sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Reajuste do Bolsa Família terá impacto maior no segundo turno, por César Felício

Valor Econômico

Aumento do pagamento do benefício não mira o eleitor independente, pêndulo; o alvo é o eleitor cativo

Ameaçado de perder a liderança das pesquisas nas sondagens do primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se volta para suas fortalezas. O anúncio do aumento do pagamento do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691 não mira o eleitor independente, pêndulo, das periferias das grandes metrópoles do Sudeste, aquele que em 2018 foi de Jair Bolsonaro, em 2022 marcou Lula e agora se divide entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL). O alvo é o eleitor cativo. Do ponto de vista eleitoral, o que se pode esperar é crescer em uma faixa em que o presidente já predomina.

Segundo a Quaest divulgada na segunda-feira, Lula está com 52% no Nordeste, região que concentra a maioria dos benefícios. Ficou neste patamar no último mês. Flávio oscila entre 19% e 20% e o dos demais candidatos entre 14% e 16%. Entre os eleitores apenas com ensino fundamental, Lula está com 44%, ante 25% de Flávio e 15% da soma dos demais. Também não há movimento relevante no último mês. De acordo com a BTG/Nexus, divulgada na segunda-feira e única com um recorte específico para eleitores beneficiários do Bolsa Família, Lula tem 64% entre os recebedores do benefício, ante 20% de Flávio e 10% do restante. Ressalve-se que a pesquisa Quaest é presencial e a da BTG/Nexus por telefone.

Lula, portanto, está procurando matar a sede com o coqueiro que dá coco. Na reta final de campanha, em que o tema como corrupção cresce na preocupação do eleitorado, o presidente mira em um segmento do eleitorado no qual os principais especialistas em pesquisas de opinião pública inferem que a sensibilidade do votante é significativamente diferente e menos suscetível a este tipo de noticiário.

Haverá efeito eleitoral? O eleitorado beneficiário do Bolsa Família é mais distante do noticiário e o simples anúncio deve provocar um impacto limitado nas curvas de intenção de voto no primeiro turno. Em um eventual segundo turno aí sim, a influência será plena. Se ele vier a ser disputado será realizado no dia 25 de outubro e o pagamento do benefício, pela legislação vigente, ocorrerá entre os dias 19 e 29, conforme os dígitos finais do número de identificação social (NIS).

Chama a atenção o momento para o anúncio da medida. O projeto de lei orçamentário para 2027 foi enviado sem a previsão de reajuste no dia 31 de agosto e se a decisão fosse tomada um mês atrás a folha de setembro já seria rodada com o reajuste. São circunstâncias que podem caracterizar um improviso, talvez movido por uma grande preocupação com o cenário adverso para os petistas desenhado pelas pesquisas.

Este momento ruim para Lula, contudo, não começou este mês. Desde meados de julho é nítido que o oposicionista Flávio Bolsonaro (PL-RJ) avança em todas as frentes, enquanto a candidatura à reeleição do petista não consegue reagir, o que faz sugerir que a escolha por um anúncio de impacto eleitoreiro óbvio em um momento tão avançado da campanha foi deliberado. De acordo com o Datafolha, em julho Lula tinha 40% de intenção de voto no primeiro turno, ante 32% de Flávio. Na pesquisa divulgada nesta quinta-feira o placar ficou em 39% a 36%.

 

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