional. O Brasil não é para amadores. No Brasil, até o passado é incerto.

Podemos ser sinceros? Indignar-se é muito bom. Quando nos indignamos, sentimo-nos valentes, corajosos, despertos, responsáveis, comprometidos com o interesse público, não ingênuos, não manipulados. De alguma forma, indignar-se é colocar-se num lugar superior. Significa dizer: nesta situação, eu faria diferente. Se tivesse poder, se ocupasse aquele cargo, eu atuaria de modo muito melhor, mais digno, mais assertivo. A mensagem é unívoca. Se dependesse de mim, o Brasil seria bem melhor.

Fábio Alves - A virada da inflação

O Estado de S. Paulo

A inflação no setor de serviços ainda preocupa, mas o pior cenário já parece ter passado

Depois de causar um estrago na credibilidade de bancos centrais ao redor do mundo e de forçar um dos maiores ciclos de alta de juros desde a década de 1980, no caso dos Estados Unidos, a inflação global parece ter finalmente virado a chave, e os preços de bens e serviços começam a subir a um ritmo mais lento de forma consistente, embora estejam ainda em patamar desconfortável.

O processo de desinflação global começou pela queda nos preços de bens industriais, de alimentos e de energia, após a redução do impacto da pandemia de covid-19 nas cadeias mundiais de produção e também dos efeitos da guerra na Ucrânia. Com isso, os preços do petróleo, do gás natural, de grãos, de metais e de outras commodities recuaram de níveis recordes.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Apesar de avanços, governo precisa evitar retrocessos

Valor Econômico

O viés intervencionista do PT se manifesta ainda no desejo de minar aspectos da Lei das Estatais

Embora haja avanços na agenda econômica, o principal deles, a aprovação histórica da reforma tributária na Câmara dos Deputados, ainda há muitos desafios a serem enfrentados a curto e médio prazos no país. A reforma tributária terá de ser analisada pelo Senado, que vai precisar fazer correções sem perder o foco na aprovação do texto. Outro tema importante na área econômica são as mudanças no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), instância que julga litígios entre contribuintes e a Receita Federal. O Planalto conta com as novas regras do Carf - também pendentes do escrutínio pelos senadores depois de passarem pela Câmara - para assegurar o cumprimento do arcabouço fiscal, que se apoia em forte crescimento das receitas. A legislação que substitui o teto de gastos enfrentará mais uma votação dos deputados, prevista para agosto.

Poesia | Mãos Dadas, de Carlos Drummond de Andrade, com Georgette Fade

 

Música | João Donato - Minha Saudade

 

terça-feira, 18 de julho de 2023

Merval Pereira - Momento ‘estratégico’

O Globo

Lula tem falado de maneira consistente e persistente de questões estratégicas, e está em curso no governo uma agenda de controlar o desmatamento

O Brasil vive “momento especial de ouro”, repete o presidente Lula, convencido de que a questão climática não é mais um tema do futuro, mas é “agora que está acontecendo”. Esse estado de espírito otimista, explicitado na reunião da América Latina com a União Europeia que termina hoje em Bruxelas, tem base em dados que ainda serão divulgados oficialmente. Eles apontam uma queda consistente do desmatamento na Amazônia de 33,6% nos seis primeiros meses do ano, e neste mês a queda será altamente consistente, um mês em que o desmatamento deveria estar no pico, como antecipam membros do governo.

Lula, que antecipou esses números em Bruxelas, considera extremamente importante o encontro porque pode ajudar a concluir o acordo tão sonhado com a União Europeia. Nos encontros em Bruxelas, ele reiterou que o país não abre mão das compras governamentais, que vê como oportunidade para pequenos e médios empreendedores brasileiros. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul deve sair até o fim do ano.

Carlos Andreazza - Papo reto

O Globo

O discurso de Barroso corrobora a noção popular de uma elite dirigente corrompida que, violando o pacto republicano, existiria exclusivamente em função dos próprios interesses.

Escrevi outro dia sobre quão ridículo é pretender dar conselhos a um presidente da República. O mesmo serve à pretensão de aconselhar ministro do Supremo. A cousa deixa de ser apenas ridícula quando o aconselhamento consiste na forma de expressão única ante a impossibilidade — afetiva — de criticar objetivamente.

Ministros do Supremo têm de falar menos — e se abster de eventos políticos e empresariais — não porque assim evitarão alimentar os inimigos da democracia; mas porque, pervertidos em debatedores e palestrantes, aviltam o signo de comedimento que fundamenta o papel que deveriam cumprir na República.

Aviltam a República. Papo reto.

A fala de Luís Roberto Barroso no congresso da UNE — a do “nós derrotamos o bolsonarismo” — é deletéria não porque ofereça carne a teorias da conspiração. Hipótese em que teríamos mero equívoco tático. (O bolsonarismo não precisa de fatos para barbarizar.) É nociva porque mais uma num conjunto de posturas que subsidia, na sociedade não radicalizada, a percepção da Corte constitucional não como o Poder que faz a balança, mas como corporação interferente e desequilibradora.

Convém sair da bolha e cair na real. O discurso de Barroso — sobretudo a presença num ato de militância política — corrobora a noção popular de uma elite dirigente corrompida que, violando o pacto republicano, existiria exclusivamente em função dos próprios interesses.

Míriam Leitão - O espaço da mulher no governo Lula

O Globo

Temos tolerado o intolerável em se tratando de exclusão dos que não são homens, brancos, héteros no Brasil

É natural que o governo se organize com as forças que o apoiam para ter maior capacidade de aprovação de medidas no Congresso. Não é natural que os cargos das mulheres sejam os primeiros a entrarem na mira para serem ocupados por homens.

Na última semana, a lista das posições em disputa pelo Centrão eram principalmente as entregues às mulheres. A escolha do deputado Celso Sabino para o Ministério do Turismo é um ato normal de governo, afinal a ex-ministra Daniela Carneiro saiu do União Brasil e teve uma passagem irrelevante pelo cargo.

É preciso separar o que é o normal da política do que é reflexo da longa exclusão feminina da estrutura de poder. Não é que um homem não possa ser nomeado para uma posição ocupada por mulheres. Mudanças e trocas acontecem em qualquer governo.

Luiz Carlos Azedo - Rumos na economia opõem Haddad e Campos Neto

Correio Braziliense

Ministro da Fazenda conquistou a confiança do mercado, tem mais prestígio do que o presidente do Banco Central, que será carbonizado se não baixar a taxa de juros, em 13,75%

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, voltou a criticar a taxa de juros praticada pelo Banco Central, que está em 13,75%. A queda de 2% na atividade econômica em maio, medida pelo Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) do BC, confirmou as previsões da equipe econômica e tende a politizar a discussão.

A queda do PIB já promove nova fricção entre o governo e o presidente do BC, Roberto Campos Neto. “Prévia” do Produto Interno Bruto (PIB), o índice indica a evolução da economia brasileira, mês a mês. O debate sobre a taxa de juros será a “flor do recesso” do Congresso, porque o Comitê de Política Monetária do BC, composto pelo presidente e pela diretoria da instituição, somente se reunirá em agosto.

Para reduzir a inflação ao centro da meta, com amplo apoio do mercado, neste semestre, Campos Neto manteve o arrocho no crédito, mas o remédio virou veneno. O PIB cresceu 2,9% em relação a 2021. Seria muito maior sem o crescimento negativo trimestre. Há expectativa de que os juros sejam reduzidos, em razão da ata da última reunião do Copom.

Dora Kramer - Dores do parto à direita

Folha de S. Paulo

Racha pode ser mortal ou apenas consequência do renascimento

Depois de anos atuando como figurante engajada e influente, porém algo envergonhada, a direita brasileira vem de recente entrada na cena principal da política. Toda catita, sem receio de dizer o seu nome.

Dentre as novidades com as quais se depara na condição de coprotagonista, está a divisão interna. Rusgas públicas de tendências até então eram características da esquerda, mas não só. O MDB, nossa legenda mais longeva, sobrevive há quase 50 anos sendo uma federação de grupos quase sempre divergentes.

A tensão é do jogo e tende a explodir como espetáculo quanto mais relevantes se tornam os jogadores. Não fossem Jair Bolsonaro ex-presidente da República e Tarcísio de Freitas governador de São Paulo ninguém daria atenção à treta naquela reunião do PL sobre a votação da Reforma Tributária.

Hélio Schwartsman - Reforma agrária no Legislativo

Folha de S. Paulo

Constituinte armou complô contra São Paulo quando criou teto de deputados federais

A democracia brasileira é representativa. Isso significa que os tamanhos de bancadas de deputados e de algumas Casas legislativas deveriam ser proporcionais à população. Assim, a cada novo Censo, deveria ocorrer um processo de recalibragem.

Há uma chance de que isso ocorra nas câmaras municipais. É que a Constituição estabelece um teto para o número de vereadores de cada cidade segundo o total de habitantes. E, pelos novos dados, 140 municípios precisariam cortar edis, e 198 poderiam a partir de agora expandir seus plenários. A doutrina entende que reduções são obrigatórias, e as ampliações, opcionais.

Alvaro Costa e Silva - Lira em ritmo de Safadão

Folha de S. Paulo

Jornalistas não seriam bem-vindos ao cruzeiro no mar do Caribe

Em 1960, Jânio Quadros atravessou o Atlântico a bordo do Aragon, navio da Mala Real Inglesa com destino a Londres. Era segredo, mas o furão Joel Silveira conseguiu embarcar também e relatou o que viu no livro "Viagem com o Presidente Eleito", que reli agora pensando na falta que fez um repórter de olho em Arthur Lira durante o cruzeiro de Wesley Safadão nas águas do Caribe.

Joel mostra um Jânio diferente daquele que encantou 5,6 milhões de eleitores trajando paletó escuro pontilhado de caspa (ou seria talco?), colarinho e gravata soltos, amarfanhado e despenteado, óculos pesados escorregando até a ponta do nariz.