quinta-feira, 7 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Oponiões

 

Combate à dengue exige mais de governos e cidadãos

O Globo

Todos sabem o que precisa ser feito para evitar epidemia maior — atacar os focos do mosquito

O Brasil já registra neste início de ano 1,3 milhão de casos de dengue e 329 mortes (outras 767 estão em investigação). Ao menos nove unidades da Federação apresentam incidência de mais de 300 casos por 100 mil habitantes, situação que, de acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), configura uma epidemia. O cenário mais preocupante ocorre no Distrito Federal, com 4.276 infecções por 100 mil. Esses números expõem a incapacidade de governos e da própria sociedade de lidar com uma doença que, diferentemente da Covid-19, reaparece como uma velha conhecida.

Governo federal, estados, municípios e a população sabem — ou deveriam saber — o que fazer para evitá-la, uma vez que surtos e epidemias são recorrentes. É preciso combater os focos do mosquito transmissor, o Aedes aegypti (em 75% dos casos, ele está dentro das próprias residências), tapar caixas-d’água, recolher objetos que acumulam água parada, remover lixo, limpar os pratos dos vasos de plantas etc. Sabe-se tudo isso — mas nem todos fazem.

António Guterres* - Investir nas mulheres é apostar na igualdade de gênero

O Globo

Onde quer que haja conflitos, catástrofes climáticas, pobreza ou fome, são elas as que mais sofrem

A luta pelos direitos das mulheres nos últimos 50 anos é uma história de progresso.

As mulheres e as meninas demoliram barreiras, desmantelaram estereótipos e impulsionaram o progresso rumo a um mundo mais justo e igualitário.

No entanto o progresso está ameaçado, e a igualdade plena continua a anos-luz de distância, sendo que as crises mundiais afetam de forma mais severa as mulheres e as meninas. Onde quer que haja conflitos, catástrofes climáticas, pobreza ou fome, são elas as que mais sofrem. Tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento, tem havido uma reação contra os direitos das mulheres, incluindo seus direitos sexuais e reprodutivos, que impede e até reverte o progresso.

As novas tecnologias, que têm enorme potencial para desmantelar as desigualdades, agravam muitas vezes essa situação, seja pela desigualdade no acesso, por algoritmos com preconceitos enraizados ou pela violência misógina — que vai desde os deepfakes até o assédio dirigido a mulheres específicas.

Merval Pereira – Percepções

O Globo

A direita tomou conta dos meios digitais e divulga sua narrativa com muito mais poder de fogo do que o sistema de comunicação do governo

Recentemente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes disse que deveríamos reagir com cautela diante de pesquisas indicando percepções dos cidadãos que podem não corresponder à realidade. Ele se referia à percepção de que a corrupção aumentou no país nos últimos tempos, revelada pela Transparência Internacional.

Fora o fato de o ministro não gostar daquela instituição não governamental por considerá-la ligada aos procuradores de Curitiba na Operação Lava-Jato, ele também não gosta de percepções que coloquem em questionamento sua visão sobre a própria operação, de que foi um entusiasta, para depois tornar-se seu maior adversário.

Mas, como diz o pesquisador Felipe Nunes, da Quaest, é um perigo colocar em dúvida a percepção do eleitor, pois é com base nela que o eleitorado avalia os líderes políticos, e não na realidade tal qual vista pelos interessados na disputa. A mesma coisa acontece agora com a aprovação do governo Lula, que sofreu queda, fazendo retornar o clima de calcificação que se estabeleceu no país na eleição de 2022.

Malu Gaspar - Democrata de conveniência

O Globo

Imagine o que seria o cenário político do Brasil hoje se a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF), controlados por Jair Bolsonaro, tivessem com uma canetada cassado os direitos políticos de Lula e de Simone Tebet por 15 anos e impedido os dois de disputar as eleições de 2022. Ou que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tivesse trocado a data da votação para 31 de março só para render homenagem à ditadura militar.

Daria para acreditar que uma eleição nessas condições teria um resultado justo? A pergunta é obviamente retórica e um tanto absurda, já que tal situação seria impensável no Brasil — onde, apesar da onda golpista dos últimos anos, ainda temos uma democracia.

Não é o caso da Venezuela, onde a Controladoria-Geral e o Supremo, dominados por Nicolás Maduro, retiraram da disputa deste ano seus dois principais opositores — e ainda mudaram a data do pleito, que tradicionalmente ocorre em dezembro, para 28 de julho, aniversário do falecido presidente Hugo Chávez.

Para Lula, porém, levantar qualquer dúvida sobre a lisura das eleições venezuelanas é prejulgamento.

— Não podemos jogar dúvida antes das eleições acontecerem, que aí começa discurso de prever antecipadamente que vai ter problema — afirmou o presidente brasileiro a jornalistas ontem no Palácio do Planalto. — Temos que garantir a presunção de inocência, até que haja as eleições para que a gente possa julgar se foi democrática ou decente.

Míriam Leitão - Freire Gomes e o Alto Comando

O Globo

O ex-comandante do Exército não tratou do espinhoso tema da minuta do golpe nas reuniões do Alto Comando

O general Marco Antonio Freire Gomes não chegou a comunicar ao Alto Comando o que estava sendo proposto a ele pelo então presidente da República, Jair Bolsonaro, e o então ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, nas minutas do golpe. É essa a informação que se tem dentro do Exército. O Alto Comando tem função consultiva e não deliberativa e houve seis reuniões no ano de 2022. Em pelo menos duas foram discutidos temas como manifestações na porta dos quartéis e participação na Comissão de Transparência Eleitoral, mas o assunto do decreto presidencial não foi tratado.

— Ele pode ter consultado alguns, mas chegar e mostrar o documento no Alto Comando, isso não aconteceu. O comandante é o responsável pela tomada de decisão. Ele não tinha outra decisão a tomar que não fosse a de cumprir a lei. Que não é mérito nenhum, ele tem que cumprir a lei. Era uma ordem inexequível. Se ele desse essa ordem para baixo, os comandantes militares de área não poderiam cumprir. Uma ordem ilegal não se cumpre — me disse um oficial que estava no Alto Comando no governo Bolsonaro.

Maria Cristina Fernandes - Veto à reeleição só interessa ao Congresso

Valor Econômico

PEC que estenda o mandato presidencial para cinco anos e faça coincidir as eleições para os sete cargos eletivos não será chancelada pelos deputados

“Não tem nenhum país importante do planeta que não tenha reeleição. Quatro anos não dá pra gente fazer o que quer”, o presidente já chegou à roda de senadores reunidos no Alvorada na noite de terça-feira, disposto a provocá-los sobre o tema.

Na roda, além de Jorge Kajuru (Podemos-GO), autor da PEC que põe fim à renovação dos mandatos executivos, e Marcelo Castro (MDB-PI), que é o relator, estavam os senadores Rodrigo Pacheco (PSD-MG), Davi Alcolumbre (União-AP), Jaques Wagner (PT-BA), Renan Calheiros (MDB-AL), Omar Aziz (PSD-AM), Weverton Rocha (PDT-MA), Randolfe Rodrigues (sem partido-AP), Eliziane Gama (PSD-MA), Beto Faro (PT-PA), Veneziano Rego (MDB-PB) e Otto Alencar (PSD-BA).

Ainda estavam todos em pé quando o presidente chegou. O tema não invadiu a parte mais formal da reunião, destinada a alinhar as pautas de interesse da atual mesa com aquelas do governo, ali representado, além de Lula, pelos ministros palacianos (Alexandre Padilha, Rui Costa e Paulo Pimenta) e por Fernando Haddad (Fazenda).

Luiz Carlos Azedo - Algo está errado — economia vai bem; aprovação de Lula, não

Correio Braziliense

Indicadores econômicos vão bem: queda da inflação, aumento do emprego, crescimento de quase 3%. Se não é a economia, o problema está a política

Segundo a Lei de Murphy, “se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará errado”. A frase é atribuída ao capitão e engenheiro norte-americano Edward Aloysius Murphy Jr., um dos responsáveis pelo desenvolvimento de testes sobre os efeitos da desaceleração rápida em pilotos de aeronaves, que registravam a frequência cardíaca e a oxigenação do sangue dos pilotos. O aparelho estava defeituoso e Murphy foi chamado para consertá-lo. Foi quando descobriu que a instalação estava errada e disse a frase famosa.

A Lei de Murphy não tem base científica, mas foi adotada no planejamento sempre que as coisas começam a dar errado. Na verdade, é uma questão de probabilidades. A tese de que o pão cai sempre com a manteiga para a parte de baixo, por exemplo, tem 50% de chance de se confirmar — mas depende da altura da queda, porque muitas vezes não há tempo ou energia suficientes para o pão dar uma volta completa. No fundo, o que torna a Lei de Murphy um sucesso é a memória. Sempre vamos nos lembrar quando algo não deu certo e poderia ser evitado. É o caso da pesquisa Genial-Quest divulgada ontem.

Vinicius Torres Freire - Economia melhor, Lula pior

Folha de S. Paulo

Aprovação do governo Lula 3 piora desde meados do ano passado, apesar de renda em alta

avaliação de Luiz Inácio Lula da Silva em fevereiro foi a pior das pesquisas da Quaest. Nas análises dos resultados, lia-se que as declarações sobre a guerra de Israel devem ter prejudicado o prestígio do presidente, assim como a alta da inflação de alimentos do início do ano. Destacava-se que Lula perdeu muitos pontos entre evangélicos. Pode ser.

Mais notável, no entanto, é que a "aprovação do trabalho" presidencial cai muito desde agosto do ano passado, quando estava no pico, com 60% de aprovação e 35% de desaprovação, um saldo de 25 pontos.

O tombo maior apareceu na pesquisa seguinte, em outubro de 2023: aprovação de 54%, desaprovação de 42%, saldo de 12 pontos. Na pesquisa de fevereiro, divulgada nesta quarta-feira (6), o placar ficou em 51% a 46%.

Os dados preliminares da economia que afeta o cotidiano não parecem explicar grande coisa, se alguma. Os preços de janeiro e a bobagem sobre a guerra de Israel não explicam o declínio contínuo e enorme desde agosto do ano passado.

Bruno Carazza - Sinal de alerta sobre a popularidade do governo Lula

Valor Econômico

Pesquisa Quaest mostra piora de avaliação entre grupos que sempre apoiaram o presidente

A fotografia parece a mesma de um ano atrás, mas nos detalhes é que se percebe a perda de brilho e uma certa mudança no semblante dos personagens.

Os números da pesquisa Genial Quaest que acabam de sair sobre a aprovação do presidente Lula e de seu governo são muito parecidos com o retrato de um ano atrás, quando seu terceiro mandato se iniciou.

Na linha do que o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, e o jornalista Thomas Traumann definiram no seu livro Biografia do Abismo, a sociedade brasileira está calcificada entre lulistas e bolsonaristas.

De forma geral, o panorama que saiu das urnas em outubro de 2022 continua intacto: Lula tem mais apoio no Nordeste, sua rejeição é menor entre as mulheres e sua aprovação é mais alta entre a população preta, menos escolarizada e com renda familiar mais baixa.

Eduardo Belo - Riscos, inflação e incertezas no cenário

Valor Econômico

Conflitos armados, eleições, crime organizado e acomodação das cadeias produtivas dão o tom do ano, aponta relatório

A economia global deve enfrentar um ano de inflação e incerteza e ao mesmo tempo algum crescimento - e muitos riscos no horizonte. A guerra entre Rússia e Ucrânia, já entrando no terceiro ano, e o conflito entre Israel e Hamas são dois ingredientes importantes nessa receita. Essa é a previsão do relatório O Mundo em 2024, sobre as tendências e os desafios que devem influenciar o cenário da segurança neste ano. O relatório foi publicado em fevereiro pela empresa especializada em riscos Prosegur Research, da Espanha.

O documento passeia por temas como segurança, cibersegurança, tecnologia e meio ambiente. No capítulo econômico, os autores citam a previsão do Fundo Monetário Internacional de que a maioria dos países enfrentará inflação acima das metas - formais ou não - ao longo deste ano, bem como a previsão de aumento da dívida pública em muitos deles - Brasil incluído.

Eugênio Bucci* - Manchetes adversativas

O Estado de S. Paulo

Esperar que uma conjunção adversativa costure a junção pacífica entre um lado e outro do Brasil partido é um suspiro de otimismo

No sábado passado, dia 2 de março, os três principais jornais brasileiros trouxeram manchetes quase idênticas. O Globo, no alto da primeira página, proclamou: “Brasil cresce 2,9%, mas queda de investimentos é alerta”. O Estado procurou um enunciado mais detalhado: “PIB sobe 2,9%, mas investimento cai e pode travar desenvolvimento maior”. A Folha de S.Paulo arriscou uma variação: “PIB cresce 2,9% em 2023, mas estagna no segundo semestre”.

No centro das três, imperou a conjunção adversativa “mas”, em meio a duas assertivas contraditórias. Na primeira assertiva, antes do “mas”, a notícia foi o resultado positivo da economia brasileira em 2023 (quase no mesmo patamar do ano anterior, que alcançou a marca de 3%), o que surpreendeu positivamente os assim chamados “mercados”. A segunda assertiva, depois do “mas”, falou dos senões. O Estado e O Globo alertaram que, com os juros ainda altos, o capital aplicado na produção se retrai, o que não anima ninguém. Na Folha, o destaque negativo foi o declínio da atividade econômica no final do ano passado, prenunciando uma tendência de baixa para 2024.

William Waack - A Lava Jato como assombração

Estado de S. Paulo

A operação foi declarada morta e enterrada, mas seu fenômeno político persiste

O sepultamento jurídico da Lava Jato foi consumado bem antes de a operação completar agora seus dez anos. O enterro político tem se revelado mais difícil.

No lado jurídico, a derrota da Lava Jato apresenta aspectos específicos do campo do Direito, resumidos na frase “não se deve cometer crimes para combater crimes”. Mas envolve uma monumental disputa entre poderes institucionais: qual deles exerceria uma “tutela” sobre sociedade e política.

Como supremo poder, o STF se sentiu acuado e atacado pela Lava Jato e pelo Ministério Público (nem se trata dos rumores em torno de uma “Lava Toga”). Afinal, quem “faz história” e protege uma sociedade hipossuficiente, a que não é capaz de se defender sozinha?

Maria Hermínia Tavares* - Os sonhos sonhos são

Folha de S. Paulo

Centro poderoso ou esquerda radical não são respostas à extrema direita

No debate público sobre o momento político brasileiro há duas posições diferentes em tudo —menos em matéria de desconforto diante do governo de coalizão ampla que o presidente Lula encabeça.

A primeira sustenta que o país vive tempos de polarização política e que o PT no Palácio do Planalto só faz ampliar a divisão que cinde a sociedade e faz dos brasileiros torcedores prontos para o vale tudo.

A segunda posição, reconhecendo a força da extrema direita, prega que a esquerda, dada por morta, vítima de excesso de moderação e escassez de utopia, deva ressuscitar como polo igualmente extremado, radicalmente anticapitalista.

Fernanda Perrin - Bolsonaro, Trump e a Justiça

Folha de S. Paulo

Cálculo delicado entre banir ou liberar candidaturas tem custos dramáticos e pouco conhecidos

Jair Bolsonaro está inelegível. Donald Trump lidera a corrida pela Casa Branca. Frequentemente comparados nos últimos anos, a situação dos dois não poderia ser mais distante hoje, em razão de abordagens opostas adotadas pela Justiça de cada país.

No Brasil, o TSE condenou o ex-presidente por abuso de poder político e uso indevido de recursos públicos e meios de comunicação para fazer campanha. Já nos EUA, a Suprema Corte invalidou na última segunda-feira (4) a tentativa de retirar o republicano da disputa por ter violado uma cláusula constitucional sobre insurreição.

Ruy Castro - Cagões em silêncio

Folha de S. Paulo

Alguns generais de hoje, crianças em 1964, eram das que, em perigo, corriam para as saias da mãe

O presidente Lula afirmou que não irá ficar remoendo o passado a respeito de 1964, porque os atuais generais eram crianças quando o golpe militar aconteceu e não tiveram nada a ver com ele. Tem razão. Como esses generais estão hoje entre os 60 e os 70 anos, tinham então menos de 10, idade em que, segundo Nelson Rodrigues, deviam estar raspando perna de passarinho a canivete. Ou passando mais tempo no banheiro do que estudando.

Por não serem responsáveis por 1964, os generais hoje na ativa não deveriam se sentir herdeiros do golpe e obrigados a defendê-lo das acusações de tortura, execução e desaparecimento de seus adversários. Ao contrário —sem envolvimento emocional com os algozes e vítimas, seu maior interesse deveria ser ilibar as Forças Armadas dessa nódoa, admitindo que foram tais e quais oficiais que cometeram os crimes, e não as Forças em conjunto. O "esprit de corps" de que não se livram só serve para explicar por que, culpado ou inocente, nenhum milico saía fardado às ruas das grandes cidades brasileiras durante a ditadura.

Conrado Hübner Mendes - Dormiu bem, general?

Folha de S. Paulo

Irritometria militar em off é o pico do servilismo jornalístico

No currículo oculto da formação em jornalismo existe uma disciplina chamada "Servilismo ao poder político e econômico". Ensina a prestar serviços privados a quem manda, e a se afastar da produção de qualquer informação útil ao interesse público ou bem comum. Dentro dessa disciplina, há um tópico ao qual o jornalismo brasileiro se dedica com muito gosto e engenho: a irritometria militar.

"Forças Armadas se irritam com revelações da PF sobre participação de militares na tentativa de golpe"; "A irritação da cúpula militar com a investigação da PF sobre o golpe"; "Cresce a irritação das Forças Armadas com atuação da Polícia Federal".

"Militares se irritam com prisão de Cid"; "Entenda o motivo da irritação das Forças Armadas com o caso das joias de Jair Bolsonaro"; "Nova crise provocada por Olavo de Carvalho escancara irritação de militares".

"A irritação das Forças Armadas com o decano do Supremo" (o decano era Celso de Mello, que ousou avisar a militares que, se não fossem depor, seriam levados, como qualquer cidadão, "debaixo de vara"); "A irritação dos militares com Alexandre de Moraes" (o ministro representaria uma "senha da indignação" entre militares).

É um jornalismo orgulhoso do privilégio dessa fonte tão especial, o general. Por isso não se reconhece como jornalismo de fofoca. Na tipologia das fofocas, existe a fofoca BBB (relato de fatos curiosos sobre atores que só se tornam conhecidos em razão da fofoca); e existe a fofoca sobre a vida privada de autoridades ou celebridades (onde a notoriedade dos atores precede a fofoca).

Ricardo José de Azevedo Marinho* - Águas de Março

Em muitas ocasiões, os verões brasileiros trazem a ideia de um devaneio de lazeres, de uma pausa no cotidiano, em que se esperam dias claros, diversão, leitura para alguns e, em todo momento, alegrias proximais emocionais. E no Brasil de hoje, viagens recreativas dentro e fora do país.

De fato o nosso país, que tem uma grande paisagem natural, costuma mostrar que está natureza variada e bela não é, como diz o nosso hino nacional com otimismo, “de amor eterno seja símbolo”, que tem nos faltado esse sentimento, por vezes indo a aspereza, dureza que franze a testa ao Grande Número, justo nos momentos em que menos queremos: no verão.

A esse azedume que nunca foi nosso juntam-se várias pragas e com o aumento do calor que as mudanças climáticas nos trazem, contando também com a ajuda da negligência, do desleixo e do mal, surgem chuvas e queimadas gigantescas e letais, catastróficas, para os quais nunca ninguém está totalmente preparado, a despeito da sua previsão.

É também muito triste quando perdemos mentes como a do Samuel Pinheiro Guimarães Neto (1939-2024) e a de Luiz Jorge Werneck Vianna (1938-2024), personagem que a despeito de suas idades avançadas, continuavam a servir de forma importante a vida democrática do país.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Tapetão eleitoral ...

O presidente Lula passou este ano e meio de mandato em viagens pelo mundo, tratando de assuntos planetários.   Não escapou de imiscuir-se em searas alheias.  Chegou a anunciar uma moeda nova para substituir o dólar no comércio internacional, defendeu o aumento o número de membros do Conselho de Segurança da ONU, palpitou sobre a invasão da Ucrânia e sobre a resposta de   Israel ao Hamas, prometeu financiamentos para a África e para a América Latina. Internamente, deixou entender que pretende disputar sozinho as próximas eleições presidenciais, como Putin, Maduro e Ortega, retirando concorrentes da corrida eleitoral. 

Seus escorregões retóricos, inciativas e opiniões intempestivas estão mostrando a distância do que pensa das promessas da campanha eleitoral de 2022. Algumas afirmações   deveriam constar, não apenas de uma agenda transparente, mas até serem submetidas a consultas públicas, no mínimo, ao Congresso Nacional. Se não se cuidar seu comportamento meio leviano tende a complicar-se nas eleições municipais de outubro. O País parece aproximar-se de uma crise de confiança no campo econômico, mesmo diante do anunciado crescimento de 2,9% do PIB de 2023, amparado no amaldiçoado agronegócio.

Poesia | Tabacaria, de Fernando Pessoa

 

Música | Adoniran Barbosa - Despejo na Favela

 

quarta-feira, 6 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Superterça consagra reprise de 2020 nos EUA

O Globo

Trump começa disputa como favorito, mas Biden ainda dispõe de oito meses para convencer o eleitor

Realizadas ontem, as 15 disputas republicanas e 16 democratas que formam o maior conjunto de prévias no calendário eleitoral americano — coletivamente chamadas de Superterça — em nada mudaram as projeções. O presidente Joe Biden e o e ex-presidente Donald Trump seguem rumo à confirmação de suas candidaturas nas convenções e deverão disputar a eleição em novembro. Entre os democratas, não há sombra para Biden. Nikki Haley, ex-governadora da Carolina do Sul, não provou ser páreo para Trump, força hegemônica entre os republicanos. Salvo motivo de força maior, o pleito de 2024 será uma reprise de 2020.

Desta vez, Trump larga na frente. Na média das pesquisas nacionais, ele aparece 2 pontos à frente de Biden. Entre os seis estados considerados decisivos, apenas na Pensilvânia Biden leva pequena vantagem. Nos demais — Arizona, Georgia, Michigan, Nevada e Wisconsin —, Trump lidera. Para completar, ele celebrou nesta semana uma vitória fundamental na Suprema Corte: por unanimidade, os juízes derrubaram a decisão do Judiciário do Colorado que tirara seu nome das cédulas do estado, sob a acusação de ter participado da “insurreição” de 6 de janeiro de 2021. Com isso, acabou a esperança da ala do Partido Democrata que esperava vê-lo desqualificado pela Justiça.

Vera Magalhães - Na política, não se vence pelo cansaço

O Globo

Haddad insistiu em MP 'natimorta' e não conseguiu suprir a interdição de diálogo entre a Câmara e a articulação política do governo

Fernando Haddad foi o grande destaque positivo no ministério de Lula no primeiro ano do terceiro mandato. Venceu prognósticos negativos para a economia, surpreendeu aqueles que esperavam que ele cerrasse fileiras com a defesa da gastança desenfreada e teve coragem de colocar em curso uma agenda para reduzir benefícios setoriais que reduziam a capacidade arrecadatória da União.

Não menos notável foi uma mudança de estilo do titular da Fazenda: abandonou o tom professoral com que muitas vezes tentou justificar suas ideias na Prefeitura de São Paulo e arregaçou as mangas da negociação política com o Congresso, considerada por aliados e vereadores na encarnação anterior um de seus pontos fracos.

Mas, com a Medida Provisória 1.202, o ministro teve uma espécie de “recaída” na teimosia que lhe era atribuída antes de chegar à pasta. O resultado tem sido atraso na implementação de sua própria agenda e a necessidade de recuos que o enfraquecem quando ele mais precisa sair fortalecido.

Elio Gaspari - O golpinho de Bolsonaro

O Globo

A mesa não virou porque a voz das urnas foi respeitada

A exumação da tentativa de golpe de Estado de Jair Bolsonaro corre o risco de se transformar num teatro do absurdo, com a reconstrução de algo que não houve. Uma mistura da trama da peça “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, com o poema “À espera dos bárbaros”, de Konstantinos Kaváfis. Godot não chega, nem os bárbaros, mas tanto a peça como o poema são obras-primas.

O golpinho de Jair Bolsonaro bebeu na fonte do golpe de Getúlio Vargas, em 1937. Este foi impecável.

Primeiro Vargas mandou um emissário aos governadores de sua confiança. Depois, pediu ao ministro da Justiça, Francisco Campos, que redigisse uma nova Constituição. Finalmente, armou o esquema militar com o ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, e o condestável do Exército, general Góes Monteiro. Dado o golpe, arrasou as instituições políticas e instalou o Estado Novo, que duraria oito anos.

Bernardo Mello Franco – A ocorrência de um infortúnio

O Globo

Ministro viu "ameaça imaginária" e alegou "infortúnio" em fuzilamento de inocentes no Rio

Aconteceu em 2019, na Zona Norte do Rio. Numa tarde de domingo, militares metralharam um Ford Ka com duas mulheres e uma criança a bordo. A ação matou o músico Evaldo Rosa, que levava a família a um chá de bebê, e o catador Luciano Macedo, que passava pelo local e tentou socorrê-lo.

Em poucas horas, o Comando Militar do Leste deu o caso por encerrado. Chamou as vítimas de “criminosos” e “assaltantes” e disse que os soldados teriam reagido a uma “injusta agressão”.

Quando a farsa ficou evidente, o então ministro da Defesa prometeu “cortar na carne”. Em 2021, oito militares foram condenados em primeira instância por duplo homicídio. Na última quinta-feira, o Superior Tribunal Militar abriu caminho para livrá-los de pagar pelo crime.

Vera Rosa - Centrão se articula para enfrentar Lula

O Estado de S. Paulo

Plano de superfederação embute estratégia para lançar uma candidatura contra o PT em 2026

Enquanto as investigações sobre a tentativa de golpe no País atingem o ex-presidente Jair Bolsonaro, o Centrão se articula para ficar mais turbinado e dar as cartas da direita na próxima disputa pelo Palácio do Planalto, em 2026.

O plano dos principais partidos do grupo (PP, União Brasil e Republicanos) de formar uma superfederação tem na mira não apenas a eleição para o comando do Congresso, daqui a 11 meses, como o fortalecimento do trio para enfrentar a provável candidatura do presidente Lula à reeleição. Juntas, as três siglas controlam cinco ministérios e estão de olho na pasta da Saúde, que tem orçamento de R$ 232,06 bilhões.

César Felício - Depoimento pode não bastar para condenar ex-presidente

Valor Econômico

No campo jurídico, é possível que a defesa do ex-presidente argumente sobre a diferença técnica entre tentativa de crime, ato preparatório para um delito e a sua cogitação

Partindo do pressuposto de que o general Marco Antonio Freire Gomes, ex-comandante do Exército no fim da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, confirmou em seu longo depoimento a discussão de uma minuta de golpe de Estado com o próprio chefe, a situação jurídica de Bolsonaro se complica, mas com zonas de incerteza. No campo político, os militares saem da armadilha em que estavam colocados.

Em relação ao campo jurídico, é possível que a defesa do ex-presidente tente levantar uma discussão sobre a diferença técnica entre tentativa de crime, ato preparatório para um delito e a sua simples cogitação.

Um presidente da República chamar os comandantes das três Forças para discutir uma minuta que prevê a abolição violenta do Estado Democrático de Direito configura em si ilícito? O senso comum diz que sim, o mundo político pode entender que sim, mas uma discussão no Judiciário deve ser colocada.

Fernando Exman - Trabalho por aplicativos na agenda dos três Poderes

Valor Econômico

Lula espera reconhecimento pelo esforço do governo para a criação do que chama de “nova modalidade no mundo do trabalho”

O dia 4 de março de 2024, diz o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ficará para a história como uma data “muito diferente”. Pode ser.

Ele espera que isso ocorra quando for reconhecido o esforço liderado pelo governo para a criação do que chama de “nova modalidade no mundo do trabalho”. Guardando as devidas proporções, está nos livros o discurso feito em São Januário pelo ex-presidente Getúlio Vargas em 1º de maio de 1943, ano do estabelecimento da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Mas o “mundo do trabalho” era outro. E guardando as devidas proporções futebolísticas, o estádio do Vasco da Gama também era um dos maiores da América do Sul. Além disso, ainda há um longo caminho até que o trabalho por aplicativo seja definitivamente regulamentado.

Lu Aiko Otta - Os próximos passos da taxação dos super-ricos

Valor Econômico

Nos bastidores do Ministério da Fazenda, comemora-se a boa recepção internacional à proposta

Nos bastidores do Ministério da Fazenda, comemora-se a boa recepção internacional à proposta de se criar uma taxação mínima global sobre os super-ricos, apresentada na semana passada, durante a reunião de ministros de finanças e presidentes de bancos centrais do G20. Ao apadrinhar um tema de grande apelo popular mundo afora, o ministro Fernando Haddad cravou uma marca para a presidência brasileira no bloco das principais economias do planeta.

Mas esse foi, basicamente, um balão de ensaio: a proposta ainda precisa ganhar carne e osso, e só então eventuais resistências aparecerão.

O ex-secretário da Receita Federal Everardo Maciel foi taxativo em sua conversa com a coluna: “Não tem a mais remota possibilidade de prosperar”.

Zeina Latif - Ouvidos moucos para o rombo da previdência

O Globo

O atual governo evita o tema e defende apenas o 'pente-fino' nos benefícios do INSS

A necessidade de uma nova reforma da Previdência voltou ao radar de especialistas. Vale lembrar que o Brasil gasta cerca de 12% do PIB com a Previdência (total), cifra observada em poucos países, mais ricos e mais velhos — na média da OCDE, a despesa é cerca de 8% do PIB.

A retórica oficial acerca da reforma de 2019 era grandiosa. Certamente foi um passo largo, mas naturalmente insuficiente.

Falava-se em “economizar” R$ 800 bilhões em dez anos. Não é bem assim. Tratava-se, na verdade, de medida para conter o crescimento de gastos previdenciários em um país que envelhece rapidamente. E, lamentavelmente, a reforma elevou a judicialização.

Vinicius Torres Freire - A guerra dos impostos de Haddad

Folha de S. Paulo

Ministro recua, perde tempo político e tem agenda pesada em ano curto e de ambiente mais azedo

No último dia útil de 2023, o governo baixou uma medida provisória politicamente temerária a fim de aumentar ou evitar a perda de receitas, tentando em especial obter mais dinheiro de empresas.

Como previsto, Fernando Haddad apanhou, recuou e teve de renegociar as providências, que voltarão ao Congresso por meio de projetos de lei, fora o desgaste político e o atraso adicional no ano legislativo.

"Adicional": as lideranças parlamentares do centrão dominante criavam encrenca porque queriam em primeiro lugar emendas, mais dinheiro para emendas, cargos e cabeças de ministros e secretários, "business as usual".

Paul Krugman* - Diferentes taxas de inflação para diferentes classes sociais

Folha de S. Paulo

Há boas razões para acreditar que a inflação recente tem sido pior para pessoas de renda mais baixa

Na minha coluna mais recente, diverti-me um pouco com Donald Trump fazendo uma afirmação que mostra que ele não voa em aviões comerciais há muito tempo —dizendo que os terríveis aeroportos dos Estados Unidos nos fazem parecer uma nação do terceiro mundo.

Acontece que, alguns dias atrás, voei para o novo Terminal A do Aeroporto Internacional de Newark, o que me fez perceber algo óbvio para quem voou comercial nos últimos anos: os aeroportos dos EUA de fato estão muito mais sofisticados.

Eu certamente preferiria voar para Newark do que para muitos aeroportos europeus onde ainda é necessário pegar um ônibus do avião até o terminal.

Mas isso me fez pensar. Por que os aeroportos dos EUA têm tantas comodidades a mais do que costumavam ter? (A experiência de voar ainda pode ser deprimente por causa das filas de segurança, mas isso é outra questão).

A resposta óbvia é que eles estão atendendo à sua clientela, mas isso certamente sempre aconteceu.

Martin Wolf* - O perigoso excesso de poupança da China

Valor Econômico

Pequim deve ousar escolher remédios radicais

China é a superpotência global da poupança. No passado, em uma economia em rápido crescimento com oportunidades de investimento excelentes, suas altas poupanças foram um grande ativo. Mas também podem causar grandes dores de cabeça.

Hoje, com o fim do boom imobiliário, gerenciá-las se tornou um desafio. O governo chinês deve ousar escolher remédios relativamente radicais.

De acordo com o FMI, a China gerou 28% da poupança global total em 2023. Apenas um pouco menos do que a participação de 33% dos EUA e da UE combinados. Isso é bastante extraordinário.

Também tem várias implicações. Uma delas é que se a China fosse uma economia de mercado aberto, seus mercados de capitais seriam os maiores do mundo. Outra é que a forma como essa poupança é gerenciada provavelmente será o determinante mais importante das taxas de juros globais e do balanço de pagamentos globais.

Luiz Carlos Azedo - Política antidrogas é ultrapassada e realimenta o tráfico

Correio Braziliense

Portugal e França, que incluiu o direito ao aborto na Constituição, são exemplos a serem estudados no campo das políticas contra a violência

O Supremo Tribunal Federal (STF) retoma, nesta quarta-feira, o julgamento sobre a "descriminalização" da maconha para uso pessoal, sob forte pressão da bancada evangélica, que, nesta terça-feira, se reuniu com o presidente da Corte, ministro Luís Roberto Barroso. Pautado pela ex-presidente do STF Rosa Weber, a Corte está a apenas um voto de decidir a questão. Nesta terça-feira, Barroso afirmou que não haverá "descriminalização", mas uma definição de critério objetivo e universal para distinguir os usuários dos traficantes.

A medida é importante para reduzir o encarceramento em massa e evitar prisões sem justificativa relevante de moradores da periferia, principalmente pessoas negras, que recebem tratamento diferente dos dados a indivíduos brancos e de classe média flagrados portando drogas. Segundo o ministro Alexandre de Moraes, na ausência de uma definição legal da quantidade permitida por usuário, a polícia adota parâmetros arbitrariamente, por conta própria. Moradores da periferia com 10 gramas de maconha são presos enquanto nos bairros de classe média há casos de usuários liberados com mais de 100 gramas.

Muniz Sodré* - Borracha no futuro

Folha de S. Paulo

As massas acordaram para a experiência política, mas sob formas perversas, captadas pela extrema direita

Um estudo revela que 13 milhões de brasileiros deixaram de passar fome em 2023, o custo alto dos alimentos desacelerou, a economia obtém ganhos, a vida democrática supera os sobressaltos, mas decresce a avaliação positiva de Lula (PT). Algo semelhante ocorre nos EUA, onde esses fatores estão normalizados, porém, cresce nas preferências eleitorais a figura de Trump, um delinquente polimorfo. Na Argentina, 60% da população esfomeia, mas é elevado o índice de aprovação de Milei. Na alucinação, osso é filé.

São anomalias. Começa a ficar claro que elas reabrem de algum modo a noção de política. Por menos práticos que sejam pronunciamentos políticos de filósofos, vale evocar as posições públicas de Jurgen Habermas nos anos 1980 contra o neoconservadorismo irracionalista na Alemanha, assim como a sua especulação de que "se tivesse de apostar qual o próximo país que se tornaria fascista, minha aposta poderia ser: os EUA". Sem bola de cristal, anteviu Trump.