quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Eleitorado neste ano vai às urnas ressentido, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Há menos uma guerra ideológica que um embate de sentimentos negativos mutuamente alimentados

Favoritos alimentam esse ambiente de mal-estar geral, na falta de terem algo melhor a dizer à população

Eleições são ganhas com apoio popular, respaldo político-partidário e expertise para se valer de erros do campo adversário. Foi assim que Tancredo Neves chegou vitorioso ao colégio eleitoral de 1985, marco fundador da transição democrática.

O mineiro administrou a frustração com a derrota da emenda Dante de Oliveira, atraiu o capital da movimentação nacional em prol das diretas-já, aproveitou-se da desorganizada divisão do governo em torno dos nomes de Paulo Maluf, Mário Andreazza, Aureliano Chaves e do desejo do que seria o último ditador em prorrogar o próprio mandato.

A história do Brasil nos fornece lições. Na campanha em curso, nenhum dos favoritos é detentor de apoio irrestrito. Ambos têm rejeições que os colocam num cenário de aceitação que decorre do repúdio ao oponente.

Não há a materialidade de um plano econômico, como o que fez o eleitorado aderir ao projeto de saída do inferno da inflação e levou Fernando Henrique Cardoso à Presidência numa aliança da centro-esquerda com a direita. Ali, o PT errou ao se opor ao Plano Real, contrapondo-se à preferência nacional.

Não há a mobilização da esperança por um país mais igual, socialmente inclusivo, que fez o eleitorado abrir à esquerda o espaço que três vezes negara a Luiz Inácio da Silva. Ali, os tucanos erraram ao não saber dar continuidade ao próprio legado.

Hoje, o que há? Um embate de ressentimentos que se convencionou qualificar como guerra ideológica, cujo caráter doutrinário não se sustenta à luz de pesquisas que mostram eleitores ditos de esquerda escolhendo Flávio Bolsonaro (PL) e declarados direitistas preferindo votar em Lula.

Ocupados com a repulsa que sentem uns pelos outros, os grupos que aparecem como retratos da maioria interditam o espaço para escuta dos demais candidatos ou até de gente que, estimulada, poderia vir a concorrer.

Os chefes dessas torcidas se alimentam do mal-estar na falta de algo melhor a dizer ao eleitor, que vê na urna um poço de mágoas.

 

Nenhum comentário: