Valor Econômico
Em 1h13 min de discurso Lula não menciona
“soberania” uma única vez e diz que idade favorece reconhecimento de erros e
omissões
Ao ser oficializado como candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terceirizou o discurso da soberania para o vice, Geraldo Alckmin (“a urna é tão competente que não aceita voto de argentino e americano”). Não foi por falta de tempo. Lula falou, sem teleprompter, apenas com pontos de um roteiro anotados em uma folha de papel, durante uma hora e 13 minutos.
Preferiu focar na defesa das mulheres (“homem que bate em mulher não precisa votar em mim”), na comparação com Pelé (“ele disputou quatro copas e esta é minha sétima”) e no reconhecimento de seus erros e omissões (“Peço desculpas pelos erros que cometi e pelo que deixei de fazer”).
Não dá pra saber se esta pegada se manterá,
mas tanto a omissão da soberania quanto o pedido de desculpas rimam com a
tentativa de avançar sobre os nichos de indecisos mais centristas, únicas
apostas possíveis para a liquidação da fatura no primeiro turno. As pesquisas
são unânimes em apontar um estreitamento arriscado das margens num eventual
segundo turno - principalmente se o adversário não for o candidato do PL e
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Já a menção a Pelé sugere que sua campanha
vise a combater a ideia de que Lula é mais do mesmo. Acrescente-se aí, na
vacina contra a idade avançada, não apenas as menções à sua saúde (“corro a
8km/h”) como a associação com a capacidade reconhecer e avançar o que fez de
errado (“A idade serve para reparar erros nossos do passado”).
Seja pelo reconhecimento público do
sacrifício do ex-ministro da Fazenda em enfrentar, pela segunda vez, a disputa
paulista, bastião antipetista, seja para sinalizar que o eleitor não custa por
esperar a renovação, disse que espera entregar um país muito melhor para
Fernando Haddad quando ele for governar o país. Além de Alckmin, do presidente
do PT, Edinho Silva, e de breve fala da primeira-dama, Janja da Silva, Haddad
foi o único dos candidatos a governador a discursar antes de Lula.
Lula voltou a se colocar como o presidente
que, depois de Getúlio Vargas, mais fez políticas de inclusão social. Desta
vez, porém, o “pai dos pobres” resolveu, aos 80 anos, se colocar como filho
deles. Um das maiores apostas do programa de governo a ser detalhado no evento
de lançamento de candidatura, no dia 16, no estádio da Vila Euclides, em São
Bernardo do Campo, é um programa que, à espera de um nome definitivo, é chamado
de “casa de idosos”.
Lula não menciona “soberania” e diz que idade
favorece reconhecimento de erros e omissões
A proposta visa a atender a uma demanda
crescente de um eleitorado acima de 60 anos que aumentouu 27% desde 2018,
enquanto a fatia de eleitores mais jovens perde, proporcionalmente, densidade.
Lula esmerou-se na empatia para conquistar um público que, em 2022, começou a
arrefecer as resistências exibidas em suas primeiras disputas presidenciais.
“Resolvi pagar uma dívida com os idosos, a
população envelheceu e nem sempre o filho cuida da mãe, ela que lhe ensinou
tudo”. O “filho dos pobres” foi adiante: “Como a família não quer cuidar, o
velhinho fica trancado, vendo TV, por isso quero criar um lugar em que eles
possam fazer o que quiserem, até namorar”.
Se o discurso para os mais velhos está
formatado, aquele que vai apontar um futuro para os jovens engatinha. Tanto que
para enfatizar aquela que disse ser sua prioridade no último mandato citou a
“inteligência artificial” três vezes e disse ser candidato a um quarto mandato
para “resolver de uma vez por todas o problema da educação nesse país”.
A despeito de não ter falado de soberania uma
única vez, Lula abordou o tema lateralmente, quando discursou favoravelmente
aos investimentos em defesa. Pediu para a esquerda “parar com essa bobagem” de
achar que se preocupar com defesa é defender a ditadura, e foi da queixa pelo
fato de o Brasil não ter uma fábrica de drones para controlar as fronteiras à
necessidade de equipá-las para evitar que se queira “invadir o país para levar
o presidente”. Em janeiro deste ano, Nicolás Maduro foi sequestrado por uma operação
militar americana e levado para julgamento nos Estados Unidos por acusação de
narcotráfico.
Maior preocupação do PT, nos dias que
antecederam a convenção, a abertura de dois inquéritos na Polícia Federal,
autorizados pelo Supremo Tribunal Federal, para investigar Fábio Luis da Silva,
filho do presidente, não foi nem sequer tangenciada por seu discurso. O único
Lulinha que teve vez foi o “porreta”, em contraposição ao “paz e amor”.

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