sábado, 4 de dezembro de 2021

Doria: A reconstrução do ninho

Os desafios de Doria para se tornar o nome da terceira via em 2022

Após prévias, o tucano precisa unificar o seu partido, fechar acordos fora dele e melhorar o seu desempenho eleitoral

Por Bruno Ribeiro, João Pedroso de Campos / Revista Veja

Apesar de ser um dos políticos brasileiros mais bem-sucedidos dos últimos anos (não perdeu nenhuma eleição que disputou desde sua estreia nas urnas, em 2016, quando conquistou o direito de comandar a maior metrópole do país), o governador paulista João Doria, do PSDB, está longe de ser uma unanimidade dentro e fora de seu partido. Seus muitos inimigos e analistas apressados são pródigos em prever tropeços em sua trajetória política, e a aposta mais recente envolvia a possibilidade de fracasso nas prévias presidenciais tucanas. Como se sabe, a previsão deu errado, mas a briga foi mais acirrada do que se imaginava. O fato de Doria estar à frente da unidade mais poderosa da federação não o impediu de sofrer derrotas sucessivas em quase todos os seus pleitos e interesses na fase de organização dessa disputa. Além disso, a maioria dos caciques da sigla, incluindo nomes como o deputado federal Aécio Neves (MG), o senador Tasso Jereissati (CE) e o ex-governador Geraldo Alckmin (SP), trabalhou fortemente a favor do concorrente rival, o governador gaúcho Eduardo Leite. No fim da tumultuada disputa, na qual uma pane na ferramenta eletrônica de votação adiou por uma semana a decisão, Doria, mais uma vez, venceu os obstáculos, sagrando-se vitorioso. “Cada vez que dizem que não vai dar, eu aumento minhas horas de trabalho, minha dedicação. Exatamente para demonstrar o contrário”, afirmou ele a VEJA.

Agora, o governador precisará multiplicar esses esforços diante dos desafios gigantescos que terá pela frente no sonho de chegar à Presidência, mostrando-se a alternativa ao centro mais viável para romper a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, atuais líderes nas pesquisas. A primeira tarefa espinhosa envolve reconstruir o ninho tucano, que nunca se recuperou de seu período de glórias dos tempos da Presidência de Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002. Derrotas sucessivas ajudaram a gerar divisões internas, que se aprofundaram ainda mais ao longo do recente processo das prévias. Até a bandeira de ética se perdeu ao longo do caminho, com figurões da sigla atingidos em cheio por denúncias de corrupção, com destaque nesse quesito para Aécio Neves. Ciente do tamanho da empreitada, Doria expressou a sua preocupação logo no discurso da vitória, em Brasília, no último dia 27. “Nessas prévias não há nenhum derrotado”, disse. “Precisamos da união do PSDB e de todos os partidos que possam construir o centro democrático.”

O processo de pacificação do tucanato passa pela complexa construção de pontes entre ele e algumas das lideranças que apoiaram Eduardo Leite. Não será fácil. O próprio governador gaúcho já recusou a primeira tentativa de aproximação, materializada na forma de um convite para trabalhar na campanha do ex-adversário. Doria tentará novos lances na mesma direção é já escalou seu coordenador de campanha nas prévias, Wilson Pedroso, para ir dentro em breve ao Rio Grande do Sul com a bandeira branca em mãos. Outro ponto delicado é a relação com o presidente do partido, Bruno Araújo, que não escondeu nos bastidores a simpatia por Leite e foi responsável por decisões importantes contrárias aos interesses de Doria durante as prévias. “Bruno é um sapo que vamos ter de engolir”, resume um dos integrantes do grupo paulista. Já para se aproximar de tucanos de outros estados, Doria conta com o auxílio de aliados como Antonio Imbassahy, ex-líder da bancada na Câmara e que hoje é secretário da representação de São Paulo em Brasília, e o vice-governador Rodrigo Garcia, ex-líder do DEM no Congresso, que já tem feito incursões por Brasília para costurar alianças. “Como candidato, escolhido legitimamente nas prévias, Doria reúne as condições para dialogar com bancadas federais e estaduais, considerando os contextos regionais de cada uma delas”, afirma Garcia.

Dora Kramer - Tempo de estio

Revista Veja

A reação moderada de Doria na vitória pode indicar que ele tem noção exata dos desafios à frente

A vitória de João Doria nas prévias do PSDB não resolve os problemas do governador de São Paulo nem aplaca atritos ou ameniza as agruras do partido. Muito menos indica uma direção segura para o campo político, que busca espaço eleitoral viável entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio da Silva.

Esse pessoal hoje está mais ocupado em se posicionar com o lançamento de pré-candidatos e em entender o impacto da entrada de Sergio Moro em cena do que preocupado com a possibilidade de Doria vir a consolidar a candidatura como inamovível.

Em outros tempos, a definição de um nome do PSDB para disputar a Presidência causaria agitação na atmos­fera. Para o bem e para o mal. Os adversários voltariam suas artilharias contra e os correligionários celebrariam a escolha como marco inicial de trajetória rumo ao êxito.

No entanto, o que a realidade tem nos mostrado nesses dias pós-definição dos tucanos é um misto de indiferença, descrença e desconfiança. Da parte das forças que buscam um lugar de destaque ao centro não se viu nem se ouviu nenhuma manifestação pública vigorosa de júbilo nem de pesar.

Marcus Pestana* - Orçamento público e democracia

Nunca é demais repetir: os pilares fundamentais das democracias modernas são a Constituição e o orçamento público. A Constituição, fixando direitos e deveres; erguendo o sistema de freios e contrapesos; regulando as relações entre Estado, sociedade e mercado; e, limitando o poder do Estado. Já o orçamento, regulando a capacidade de tributação dos governos; dando transparência as receitas e despesas públicas e ordenando o planejamento anual das ações governamentais.

O orçamento lida com uma linguagem árida para leigos. Poucas pessoas têm capacidade e paciência para analisar o calhamaço de informações, números, dotações, rubricas, projetos e programas. Os recursos disponíveis não são ilimitados, as demandas são múltiplas e a elaboração do orçamento exerce o papel de organizar as escolhas entre fins alternativos. O populismo fiscal é danoso, e, em geral, produz efeitos negativos inversos às boas intenções iniciais que patrocinam a gastança desenfreada.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

O escarcéu como método

O Estado de S. Paulo

Ausência de bolsonaristas nos testes da urna eletrônica prova que a bagunça provocada pelo presidente a respeito da confiabilidade do voto era só para distrair o País

A conclusão dos testes de integridade da urna eletrônica pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no fim de novembro comprovou a confiabilidade de um sistema moderno e do qual o Brasil pode se orgulhar. Por seis dias, as urnas ficaram à disposição de ataques de “hackers do bem”, um trabalho que teve como objetivo aprimorar a tecnologia para a disputa de 2022. Vinculados a universidades, empresas privadas e órgãos públicos, 26 investigadores se inscreveram para o desafio de procurar vulnerabilidades físicas e tecnológicas para invadir o sistema. Das 29 iniciativas, 24 falharam completamente e 5 apontaram apenas oportunidades de aperfeiçoamento. Nenhuma foi capaz de alterar o voto dos eleitores, explicou o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso.

Chamou a atenção, no entanto, o desinteresse dos partidos políticos em participar do processo de fiscalização da urna eletrônica, principalmente dos apoiadores do presidente da República. Nem parece que há quatro meses o Brasil foi palco de um show de horrores liderado por Jair Bolsonaro, que contestava o sistema que o elegeu deputado federal por cinco vezes e que lhe conferiu o mais alto cargo do País em 2018. Sem apresentar nenhuma prova sequer sobre a vulnerabilidade das urnas, o presidente mobilizou as atenções dos cidadãos e das instituições, alimentando a hipótese – de resto não inteiramente afastada – de que não reconhecerá o resultado das eleições do ano que vem se ele não for o vencedor.

Poesia - Affonso Romano de Sant'Anna - Os desaparecidos

De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricô ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluíam
- mal ligavam o torno do dia.

Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até a primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes esvaneciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, arefeitos, constatar no além,
como os pescadores partiam.

Música | Teresa Cristina e Grupo Semente - Para um amor no Recife (Paulinho da Viola)

 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Vera Magalhães - Oposição dá discurso social a Bolsonaro

O Globo

“Evidentemente, nós, que somos cumpridores de acordo, vamos encaminhar o voto ‘sim’, mas eu faço questão de registrar isto: nós estamos cometendo um crime contra a credibilidade do país”, profetizou o senador Jaques Wagner, do PT da Bahia, na votação de ontem da PEC dos Precatórios.

Poucas frases podem ser mais esquizofrênicas e mais emblemáticas do que a oposição chancelou nesta quinta-feira: um cheque em branco para Jair Bolsonaro sair das cordas em que está desde a pandemia e entabular um discurso social para as eleições de 2022.

Essa frase e a votação de ontem certamente serão objeto de estudo se o presidente conseguir recuperar fôlego após o início do Auxílio Brasil, um benefício que ataca um flagelo grave e oferece uma transferência necessária de renda, mas empurrando montanha abaixo uma bola de neve fiscal de efeito explosivo para todos, principalmente os mais necessitados.

Bernardo Mello Franco – O salto de Mendonça

O Globo

Durante quase oito horas, o pastor André Mendonça encenou o papel de jurista terrivelmente laico. Das 9h31 às 17h26 de quarta-feira, ele prometeu não misturar a Bíblia com a Constituição. A performance garantiu os votos que lhe faltavam para assumir uma cadeira no Supremo.

Aprovado pelo Senado, o futuro ministro suspendeu o teatro. Às 19h46, já voltou a discursar como se estivesse no púlpito. “Glórias a Deus por essa vitória. É um passo para um homem, um salto para os evangélicos”, congratulou-se.

O Neil Armstrong de Miracatu não pisou na lua, mas chegou ao olimpo do Judiciário. Sua escolha representa mais um pontapé do bolsonarismo nas instituições. Pela primeira vez, um presidente usa a indicação ao Supremo como arma de barganha eleitoral.

Eliane Cantanhêde - Um manda, todos obedecem

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro pulou em PF, Coaf, Receita, STJ e Câmara, agora avança sobre STF e TCU

Depois de jogar fora o discurso de 2018 e não pôr nada no lugar, o presidente Jair Bolsonaro vai construindo a sua persona de 2022 com base em pautas conservadoras e no avanço sobre o Supremo, o STJ, o TCU e a Polícia Federal, tudo junto e misturado. A Câmara já está no bolso.

Se os ministros indicados para o Supremo na era PT não votaram como agentes dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, nem no mensalão nem no petrolão, muito pelo contrário, os dois da era Bolsonaro vão na linha do general Eduardo Pazuello: “Um manda, o(s) outro(s) obedece(m)”.

Kassio Nunes Marques vota sempre, ou quase sempre, com o presidente. E o novo ministro André Mendonça, que toma posse no dia 16, antes do recesso do Judiciário, vai pelo mesmo caminho, com uma diferença: tende a fazer tudo o que, não um, mas seus dois mestres mandarem – Bolsonaro e evangélicos.

Luiz Carlos Azedo - Guedes perdeu o rumo, mas ninguém tem uma alternativa

Correio Braziliense

O processo eleitoral é um fator de incertezas; ao mesmo tempo, é a travessia a ser feita, porque um novo governo terá credibilidade para tirar a economia da estagnação. O problema é que todos os pré-candidatos estão fugindo do debate econômico

A desaceleração global da indústria e a redução do preço das commodities podem provocar uma tempestade perfeita no Brasil, se a economia brasileira continuar fora de controle e desacelerando. Na prática, o único instrumento disponível para evitar uma explosão dos preços é a alta dos juros. O ministro da Economia, Paulo Guedes, perdeu a credibilidade e a economia está ancorada apenas na política monetária, ou seja, na ortodoxia do Banco Central (BC).

Os números divulgados, ontem, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que o Brasil está vivendo uma “recessão técnica”, puxada pelo agronegócio — pasmem! —, que teve uma queda de atividade de 8% no terceiro trimestre de 2021. O PIB variou -0,1% em relação ao trimestre imediatamente anterior. A Indústria ficou estável (0,0%) e os Serviços subiram (1,1%). No setor externo, tanto as exportações de bens e serviços (-9,8%) quanto as importações de bens e serviços (-8,3%) tiveram quedas em relação ao segundo trimestre de 2021. Mesmo assim, o PIB cresceu 4,0% frente ao mesmo período do ano passado.

Bruno Boghossian – A largada do segundo pelotão

Folha de S. Paulo

Bolsonaro, Moro, Ciro e Doria sabem que só há uma vaga para o confronto direto com Lula

A formação das trincheiras para 2022 precipitou a disputa pelo segundo lugar da corrida presidencial. A liderança de Lula nas pesquisas e a incerteza sobre o destino dos votos que elegeram Jair Bolsonaro aceleraram o embate entre os candidatos que buscam uma vaga para um confronto direto com o petista.

Sergio Moro, Ciro Gomes, João Doria e o próprio Bolsonaro se veem como adversários. O quarteto sabe que, ao que tudo indica, só haverá espaço para um deles no segundo turno. Todos trabalham para fortalecer suas credenciais de oposição a Lula e, ao mesmo tempo, desinflar ou evitar o crescimento de outros competidores nesse campo.

Não foi acidental o tom do discurso de Flávio Bolsonaro na filiação do pai ao PL. Ainda que tenha carimbado Lula mais uma vez como "ladrão", o senador dedicou atenção especial a Moro, a quem chamou de "traidor".

Ruy de Castro - Ideias por um fio

Folha de S. Paulo

Teme-se que as súbitas convicções de André Mendonça durem menos que seu novo cabelo

André Mendonça, ex-advogado-geral da União, ex-ministro da Justiça e da Segurança Pública e ex-careca, teve seu nome aprovado nesta quarta-feira (1º) pelo Senado para uma vaga no STF. Os 47 votos a favor homologaram tanto o seu novo forro de cabelo quanto o de convicções. Os 32 contrários —um recorde na história desses julgamentos para o Supremo— não pareceram convencidos da firmeza nem dos pelos nem das palavras. Desconfiam de que, às primeiras escovadas e questões judiciais, as felpas lhe caiam pelas lapelas juntamente com suas novas opiniões.

Reinaldo Azevedo - A PEC é o mal menor; isso é política

Folha de S. Paulo

Se o texto tivesse sido rejeitado, governo poderia apelar a decreto de calamidade, e desordem fiscal seria maior

O Senado acertou ao aprovar o texto da PEC dos Precatórios. Defendi que assim fosse no programa "O É da Coisa", que ancoro na BandNews FM. Não tardou para que chegasse a indagação: "Tá bolsonarizando?" Não. Estava escolhendo o mal menor e, no meu pequeno quintal, preferindo a política à desordem.

Como disse aquele, "é preciso cultivar nosso jardim". Ou tudo vira terra crestada na esperança do quanto pior, melhor. Os petistas, por exemplo, votaram a favor.

Quando o governo anunciou que daria um jeito de driblar o teto de gastos, juntando na tal PEC, a um só tempo, calote, furo do teto e pedalada fiscal, a Bolsa caiu e o dólar subiu. Agora, enquanto escrevo, a Bolsa sobe e o dólar tende a andar de lado. Salvo algum evento alheio à votação do Senado, assim deve fechar o dia.

Vinicius Torres Freire - O teto caído, o PIB parado, mercado calmo

Folha de S. Paulo

Donos do dinheiro se contentam com economia ruim e não ligam para o resto

A Bolsa subiu 3,7%. As taxas de juros no atacadão do mercado de dinheiro caíram. No mesmo dia, soube-se que a economia está pelo menos estagnada, quase embicando para a recessão. No Congresso, passou a emenda constitucional que autoriza um calote parcial dos precatórios, uma moratória, na verdade.

No pacote da PEC veio também o certificado de óbito do teto de gastos, aquele que era para durar até 2026, pelo menos. Para ser mais preciso, passou a gambiarra do reajuste do limite das despesas do governo federal.

Sim, claro, há sequelas, que vão durar pelo ano que vem ou 2023, pelo menos. As taxas de juros caíram apenas alguns degraus abaixo da cobertura do arranha-céu para onde haviam se mudado desde setembro, graças também ao desgoverno teratológico de Jair Bolsonaro. A Bolsa está no prejuízo. Outros indicadores das "condições financeiras", como dizem os economistas, sugerem arrocho no investimento e no consumo.

José de Souza Martins* - A difícil terceira via

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

O fundamento de uma terceira via é a do primado da vida e da ética correspondente, que nos livre do autoritarismo e da miséria e nos devolva o sentido da esperança

Nas cogitações de uma terceira via política, para que o Brasil saia dos limites de um movimento pendular entre lulismo e bolsonarismo, falta tudo. É busca motivada por uma premissa antipolítica: ao mesmo tempo cassar Lula antes de eventualmente eleito, de um lado, e depor Bolsonaro, porque muito aquém do que se espera de um governante. Essa terceira via é a da procura de outro, no formato do mesmo.

As pesquisas de opinião eleitoral nos mostram que o eleitorado ainda é prisioneiro do movimento pendular do nosso processo político. Abandonou o populismo de um Lula desgastado, pelos processos nem sempre claros da Operação Lava-Jato, em favor da nova cara do terrorismo político, o da manipulação da opinião e das fake news.

Nesse cenário, fica muito difícil identificar e localizar os novos personagens do processo político brasileiro que personifiquem o mandato democrático de encontrar uma saída para a ameaça do novo poder pessoal às instituições. E possibilite a superação da mediocridade que está levando o país ao caos e à ruína.

Terceira via pressupõe identidades sociais, de classe, de grupo ou de outros agentes sociais de convergência de interesses e de visão de mundo em favor do país e em favor do bem comum. Tudo isso foi aqui fragilizado em decorrência de transformações sociais do último meio século.

Humberto Saccomandi - AL está presa num ciclo de instabilidade política

Valor Econômico

Eleição de extremista no Chile será um marco dessa onda

Um extremista será eleito, daqui a duas semanas, presidente do Chile, país que foi por três décadas um paradigma de desenvolvimento econômico e estabilidade política na América Latina. Será um momento simbólico no processo de desorganização política da região, que começou em 2015 e vem se agravando.

A América Latina nunca foi politicamente estável. Golpes, ditaduras, assassinatos, caudilhismo, populismo e corrupção marcam a história da região. A palavra “golpe” (idêntica em português e espanhol) é frequentemente usada em outros países, numa contribuição latino-americana ao vocabulário político global.

Mas a região viveu um momento de estabilidade e até euforia política a partir dos anos 90, à medida que muitos países foram se redemocratizando. Os processos foram diferentes, cada país teve suas particularidades. Mas parecia que, aos poucos, o cenário político e institucional latino-americano ia amadurecendo e se assentando.

Hoje é cada vez mais claro que a América Latina viveu um breve período de estabilidade política induzido do exterior, financiado pelo chamado superciclo de commodities. Os preços crescentes, a partir do ano 2000, de produtos de exportação como minério de ferro, cobre, soja e petróleo, puxados pela demanda chinesa, ajudaram a financiar de investimentos a programas sociais. Isso gerou as condições sócio-econômicas que favoreceram a estabilidade política. Permitiram também a compra sem precedentes de apoio político pelos governos.

Flávia Oliveira - Na Câmara, o dossiê antirracista

O Globo

Um ano atrás, no Dia da Consciência Negra, o Brasil amanheceu enlutado pelo assassinato por espancamento de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro, por seguranças de uma loja do Carrefour em Porto Alegre (RS) — justamente a cidade que legou ao país as celebrações do 20 de Novembro. Semanas após o crime, que já rendeu acordo de R$ 115 milhões em medidas de enfrentamento ao racismo e reparação coletiva com MPF, MP-RS, DPU e Defensoria Pública gaúcha, a Câmara dos Deputados instituiu comissão de juristas para analisar e propor medidas legislativas de combate ao racismo estrutural e institucional no Brasil. Nesta semana, o relatório de quase 600 páginas foi entregue à Mesa Diretora da Casa, mas acabou eclipsado pela nona filiação partidária de Jair Bolsonaro em três décadas de vida pública, pela aprovação no Senado do ministro terrivelmente evangélico para o Supremo Tribunal Federal, pela confirmação de casos da variante Ômicron do coronavírus e pela recessão técnica da economia conduzida por Paulo Guedes.

Ruth de Aquino - A única verdade de André Mendonça

O Globo

“Não se pode criminalizar a política”. O novo juiz terrivelmente evangélico, André Mendonça, mentiu muito na sabatina, nem parecia servo de Deus. Disfarçou, lambeu a boca seca e repetiu o tique nervoso de projetar o pescoço para o lado, o que revela ansiedade. Mas Mendonça falou uma verdade incontestável: não se pode criminalizar a política no Brasil. Porque ela já é terrivelmente criminosa.

As análises sobre o desempenho de Mendonça variam. Uns dizem que ele foi inteligente, estratégico. Assim, ensinamos a nossos filhos e netos. Quer ser inteligente, convincente? Minta muito quando for preciso. Com a maior cara de pau. Se perceber que derrapou, como no “não derramamento de sangue na ditadura militar”, peça logo desculpas e elabore uma mentira mais estapafúrdia. Vai colar. Ainda mais se você for uma autoridade. 

Em que momento Mendonça conquistou o coração do Senado? “Não se constrói uma democracia sem política, sem políticos e sem partidos políticos”, afirmou. “Então, todos somos contra a corrupção, todos somos sabedores de que não se pode criminalizar a política”. Todos contra a corrupção, todos a favor da transparência. Teve checagem? É fake news? Humor? Não dá para fingir que a gente acredita. Seria passar recibo de suprema ingenuidade.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

PIB no chão

Folha de S. Paulo

Economia tem novo trimestre ruim e projeta, quando muito, alta medíocre em 2022

A economia está estagnada, com risco considerável de quedas recorrentes de produção e renda —vale dizer, do Produto Interno Bruto— nos próximos trimestres.

O desempenho do ano de 2022 ainda é uma incógnita, mas as possibilidades estão limitadas por deficiências crônicas, pela alta dos juros, pela inflação e por incertezas agravadas em razão do eleitoral.

Ainda que o PIB viesse a se expandir em 0,5% a cada trimestre a partir do final deste 2021, o ano que vem terminaria com um crescimento de apenas 1,5%, similar à média de 2017 a 2019.

Ou seja, em uma hipótese agora otimista, a economia voltaria àquele mesmo padrão de desempenho menos do que medíocre.

Poesia | Ascenso Ferreira - Toré

Os dois maracás,
um fino e outro grosso,
fazem alvoroço
nas mãos do Pajé:

— Toré!
— Toré!

Bambus enfeitados,
compridos e ocos,
produzem sons roucos
de querequexé!

— Toré!
— Toré!

Lá vem a asa-branca,
no espaço voando,
vem alto, gritando...
— Meus Deus, o que é?

— Toré!
— Toré!

— É o Caracará
que está na floresta,
vai ver minha besta
de pau catolé...

— Toré!
— Toré!

Cabocla bonita,
do passo quebrado,
teu beiço encarnado,
parece um café

— Toré!
— Toré!

Pra te ver, cabocla!
na minha maloca,
fiando na roça,
torrando pipoca,
eu entro na toca
e mato onça a quicé!

— Toré!
— Toré!

Publicado no livro Cana Caiana 

Música | Teresa Cristina e Grupo Semente - Coração Leviano (Paulinho da Viola)

 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Merval Pereira - A habilidade de Moro

O Globo

Não há mais a menor dúvida de que o surgimento de Sergio Moro como pré-candidato à Presidência da República pelo Podemos provocou, no mínimo, um toque de alerta nos até agora favoritos, o ex- presidente Lula e o presidente Bolsonaro. Os dois se preparam para lutar entre si, cada um achando que o outro é o adversário mais fácil de ser derrotado.

Basta ver que tanto petistas quanto bolsonaristas escolheram Moro como alvo principal da campanha que finge não ter começado ainda, mas está a pleno vapor, comendo etapas num processo acelerado. O PT começou um movimento para garantir a eleição de Lula no primeiro turno, igualando Moro a Bolsonaro, e aí mora o perigo.

Moro virou herói de milhões de brasileiros ao lutar contra a corrupção institucionalizada, enfrentando os poderosos da época, leia-se Lula e o PT. Para esses, Moro como juiz construiu sua reputação e realizou sua grande obra, a Operação Lava-Jato. Com a publicação de seu livro e as várias entrevistas que tem dado, Moro já se mostrou disposto a encarar o grande desafio de enfrentar a campanha de desmoralização que foi armada contra ele, “com Supremo, com tudo”, como pregava o ex-líder de todos os governos Romero Jucá.

Malu Gaspar - Moro é um candidato com pés de barro

O Globo

A intensa movimentação no cenário político nas últimas semanas sugere que a entrada de Sergio Moro (Podemos) na corrida presidencial tem potencial para alterar a correlação de forças na eleição. Mas o crescente interesse pela candidatura também o colocou bem cedo diante da pergunta que o acompanhará enquanto tiver alguma chance no pleito: de que forma Moro lidará com o Congresso, caso seja eleito? Que tipo de negociação o ex-juiz da Lava-Jato pretende fazer com as lideranças de partidos que foram alvo da operação conduzida por ele?

Como pretende convencer os eleitores de que, se eleito, terá mais sucesso do que quando era ministro da Justiça na aprovação de seus projetos? Qual a garantia de que a relação conflituosa entre o ex-juiz e a classe política não paralisará um eventual governo seu (e o país) por mais quatro anos?

Míriam Leitão - O irreconhecível ministro novo

O Globo

André Mendonça estava irreconhecível na sabatina e não apenas pelo novo penteado. Escolhido por ser evangélico e tendo prometido ao presidente orar no início das sessões, defendeu, com argumento até religioso, o Estado laico. Autor de ações contra jornalistas, com base na Lei de Segurança Nacional, garantiu não ter perseguido a imprensa. Tendo chamado de “profeta” um adorador de ditaduras, fez profissão de fé na democracia, como primeira de todas as conquistas. Assim, dissimulando, apresentou-se o candidato a ministro, que, aprovado no fim do dia, ficará por 27 anos no Supremo Tribunal Federal.

Luiz Carlos Azedo - Mendonça julgará os réus com um olho na lei e o outro no Criador

Correio Braziliense

Quando seu nome chegou à mesa de Alcolumbre, era “terrivelmente” evangélico; ontem, na CCJ, pautou-se pela moderação

Ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União, o pastor da Igreja Presbiteriana Esperança André Mendonça teve o seu nome aprovado, ontem, para uma vaga do Supremo Tribunal Federal (STF), que estava aberta desde a aposentadoria do ex-ministro Marco Aurélio Mello. Em votação secreta, obteve apoio de 47 senadores, seis a mais do que o necessário, contra 32, que votaram contra sua indicação. Mendonça fora sabatinado durante oito horas na Comissão de Constituição e Justiça, que o considerou tecnicamente apto ao cargo por 18 votos a 9.

Relatora da indicação, a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), evangélica como Mendonça, mas figura de destaque na oposição, teve papel decisivo para aprovação. Ela foi escolhida relatora pelo presidente da CCJ, o senador Davi Alcolumbre, que havia engavetado a indicação por quatro meses, em razão de uma insatisfação com o presidente Jair Bolsonaro. O ex-ministro da Justiça cavou a indicação por Bolsonaro à moda Pazuello (“ele manda, eu obedeço”).

William Waack - Os caciques e o efeito Moro

O Estado de S. Paulo

Candidatura antecipou a corrida e as dúvidas sobre o presidencialismo brasileiro

Os fatos se adiantaram aos cálculos dos operadores políticos e eles tiveram de correr devido ao “efeito Moro”. Previam a largada para as eleições do ano que vem apenas em abril. O “grid” estará completo, porém, ainda antes do Natal – quase meio ano de antecipação, uma enormidade de tempo na política.

O “efeito Moro” se define pela velocidade e abrangência com que um dos competidores alcançou projeção especialmente nos grupos de formadores de opinião. O alarme entre os concorrentes soou devido a um fato do qual já se fala há tempos, mas que esse “efeito” tornou ainda mais evidente.

É a existência ou não de uma mistura (a proporção de combustível e ar no mundo dos motores) pronta para ser incendiada. Trata-se do potencial de voto em busca de quem não seja Lula ou Bolsonaro. A presença dessa larga camada é sabida há meses, e o mérito do “efeito Moro” até aqui foi demonstrar que, aparentemente, essa mistura está mais próxima de reagir à faísca do que se pensava.

Eugênio Bucci* - Inteligência, baratas e poder

O Estado de S. Paulo

O instinto adestrado de sobrevivência do governo que aí está – e está até hoje – assombra o ceticismo científico mais rigoroso

 “Quem quer que já tenha tentado matar uma barata sabe que ela é inteligente.” Assim falou a professora Lucia Santaella. Titular da Cátedra Oscar Sala, no Instituto de Estudos Avançados da USP, a pensadora sabe o que diz. Baratas podem, sim, ser consideradas inteligentes. A seu modo, elas raciocinam, arquitetam táticas de fuga e, no mais das vezes, conseguem escapulir.

Em seu elogio ao tirocínio do esperto inseto que, além de tudo, “avoa”, Lucia Santaella não nos lança uma reles anedota com fins didáticos. Apoiada na semiótica do filósofo americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), ela nos traz mais do que uma boutade. Peirce escreveu que “o pensamento não está necessariamente conectado a um cérebro”. Para ele, haveria “pensamento”, igualmente, no “trabalho das abelhas e nos cristais”, isso para ficarmos apenas em poucos exemplos.

Celso Ming - Pandemia e antipolítica

O Estado de S. Paulo

Não foram apenas os mercados que tiveram reações irracionais diante das notícias do aparecimento da variante Ômicron da covid-19. Os governos também operaram mal e continuam operando mal o ataque ao problema – e aí nem estamos falando do brutal negacionismo do presidente Jair Bolsonaro.

A maior irracionalidade continua sendo a falta de cuidado dos governos dos países avançados para com a população dos países mais pobres, que não contam com recursos para garantir a vacinação. E não basta doar vacinas, como alguns governos começaram a fazer. É preciso garantir infraestrutura e logística para administrá-las. Os maiorais do mundo continuam se reunindo no G-7 ou no G-20, mas até agora não foram capazes de definir uma política comum de ataque ao vírus, em quaisquer de suas ondas.

Adriana Fernandes – Depois da PEC

O Estado de S. Paulo

Para chegar a 2023, o governo Bolsonaro vai precisar que a economia reaja

Depois de o governo virar a página para a aprovação da PEC dos Precatórios, grande parte do mundo político de Brasília avalia que não terá nenhum grande projeto da agenda econômica para passar no Congresso, além da votação do Orçamento de 2022, que ficará para o ano que vem.

Qual a grande batalha que sobrará para o governo defender a sua agenda? Fazer pequenas coisas na tentativa de gerar o máximo de credibilidade em curto tempo depois do desgaste das negociações da PEC, que abriu uma crise fiscal com custos para o Brasil.

Qualquer que seja o desfecho final na votação na Câmara, a proposta provocou uma quebra na credibilidade fiscal, que o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tem chamado de “um preço muito caro para um desvio pequeno” das contas públicas.

Cristiano Romero - Nem “black friday” nem “black fraude”

Valor Econômico

No Brasil, não existe diferença entre preço à vista e a prazo

Tudo pela metade do dobro. Foi assim que batizamos a versão nacional da “black friday”. Na Ilha de Vera Cruz, a solução é rir de nossa compulsão ao fracasso, da consciência de que está tudo errado, porquanto, é assim mesmo. Mas, afinal, por que nos Estados Unidos os descontos de preços são reais e aqui, não?

A “black friday” foi idealizada por lojistas americanos para desovar estoques antes do início de dezembro, mês de compras do Natal. O evento está diretamente associado ao Dia de Ação de Graças (“thanksgiving”, no inglês falado nos EUA e no Canadá), feriado que o Congresso americano fixou na quarta quinta-feira de novembro. A “black friday” é no dia seguinte.

No Brasil, o evento existe desde 2010. Em tese, o objetivo é o mesmo - uma oportunidade para o comércio oferecer descontos e, assim, vender tudo o que houver nas prateleiras e nos estoques com vistas às vendas do Natal, quando tradicionalmente se dá o ápice de consumo nos países onde a população “acredita” em Papai Noel.

Maria Cristina Fernandes - Terrivelmente derrotados

Valor Econômico

Alcolumbre e Bolsonaro são, nesta ordem, os maiores perdedores da aprovação de André Mendonça

Com a tramitação mais longa da história das indicações para o Supremo Tribunal Federal, em relação à qual o presidente da República lavou as mãos, André Mendonça assumirá uma cadeira na Corte com uma dívida já bem amortizada com Jair Bolsonaro. O presidente, por óbvio, vai tentar faturar a aprovação junto a seu eleitorado evangélico, mas pouco fez para obtê-la e ninguém mais do que o novo ministro sabe disso.

Na lista de derrotados com a aprovação de Mendonça, o presidente só perde para o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), que só o recebeu horas antes da sabatina. Na segunda-feira, o presidente da CCJ do Senado ligou para um senador do MDB, que se recuperava de uma intervenção cirúrgica, sondando se sua saúde permitiria deslocamento.

Em seguida, o senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) repetiu o gesto. A preocupação dos senadores com o esforço que o colega faria para estar presente chegou aos ouvidos do ex-advogado-geral da União e ex-ministro da Justiça, que, em seguida, ligou para o filho do presidente cobrando-lhe o gesto. Ao avistar o senador emedebista na CCJ no início da sabatina Mendonça não deixou passar a oportunidade de saudar sua presença.

A saudação inopinada, que só foi entendida por meia dúzia naquela sala, além da tímida defesa pública que lhe fez Flávio Bolsonaro revelaram o grau de tensão que precedeu a sessão. O filho do presidente chegou a dizer que o apoio do ex-procurador Deltan Dallagnol deu a Mendonça teria selado sua derrota.

Maria Hermínia Tavares - Lula entre dois mundos

Folha de S. Paulo

O antiamericanismo explica a indesculpável conivência com ditaduras de esquerda

Aplaudido pelas principais lideranças da social-democracia europeia e recebido em Paris como chefe de Estado pelo presidente centrista Emmanuel Macron, Lula definiu em sua recente turnê uma agenda internacional para o país léguas à frente de seu próprio partido e de quaisquer que venham a ser seus adversários em 2022.

No Parlamento Europeu, foi irretocável ao associar o imperativo do combate à crise do clima à redução da pobreza e das desigualdades no mundo. Entrelaçando esses temas —que requerem renovada cooperação multilateral e compromisso com a justiça ambiental—, esboçou o que seria a contribuição específica do Brasil pós-Bolsonaro ao debate dos desafios globais. Ao fazê-lo, mostrou fina sintonia com as vozes do mundo, escandalosamente ausente da retórica governista.

Bruno Boghossian - Mendonça versus Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Qual personagem do ministro vai aparecer para trabalhar no tribunal nos próximos 26 anos?

No governo, André Mendonça fez de tudo para conquistar Jair Bolsonaro. Tentou intimidar críticos do presidente, defendeu comemorações oficiais do golpe de 1964 e sustentou que "os verdadeiros cristãos estão dispostos a morrer" para manter templos religiosos abertos na pandemia. Tamanha sintonia garantiu a ele uma indicação ao STF.

Outro André Mendonça apareceu na sabatina do Senado. Ele disse que só acionou a Polícia Federal contra opositores do governo porque o presidente se sentiu ofendido, afirmou que não há espaço para retrocessos democráticos e se comprometeu com o Estado laico. Com a pirueta, conseguiu um apoio extra para garantir uma cadeira no tribunal.

Thiago Amparo - Bolsonaro vai bem, obrigado

Folha de S. Paulo

Ele avança sua boiada com a porteira aberta deixada pelo Legislativo e STF

Análise política não é pensamento positivo; o analista coloca o ouvido perto do chão para escutar o som da boiada que está a caminho, mesmo que distante, e, veja, nem distante a boiada está. Análise política é como o canário que mineradores levam consigo para dentro da mina: a fragilidade do pulmão do canário é sua fortaleza; esperneia alertando sobre os perigos vindouros.

Bolsonaro vai bem, obrigado. Autocratas precisam se reeleger para matar de vez a democracia, nos ensinam Ortega e Orbán. A queda da popularidade de Bolsonaro é o maior triunfo na mão dos democratas de oposição, os quais, por outro lado, pouco parecem se unir para enfrentá-lo, o que fortalece Bolsonaro. Chapa Lula-Alckmin ajudaria para sinalizar que se trata de uma eleição sobre Bolsonaro, não sobre os demais e suas picuinhas históricas.

Ruy Castro - Um governo de aldrabões

Folha de S. Paulo

Aldrabões, em Portugal, são farsantes, descarados

É raro, mas quando acontece é para celebrar —ganhar um irmão numa palavra. É o que se dá quando descobrimos alguém que usou um termo que um dia aprendemos, adotamos e, como em nosso meio ninguém mais o fazia, passamos a achar de nossa propriedade. Até que a lemos em outrem. Pois é como me sinto agora em relação a Gregorio Duvivier: irmão em aldrabão.

Em sua coluna desta quarta (1°/12), ele se referiu às 100 mil palavras que os portugueses nos trouxeram da Corte, mas reservaram algumas para uso próprio no seu lado do Atlântico. Uma dessas, aldrabão —que, em oito letras, três das quais o a, e um humilde til, define em Portugal o farsante, mentiroso, trapaceiro, impostor, descarado, aquele que comete fraudes, patranhas, aldrabices.

Vinicius Torres Freire –Brasil de portas abertas para o vírus

Folha de S. Paulo

Anvisa, TCU e cientistas pedem a medida; Europa discute obrigatoriedade

As notícias da nova variante do coronavírus causaram agitação ligeira por poucos dias. Interessam menos do que os cancelamentos de Carnaval. O que se fez a respeito?

A importação de vírus velhos ou novos continua quase livre no Brasil. Anvisa e TCU recomendaram a exigência do passaporte da vacina. Países europeus adotam a vacinação compulsória de seus cidadãos ou começaram a discutir a hipótese.

Aeroportos e portos estão abertos às nações amigas que cobram certificados de vacina de gente que chega do Brasil (e de quem não nos cobra também). A gente não liga muito, talvez nem mesmo se sobrevier nova onda de desgraça. Com a epidemia matando solta, em abril, não se tocou no assunto. Estamos "de boas" com o vírus, afora os parentes e amigos dos mortos e das vítimas de sequelas —de saúde, psicológicas, sociais, assunto para o qual pouco ligamos também.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Bolsonaro rasga a fantasia

O Estado de S. Paulo

Presidente agora está no PL, mas consistência partidária nunca foi seu forte

O presidente Jair Bolsonaro oficializou sua filiação ao PL, legenda que compõe o Centrão e é presidida pelo notório ex-deputado Valdemar Costa Neto, condenado pelo Supremo a 7 anos e 10 meses de prisão pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro no âmbito do escândalo do mensalão. Em discurso após o ato que selou seu ingresso no partido comandado por um corrupto condenado, Bolsonaro afirmou estar “em casa”. De fato, havia muitas razões para o presidente se sentir bem acolhido (ver editorial Bolsonaro em casa, publicado em 12/11/2021).

Com a filiação ao PL, Bolsonaro traiu de papel passado a confiança dos eleitores que acreditaram naquela espécie de cruzada “antipolítica”, “antissistema” ou outro engodo qualquer, que foi a tônica de sua campanha eleitoral em 2018. Foi justamente essa falácia moralizadora o que mais arrebanhou votos para Bolsonaro. Suas propostas de governo seguramente não foram, pois nunca existiram.

Poesia | Carlos Pena Filho - Soneto das metamorfoses

Carolina, a cansada, fez-se espera
e nunca se entregou ao mar antigo.
Não por temor ao mar, mas ao perigo
de com ela incendiar-se a primavera.

Carolina, a cansada que então era,
despiu, humildemente, as vestes pretas
e incendiou navios e corvetas
já cansada, por fim, de tanta espera.

E cinza fez-se. E teve o corpo implume
escandalosamente penetrado
de imprevistos azuis e claro lume.

Foi quando se lembrou de ser esquife:
abandonou seu corpo incendiado
e adormeceu nas brumas do Recife.

Música | Moacyr Luz - Atravessado