quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Ministro do STF suspende andamento do impeachment na Câmara

Márcio Falcão – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O ministro do STF (Supremo Tribunal Federa) Luiz Edson Fachin suspendeu na noite desta terça-feira (8) o andamento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados.

Isso vale até o julgamento pelo plenário do STF no próximo dia 16 que vai avaliar ações de governistas que questionam o início do pedido de afastamento da petista na Casa. Em sua decisão, Fachin proibiu que seja instalada a comissão especial que irá analisar o processo e suspendeu todos os prazos.

O ministro, no entanto, não anulou os atos praticados até agora, como a eleição realizada na tarde desta terça que elegeu maioria oposicionista para o colegiado. As decisões tomadas pela Câmara serão avaliadas pelo Supremo.

Fachin analisou uma ação apresentada pelo PC do B pedindo que a votação da comissão fosse aberta e que que os nomes fossem indicados por partidos e não blocos formados pelas legendas –além de que o processo na Câmara ficasse paralisado até que Dilma apresente sua defesa.

"Com o objetivo de evitar a prática de atos que eventualmente poderão ser invalidados pelo Supremo Tribunal Federal, obstar aumento de instabilidade jurídica com profusão de medidas judiciais posteriores e pontuais [...] determinando a suspensão da formação e a não instalação da Comissão Especial, bem como dos eventuais prazos, inclusive aqueles, em tese, em curso, preservando-se, ao menos até a decisão do Supremo Tribunal Federal prevista para 16/12/2015, todos os atos até este momento praticados".

Na decisão, o ministro ressalta ainda que a votação secreta não tem previsão na Constituição e nem no regimento interno da Câmara, portanto, o pedido do PCdoB seria plausível.

Fachin destaca que sua liminar (decisão provisória) se justifica pela importância do caso. "Diante da magnitude do procedimento em curso, da plausibilidade para o fim de reclamar legítima atuação da Corte Constitucional e da difícil restituição ao estado anterior do caso, prossigam afazeres que, arrostados pelos questionamentos, venham a ser adequados constitucionalmente em moldes diversos".

Na próxima quarta, o Supremo também vai discutir uma outra ação do PCdoB, chamada de ADPF (Arguição de descumprimento de preceito fundamental), que é usada para questionar leis editadas antes da Constituição de 1988. O partido pede uma avaliação do tribunal sobre lacunas da Lei 1.079, de 1950, que define os crimes de responsabilidade do presidente da República e sua forma de julgamento.

O partido pede que o STF determine que várias regras da lei sejam interpretadas de modo a dar a presidente o direito de se defender antes e que seja declarada ilegal a utilização de normas previstas nos regimentos internos da Câmara e do Senado para esses tipos de casos.

Um dos argumentos do PC do B é que a lei 1079 não prevê que a presidente seja ouvida para que se deflagre o processo, cerceando o direito de defesa da petista.

O partido quer uma liminar para suspender o processo deflagrado por Cunha e que, depois, o Supremo julgue a legalidade da lei.

No Supremo, ministros dizem que pode haver uma discussão sobre o rito do processo de impeachment já que há brecha sobre a Lei 1.079, de 1950, que define os crimes de responsabilidade do presidente da República e sua forma de julgamento.

Ministros ouvidos pela Folha sob a condição de anonimato avaliaram que, em tese, não há problemas de Cunha acolher o pedido de impeachment, uma vez que esta é uma atribuição do cargo. Os ministros ressaltam, no entanto, que o processo de afastamento tem que preencher os requisitos legais.

De acordo com os integrantes do Supremo, o clima no tribunal é de garantir a "regra do jogo", ou seja, sem interferência direta, mas agindo para evitar abusos ou que a lei seja desrespeitada. Nesse momento inicial, dizem os ministros, o Supremo não deveria travar o debate no Congresso.

Um dia após Cunha aceitar o pedido de impeachment, o governo sofreu duas derrotas no STF. O ministro Celso de Mello mandou arquivar uma ação do deputado Rubens Pereira e Silva Júnior (PCdoB-MA), que não teria legitimidade para questionar a determinação do presidente da Câmara porque não teve um direito próprio ferido.

Gilmar Mendes rejeitou outro argumento apresentado pelos deputados Paulo Teixeira (PT-SP), Paulo Pimenta (PT-RS) e Wadih Damous (PT-RJ) de que Cunha teria cometido desvio de finalidade ao aceitar o pedido de afastamento. Os petistas sustentavam que ele usou o impeachment para retaliar a decisão da bancada do PT de votar pela sua cassação no Conselho de Ética da Câmara.

Na decisão, o ministro disse que não encontrou vícios por parte de Cunha.

Para o governo, carta de vice foi tentativa de forçar rompimento

Valdo Cruz, Marina Dias, Mariana Haubert

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto avaliou que o vice-presidente da República, Michel Temer, tentou forçar um rompimento com o governo ao enviar uma cartaconsiderada dura a Dilma Rousseff e decidiu não reagir –buscando, inclusive, agendar um encontro entre os dois.

Com o aval da presidente, o ministro Jaques Wagner (Casa Civil) telefonou para Rodrigo Rocha Loures, assessor do vice, propondo uma reunião entre Dilma e Temer, o que foi acatado pelo peemedebista. O encontro deverá ocorrer nesta quarta (9).

"Não posso me furtar de conversar com a presidente", disse o vice a interlocutores.

Wagner foi o segundo emissário presidencial a procurar Temer e atuar como "bombeiro" após a divulgação da carta em que o vice explicitou a desconfiança de Dilma em relação a ele e a seu partido, o PMDB.

O primeiro foi o ministro Luís Inácio Adams (Advocacia-Geral da União), que esteve reunido com o vice até a madrugada desta terça no Palácio do Jaburu, com a missão de checar se havia clima para Dilma procurar o peemedebista no dia seguinte, o que acabou acontecendo.

Na avaliação do Planalto, Temer tentou, com a carta, fazer com que a iniciativa do rompimento partisse de Dilma. Nas palavras de um assessor palaciano, o governo optou por não cair na armadilha do peemedebista.

Uma ala do Planalto defendia, inclusive, não reagir nem procurá-lo –a tese acabou sendo vencida no governo, que se preocupa com o clima negativo no Congresso após a derrota na composição da comissão do impeachment.

A orientação de evitar reagir à carta de Temer caiu na noite de segunda (7), durante reunião da presidente com sua equipe, quando o documento foi divulgado.

Um dos poucos a criticar o vice foi o petista Miguel Rossetto (Trabalho e Previdência Social). "A história julga o comportamento dos homens públicos. Michel Temer, por duas vezes, jurou defender a Constituição", disse.

À tarde, auxiliares de Dilma avaliavam ter tomado a decisão correta, pois até dentro do PMDB o gesto do vice recebeu críticas.

Publicamente, senadores peemedebistas afirmavam que a carta é de cunho pessoal. Reservadamente, porém, reprovaram o tom da missiva e estranharam seu conteúdo. Alguns chegaram a dizer que Temer "apequenou-se" ao reclamar de nomeações de amigos para ministérios.

A avaliação geral foi de que a decisão, tomada solitariamente por Temer, sem consultar a cúpula do partido, acabou colocando-o como alguém diretamente interessado no impeachment.

Além da reação negativa de peemedebistas, assessores presidenciais destacavam que a carta de Temer virou "piada" nas redes sociais.

Líderes da oposição associaram a movimentação de Temer a uma aproximação daqueles que defendem o impeachment e consideraram como indicação clara de rompimento com o governo.

"A questão central é que o presidente do PMDB e vice-presidente da República, no entendimento do PSDB, se afasta definitivamente do governo", afirmou o senador Aécio Neves (MG), presidente nacional do PSDB.

Já para o líder do partido no Senado, Cássio Cunha Lima (PB), a carta revela todo o fisiologismo que existe na política brasileira, já que o vice reclama de indicados que deixaram o governo.

Carta
No documento, Temer diz que sempre soube "da absoluta desconfiança da senhora [Dilma] e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB" e que passou os primeiros quatros anos de governo como "vice decorativo".

O peemedebista abre a carta dizendo que as palavras voam, mas os escritos ficam. Avisa então tratar-se de um "desabafo" que deveria ter feito "há muito tempo" e expõe seu incômodo com declarações e ações de Dilma, do governo e de seus aliados sobre a "confiança" nele.

Carta do vice-presidente ajudou na derrota na Câmara, avalia governo

• Planalto considera que texto de Michel Temer direcionado a Dilma Rousseff criou clima de conflagração na base aliada

Vera Rosa e Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O governo atribuiu a derrota no primeiro teste do impeachment, nesta terça-feira, 8, à atuação do vice Michel Temer, que comanda o PMDB. Na avaliação do Palácio do Planalto, o clima de rebelião na Câmara dos Deputados piorou com o vazamento da carta escrita por Temer à presidente Dilma Rousseff. A presidente e o vice vão conversar nesta quarta-feira, 9, à noite, mas assessores dos dois lados afirmam que a oficialização do “divórcio” é apenas uma questão de tempo.

Nos bastidores, ministros culparam Temer pelo agravamento da crise política e disseram que o gesto dele, rompendo com o governo, funcionou como um gatilho para que alas do PMDB e de outros partidos da base aliada se rebelassem contra Dilma. Menos de 24 horas após a divulgação da carta, o Planalto sofreu um revés na Câmara, quando o plenário aprovou uma chapa majoritariamente contrária a Dilma para a Comissão Especial que analisará o impeachment. À noite, porém, uma liminar do Supremo Tribunal Federal suspendeu essa decisão.

“Eu não estou rompendo com o governo, mesmo porque sou o vice-presidente. Fiz apenas um desabafo, que já deveria ter feito há muito tempo”, afirmou Temer a amigos com quem se reuniu nesta terça-feira, no Palácio do Jaburu. “Fiquei indignado com o vazamento de uma carta que era dirigida à presidente e a mais ninguém.” Na correspondência, Temer se queixou de “menosprezo” e afirmou ter passado os quatro primeiros anos de governo como “vice decorativo”.

Após se dizer “perplexa”, Dilma enviou dois emissários para conversar com Temer e saber o que poderia ser feito para recompor o relacionamento institucional. O primeiro foi o ministro-chefe da Advocacia-Geral da União, Luís Inácio Adams, recebido pelo vice após a meia-noite de segunda-feira. Depois foi a vez do ministro da Casa Civil, Jaques Wagner.

No diagnóstico do Planalto, o vice não apenas não vai mover uma palha para ajudar Dilma a enfrentar o impeachment como deixou claro que pretende se juntar ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ao dizer que o pedido para o afastamento dela tem “lastro jurídico”.

“Quem apertou o botão do impeachment foi o PT, e não o Temer”, reagiu Cunha. Depois de muitas idas e vindas, os três deputados do partido no Conselho de Ética decidiram votar contra o presidente da Câmara, acusado de manter contas secretas na Suíça com dinheiro desviado da Petrobrás. Cunha nega as acusações e aponta “perseguição” do Planalto.

Latim. O tom duro da carta de Temer provocou tanta tensão no governo que, ao longo do dia, auxiliares da presidente e do vice se acusaram mutuamente pelo vazamento. “Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios, secundários, subsidários”, escreveu Temer. Ele iniciou a carta com uma expressão em latim (“Verba volant, scripta manent”), que significa “a palavra voa, o escrito permanece”.
A ordem no Planalto foi não reagir, mas o governo passou o dia medindo a temperatura da nova crise, com monitoramento das redes sociais. A conclusão foi a de que tanto Dilma quanto Temer saíram perdendo com o episódio.

Para Aécio, carta de Temer revela afastamento do governo e fisiologismo

• 'A questão central é que o presidente do PMDB e vice-presidente da República, no entendimento do PSDB, se afasta definitivamente do governo', disse

Isabela Bonfim e Ricardo Brito - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), afirmou nesta terça-feira, 8, que a carta do vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB-SP), na qual faz duras críticas à presidente Dilma Rousseff, é um claro sinal de rompimento entre os dois. “A questão central é que o presidente do PMDB e vice-presidente da República, no entendimento do PSDB, se afasta definitivamente do governo”, disse.

O tucano criticou, no entanto, o tom “fisiológico” usado por Temer no documento. “Talvez fosse mais apropriado discutir na carta mais questões do País que assuntos de caráter pessoal e interno”, afirmou Aécio. Segundo ele, o vice perdeu a oportunidade de se colocar como estadista num momento de crise e preferiu demonstrar preocupação com cargos: “Acho que houve ali um destaque excessivo para nomeação ou ausência de nomeações”.

No texto, Temer reclama que a presidente não renovou no segundo mandato a Secretaria da Aviação Civil, que era ocupada por um de seus aliados, Moreira Franco (PMDB-RJ). Também se queixa de que a presidente nomeou este ano dois ministros indicados pelo líder da bancada peemedebista na Câmara, Leonardo Picciani (RJ), sem consultá-lo.

O presidente do PSDB também disse que verá com “calma” a acusação de que Temer também assinou decretos com gastos extraordinários do Orçamento – um dos principais argumentos para o processo de impeachment de Dilma. “Não estou pensando em entrar com pedido de investigação ainda”, disse. “É um assunto que veremos mais adiante.” A posição de Aécio diverge da opinião do líder da minoria no Senado, Alvaro Dias (PSDB-PR), que vai levar o caso ao Tribunal de Contas da União (TCU).

PMDB. Até mesmo entre peemedebistas, houve críticas ao conteúdo da carta de Temer. As principais reclamações partiram dos senadores do partido, cuja maioria ainda se encontra mais afinada com a presidente. “Acho que Michel fez seu próprio impeachment”, disse uma liderança. Um dirigente da Executiva do PMDB que encontrou-se com Temer ontem avaliou que o vice demonstrou-se “agoniado” e “apreensivo” com a repercussão negativa da carta na opinião pública.

Em Paris, onde participa da 21.ª Conferência do Clima (COP21) das Nações Unidas, a ex-ministra Marina Silva (Rede) avaliou que a carta enviada pelo vice-presidente “oficializa” a ruptura com Dilma e os dois partidos, PT e PMDB, o que, segundo ela, “na prática já ocorreu”. Para Marina, Temer também é responsável pelas pedaladas fiscais. / Colaboraram Andrei Netto e Giovana Girardi, Enviados especiais a Paris.

Tucanos veem rompimento

O Globo

Integrantes da oposição se disseram incrédulos com o agravamento da crise que envolve a presidente Dilma e seu vice, Michel Temer, que em carta enviada a sua companheira de chapa revelou a disposição de se manter distante, no momento em que ela enfrenta um processo de impeachment. Senadores tucanos avaliaram que a carta significa uma ruptura profunda e irreversível entre os dois e criticaram a preocupação de Temer por cargos no governo.

— Vejo que é uma carta de rompimento, na qual o vicepresidente demonstra sua contrariedade, a sua amargura em relação à presidente da República. Acho, entretanto, que ele poderia ter se detido na questão republicana, na questão maior do mal que este governo e o PT fizeram ao país nestes últimos 13 anos. Acho que houve um destaque excessivo para nomeação ou ausência de nomeação — criticou o presidente do PSB, senador Aécio Neves (MG).

Presidente da Comissão de Relações Exteriores, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), avalia que a carta foi uma “ruptura grave”, sinal verde para o PMDB aprovar o impeachment da presidente:

— Acho que esse é um movimento sem volta. A presidente Dilma cometeu a imprudência de tentar dividir o PMDB e isso não está certo. Penso que essa carta é sinal de uma ruptura irreversível, sinal de consequências muito graves para a presidente.

Temer atribui vazamento da carta ao Planalto

Valdo Cruz – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A equipe do vice-presidente Michel Temer atribui ao Palácio do Planalto a responsabilidade pelo vazamento de trechos da carta enviada pelo peemedebista à presidente Dilma, gerando mal estar entre os dois lados.

Em conversa com interlocutores nesta terça-feira (8), Temer disse que cercou-se de todos os cuidados para que o documento não vazasse e fosse entregue diretamente no gabinete da presidente.

Escrita quando ainda estava em São Paulo na segunda-feira (7), a carta foi ditada pelo vice-presidente para sua chefe de Gabinete em Brasília, Nara Vieira, por volta das 16h, com a recomendação de que, em seguida, fosse colocada num envelope lacrado e encaminhado para Dilma.

O envelope foi entregue ao chefe de Gabinete da presidente, Álvaro Baggio, às 17h15. Às 17h34, Baggio ligou para Nara avisando que já havia entregue o documento para a presidente Dilma.

Naquele momento, a petista estava reunida com os ministros Jaques Wagner (Casa Civil), Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo) e Nelson Barbosa (Planejamento) discutindo a votação da LDO (Le de Diretrizes Orçamentárias).

Logo depois de chegar em Brasília, por volta das 21h, Temer foi avisado por assessores que trechos de sua carta estavam sendo divulgados por emissoras de TV.

A reação de Temer foi logo atribuir o vazamento ao Palácio do Planalto, depois de checar com sua chefe de Gabinete se havia comentado com alguém o teor do documento ou mostrado uma cópia à sua equipe.

"Como ela negou, e confio nela, e somente eu e ela tínhamos uma cópia do documento, o vazamento foi feito pelo Palácio do Planalto", reclamou o vice com assessores na tarde de ontem.

A interlocutores, Temer fez ainda o seguinte comentário sobre a divulgação de trechos do texto, em que diz que a presidente nunca confiou nele nem no PMDB: "Se eu soubesse que o governo ia vazar a carta, não teria escrito algo na linha do desabafo, em tom tão pessoal. Teria feito algo mais político, refinado, no meu estilo de trabalho".

Depois que os trechos do documento estavam sendo divulgados por jornalistas de TV, a equipe de Michel Temer decidiu então liberar cópia da carta para alguns jornais para mostrar "com transparência" o que dizia o vice-presidente no documento.

O Palácio do Planalto, procurado pela Folha, nega que tenha feito qualquer tipo de vazamento da carta enviada por Temer à presidente.

Impeachment não é só por corrupção ou peculato, diz Mendes

Por Renata Batista – Valor Econômico

RIO - Com uma comparação entre o processo que derrubou o então-presidente e atual senador Fernando Collor de Mello (PTB) e o que enfrenta a presidente Dilma Rousseff (PT), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes defendeu ontem que não é preciso que haja corrupção e peculato para que se caracterize improbidade e crime de responsabilidade passíveis de um impeachment. Para o ministro, é natural que haja uma tentativa de judicialização do processo, mas a questão deve ser decidida no âmbito político.

Em sua avaliação, o processo não pode ser caracterizado como uma tentativa de ruptura institucional ou golpe, como tentam fazer os aliados da presidente. "Alguém falou de ruptura no caso do Collor? Tivemos, depois disso, uma fase promissora, com Itamar [Franco], com o Plano Real. A vida andou. Não é golpe", disse.

Para Mendes, que participou de evento da área jurídica na Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, é normal haver questões de ordem como a que levou ao adiamento da formação da comissão de impeachment na Câmara dos Deputados, na segunda-feira.

"É lógico que há muitas discussões e tudo isso será judicializado. Não sei se terão as respostas que esperam do Judiciário", alertou o ministro, que oficiou uma reclamação na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) contra a tentativa do PT de desistir de questionar a decisão do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de abrir o processo de impeachment. O PT desistiu do questionamento quando o processo foi sorteado para ser analisado por Mendes.

"Não se pode brincar com a Justiça. Isso não é adequado e é importante que a opinião pública saiba com quem estão lidando. Afinal, eles têm legitimidade, têm representação. É o maior partido do Congresso Nacional", disse Mendes.

Questionado sobre a legitimidade de Cunha para conduzir o processo de impeachment, o ministro disse que o afastamento do presidente da Câmara deve ser decidido pela Casa. "Cunha está na plenitude de suas funções. Como tal, ele vai continuar presidindo a Câmara com toda a carga institucional. Essa é uma decisão [afastamento] que cabe fundamentalmente à Câmara", frisou.

Defendendo a participação dos vários atores no processo, ele disse que há "incompreensão" entre a presidente e seu vice, Michel Temer, mas que o tempo pode ajudar na maturação das posições. Não quis se posicionar, porém, sobre um possível adiamento do recesso parlamentar. "O tema deve ter celeridade, mas tem também a questão da impugnação do mandato que está no TSE e projetará seus efeitos em 2016", disse.

Inflação de 10,48% em 12 meses é a maior desde 2003

• Em novembro, IPCA é de 1,01%, maior taxa desde 2002. No ano, chega a 9,62%, diz IBGE

Por Lucianne Carneiro – O Globo

RIO - O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial no país, acelerou de 0,82% para 1,01% na passagem de outubro para novembro. É a maior taxa para o mês desde 2002, quando foi de 3,02%. No resultado acumulado em 12 meses, o índice chegou a 10,48%, o maior desde novembro de 2003, quando foi 11,02%. No ano, a taxa é de 9,62%, mais alta desde 2002. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira pelo IBGE.

Coordenadora de índices de preços do IBGE, Eulina Nunes dos Santos, explicou que a inflação chegou aos dois dígitos por causa da aceleração da inflação ao longo de 2015:

— A taxa deste ano carrega reajuste de vários itens importantes no orçamento, como energia, água e esgoto e teve pressão forte no câmbio, recentemente tivemos aumento no óleo diesel, a gasolina. E reajuste do diesel, apesar de não se ver diretamente no IPCA porque é pequeno, afeta todos os setores por causa do frete. Existe uma pressão de custo multicausal, com várias causas, que levaram a inflação a se acelerar.

Metade da alta da inflação em 12 meses (51,34%) veio apenas de alimentos, energia elétrica e combustíveis. Da taxa de 10,48%, pouco menos de um terço (27,39%) veio de alimentos, 14,41% de energia elétrica e 9,54% de combustíveis.

Nos 12 meses encerrados em novembro, os preços de alimentos subiram 11,56%, enquanto a energia elétrica teve alta de 51,27%. A energia teve individualmente a maior influência na alta do IPCA no período, com impacto de 1,51 ponto percentual dos 10,48%.

Quase metade da alta da inflação em novembro frente a outubro (0,46 ponto percentual dos 1,01%) veio do grupo de alimentos, que subiu 1,83%. A segunda maior influência veio de transportes, com alta de 1,08% e impacto de 0,20 ponto percentual. Individualmente, o item que mais subiu em novembro foi combustível, com aumento de 4,16% e impacto de 0,21 ponto percentual.

Entre os combustíveis, o preço da gasolina avançou 3,21% (impacto de 0,13 ponto percentual. Quando se considera os meses de outubro e novembro, o preço ficou 8,42% mais caro, diante do reajuste de 6% nas refinarias em 30 de setembro. Já o preço do etanol variou 9,31% em novembro, com impacto de 0,08 ponto percentual.

No grupo de transportes, a influência veio dos combustíveis, mas também das tarifas de ônibus urbanos, que subiram 1,11%. A alta reflete reajustes em Fortaleza, Belo Horizonte e Campo Grande.

Nos alimentos — que têm peso de 25% no IPCA —, o preço daqueles para consumo em casa subiu 2,46%, enquanto a alimentação fora do domicílio subiu 0,70%. Entre os itens, a maior alta em novembro foi da batata-inglesa, de 27,46%, seguida pelo tomate (24,65%) e açúcar cristal (15,11%).

No mês de novembro, o preço da energia elétrica subiu 0,98%, puxada pelo aumento de 7,47% no Rio de Janeiro por causa do reajuste de 16% a partir de 7 de novembro, pela alta de 2,39% em Porto Alegre, também com reajuste de 5,82% a partir de 25 de outubro e pela variação de 0,17% em São Paulo, com reajuste de 15,50% a partir de 23 de outubro na tarifa de uma das concessionárias. Com aumento de energia, o grupo Habitação registrou alta de 0,76% em novembro.

Indexação de preços
Eulina, do IBGE, lembrou que a inflação acumulada em 12 meses ficou na faixa dos 9% em quatro meses e em 8% em outros quatro meses:

— As taxas mais reduzidas ficaram mais no início do ano.

Ela admitiu que a inflação elevada tem efeito nas altas de preços no futuro, tanto pela questão psicológica de repasse de preços quanto pela influência da indexação, já que muitos contratos ainda são reajustados pela inflação, como é o caso de plano de saúde. Mas ponderou que a situação é muito diferente do passado, quando se tinha "inflação desenfreada":

— Ainda tem vários itens que são indexados por contrato, então a inflação de um ano vai determinar aumento forte de alguns itens nos anos seguintes. E há uma questão psicológica, de que se está tudo caro se aumenta os preços. Mas está muito longe de comparar com época de inflação desenfreada. Naquele período não havia parâmetro de preços, se aumentava várias vezes ao dia, até para o IBGE era difícil medir, não se conseguia nem explicar as causas.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) — que considera a inflação para as famílias com renda domiciliar de até cinco salários mínimos — acelerou frente a outubro e subiu 1,11% em novembro. Com isso, o resultado acumulado no ano chegou a 10,28%, enquanto a taxa em 12 meses foi de 10,97%. Em outubro, o resultado acumulado em 12 meses tinha sido menor, de 10,33%. Nesse indicador, os preços de alimentos subiram 1,98% em novembro, ante 0,80% em outubro.

No mês de outubro, a inflação acumulada em 12 meses tinha escapado por pouco dos dois dígitos, ao ficar em 9,93%. A última pesquisa Focus, realizada semanalmente pelo Banco Central, elevou pela 12ª semana seguida a previsão para o IPCA de 2015. O boletim divulgado na segunda-feira indica que a taxa fechará o ano em 10,44%. Em 2016, de acordo com a mediana das previsões, a inflação também ficará em 6,7%, acima do teto da meta do governo. A meta oficial de inflação é de 4,5%, podendo variar dois pontos para cima ou para baixo. Em caso de descumprimento da meta, o BC é obrigado a fazer explicações públicas.

Considerado a prévia da inflação oficial, o IPCA-15 ficou em 0,85% em novembro — maior taxa para o mês desde 2010 (0,86%). O resultado mostrou uma aceleração frente a outubro, quando ficou em 0,66%. No ano, a taxa acumulou 9,42% — índice mais elevado para o período desde 1996 (9,70%). De janeiro a novembro de 2014, o índice ficara em 5,63%. Em 12 meses, a alta de preços passou dos dois dígitos e chegou a 10,28%, também o maior resultado desde novembro de 2003 (12,69%).

Convite: Debate - A crise política

• Dia: 10 de dezembro (quinta-feira)

• Horário: 18. 00 hrs.

• Promotor: Fundação Astrojildo Pereira

• Debatedores: Luiz Werneck Vianna (PUC-Rio), Milton Temer (jornalista), César Benjamim (sociólogo)

• Moderador: Comte Bittencourt (Deputado)

• Local: ASA – Associação Scholem Aleichem
Rua São Clemente, 155 –fundos – Botafogo – Rio de Janeiro

Convide seus amigos!

Merval Pereira - Vento contra Dilma

O Globo

É provável que, a esta altura, o Palácio do Planalto já não conte mais nem com os 199 votos que apoiaram a chapa oficial derrotada no plenário da Câmara ontem. À medida que os ventos sopram a favor do impeachment, a tendência é o governismo ir se desidratando. Aliás, o ministro Ricardo Berzoini, o articulador político do governo, foi premonitório quando disse dias atrás que “ou temos votos suficientes para vencer essa parada ou significa que o governo não tem base política para se manter como governo”.

Ele interpretou de maneira clara o espírito do impeachment, que é uma decisão política do Congresso a partir da constatação de crime de responsabilidade cometido pelo presidente da República. Uma espécie de voto de desconfiança do regime presidencialista, mais rigoroso que o do parlamentarismo, pois exige pelo menos a constatação de um crime, não bastando que o governante perca a condição de governar, o que se constata a cada dia.

Ontem ficou demonstrado que, longe das pressões palacianas, a maioria fica contra a presidente Dilma. No momento, ela ainda tem votos suficientes para manter o poder, mas já existe a clara sinalização de que, mesmo que escape da votação, não terá maioria para governar, e seus problemas e, por conseguinte, os do país continuarão os mesmos.

Uma eventual vitória no plenário da Câmara, hipótese que a partir de ontem passa a ser improvável, não fará com que sua popularidade melhore, nem com que seu apoio congressual aumente. Vai ter sempre que pagar chantagens explícitas dos que se mantiverem ao seu redor, piorando ainda mais a gestão governamental.

A votação secreta definida com base no regimento interno da Câmara tem o respaldo dos procedimentos internos para a escolha dos cargos da Mesa Diretora e de toda a direção das comissões da Casa. Como a Constituição não trata da formação da Comissão do impeachment, que é tema de uma lei, não há como dizer que é inconstitucional a escolha por voto secreto, nem cabe comparação com, por exemplo, a votação para confirmar a prisão do senador Delcídio do Amaral.

A Constituição definiu que as votações no Congresso deverão ser abertas, seguindo o critério da publicidade e da transparência, e determinou os casos em que ela deve ser fechada, para proteger o parlamentar: sempre que uma pressão de fora, especialmente dos governantes, possa interferir na escolha.

Votação, como no caso de Delcídio, não tem nada a ver com eleição, que é o que aconteceu ontem na Câmara, com urna eletrônica e tudo; aliás, dez delas foram quebradas pelos governistas na tentativa de invalidar a eleição. É também por ser uma eleição que foi possível apresentar uma chapa alternativa à oficial, pois na lei que trata do assunto está dito que a comissão “será eleita”, sem definir que somente aos líderes caberia a indicação dos membros da Comissão.

A ser assim, a votação no plenário da Câmara seria apenas homologatória da decisão dos líderes, o que não está definido em lei. É pouco provável, portanto, que o Supremo Tribunal Federal anule uma eleição já realizada na Câmara, o que seria uma interferência indevida em outro Poder, já que não se trata de matéria constitucional.

Mas, antes da eleição de ontem, o ministro Luiz Fachin estava inclinado a propor ao plenário um rito para o processo de impeachment, a partir de uma ação do PCdoB que defende a esdrúxula tese de que o presidente da Câmara deveria, antes de aceitar o pedido de impeachment, dar 15 dias para a presidente Dilma se defender. À noite, ele decidiu suspender os trabalhos da Câmara para definir a Comissão até que, na próxima quarta-feira, o plenário do Supremo decida sobre como proceder.

De qualquer maneira, o processo político que começou ontem definirá os rumos do país, e o vento está soprando contra a presidente Dilma.

Dora Kramer: Pernas curtas

- O Estado de S. Paulo

É a tal história: não se pode enganar a todos o tempo todo. Foi isso o exposto na carta do vice-presidente, Michel Temer, endereçada à presidente Dilma Rousseff, onde listou uma a uma todas as razões pelas quais é falsa a afirmação dela de que não desconfia “nem por um milímetro” do vice e do PMDB.

Se o Palácio do Planalto queria constranger Temer ao divulgar a carta, acabou exibindo a dubiedade do jogo do governo, trincando de vez o resto de confiabilidade do País na palavra da presidente. O PMDB pode não ser confiável, verdade, mas ela tampouco é digna de credibilidade. Situação mortal para um governante.

O uso da mentira não consta da Constituição como razão para a interrupção de um mandato presidencial. Na teoria, não é crime de responsabilidade. Na prática, denota a completa irresponsabilidade do Poder que dela faz uso permanente.

A carapuça se encaixa perfeitamente às cabeças do PT, do ex-presidente Luiz Inácio da Silva e da presidente Dilma que, depois de alguma hesitação, incorporou o hábito em sua plenitude, embora não com a competência dos companheiros hábeis no manejo das palavras, atributo com o qual Dilma não foi agraciada.

Mentir, aqui no nosso Brasil de todas as manhas, não leva presidentes à deposição – nos Estados Unidos por pouco não levou Bill Clinton ao impeachment –, mas, a depender da intensidade da mentira, o governante não escapa da perda da reputação. Dilma bate no peito a celebrar sua presumida honestidade.

Porque não rouba (não obstante deixe roubar) nem tenha contas no exterior (apesar de admitir durante a campanha que guardava dinheiro “no colchão”) ou não – ao que se saiba – se dê à prática de ocultar patrimônio, a presidente julga-se dona de reputação ilibada e, por isso, merecedora de toda confiança.

Mostra-se desonesta, porém, quando mente e deixa que seus auxiliares mintam. Para ganhar a eleição de 2010, embarcou na falácia de Lula sobre a excelência de sua capacidade administrativa. Para se reeleger, em 2014, criou uma fábula segundo a qual a oposição, se vencedora, jogaria o Brasil na recessão e no retrocesso. Foi desmentida pelos fatos.

Da mesma forma como a realidade desmentiu Lula na ideia de demonstrar a “farsa do mensalão” ou como a Operação Lava Jato mostrou o quanto falsa era a versão da presidente Dilma de que tudo ia “bem na Petrobrás”.

Embora não tenha tido a intenção de divulgar, mas de fazer da carta à presidente uma pauta para conversa futura entre os dois, Michel Temer, por via torta, acabou prestando um serviço ao País ao demonstrar que mentira tem limite e preço.
Ainda que não tenha sido essa a intenção, o vice-presidente teve um ato de coragem.

Antes cedo. Há uma razão para o senador José Serra discordar da ideia de postergar ao máximo o andamento do processo de impeachment, defendida pela oposição em geral, PSDB em particular.

Serra acha que quanto mais rápido isso de resolver, mais chance o governo de transição – no caso de ser aprovado o impeachment – teria para mostrar resultados ao País em termos de recuperação da economia e, em decorrência, os condutores conseguirem obter benefícios eleitorais em 2018.

Não é segredo para ninguém que, configurada a substituição de Dilma por Michel Temer, o senador tucano seria o homem-chave nesse setor. Estaria, assim, aberta a ele a possibilidade de repetir Fernando Henrique Cardoso quando assumiu o ministério da Fazenda no governo tampão de Itamar Franco.

Eliane Cantanhêde: Depois do leite derramado

• Com a carta de Temer e a decisão da Câmara, impeachment muda de patamar

- O Estado de S. Paulo

A principal consequência da carta de Michel Temer para Dilma Rousseff é que a guerra do impeachment mudou de patamar e o governo perdeu a sua estratégia política (junto ao Congresso) e de marketing (junto à opinião pública). A guerra não é mais entre a “vítima” Dilma e o “algoz” Eduardo Cunha. Passou a ser entre a presidente da República e o seu vice, coisa de peixe graúdo. Quem é vítima de quem?

O rompimento com seus vices pode ser fatal para os presidentes. O governo Figueiredo começou a ir a pique, levando a ditadura militar junto, quando o vice Aureliano Chaves passou a falar alto, dizer umas boas verdades e arregimentar os dissidentes do regime. E o impeachment de Fernando Collor só virou realidade quando seu vice Itamar Franco virou-lhe as costas e atraiu o consenso nacional.

Logo, todo o cuidado é pouco quando Dilma e o Planalto tratarem a carta de Temer, o partido de Temer e o próprio Temer. “Estou quieto no meu canto, mas não param de insinuar e vazar para a imprensa que não têm confiança em mim, que estou conspirando, que participo de um golpe. Estou cansado disso. Minha carta foi um desabafo”, me disse o vice ontem.

Temer tem sido recebido calorosamente por empresários de diferentes setores, exaustos com a crise econômica, e foi aplaudido de pé na Federação do Comércio de São Paulo no mesmo dia em que enviou a carta para Dilma. Ele, porém, tem um discurso decorado para seus interlocutores: “Não conspiro, não desejo a queda dela, só espero uma solução rápida, para o país sair da crise. E se ela cair? Bem, aí eu cumpro meu dever constitucional”. Ele não vai conspirar a favor nem vai pegar em armas contra o impeachment, vai ficar exatamente como sua função exige: a postos.

Em seu livro “Elementos de Direito Constitucional”, de 1976, já em sua 30ª edição, o professor Temer já dizia a mesma coisa que repetiu em artigo para a imprensa em 1992, diante da possibilidade objetiva da queda Collor: “o julgamento por crime de responsabilidade é político, não jurisdicional”.

Isso significa que o deputado e o senador não votam exclusivamente porque o (ou a) presidente tem conta no exterior, fraudou o fisco ou desviou dinheiro público. Como Temer ensinava antes e mantém agora, os parlamentares se perguntam, também, se é ou não conveniente para o país manter aquele(a) presidente.

Com a vitória da chapa da oposição, ontem, no plenário da Câmara, supõe-se que o “centrão” da base aliada acha que Dilma não convém mais e, se é assim, não custará nada traí-la de novo, na hora “H”. Lembre-se, porém, que a presidente só precisa de 171 votos para se manter no poder, o equivalente a um terço dos deputados. Ela tem isso. Se não tiver, é porque o governo, na prática, já acabou.

O quadro, portanto, continua muito instável, imprevisível. Só uma coisa parece certíssima: Temer não usou nenhuma vez termos como “rompimento”, “desligamento” ou “impeachment”, mas sua carta é cristalinamente rompendo com Dilma e o governo.

Depois de enumerar onze episódios que demonstram desconfiança, deselegância e desapreço de Dilma pelo seu vice e pelo PMDB, Temer conclui: “Sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã”. Leia-se: não tem jeito.

E Temer nem se lembrou de outros desaforos de Dilma, como o estímulo para Gilberto Kassab criar um partido para destronar o PMDB na aliança. Ou como o telefonema do então poderoso Mercadante para o vice, em nome de Dilma, ameaçando demitir todos os ministros do PMDB por causa da votação do Código Florestal.

Sim, Dilma e Temer conversariam ontem à noite, no mais tardar hoje, mas conversar sobre o que? Dizem que não adiantar chorar sobre o leite derramado. Dilma derramou todo o leite, talvez seja muito tarde para chorar. Temer está pronto para “cumprir seu dever constitucional”. Se for o caso...

Rosângela Bittar: Dilma, sai foguinho

• Temer expôs o PMDB que não larga o osso e apoiou impeachment

- Valor Econômico

O problema, vê-se agora, não era Aloizio Mercadante. O governo trocou o chefe da Casa Civil, entregou o bastão da negociação ao mais moderado, simpático e homem do diálogo que existe no PT, Jaques Wagner, e continua totalmente aleatório em matéria política.

A presidente Dilma Rousseff, neste momento dramático do seu segundo mandato que sequer começou, vê a situação degringolar a cada novo passo. Na chegada à beira do precipício, Dilma parecia caminhar segura. Começou a pisar em falso. Conseguiu virar a situação adversa da chantagem que teria sido feita por Eduardo Cunha para ser salvo pelo PT em troca da salvação de Dilma. A direção do partido pressionou os deputados contra Cunha, o Palácio pressionou a favor, Dilma perdeu. A presidente tentou inverter a mão mas ficou claro que estava metida no arranjo.

Acolhido o impeachment, ação que o PT denominou de retaliação - o presidente da Câmara exerceu seu papel, com legitimidade, ainda não perdeu o cargo e essa é sua prerrogativa -, Dilma começou a perder o foco e a atirar em todas as frentes. Executou uma estratégia de campanha eleitoral, que começava por vitimizar-se intensamente, aproveitando o fato de estar o Cunha carregado de denúncias na Operação Lava-Jato, Dilma acabou batendo boca com o algoz cuja legitimidade não reconhecia, e agarrou-se ao slogan "não tenho dinheiro no exterior", de fácil apelo popular, uma das acusações contra Cunha. Correu o risco do bumerangue do dinheiro no colchão, mas escapou, o do exterior valeu por 24 horas.

Cunha tem a caneta legal para fazer o que fez, e em todos os casos dos grandes escândalos investigados no governo o botão detonador foi acionado por um participante do grupo enquadrilhado. Dilma não se preparou, o marketing da vitima morreu logo ali com as iniciativas erradas que patrocinou. O governo entrou com três mandatos de segurança contra a acolhida do impeachment, e a decisão do Supremo Tribunal Federal fortaleceu Cunha, dizendo que ele estava fazendo o que tinha direito de fazer. O PT tentou tirar decisões das mãos do sorteado ministro Gilmar Mendes, provocando uma reação irritada de todo o tribunal.

O esquema de defesa traçado foi dando errado, mas Dilma seguiu com o script de orientador de campanha. É como se estivesse disputando uma eleição para um mandato de três anos, com um colégio eleitoral pequeno, precisando de poucos votos para vencer, e ainda se enrola. Ela tergiversa, fantasia, teatraliza, como quando estava em campanha. Passou a convocar entrevistas para martelar um slogan. Tem feito dois a três discursos por dia para auditórios formados por claques. Já reuniu governadores, ministros, advogados e professores de direito que apoiam o governo para que falem contra o impeachment. Desse último grupo conseguiu uma proeza: os doutores fizeram a defesa política da presidente alicerçada em um tripé que vem sendo apresentado por defensores oficiais: 1- Dilma transgrediu a lei orçamentária porque tinha precedente em Fernando Henrique; 2- Pedalou para pagar a Bolsa Família que seus adversários queriam que não pagasse; 3- Cunha, denunciado, não tem moral para aceitar pedido de impeachment.

Juristas, caídos de paraquedas no Planalto, não tinham condições mesmo de, no improviso, fazer uma defesa real contra o crime de responsabilidade de que a presidente está sendo acusada. Mas a defesa política já servia para Dilma, pois confunde, movimenta, embaralha, e, como são juristas, fica tudo parecendo legal.

Aos governadores e ministros impôs o mesmo tipo de adesão. Em meados da semana passada o Palácio começou a ficar incomodado com o silêncio do vice Michel Temer sobre o impeachment. À sua revelia, os ministros da Casa Civil e da Comunicação anunciaram o que seria a opinião do vice, dita à presidente, segundo a qual não havia lastro jurídico para acolher o impeachment.

Temer saiu então do silêncio para desmentir dois ministros que se sentam ao lado da presidente. E passou ele a ficar profundamente incomodado com a cobrança pública de lealdade.

Ao dizer que "ele sempre foi extremamente correto comigo", "Não tenho porque desconfiar dele um milímetro", "Espero integral confiança de Temer", a presidente armava o terreno para, em seguida, anunciar o "fui traída", caso o vice assumisse seu lugar. Uma professora convencendo o aluno teimoso, renitente, iniciando assim o processo de infantilização da conversa que o PMDB governista, para defender seus cargos com agressividade notável, atribuiu à carta do vice para desmoralizá-la.

Quando Dilma tentou convencer a criancinha rebelde a ficar quietinha, na base do discurso em público, Temer ficou definitivamente entalado e falou a linguagem que Dilma entende: "Não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo desses cinco anos", disse na carta, e citou ponto por ponto das desavenças do período, que o PT também entende.

Foi uma carta simples, pé no chão, destemida, dando o nome certo às rasteiras que considera ter levado. Carta de denúncia da aliança, quase formalização da ruptura que, como se viu, já existia. E nada havia de novo que os partidos aliados ao PT não soubessem. Era uma atitude estranha apenas para o PMDB, rei da hipocrisia.

Como vão governar juntos se não houver impeachment é o que mais se perguntava ontem no governo. Ora, como governaram até agora, separados, com Dilma boicotando Temer e o PT boicotando o PMDB. A atitude de Dilma desagrada o PT, Temer desagrada o PMDB que não larga o osso. Adiante com a guerra. Ontem mesmo a presidente sofreu novo revés na sua estratégia de jogar uns contra os outros e negociar com as pessoas erradas: a Câmara aprovou a comissão do impeachment composta pela oposição contra a montada no Palácio do Planalto, enquanto ela ainda discutia o que fazer com a carta de Temer.

O que provocou a ala do PT próxima a Lula a atacar a estratégia do Planalto. "O cara já mandou carta de rompimento, já se reuniu com a oposição, já fez plano de governo em que ele é a ponte para o futuro, já saiu de casa e está dormindo no hotel, tirou discos e livros das estantes, disse, meu bem, estou indo embora e aqui estão as razões, e a presidente ainda está dizendo que quer lealdade. É uma estratégia daltônica". Apesar da avaliação crítica o PT vai defendê-la em tudo. "Ela foi eleita por apenas três pontos de diferença, mas os adversários têm que se conformar. O governo é ruim mas Dilma fica até o fim".

Luiz Carlos Azedo: O governo líquido

• O Palácio do Planalto avaliou mal as próprias forças e acreditou que poderia atropelar a oposição. A derrota na eleição da comissão especial, em votação secreta, por 279 a 199, foi acachapante

Correio Braziliense

Às vésperas de completar o primeiro ano de mandato, o governo Dilma Rousseff está passando ao “estado líquido” em razão da forma como as crises política, econômica e ética se retroalimentam, agora agravadas pelo início do processo de impeachment da presidente da República. Assim como o governo vira suco, é incrível como o poder da presidente Dilma Rousseff está se volatilizando, isto é, passa ao “estado gasoso”.

A confusão de ontem na Câmara dos Deputados, na eleição da comissão especial que vai examinar o pedido de seu impeachment, ilustra bem a incapacidade de o Palácio do Planalto gerenciar a crise política, a única na qual o governo poderia encontrar uma saída negociada com as principais forças políticas para enfrentar a crise econômica, se tivesse apetência pra isso. O trio que comanda a tropa anti-impeachment na Câmara — o líder do governo, José Guimarães (PT-CE), do PT, Sibá Machado (AC), e do PMDB, Leonardo Picciani (RJ) — sofreu uma derrota inacreditável.

Havia um ambiente adverso, mas o Palácio do Planalto avaliou mal as próprias forças e acreditou que poderia atropelar a oposição. A derrota na eleição da comissão especial, em votação secreta, por 279 a 199, com duas abstenções, foi acachapante. A margem de segurança da presidente é de apenas 28 votos para evitar que o processo do impeachment seja aprovado, o que exige 342 votos. Não participaram da votação 41 deputados.

Os questionamentos jurídicos dos governistas para reverter no Supremo Tribunal Federal (STF) a formação de uma comissão majoritariamente governista, mesmo que tenham algum sucesso (o ministro Edson Fachin suspendeu a instalação da comissão; o plenário da Corte julgará o caso na próxima quarta-feira), serão apenas protelatórios. Reza o regimento da Câmara que a comissão especial seja eleita em plenário; a maioria é oposicionista. Não há como impedir que seja constituída respeitando a correlação de forças na Casa. É assim que funciona a democracia, e não na base de depredação de cabines e urnas de votação.

Pela sucessão de erros de condução da política, parece que o maior adversário de Dilma Rousseff é ela própria, e não os líderes de oposição, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e, agora, seu mais novo desafeto público: o vice-presidente Michel Temer. O fracasso de Dilma na política não é assimétrico em relação à economia. A mudança da meta fiscal de um superavit projetado de R$ 56 bilhões para um deficit de R$ 120 bilhões em 2015 fala mais alto do que toda a retórica governista.

O governo não fez o ajuste fiscal nem pretende fazê-lo, ainda mais porque as forças que a presidente da República arregimenta para se manter do poder não o desejam. O resultado prático é país quebrado, principalmente as prefeituras, no setor público, e as indústrias, no setor privado. Quem paga o pato é a sociedade. Sem controle sobre o processo político, com a economia em depressão, a terceira variável da crise tríplice, a Operação Lava-Jato, é mais incontrolável ainda.

Ontem, o ex-líder do governo no Senado Delcídio do Amaral (MS), suspenso por 60 dias do PT, contratou o advogado Antônio Augusto Figueiredo Basto, o mesmo do doleiro Alberto Youssef, para negociar a delação premiada com o Ministério Público Federal. Preso preventivamente, o senador eleito pelo Mato Grosso do Sul foi denunciado pelo ex-diretor Internacional da Petrobras Nestor Cerveró, aquele que a presidente Dilma Rousseff acusa de tê-la enrolado na compra fraudulenta da refinaria enferrujada de Pasadena, no Texas (EUA), quando ela era presidente do Conselho de Administração da Petrobras. Delcídio é o novo homem-bomba.

Fim das utopias
Mas voltemos ao “governo líquido”. O sociólogo judeu-polonês Zygmunt Bauman, uma lenda viva, cunhou — sem trocadilho — o conceito de “sociedade líquida” para explicar o que está acontecendo no século XXI, em contraposição à sociedade industrial moderna, das duas guerras mundiais e da guerra fria, estruturada em classes sociais bem definidas, que deu origem aos partidos políticos modernos.

Segundo ele, a primeira diferença da sociedade sólida para a líquida é o fim das utopias. Não se pensa a longo prazo, os desejos já não se traduzem em projetos coletivos e no trabalho continuado, mirando as futuras gerações. A reflexão sobre a sociedade e o progresso como bem compartilhado deram lugar ao consumismo, ao prazer individual, ao imediatismo na sociedade, ao sabor do mercado. Na metáfora do caçador e do jardineiro que ilustra a teoria da “sociedade líquida”, o caçador da era pré-moderna está de volta, tomou o lugar do jardineiro, que caracterizaria o comportamento do indivíduo da sociedade do século XX.

Até que ponto essa realidade interfere na crise política que estamos vivendo? De certa forma, o governo Dilma está sendo tragado por uma “sociedade líquida”, quando nada porque o PT virou um partido de caçadores e não de jardineiros. O velho discurso de esquerda, exumado para barrar o impeachment, ainda motiva os mais empedernidos militantes, que estão perdidos na floresta, mas é incapaz de convencer a sociedade. Mas essa já é outra discussão.

Bernardo Mello Franco: A carta do vice

- Folha de S. Paulo

Além de alimentar a fábrica de piadas da internet, a carta de Michel Temer a Dilma Rousseff mostrou o nível rasteiro em que se discute o futuro da República. Das 883 palavras do documento, nenhuma trata dos problemas graves que o país enfrenta. Na maior parte do texto, o vice-presidente se limita a remoer mágoas pessoais e reivindicar cargos perdidos por aliados.

Temer se queixa de que Dilma o trata como "vice decorativo". Reclama que perdeu o "protagonismo" do passado. Diz que é visto com "menosprezo" pelos petistas. Em um trecho especialmente infeliz, protesta por não ter sido convidado para uma reunião com o americano Joe Biden.

"É um desabafo que deveria ter feito há muito tempo", dramatiza o vice. As redes sociais não perdoaram o tom lacrimoso da carta. Temer virou alvo de montagens cômicas e chegou a ser rebatizado de "Mimimichel".

Apesar de ter assustado o Planalto, o vice perdeu pontos no Congresso. "Se ele era um vice decorativo, por que desejou manter a aliança em 2014?", questionou o líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani.

No Senado, peemedebistas reclamaram que o vice só demonstrou preocupação com os empregos de amigos do peito, como Eliseu Padilha e Moreira Franco. A oposição também bateu duro. "A carta foi uma demonstração de fisiologismo puro", atacou o tucano Cássio Cunha Lima.

As lamúrias de Temer não combinam com a imagem de estadista que ele tenta projetar. Suas queixas soam pequenas demais para quem busca se credenciar como um líder maduro e capaz de tirar o país da crise.

Temer tropeçou na própria vaidade, mas sua carta serviu para ressaltar um grave defeito de Dilma. Em quase cinco anos na Presidência, ela manteve o mau costume de destratar aliados e desprezou a tarefa de cultivar amizades no Congresso. Esse comportamento arrogante, relatado até por políticos que dizem gostar dela, pode cobrar um preço alto na votação do impeachment.

Elio Gaspari: Temer está pintado para a guerra

• Enquanto Dilma dizia coisas nas quais não acredita, seu vice assumiu o papel de pretendente ao trono

- O Globo

Quando Dilma Rousseff disse “confio e sempre confiei” no vice-presidente Michel Temer, pois “não tem que desconfiar dele um milímetro”, sabia que essa era uma construção da realidade própria na qual é capaz de viver. Nela, doutorou-se em Economia pela Universidade de Campinas, foi presa por delito de opinião e, como se sabe, o país vive o momento da “Pátria Educadora”.

As pedaladas fiscais foram uma mentira contábil, o trem-bala e a ferrovia chinesa que uniria o Atlântico ao Pacífico foram delírios palacianos. Mesmo admitindo-se que todos os governos mentem, o perigo não está apenas nas patranhas, mas no mentiroso que acredita no que diz ou se julga livre para dizer qualquer coisa, dando por entendido que se deve acreditar nele.

Enquanto a doutora derramava sua confiança em Michel Temer, estava a caminho do Planalto uma carta do vice-presidente na qual, fugindo ao seu estilo aveludado, disse o seguinte: “Sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã”.

Dizer que essa é uma carta de rompimento é pouco. Temer pintou-se para a guerra e tornou-se, ao lado do deputado Eduardo Cunha, o principal estímulo ao impedimento da doutora. Já houve caso de vice-presidente (Aureliano Chaves) que, conversando com outra pessoa (o general Ivan Mendes), ameaçou meter a mão na cara do titular (João Baptista Figueiredo). Carta como a de Temer é coisa que nunca se viu.

Pode-se pensar o que se queira de Temer, mas deve-se reconhecer que ele listou fielmente oito episódios em que foi maltratado pela doutora. No mais grotesco, a falta de confiança foi explicitada quando ela puxou-lhe o tapete depois de pedir-lhe que assumisse a coordenação política do governo. Vale lembrar que Temer não precisava do lugar, e a manobra poderia ter dado certo, estabilizando o governo. No episódio mais ridículo, Dilma permitiu na semana passada que o comissariado do Planalto divulgasse uma versão falsa do teor de uma conversa que os dois tiveram. Nela Temer teria oferecido seus préstimos para deter o processo de impedimento. Era mentira. Seria injusto atribuir todas essas situações à doutora. O bunker petista do Planalto também opera num mundo próprio.

A queixa central de Temer está na hostilidade do comissariado para com o PMDB. É esse o nó que Dilma amarrou ao próprio pescoço. Logo depois de reeleita, ela aceitou a formulação de que o governo podia se afastar do valioso aliado. Isso seria possível, assim como seria possível eleger o petista Arlindo Chinaglia para a presidência da Câmara, derrotando Eduardo Cunha. Deu no que deu.

Desde agosto, quando Temer disse que se fazia necessário buscar “alguém” que tivesse “a capacidade de reunificar a todos”, Dilma passou a desconfiar quilômetros de seu vice. Os dois dançaram uma coreografia da enganação, com Temer esclarecendo que fora mal interpretado, e ela aceitando a explicação pois, mais uma vez, a culpa teria sido da imprensa.

Depois da carta de Temer, não se pode mais falar que há uma conspiração contra a permanência de Dilma Rousseff na Presidência. O processo para que a Câmara vote sua deposição segue o ritual do regimento, e o vice-presidente da República assumiu a condição de pretendente ao trono.

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Elio Gaspari é jornalista

Míriam Leitão: Fratura exposta

- O Globo

A sessão na Câmara dos Deputados, com quebra-quebra no plenário, mostra o quanto o mundo político está à beira do descontrole e continuará assim nas próximas semanas, nos trabalhos da Comissão Especial que vai avaliar o pedido de impeachment. A vitória da chapa organizada pela oposição torna a situação do governo mais difícil, mas a lei dá à Presidência muita chance de se proteger.

Esta semana tem sido de derrotas para a presidente. A carta do vice Michel Temer mostra a fratura exposta entre ela e parte do principal partido da coalizão governista. Se ontem a oposição ganhou 272 votos para a chapa dissidente é porque teve votos de integrantes de partidos que estão no poder. O governo teve apenas 199 votos, uma indicação de que sua base está se esfarelando, mas ainda consegue os 172 votos que precisa para barrar o impeachment.

Em relação ao vice era inevitável. Qualquer gesto que Michel Temer fizesse, que não fosse apoio total a Dilma, seria mal visto pelos governistas e entendido como conspiração. Mas o vice em qualquer democracia do mundo tem que estar preparado para assumir o governo numa eventualidade. Itamar Franco se afastou de Collor de Mello desde o início do governo, o que ajudou na época da crise. Michel Temer fez um caminho diferente.

Nos Estados Unidos, presidente e vice têm funções bem específicas, o que impede que um vice vire “decorativo” ou seja “menosprezado”, mas a ideia de substituição está até na proibição de que entrem juntos no Air Force One e na legislação que estabelece que o vice esteja de prontidão para assumir o cargo.

Michel Temer, como vice-presidente, tem tido um comportamento errático. Quando foi tratado como decorativo, durante quatro anos no primeiro mandato, ficou em silêncio e aceitou compor a chapa novamente já sabendo que não tinha a confiança da presidente. Quando foi chamado para ter uma função, ele aceitou e assumiu a coordenação política. Agora que a presidente está sob o risco de um processo de impeachment, ele escreveu a carta com sua lista das mágoas.

Nesta lista, algumas coisas ficam claras. A presidente Dilma deu demonstrações de desapreço de diversas formas e sequer seguiu o protocolo. Por que mesmo não convidar seu vice para uma conversa com o vice dos Estados Unidos, Joe Biden? Ela nada tinha a ganhar excluindo Temer e descumpriu o cerimonial. A inabilidade de Dilma acaba criando arestas desnecessárias. O fato de não chamá-lo para a formulação de políticas mostra que ela entende a coalizão apenas como distribuição de cargos, mas não como compartilhamento de ideias e programas.

Por outro lado, fica claro que Temer participava do poder através de pessoas ligadas a ele que foram nomeadas. Ele reclama que seus indicados foram afastados ou não eram ouvidos, mas ele nomeou para cargos no governo. Não está apartado do poder. Alguns fatos que ele aponta mostram que a presidente escolheu uma facção do PMDB para sua predileção, a de Leonardo Picciani “e seu pai”.

A principal crítica que se faz ao vice-presidente é que Temer tem tido conversas com lideranças políticas seja de seu partido, seja da oposição. Seria estranho se não tivesse. Por que ele deveria se fechar numa redoma e não conversar com ninguém? E se ele tiver que assumir o governo, como ele se prepara para isso?

Itamar Franco se preparou formando seu grupo, que passou a ter mais nitidez com o avanço da discussão do processo de impeachment e isso ajudou a governabilidade quando ele assumiu. A vantagem é que ele já havia demonstrado suas divergências em relação ao então presidente antes da crise que levou Collor a perder o cargo. Além disso, durante a tramitação do impeachment, um grupo de ministros se distanciou de Collor e passou a defender a governabilidade. Desse grupo faziam parte os ministros da Justiça, Célio Borja; da Fazenda, Marcílio Marques Moreira; das Relações Exteriores, Celso Lafer.

Por mais que Temer tente se afastar agora da presidente, em vários cenários os destinos dos dois estarão entrelaçados. Se prosperarem as ações no TSE, a chapa será atingida. Se não for barrado o pedido de impeachment na Câmara dos Deputados, a presidente seria atingida e não necessariamente o seu vice. Em qualquer caso, a fratura entre os dois agora ficou exposta.

Cristiano Romero: Semelhanças entre 2005 e 2015

• Risco de resposta populista de Dilma à crise política é real

- Valor Econômico

Há curiosas semelhanças entre o pior momento vivido por Luiz Inácio Lula da Silva em seus dois mandatos presidenciais e a crise enfrentada por Dilma Rousseff agora. No auge do escândalo do mensalão, na segunda metade de 2005, Lula percebeu que precisava se reaproximar de sua base social para defender o mandato. Depender apenas dos aliados no Congresso para evitar o impeachment era perigoso. Do ponto de vista programático, Dilma governou, desde o primeiro mandato, muito mais próxima dessa base social do que Lula nos três primeiros anos de governo. Afastou-se um pouco dela por causa da necessidade do ajuste fiscal, mas, agora, diante do perigo real de perda do cargo, tende a se reaproximar.

Impeachment só ocorre com voto no Congresso e clamor das ruas. Em 2005, a oposição a Lula constatou que não tinha nem uma coisa nem outra. O então presidente, assustado com a possibilidade de ser apeado do cargo pelo qual tanto lutou - foram três derrotas antes do triunfo de 2002 -, convocou as centrais sindicais e os movimentos sociais para irem às ruas defendê-lo.

Nos três primeiros anos de mandato, premido pela crise aguda que assolava o país na sua chegada ao poder, Lula fez um governo "conservador". Apesar do sucesso da política econômica - a inflação, que ameaçava sair de controle (chegou a 17% em 12 meses em abril de 2003), foi reduzida e domada, o Produto Interno Bruto (PIB) voltou a crescer e em 2005 a dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) foi quitada -, a insatisfação com os rumos da economia, nas hostes do PT e dos partidos de esquerda que apoiavam o governo, era grande.

Revoltados com a reforma da previdência e com o "neoliberalismo" da política econômica, intelectuais romperam com Lula de forma ruidosa. Aos sindicalistas que se queixavam da ausência de quadros do setor no governo, o presidente reagia com uma blague: "Vocês já têm o presidente da República". Internamente, entre 2003 e 2005, Lula pressionava a equipe econômica a fazer inflexões, especialmente na política de correção do salário mínimo, mas era sempre convencido a manter-se no rumo da responsabilidade fiscal e monetária, razão do sucesso obtido até ali.

Com o mensalão, fragilizado e enfrentando a ameaça de impeachment, Lula entregou dois ministérios às centrais sindicais - do Trabalho e da Previdência Social -, abriu outros espaços na máquina governamental para a esquerda do PT e os partidos aliados e começou a pressionar a equipe econômica a operar mudanças. As centrais, unidas pela primeira vez, fizeram exigências que custaram e ainda custam caro ao país: a sua participação no bolo de arrecadação do anacrônico imposto sindical e o veto às privatizações (não foi por outra razão que nenhum aeroporto foi entregue ao setor privado durante os oito anos de Lula).

Quando o impeachment ainda era um risco, o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, tentou convencer o presidente a lançar um plano para zerar o déficit público. Seria um aprofundamento das políticas que vinham sendo adotadas desde 2003 e que, na opinião de Palocci, reduziriam o ímpeto da oposição em levar o processo de impeachment adiante. A ideia era que, diante do "déficit zero", as próprias elites econômicas tratariam de aplacar os ânimos da oposição.

Economicamente, o plano poderia antecipar a obtenção do grau de investimento pelo país, abrindo espaço para uma queda mais rápida da taxa de juros e criando as condições para o país crescer de forma mais célere e sustentada. Comprometido com a base social engajada na defesa de seu mandato, Lula tratou, ao seu jeito, de matar aquele projeto no nascedouro. Agendou a apresentação da proposta, chamou Dilma, então chefe da Casa Civil, e instigou-a a fazer um contraponto. Foi fácil: contrária desde sempre a tudo aquilo, a então ministra não deixou Paulo Bernardo (ministro do Planejamento, encarregado da palestra) nem terminar de mostrar os slides. Ao jornal "Estado de S.Paulo", deu o tiro fatal: o plano era "rudimentar".

Qual Super-Homem, o herói, o todo-poderoso Palocci se viu diante de "kriptonita": os mercados perceberam que, após aquele episódio, o ministro ficou tão fraco que doravante a atenção devida era a Dilma. O que se viu nos anos seguintes, como consequência em última instância do risco de impeachment, foi a paulatina desfiguração do arcabouço de política econômica adotado pelo país em 1999 e abraçado e reforçado por Lula em 2003.

O que se vê agora? Em entrevista à Cláudia Safatle, do Valor, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, defendeu que a presidente Dilma enfrente o risco de impeachment com reformas, isto é, com as mudanças institucionais que ela nunca quis fazer - dois exemplos: a que estabelece idade mínima para aposentadoria e a que revoga o modelo de exploração de petróleo adotado sob inspiração dela, Dilma Rousseff.

Em 2014, a presidente foi reeleita a bordo de um discurso que, se materializado em ações governamentais, teria jogado o Brasil numa crise ainda mais profunda que a atual, algo difícil de imaginar. Muito relutante, ela decidiu nomear Levy, um dos expoentes do ajuste de 2003-2005, para corrigir parte dos desatinos cometidos nos últimos quatro anos. Contratou, com isso, a ira dos movimentos sindicais e sociais, dos quais depende agora para neutralizar um provável clamor das ruas por sua deposição. Que situação!

Desse enredo, não sairá notícia alvissareira para a economia. E a senha foi dada pelo presidente do PT, Rui Falcão. Crítico ferrenho da política econômica, já tendo defendido, inclusive, a demissão de Joaquim Levy, Falcão apoia a suspensão das hostilidades neste momento, mas avisa aos navegantes: superado o risco de impeachment, "a reivindicação por mudanças pode se afirmar numa nova relação". Em reação a um quadro político adverso, a presidente Dilma, pelas convicções que nunca perdeu e pelos riscos que corre, pode redobrar a aposta populista.

Um registro necessário: em 2005, a economia brasileira estava crescendo, a inflação era cadente, as contas públicas estavam em ordem e o mundo oferecia grandes oportunidades. Em 2015, o PIB caminha para encolher 4%, o IPCA voltou a ter dois dígitos depois de 12 anos e o mundo é um lugar inóspito e incerto.

Carta infeliz – Editorial / Folha de S. Paulo

Nos tangos, boleros e outros gêneros românticos de antigamente, alguns artistas adotavam a prática de, a dada altura, interromper o canto e passar à simples declamação da letra a meia-voz, reiterando seu recado em tom de confidência.

Enquanto a orquestra desenrola os compassos incertos do impeachment, é como se a carta enviada pelo vice Michel Temer (PMDB) à presidente Dilma Rousseff (PT) correspondesse, no seu tom supostamente magoado e pessoal, a essa modalidade de canastrice cancioneira.

Não que não sejam cerebrais os seus motivos, e verdadeiras as suas queixas. Com certeza, por inabilidade, arrogância e preconceito, o Palácio do Planalto desperdiçou as oportunidades de outorgar a Michel Temer o papel de articulação política de que tanto se carece num momento de gravíssima crise.

Apontando esse distanciamento numa carta que dificilmente alguém com sua experiência teria escrito sem saber que vazaria, Temer articula uma versão para justificar o que constitui seu notório interesse político neste momento.

Como beneficiário imediato de um eventual afastamento de Dilma, o vice-presidente se vê na contingência de não poder explicitar excessiva avidez pelo cargo que tem diante dos olhos.

A mera expectativa de ascensão, porém, tende a unificar o PMDB em torno de Temer. Seus passos no caminho de um rompimento, aliás já encetados com a saída do aliado Eliseu Padilha da Secretaria de Aviação Civil, tornaram-se praticamente sem volta.

O cálculo não é de estranhar, quando tem origem num político profissional de reconhecida habilidade. O hábito das conversações de bastidor e das confidências ao pé de ouvido terá cobrado, entretanto, seu preço na tática adotada pelo melífluo peemedebista.

Se se tratava de acenar com a possibilidade de exercer uma liderança política nacional –conciliadora ou disruptiva, pouco importa– na atual crise, o vice-presidente sem dúvida se apequenou.

Sua carta adota um tom choroso, incluindo reclamações risíveis, como a de não ter sido convidado a participar de um encontro com o vice-presidente dos EUA, Joe Biden.

Fica-se com a impressão de que o apreço pelo protocolo palaciano, pelo beija-mão e pelos cargos de segundo escalão supera, no espírito de Temer, a devida consideração das emergências nacionais.

O característico do mau ator não é a mentira, a falsidade. É o fato de comover-se consigo mesmo, sentimentalizar as próprias convicções e atitudes. Michel Temer escreveu uma carta dolorida, magoada, até sincera. Mas o país poderia ter sido poupado dessa página constrangedora de correio sentimental.

Uma aliança condenada – Editorial / O Estado de S. Paulo

A carta do vice-presidente Michel Temer à presidente Dilma Rousseff – fato político mais relevante desde o início do processo de impeachment –, mais do que revelar detalhes nada surpreendentes do conturbado relacionamento político entre as duas mais altas autoridades na hierarquia do Executivo, evidencia uma das características mais marcantes do petismo e que está fortemente impregnada no temperamento da chefe do governo: a incapacidade de manter com aliados políticos relações de genuína parceria. Os petistas se consideram monopolistas da virtude ungidos com a exclusividade da missão de redimir os fracos e oprimidos. Por essa razão, desconfiam de todos os não petistas, inclusive daqueles a quem precisam se aliar com a intenção de que estejam sempre a seu serviço.

Movida por esse sectarismo que no seu caso pessoal parece irredimível, Dilma Rousseff repetiu com Michel Temer o mesmo erro que cometera no início do ano com Eduardo Cunha. Embalada pela arrogância que é habitual, mas então estava exacerbada pelo sentimento de onipotência proveniente da vitória nas urnas de outubro, Dilma entendeu que era hora de acabar com a pretensão peemedebista de assumir o controle político do Congresso. Encarregou o então chefe da Casa Civil, o notório Aloizio Mercadante, de arquitetar a derrota de Cunha na eleição para a Presidência da Câmara. O resto da história todo mundo conhece.

Muito mais esperto e hábil politicamente, o mentor de Dilma, quando o circo começou a pegar fogo, tratou de convencê-la a botar na articulação política do governo gente da confiança dele, Lula, capaz de evitar o desastre que se anunciava. Ocorre que o entendimento com Michel Temer, a relação presidente-vice, depende quase que exclusivamente do grau de afinidade entre ambos. E nada seria capaz de impedir que Dilma se encarregasse de “azedar” essa relação, na expressão do próprio Temer contida em sua carta.

Soam completamente hipócritas, portanto, as declarações de amor eterno a Temer, com as quais Dilma tenta comprometê-lo na luta contra o impeachment. A essa hipocrisia o vice-presidente deu uma resposta à altura, no parágrafo final da carta: “Sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã”.

A jornalistas com quem esteve em Brasília no início da noite de segunda-feira, ao retornar de São Paulo, Temer explicou que fora convocado por Dilma para uma conversa, mas preferiu enviar a carta para evitar que sua presença em palácio fosse explorada por ministros da área política como uma tomada de posição em relação ao impeachment. Dias atrás Temer desmentira o chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, que lhe atribuíra publicamente declarações de apoio à tese de que o pedido de impeachment não tem fundamento jurídico. Para Temer, esse fundamento “existe, sim”.

A atitude de Michel Temer, tomada com as cautelas políticas que caracterizam seu temperamento conciliador, não significa a explicitação de um rompimento com o governo, mas contém elementos suficientes para deixar claro que, de fato, as relações estão num ponto praticamente sem retorno. O presidente nacional do PMDB se orgulha de ter trabalhado sempre, e com êxito, para manter a unidade dentro da diversidade dos quadros de seu partido e garante que se manterá nessa linha no que diz respeito ao impeachment de Dilma. Está, neste momento, segundo correligionários do seu círculo de relações mais estreitas, “averiguando” o posicionamento das várias correntes partidárias para, na ocasião oportuna, decidir se mantém ou não a aliança com o governo. Esta oportunidade muito provavelmente surgirá no congresso nacional do PMDB agendado para março. Isso, se o processo de impeachment se estender até lá.

De qualquer modo, o que é certo em relação ao desenlace do processo de impeachment de Dilma Rousseff é que, caso o pedido seja negado, a vitória será comemorada pelo PT à moda da casa: com todas as retaliações possíveis. Respalda esse prognóstico o fato de que, na luta contra o impeachment, em vez de apelar à conciliação das forças políticas em nome da recuperação da governabilidade e de um programa de reconstrução nacional, Dilma e o PT têm preferido partir para o ataque, mantendo a retórica do “nós” contra “eles”. Mais um erro político, já que “eles” constituem hoje maioria esmagadora por todo o País.

O divórcio entre Temer e Dilma – Editorial / O Globo

• A derrota da proposta do Planalto para a comissão do impeachment é sinal de uma parcela oposicionista forte no PMDB, mas nada é previsível

Amão invisível que escreve em tempo real o roteiro da crise política esbanja criatividade. Em meio a uma profunda crise econômica cuja dimensão ainda não é visível, a presidente reeleita, do campo político que está no poder há quase 13 anos, enfrenta um processo de impeachment, e busca apoio em uma base parlamentar fluida. Votações importantes no Congresso, para enfrentar as dificuldades econômicas, atrasam ainda mais, estancadas pela confusão política, e, se tudo isso não fosse suficiente, o já difícil relacionamento entre Dilma e seu vice, Michel Temer, presidente do PMDB, o segundo maior partido da base do governo, parece ter implodido de vez.

Nunca foi um convívio risonho. Mas desde a declaração de Temer, em agosto, de que o país necessitava de alguém que “reunificasse a todos”, o vice-presidente passou a ser visto no PT e pelo círculo próximo à presidente como um conspirador em ação.

A carta pessoal enviada na noite de segunda por Temer a Dilma, publicada ontem pelo GLOBO, se tornou prova documental do afastamento do grupo peemedebista ligado ao vice em relação ao Planalto. Ou até mesmo de uma grave divisão no partido.

Quanto a isso, aconselha-se cautela. Conhecido por ser uma confederação de caciques regionais, o PMDB é o que existe na política brasileira mais próximo do Partido Justicialista, peronista, argentino, em que há representantes da esquerda à direita, incluindo os extremos. Algo como a própria aliança montada pelo PT para governar.

Temer acusa o Planalto pelo vazamento da carta. E ele próprio recebeu críticas de peemedebistas no Senado, do presidente da Casa, Renan Calheiros (AL), e de próceres como o ex-senador José Sarney.

Entre os 11 pontos da carta, Temer destila mágoas políticas e pessoais, relacionadas por ele como gestos de depreciação de suas funções. Mas como nada é simples no partido, há, no imbróglio, a atuação da bancada do PMDB fluminense, a maior do partido na Câmara, alinhada à defesa da presidente Dilma. Contra a posição, agora se vê, de Temer e de uma parte ponderável do partido. É o que se conclui do resultado da votação de ontem, na Câmara, para a escolha da comissão que deliberará sobre o pedido de impeachment, em que a proposta da base do Planalto foi derrotada.

Se partiu mesmo do PT a iniciativa de romper com Temer, não foi uma ideia inteligente, por desmontar a estratégia petista de eleger Eduardo Cunha o adversário de Dilma. Pois, num embate de folha corrida com ele, a presidente é vencedora indiscutível.

Já o confronto com Temer anima apenas a galera militante. Sem falar que atravanca ainda mais as negociações no Congresso para aprovar projetos importantes. Mas, como tem sido no Brasil dos últimos meses, nada é minimamente previsível enquanto não se souber tudo o que a Lava-Jato apurou.

Mariene de Castro: Guerreira

Fernando Pessoa:Tenho tanto sentimento

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"