Folha de S. Paulo
Custo de R$ 22,7 bilhões do reajuste do
programa em 2027 ficará com o próximo presidente eleito
Reajuste dá sinal de que bateu o desespero
com chance de Lula ser derrotado por Flávio Bolsonaro
Se o presidente Lula (PT) tinha planos de
fazer o reajuste
do Bolsa Família antes das eleições
presidenciais deste ano, deveria ter se planejado mais e melhor.
A 17 dias do primeiro turno, o sinal que a
campanha do PT passa com o anúncio do Palácio do Planalto de uma correção de
15% do benefício é o de que bateu o desespero com a possibilidade de Lula
perder a reeleição para o seu quarto mandato.
Se o reajuste fosse planejado, teria sido comunicado antes, para que tivesse mais tempo para fazer efeito. O novo valor, no entanto, começará a ser pago em 19 de outubro, menos de uma semana antes do segundo turno.
A campanha se viu obrigada a acionar mais uma
medida populista, da conhecida série de bondades eleitorais, para conter o
avanço da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e trocar de assunto na campanha.
Flávio é o candidato teflon. Mesmo sendo
formalmente investigado no inquérito que apura
a produção do filme "Dark Horse", sobre seu pai, Jair
Bolsonaro, e sem apresentar até agora esclarecimentos convincentes sobre o
seu envolvimento com Daniel Vorcaro, o senador tem sido pouco afetado pelos
desdobramentos do escândalo do Banco Master e pela guerra deflagrada no STF (Supremo
Tribunal Federal).
Ele se sustenta numa posição oposta à de
Lula, associado pelo bolsonarismo ao ministro Alexandre
de Moraes, um dos pivôs do escândalo.
A campanha petista não quis ficar olhando, de
braços cruzados, a subida do adversário nas pesquisas e recorreu a uma fórmula
que também foi usada por Jair Bolsonaro, em 2022, quando ele ampliou de R$ 400
para R$ 600 o valor do Auxílio Brasil (antecessor do atual Bolsa Família), em
junho daquele ano.
O custo do reajuste anunciado por Lula é
menor do que o de Bolsonaro, que turbinou o benefício em 50%. Por outro lado, o
petista adotou a medida bem mais perto da eleição do que seu rival.
Não há impedimento político ou legal ao
reajuste, já que a legislação fiscal permite a recomposição da inflação, sem a
necessidade de medidas compensatórias. A proibição que existe é para a criação
de benefício novo ou para aumento acima da inflação.
Mas o ideal é que tivesse sido feito com mais
previsibilidade de custos no projeto de lei orçamentária de 2027, enviado em
agosto ao Congresso.
Ao longo dos últimos três anos, auxiliares do
petista repetiram à exaustão que Bolsonaro havia empurrado para o governo
seguinte uma medida eleitoreira. Agora, fazem o mesmo: a
conta de R$ 22,7 bilhões será paga por quem comandar o Planalto no próximo
ano.
Em outra frente, a promessa do ministro da
Fazenda, Dario Durigan, de ter um teto de gastos mais apertado para sinalizar
compromisso com o controle do processo de alta da dívida pública ficou mais
difícil de cumprir.
Diante de uma campanha fria, burocrática e
sem mobilização, restou anunciar a cartada do reajuste do Bolsa Família.
A esta altura, para Lula é melhor que falem
do Bolsa Família do que de Moraes.

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