Para cientista político francês Dominique Reynié, Brasil não distoa de onda mundial de desilusão
Por César Felício | Valor Econômico
SÃO PAULO- A desilusão com a democracia no mundo é grande e o advento de uma era de autoritarismo é um risco real, de acordo com o cientista político francês Dominique Reynié, da Science Po, que coordenou uma pesquisa sobre o tema com 36.395 entrevistas em 42 países, inclusive o Brasil. É cedo, contudo, para se apostar que a tendência é definitiva. Os números de Reynié, provenientes de levantamentos feitos pelo Ipsos entre o fim do ano passado e o início mostram que se os defensores da democracia encontrarem alguma fórmula de promover crescimento com atendimento de demandas sociais, o sistema tem chances de se regenerar.
Reynié está no Brasil para apresentar na Fundação Fernando Henrique Cardoso hoje a versão em português do levantamento. As entrevistas foram feitas entre setembro e outubro do ano passado e sua análise foi concluída em maio. No caso brasileiro, houve influência do processo eleitoral, já que a coleta de dados coincidiu com a eleição do presidente Jair Bolsonaro. A pesquisa pretende futuramente se expandir e estruturar um indicador mundial de qualidade democrática. O trabalho é fruto do esforço de três ONGs, a Fondapol, dirigida por Reynié, o norte-americano Instituto Republicano Internacional e a brasileira República do Amanhã. A Fondapol teve origem em um partido francês, hoje extinto: a UMP, criada pelo ex-primeiro-ministro Alain Juppé, alinhado ao ex-presidente Jacques Chirac. Atualmente a organização não se vincula a nenhuma força política.
Pela primeira vez na história do mundo democrático os países que mais enriquecem hoje não são democracias
Valor: Vários autores estão muito pessimistas sobre o futuro da democracia no mundo depois de 2016, com a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e do Brexit no Reino Unido. A partir do levantamento que o senhor coordenou é possível concluir que a democracia deixou de ser um consenso?
Reynié: A resposta é sim. Acredito que esta tendência começou a se delinear entre o final dos anos 80 ou começo dos 90. Houve vários fenômenos que aconteceram simultaneamente. Primeiro teve a queda do comunismo. Ainda que o fim de um sistema tirânico tenha sido uma boa notícia, desapareceu a alternativa à economia de mercado. Este elemento muito rapidamente começou a fragilizar a democracia, como se a democracia não tivesse mais a capacidade de oferecer escolhas. A segunda razão, na mesma época, foi a ascensão da China, dentro de um modelo de capitalismo de Estado. A integração da China no sistema econômico mundial que se tornou global, dominado pelo mercado. Um modelo único planetário. Ainda tem o fator tecnológico, com o surgimento da internet e posteriormente das redes sociais. Outro elemento, que talvez se aplique mais apenas a determinados países, é a questão demográfica. O envelhecimento da população cria tensões, em torno de questões como a Previdência Social. Isto causa uma disputa entre as gerações em torno da distribuição da riqueza nacional. As faixas etárias mais velhas concentram mais riqueza em detrimento das mais jovens, há aí um conflito entre gerações, que se superpõem aos conflitos de classe aos quais estávamos acostumados.



































