domingo, 21 de setembro de 2008

Soberania e investimentos


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. A crise no mercado financeiro mundial trouxe novamente para o centro das discussões o papel dos fundos soberanos de países emergentes, principalmente asiáticos, reservas financeiras controladas por governos que geram divisas com exportações de commodities. O Morgan Stanley, o segundo maior banco de investimento dos EUA, pode vir a ter 49% de seu capital controlado pelo fundo soberano chinês China Investment Corporation, que hoje já tem 9,9% do banco, comprados por US$10 bilhões em dezembro do ano passado. Outros fundos, como o Abu Dhabi Investment Authority, dos Emirados Árabes Unidos, têm participação em bancos como o Citigroup, ou o Government Investment Corporation, de Cingapura, no grupo suíço UBS.

Apesar de não serem figuras novas no mercado internacional, a participação dos fundos soberanos nos investimentos estrangeiros diretos cresceu muito nos últimos anos. Essas entidades governamentais controlam cerca de U$3 trilhões em investimentos, e esse número pode chegar a U$12 trilhões em 2015. O maior desses fundos, o de Abu Dabi, controla aproximadamente U$875 bilhões.

Essa promoção de posição no contexto econômico internacional dos países emergentes provoca profundo incômodo em setores da sociedade americana, que temem que atrás do crescente poder financeiro venha uma também crescente ambição política.

A nova geopolítica mundial, ou o que o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger chamou de "quebra do modelo tradicional de soberania" tem a ver claramente com o crescente poder dos fundos soberanos, investimentos que têm tido papel fundamental na economia globalizada, e encontram muitas resistências, especialmente das empresas privadas, à medida que se tornam participantes destacados do mercado financeiro internacional.

A regulamentação desses investimentos está sendo estudada em diversos países, em resposta ao aumento de importância de empresas estatais e dos fundos soberanos no mercado internacional, e será tema de um seminário na Universidade Columbia, promovido pela Universidade de Direito em conjunto com o Instituto de Comércio da Universidade de Fribourg, na Suíça e a Universidade Nankai, da China.

O seminário pretende colocar em discussão questões fundamentais sobre o papel dos investimentos dos fundos soberanos: como seu comportamento difere do dos investidores privados ? Até que ponto essas entidades controladas por governos, sejam de países emergentes ou desenvolvidos, são dirigidas pelo objetivo de maximizar lucro ou são politicamente direcionadas?

O surgimento dessas entidades governamentais pode levar a uma legislação mais rígida em relação aos investimentos estrangeiros, ao contrário da tendência de liberalizar a legislação? Como os legisladores conciliarão as tensões entre a segurança nacional e a necessidade de os investidores terem uma segurança regulatória?

A partir de 2007 várias medidas preliminares já foram tomadas pelos países desenvolvidos para fazer face ao crescente papel desempenhado pelos investimentos desses fundos soberanos. Os Estados Unidos, e diversos países como a Alemanha e a Coréia do Sul estão revisando suas regras, e as instituições internacionais, como o FMI e a OCDE estão estabelecendo normas de transparência para esses investimentos, de maneira a uniformizar os procedimentos.

Diante da crise internacional, no entanto, esses países estão diante de uma situação paradoxal, pois ao mesmo tempo em que resistem ao crescente papel desses fundos soberanos, precisam de seus investimentos, pois representam "capitais estáveis e de longo prazo", que reduzem a volatilidade dos mercados.

Mas existem resistências ao investimento em setores sensíveis, como o mercado de câmbio, que poderia afetar o relacionamento entre os governos. Um "código de conduta" voluntário, que estabeleça claramente a vontade desses fundos soberanos de evitar abusos na especulação, e manter a política fora das decisões de investimento, é uma sugestão que volta e meia surge nos debates internacionais sobre o tema.

A contrapartida a um código de conduta desse tipo seria a decisão dos países que recebem investimentos de deixarem claro que não bloqueariam investimentos de fontes estrangeiras, inclusive os fundos soberanos, por motivos políticos.

Os aspectos puramente políticos da questão começam a ser levantados aqui diante do agravamento da crise econômica, e seus reflexos mexem, sobretudo, com setores conservadores, que consideram que os Estados Unidos estão ficando vulneráveis ao avanço desse capital de países asiáticos, especialmente a China, tornando-se presas fáceis de governos autoritários.

Um dos temas mais polêmicos da campanha presidencial é a necessidade de o país se libertar da dependência de energia, sobretudo o petróleo, cujos principais fornecedores são os países árabes. Quando a dependência torna-se financeira, e permite a entrada desses mesmos países em setores estratégicos, essas questões políticas vêem à tona com ênfase.

Ensaios sobre a crise


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

A China parece ser o único candidato plausível para substituir os Estados Unidos e tornar-se a principal força condutora da economia capitalista global. Será?

É um equívoco confundir a globalização com o neoliberalismo, a implementação das idéias monetaristas de Milton Friedman, dos EUA, e de Friedrich August Von Hayek, da Grã-Bretanha, após a crise do petróleo de 1973. Como os governos não conseguiam financiar os gastos públicos do Estado de bem-estar social que surgiu após a II Guerra Mundial, os dois economistas defenderam sua retirada da economia como forma de combater os déficits públicos, equilibrar as balanças comerciais e controlar a inflação. A tese funcionou. Margareth Thatcher, na Inglaterra, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos, lideraram a reforma conservadora que promoveu um longo ciclo de crescimento mundial e implodiu a União Soviética. Foram 30 anos de hegemonia, cujo colapso político pode ser atribuído ao militarismo do republicano George Bush, que se atolou nos cafundós do Iraque e do Afeganistão. No plano econômico, a desregulamentação do mercado financeiro entrou em parafuso nos Estados Unidos. A bagunça fez a casa cair. Tudo o que é sólido se desmancha no ar, mas a globalização continua.

Samuelson

Qualquer estudante de economia conhece as idéias de Paul Samuelson, Prêmio Nobel de 1970, autor do manual de economia mais estudado no mundo. Decano da escola keynesiana, já publicou três artigos sobre a crise. O primeiro foi em novembro passado, no NY Times, no qual defendeu a ação do governo para controlar o mercado. No segundo, no mesmo órgão, lembrou que o Japão pagou muito caro pela “bolha” do mercado imobiliário dos anos 1980, numa longa estagflação. Na semana passada, no Tribune Media, o velho professor comparou a política de Bush no Iraque e no Afeganistão aos fracassos De Gaulle na Argélia e de Eisenhower, Kennedy, Johnson e Nixon no Vietnã. Relembrou as lições da Grande Depressão: “O capitalismo puro não pode evitar alguns ciclos econômicos. Tampouco pode se contar com o ‘laissez-faire’ dos mercados para cuidar dos próprios males”. Para ele, o governo precisa fazer tudo para evitar a estagflação.

Soros

O megainvestidor Geogr Soros adora ganhar dinheiro com crises. Seu livro sobre o assunto, New Paradigm For Financial Markets: The Credit Crisis of 2008 and What it Means (O novo paradigma para o mercado financeiro: a crise de crédito de 2008 e o que ela significa), virou um best-seller. Ele avisa que a crise está longe de acabar. Existiria uma “superbolha” no mercado financeiro, criada pelo que chama de “fundamentalismo de mercado”. Todas as crises financeiras, desde a primeira do México, em 1982, foram conseqüência do dogma de que os mercados são capazes de se auto-regular. “Para conseguir que os bancos tapassem os buracos em suas balanças de pagamento, estas instituições receberam permissão para buscar novos modos de fazer dinheiro. Também foram encorajados a jogar esses prejuízos para fora de suas folhas de balanço e repassar, vender papéis das dívidas para outros, para recuperar recursos. Assim, imaginava-se que fossem compensados”, explica Soros. Segundo ele, regras após regras foram abandonadas. “O resultado foi o surgimento de um mercado financeiro disfuncional, com segmentos particulares completamente sem supervisão e fazendo negócios absurdos”. Para Soros, o mercado e suas instituições devem cumprir regulamentações e ser supervisionados.

Minqi Li


O chinês Minqi Li ensina economia na Universidade de Utah, em Salt Lake City. Escreveu um ensaio intitulado “Uma era de transição: os Estados Unidos, a China, o pico petrolífero e o fim do neoliberalismo”, no qual endossa as teses de Immanuel Wallertein de que o neoliberalismo morreu. Mas faz um paralelo muito interessante sobre as relações entre os Estados Unidos e a China. “Como à Eurozona falta impulso de crescimento e o Brasil, Rússia e Índia permanecem relativamente pequenos para desempenhar papéis decisivos na economia global, a China parece ser o único candidato plausível para substituir os Estados Unidos e tornar-se a principal força condutora da economia capitalista global. Poderá a China conduzir o capitalismo mundial a um outro período de estabilidade e crescimento rápido?”, indaga. Após meados dos anos 1990, o neoliberalismo deparou-se com a resistência crescente por todo o mundo. Muitos governos estão restaurando a regulação estatal e a proteção social, como é o caso brasileiro.

“Provavelmente observaremos um retorno ao domínio keynesiano ou às políticas capitalistas de Estado por todo o mundo”, prevê Minqi Li. Para ele, porém, o ambiente global está à beira do colapso. Não há mais espaço ecológico para outra grande expansão do capitalismo com base no padrão energético atual. Além disso, a China optou por uma via perversa de expansão: sua produção é muito maior do que a procura mundial e não pode ser suportada pela oferta de energia e matérias-primas. A crise global também baterá à porta dos chineses e a saída será reorientar sua produção industrial para um mercado interno cujo consumo de massas hoje é limitado pelos baixos salários.

Café com leite


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O segredo é de polichinelo. Tanto que o líder do PSDB na Câmara, deputado José Aníbal, na quinta-feira deu oficialmente com a linha nos dentes e saiu dizendo que a oposição seria “imbatível” se disputasse a eleição de 2010 com uma chapa tucana puro-sangue: José Serra para presidente e Aécio Neves de vice.

O deputado não inventou nem inovou. A idéia vem sendo cogitada há algum tempo na seara oposicionista e agora já começa a ser discutida como uma possibilidade real. A única capaz de levar a oposição de volta ao Palácio do Planalto e impedir o presidente Luiz Inácio da Silva de eleger seu sucessor.

No campo da elaboração teórica é de uma lógica impecável: abandona o mito de que a união de partidos diferentes aumenta a chance de vitória e adota o princípio da unidade regional juntando os governadores de São Paulo e Minas Gerais, os dois maiores colégios eleitorais do País.

Em números redondos e aproximados, o Brasil tem pouco mais de 130 milhões de eleitores, sendo 30 milhões paulistas e 14 milhões mineiros. Somam 44 milhões e resultam em cerca de um terço do eleitorado brasileiro.

De posse desse capital, reza a fórmula em discussão, daria para enfrentar com folga o favoritismo de Lula, notadamente no Nordeste, sem contar a expectativa de boa pescaria ao Sul, a partir do Paraná.

Ainda no terreno das idéias, Serra firmaria com Aécio o compromisso de não disputar um novo mandato, se eleito, deixando a vaga para o colega em 2014. Não por acaso nem por motivo diverso, o governador de São Paulo continua insistindo em patrocinar uma proposta de emenda constitucional extinguindo a reeleição para presidentes, governadores e prefeitos.

Tendo em vista a inexistência de tempo hábil e consenso para aprovar algo no gênero a fim de que a próxima eleição presidencial já se dê sob a nova regra, Serra defende a tese para afirmar seu comprometimento com ela, ainda que na condição de voto vencido.

Conta com a vantagem moral de ter ficado contra a reeleição quando o PSDB usou do poder da Presidência para tornar constitucional o direito a dois mandatos consecutivos, com validade imediata para propiciar o benefício a Fernando Henrique Cardoso.

O DEM, teoricamente pretendente à vaga de vice, não apenas concorda em deixar o lugar para Aécio como é dos mais entusiasmados com essa possibilidade. Afinal, sabe bem como a Esplanada dos Ministérios dispõe de campos mais férteis que a vice a serem explorados.

E por que para Aécio seria um bom negócio ser coadjuvante no Executivo quando poderia ser protagonista no Legislativo, como presidente do Senado, por exemplo?

Na visão de companheiros de partidos e correligionários de possíveis alianças, porque no Senado há embates e desgastes inexistentes para um vice-presidente.

Além disso, teria alguma função especial na área onde exercita melhor seus dotes políticos de “ajeitador” de contrários e poderia circular por toda parte em missões de representação mais adequadas ao temperamento do mineiro que à personalidade do paulista, pouco dado a festejos.

Posto dessa forma, parece tudo muito bonito, colorido e até mesmo resolvido. Mas por ora há apenas o método, faltando ainda resolver o principal: a remoção dos obstáculos para sua execução. O mais pesado deles, no momento, é justamente o governador Aécio Neves, com quem as coisas precisam ser muito bem combinadas antes de ser anunciadas.

O governador de Minas está ciente da dianteira de Serra dentro e fora do partido, mas não ignora sua força de líder hoje com domínio político absoluto sobre um Estado (não é o caso de Serra em São Paulo) e com nítido trânsito de preferência entre setores do empresariado e mesmo partidários. Aécio, portanto, continua candidato a presidente até que o quadro se confirme ou se modifique.

O menos interessado em assumir o projeto sem que esteja sacramentado e, de preferência, com Aécio Neves escolhido para lançá-lo, é José Serra.

Da parte dele equivaleria a tratar Aécio como figura secundária e, em conseqüência, arriscar-se a arrumar uma confusão com o eleitor de Minas, que deposita na figura do governador a expectativa da reabilitação do Estado como passagem obrigatória do eixo de poder nacional.

Por isso, o plano original seria deixar que as coisas seguissem um curso mais ou menos natural e formular a intenção de montar mesmo a chapa “pura” só a partir de meados de 2009.

Os dois governadores vêm circulando juntos em alguns eventos das campanhas municipais, posaram para fotos com o mais bem-sucedido tucano do certame (Beto Richa, com 72% da preferência para a reeleição em Curitiba) e até já se depararam com adesivos “Serra-Aécio” confeccionados por militantes, mas não passaram recibo: nem de gosto nem de desgosto.

Entre outros motivos por causa do volume de água que ainda há de rolar por baixo das pontes antes de a paz de espírito reinar entre os homens de boa vontade do PSDB e adjacências.

Leis Eleitorais

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS

Nunca criaremos uma democracia real se ela não se fundar no respeito integral a quem é e ao que deseja o eleitor

A população que vive nas cidades onde se capta o sinal das redes de televisão aberta ou do rádio, ou seja, a quase totalidade da população brasileira, está passando por uma experiência que vale a pena comentar. Menos no Distrito Federal, ela é alvo de uma das maiores e mais abrangentes campanhas de propaganda institucional de nossa história.

É a campanha que a Justiça Eleitoral está veiculando em todas essas emissoras, sobre as eleições municipais deste ano. Quem vê televisão ou ouve rádio nesses lugares, nem se quisesse, conseguiria deixar de receber seus efeitos.

Pelo que se pode perceber, ela se propõe a alcançar diversas metas. Comunicar aos eleitores que teremos eleições em 5 de outubro é apenas a mais óbvia e menos ambiciosa. Ela também quer ensinar coisas aos eleitores: a importância do voto, a necessidade de bem refletir antes de votar, que vender seu voto é errado, entre várias outras.

Parece algo tão normal que não haveria razão para discuti-lo. Mas há, pois a campanha nos permite ver quanto precisamos de uma reforma política.

No modo que fala, na forma que adota, ela revela o que temos pela frente, se quisermos melhorar o tônus democrático em nosso país.

Comecemos reconhecendo seu lado positivo. Em uma cultura como a nossa, onde a maioria do eleitorado tem níveis muitos baixos de escolaridade e existe obrigatoriedade de votar, são sempre bem-vindos os esforços de aumentar a informação da população sobre o processo político. A campanha contribui para isso, dizendo às pessoas quando será a eleição, quais os cargos em disputa, o que o eleitor deve fazer para registrar seu voto. São questões banais, mas que devem ser repetidas.

A pena é que a campanha fique nisso, no plano informativo. Se seus responsáveis soubessem quão sequiosa de informação é nossa população, talvez dedicassem mais tempo, da enorme quantidade de que dispõem, para essa finalidade. É de se perguntar por que não aproveitá-lo para explicar aspectos de nosso sistema político que poucas pessoas entendem. Para dar um só exemplo: por que determinados candidatos têm mais tempo que outros na propaganda eleitoral? Quase ninguém compreende uma coisa tão fácil de explicar.

O pouco que se investe na informação do eleitor é compensado pelo muito que é dedicado a tentar fazer algo totalmente diferente, sua pretensa formação. Parte expressiva da campanha é constituída por peças que visam a formar o eleitor, fazendo dele um “bom eleitor”. Nelas, se insiste na peroração de que “o eleitor não deve vender seu voto”, que deve “pensar bem”, que “votar mal prejudica o próprio eleitor”.

De onde seus autores tiraram que esses são problemas reais de nossa sociedade? A partir do que chegaram à conclusão que temos tantos eleitores irresponsáveis, inconseqüentes e venais que a Justiça Eleitoral “precisa fazer alguma coisa”? Que alguém precisa ser ensinado a pensar assim? Subjacente a esses “bons propósitos”, existe uma profunda desconfiança a respeito de nosso eleitor e de nosso povo. A reboque dela, sempre há um pedagogo, que se acha tão superior que se imbui da missão de “guiar os ignorantes”. Nunca criaremos uma democracia real se ela não se fundar no respeito integral a quem é e ao que deseja o eleitor. Não existe meia medida: toda vez que se quer proteger o eleitor, ensiná-lo a ser assim ou assado, evitar que seja alvo de qualquer coisa (influência, manipulação, etc.), o que se consegue é o oposto.

A campanha institucional da Justiça Eleitoral tem méritos, mas mostra muitas coisas que precisamos fazer (e outras que não devemos fazer) na hora que a sociedade brasileira se puser de acordo sobre a reforma política que tantos desejam. O lugar de onde fazê-la não é o Judiciário, mesmo que esteja cheio de pessoas com as melhores intenções. O espírito de uma verdadeira reforma não é proteger o povo, guiar seus passos, mas parar de tratá-lo com paternalismo e condescendência.


A safena e a especulação


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - O pacote que o governo norte-americano está preparando para salvar a economia de um colapso equivale basicamente à colocação de uma ponte de safena para desentupir a artéria vital do capitalismo que é a circulação do crédito.

É essa a análise de José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator.Diz Lima Gonçalves: "A fragilidade subjacente do sistema financeiro são os ativos hipotecários ilíquidos que perderam valor com o ajuste do mercado imobiliário. Esses ativos sufocam o crédito e (...) estão entupindo o sistema financeiro".

A pergunta seguinte inevitável é: a safena resolve o problema? Lima Gonçalves limita-se a dizer que "o programa precisa ser adequadamente desenhado e suficientemente grande para ter o impacto máximo, mas ao mesmo tempo proteger o contribuinte na maior extensão possível".

De acordo, mas qual é o tamanho adequado? Provavelmente monstruoso a julgar pelos números impressionantes colecionados em notável trabalho sobre a crise ("Dinheiro, ganância, tecnologia"), de Norman Gall, diretor-executivo do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial.

Só um dos números da coleção: "Desde 2000, a especulação no mercado desregulado de trocas de garantias contra calotes (CDSs, da sigla em inglês) cresceu exponencialmente de US$ 900 bilhões para US$ 62 trilhões no início de 2008, duas vezes a capitalização do mercado acionário dos EUA e quase o equivalente à totalidade da riqueza das famílias dos Estados Unidos e dez vezes o valor de todos os títulos da dívida que podiam ser protegidos por seguros".

Toda a riqueza do mundo (o PIB mundial) é avaliada hoje em cerca de US$ 40 trilhões. Logo os US$ 62 trilhões da especulação são o mundo mais metade do mundo. Haja pacote para desentupi-la.

O que ficou


Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO


A mais nervosa de todas as semanas deixou constatações. Algumas: não há lugar longe o suficiente de uma crise global; o FMI ficou espantosamente irrelevante; no limite, o Estado paga todas as contas; o mercado financeiro precisa de nova regulação, e fiscalização ágil e atualizada; o pacote reduziu espaço para gastos no próximo governo. Os pessimistas é que tinham razão sobre esta crise.

O próximo governo americano dificilmente poderá aumentar seus gastos. Nem poderá cortar impostos, como os candidatos democrata e republicano estão propondo. A dívida, hoje de 40% do PIB, vai crescer muito com o pacote, e o déficit orçamentário precisará ser combatido.

Um fato espantoso dessa crise é a total ausência dos organismos multilaterais, como o FMI e o BIS. O antigo xerife dos mercados financeiros e o assim chamado banco central dos bancos centrais ficaram inteiramente inertes diante da crise. Alguém ouviu falar do FMI nesta crise? Nem ouvido, nem cheirado, o fundo caiu na opacidade da irrelevância. Só no quinto dia de confusão nos mercados, um dos seus dirigentes fez uma palestra falando platitudes sobre a crise. O Fundo, chamado Monetário Internacional, nada tem a dizer quando surge a pior crise financeira e dos mercados de capitais e monetários desde 1929.

Ficou claro que, quando a crise é originada nos Estados Unidos, ele não sabe como utilizar seus mecanismos de supervisão. Não houve alertas, análises, nada. O silêncio do FMI é gritante. Como instituição monetária internacional, ele entrou em colapso e não há quem o resgate.

Quem alertou que a crise era grave, que se espalharia, que levaria anos e que o rombo atingiria a casa de trilhão de dólares, como Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, foi inicialmente tratado com desprezo. O mantra era falar da "resiliência" da economia americana e chamá-la de "robusta". Antes, a moda era falar nos "fundamentos" da economia. Uma das lições é que os economistas, analistas de risco e reguladores, quando estão envolvidos no mercado, abrem mão da capacidade de pensar, fecham os olhos para o óbvio.

Normalmente, quem não conhece o mercado financeiro condena as operações, como se tudo fosse um grande cassino. Já quem está dentro tende a apresentar tudo como se fosse virtuoso, como se o mercado tivesse dentro de si a capacidade de autocorreção dos excessos. O que se viu é que quando há falha de regulação e leniência dos reguladores, as distorções vão se tornando insustentáveis. E não, o mercado não tem capacidade de autocorreção. O Estado tem que regular e fiscalizar para evitar que aconteça o que acaba de acontecer diante dos nossos olhos.

Não há lugar longe o suficiente de uma crise global, não há economia robusta o suficiente para passar pela crise intacta. Se na crise de 1929, com o mundo muito mais tosco, o Brasil foi afetado no preço do café, o que dirá agora que os laços entre as economias aumentaram tanto. Existem formas de se fortalecer. É bom ter reservas, mas elas não são suficientes. Não basta ter bilhões em reservas, como está mostrando a Rússia, com seus picos de pânico e euforia, com suas saídas fortes de capital. A Rússia tem três vezes mais reservas que o Brasil.

O Brasil perseguiu por anos um modelo de estabilização que tem dado certo. Mas os avanços não são suficientes. O dólar disparou, o risco disparou, fecharam-se as linhas de crédito à exportação e a bolsa despencou. Os países viram meros joguetes que respondem aos movimentos de portfólio dos grandes investidores. Sem que o Brasil tenha saído do lugar, ou alterado qualquer dos seus indicadores, o risco-país chegou a subir 36,5% nos três primeiros dias da semana, e depois caiu 23,4%. Houve um momento que chegou a ser negociado em 379 e na sexta-feira fechou em 278. Faz sentido?

O Brasil tem cometido erros que podem custar caro numa conjuntura tão fluida. O aumento de superávit primário foi feito apenas com parte do aumento da arrecadação. Não é suficiente nem para compensar a alta do custo da dívida pública com a elevação dos juros. O governo tem criado gastos permanentes numa proporção alarmante e acha que todos os problemas podem ser resolvidos por uma entidade estatal. Na semana passada, quando ficou claro que o mercado de crédito estava encurtando, o governo falou em aumentar o financiamento via BNDES, através, inclusive, de flexibilização de normas prudenciais. Isso é arriscado. O FAT, funding do BNDES, passará a ter déficit em 2010 e o banco está sendo capitalizado com dívida pública.

Os desatinos do mercado americano vão ser contabilizados no pacote que sairá esta semana. O que será detalhado, discutido, negociado e aprovado é como o contribuinte vai pagar pelos erros cometidos no mercado financeiro. Para resumir: os bancos financiaram hipotecas a quem não podia pagar; transformaram essas hipotecas em novos produtos financeiros e passaram adiante, para fundos dos próprios bancos ou de alheios; os novos papéis tiveram boa recomendação de risco, dada pelas agências; parte das transações era feita por novas instituições que não estavam sob fiscalização. Para tudo dar certo, era preciso que a alta dos imóveis durasse para sempre, porque a valorização é que permitia que mesmo o mau pagador pagasse, já que seu ativo, sempre se valorizando, era usado como garantia para novos empréstimos.

O Estado prepara, agora, a tábua de salvação de todos. Todo erro será premiado. Um convite a novos erros no mercado futuro.

Hora do chimpanzé


Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

O apocalipse adora disfarçar-se, fingir que o pior já passou. Os sinais de otimismo dessa sexta-feira são mais preocupantes do que as evidências de hecatombe do último fim de semana. Se o processo econômico tem algo de humano, antropomórfico, pode-se dizer que a euforia é mais letal do que o ceticismo.

A bolha que começou estourar em fevereiro de 2007 e continuou rolando por mais 17 meses foi fabricada pelo "mix" euforia-irresponsabilidade que reeditou em setembro de 2008 a quinta-feira negra de 24 de outubro de 1929.

O jornalista-banqueiro Alcides Amaral, ex-presidente do Citibank teve a coragem de colocar o dedo na ferida nesta quinta-feira num contundente artigo no Valor Econômico. Enquanto sofisticados analistas escondiam-se atrás da esfarrapada desculpa da falha sistêmica - que não explica coisa alguma - Amaral apontou com precisão as falhas humanas que provocaram o tsunami.

A mais importante situa-se na área da detecção. O Senhor Mercado -criatura-divindade inventada por exaltados idólatras - atribuiu-se a responsabilidade de criar os seus próprios radares e todos acreditaram nas suas avaliações. A ninguém ocorreu colocar sob suspeita não apenas os ratings, mas a própria credibilidade enquanto agências autônomas. Sustentadas pelo mercado financeiro jamais seriam suficientemente estridentes para avisar que o sistema corria o risco de desabar.

E aqui Alcides Amaral chega à outra das brutais falhas humanas que causaram o maior rombo na economia mundial desde o crash de 1929: a "filosofia do bônus". Ao invés de pagar polpudos salários o mercado adotou o sistema de bônus para recompensar os mágicos capazes de produzir exuberâncias em rapidíssimos lances. Balanços anuais aptos a indicar políticas sustentáveis foram trocados pelos balancetes mensais ou trimestrais onde o que importa são "resultados" imediatos. Um grupo de golden boys ficou milionário da noite para o dia enquanto milhões de tomadores de empréstimos e certamente seus descendentes estão condenados à inadimplência.

O jornalista Nicholas Kristof, do New York Times, aponta números estarrecedores: nos tempos da estabilidade, presidentes de empresas financeiras ganhavam salários de 30 a 40 vezes o salário de um funcionário médio. Ao longo do turbilhão especulativo que deveria terminar agora, o salário dos presidentes das grandes companhias cotadas em bolsa passou a ser 344 vezes maior do que o dos trabalhadores médios. Richard Fuld, que continua presidente do Lehman Brothers, botou no bolso, entre 1993 e 2007, quase meio bilhão de dólares. O jornalista fez as contas: 17 mil dólares por hora para jogar pela janela uma instituição de 164 anos construída em cima de rígidas noções de pudor e respeitabilidade.

O perigo representado pela quase euforia desta sexta-feira está no poder deletério da roleta. Pequenos curativos nos tremendos rombos só servirão para maquiar a situação e enfraquecer a determinação de substituir o irresponsável laissez-faire em vigor pela disposição de regulamentar o mercado e torná-lo confiável. Sobretudo para convertê-lo numa instituição a serviço da sociedade e não mais a serviço dos interesses de um bando de adolescentes de todas as idades, igualmente delirantes.

O nome do jogo agora é credibilidade. O diagnóstico de falha sistêmica é insuficiente porque o problema é anterior, conceitual. O sistema capitalista não está em discussão, não existe outro para substituí-lo. O que se tornou imperioso é a sua readaptação a um mundo policêntrico, necessariamente equilibrado, minimamente equitativo.

Não há mais lugar para corsários. Os mecanismos do Estado de Direito devem funcionar em todas as esferas, o império da lei deve valer para todos, depositantes e depositários. O contribuinte não pode ser penalizado pela insanidade e vocação criminosa de alguns financistas que não têm mandato para cuidar do interesse público. Não é justo que a poupança de uma família japonesa seja torrada para bancar o dominó consumista nos subúrbios americanos. Ou que projetos de desenvolvimento nacional sejam comprometidos pela inclinação perdulária daqueles que se apoderaram dos canais de circulação de riqueza.

A noção de perigo coletivo é indispensável para criar uma disposição efetiva de mutualismo. Isso pressupõe a aposentadoria dos tradicionais totens de Wall Street. Hora de mandar para o zoológico o urso deprimido, símbolo da baixa e o seu rival, o touro indomável, efígie das altas. Antes que todos se convertam em dinossauros e desapareçam, melhor convocar um chimpanzé, para coçar a cabeça e pensar.

» Alberto Dines é jornalista

Os queridinhos do presidente

Eleições 2008
Luiz Carlos Azedo
Da equipe do Correio

Lula fará o possível para ajudar o PT a ganhar as disputas municipais na Grande São Paulo. Região é estratégica para diminuir a força do governador tucano José Serra, candidato a presidente em 2010

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará o que puder para apoiar os candidatos do PT na Grande São Paulo, a começar pela campanha da ex-ministra Marta Suplicy, que tenta voltar à prefeitura da capital. Lula pretende se engajar também nas campanhas petistas de Guarulhos, Osasco e municípios do chamado ABC, principalmente São Bernardo, Santo André, São Caetano, Diadema e Mauá, redutos históricos do partido.

Lula quer fortalecer o PT em São Paulo e, assim, neutralizar a vantagem estratégica que o governador do estado, José Serra (PSDB), tem com o eleitorado paulista como candidato tucano a presidente da República em 2010. A jóia da coroa é a capital, onde Marta Suplicy lidera a disputa, mas corre o risco de perder no segundo turno.

As simulações na capital paulista, segundo a pesquisa Datafolha divulgada quinta-feira passada, mostram que Marta está tecnicamente empatada no segundo turno com o prefeito Gilberto Kassab (DEM), que concorre à reeleição, e com o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Na avaliação da cúpula petista, no cenário atual, Marta só vence as eleições se receber um forte empurrão de Lula, que hoje tem uma avaliação positiva na capital que suplanta em muito a da ex-prefeita.

Se o segundo turno fosse realizado hoje, 46% dos eleitores da capital paulista votariam na candidata do PT e 45% optariam pela reeleição do democrata. Há uma semana, Marta obteve 48% e Kassab, 44%. A simulação de uma disputa com Geraldo Alckmin mostra um empate entre os dois, com 47% de intenções de votos para cada um, resultado igual ao da pesquisa anterior. A participação de Lula na campanha de Marta neste fim de semana é que vai dizer se o presidente realmente é capaz de transferir seus votos para a ex-prefeita (leia mais na página 4).

Primeiro turno

Marta continua em primeiro lugar na preferência dos eleitores paulistanos, com 37% das intenções de voto, segundo pesquisa realizada pelo Datafolha em 17 e 18 de setembro. O segundo lugar segue disputado por Alckmin e Kassab, ambos com 22%. O ex-prefeito Paulo Maluf (PP) tem 7% e Soninha (PPS), 3%. Ivan Valente (PSol) atinge 1% das intenções de voto. Anaí Caproni (PCO), Ciro (PTC), Edmilson Costa (PCB) e Renato Reichmann (PMN) não chegaram a 1% das menções. Levy Fidelix, do PRTB, não foi citado. Se a eleição fosse hoje, 4% votariam em branco ou anulariam o voto, mesmo percentual dos que não saberiam em quem votar. Foram ouvidos 1.666 eleitores da cidade de São Paulo, a partir dos 16 anos de idade.

O jogo paulista

São Bernardo

Os candidatos Orlando Morando (PSDB) e o petista Luiz Marinho (foto) estão empatados tecnicamente com 27% e 26%, respectivamente, segundo o Ibope. Alex Manente (PPS) tem 15%, seguido por Evandro de Lima (PTdoB) e Aldo Santos (PSol), ambos com 1%. Brancos ou nulos somam 9% das intenções de voto. A margem de erro também é de quatro pontos percentuais e foram consultadas 504 pessoas entre 26 e 28 de agosto. A pesquisa está registrada sob o número 7/2008 na 174ª Zona Eleitoral de São Bernardo.

Osasco

O prefeito petista Emídio de Souza lidera a disputa pela prefeitura com 42,3% de preferência do eleitorado, seguido por Celso Giglio (PSDB), que tem 30,3%. O ex-prefeito e atual deputado federal Francisco Rossi (PMDB) tem 10,2%. Délbio Teruel (PDT) aparece com 1,4%, segundo pesquisa do Instituto Brasmarket, registrada em cartório com o número 05/2008, e realizada entre 3 e 5 de setembro. Foram ouvidos 801 eleitores e a margem de erro é de 3%. A pesquisa revela que 15,1% ainda não decidiram o voto ou pretendem anulá-lo.

Guarulhos

O petista Sebastião Almeida lidera a disputa pela prefeitura, com 25% de intenções de voto, contra o candidato do PV, Jovino Cândido, que concorre à reeleição e tem 18%. Carlos Roberto (PSDB) vem com 14% (entre 10% e 18%). Ou seja, há empate técnico tanto entre o primeiro e o segundo, quanto entre o segundo e o terceiro. Jorge Tadeu (DEM) aparece em quarto lugar com 5%, seguido de Adriana Afonso, com 3%. Adílson Valente (PCd B) e Orlando Fantazini (PPS) têm 1% cada, Edson Albertão (PSol) vem com 0,3%. No total, 9% dizem que não votam em nenhum candidato, enquanto 25% responderam não saber. A disputa deve ir para o segundo turno. O Instituto Opinião, contratado pelo jornal Guarulhos Hoje, ouviu 600 eleitores entre 6 e 8 de setembro. A pesquisa foi registrada como o número 07/2008, na 176ª Zona Eleitoral.

Santo André

Vanderlei Siraque (PT) lidera com 33% das intenções de voto, mostra o Ibope. Newton Brandão (PSDB) tem 15%, seguido por Aidan Ravin (PTB) empatado com Raimundo Salles (DEM), ambos com 13%. O levantamento foi realizado entre 26 e 29 de agosto e está registrado na 156ª Zona Eleitoral do município, sob o número 1220/08.

São Caetano

O prefeito de São Caetano, José Auricchio Jr. (PTB), disparou na pesquisa do Ibope: tem 72% dos votos. O segundo colocado, Horácio Neto (PSol), aparece com 5% das intenções. O petista Jayme Tortorello aparece na última colocação, com 3%. Como a margem de erro é de cinco pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados. Brancos ou nulos somam 7%. A sondagem foi feita entre 25 e 27 de agosto com 350 eleitores e está registrada na 166ª Zona Eleitoral da cidade, sob o número 068/2008.

Diadema

Mário Reali (PT) e José Augusto da Silva Ramos (PSDB) estão com 40% e 35%, respectivamente, e tecnicamente empatados, porque a margem de erro do Ibope é de 4%. Em terceiro está o candidato do PMN, Ricardo Yoshio, com 5%, Foram feitas 504 entrevistas entre 26 e 28 de agosto. A pesquisa está registrada sob o número 05/08 na 222ª Zona Eleitoral de Diadema. Mauá

O petista Oswaldo Dias lidera com 44% das intenções de voto, segundo o Ibope. Francisco Carneiro (PSB), o Chiquinho do Zaíra, aparece tecnicamente empatado com Diniz Lopes (PSDB),com 19% e 14%, respectivamente. A margem de erro é de quatro pontos percentuais. A sondagem foi realizada com 504 pessoas entre 26 e 28 de agosto e está registrada na 217ª Zona Eleitoral, sob o número 1320/08.

Ribeirão Pires

O prefeito de Ribeirão Pires, Clóvis Volpi (PV), tem 59% das intenções de voto. O tucano Valdírio Prisco tem 13%, e o petista Mário Nunes aparece em terceiro, com 5%. A pesquisa do Ibope foi realizada no município entre 25 e 27 de agosto, tendo sido registrada na 183ª Zona Eleitoral de Ribeirão Pires, sob o número 05/2008.

Rio Grande da Serra

O tucano Adler Teixeira (PSDB), o Kiko, tem 69% das intenções de voto. O segundo colocado, Carlos Augusto César (PT), o Cafu, aparece com 13%. Nilson Gonçalves (PR) é o último colocado, com 2%. Brancos e nulos somam 5% e a margem de erro é de cinco pontos percentuais. A pesquisa está registrada sob o número 581/08

Líder, Eduardo Paes quer Lula neutro

Luciana Nunes Leal
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ex-tucano teme que presidente queira retribuir apoio de Crivella

A participação intensa do governador Sérgio Cabral na campanha eleitoral, a farta arrecadação, que já ultrapassa R$ 3 milhões, o bom tempo na TV e a promessa de uma inédita parceria da cidade com o governo federal deram ao candidato do PMDB à Prefeitura do Rio, Eduardo Paes, a liderança na disputa. A vaga praticamente assegurada no segundo turno, porém, não tranqüiliza o ex-tucano. No comando da campanha, a grande preocupação é garantir a neutralidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com cinco candidatos de partidos aliados na briga, Lula optou por ficar fora do primeiro turno no Rio. Até agora, apesar da subida de alguns candidatos, as pesquisas indicam maior possibilidade de segundo turno entre Paes, aliado recente, e o candidato do PRB, senador Marcelo Crivella, antigo parceiro do presidente. É aí que entra a apreensão dos peemedebistas.

Em 2005, como deputado do PSDB e integrante da CPI dos Correios, Paes foi implacável nas acusações a integrantes do governo Lula. Crivella ficou ao lado do presidente. Agora, o temor dos peemedebistas é de que Lula compense, no segundo turno, a solidariedade do senador, até para agradar ao vice-presidente José Alencar, também do PRB.

“Não vou criar constrangimento para o presidente Lula. Ele tem sido corretíssimo. Não dá para pedir outra coisa que não seja a eqüidistância”, disse Paes na quarta-feira, acomodado na van que o levava de um ponto a outro da zona norte carioca, onde fez uma série de caminhadas, muitas delas longe da imprensa. É o corpo-a-corpo “sem patrulha”, nas palavras do candidato. A estratégia de Paes é divulgar apenas um, no máximo dois, compromissos de campanha por dia. O resto faz parte da agenda reservada.

Com poucos assessores e candidatos a vereador e muitos cabos eleitorais distribuindo bandeiras e cartazes, Paes segue o modelo da campanha vitoriosa de Cabral em 2006: dá atenção especial aos idosos, cumprimenta as mulheres com beijo na mão, conversa como se encontrasse velhos conhecidos.

Questionado sobre o peso do governador em seu desempenho nas pesquisas, Paes não tem dúvidas: “Cem por cento. Ele foi fundamental.” Cabral, cada vez mais presente no programa de TV e na agenda de campanha de fim de semana, terá atuação decisiva também no segundo turno, não só para negociar apoio dos candidatos derrotados como para tentar garantir a distância de Lula da sucessão carioca.

Para o governador, tamanho empenho na campanha de Paes se justifica. Além de tentar garantir um aliado na prefeitura, ele acredita que sair vitorioso na capital lhe dará mais visibilidade no cenário nacional. Em 2010, no entanto, o plano de Cabral ainda é buscar a reeleição. Se for confirmada a disputa entre Crivella e Paes, o prefeito Cesar Maia (DEM), antigo aliado e padrinho político do peemedebista, provavelmente ficará com o candidato do PRB. Uma vantagem para Paes é o fato de que Cabral tem em seu governo partidos que hoje estão em outras candidaturas, como PT e PSB, mas que tenderiam a se aliar ao PMDB no segundo turno.

DIFICULDADES

Além da dúvida sobre o comportamento de Lula, a cautela da equipe de Paes se justifica também pelo fato de que o candidato ainda tem dificuldades em alguns pontos da cidade, apontadas em pesquisas internas encomendadas pelo PMDB. Em bairros da periferia com grande influência da Igreja Universal do Reino de Deus, da qual Crivella é bispo licenciado, e em grandes favelas, como o Complexo da Maré, Paes está em desvantagem. Por outro lado, os peemedebistas animam-se com o crescimento na zona oeste e também na zona sul, onde é forte o candidato do PV, Fernando Gabeira, em coligação com o PSDB.

Em três semanas, Paes subiu 15 pontos no Ibope, passando de 12% para 27%. Crivella caiu 5 pontos, de 28% para 23%. Pesquisa do Datafolha divulgada na sexta-feira confirmou tendência de queda de Crivella e mostrou Paes isolado na liderança.

O candidato do PMDB faz uma campanha rica. Até agora, arrecadou R$ 3,165 milhões, equivalentes a 68,3% da arrecadação de todos os adversários juntos. O maior doador é o empresário Eike Batista, com R$ 500 mil. Empresas da construção civil e imobiliárias também são colaboradoras.

Sempre que indagado sobre a aparente incoerência entre o comportamento na CPI dos Correios em 2005 e a defesa de Lula que faz agora, além do fato de já ter passado por outros quatro partidos (PV, PFL, PTB e PSDB), Paes diz que esses são seus “maiores pecados”. Ele não esconde o fato de ter sido afilhado político do prefeito Cesar Maia e também fala com orgulho da sólida formação liberal, dos tempos do PFL - hoje DEM.

Hoje, Paes se define como “político de centro, com visão importante do papel do Estado”. Fiel ao atual aliado, cita o governador fluminense como político que admira. “Estou numa fase Sérgio Cabral”, define. Entre os estrangeiros, cita o presidente dos Estados Unidos Franklin Roosevelt e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill. Acha o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González “fantástico”, o ex-presidente americano Bill Clinton “sensacional” e a senadora Hillary Clinton “maravilhosa”.

TUCANOS

Embora tenha deixado o PSDB, Paes tem entre os tucanos não só amigos, mas colaboradores de campanha, como o vereador Luiz Guaraná e o deputado estadual Pedro Paulo. “Tenho muito orgulho dos apoios. Também não crio constrangimentos para aqueles do meu partido que não estão comigo”, diz Paes.

Entre os peemedebistas ausentes da campanha está o ex-governador Anthony Garotinho. Adversário de Cabral - embora militem na mesma legenda -, Garotinho avisou ao candidato que não participaria da campanha. Preferiu concentrar-se no esforço de eleger a filha Clarissa vereadora e a mulher Rosinha, ex-governadora, prefeita de Campos.

Segundo turno deve se generalizar

Raphael Bruno
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Nas maiores cidades, apenas em Curitiba e Goiânia o prefeito deve ser eleito no dia 5

Faltam apenas duas semanas para as eleições municipais, mas, nos maiores colégios eleitorais do país, poucas cidades conhecerão o prefeito que as irá comandar nos próximos quatro anos já no primeiro turno. Na reta final da campanha, crescem não só as especulações sobre possíveis apoios na segunda rodada da disputa eleitoral, como também a troca de duras críticas entre prováveis aliados no futuro próximo. Vale tudo por um lugar ao sol, ou melhor, na urna, no próximo dia 26 de outubro, data marcada para a realização do segundo turno. Hoje, PT e PMDB seriam os partidos que mais emplacariam candidatos em dez das principais cidades do país.

Municípios como Curitiba e Goiânia, onde as eleições caminham para para um desfecho já no primeiro turno, são exceções entre as grandes cidades brasileiras. Na capital paranaense, nem mesmo todo o apoio do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, à candidata do PT e sua esposa, Gleisi Hoffmann, ameaça a reeleição do atual prefeito, Beto Richa (PSDB), que soma 74% da preferência do eleitorado, de acordo com último levantamento Ibope. Em Goiânia, o também candidato à reeleição, Iris Resende (PMDB), lidera com percentuais semelhantes e não aparenta dar muitas chances ao segundo colocado Sandes Júnior (PP).

– Num cenário de quadro partidário fragmentado como o nosso, é preciso analisar caso a caso as eleições que serão resolvidas no primeiro turno – observa o cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Leonardo Barreto. – Geralmente, é necessário a combinação de uma série de fatores, como candidatos partindo para reeleição, avaliações positivas elevadas por parte da população e o apoio da máquina pública. Quando as eleições têm mais atores novos, fica mais difícil.

Atrás dos apoios

A perspectiva de que os pleitos municipais não se resolvam no primeiro turno já colocou muita gente em busca de aliados para a segunda rodada das eleições. Em Belo Horizonte, após a ascensão meteórica do candidato apoiado pelo prefeito Fernando Pimentel (PT) e pelo governador Aécio Neves (PSDB), Márcio Lacerda (PSB), seus principais adversários, Jô Moraes (PCdoB) e Leonardo Quintão (PMDB), fizeram um pacto de apoio mútuo em caso de segundo turno.

– Estamos com esse entendimento há uns 15 dias – admite Jô Moraes, revelando que há uma boa possibilidade de que o acordo se amplie para outros candidatos que podem sair derrotados no primeiro turno, como Sérgio Miranda (PDT). – Nos debates estamos sempre chamando a atenção para a importância de um segundo turno, dada a necessidade de que Belo Horizonte enfrente um processo democrático efetivo.

O rival Márcio Lacerda, que ao que todas as pesquisas indicam até o momento angariou todos os apoios que precisava para ser eleito já no primeiro turno, disfarça.

– Estamos nos empenhando para um bom desempenho nas urnas no dia 5 de outubro e temos certeza que os eleitores farão uma escolha consciente e livre que irá beneficiar toda a população de nossa cidade – diz. – Os eleitores é que decidirão se haverá ou não segundo turno e nós vamos continuar trabalhando sem nos preocupar, no momento, com esta questão.

Crivella polemiza

No Rio de Janeiro, o candidato do PRB, Marcelo Crivella, causou polêmica recentemente ao declarar que havia realizado acordo semelhante ao da capital mineira com Jandira Feghali (PCdoB), o que foi negado pela candidata. Mas, dada a proximidade de Crivella do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o cenário mais provável é que a parceria se concretize, com o acréscimo ainda do PT, de Alessandro Molon, no grupo que irá enfrentar o atual líder nas pesquisas de intenção de voto, Eduardo Paes (PMDB), caso Jandira não alcance o segundo turno.

Já Eduardo Paes, figura mais ligada ao PSDB, onde era deputado federal e esteve até outubro do ano passado, sonha em contar com o apoio da legenda e de Fernando Gabeira (PV). E, embora sua saída do ninho tucano não tenha sido das melhores, o ex-partido já apoiou, por exemplo, no segundo turno das eleições para governador do Estado em 2006, o grande patrocinador da candidatura do peemedebista, o governador Sérgio Cabral.

– É prematuro falar em apoio no segundo turno – esquiva-se um tucano carioca de elevada plumagem. – Tem que aguardar, ainda está muito cedo. Mas qualquer movimento de apoio no segundo turno não pode ser por questões pessoais, mas sim programáticas.

A declaração pode ser entendida como uma sinalização de que eventual apoio de Gabeira no segundo turno não poderá ficar restrito à preferência do candidato do PV e terá que passar por negociações partidárias. Mas o tucano não perde o tom vencedor e garante que este será sim o critério utilizado, mas por Gabeira, para angariar possíveis apoios à sua candidatura no segundo turno.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1093&portal=

sábado, 20 de setembro de 2008

A grande questão


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. O desafio que se coloca para a campanha do candidato democrata Barack Obama é convencer o eleitorado de que a nova versão que o senador republicano John McCain está construindo para sua imagem pública não corresponde à realidade. Ou se, ao contrário, McCain conseguirá convencer os eleitores de que essa nova versão corresponde a uma necessidade do momento. O mesmo que disse o presidente Bush ontem, ao anunciar o pacote que deu alívio aos mercados internacionais: "Intervir no mercado não é desejável, mas desta vez não havia outra solução", explicou o presidente americano.

O McCain contrário à liberdade do mercado financeiro, e favorável a uma regulamentação menos flexível para controlar as irresponsabilidades que foram cometidas em busca do lucro máximo, simplesmente é uma novidade forjada durante a campanha, em busca da simpatia do eleitor de classe média, que, por sua vez, anda em busca de segurança.

Na verdade, o aprofundamento da crise econômica pegou o Partido Republicano no contrapé, e obrigou a Casa Branca a adotar medidas de intervenção no mercado financeiro em intensidade tamanha que deixaram de ser pontuais para se tornarem sistêmicas, revogando todo o credo dos conservadores na força do mercado.

O presidente George W. Bush, que já entrara para a História como um dos piores presidentes dos Estados Unidos devido à guerra do Iraque, corria o risco de acrescentar ao seu currículo a pecha de ser o responsável pela quebra do sistema financeiro internacional.

Um papel que até agora era exercido pelo presidente Herbert Hoover, que, um ano depois de ter sido eleito, teve que comandar um país quebrado financeiramente pelo crash de 1929 da Bolsa de Valores de Nova York.

Entregou ao seu sucessor Franklyn Roosevelt um país em recessão, da qual só saiu muitos anos, vários planos econômicos, uma Guerra Mundial e quatro mandatos presidenciais depois.

O democrata Roosevelt substituiu o republicano Hoover e entrou para a História como o homem que tirou os Estados Unidos da profunda crise econômica à custa de uma intervenção governamental forte para financiamento da indústria, criação de empregos, de programas de seguro social e controles rígidos do mercado financeiro.

A legislação protetora foi sendo flexibilizada com a chegada do governo republicano à Casa Branca em 2000, na certeza de que a desregulamentação traria maior produtividade ao setor financeiro.

Essa postura teve no então senador Phil Gramn seu mentor no Senado, e no senador McCain, de quem Gramn era uma espécie de guru econômico, um defensor permanente. O senador Joe Biden, candidato a vice de Obama, ressaltou essa parcela de culpa dos republicanos dizendo que "a mentalidade de cowboy" da era Bush retirou as proteções dos investimentos dos pequenos poupadores, deixando o caminho livre para os especuladores.

Por isso, a intervenção governamental na área financeira retira dos republicanos, e da campanha de McCain em particular, o mote de redução da ação do governo. No mais recente anúncio de propaganda de sua campanha, McCain fala na ampliação do papel do governo caso Obama seja eleito, com todos os efeitos que ela traz consigo, como o aumento dos impostos.

Até aqui, o governo reduzido, deixando para o empreendedorismo do cidadão o papel de alavancar o progresso do país, foi o principal mote da campanha republicana. Já não é mais possível culpar os democratas pela ampliação dos poderes do Estado, e nem pelo aumento do déficit público que as intervenções governamentais provocarão.

Mas, pelo menos McCain não terá um partido democrata culpando o governo pelo gasto do dinheiro do contribuinte, já que as medidas anunciadas ontem pela Casa Branca têm mais adeptos entre os democratas do que entre os próprios republicanos. E o pacote governamental depende basicamente dos democratas, que têm a maioria, para ser aprovado.

O fato de o candidato democrata Barack Obama não ter apresentado um plano alternativo, e sim ter incentivado a busca de um acordo no Congresso para aprovar o plano do governo Bush, só demonstra sua concordância com as medidas que estão sendo anunciadas. É uma atitude sensata, embora possa parecer ao eleitor médio indecisão.

Ao mesmo tempo, McCain anunciou a criação de uma nova agência que fiscalizará, em um eventual governo republicano, o mercado de hipotecas e o financeiro, para monitorar as atividades dos bancos e prevenir problemas antes que eles aconteçam.

A crise financeira que atingiu o sistema bancário americano, levando de roldão o mercado internacional, não teve repercussões no dia-a-dia do americano médio, que, ao contrário, sofreu as conseqüências diretas da bolha imobiliária que a gerou.

Por isso, no curto prazo, as perdas ficarão maquiadas, e o governo republicano pode até sair da crise com a fama de tê-la enfrentado com sucesso. O futuro presidente dos Estados Unidos, seja ele quem for, é quem vai ter que enfrentar as conseqüências desse aumento do déficit público, seja através de corte de gastos, seja com aumento dos impostos.

Mas, na campanha eleitoral, dificilmente ficará claro para o eleitor médio qual a melhor solução. Talvez os debates possam esclarecer qual dos candidatos está mais preparado para enfrentar os problemas futuros.

Glória sem cidadania


Teresa Costa D'Amaral
DEU EM O GLOBO

O Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD) ganhou 5 medalhas de ouro nos Jogos Paraolímpicos de Pequim, por isso talvez eu tenha conquistado o direito de ser lida com boa-fé por quem se emocionou com os atletas brasileiros.

Lutei todas as lutas com o Tenório e o Eduardo, nadei todas as provas com o André, joguei toda partida de futebol com o Zeca, o Vanderson, o Antonio e o Adriano. Velejei pelos mares com o Darke e o Rossano. Vivi cada medalha com alegria.

Mas outros motivos me levam a falar. Um deles, o fato de o IBDD ser o único clube de esporte para pessoas com deficiência que realiza um trabalho permanente de prática desportiva e construção da cidadania. Cada um dos nossos atletas tem apoio social, treinamento, orientação profissional, bolsa, seguro-saúde, preparação física, nutricionista.

A maioria dos atletas brasileiros volta de uma paraolimpíada sem emprego, sem patrocínio. Este ano nem o tradicional prêmio por medalha eles ganharam do Comitê Paraolímpico Brasileiro!

Os clubes e os atletas sobrevivem sem apoio. São pelo menos um milhão de reais mensais garantidos por lei para o CPB aplicar no esporte para pessoas com deficiência, mas o CPB não realiza com adequação e transparência esse investimento, e como não é nem órgão de governo nem ONG, vive no limbo da fiscalização do esporte em que quase tudo é permitido.

Existe em cada atleta muito de esforço pessoal e de infinita vontade de vencer. Não posso negar, existe uma confusa bolsa-atleta do Ministério do Esporte. Mas como seria poderoso todo o imenso volume de recursos, se não se perdesse no mal-organizado apoio às confederações, nas bem-organizadas viagens dos cartolas, na farsa da relação de marketing com empresas. O Lars Grael já se pronunciou contra.

Importante dizer que as confederações estão falidas. A CBDC, que representa o desporto para cegos, fez no início do ano uma rifa para tentar pagar a dívida de mais de um milhão de reais que contraiu para fazer os Jogos Mundiais, etapa indispensável para Pequim. A Abradecar, de desporto em cadeira de rodas, fechou por desvios e dívidas. A Ande, desporto para paralisados cerebrais, mal sobrevive, o próprio IBDD já emprestou dinheiro para ela.

Decisão equivocada do CPB fez com que o Caco, nosso atleta, medalha de ouro em Atlanta, não competisse porque é desafeto de dirigentes. Outra decisão infeliz fez com que as TVs abertas não transmitissem as competições.

Os Jogos de Pequim não foram o que poderiam ter sido para a nossa luta. Mas conquistamos cada brasileiro que viu nossa força. Fizemos muito, muito, por esforço pessoal de cada atleta, poderíamos ter feito mais e melhor se houvesse consistência na construção dessas conquistas. E persistiu a irresponsável aplicação dos recursos destinados ao esporte paraolímpico. E mais infelizmente não posso dizer, ou porque minha responsabilidade como administradora do IBDD não permite ou porque nossa assessoria jurídica não deixa.

TERESA COSTA D"AMARAL é superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD).

A delação legalizada


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

COM A MESMA DESENVOLTURA de outras proezas, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, defendeu na CPI do Grampo a "discussão" sobre a virtual revogação do sigilo da fonte, um das normas éticas fundamentais do exercício da profissão de jornalista, em especial do jornalismo político. A proposta do ministro de todas as Armas é de tal maneira estapafúrdia, de amoralismo cínico e despropositado que não merece ser discutida ou levada a sério. Mas, repudiado pela categoria, a começar pelas entidades de classe, como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), o Sindicato dos Jornalistas e o apoio da Academia Brasileira de Letra (ABL) e de todos os sensibilizados pela defesa da liberdade de imprensa. Nas minhas seis décadas de exercício como repórter político jamais trai uma fonte ou delatei o informante que em mim confiou. E, de logo, deixo claro de público que jamais revelarei a fonte que acreditou na minha dignidade. Quaisquer que sejam as conseqüências de uma recaída na esterqueira da ditadura.

Lula na sua campanha e na da Dilma

Como o presidente Lula conserva as barbas grisalhas, não cultiva o hábito do dialogo matinal com o espelho, enquanto espalha com o pincel o sabão pelo rosto e com a confiável gilete ou a navalha caída em desuso raspa os fios que enfeiam a fisionomia. Não precisa conferir a cada dia os índices de auto-estima, que disparam em velocidade superior aos dos seus índices recordistas de popularidade nas pesquisas que batem no teto de 62%, e com a pinta que alcançará os 70% com gosto doce da virtual unanimidade. E, se o comedimento nunca foi uma das características do seu temperamento, a série de êxitos emplacados pelo governo ativou os neurônios da confiança no seu esquema para as duas campanhas eleitorais.

A que se arrasta na gaiatice cafona do programa eleitoral e promete favorecer o bloco governista de 16 siglas, com o tempero democrático de esparsas vitórias oposicionistas, inclusive em capitais importantes. O ruído das comemorações e análises da eleição de prefeitos e vereadores será sufocado pelo vagalhão que desabará na praia com especulações, manobras, acordos e rompimentos sobre as eleições de 2010 para o sucessor de Lula, governadores, senadores e deputados federais.

E é aí, no gramado das decisões que Lula treina, para consolidar e ampliar a vitória que considera certa, favas contadas. Quem presta atenção nos conchavos do jogo político e distrai-se com as embaixadas e chutes a gol do presidente-artilheiro acompanhou a escalada nas mudanças do seu temperamento.

Lula diz o que lhe vem à cabeça na autolouvação delirante dos seus feitos, a bater recordes mundiais com a facilidade com que se descasca uma tangerina. E não está nem aí para críticas de uma oposição que está brigando mais para dentro, engasgada na rala sopa de siglas, do que com o adversário nacional, solto no ringue. Promessas e fanfarrices na agenda de todos os dias.

Na efusiva e recente amizade de infância com o governador fluminense, Sérgio Cabral, promessas atropelam a enxurrada de louvação: "Não tenho medo de dizer que Sérgio pode passar à História como o melhor governador que este Estado já teve". E, para enfeitar o buquê prometeu copiar o modelo do projeto das Unidades de Pronto-Atendimento (UPA) para construir 500 no Brasil até 2010. Nem precisava, pois, como o presidente alardeia, "nestes dois anos de mandato, em parceria com Sérgio Cabral, estamos fazendo mais pelo Rio do que foi feito nos últimos 30 anos".

Nos intervalos das folgas, cuida do PT que, depois da temporada dos escândalos do mensalão, do caixa 2, da compra de ambulâncias superfaturadas está mais dócil do que um cordeirinho. Na última rodada de conversa palaciana, o candidato escolhido para presidir o Partido dos Trabalhadores a partir de agosto de 2006 é o amigo de longa militância e seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho.

A ministra Dilma Rousseff não cria problemas e só dá satisfações ao presidente. Vestiu a blusa de candidata e tira excelentes notas no cursilho prático no Palácio do Planalto. Bem humorada, atenciosa, falante e com excelente desempenho nos palanques das viagens do presidente. Nem a pífia campanha da seleção de Dunga esquenta a sua cabeça. Ao contrário, deu razão aos seus reparos de peladeiro nos tempos de torneiro-mecânico em São Bernardo do Campo.

Poder arreganha dentes para nós


Milton Coelho da Graça (*)
DEU EM COMUNIQUE-SE

Quanto mais avança a democracia, quanto mais avança a tecnologia, mais o poder quer xeretar nossas vidas e menos aceita que os jornalistas descubram e divulguem um pouquinho do resultado dessa xeretice.

Por que o ministro da Justiça não mandou um projeto de lei ao Congresso com penas mais duras para violações do sigilo bancário dos cidadãos, como aquela ordenada pelo ex-ministro Antonio Palocci (e respeitosamente cumpridas por dirigentes de estatais) contra o pobre caseiro da casa de diversões mais famosa de Brasília?

Por que Legislativo e Judiciário nada fizeram depois que João Paulo Cunha, presidente da Câmara Federal, graças a informações obtidas por grampos, mandou parar a enxurrada de convocações de empresários pela Comissão de Fiscalização de Atividades Financeiras, onde eram polidamente “escalpelados”?

E, porque nada fizeram, o “Coringa” dessa Comissão continuou subindo na vida. Agora, como presidente da Constituição e Justiça, a mais importante nas duas casas do Congresso, é o pior espinho parlamentar contra o presidente Lula, exigindo sempre um “presentinho” para dar andamento a qualquer iniciativa do Governo. O mais recente “presentinho” exigido é o fundo de pensão Real Grandeza, dos funcionários de Furnas, um dos mais bem administrados do país.

Estou contando tudo isso antes que seja aprovado esse projeto provavelmente elaborado de comum acordo entre os três poderes da República (embora Lula esteja calado). O ministro Tarso Genro explicou hoje (sexta, 19/9): “Quem diz que o texto abre brecha para punir jornalistas não leu o projeto ou não teve clareza jurídica e técnica para compreendê-lo”.

Ministro, li umas três ou quatro vezes. Reconheço que talvez não tenha clareza jurídica para compreender o que V. Exa. pretende. Mas os únicos textos ministeriais que às vezes não consigo compreender são os do ministro Mangabeira Unger.

Em quase 50 anos de carreira, sempre entendi bem todos os outros. E está claríssima a intenção de impor medo e punir qualquer investigação jornalística que se inicie ou inclua informações obtidas através de um e-mail ou grampo, referentes a um tema de interesse público, mesmo que a matéria não reproduza nem se refira a essa origem. “Utilizar o RESULTADO de interceptação” é bastante vago para nos sujeitar a prisãode quatro anos e multa, com anuência e até aplauso, suspeito, de uma significativa parcela do Judiciário.

O projeto modifica o artigo 151 do Código Penal. O parágrafo 1º e seu inciso II (clique aqui para conhecer bem a ameaça) estão cuidadosamente redigidos. As palavras “imprensa” e “jornalista” não aparecem, mas é a nós que se referem.

E já está no forno outra paulada, desta vez anunciada pelo ministro Nelson Jobim, visivelmente entusiasmado pelas fotos com uniforme de combatente. O alvo é o sigilo da fonte.

Todo governante sonha com a absoluta fidelidade do aparelho de Estado, mas a democracia depende vitalmente da lealdade de cada funcionário público o interesse do Estado e da legalidade constitucional acima dos desejos de superiores hierárquicos. Quando o governante usa uniforme e a lei não nos protege, ele não apenas sonha, baixa o sarrafo.

Falo de cadeira porque peguei um mês no DOI-CODI e uma condenação a seis meses no presídio do Hipódromo, por fazer com outros companheiros um jornal clandestino (Notícias Censuradas) quando o ditador Médici proibiu a divulgação de notícias sobre uma epidemia de meningite e prejudicou o combate à doença. Se os médicos no Rio e em São Paulo tivessem baixado a cabeça e não divulgassem o que estava acontecendo, teria havido um número ainda maior de mortes.

Mencionei lá em cima que o presidente Lula até agora está calado sobre esses dois temas. Tenho sincera esperança de que ele ordenará “meia volta volver” a todos os ministros, parlamentares e juízes que sonham com um Brasil sem jornalistas xeretas.

(*) Milton Coelho da Graça, 78, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.

Dois descasamentos e um funeral


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Falou-se muito, desde o início da crise mal chamada de "subprime", no "decoupling", ou descasamento, entre as dificuldades do mundo rico e a robustez das economias emergentes. Mas o que ocorre, ao menos até agora, são dois descasamentos e um funeral.

O casamento vem se dando nos mercados financeiros: as Bolsas caem e sobem sincronizadamente, como prova a formidável gangorra desta semana, que termina gloriosamente, com os mercados salvos pelo Estado no qual quase cravaram a estaca de madeira.

Um dos descasamentos ocorre na vida real, exatamente aquele que se discutia. Os emergentes sofrem menos até agora do que os ricos.

Basta citar um título perdido no pé da página B10 desta Folha: "Crescimento da Argentina se desacelera para 7,5%".

Quando se sabe que pelo menos três países da Europa (Reino Unido, Alemanha e Espanha) embicam para a recessão, um crescimento de 7,5% não deveria ser chamado de desaceleração. Menos ainda quando se dá em um país que também escapou da estaca de madeira brandida com sanha pelos "palpiteiros", como o presidente Lula bem chamou as entidades financeiras que assombravam os emergentes, mas não foram capazes de prever o seu próprio funeral.

Agora o mais interessante na história toda é o descasamento entre a economia real e a economia financeira. Coloque sempre um baita "até agora" em todas as afirmações, caro leitor. Mas, por enquanto, quebraram, só nos Estados Unidos, três das cinco grandes instituições financeiras não ligadas a bancos.

Mas não quebrou, nem nos Estados Unidos, nem em outros países, uma Microsoft, um Wal-Mart, uma Ford, ou General Motors, ou Volkswagen, ou Fiat.
Não quebrou nem o quitandeiro da esquina, em Londres ou em São Paulo. A ver quanto dura. Tomara que para sempre.

A República inexistente

Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto em peso, nesta semana, decidiu levar adiante um projeto de lei propondo punição aos meios de comunicação que se atreverem a divulgar o conteúdo de escutas telefônicas ilegais. O texto será dinamitado no Congresso, mas a audácia anti-republicana do lulismo fica outra vez explicitada.

Não existe um caso recente de escândalo nacional cuja execução de escutas ilegais tenha sido responsabilidade da mídia. Criminosos praticam a ilegalidade. Passam a chantagear os grampeados. Como o jornalismo nasce onde começa o interesse contrariado, muitas vezes o público tem a sorte de ter acesso inaudito ao que se passa nos porões do poder.

Um exemplo emblemático ocorreu em 1998. Uma quadrilha grampeou empresários, ministros e o presidente da República às vésperas do leilão de privatização das empresas de telefonia. Ao divulgar o conteúdo dessas escutas ilegais, a mídia cumpriu sua missão de bem informar. O público conheceu algo antes circunscrito a um grupo diminuto de pessoas.

O projeto antigrampo de Lula não é apenas limitador da liberdade de expressão e de informação. É também omisso por não tratar da raiz do problema: o baixo investimento e a desídia da companhias telefônicas na área de segurança dos dados pessoais dos usuários.

Para impedir funcionários de quinto escalão de venderem dados sigilosos por R$ 500, as telefônicas teriam de gastar muito dinheiro.

Segurança interna e controle rigoroso exigiriam treinamento de pessoal e rígidos sistemas de vigilância.

A lei proposta por Lula não toca nesse tema. Seria inconveniente para o Palácio do Planalto incomodar empresários tão generosos durante períodos eleitorais.É mais cômodo inflar uma lei inútil. O governo finge estar preocupado. Imagem, Lula sabe, é tudo.

Partidos de esquerda são os mais rejeitados nas capitais

DA AGÊNCIA FOLHA

Os partidos que se consideram mais à esquerda são os enfrentam a maior rejeição de eleitores nas capitais, de acordo com as pesquisas de intenção de voto. Em 12 das 26 capitais, PSTU, PSOL ou PCO têm candidatos líderes em rejeição -em uma das capitais, esses partidos não têm candidato.

O PSTU, que prega a expropriação de grandes empresas, lidera a rejeição em sete capitais. Entre os partidos fora desse espectro político, o DEM é o que tem mais candidatos rejeitados: quatro. Os dados são de oito pesquisas do Datafolha e de 18 do Ibope. Os entrevistados, além de dizer em quem votariam para prefeito, respondem sobre quem não escolheriam de jeito nenhum.

Neste quesito, três são candidatos à reeleição como prefeitos: Duciomar Costa (PTB), em Belém, Serafim Corrêa (PSB), em Manaus, e João Henrique (PMDB), empatado com ACM Neto (DEM) em Salvador.

Para o PSTU, a rejeição é provocada por campanhas feitas sem "marqueteiros". "A gente não é mercador de ilusões. A gente trata a realidade tal qual ela é e apresenta alternativa", diz Kátia Telles, candidata da legenda em Recife. Em pesquisa do Datafolha, ela é rejeitada por 38% dos eleitores -está junto ao candidato Cadoca (PSC), com 41%.

Kátia, porém, diz que vem sendo bem recebida na campanha e que tem muita receptividade em alguns setores, como sindicatos.

Para a direção do PSOL, com alta rejeição em seis capitais, uma causa possível é a falta de um "enraizamento" do partido. "É apenas a nossa primeira eleição municipal", disse Miguel Carvalho, presidente da sigla em São Paulo.

Segundo cientista político Marcus Figueiredo, do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), o eleitorado tende a se afastar de posições radicais que, segundo ele, são mantidas por esses partidos.

"Eles adotam um tom denuncista. Ficam em um discurso de marcar posição política", afirma Figueiredo.

Depois do vendaval


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Arrombada a porta das divergências internas no PSDB na primeira etapa, no segundo turno da eleição municipal paulistana o governador José Serra entra em cena para tentar consertar os estragos e mergulha "de cabeça" na campanha.

Seja quem for o finalista, Geraldo Alckmin ou Gilberto Kassab, trabalhará com igual intensidade: grava nova participação no horário eleitoral, discursa (com entusiasmo?) nos eventos e marca presença ao lado do candidato, em regime de dedicação quase exclusiva.

O governador de São Paulo não superestima a influência do produto do embate municipal com o PT na construção de sua candidatura a presidente em 2010. Mas tampouco subestima o significado político de uma vitória para o presidente Luiz Inácio da Silva nem menospreza os aborrecimentos de uma relação cotidiana com Marta Suplicy na prefeitura.

Reside basicamente nesses dois motivos o imperativo de ganhar.

A administração das mágoas partidárias propriamente ditas fica para depois, inclusive porque os meios e modos de fazer os curativos dependerão do resultado.

Se Alckmin vencer, sai forte internamente. Nessa altura do empate com Kassab nas pesquisas, não tanto quanto acreditou ao insistir na candidatura contra os planos iniciais do governador de aproveitar a eleição municipal para oferecer um horário nobre ao DEM no Sudeste e abrir um espaço de apoio à sua candidatura presidencial no PMDB.

Ainda assim, fica em situação confortável porque terá uma estrutura de poder onde abrigar seus correligionários.

Se for Kassab o oponente de Marta Suplicy na etapa final, o cenário desenhado pelo lado do governador Serra é bem menos tenebroso que o esperado pelos aliados de Alckmin.

Estes jogam hoje como se não houvesse mais pontes a serem preservadas. Atacam o herdeiro-executor de uma administração montada pelo governador, certos de que, se não investirem no tudo para ir ao segundo turno agora, ficarão com nada amanhã em virtude de uma aposta errada.

Na verdade, duas, se considerada também a insistência de Geraldo Alckmin em disputar a Presidência em 2006 com Lula no lugar de Serra.

Apesar de todos os pesares, o clima no Palácio dos Bandeirantes não é de retaliação. Claro, a amenidade é estudada e tem uma escala de gradação. No nível mais alto, Serra faz pose olímpica. Não deixa transparecer um pingo de desagrado e age como se não tivesse havido atropelo algum.

Já seus auxiliares não aderem com tanta disciplina ao lema "o que não tem remédio, remediado está". Reclamam dos "exageros", falam em "desespero", "traição", mas, no essencial, seguem a linha do governador e não tratam Alckmin como peça fora do jogo político, mesmo na eventualidade de ser eliminado já em 5 de outubro.

Não que não preferissem ver Alckmin pelas costas de uma vez por todas. Mas não lhes resta outra saída além do discurso da recomposição porque, a preço de hoje, ele ainda é a escolha viável do partido para disputar o governo do Estado em 2010.

Quanto aos "radicais" de parte a parte não se vêem atritos incuráveis. Os alckmistas, se derrotados, não resistiriam aos apelos da mão estendida, caso essa disposição ao "diálogo" por parte dos serristas não seja fruto de desprendimento meramente tático.

O DEM, de Gilberto Kassab, entende-se direto com José Serra em linha completamente sem ruídos. O partido ganhou um destaque jamais sonhado em São Paulo, ficou contente de ver Serra atuando dois tons aquém do limite da responsabilidade partidária no embate Alckmin-Kassab e, agora, está mais interessado em influir na articulação para a sucessão presidencial.

Na prática, o quadro evidentemente não será tão cor-de-rosa quanto a teoria escrita em feitio de conciliação. Mas não sobra alternativa: se a inimizade é irremediável que pelo menos os negócios sejam tratados à parte.

Novo endereço

Aposta é tucana e corroborada por ala significativa do petismo: o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, deixa o PT para disputar o governo de Minas Gerais em 2010 por uma das duas legendas: PSDB ou PSB. De todo modo, estaria perfeita e definitivamente integrado ao grupo do governador Aécio Neves.

O problema de Pimentel são as feridas abertas no PT por causa da aliança dele com Aécio para eleger Márcio Lacerda agora, na capital. A sessão municipal apoiou o prefeito, mas a estadual e nacional ficaram contra, o que lhe retira a chance de obter a legenda para disputar o governo.

A menos que o presidente Lula resolvesse intervir para manter no partido um de seus quadros mais qualificados, hoje com aprovação popular de 76%.

Mas isso dependeria de dois pré-requisitos: Pimentel querer ficar e de Aécio apoiá-lo aceitando de bom grado entregar ao PT o governo do segundo colégio eleitoral do País exatamente quando o PSDB tentará voltar à Presidência da República.

Lula assume campanha de candidata do PT em Natal

Cida Fontes, enviada especial do Estado

Ao fazer isso, presidente nacionalizou campanha, comprou briga com aliados e rachou os partidos de sua base


NATAL - Ao assumir de forma ostensiva a campanha da candidata do PT, Fátima Bezerra, à prefeitura de Natal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nacionalizou a campanha, comprou uma briga com aliados e rachou os partidos de sua base política no Rio Grande do Norte. "O presidente tem todo o direito de apoiar quem quiser, mas só espero que ele tenha senso de discernimento para participar da campanha como cidadão e não como presidente da República ou do PT", reagiu a candidata do PV, deputada estadual Micarla de Sousa, que, apesar de enfrentar a estrutura das máquinas federal, estadual e municipal, lidera as pesquisas de intenção de voto.

Enquanto Lula patrocinava a aliança entre os contrários da política potiguar - PT, PMDB e PSB - Micarla se associava ao DEM, que faz oposição cerrada a Lula no plano nacional. Sua campanha é sustentada por cinco partidos da base aliada (PV, PTB, PR, PP, PMN). Irritados, os deputados federais cobraram recentemente uma interferência do ministro de Relações Institucionais, José Múcio, filiado ao PTB. Foi em vão, a aliança se consolidou e Micarla ficou isolada. Lula, por sua vez, se transformou no maior garoto-propaganda de Fátima Bezerra, aparecendo nas inserções e nos programas no rádio e TV pedindo votos para a companheira.

"A campanha está federalizada e causando constrangimento para nós. É como se estivéssemos disputando a presidência da República", afirmou o presidente do PR, deputado João Maia, seguindo na mesma linha do presidente da Assembléia Legislativa, Robson Faria (PMN). Dos oito deputados federais do Rio Grande do Norte, seis são integrantes da base aliada e três não apóiam Fátima Bezerra, mas sim Micarla. A presença forte de ministros do PMDB e do PT em Natal para reforçar a campanha da petista não agradou aos aliados de Micarla. "Se eles continuarem vindo depois das eleições, Natal vai virar uma Suíça", ironizou João Maia.

Micarla, de 38 anos e dois filhos pequenos, tem popularidade em Natal e sabe usar a comunicação - herdou de seu pai a TV Ponta Negra, repetidora do SBT. "O presidente Lula veio a Natal contrariando suas próprias palavras", atacou Micarla, ao destacar a promessa que Lula fez aos aliados: ficar fora da campanha onde a base aliada não estivesse unida. "Desejo que o presidente seja responsável", cutucou a candidata do PV, afirmando que, caso seja eleita, não aceitará retaliações por parte dos governos federal e municipal.

Micarla sempre esteve politicamente com a governadora Wilma de Faria, do PSB, que agora está apoiando a candidata petista. E, segundo disse, continua votando a favor de Wilma na Assembléia Legislativa. Mas em relação ao prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves, do PSB, primo do senador Garibaldi Alves e do deputado Henrique Eduardo Alves, ambos do PMDB, o rompimento perdura há dois anos. Após ser eleita vice-prefeita de Carlos Eduardo, em 2004, com apoio de Wilma de Faria, Micarla brigou com ele, deixou a prefeitura e se elegeu deputada estadual em 2006.

Ao se juntar ao DEM, Micarla passou a ser qualificada de "oposição" pelos adversários políticos. Mas não se intimida com os ataques nem com o acordo com o líder do DEM, senador José Agripino. "A experiência política e administrativa do DEM em Natal só ajudam", afirmou se referindo a Agripino, que já foi governador do Estado.



Líder em Porto Alegre, Fogaça prescinde do apoio de Lula

Sinara Sandri - REUTERS

PORTO ALEGRE - Enquanto aliados disputam o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e até oposicionistas tentam mostrar proximidade, o candidato à prefeitura de Porto Alegre, José Fogaça (PMDB), não tira proveito de ser de um partido da base do governo e faz campanha alheio à popularidade de Lula.

Líder nas pesquisas de intenção de voto desde o início da campanha, Fogaça aposta mais nas lideranças locais e nas alianças que montou para reforçar sua candidatura.

"Estamos disputando a eleição da capital dos gaúchos. A estratégia é fincar pé nas questões locais e não vincular com o (quadro) nacional", disse Clóvis Magalhães, coordenador da campanha de Fogaça, à Reuters.

Segundo Magalhães, a opção está associada a uma "coerência com o município", e a ênfase se baseia na formação da aliança que sustenta Fogaça e que inclui o PDT e PTB, partidos de grande expressão estadual e que já tiveram experiências na administração da capital.

Além disso, boa parte das lideranças peemedebistas gaúchas tem tradição na defesa de estratégias de construção partidária e de não alinhamento aos governos federais. Em 2006, protagonizaram um movimento em defesa da candidatura própria nas eleições presidenciais e lançaram o então governador Germano Rigotto como pré-candidato, em uma disputa interna que acabou sendo vencida pelo ex-governador do Rio, Antony Garotinho.

"O presidente Lula é fundamental como parceiro para o desenvolvimento de Porto Alegre e o PMDB é o maior parceiro do governo Lula, nem por isso o reivindicamos como cabo eleitoral", disse Magalhães.

ADVERSÁRIO COMUM
Fogaça concorre à reeleição e lidera a disputa, com 33 por cento das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha feita nos dias 17 e 18 de setembro. Por enquanto, assiste de camarote a uma disputa acirrada entre as deputadas federais Manuela D'Ávila (PCdoB) e Maria do Rosário (PT) pela outra vaga no segundo turno. As duas estão rigorosamente empatadas, com 18 por cento da intenções de voto, e brigam pela exclusividade do vínculo com o presidente Lula.

Manuela e Maria do Rosário aparecem emboladas desde as primeiras pesquisas. Na reta final da campanha, as equipes fazem avaliações positivas, acirram às críticas aos adversários, mas já indicam oposição a um possível governo Fogaça como o caminho para superar hostilidades e formar uma aliança no segundo turno.

"Estamos dentro dos limites do debate político e (os ataques feitos na campanha) são perfeitamente superáveis. Com certeza, teremos uma aliança das forças que estão na oposição a Fogaça", disse Adalberto Frasson, coordenador de campanha de Manuela, à Reuters. A avaliação é compartilhada pelo lado do PT, que, apesar das restrições aos PPS -- que integra a chapa de Manuela e é considerado "privatista" e herdeiro da tradição política do ex-governador Antônio Brito -, aposta em um realinhamento com o PCdoB.

"Nosso adversário é o Fogaça. Também acreditamos que seja o adversário dos comunistas", disse Rodrigo Oliveira, coordenador da campanha de Maria do Rosário, à Reuters.



O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Rio de Janeiro: disputa acirrada pelo 2º lugar


Cláudia Lamego e Fábio Vasconcelos
DEU EM O GLOBO

No Datafolha, Paes lidera com 26%; já Crivella, Jandira e Gabeira estão embolados

A18 dias da eleição, embolou a disputa pela prefeitura do Rio, mas pelo segundo lugar. Pesquisa Datafolha encomendada pela Rede Globo e pela "Folha de S.Paulo" mostra que o candidato do PMDB, Eduardo Paes, subiu um ponto mas consolidou-se na liderança, com 26% das intenções de voto. Em segundo lugar aparece Marcelo Crivella (PRB), que tinha 21% e caiu para 18%. O senador, porém, está tecnicamente empatado com Jandira Feghali (PCdoB), que foi de 12% para 13%. O candidato do PV, Fernando Gabeira, vem logo atrás, já que subiu três pontos e hoje tem 11%. Com este resultado, ele fica tecnicamente empatado com Jandira, porque a pesquisa tem margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

Em quinto lugar, Solange Amaral (DEM), candidata do prefeito Cesar Maia, caiu dois pontos e agora tem apenas 5%. Em seguida, surge Alessandro Molon (PT), que subiu um ponto, passando para 4%. Chico Alencar (PSOL) foi de 4% para 3% e Paulo Ramos passou de 1% para 2%. Em branco e nulos somam 11%, e 6% dos eleitores disseram que não sabem em quem vão votar ou não opinaram. Filipe Pereira (PSC) e Eduardo Serra (PCB) atingem 1%, cada. Já Antonio Carlos (PCO) e Vinicius Cordeiro não pontuaram.

Gabeira comemorou a divulgação dos números, dizendo que agora aparece para o eleitorado como candidato viável para ir ao segundo turno. Ele disse acreditar que quem o considerava bom candidato, mas estava indeciso, agora vai mudar.

- Estou crescendo, e isso é bom para que as pessoas acreditem que posso chegar ao segundo turno. Acredito que vou crescer ainda entre os indecisos. A disputa vai ser muito emocionante, voto a voto - disse Gabeira.

O candidato disse que estava perdendo eleitores para o chamado voto útil contra o senador Crivella. Gabeira afirma que pode conseguir votos de outros adversários também.

- Preciso fazer com que o voto útil não seja contra mim. Vou continuar trabalhando por mais eleitores.

Crivella tem a mais alta rejeição: 34%

Eduardo Paes, que pela primeira vez lidera fora da margem de erro, também comemorou o resultado:

- Vejo com muita alegria, mas com humildade, porque tem muito trabalho pela frente. Pelo que leio nos jornais, existe equilíbrio das intenções de voto em todas as classes sociais. Acho que isso é muito bom.

Com os dados, Jandira disse estar convencida de que vai disputar o segundo turno.

- Essa possibilidade vem se reafirmando a cada pesquisa. Temos um número de indecisos enorme na pesquisa espontânea do Rio. Além disso, tenho sentido o carinho das ruas.

Procurado, Crivella não quis comentar a pesquisa.

Nas simulações de segundo turno, Eduardo Paes ganha dos dois principais adversários. Com Crivella, o placar ficaria em 53% a 32% para o peemedebista. Se fosse contra Jandira, ele venceria por 48% a 37%. Se a disputa fosse entre Jandira e Crivella, a candidata ganharia por 47% a 36%.

Crivella é o candidato mais rejeitado, com 34% de eleitores que não votariam nele de jeito nenhum. Solange e Gabeira vêm em seguida, com índices de 26% e 22%, respectivamente. Molon tem 18% de rejeição e Paes, 15%. Filipe Pereira é rejeitado por 14%; Chico Alencar por 13%; Vinicius Cordeiro e Paulo Ramos com 12%, cada, Eduardo Serra com 10% e, com a menor taxa de rejeição, Antonio Carlos (6%). (O site do Datafolha não tinha ontem à noite o índice de rejeição de Jandira).

O Datafolha entrevistou 930 eleitores entre os dias 17 e 18 de setembro. A pesquisa foi registrada no Tribunal Regional Eleitoral do Rio sob o número RPE 32/2008.