O Estado de S. Paulo
O melhor que o Copom tem a fazer hoje é divulgar comunicado enxuto, sem dar margem a polêmicas
A principal missão do Banco Central ao fim da reunião de hoje do Copom será evitar causar – a todo custo – os ruídos da última decisão, quando os argumentos para justificar o corte da taxa Selic pegaram os analistas de surpresa e suscitaram até questionamentos à sua credibilidade. Agora, o melhor é o Copom se fingir de morto e soltar um comunicado enxuto, sem dar margem a polêmicas.
Em junho, o Copom postergou o horizonte
relevante da política monetária do quarto trimestre de 2027 para o primeiro
trimestre de 2028, no qual a sua projeção de inflação (de 3,2%) permitia uma
redução de juros. Esse movimento foi criticado por enfraquecer o horizonte
relevante como uma ferramenta importante na ancoragem de expectativas. No
quarto trimestre de 2027, a projeção de inflação do Copom, de 3,7%, não
endossava o corte. O BC até tentou minimizar as críticas, dizendo que a decisão
foi para evitar um “sobe e desce” da Selic, mas o mercado viu isso como um gol
de mão.
De lá para cá, os ventos sopraram a favor do
Copom: os últimos índices de inflação vieram abaixo das estimativas dos
analistas, com um alívio nos preços dos alimentos; o preço do petróleo recuou
em relação aos picos observados na guerra do Irã; e o dólar segue praticamente
no mesmo patamar da decisão de junho.
Sem falar que, nesta reunião de agosto, o
horizonte relevante passou a ser, de fato, o primeiro trimestre de 2028, quando
a projeção de inflação do Copom pode até cair levemente.
Mas ainda: para a decisão de hoje, a
esmagadora maioria dos investidores aposta no corte de 0,25 ponto porcentual
dos juros, para 14%. Desta vez, o Copom tem a bênção do mercado para reduzir
mais os juros. Aliás, o comunicado que acompanhará a decisão poderá até deixar
a porta aberta para um corte adicional de 0,25 ponto na reunião seguinte, de
setembro, uma vez que as próximas duas leituras de inflação devem vir bastante
favoráveis, embora por motivos sazonais ou temporários. O mercado prevê uma
alta de 0,2% do IPCA de julho e uma deflação de 0,15% para agosto, quando o
bônus de Itaipu reduzirá a conta de luz.
Se o Copom seguir esse roteiro, o mercado não
o punirá por isso, em razão do ambiente favorável no curtíssimo prazo. Mas
seria isso prudente? As projeções de inflação do mercado em 2027 (de 4,22%) e
em 2028 (de 3,80%) seguem pressionadas. Ou seja, a escolha do Copom é cortar
juros com a expectativa inflacionária em alta para um horizonte relevante. Nada
disso inspira um compromisso firme em trazer a inflação à meta de 3% ao longo
do tempo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário