terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Opinião do dia - Marina Silva*

“O governo usou (no plano de vacinação contra a covid19) o nome de cientistas que nem sequer tiveram acesso ao documento. Mais uma propaganda enganosa.”

 *Ex-ministra do Meio Ambiente, O Estado de S. Paulo, 15/12/2020.

Merval Pereira - Uso político das Forças Armadas

- O Globo

A tentativa do presidente Bolsonaro - um tenente sindicalista que acabou saindo do Exército por questões disciplinares, promovido a capitão - de politizar sua relação com as Forças Armadas gerou uma nova crise interna. Ele reduziu, através de decreto, o critério para a promoção do último posto das Armas - coronéis do Exército e da Aeronáutica, e Capitães de Mar e Guerra. Em vez de promoção também no Quadro de Acesso por antiguidade (QAA), as promoções passariam a ser apenas por merecimento (QAM - Quadro de Acesso por Merecimento).

Houve reações internas, pois a promoção apenas por merecimento poderia ensejar uma decisão política do presidente da República, que é quem dá a última palavra. Três dias depois o decreto foi cancelado, voltando tudo ao que era antes. O presidente Bolsonaro cultiva desde sempre o relacionamento com os militares, primeiro para ganhar votos especialmente das patentes inferiores, pois defendia os interesses da classe no Congresso, o que lhe garantiu sete mandatos de deputado federal seguidos.

Na presidência da República, aparelhou seu ministério e os demais órgãos do governo com militares de diversas patentes, da ativa e da reserva. Boa parte sem qualificação para os cargos que ocupam, como o ministro da Saúde, General da ativa. E passou a prestigiar qualquer cerimônia militar, especialmente nas escolas de formação de oficiais.

No tempo em que acalentava abertamente ideias golpistas, vivia repetindo que contava com o apoio das Forças Armadas. Recentemente, houve um atrito diante das repetidas tentativas de politizar a questão militar. O comandante do Exército, General Pujol, aproveitou uma solenidade para deixar clara sua posição: “Nosso assunto é militar, preparo e emprego. As questões políticas? Não nos metemos em áreas que não nos dizem respeito. Não queremos fazer parte da política governamental ou do Congresso Nacional e muito menos queremos que a política entre em nossos quartéis.”

Eliane Cantanhêde - O sonho e o pesadelo

- O Estado de S. Paulo

Com graves dúvidas sobre vacinas, o santo remédio para Bolsonaro é... reforma ministerial

As vacinas mexem com os nervos e o medo da população, tornam-se o maior desafio do governo e serão um divisor de águas para o presidente Jair Bolsonaro, que, se você prestar atenção, vai repetindo os antecessores Dilma Rousseff e Fernando Collor. É o remake de uma série que a gente já viu, capítulo por capítulo, só que com personagens ainda mais absurdos, fantásticos.

Todos os três presidentes nunca tiveram alguma intimidade ou cumplicidade com seus vices, a quem qualificam de traidores. Assim como Dilma e Michel Temer, Collor e Itamar Franco, Bolsonaro nem consegue mais ouvir falar de Hamilton Mourão, que dá entrevistas sobre qualquer coisa, fazendo uma clara contraposição a Bolsonaro e alternando concordância e discordância com decisões do governo.

A história se repete com os ministros e com a forma de governar – ou de não governar. Todo presidente acuado, que erra muito e fica sob forte pressão da opinião pública e com medo de impeachment saca três fórmulas mágicas: cria um bunker com seu grupinho “leal”, abre os braços (e os cofres) para o Centrão de ocasião e lança uma reforma ministerial.

Dilma se trancou no palácio com meia dúzia de gatos pingados que pensavam exatamente como ela e deixou de fora até mesmo os lulistas do PT. Orelhas ardiam, principalmente as do vice Temer e do ministro da Economia, a culpa era sempre da mídia, o Centrão fazia a festa.

Collor, que se elegeu com a bandeira de “caçador de marajás”, descartou tudo isso junto com o seu PRN, jogou para segundo plano os coloridos de primeira hora e, num último e desesperado esforço para salvar o pescoço, tentou atrair Fernando Henrique Cardoso e o PSDB (que balançaram, mas não foram) e conseguiu Jorge Bornhausen e o então PFL. Era tarde demais.

Luiz Carlos Azedo - O vírus não brinca

- Correio Braziliense

O negacionismo de Bolsonaro funciona como sabotagem aos esforços governamentais para conter a pandemia, inclusive os do Ministério da Saúde, cada vez mais enrolado na própria burocracia

Não há sanitarista no Brasil que não tenha estudado o caso da epidemia de meningite ocorrida durante a década de 1970, em pleno regime militar, bem como a campanha de vacinação que controlou a doença. A epidemia começou em Santo Amaro, na Grande São Paulo, causando 2.500 mortes na capital paulista. Mesmo com a incidência de casos saltando a cada ano, e com mortalidade oscilando de 12% a 14% dos doentes, o regime militar escondia os números da população e negava a existência de epidemia, estabelecendo censura prévia aos veículos de comunicação para que não divulgassem o que estava ocorrendo. Médicos e sanitaristas não podiam dar entrevistas.

Só a partir de 1974, quando a doença já grassava em áreas centrais de São Paulo, e não havia mais como negar a situação, com hospitais em colapso, os generais começaram a reconhecer o problema. Na época, o Brasil vivia o chamado “milagre econômico” e os militares temiam que a divulgação da epidemia gerasse pânico na população e prejudicasse as atividades econômicas.

Enquanto a meningite matava moradores da periferia, conseguiram abafar o assunto, mas, quando a epidemia atingiu bairros nobres de São Paulo, as autoridades foram obrigadas a admitir que havia uma crise de saúde. O estrago já estava feito. A incidência em São Paulo subiu de 2,16 casos por 100 mil habitantes, em 1970, para 5,90 casos em 1971. Em 1972, chegou a 15,64 diagnósticos por 100 mil habitantes e, em 1973, atingiu os 29,38 casos por 100 mil habitantes. A partir de 1974, houve uma explosão, motivada pela circulação do meningococo A, gerando uma sobreposição de surtos. Em 1974, a taxa de meningite chegou a 179,71 casos por 100 mil habitantes.

Ricardo Noblat - Nota da Anvisa trai sua contaminação pelo bolsonavírus

- Blog do Noblat / Veja

Órgão técnico vira órgão político

Criada pela Lei nº 9.782 de 1999, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é uma autarquia que “tem por finalidade institucional promover a proteção da saúde da população […] mediante a intervenção nos riscos decorrentes da produção e do uso de produtos e serviços sujeitos à vigilância sanitária, em ação coordenada e integrada no âmbito do Sistema Único de Saúde”

É um órgão de natureza eminentemente técnica como ela própria, em nota distribuída, ontem, a propósito do uso de vacinas contra o coronavírus, fez questão de ressaltar. Ocorre que a nota é o maior atestado público de que a Anvisa, em tempos de governo presidido por um ex-capitão do Exército e de Ministério da Saúde repleto de militares, foi inoculada pelo vírus ideológico.

A primeira parte da nota disserta sobre o plano mal ajambrado de vacinação em massa ainda sem data marcada para começar – mas até aí nada demais a levar-se em conta um presidente que tratou a Covid-19 como uma gripezinha, estimou que não mataria mais do que oitocentas pessoas, menos ele dotado de saúde de atleta, e que ao fim acabariam morrendo os que tivessem de morrer, e daí?

Vale como confissão do aparelhamento político da Anvisa o que está escrito na nota do seu meio para seu final. Está dito lá que deve ser levada em consideração ao se avaliar o uso emergencial de vacinas “a potencial influência de questões relacionadas à geopolítica que podem permear as discussões nacionais e decisões estrangeiras relacionadas à vacina da Covid-19”.

Segundo a Anvisa, “há o risco ainda de que países coloquem interesses nacionais em primeiro lugar na garantia de acesso a uma vacina para seus próprios cidadãos, criando potencial de corromper o rigor com que as vacinas candidatas contra a Covid-19 são avaliadas para autorização de uso de emergência”. E aí? Aí a nota entra no assunto que de fato a justifica: a vacina chinesa.

Carlos Andreazza - A pazuellização

- O Globo

Nem sequer seringas temos. Mas teremos. Né, general?

Um governo que ancorou seu negacionismo frente à pandemia num discurso de compromisso radical com a saúde econômica deveria ser obcecado por vacinar maciçamente a população. Porque só a vacinação destravará a economia.

Este, no entanto, é um governo que só criou — e cria — dificuldades para a vacinação. Na prática, o governo Bolsonaro — força regressiva, dependente de imprevisibilidades, que melhor vigorará quanto maior for a calamidade — lida com a pandemia de forma antieconômica. É um contrassenso. É, pois, a mais pura expressão do bolsonarismo, fenômeno reacionário anabolizado pela dissonância cognitiva.

A principal constituição discursiva de Jair Bolsonaro ante a peste apenas se serviu da preocupação com a economia para fabricar conflitos e difundir teorias da conspiração. Falamos de um presidente que manteve taxa de aprovação acima de 30% mesmo, no auge da pandemia, quando cultivava declarações beligerantes no cercadinho do Alvorada. Ingênuo crer que sua pregação antivacina não resultasse em aumento no número daqueles que não pretendem se imunizar.

Isso passa, contudo. Reverte-se. No caso da Covid-19, é ter as doses nos postos para que a desconfiança dos que dizem que não se vacinariam se converter em braço esticado. Sim: teremos os antivacinas vacinados. E continuarão bolsonaristas. Ok. O problema é a cisão social derivada da descrença; o eco influente da desinformação — sim, genocida — sobre outrora sólida cultura vacinal. Voltou o sarampo. A estúpida campanha antivacina produz atraso objetivo quando o estúpido é o presidente da República.

José Casado - Enlaçado e cercado

- O Globo

Governador acena com vacina na rua em 40 dias

Trinta e oito graus sobre terra queimada. É Carnaíba, no sertão, a 400 quilômetros do Recife. Lá vivem 19 mil pessoas aturdidas pelo vírus, mas fiéis à esperança de proteção. Médico e prefeito, José de Anchieta Patriota (PSB) se cansou do desgoverno federal. Entrou no Instituto Butantan e saiu com a reserva de 40 mil doses da vacina CoronaVac.

Ontem, a lista do Butantan abrigava 912 prefeituras, 13 estados mais os governos de Argentina, Chile, Peru e Honduras. A romaria ao laboratório cresce. O início da vacinação em São Paulo está marcado para 25 de janeiro, feriado pelos 466 anos da construção do barraco pioneiro da capital paulista, obra dos jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta.

É essa a mudança relevante na perspectiva política. Faz diferença quem chega antes com respostas objetivas à ansiedade pandêmica. O governador João Doria (PSDB) acena com vacina na rua em 40 dias.

Bernardo Mello Franco - Natal sem armas

- O Globo

O Supremo confiscou o presente de Natal de Jair Bolsonaro para o lobby das armas. Na semana passada, o presidente zerou a tarifa sobre a importação de revólveres e pistolas. Ontem o mimo foi vetado pelo ministro Edson Fachin.

No papel, a isenção de impostos foi concedida pela Câmara de Comércio Exterior. Na prática, o órgão só carimbou uma ordem de Bolsonaro. O presidente se apressou para faturar com a turma do bangue-bangue. Ao anunciar a medida, publicou uma foto em que aparece de trabuco em punho num estande de tiro.

O capitão é um velho aliado de quem lucra com a morte. No primeiro mês de governo, ele editou um decreto para afrouxar o Estatuto do Desarmamento. Em abril deste ano, mandou o Exército revogar portarias de rastreamento de armas e munições. As regras facilitavam a apuração de crimes, permitindo mapear o caminho entre a fábrica e o dedo que aperta o gatilho.

Pablo Ortellado - Impeachment é pouco

- Folha de S. Paulo

Negacionismo de Bolsonaro contribuiu para descumprimento do distanciamento social e ampliação de contaminação e mortes

Parte expressiva dos cidadãos brasileiros segue encantada pelo flautista do Vale do Ribeira e vai marchando mesmerizada, prestes a se afogar no rio.

Segundo pesquisa Datafolha, 52% dos brasileiros não veem nenhuma responsabilidade do presidente nas mortes causadas pela Covid-19. As evidências contrárias, porém, são eloquentes.

Bolsonaro não elaborou com antecedência um plano nacional de vacinação e não estabeleceu protocolos para o distanciamento social, gerando descoordenação entre as iniciativas de estados e municípios. Durante todo o período da pandemia, minimizou a mortalidade da Covid, condenou o fechamento do comércio e difundiu a descrença em vacinas.

Os efeitos dessa postura negacionista foram medidos em vários estudos.

Hélio Schwartsman - Não é só incompetência

- Folha de S. Paulo

O fracasso contra a Covid-19 se deve à sabotagem dos consensos científicos sobre a doença

É impressionante a resiliência de Bolsonaro na pesquisa Datafolha que avaliou as percepções do eleitorado sobre sua performance. Apesar do agravamento da epidemia, a aprovação ao presidente continua em 37%, mesmo nível registrado em agosto, quando a curva das infecções refluía.

Seria tentador decretar que o eleitor é um marciano cego, incapaz de reconhecer a realidade que o cerca, desistir da democracia e sonhar com um déspota esclarecido. Mas não é tão simples. A Covid-19 é corretamente percebida como um problema, e a maior parte dos entrevistados (42%) considera o desempenho do presidente nessa frente como ruim ou péssimo --30% cravaram bom ou ótimo.

Não obstante, a maioria (52%) afirma que o presidente não tem nenhuma culpa pelos mais de 180 mil brasileiros mortos, e 38% dizem que ele tem alguma responsabilidade, mas não é o principal causador dos óbitos.

Cristina Serra - Uma dor assim pungente...'

- Folha de S. Paulo

Campanha é ato para transformar dor em esperança e promessa de vida

A história do Brasil é tão associada à exploração predatória de recursos naturais que nosso gentílico —brasileiro— designava quem trabalhava na derrubada do pau-brasil, "a ferro e fogo", como bem definiu o historiador Warren Dean. A extração da madeira —que fornecia a tintura cor de brasa para tecidos na Europa— foi o motor inicial de uma devastação que explica muito do persistente "correntão" nas nossas florestas.

Da mata atlântica original, que se estendia por 17 estados brasileiros, restam apenas 11,73%, segundo o botânico Ricardo Cardim, que se dedica a localizar as árvores gigantes remanescentes no bioma. Há poucos dias, Cardim divulgou a descoberta, no sul da Bahia, de um tesouro: o maior exemplar de pau-brasil encontrado até hoje, com idade estimada entre 500 e 600 anos. Um raríssimo sobrevivente do saque ecológico de cinco séculos.

Andrea Jubé - Hora de menos “selva”, mais política

- Valor Econômico

José Múcio foi sondado para vaga de Ramos no palácio

Política é circunstância, e as circunstâncias favorecem o movimento lento e gradual de profissionalização da articulação política do governo. Salvo o imponderável, o presidente Jair Bolsonaro deverá coroar esse processo na reforma ministerial prevista para fevereiro, após se consumar a sucessão nas Mesas Diretoras da Câmara e do Senado.

Trata-se de um movimento iniciado há 14 meses, quando Bolsonaro substituiu a deputada Joice Hasselman (PSL-SP), parlamentar de primeiro mandato, uma neófita entre raposas, pelo senador Eduardo Gomes (MDB-TO), três vezes deputado federal, na liderança do governo no Congresso.

O segundo gesto nessa direção foi a substituição, há quatro meses, do então líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), parlamentar de primeiro mandato, um neófito entre raposas, pelo deputado Ricardo Barros (PP-PR), seis vezes deputado federal e ex-ministro da Saúde.

Daniela Chiaretti - O Brasil fora do tabuleiro do clima

- Valor Econômico

O mundo ruma para a descarbonização, mas o Brasil se perde no caminho

O tabuleiro climático global está sendo preparado para 2021. A União Europeia é hoje o competidor mais forte e capacitado - aprovou uma meta de corte de emissões de gases de efeito estufa mais ambiciosa do que já tinha, pretende descarbonizar a economia em 30 anos e, muito importante, traçou um plano para chegar lá. A China é o país com mais potencial de virar o jogo - anunciou a neutralidade em carbono em 2060, o mais tardar, e o pico das emissões antes de 2030, o que quer dizer que depois disso irá emitir menos. Os Estados Unidos, a maior potência econômica mundial, volta ao jogo em 36 dias e, como no xadrez, tornará pública sua abertura nos próximos meses. Vizinhos latino-americanos - Argentina, Colômbia, Peru e Uruguai -além do Chile, estão bem posicionados. O Brasil, indiscutivelmente um dos jogadores mais brilhantes mesmo quando ficava na defesa, está fora do tabuleiro.

Foi este o recado que recebeu ao apresentar uma meta climática sem transparência e sem discussão com a sociedade brasileira, de empresários a banqueiros, grandes exportadores, cientistas, representantes da sociedade civil. A meta é para toda a economia só no comunicado à ONU? Plano? Estratégia? Políticas públicas? Se existem, estão bem guardadas. O anúncio atabalhoado produziu a desconfiança de que o Brasil usa uma linha de base de emissões que não corta gases-estufa, mas permite ao país emitir mais. É preciso algum tempo para entender se foi isso mesmo, se foi um equívoco ou se o governo esqueceu as regras do jogo.

Paulo Fábio Dantas Neto* - Em busca de um centro: uma eleição e dois scripts

- Política & Coisa &Tal, 13/12/2020

Lemos e ouvimos sempre que eleições municipais têm lógica diferente de eleições para Executivos nacional e estaduais. Fenômenos comuns a 2016 e 2018 arranharam um pouco essa convicção. O sucesso do discurso anti-política, a força da onda lavajatista, o antipetismo como coalizão de veto e por aí vai, tudo isso se desdobrou e radicalizou entre 2016 e 2018.

Agora, um ponto em discussão é em que medida 2020 reverteu 2016. Para avaliar bem isso, deve-se considerar o insucesso eleitoral que tiveram, dessa vez, os discursos de polarização ideológica e o da “nova política” como antipolítica, a menor relevância nas urnas do tema da segurança e o pouco peso do da luta contra a corrupção. Considerar também que o eleitorado valorizou eficácia nas gestões municipais, fator cuja importância foi potencializada pelo contexto da pandemia.

Mas não se pode excluir da análise um importante elemento de continuidade entre 2016 e 2020, que é o fortalecimento eleitoral da chamada centro-direita, em sua diversidade. Aqui cabe distinguir uma centro-direita pragmática que recebe o apelido, muitas vezes impróprio, de “centrão” e aquela que, há tempos, tem o DEM como sua expressão programática, postura que manteve esse partido, por mais de uma década, na oposição aos governos do PT.

Da análise desses fatores depende a resposta à seguinte questão: a reversão que tenha havido, em 2020, do “espírito” de 2016, restabelecerá o antigo grau de autonomia de eleições municipais, deixando supor que 2022, apesar da sinalização contrária de 2020, possa reiterar o quadro inóspito de 2018 ou o padrão de desconexão que vigorou dos anos 90 até 2016-2018 seguirá sendo violado, tornando 2020 capaz de prenunciar 2022 como 2016 prenunciou 2018?

Entrevista | Benjamin Teitelbaum, autor de 'Guerra pela eternidade' e professor da Universidade do Colorado

 

“Destruição é a agenda do Tradicionalismo”, a ideologia por trás de Bolsonaro e Trump

Benjamin Teitelbaum passou 15 meses entrevistando os principais ideólogos conservadores atuais para escrever ‘Guerra pela eternidade’, que mostra a relação entre os gurus Olavo de Carvalho e Steve Bannon com esta ideologia antimodernista e de fundamentos religiosos

Letícia Duarte | El País

Nova York  - -Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a escalada populista com flerte autoritário dos Governos de Jair Bolsonaro Donald Trump suscita comparações com o fascismo. Mas para o pesquisador da extrema direita e etnógrafo norte-americano Benjamin Teitelbaum, autor do livro Guerra pela eternidade (Editora da Unicamp, War for eternity: inside Bannon’s far-right circle ―no título original, em inglês), a cruzada em curso contra valores modernos e democráticos nos dois países pode ser melhor compreendida a partir de uma outra doutrina menos conhecida, o Tradicionalismo (com ‘T’ maiúsculo, para diferenciá-lo do conservadorismo tradicional). Não que a alternativa seja melhor, o autor se apressa em esclarecer.

Baseado em mais de 15 meses de pesquisa e entrevistas com ideólogos conservadores como o ex-estrategista da Casa Branca Steve Bannon, o guru do Bolsonarismo, Olavo de Carvalho, e o conselheiro do presidente russo Vladimir Putin, Aleksandr Dugin, Teitelbaum descreve em seu livro como essa teoria obscura seguida por eles têm influenciando os governos dos Estados Unidos, do Brasil e da Rússia.

Nesta entrevista concedida por vídeochamada ao EL PAÍS, o professor de Assuntos Internacionais e Etnomusicologia da Universidade do Colorado (EUA) explica por que ele considera esta ideologia mais radical em suas concepções antimodernistas do que o próprio fascismo. “Há um elemento de destruição no Tradicionalismo que não necessariamente existe no fascismo”, alerta. Mesmo após a derrota de Trump e a prisão de Bannon (sob acusação de desvio de recursos para a construção do muro entre os EUA e o México), o autor avalia que as forças que eles representam continuarão vivas —e testando as instituições democráticas. Também examina como o Tradicionalismo legitima desde o racismo até a propagação de teorias conspiratórias em relação à pandemia do coronavírus.

Pergunta. Seu livro descreve como o Tradicionalismo, que até pouco tempo era considerada uma doutrina marginal dentro da própria extrema direita, alcançou influência global. Para quem ainda não leu o livro, como o senhor sintetizaria essa doutrina?

Resposta. O Tradicionalismo é originalmente uma escola espiritual filosófica que se tornou política em certo nicho. Os seguidores basicamente acreditam que a humanidade está ao fim de um longo ciclo de declínio e que vai ser concluído com destruição e renascimento. O que foi perdido neste ciclo de declínio foi o conhecimento verdadeiro da religião e também a ordem nas nossas sociedades —incluindo a diferença entre homens e mulheres, posições sociais e espirituais. No lugar disso, teríamos um mundo massificado e secularizado, neste processo de modernização. O Tradicionalismo acredita que é preciso haver um cataclismo para restaurar o que acreditam ser a verdade. Um dos elementos desse Tradicionalismo politizado de direita é acreditar que é preciso restaurar uma hierarquia onde homens arianos e líderes espirituais estão no topo, em oposição a materialistas, não-arianos e mulheres.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

O recesso e o descaso – Opinião | O Estado de S. Paulo

É preciso que o Legislativo e o Executivo não fechem os olhos à realidade do País. Não é tempo de recesso ou de férias

O relator da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) Emergencial, senador Márcio Bittar (MDB-AC), informou que apresentará o parecer final sobre a proposta apenas no ano que vem. “Em vista da complexidade das medidas, bem como da atual conjuntura do País, decidi não mais apresentar o relatório da PEC Emergencial em 2020. Creio que a proposta será melhor debatida no ano que vem, tão logo o Congresso nacional retome suas atividades e o momento político se mostre mais adequado”, disse Bittar.

É no mínimo estranho que a atual conjuntura do País sirva como desculpa para adiar uma vez mais a tramitação de uma PEC que, como o próprio nome revela, vem cuidar de uma situação emergencial. As atuais circunstâncias do País, em especial o estado das finanças públicas – ver abaixo o editorial Retomada mais lenta –, são motivo mais que suficiente para que o Congresso enfrente imediatamente o assunto. 

O fato é que o Legislativo percebeu que o próprio autor da PEC, o Executivo federal, se desinteressou pelo assunto. Dessa forma, o tema que já era de difícil aprovação – a proposta estabelece restrições e mecanismos para os gastos públicos – ganhou ares de tarefa impossível. Não há mágica. Se o governo federal não faz sua parte para promover a responsabilidade fiscal, dificilmente haverá algum avanço no caminho do reequilíbrio das contas públicas.

Música | Maria Bethânia - Os Argonautas

 

Poesia | Mario Quintana - Escrevo diante da janela aberta

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas cotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!

 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Opinião do dia - Eduardo Paes*

 

“As pessoas precisam entender que, todo dia, estamos perdendo muitas vidas, há gente sendo internada. Isso depende muito da atitude de cada um de nós, independentemente de restrições criadas pelo governo.

Meu apelo desde já como prefeito eleito é que as pessoas mais velhas não saiam de casa, se preservem, não mantenham contato, isso é fundamental. Pessoas com comorbidade, com doenças, tomem cuidado.

Todos nós e aqueles que são mais jovens, que eventualmente já tenham sido contaminados, devem usar máscara, zelar pelo distanciamento social. Não adianta achar que um governo vai entrar no dia 1º de janeiro e fazer milagre, ou impor uma série de restrições que, se a população não colaborar, não valem de nada.”

 *Eduardo Paes, prefeito eleito do Rio de Janeiro, O Globo, 14/12/2020

Fernando Gabeira - Aquele abraço

- O Globo

O general que confunde invernos e entraria em mais frias que Napoleão não se lembrou de comprar seringas

Quando William Shakespeare tomou sua vacina no histórico 8 de dezembro, confesso que o invejei. A primeira coisa que me veio à cabeça foi abraçar, depois de tantos meses, minha filha que vive longe daqui. Imaginei imediatamente quantos abraços e beijos estão congelados a 70 graus negativos, esperando o momento da vacina.

Mas aqui, caro Shakespeare, a vacina ainda é sonho de uma noite de verão. Gostaria também de voltar à estrada, passar longos dias no mato, voltar ao escurecer, com os curiangos voando diante do para-brisa, as primeiras luzes se acendendo na periferia da pequena cidade.

Aqui, William, somos reféns de um governo obscurantista, que não só negou a Covid-19, como o governo britânico no início, mas, ao contrário dele, nunca mudou de posição.

Não vou te cansar com detalhes biográficos. Para quem conheceu Hamlet, o nome Bolsonaro e seus dramas acabariam aborrecendo pela vulgaridade.

O fato é que ele acredita mais num remédio do que na vacina contra o coronavírus. Primeiro, importou da Índia insumos para hidroxicloroquina, e ela encalhou nos laboratórios do Exército. Depois, ao lado um astronauta, investiu milhões em pesquisa sobre um vermífugo chamado Anitta. Fracasso.

Ele escolheu um general para comandar essa guerra. É um especialista em logística que deixa milhões de testes contra Covid-19 adormecidos num galpão de São Paulo.

Esse general talvez fosse um personagem. Ele acha que o inverno brasileiro do Nordeste coincide com o europeu. E promete comprar vacinas se houver demanda, como se nenhum de nós sonhasse com o seu 8 de dezembro, William.

Marcus André Melo - Balanço político da pandemia

- Folha de S. Paulo

A pandemia revela o tipo real de político que temos

Um balanço das previsões feitas sobre a pandemia sugere que a expectativa inicial de uma hecatombe econômica foi superestimada e deflagrou respostas que reduziram ainda mais a magnitude do impacto esperado. E produziram efeitos não antecipados, estes sim de grande impacto. O principal deles —o auxílio emergencial— alavancou a popularidade de um governo que entrara em modo sobrevivência.

O descompasso entre expectativa e realidade é notável: esperava-se que o colapso da economia seria sistemicamente desestabilizador para o governo, que não sobreviveria ao saldo cumulativo de mortes e do desemprego.

Havia expectativas sobre quem seria responsabilizado politicamente pela catástrofe. Já discuti anteriormente duas conjeturas rivais. A primeira é que a pandemia seria um choque que produziria efeitos negativos que afetariam a popularidade dos governos, em qualquer nível federativo. O eleitor aqui seria míope e reagiria, em “retrospecção cega” para usar o jargão, ao mal-estar social produzido pelo choque.

Demétrio Magnoli - 2 + 2 = 5

- O Globo

A polarização política saltou um degrau, convertendo-se em polarização cognitiva

A pandemia “é uma coisa política”. A Covid-19 “não é tão grave”. As UTIs “não correm risco de colapso”. As quarentenas “destinam-se a quebrar a economia”. Você, como eu, ouve teorias da conspiração desse tipo quase todos os dias. São bolsonaristas? Sim, mas não apenas. Ignorantes? Claro, mas também indivíduos com diplomas universitários — e de instituições prestigiosas. Não se (auto)engane: uma cisão cognitiva profunda atravessa a sociedade.

A extrema-direita não monopoliza as teorias da conspiração. O governo dos EUA sabia de antemão sobre os atentados do 11 de setembro (e talvez até tenha sido responsável por eles). Os EUA deflagraram a guerra na Síria para fortalecer Israel. Os judeus, donos do dinheiro, controlam Wall Street e dirigem a política americana no Oriente Médio. Sergio Moro perseguiu Lula, pois é agente do FBI ou do Departamento de Justiça dos EUA. 2 + 2 = 5: em certas circunstâncias, a esquerda compartilha a paixão pelo pensamento mágico.

Ricardo Noblat - Era Bolsonaro marca mais uma fase de fechamento político

- Blog do Noblat /Veja 

A reabertura virá, só não se sabe quando

Ideias, princípios e valores que catapultaram Jair Bolsonaro para o cargo que ocupa foram convalidados na eleição municipal deste ano que deu a vitória às forças da direita e do centro, e outra vez assim será em fevereiro próximo quando a Câmara dos Deputados e o Senado escolherem seus novos dirigentes.

Candidatos a prefeito e a vereador apoiados por Bolsonaro podem ter sido derrotados, mas ele não foi. E disso também informam as pesquisas mais recentes de avaliação do governo, do presidente, e de intenção de votos para 2022. Com mais de 180 mil mortos pela pandemia, a aprovação de Bolsonaro permanece estável.

Os que apostam no seu eventual fracasso nas urnas daqui a dois anos argumentam que a economia em 2021 atravessará seu pior momento. Aumentará o número de desempregados e faltará dinheiro para quase tudo, inclusive para o pagamento do auxílio emergencial contra o vírus, tenha ele o nome que tiver.

Carlos Pereira* - Bolsonaro se curvou e a democracia não quebrou

- O Estado de S. Paulo

O engajamento do governo na eleição dos presidentes da Câmara e do Senado é sinal de aprendizado

Jair Bolsonaro, eleito presidente com uma plataforma antipolítica e antiestablishment, resolveu se engajar diretamente no processo político de escolha dos novos presidentes da Câmara e do Senado. O que explica essa mudança aparentemente contraditória no comportamento do presidente? 

Muito está em jogo com a eleição dos novos presidentes das duas Casas Legislativas. Tanto o presidente da Câmara dos Deputados como o do Senado são verdadeiros gatekeepers. Ou seja, têm o poder de vetar ex ante iniciativas que julguem indesejáveis ou de promover ações estratégicas que mudem o status quo de acordo com seus interesses. 

Esses poderes procedimentais e de agenda não são triviais. As regras internas da Câmara garantem a seu presidente um papel central na condução do processo legislativo e na definição e funcionamento do sistema de comissões permanentes e especiais. Em legislativos muito centralizados e fortemente hierarquizados, como o brasileiro, o papel do gatekeeper se torna ainda mais relevante, pois pode, inclusive, decidir unilateralmente a sorte do próprio governo de plantão ao, por exemplo, dar prosseguimento a pedidos de impeachment de presidentes. 

Cacá Diegues - A conquista do Brasil

- O Globo

Um dos mitos que alimentam com fartura a mistificação está nas mentiras sobre o caráter dos nossos indígenas

Temos alimentado uma imagem do povo brasileiro que nunca correspondeu à realidade. A gente doce e cordial, de permanente bom humor, que olha a vida e o mundo como uma aventura divertida que só aos outros faz sofrer, foi uma criação de intelectuais do século XIX. Eles inventaram o entendimento desde o início, a paz fraterna entre indígenas e portugueses, consagrada pelo famoso e popular quadro de Pedro Américo sobre a Primeira Missa inaugural. Como foram os colaboradores de Pedro II que, por iniciativa e incentivo do imperador, mandaram destacar, na carta de Caminha, que “em se plantando, tudo dá”.

Esse núcleo forte da inteligência brasileira talvez estivesse disfarçando seu sentimento de culpa por trás do mito. Um mito por meio do qual saudou com ensaio, ficção e poesia a Abolição, uma farsa que mal mudou a vida dos escravizados, a República, um golpe de Estado dos senhores de terras, e a própria passagem progressista para o século XX, com a certeza de que, apesar da fome e da miséria, da extrema desigualdade social, o Brasil estava destinado a dar certo.

A prova disso, apesar de tudo, era a visível felicidade do povo traduzida no carnaval, no samba e no futebol. Vivemos o século XX com essa certeza. Em nome dela, estivemos indiferentes a golpes de Estado e ditaduras muitas vezes sanguinárias, não demos bola a intervenções urbanísticas autoritárias que derrubaram as moradias populares, a mudanças compulsórias de costumes alimentadas pelo soft power dos poderosos, ao aumento constante da desigualdade provocada por políticas econômicas que nunca levaram em consideração a existência e as necessidades do povo.

Celso Rocha de Barros - Novo é partido liberal ou de ricos?

- Folha de S. Paulo

Potencial político que a direita construiu pode ter sido desperdiçado

Na semana passada, o Partido Novo votou contra a Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância, alegando que ela abria as portas para cotas raciais no Parlamento. Poucos dias depois, o Novo também aprovou uma emenda que permite usar dinheiro do Fundeb para pagar funcionários de escolas privadas.

São posições que reforçam a ideia de que o liberalismo é só uma racionalização dos interesses dos ricos, inteiramente confortável com a mais extrema desigualdade e com a perpetuação de injustiças históricas, sempre pronto a acomodar o fascismo quando a esquerda se fortalece.

Aparentemente, os caras foram pesquisar o que é liberalismo no livro do Losurdo.

Há mesmo uma certa intersecção entre o interesse dos ricos e o liberalismo. Os ricos querem o máximo de limites para a ação do Estado, que é mais poderoso do que eles. E querem o mínimo de regulação do contrato de trabalho, porque são mais poderosos do que seus empregados. Olhando de longe, depois de umas cachaças, dá pra confundir isso com liberalismo.

Mas liberalismo deveria ser mais do que isso. Deveria ser uma defesa da liberdade das minorias contra as maiorias, de um país em que o mais humilde brasileiro não precise temer abusos da polícia, da etnia dominante ou de pessoas com crenças religiosas diferentes.

Catarina Rochamonte - Centrão e Flávio acima de todos

- Folha de S. Paulo

A preocupação de Bolsonaro tem sido evitar o impeachment e blindar seu filho, duas coisas que se complicaram após a denúncia de que a Abin produziu relatórios com orientações para que o caso Queiroz fosse anulado

 O envolvimento de Bolsonaro na campanha de Arthur Lira (líder do Centrão e réu por corrupção) para a presidência da Câmara Federal é grande. Tão grande quanto o preço com que a sua eleição está sendo negociada. Para eleger o candidato que coleciona processos judiciais e denúncias que vão de violência doméstica à cobrança de propina, passando por operação de “rachadinha”, a máquina governista trabalha a todo vapor, oferecendo liberação bilionária de emendas parlamentares e generosa distribuição de cargos, com promessa de descartar alguns ministros para acomodar nomes do Centrão.

Bruno Carazza* - A sobrevivência dos mais gordos

- Valor Econômico

STF perpetua privilégios e contribui para a crise fiscal

Em frente ao prédio do Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes, repousa a escultura “A Justiça”, de Alfredo Ceschiatti. “Repousa”, aliás, é uma boa palavra para descrever o estado da obra do artista belo-horizontino: afinal, são raras as representações artísticas em que a deusa da Justiça está sentada. Mas este não é seu único detalhe simbólico.

Através dos séculos, a deusa romana Iustitia aparece em pinturas e esculturas com três componentes praticamente inseparáveis: a venda nos olhos (destacando a impessoalidade), a balança (fazendo referência à isonomia no tratamento das partes) e a espada (realçando a força para impor o direito sobre todos).

A escultura que simboliza o Judiciário brasileiro, porém, não possui balança - como se por lá não fosse necessário contrabalançar argumentos, sopesar direitos, medir consequências e equilibrar a teoria e a prática.

Sergio Lamucci - O equilíbrio difícil para 2021

- Valor Econômico

Incerteza fiscal, fim do auxílio e piora da covid afetam cenário para a economia brasileira no ano que vem

A economia brasileira caminha para entrar em 2021 com o cenário fiscal em aberto, sem o auxílio emergencial e com um quadro de recrudescimento da covid-19. Há dúvidas sobre como ficará o orçamento do ano que vem, com o risco de o teto de gastos não ser respeitado e incertezas quanto ao avanço das reformas para conter a expansão das despesas obrigatórias. Já a retirada abrupta dos estímulos fiscais deverá ter impacto negativo sobre a atividade, num ambiente de desemprego elevado. A evolução recente da doença também preocupa, o que poderá ter impacto negativo sobre a economia.

O Brasil enfrenta uma situação complicada, que exigiria habilidade e liderança do governo para encontrar uma solução razoável. De um lado, houve uma deterioração expressiva das contas públicas em 2020, por causa do aumento dos gastos para combater os efeitos da pandemia e da queda de receitas causada pela recessão. De outro, a perspectiva para o ano que vem é de um corte significativo nas medidas de estímulo, depois de o país ter adotado um pacote de apoio expressivo neste ano.

Gustavo Loyola* - Brasil flerta com o desastre fiscal

- Valor Econômico

Ausentes medidas de ajuste estrutural, o desempenho da economia em 2021 continuará a ser pífio

No comunicado divulgado pelo Banco Central após a última reunião do Copom, a instituição alertou que “um prolongamento das políticas fiscais de resposta à pandemia que piore a trajetória fiscal do país, ou frustrações em relação à continuidade das reformas, podem elevar os prêmios de risco”. Declarou ainda que “o risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária”.

Trata-se de mais uma advertência, desta feita vinda da Autoridade Monetária, de que a situação fiscal brasileira está exigindo resposta imediata. Lastimavelmente, com raras exceções, os políticos eleitos parecem que continuam subestimando os riscos fiscais que rondam o Brasil e que, se materializados, poderão jogar o país numa crise econômica de repercussões potencialmente desastrosas para a sociedade. Falta apoio, na classe política, a iniciativas para eliminar o déficit estrutural das contas públicas, ao tempo em que sobram apoios a iniciativas que aumentam o gasto público ou estendem benesses tributárias a grupos de contribuintes.

Morre aos 80 anos o ex-deputado Carlos Eduardo Cadoca, vítima da covid-19

Cadoca morreu na madrugada deste domingo, após mais de um mês internado no Hospital Português de Recife; pelas redes sociais, diversos políticos prestaram homenagens a ele

Redação / O Estado de S. Paulo

Após mais de um mês internado no Hospital Português do Recife, o ex-deputado federal Carlos Eduardo Cadoca morreu na madrugada deste domingo, 13, aos 80 anos, vítima da covid-19. A informação foi divulgada por sua mulher, Berenice Andrade Lima, e confirmada pelo hospital. 

“Trago, aqui, a notícia que eu mais temia e que, em nenhuma hipótese, queria dar para vocês. Depois de mais de um mês internado, Cadoca perdeu, hoje, a luta contra a Covid-19. Ele resistiu bravamente. Foi um forte guerreiro, típico de alguém que ama a vida, mas essa doença é terrível, misteriosa e, infelizmente, foi mais forte”, escreveu Berenice no Facebook. 

Ela frisou ainda a gravidade da pandemia e a necessidade de reforçar medidas que evitem o contágio. “A Covid-19 segue latente, como um imenso desafio para as autoridades e para a sociedade. Enquanto a vacina não chegar, garantindo uma cobertura universal, é urgente que todos redobrem os cuidados”, disse Berenice. 

O Real Hospital Português informou que "confirma o falecimento do paciente Carlos Eduardo Cintra da Costa Pereira (Cadoca) às 00h30min deste domingo (13/12)".

Cadoca, como era conhecido, nasceu em abril de 1940, no Recife. Formado em Direito, teve longa trajetória política. Atuou como vereador na capital pernambucana, foi deputado estadual em Pernambuco e também foi eleito deputado federal pelo Estado por quatro vezes seguidas, nas eleições de 1998, 2002, 2006 e 2010. Ainda assumiu, como suplente, o mandato de deputado federal na legislatura iniciada em 2015.