O Globo
Reajuste do Bolsa Família, ida a Nova York
para Assembleia da ONU e outras medidas em estudo visam mudar de assunto e
recuperar terreno perdido na disputa eleitoral
Lula tirou da cartola um reajuste do Bolsa
Família, colocou na incubadora um Desenrola 2027, está de malas prontas para
embarcar para Nova York para a Assembleia Geral da ONU a menos de duas semanas
da eleição e prometeu até caneta emagrecedora no SUS. Qualquer assunto serve
para virar a página da crise do
Supremo Tribunal Federal (STF). Só falta os ministros sairem do meio
do ringue e se tocarem de que o Palácio quer que voltem para atrás das
cortinas.
A quinta-feira mostrou que eles ainda estão no veneno. Flávio Dino autorizou investigação da Polícia Federal e da Comissão de Valores Mobiliários de repasses feitos pelo Master à concessionária que opera cemitérios municipais de São Paulo. A decisão se deu na mesma ação em que apareceu a menção a um encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro, mas, ao abrir a investigação, Dino fez questão de frisar que ela não deve atingir o colega.
Gilmar Mendes voltou à carga nas redes
sociais contra o relator do Master, reeditando as críticas pela menção ao
procurador-geral da República, Paulo Gonet, na petição em que pede a
investigação de Alexandre de Moraes e voltando a chamar Mendonça de “pixuleco
eleitoral”.
Nada disso é o que Lula quer ver nas
manchetes daqui até 4 de outubro. As pesquisas mostram um empate incômodo para
o presidente com Flávio Bolsonaro, adversário que ele e o PT subestimavam,
desejavam e achavam que seria fácil de bater.
A crise no STF produziu um efeito para lá de
esdrúxulo: Flávio vem tentando surfar na indignação nacional e escamotear o
próprio e grave envolvimento com Vorcaro. De alguma forma, parece colar.
Começaram a circular nas redes sociais correntes de que é preciso que eleitores
dos demais candidatos de direita fazerem mobilização em prol do candidato do PL
para “acabar com essa vergonha”. Realmente é espantosa a capacidade da extrema
direita de plantar narrativas totalmente desprovidas de base na realidade
Diante de um cenário que poderia até evoluir
para um risco de derrota no primeiro turno, Lula mandou às favas qualquer
verniz fiscalista que seus assessores econômicos vinham tentando dar a seu
governo — ele mesmo nunca ligou para acenar com corte de gastos, como se viu na
entrevista que concedeu ao Jornal Nacional.
O reajuste do Bolsa Família na antessala das
urnas e outras medidas que ainda podem vir à luz daqui até o dia 4 visam a
estancar a sangria de popularidade do presidente, para a qual o barraco sem fim
do STF vem contribuindo enormemente.
Nessa reta final, as atenções do governo e do
comando da campanha de Lula se voltam ainda ao risco de novas e disparatadas
medidas serem adotadas pelo governo Donald Trump para tentar causar mais danos
à frágil popularidade do petista e, se possível, ajudar Flávio nesse sprint
para tentar liquidar a fatura no primeiro turno.
Com essa variável no radar, ele tomou a
arriscada decisão de confirmar o tradicional discurso na abertura da Assembleia
Geral da ONU, para a qual embarca neste domingo. O tom da fala do pode
amortecer ou incendiar relações que já vêm numa montanha-russa há mais de um
ano, entre sanções e declarações simpáticas ditadas pela forçada “química”
entre dois antípodas ideológicos.
Diante do risco de encerrar sua carreira
eleitoral com uma derrota para alguém que ninguém jamais imaginaria sequer como
candidato a presidente, não fosse o desígnio do pai preso, Lula resolveu tirar
a rede de proteção e partir para medidas que podem gerar dividendos, mas
embutem grande risco colateral.
Se funcionará ou não, dependerá de fatores
que ele não controla, como o voluntarismo dos ministros do STF e de Trump. Para
quem, no passado, já navegou em índices de popularidade de 80% e elegeu postes
só de carona na própria aura, é um cenário de incerteza que certamente ele não
se preparou para enfrentar.

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