segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Alckmin cola em Serra e reforça campanha na rua

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Evandro Spinelli

DE SÃO PAULO - Se Aloizio Mercadante (PT) aposta em Lula e Dilma Rousseff para virar a eleição ao governo de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) vai colar em José Serra para manter a liderança e para que o presidenciável recupere a dianteira no Estado.

Nos últimos dez dias, Alckmin não fez um discurso, não participou de um debate ou palestra sem falar no presidenciável tucano.

Alckmin e Serra não são do mesmo grupo no PSDB. Isso ficou claro em 2008, quando Alckmin se lançou candidato a prefeito de São Paulo apesar da preferência de Serra, então governador, por Gilberto Kassab (DEM).

Porém, pesquisas internas do PSDB detectaram que o eleitor paulista identifica muito Alckmin e Serra como sendo aliados e integrantes do mesmo grupo político.As mesmas pesquisas demonstram que o eleitor de Alckmin espera que ele defenda a eleição de Serra a presidente, inclusive aquele eleitor de Alckmin que está disposto a votar em Dilma.

A conclusão dos tucanos é que Alckmin precisa defender Serra para não perder votos. Abandonar o barco soaria como uma traição.

Além do mais, o levantamento tucano aponta que a gestão Serra no governo do Estado é bem avaliada, assim como a do próprio Alckmin.

MAIS CAMPANHA

Como prevenção pelo avanço das intenções de voto em Mercadante, Alckmin reforçará sua campanha de rua. O partido vai organizar eventos da militância (panfletagem, bandeiraços e adesivaços) e agendas de "cabos eleitorais de luxo".

O candidato a vice-governador Guilherme Afif Domingos (DEM), a mulher de Alckmin, Lu Alckmin, e os candidatos ao Senado da chapa, Orestes Quércia (PMDB) e Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), terão agendas próprias a partir de setembro.

Alckmin se concentrará na Grande São Paulo, deixando o interior principalmente para Quércia, Aloysio e Afif. A avaliação é que ele já foi muito para o interior, onde sua liderança é mais consolidada -55% a 20% de Mercadante.

SP continuará a comandar PSDB, diz Richa

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Para tucano, líder nas pesquisas no Paraná, ascensão de novos nomes não muda "hegemonia" paulista na sigla

Ex-prefeito afirma estar engajado na campanha de Serra e sugere que o presidenciável priorize Estados em que vai pior

Estelita Hass Carazzai

DE SÃO PAULO - Um dos poucos tucanos apontados como favorito nas pesquisas para os governos estaduais, o ex-prefeito de Curitiba Beto Richa, candidato ao governo do Paraná, afirma que, mesmo que se eleja governador, será difícil tirar a "hegemonia" dos paulistas no PSDB nacional.

Dois dias após a divulgação da pesquisa Datafolha, que aponta Richa com possibilidade de vencedor as eleições já no primeiro turno, o tucano diz, justamente por conta dessa circunstância, que não tem a pretensão de liderar o PSDB no país. Por telefone, o candidato falou à Folha antes de iniciar carreata em Palmas (370 km de Curitiba), no interior.

Folha - Uma possível vitória sua no Paraná pode transformá-lo num nome importante do PSDB nacionalmente?

Beto Richa - É duro dizer. Estou fazendo meu trabalho aqui, agindo com coerência na vida pública, com o meu partido, e isso acho que tem feito a diferença. O crescimento político de alguém está baseado no trabalho que realiza. Eu acabei virando candidato a governador em razão da boa gestão que fiz na capital, reconhecida nacionalmente.

O Paraná pode ser um novo celeiro de líderes tucanos?

O Paraná tem grandes nomes, fundadores nacionais [do PSDB]. O meu pai [José Richa, ex-governador do Paraná] foi um fundador nacional do PSDB. Mas [o Paraná] não tem a densidade de um Estado como São Paulo.
Eu não tenho essa pretensão de o meu Estado ser aquele que vai liderar o PSDB nacionalmente. Acho que temos que nos unir, todos devem ter espaço conforme a importância e a densidade de cada Estado, como é hoje.
Eu não tenho essa visão de alguns, de dizer que vamos tirar a hegemonia de São Paulo. Temos que admitir que o PSDB é forte em São Paulo. É o maior Estado do país e há uma estrutura partidária muito forte lá.

É ruim que o PSDB seja um partido ainda muito associado a São Paulo?

Liderança não se dá, se conquista, com trabalho, com resultados. E o PSDB teve resultados extraordinários no Estado mais populoso do Brasil. Acho que é uma coisa natural São Paulo acabar tendo uma força partidária maior. É normal. Não tenho nada contra São Paulo.

Dilma Rousseff ultrapassou José Serra no Paraná, segundo o Datafolha. Há como reverter essa situação?

Ele tem vindo bastante [ao Paraná], mas tem que cuidar dos Estados em que a situação está mais desfavorável. Até porque aqui a gente tem cuidado da campanha dele.

Marina cobra Mantega por vazamentos

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Gustavo Uribe

Em café da manhã com colaboradores de campanha, ontem na capital paulista, a candidata do PV à sucessão presidencial, Marina Silva, classificou o episódio do vazamento de dados sigilosos da Receita Federal de "situação de descontrole" e alertou quanto à vulnerabilidade da instituição.

"Onde já se viu mais de 40 pessoas estarem envolvidas na quebra de informações sigilosas que devem ser respeitadas pela legislação brasileira?", questionou. "Os brasileiros todos estão vendo uma situação de vulnerabilidade num sistema que tem a obrigação legal de proteger o cidadão", emendou, cobrando do ministro da Fazenda, Guido Mantega, uma posição sobre o caso.

Ao defender a apuração rigorosa do episódio, ela ironizou o discurso dos adversários sobre a eficiência administrativa: "Nós temos de ter gestão. Em um mundo em que as pessoas se vangloriam tanto da gestão e da gerência, que gerência é essa?"

Durante o encontro, a candidata do PV voltou a falar da preocupação com o clima de "já ganhou" que vem crescendo desde a ampliação da vantagem da candidata petista, Dilma Rousseff, nas pesquisas eleitorais.

Ainda nas críticas aos adversários, Marina falou sobre a suposta tentativa de se criar na campanha um "mundo mirabolante". "Não existe essa história de um mundo cor-de-rosa e um mundo azulzinho, em que se resolvem as coisas com um passe de mágica", disse. "Esses problemas não foram resolvidos nos últimos 16 anos", emendou, numa referência às gestões do PT e do PSDB à frente do Palácio do Planalto.

Prestação de contas. Após o café da manhã, o coordenador do comitê financeiro da campanha de Marina, Álvaro de Souza, informou que amanhã já terá em mãos o total arrecadado pelo PV no segundo mês de campanha. A expectativa é de que o montante de R$ 4,6 milhões, coletado no primeiro mês, dobre.

Souza disse que a campanha na internet já coletou cerca de R$ 75 mil em doações. Por fim, reconheceu que esperava um resultado melhor. "Não existe no Brasil uma tradição de doação política."

Minha Casa Minha Vida deixa de lado quem ganha menos

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Programa federal, que é uma das bandeiras eleitorais de Dilma, ajuda pouco as famílias com renda de até 3 salários mínimos

Flávia Tavares

Um dos programas mais usados pela candidata petista Dilma Rousseff como bandeira de suas realizações, o Minha Casa Minha Vida tem dificuldades em atender as famílias com renda de até três salários mínimos, faixa em que se concentram 90% do déficit habitacional do Brasil.

Dados da Caixa Econômica Federal mostram que, até 31 de julho deste ano, apenas 3.588 casas foram entregues a famílias com esse perfil. Para aquelas com renda entre três e dez salários, foram entregues 149 mil unidades. Das 604 mil unidades contratadas até essa data, 275 mil atingem a faixa mais baixa.

O vice-presidente de governo da Caixa, Jorge Hereda, admite que o programa não teve como foco principal, nessa primeira fase, as famílias de baixíssima renda. "A faixa de zero a três salários é importante, mas tem uma parcela significativa de famílias com 3, 4 e 5 salários mínimos que precisavam desse acesso também", diz Hereda.

Segundo ele, o Minha Casa Minha Vida foi elaborado para resolver duas questões iniciais: a ampliação do mercado imobiliário e uma ausência quase completa de subsídios nesse setor. "Mais de 22 milhões de pessoas chegaram à classe C e há baixos índices de desemprego. Havia uma demanda para esse público que, antes, não passaria nem na porta de um empreendimento imobiliário." Além disso, cerca de 50 mil famílias que recebem entre dois e três salários já conseguem se financiar, sem subsídio total.

Espaço. Um dos obstáculos encontrados para a construção de casas para a baixíssima renda, de acordo com Hereda, é o preço dos terrenos nas grandes cidades. Os críticos do programa creditam essa distorção ao fato de as empreiteiras escolherem os terrenos onde os projetos serão construídos. A Caixa nega. "A empreiteira não pega a terra que quer. Só aceitamos terras inseridas na malha urbana, com toda a infraestrutura garantida", defende-se Hereda.

O rigor nesses critérios seria o motivo de, apesar de a Caixa ter recebido mais de 550 mil propostas de projetos para a faixa de zero a três salários, ter aprovado pouco mais da metade disso.

Ele argumenta que quem aprova os projetos nas cidades são as prefeituras e, em alguns casos, com licenças que devem ser dadas pelo Estado. "A questão da terra só vai se resolver quando as cidades abrirem espaço legal, não em favelas, para os pobres, aplicando o Estatuto da Cidade."

Uma maior interação de ações nas esferas federal, estadual e municipal seria a saída para a destinação mais eficiente dos terrenos, que tenha como foco as classes mais baixas. Hereda reconhece que Estados e municípios começaram a ter maior participação no programa só recentemente, já que os primeiros empreendimentos foram contratados com empresas, que entregariam unidades mais rapidamente. "As parcerias estão aumentando. Foi um período de aprendizado, mas em São Paulo, por exemplo, temos ações conjuntas com o Estado e a prefeitura", afirma.

Tempo de entrega. O vice-presidente da Caixa justifica o baixo número de imóveis entregues até aqui pelo programa, afirmando que ele está dentro de uma média razoável de tempo de construção das casas. "Uma casa não sai do nada. Para fazer casas em conjuntos habitacionais levamos de 12 a 24 meses. Vale lembrar que uma incorporação já durou 3 anos neste país."

Em 2009, de acordo com Hereda, foram contratadas 275 mil unidades, mas o grosso das contratações foi em novembro e dezembro. "As entregas vão acontecer mais intensamente no fim deste ano e no ano que vem."

É também para o ano que vem que está previsto o lançamento do Minha Casa Minha Vida 2, versão atualizada do programa, que deve fazer correções em alguns pontos criticados da primeira versão. O principal é aumentar a proporção de investimentos nos imóveis para a faixa de 0 a 3 salários mínimos, dos atuais 40% para 60%.

'Tudo o que foi feito até aqui está equivocado, porque não atende o pobre'

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Flávia Tavares

ENTREVISTA

O secretário estadual de Habitação de São Paulo e presidente do Fórum Nacional de Secretários de Habitação e Desenvolvimento Urbano (FNSHDU), Lair Krähenbühl, critica duramente o Minha Casa Minha Vida e a falta de foco do programa nas famílias com renda de zero a três salários mínimos.

"Tudo que foi feito até aqui está equivocado, porque não atende ao pobre", diz ele.

Para Krähenbühl, ao anunciar que faria 1 milhão de casas, o governo criou uma expectativa irreal. "Quiseram criar uma expectativa, não sei se foi um equívoco ou medida eleitoreira, mas ela estava errada. Fizeram a festa da cumeeira, aquela em que se põe um ramo de arruda quando o telhado da casa fica pronto, antes de comprar o terreno."
A seguir, os principais pontos da entrevista:

Qual é a principal crítica que o senhor faz ao programa?

Eles estão com o foco errado. Em primeiro lugar, o programa não atendia a áreas de risco. Mas saiu uma portaria na semana passada dando prioridade para essas áreas. Estão atrasados, porque já contrataram quase tudo. Outro ponto é que 60% dos imóveis são para famílias de 3 a 10 salários mínimos e 40% para de 0 a 3. É o inverso da lógica da demanda. Por fim, não ouviram Estados e municípios, que sabem onde as casas precisam ser construídas. As construtoras escolhiam os terrenos ou já tinham esses terrenos. O interesse atendido é o delas e não o da gestão pública.

A iniciativa privada não deveria ter sido envolvida no Minha Casa Minha Vida?

A lógica de atuar com a iniciativa privada está correta. Mas precisa ouvir o Estado e o município. No modelo atual, a CDHU não pode apresentar projetos. Só empresa privada pode apresentar. Minha proposta é que a CDHU e as Cohabs possam também. Mas o governo disse que a lógica era de fazer rápido, com as empresas, porque o Brasil precisava gerar empregos com urgência por causa da crise.

O programa foi anunciado como uma alternativa para as classes mais baixas.

Mas o anúncio criou uma demanda que não existia. Famílias fizeram filas para se inscrever, queriam casa para todo mundo, acharam que ia ser a salvação. O governo quis criar uma expectativa que não sei se foi equivocada ou eleitoreira, mas ela estava errada. Eles fizeram a festa da cumeeira, aquela em que se coloca um ramo de arruda quando o telhado da casa fica pronto, antes de comprar o terreno.

O senhor foi ouvido na elaboração do programa?

Antes de o Minha Casa Minha Vida ser anunciado, fomos a Brasília eu, o governador José Serra e o governador Aécio Neves para uma reunião com a ministra Dilma Rousseff, o ministro Paulo Bernardo, Jorge Hereda, da Caixa, e o ministro Márcio Fortes. Isso foi em fevereiro de 2009. Nessa reunião, o foco para famílias de zero a três salários era de 20% dos recursos, não de 40%. Eles foram corrigindo o programa à medida que fomos pautando.

Eles vão continuar fazendo esses ajustes?

Vão corrigir o rumo, porque como está é insustentável.

Em SP, Aloysio contraria tendência e exibe FHC na TV

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Daniel Bramatti

Tucanos de todo o País evitam citar o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em suas campanhas eleitorais - alguns, como José Serra e Teotônio Vilela Filho, até se exibem ao lado do presidente Lula nos programas de TV. Todos se baseiam em indícios de que FHC "tira votos" de seus aliados, por ter o seu governo mal avaliado, em comparação com o do presidente Lula.

Em São Paulo, Aloysio Nunes, candidato ao Senado pelo PSDB, desafiou o senso comum e levou o ex-presidente à TV. Em depoimento de cerca de um minuto, FHC elogiou a atuação de Aloysio em seu governo, no qual ocupou os cargos de ministro da Casa Civil e da Justiça.

Talvez porque tenha se tornado mais conhecido, talvez porque FHC ainda mobilize parcela do eleitorado, o fato é que Aloysio subiu de 4% para 11% na pesquisa Ibope/Estado/TV Globo feita após o início do horário eleitoral.

Outros que se beneficiaram das aparições na televisão foram Marta Suplicy e Netinho, candidatos do PT e do PC do B ao Senado. Em um mês, Netinho subiu seis pontos porcentuais, de 18% para 24%, segundo o Ibope. Ele está empatado tecnicamente na segunda posição com Orestes Quércia (PMDB), que tem 21% das intenções de voto.

Marta, que tinha 31% das preferências, subiu para 36% e se manteve na liderança isolada da disputa por uma das duas vagas em jogo em São Paulo.

A ex-prefeita da capital e Netinho são os candidatos mais citados (18% e 13%, respectivamente) na pesquisa espontânea, em que os entrevistados manifestam suas intenções sem ler a lista de candidatos. A pesquisa Ibope foi registrada no TSE com o número 26048/2010.

Países como o Brasil creem em um mundo de fantasia

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

"A sorte do Lula foi ter tido ótimo antecessor", diz Ricardo Hausmann, de Harvard, crítico das políticas externa e econômica atuais.

Houve avanços desde que o sr. escreveu sobre as barreiras ao crescimento do país?

A crise foi bem administrada. Mas o principal problema com países como o Brasil é que, quando as coisas começam a parecer bem, passam a crer em um mundo de fantasia.

Sucessor não terá a mesma sorte de Lula, diz economista

ENTREVISTA RICARDO HAUSMANN

PROFESSOR DE HARVARD DIZ QUE, APESAR DO CAPITAL POLÍTICO, LULA NÃO FOI CAPAZ DE FAZER REFORMAS SIGNIFICATIVAS COMO AS DE FHC

Érica Fraga

DE SÃO PAULO - "A grande sorte do presidente Lula foi ter tido um ótimo antecessor. Mas o próximo presidente do Brasil não terá a mesma sorte."

Com esse comentário, em entrevista à Folha, o economista Ricardo Hausmann, diretor do Centro para o Desenvolvimento Internacional da Universidade Harvard e um dos mais respeitados especialistas em teoria do desenvolvimento econômico, encerrou uma série de críticas ao governo Lula.

Em 2008, ele escreveu o estudo "In search of the chains that hold Brazil back" ("Em busca das correntes que freiam o Brasil"), afirmando que a política de expansão fiscal dos anos recentes, alavancada pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), é insustentável.

E, segundo ele, pode ter o mesmo efeito "desastroso" para a economia que a política externa de Lula teve para a diplomacia.

FOLHA - Houve avanços desde que o sr. escreveu sobre as barreiras ao crescimento no Brasil em 2008?

RICARDO HAUSMANN - Talvez você se lembre que [no estudo] eu era otimista sobre muitos aspectos estruturais do Brasil. O Brasil tem um setor privado muito forte, tem muito potencial de crescimento do investimento em muitas áreas promissoras.Mas, nos anos de boom antes da crise de 2008, o Brasil era um dos países que cresciam às menores taxas na América Latina.

Minha avaliação era a de que isso se devia a uma taxa baixa de poupança doméstica, que exigia taxas de juros ridiculamente altas para evitar que a economia tivesse um aquecimento excessivo.
Aí veio a crise e o governo respondeu com políticas anticíclicas. Aumentou significativamente a oferta de crédito via BNDES e Banco do Brasil em um momento em que havia uma parada cardíaca financeira.
Diria que, de forma geral, a crise foi bem administrada. Mas o principal problema com muitos países, e o Brasil é um exemplo, é que, quando as coisas começam a parecer bem, eles se tornam arrogantes. Passam a acreditar num mundo de fantasia.

O que o sr. quer dizer com mundo de fantasia?

Só porque o Brasil teve por um trimestre uma taxa de crescimento acima de 7%, o Brasil agora é a nova China e o Lula é um gênio das finanças, e todos os problemas anteriores não existem mais porque o Brasil é um país diferente.

Há toda uma narrativa que tem sido criada por conta de alguns bons trimestres no Brasil que pode levar a políticas macroeconômicas muito inconvenientes. Essa narrativa é particularmente conveniente na época de eleições.

A primeira coisa que já está acontecendo é que a Selic [taxa de juros básica da economia] está subindo. Se você quisesse que a Selic aumentasse menos, a ideia seria compensar com políticas fiscais e de empréstimo pelo setor público mais estritas.
Porque, de certa forma, o Brasil é um país esquizofrênico. Você tem uma política fiscal em que o BNDES tem o pé no acelerador e o Banco Central tem o pé no freio.Essas combinações são particularmente perigosas porque deixam a Selic muito alta em um período em que as taxas de juros globais estão muito baixas.
Isso leva os investidores a pegar dinheiro emprestado em dólares, em ienes ou em euros para colocar dinheiro no Brasil, o que gera uma forte apreciação da taxa de juros e a possibilidade de desindustrialização.

Alguns defensores da atuação recente do BNDES citam países da Ásia que atingiram altas taxas de crescimento sustentado por meio de políticas industriais. O que o sr. acha desse paralelo?

Não tenho problemas com políticas que complementam o setor financeiro, viabilizando a disponibilidade de crédito para investimentos em áreas difíceis da economia.Não sou, de forma alguma, crítico em relação à contribuição potencial do BNDES para o desenvolvimento do país. Mas é uma organização que foi desenvolvida na época da inflação alta para proteger a economia das taxas de juros reais muito altas.
A inflação não é mais um problema no Brasil.
Seria possível que o BNDES mantivesse o foco de sua política em empréstimos para investimentos municipais, investimentos de longo prazo, apoiando pequenas e médias empresas, mas a uma taxa de juros que refletisse a Selic e não a uma taxa de juros que é muito inferior à Selic, que cria a distorção de gerar demanda excessiva pelos fundos que o BNDES tem de gerenciar.


O sr. vê o crescente deficit em conta-corrente do Brasil, em tempos recentes, como um problema?

A deterioração do deficit em conta-corrente indica que a expansão do gasto no Brasil é mais rápida do que a expansão da produção.
O efeito disso é apreciar a taxa de câmbio, desestimulando as atividades exportadoras, para liberar recursos produtivos para atender a esse boom temporário do consumo. Todas as indicações são de que as condições fiscais e a política financeira do setor público são excessivamente expansionistas. Isso vai causar prejuízo para as perspectivas de crescimento de longo prazo do Brasil.

A economia brasileira ainda é bastante fechada ao comércio exterior. Isso limita o crescimento de longo prazo?

Acho que o Brasil tem os produtos com os quais poderia ter uma presença muito maior no comércio internacional. Vocês são gigantes em agricultura, em mineração. Têm uma presença marcante na produção de aeronaves. Há uma atividade industrial vasta que poderia gerar uma presença muito maior. Mas a administração macro no Brasil tem sempre conspirado contra o potencial de longo prazo.

E isso continua acontecendo?

Na minha opinião, está piorando. Quando o Lula foi eleito, em 2002, houve uma crise econômica e ele foi muito cuidadoso ao dar confiança ao setor privado.
Agora, eles começaram a pensar que sabem mais e estão menos dispostos a serem cuidadosos. Estão se tornando mais ideológicos.
Do ponto de vista econômico, as políticas são insustentáveis como as adotadas na diplomacia.
Agora que o Brasil é grande, pode ir para a cama com o Ahmadinejad [Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã] no Irã ou hospedar o Zelaya [Manuel Zelaya, ex-presidente de Honduras deposto em junho de 2009] na sua embaixada em Honduras etc.
É uma atitude de que agora o país é independente, um poder diferente, e, portanto, pode confrontar o senso comum. Esse tipo de arrogância na política externa tem sido desastrosa.E esse tipo de arrogância tem o perigo de ser igualmente desastrosa para a administração macroeconômica.

As pesquisas de intenção de voto mostram grandes chances de vitória da candidata do presidente Lula. O sr. acha que isso levará a uma continuação dessas políticas que o sr. critica?

Todo mundo sabe que o presidente Lula tem sido superpopular e ele construiu um capital político enorme. Mas esse capital político enorme não se traduziu em nenhuma reforma significativa durante seu segundo mandato [2007-2010].
Ele não tem nada a mostrar em termos de ter resolvido problemas antigos relacionados à baixa taxa de poupança, ao sistema de previdência, à infraestrutura, a ter uma estrutura tributária mais normal e funcional.
Apesar do seu enorme capital político, ele não foi capaz de fazer nenhuma reforma significativa como as feitas pelo antecessor dele.
E, recentemente, ele tem se movido na direção contrária. A grande sorte do presidente Lula foi ter tido um ótimo antecessor [FHC]. Mas o próximo presidente do Brasil não terá a mesma sorte.

Frases
"De certa forma, o Brasil é um país esquizofrênico. Você tem uma política fiscal em que o BNDES tem o pé no acelerador e o Banco Central tem o pé no freio"

"A deterioração do deficit em conta-corrente indica que a expansão do gasto no Brasil é mais rápida do que a expansão da produção"

"O Lula tem sido superpopular e ele construiu um capital político enorme. Mas esse capital não se traduziu em nenhuma reforma significativa durante seu segundo mandato [2007-10]"


PERFIL

Venezuelano, Hausmann foi pioneiro no BID

Ricardo Hausmann nasceu na Venezuela em 1956.

Com doutorado em economia pela Universidade Cornell, nos EUA, Hausmann ocupou importantes cargos públicos em seu país natal, como ministro de Planejamento e diretor do Banco Central.

Foi o primeiro economista-chefe do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Desde 2005, é diretor do Centro para Desenvolvimento Internacional da John F. Kennedy School of Government, da Universidade Harvard.

Especialista em teoria do desenvolvimento econômico, ele defende a ideia de que um mesmo receituário de políticas não funciona necessariamente para todos os países.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Bach - Matthaeus Passion - 01

Canção da garoa :: Mário Quintana

Em cima do telhado
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.

O relógio vai bater:
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.

E chove sem saber porquê
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin...

domingo, 29 de agosto de 2010

Reflexão do dia - Antonio Gramsci


Não é talvez a reação, também ela, um ato construtivo e vontade? E não é ato voluntário a conservação? Porque então seria “utópica” a vontade de Maquiavel, por que revolucionária e não utópica a vontade de quem pretende conservar o existente e impedir o surgimento e a organização de forças novas que perturbariam e subverteriam o equilíbrio tradicional? A ciência política abstrai o elemento “vontade” e não leva em conta o fim ao qual uma vontade determinada é aplicada. O atributo de “utópico” não é próprio da vontade política em geral, mas das vontades particulares que não sabem ligar o meio ao fim e, portanto, não são nem mesmo vontade, mas veleidades, sonhos, desejos, etc.


(Antonio Gramsci, em Maquiavel a Política e o Estado Moderno, pág. 94, 3ª edição Civilização Brasileira,- Rio de Janeiro ,1978)

Um espectro anacrônico:: Luiz Sérgio Henriques

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Um espectro do passado ainda parece rondar o pensamento da esquerda, influenciando não só posições pessoais de intelectuais e políticos, mas até mesmo a orientação diplomática oficial de vários países, especialmente na América Latina. Um fantasma persistente e, como todo ser da sua natureza, não destituído de velhas e boas razões históricas: trata-se do antiamericanismo sistemático, considerado como princípio e recurso mobilizador de massas, muitas vezes em torno de soluções caudilhescas e autoritárias, contra a realidade impalpável do "império".

Dispensamo-nos assim de uma visão articulada da realidade americana, dos seus enormes desafios e contradições, dela só conservando a dimensão intervencionista decorrente do sabido papel hegemônico dos Estados Unidos no sistema internacional: o papel de "potência indispensável", que muitas vezes, na percepção autoirônica certa feita publicada na Foreign Affairs, torna aquele país o mais perigoso do mundo, mais do que qualquer membro de qualquer "eixo do mal" que se imagine...

Atua também na permanência do fantasma antiamericano um legado do século 20. Um século que foi também o do comunismo histórico, formado em torno da antiga União Soviética, e que nos acostumou a ver o mundo dividido em campos contrapostos: por um lado, exatamente, o império e sua rede de lacaios e prepostos; por outro, as forças do progresso, cujo centro era a URSS e o socialismo real, mas que abrangia outros sujeitos, como os partidos comunistas no Ocidente e os movimentos de libertação nacional, motores de uma "via não capitalista de desenvolvimento".

Essa contraposição de campos não existe mais, mas o mesmo não se pode dizer das categorias que gerou. Situação paradoxal, que, por isso mesmo, nos intima ao estudo minucioso da realidade norte-americana: uma democracia cruzada por tensões como qualquer outra, talvez vivendo um momento de declínio histórico e de crescentes desigualdades - e, apesar de tudo, a mais antiga democracia política em vigor, com valores que merecem atenção e mesmo resgate.

De fato, da cultura americana provêm impulsos potencialmente catastróficos, como os que teorizaram esta infinita e insolúvel "guerra contra o terror", expressão prática do "choque de civilizações" e da recusa unilateral em identificar e explorar produtivamente valores comuns entre as democracias ocidentais e o Islã. Também provêm, na mesma direção, expedientes patentemente falsos, como os que levaram a presidência bushiana a invadir o Iraque sob o pretexto da existência de "armas de destruição em massa". Para não falar do pesadelo em que se transforma a cada dia o Afeganistão, que comprova os limites da "linguagem" dos mísseis e da guerra, mesmo quando o inimigo são fanáticos taleban ou, pior ainda, terroristas da Al-Qaeda.

Mas os Estados Unidos não são apenas isso. A presidência Obama, mesmo em meio à hostilidade implacável de uma direita republicana que combate todas e cada uma das suas iniciativas, e também em meio às suas próprias incertezas, expressa, às vezes com força, "uma outra América". Apela aos pais fundadores da velha República, à letra e ao espírito dos seus textos, revigorando-os da forma possível e mostrando à esquerda (de todos os matizes) que o liberalismo clássico não é um legado "burguês" imprestável ou uma forma de vida e de pensamento cuja contestação autoriza a aliança com tiranias teocráticas e outros fundamentalismos.

Em recente ocasião, comemorando em plena sede do governo uma cerimônia muçulmana - o fim do jejum do Ramadã -, o presidente Barack Obama reanimou o espírito dos fundadores ao exaltar não apenas a tolerância, mas o respeito à liberdade religiosa como elemento constitutivo do país. Concordando, em conjuntura pré-eleitoral muito difícil, com a construção de uma mesquita nas proximidades do Marco Zero, que assinala em Nova York o local do brutal atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, Obama realça uma América que nasceu em oposição às guerras religiosas europeias e, portanto, tem também, entranhada em si, ao lado da belicosidade imperial em que tantas vezes viria a incorrer, uma corrente profunda de pacifismo - de resto, presente em todas as democracias, por mais imperfeitas ou defeituosas que sejam.

Obama, neste pronunciamento, tem clareza sobre o fato de que, se a religião floresceu na América do Norte, é porque os cidadãos tiveram o direito de escolher em que ou em quem acreditar, ou mesmo o direito de não acreditar em religião alguma. E, coerentemente, diferencia o Islã da Al-Qaeda, reconhecendo que o terror fundamentalista assassinou mais muçulmanos do que membros de qualquer outra religião, referindo-se até mesmo àqueles muçulmanos que morreram no 11 de Setembro.

Seria deliberada ingenuidade ignorar a incoerência da inútil e por demais prolongada guerra americana no Afeganistão em relação a esse conjunto de valores de tolerância e respeito. A ameaça do terror e das variadas formas de fundamentalismo, inclusive quando assume o poder de Estado, como no Irã teocrático da lapidação de mulheres e do sistemático enforcamento de opositores, é real e merece, da parte dos democratas de todo o mundo, respostas só muito subordinadamente baseadas na força. O essencial sempre é construir formas de intercâmbio e tradução recíproca entre culturas, estimulando a emergência dos elementos de convivência e universalismo presentes em cada uma das "civilizações" humanas supostamente em choque.

Sobretudo, no plano prático, as incongruências do Estado americano, no Iraque, no Afeganistão ou em qualquer outro ponto, devem ser contrabalançadas e corrigidas por vigorosos movimentos da sociedade civil, como os que, há uma geração ou pouco mais, contribuíram para liquidar a aventura imperial no Vietnã.


Ensaísta, é tradutor e um dos organizadores das obras de Antonio Gramsci em português
(www.gramsci.org)

Tsunami governista:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

Dada como perdida a eleição presidencial, a tentativa da oposição agora é não desmobilizar as campanhas regionais e resistir ao verdadeiro tsunami governista que vem tomando conta do país, subvertendo a geografia do voto com base na popularidade do presidente Lula.

Com a reviravolta da corrida pelo governo de Minas, com o candidato do ex-governador Aécio Neves tomando a dianteira, a oposição vai garantindo a manutenção do poder nos dois maiores colégios eleitorais do país.

Embora seja pouco provável que o presidente Lula se empenhe na defesa da candidatura de Hélio Costa em Minas, é certo que em São Paulo ele aumentará sua ação política para tentar uma reversão que leve a eleição para o segundo turno.

É em São Paulo que está o centro da disputa pela hegemonia do poder político nacional entre PT e PSDB, e a vitória da candidata Dilma Rousseff sobre o tucano José Serra é um indício de que o PT encontra um ambiente político propício para tentar quebrar o domínio de 16 anos do PSDB no governo estadual.

O crescimento de Mercadante, mesmo que tenha se dado mais sobre os votos do candidato do PP Celso Russomano, deve estimular ações mais agressivas por parte de Lula, que está se empenhando pessoalmente em alguns estados até mesmo na disputa pelo Senado.

Serra está tendo um desempenho na corrida presidencial mais próximo do que teve em 2002, quando perdeu em São Paulo e venceu apenas em um estado, Alagoas, obtendo 23,5% dos votos, do que do de Geraldo Alckmin em 2006, quando o então candidato tucano fechou o primeiro turno com 43% dos votos, tendo derrotado Lula em São Paulo por 3.800 milhões de votos.

Ambos foram para o segundo turno com poucas chances de vitória sobre Lula, e perderam pela mesma diferença: 61% a 39% dos votos válidos.

Não por coincidência, a mesma proporção que a candidata Dilma Rousseff vai abrindo sobre Serra já nesse primeiro turno, o que mostra que a antecipação da disputa prevista por Lula está se concretizando.

Mais grave para Serra é que os 40% de votos válidos que parecem ser o teto dos eleitores oposicionistas terão que ser divididos com a candidata do Partido Verde, Marina Silva, que vem tendo cerca de 10% dos votos válidos.

A disputa eleitoral passa a ser em torno dos nichos de voto oposicionistas nos tradicionais estados azuis, como São Paulo e Minas Gerais, cujo controle político será vital para que a oposição tenha voz num futuro governo Dilma.

Mas também em torno do Senado, onde está em disputa o controle de uma bancada que, até o momento, é o principal freio às investidas do governo federal.

Embora tenha uma maioria teórica nas duas Casas do Congresso, foi no Senado que o governo Lula encontrou maiores resistências, devido não apenas à atuação da oposição como ao posicionamento de senadores independentes.

Uma avaliação mais realista da correlação de forças partidárias num provável governo Dilma, portanto, depende desses dois fatores que darão a medida do nível de fragilidade da atuação da oposição.

Uma eleição de Antonio Anastasia como está se desenhando reafirmará a posição do ex-governador Aécio Neves como principal expoente da oposição no país, mesmo que Alckmin confirme sua hegemonia em São Paulo.

O mais importante estado onde a oposição vence, fora do sudeste, é o Paraná, onde Beto Richa tem possibilidade de vencer no primeiro turno. As vitórias de Marconi Perillo em Goiás e do peemedebista dissidente André Puccinelli no Mato Grosso do Sul serão importantes para garantir a influência política da oposição no CentroOeste do país.

A composição do Senado por enquanto está garantindo a permanência de oposicionistas de peso, que Lula gostaria de derrotar, como Tasso Jereissatti no Ceará, Artur Virgílio no Amazonas, e dos democratas José Agripino Maia no Rio Grande do Norte, Marco Maciel em Pernambuco, Demóstenes Torres em Goiás e Cesar Maia no Rio.

Há ainda eleições prováveis, como a de Germano Rigotto, do PMDB antipetista do Rio Grande do Sul, Itamar Franco, do PPS de Minas, e Cristovam, Buarque, do PDT de Brasília.

Algumas vagas estão em disputa acirrada e a partir delas se poderá ter uma idéia de como ficarão as bancadas no Senado. Em São Paulo, a petista Marta Suplicy permanece em primeiro lugar e dois candidatos disputam a segunda vaga: Orestes Quércia, do PMDB dissidente, e Netinho, pelo PCdoB.

Em Brasília, a tucana Maria Abadia está empatada tecnicamente com Rodrigo Rollemberg do PSB; no Rio de Janeiro, o bispo Marcelo Crivella está despencando, embora permaneça na primeira posição, e Lindberg Farias, do PT, e Jorge Picciani, do PMDB, estão crescendo, mas continuam longe de Cesar Maia, que apresenta estabilidade de votação.

Em Pernambuco, o presidente Lula decidiu fazer campanha contra o ex-vice de FH, Marco Maciel, para apoiar Armando Monteiro, do PTB, que está crescendo na disputa pela segunda vaga.

Dependendo da correlação de forças, é possível que o PSB tente uma aproximação com o PSDB para dar ao governo uma alternativa para equilibrar o poder que terá o PMDB, fazendo as maiores bancadas tanto na Câmara quanto no Senado.

Aécio Neves pode ser o centro numa aliança PSB, PT, PSDB, que já foi tentada em Belo Horizonte na eleição do prefeito Marcio Lacerda.

Na ocasião o PT vetou essa aproximação, mas diante do aumento de poder do PMDB é possível que reveja essa posição.

Este é um processo ainda em curso, faltando pouco mais de um mês para a eleição, e está sujeito a reviravoltas devido à onda governista que está assolando o país do Oiapoque ao Chuí, para usarmos a imagem inaugural da propaganda da candidatura oficial.

Usurpação de cidadania:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

De todos os casos cabulosos ocorridos no governo Luiz Inácio da Silva, o da quebra indiscriminada de sigilo fiscal na delegacia da Receita Federal em Mauá é o mais angustiante.

De Waldomiro Diniz à arquitetura de dossiês na Casa Civil na Presidência da República para atrapalhar o trabalho da CPI dos Cartões Corporativos; das urdiduras da direção do PT envolvendo empréstimos fraudulentos e desvios de recursos em empresas públicas (mensalão), à quebra do sigilo bancário de uma testemunha das andanças do ministro da Fazenda em uma casa de lobby de Brasília, todos tiveram objetivos específicos.

Pretendiam algo: Waldomiro, o homem encarregado pelo então chefe da Casa Civil, José Dirceu, de organizar as relações com o Congresso, cobrava propina de um bicheiro.

O dossiê com os gastos da Presidência quando ocupada por Fernando Henrique Cardoso pretendia (e conseguiu) inibir a atuação dos oposicionistas na comissão parlamentar de inquérito criada para elucidar as razões do aumento nos gastos dos cartões corporativos do governo todo e também para pedir acesso às despesas secretas da Presidência.

Os empréstimos simulados visavam a "lavar" dinheiro que financiava as campanhas eleitorais dos partidos aliados e mantê-los, por esse método, como integrantes da base parlamentar governista.

A quebra do sigilo do caseiro Francenildo Santos Costa na Caixa Econômica Federal deu-se com a finalidade de tentar desmoralizá-lo como a testemunha que desmentia o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, no caso da casa de lobby. Palocci negou no Congresso e em pronunciamento que frequentasse a tal casa e Francenildo, caseiro do local, atestava que o via sempre por lá.

Os personagens eram conhecidos e os episódios por mais nebulosos que fossem eram compreendidos. Dava para entender sobre o que versavam. Era corrupção e/ou política.

Agora, o que assusta é inexistência de uma motivação específica claramente definida, a amplitude das ações, a multiplicidade de alvos e a tentativa do governo de abafar o caso dando a ele uma conotação de futrica eleitoral.

Evidente que Dilma Rousseff sabe do que se trata quando ouve dizer que 140 pessoas tiveram o sigilo fiscal violado numa delegacia da Receita em cidade das cercanias de São Paulo.

Sabe que estamos diante de algo que pode ser qualquer coisa, menos o que alega: mero factoide, "prova do desespero" da oposição.

Como "mãe do povo", coordenadora do governo e responsável por tudo de maravilhoso que há no Brasil, Dilma deveria ser a primeira - depois do presidente Lula - a se preocupar com o fato de 140 cidadãos terem tido sua segurança institucional violada numa dependência do Estado.

No lugar disso, só faz repetir o mantra da candidata ofendida. Pode ser conveniente, mas não é um acinte?

Assim como soa a provocação ao discernimento alheio a proteção da Receita Federal aos investigados e a tentativa de "vender" a versão fantasiosa sobre a venda de sigilo no mercado negro de informações.

A atitude do governo alimenta a suspeita de dolo. Natural seria que as autoridades se levantassem em defesa da preservação dos direitos e garantias individuais.

Nesta altura, embora seja relevante, não é realmente o mais importante a filiação partidária dos agredidos.

Eduardo Jorge, Ana Maria Braga, Ricardo Sérgio, a família dona das Casas Bahia, tanto faz.

Foram eles, mas poderia ser qualquer um de nós. Quem, aliás, garante que não seremos os próximos a constar de um rol de pessoas vilipendiadas nas mãos de um Estado leviano?

A questão vai muito além do ato eleitoral, é um caso grave de insegurança institucional, pois não se sabe de onde vem isso, aonde vai parar, quem são os responsáveis, como agem e o que pretendem com essa manipulação que cassa a cidadania e espalha insegurança.

Digno. Aloizio Mercadante indigna-se com os modos - de fato indignos - de Tiririca no horário eleitoral, mas convive sem indignação com as indignidades de companheiros de "base" no Senado.

Ideia fixa:: Eliane Cantanhêde

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - De Lula: "Eu acho que o empresariado aprendeu muito, o governo aprendeu muito, os sindicalistas aprenderam muito. Acho que a imprensa vai precisar aprender um pouco ainda, porque nunca vi gostar tanto de notícia ruim".

Tradução: ele "deu um jeito" nos que poderiam incomodar. Deveria ter incluído bancos, movimentos sociais, a direita e a oposição. Botou uns no bolso e todos no seu devido lugar: o lugar de dizer amém.

Só não conseguiu ainda "ensinar" a imprensa. Mas avança nessa direção, depois de arrastar Dilma para a Presidência e os aliados em massa para os governos estaduais e para o Congresso, onde a previsão é de uma maioria como nunca antes neste país. Exceto com a Arena, na ditadura.

Os escândalos contra tudo e todos surgiram da parceria do Ministério Público, da imprensa, de funcionários exemplares (ou contrariados) e do PT, até desembocarem em CPIs. No poder, o PT tentou explodir os velhos parceiros. E as CPIs?

Já no primeiro ano, 2003, o PT lançou a Lei da Mordaça contra o MP. Depois, o Conselho de Jornalismo contra a imprensa e, por fim, o projeto contra funcionário que fala ou vaza documento. Não vingaram, mas devem estar adormecendo por trás das investidas de Lula.

Ele é um fenômeno sob vários aspectos. Tem 80% de popularidade, sua candidata caminha para comemorar uma votação histórica, e o novo governo vai assumir com a perspectiva de mais de 7% de crescimento econômico. Logo, com tudo para dar certo. Basta não errar.

Em vez de estar leve, feliz, deliciando-se diante da estrondosa vitória que se avista, Lula está armado, atiça os cães da internet e mira a imprensa, para desqualificar o último reduto do contraditório, da crítica, da investigação.

O que pretende com isso? Unanimidade? Nelson Rodrigues dizia que a unanimidade é burra.

Em política, tende a ser perigosa. Bem não faz, e pode fazer muito mal. Inclusive subir à cabeça.

O PC soviético, o PSDB e FHC:: Clóvis Rossi

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - O PSDB age, em relação a Fernando Henrique Cardoso, como o Partido Comunista da extinta União Soviética: lá, os dirigentes caídos em desgraça eram apagados das fotos oficiais, por mais relevantes que tivessem sido os cargos por eles ocupados.

Aqui, a imagem de FHC é apagada (no sentido de não exibida) de toda e qualquer propaganda eleitoral desde que terminou o seu mandato, exatamente o mais relevante jamais conquistado pelo partido.

Parece uma paródia da frase ("esqueçam o que eu escrevi") que se atribui ao ex-presidente, mas que ele nega ter pronunciado. No caso do PSDB, fica "esqueçam que ele existiu" -exatamente como os comunistas de antanho faziam até com amigos de infância quando caíam em desgraça.

Confesso que eu acreditei na sabedoria convencional tucana segundo a qual FHC tira votos. Afinal, se quem é do ramo tem tanta certeza disso, eu, que não entendo nada de disputar eleições, não tenho o direito de duvidar.

Por isso mesmo, fiquei curioso com um dado da pesquisa Datafolha sobre a disputa pelo Senado em São Paulo, divulgada ontem: Aloysio Nunes Ferreira Filho foi o único dos tucanos candidatos a cargos majoritários (Senado, no caso dele) que subiu. Pulou de 5% para 9%.

O que tem a ver Aloysio com FHC? Tudo. Foi o único tucano que desafiou a sabedoria convencional e tascou fala do ex-presidente no horário de propaganda eleitoral. Suspeito até que foi o único a fazê-lo em todo o país.

OK, é um dado muito, mas muito, preliminar para se concluir que a sabedoria convencional é equivocada. De todo modo, está claro que não deu certo "apagar" quem foi parte da história do partido -a mais relevante, de resto.

O PSDB perdeu todas e, agora, corre até o risco de se tornar tão irrelevante como o PC soviético do qual copiou o método.

A Idade de Ouro do Brasil :: Alberto Dines

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Não foi para as manchetes mas estava na primeira página do Globo dessa sexta-feira entrevista do cineasta Cacá Diegues pregando a união PT-PSDB. Para acabar com as eleições? Não, para preservar o que chama de Idade de Ouro do Brasil que vivemos há 18 anos consecutivos desde Itamar Franco. Sem perceber.

É a segunda melhor notícia política desta semana: a primeira foi o voto no Supremo Tribunal Federal (STF) do sisudo e manso Carlos Ayres Brito determinando que seja anulada - até o julgamento do mérito -- a legislação que proíbe o uso do humor nos programas sobre política do rádio e TV. Eleição com riso e sorriso ajuda a todos os candidatos - o humor é obrigatoriamente giratório. Ajuda sobretudo o eleitor livrando-o de uma campanha áspera, penosa.

Cacá Diegues, felizmente, não é uma "celebridade": não assina coluna em jornal, portanto não é dono da verdade, não frequenta as páginas mundanas porque passa o dia construindo pontes. É um militante das aproximações. Como Daniel Barenboim na Palestina. Sua visão do Brasil pós-Collor pode irritar xiitas de diferentes confissões, mas certamente será encampada pelos historiadores de amanhã.

Sua ótica é a de um idealista, não de um idilista, devaneador. Sua avaliação sobre a pacificação das favelas cariocas é rigorosa, realista, antidemagógica, antidogmática: o narcotráfico não entregou as armas, mudou de tática. O que não significa que a política de pacificação das comunidades carentes deva ser abandonada, ao contrário, o Estado deve ser mais inteligente e antecipar-se ao crime organizado.

Quando menciona uma união PT-PSDB não está envergando uma bata indiana, pregando "paz e amor", ou sugerindo uma chapa Serma ou Dilrra, apenas constata convergências. Como filho do antropólogo Manuel Diegues Jr. incorpora no seu DNA uma racionalidade capaz de identificar no Brasil um estofo político e cultural que lhe dá condições para escapar das tentações populistas e autoritárias ora em exibição no continente.

Quando no fim da ditadura localizou as patrulhas ideológicas e investiu contra elas em memorável entrevista no "Estadão", identificava um ressentimento fundamentalista que agora, trinta anos depois, ainda purga, inflamado.

Como nossa república jamais foi parlamentarista (exceto nos quase dois anos seguintes à renúncia de Jânio Quadros), as instituições brasileiras não assimilaram o conceito de continuidade. A cada governo, o brado de "muda tudo", a volta à estaca zero, o desperdício da reconstrução. A percepção de acertos passados é substituída pelo clamor contra a "herança maldita" que apesar do nome nunca é alterada.

As "idades de ouro" são geralmente perceptíveis pelo retrovisor, décadas ou séculos depois, em tratados e tertúlias históricas. Já houve uma, em letra de forma, Idade d"Ouro do Brazil um periódico, o segundo impresso na colônia, o primeiro da Bahia, três anos depois do pioneiro Correio Braziliense. O reinado de dom Pedro II foi uma Idade de Ouro, os anos dourados de JK, imprecisamente definidos, são outra.

Cacá Diegues, o cineasta das favelas, enxergou uma enquanto floresce, no auge. Vale a pena examiná-la.

» Alberto Dines é jornalista

Eterno recomeço na medida do possível:: Wilson Figueiredo

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Para não acabar à margem da sucessão presidencial que adiantou para garantir o essencial e não diluir a popularidade com peso recorde, o presidente Lula trata de manter desimpedido o acesso ao lugar que, a seu ver, não merecia: ex-presidente (a partir do primeiro dia do próximo ano). Fez saber, grosso modo, que, tão logo passe o poder, vai se dedicar à reforma política que deixou falando sozinhos todos os presidentes que namoraram a mesma iniciativa. Desconfia que o padrão moral dos hábitos políticos brasileiros já seja uma bomba de retardamento. E se reserva a função de detonador do recurso alternativo, enquanto espera a eleição de sua candidata e sua própria designação para uma variedade de primeiro-ministro no sistema presidencialista que fez dele o que ele passou a ser.

Deu o tom e solfejou: assim que deixar o poder, vai fazer a reforma política e, se falhar, não se sentirá sozinho na condição de derrotado, depois de eleger alguém que não é do ramo. E, por não ter de que se ocupar até 2014, conta com uma atuação decisiva no governo da sua eleita (por enquanto, pelas pesquisas) na alta conta em que se tem, com toda a razão.

Mas é aí que a reforma empaca. Pela própria natureza de ato político por excelência, reforma não é assunto popular nem rotina parlamentar. Antes de meter mãos à obra, o já então ex-presidente Lula terá aprendido que reforma política é muito mais. Pressupõe uma consulta ampla, mas discreta, à sociedade, sem deixar impressão digital de interesse político. A partir daí se torna possível a negociação em torno do essencial, com razoável margem para acomodar o que ficar de fora dos princípios, e sem afrontar o cidadão cuja arma continua a ser o voto. Pois o que se entende como reforma não tem fôlego de revolução. Também não alcança a plenitude constituinte. Os brasileiros já tiveram, só na República, quatro constituições procedentes de assembleias constituintes.

Não valeram as tentativas com DNA autoritário nem as cartas constitucionais sem a legitimidade que vem das urnas.

É evidente que, mal sucedido na proposta da constituinte exclusiva (como se o pecado não morasse ao lado), Lula teria dificuldades de conciliar diferenças e restringir a volúpia dos casuísmos. A oportunidade histórica autoriza a entrada da classe média na cena histórica. É por aí. Assim como o proletariado saiu de moda, o pequeno burguês veio ao mundo para preencher espaço disponível a quem acreditar nos valores sobreviventes. A solução viável passou a ser o respeito à democracia que, na medida do possível, no Brasil é o eterno recomeço.

Fernanda Cunha e Ze Carlos- " A violeira"



Entrevista: Fernando Limongi ::O jogo é jogado

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS

Seja qual for o resultado das eleições, PT e PSDB continuarão a dar cartas no processo político, diz pesquisador

Ivan Marsiglia

A semana começou com pesquisas colocando a candidata do Partido dos Trabalhadores, Dilma Rousseff, 20 pontos à frente de seu principal adversário, o tucano José Serra. E terminou com o tiroteio em torno da sindicância da Receita Federal sobre a violação do sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, e outras três pessoas ligadas ao comando do partido - com direito até a pedido de impugnação da campanha petista.

O jogo continua, portanto. E, para analisar as táticas e os lances em profundidade dos principais times em disputa pela bola da vez no Planalto, o Aliás convidou Fernando Papaterra Limongi, professor titular da Universidade de São Paulo e um dos principais nomes da ciência política brasileira. Mestre pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1988 e doutor pela Universidade de Chicago em 1993, Papaterra Limongi acaba de voltar de uma temporada de um ano na Universidade Yale, em New Haven, nos EUA, onde ministrou aulas de política comparada das democracias latino-americanas.

Nos últimos anos, o pesquisador se dedicou a uma análise sistemática da série histórica de eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização. Viu, no processo político brasileiro, mais constâncias que incongruências. "De 1994 para cá, as eleições se resumiram à competição entre dois partidos, PT e PSDB", diz Limongi, que crê na continuidade desse quadro de alternância no poder das duas principais agremiações do País. E não corrobora a argumentação do colega Bolívar Lamounier de que, na eventualidade de uma vitória de Dilma, após oito anos de presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, o País corre risco de "mexicanização" - com o PT convertido em uma espécie de versão brasileira do PRI, o Partido Revolucionário Institucional, que ficou por seis décadas no poder no México. "Dizia-se a mesma coisa quando o PMDB saiu vitorioso das eleições em 1986", lembra.

Na visão do professor, a explicação é o tal feel good factor, de que falou a revista britânica The Economist, em uma formulação mais elegante do célebre bordão americano que diz "é a economia, estúpido!" Limongi sustenta: "O eleitor é conservador". E, assim como o foi em 1998, mantendo na cadeira o presidente do Plano Real, Fernando Henrique Cardoso, teme reverter a maré boa do governo Lula. Por isso mesmo, também não assina embaixo dos que criticam a performance de Serra: "Ele fez tudo certinho desta vez".

O sr. estudou os resultados das eleições presidenciais desde a redemocratização. A que conclusões chegou?

Trabalho com a série histórica das eleições em busca de padrões. Alguns são evidentes: de 1994 para cá, as eleições se resumiram à competição entre dois partidos, PT e PSDB. Hoje pode parecer óbvio, mas em 1989 não se adivinhava nada disso: foi uma eleição aberta, fragmentada, com a decisão sobre quem passaria ao segundo turno acontecendo voto a voto. A disputa entre Lula e Brizola foi travada na casa decimal. Outros, durante a campanha, tiveram oportunidade de viabilizar-se. O que se nota ali? Que ninguém fez coalizão. Em 1994, já há uma restrição no número de candidaturas, mas com competição entre vários partidos grandes. Essa competição, vencida de um lado pelo PSDB, fechando a centro-direita do País, e seguida pelo PT, fechando a centro-esquerda, definiu o que aconteceria dali para a frente. A vitória do PSDB está ligada ao Plano Real, mas também à coligação com o PFL - permitindo que o partido, que não tinha penetração no Nordeste, viesse a ter. Do outro lado, o voto no PT de 1989 explica o de 1994, com uma subida pequena, em torno de 5%. Em todos esses anos, qual é a terceira força que participa da campanha? Enéas em 1994, Ciro em 1998, Garotinho em 2002, Heloísa Helena em 2006 e deve ser a Marina Silva em 2010. Não há constância.

O que explica o atual crescimento do PT?

É possível notar um crescimento constante do PT, eleição a eleição, até 2002, quando dá um salto e ganha. Tenho lido análises ressaltando um "aumento significativo" no apoio ao PT entre 2002 e 2006. Mas acho que esse crescimento é de magnitude menor do que se supõe. Houve, sim, adição de votos de outros eleitores em momentos específicos, mas o petismo mantém-se mais ou menos constante, na faixa dos 18%, 20% do eleitorado. Nos últimos anos, ganhou eleitores de baixa renda nas cidades do Nordeste e perdeu parte dos mais educados e ricos do Sudeste. O PSDB, por sua vez, deixou escapar esses eleitores pobres quando sua aliança com os pefelistas se desfez em 2002 e a economia se deteriorou. Em 1994, a argumentação do governo Fernando Henrique era a de que estavam "arrumando a casa" para crescer depois. Tanto que, em 1998, a composição do segundo ministério privilegiou os desenvolvimentistas. Mas aí vem a crise asiática e o eleitor diz "é hora de dar o poder a outro".

O que explica a atual vantagem de Dilma sobre Serra?

Entre 2006 e 2010, o PT está retendo o eleitorado que conquistou e ampliando-o por uma razão simples: o País vai bem. Os estudos sobre eleições presidenciais nos EUA são unânimes: a principal variável para explicar resultados eleitorais é a economia.
Diante dessa demonstração de força eleitoral de Lula, há quem diga que esse predomínio de PT e PSDB no País tem dias contados. É sempre arriscado fazer futurologia. Mas quando você analisa a série histórica, é confrontado com isso: PT e PSDB continuam controlando a eleição presidencial. Para o PSDB perder esse monopólio da oposição, a capacidade de ser o polo de convergência que lança o candidato de oposição, terá que pisar muito na bola. Sobretudo porque a única alternativa existente seria o PMDB. e ele já está muito atrelado ao PT. O PSDB tem potenciais candidatos à presidência com expressão nacional - coisa difícil de se constituir, que não se faz da noite para o dia em um país tão grande e politicamente organizado em torno dos Estados. Alckmin já foi candidato e tem recall. Aécio continua em evidência e seu candidato em Minas, Anastasia, cresce nas pesquisas. O governador do Paraná, Richa, é outra liderança emergente. O que acontece é que a oposição tomou um choque de realidade agora. Mas nada inesperado, diante do tal feel good Factor...

Ou seja, boa parte do eleitorado sente-se satisfeita e tem receio de mudar.

Por que iria? O eleitor é conservador. Foi conservador em 1998, quando poderia ter dito "o Plano Real nos trouxe uma melhora, mas o crescimento não veio". Esperou e só falou "é a vez da oposição" quando a situação ruim se perpetuou - o que, como pessoalmente acho, não teve muito a ver com a gestão do PSDB, mas com as circunstâncias internacionais. Simplesmente, deu azar. o mundo não estava legal (risos). E o mundo agora está legal.

O sr. não vê sinais de mudanças no espectro partidário brasileiro?

Não. Você pode dizer isso: o PT, na oposição, tinha mais consistência no seu voto, soube se comportar e capitalizar como oposição. O PSDB demorou para aprender, e não sei se já sabe. Mas enfrentou um momento mais difícil para ser oposição. O PT lá atrás podia dizer que "faria tudo diferente". Hoje, Serra fala em "fazer melhor". Não tem como evitar. Daí surge esse temor diante da possibilidade de duas derrotas seguidas. Mas os tucanos sempre dependeram mais desse fator coordenação que, por exemplo, de uma base social.

Essa semana circularam notícias de que o PT pretende facilitar a 'transição' para seus quadros de políticos que estão em desconforto na oposição. É um tipo de cooptação?

O que aconteceu quando o PT chegou ao poder? Ele não cooptou para dentro do partido, não inchou por migração partidária. O PSDB sim, atraiu quadros e costuma fazê-lo nas prefeituras de outros partidos em cidades do interior.

Mas no primeiro mandato de Lula, os partidos nanicos da base aliada incharam.

Sim. O que o PT faz é ceder lugar. Mas não atrai quadros, não é um partido-ônibus ou um partido-constelação. Pelo contrário, perdeu quadros descontentes para o PSOL - que não teve sucesso, não conseguiu eleger um vereador sequer na cidade de São Paulo. E perdeu todo um primeiro escalão colhido pelos escândalos, incluindo potenciais candidatos à Presidência: Dirceu, Palocci, Gushiken, Genoino. O que o PT fez para manter a coalizão unida para esta eleição presidencial é notável. Teve estratégia de partido unido. Chegar em Minas Gerais e decidir entregar a candidatura ao PMDB, em uma eleição que Patrus Ananias e Fernando Pimentel tinham chance de ganhar, não é pouca coisa. Lula e o PT privilegiaram a sucessão presidencial. Deu certo.

O sociólogo Chico de Oliveira disse certa vez que Lula é 'uma árvore frondosa em torno da qual não nasce grama'. Essa presença de um presidente glorificado em uma popularidade de 79% inibe o surgimento de novas lideranças no País?

Peço vênia para discordar do Chico nesse ponto. Cresceu a Dilma, o que não é pouco. Quando, no fim do mensalão, no meio daquela crise toda, Lula antecipou o seu nome, muita gente achou que era precipitação, que ele havia escolhido mal ou que Dilma seria um balão de ensaio a ser queimado depois. Mas o plano deu certo porque o verdadeiro jogo era manter o PT e a coligação unidos e chegar fortes à eleição. Foi uma estratégia de partido, que não se deve exclusivamente a Lula.

E a estratégia do PSDB? Tem se falado de erros na escolha do vice de Serra e até seu caráter supostamente 'desagregador'. É uma crítica pertinente?

Ao contrário. Eu compararia isso àqueles comentários de campeonato de futebol, quando quem está vencendo invariavelmente fez "bom trabalho de base" e quem está atrás "não soube planejar". Se você comparar o Serra de 2002 com o de 2010 vai ver que ele deu um show desta vez. Fechou tudo, compôs com o DEM na Prefeitura de São Paulo, reincorporou Alckmin ao governo. Se tivesse conseguido Aécio para vice seria melhor, mas isso se mostrou impossível. Acontece que o cenário, agora, é muito favorável ao governo. Em contrapartida, a estratégia do PT tem seu lado arriscado. Ao jogar exclusivamente na Presidência e abandonar competições estaduais, pode comprometer sua base. O que se refletirá na composição da futura Câmara. É fato que o PT tem tentado compensar dizendo "cedo os Estados mas não abro mão do Senado". Mas, se Dilma ganhar, há risco de o PMDB sair excessivamente fortalecido, o que aumentaria seu peso na coalizão.

A tal 'partilha do pão' de Michel Temer.

A visão que as pessoas têm de um governo de coalizão é de que o partido no poder dá um pedaço do governo para ser consumido pelo aliado. Como se ele recebesse um sorvete para se lambuzar. Não é bem assim. Quando se "ganha" um ministério é preciso desempenhar. Ou não se sustenta. E, no sistema representativo, partido que tem voto tem direito a uma parte do Estado.

Em um artigo no ‘Estado’, o cientista político Bolívar Lamounier alertou para o risco de 'mexicanização' do Brasil caso o PT vença - e se transforme em uma espécie de PRI, que se eternizou no poder no México. Concorda?

É um cenário muito pouco provável. Ainda que o PSDB perca o Planalto, irá controlar Estados importantes, terá recursos e votação nacional superior a 20%. A competição partidária não desaparecerá.

Octavio Paz diz que, no México, o PRI construiu uma fachada democrática para um controle político de um único partido.

É diferente. No México houve uma revolução lá atrás, fraudes eleitorais... E o PRI é fenômeno singular na história latino-americana. Também vale lembrar que, no Brasil, o PT não está sozinho, mas associado ao PMDB, o PP, o PSB. Não é um cenário próximo do que foi o mexicano. Aqui, o PT foi bem-sucedido na Presidência e está sendo retribuído por isso. Nada mais normal no funcionamento da democracia. Veja que já se falou em "mexicanização" do Brasil antes: após as eleições de 1986, quando o PMDB saiu vitorioso e houve quem também o comparasse ao PRI.

O sr. acaba de dar um curso em Yale sobre política comparada na América Latina. A tendência à continuidade no poder em países como a Argentina, a Venezuela e a Colômbia, é um risco para a democracia?

Há um temor exagerado na América Latina com relação ao problema da reeleição e do limite de mandatos. Ele é fruto de uma visão um pouco estereotipada da história política do continente, que enfatiza o caudilhismo do passado. E, aí, perde-se o aspecto comparativo com outras democracias. Há regimes parlamentaristas em que o primeiro-ministro permanece mais de 20 anos no poder. Na maior parte deles, além de não haver limite de permanência, o primeiro-ministro tem liberdade para definir quando será a eleição, antecipando-a para momentos oportunos. Evitar reeleições também tem custo: impede que líderes testados e competentes sejam reeleitos. É evidente que, em qualquer país, o exercício do poder pode ser usado para promover uma desigualdade na competição. Mas isso não necessariamente está ligado à pessoa do governante. Às vezes, forjar uma nova liderança, formar um "poste" do zero, pode ter um custo ainda mais alto para a sociedade. E aí estou pegando carona em um artigo do José Antonio Cheibub, estudioso do presidencialismo, que saiu na Texas Law Review.

A alternância de poder não é um bem em si, com partidos e grupos políticos testando agendas diferentes para um país?

Ela é positiva. O que quero dizer é o seguinte: quem está no governo tem vantagem, mas o fato de um presidente não poder se candidatar não a diminui significativamente. O fundamental é minimizar as vantagens de quem está no poder.

Como se faz isso? Há alguns dias, Lula prometeu articular, fora do Planalto, a reforma política que não fez em oito anos de governo. Que tipo de reforma o Brasil precisa?

Tenho me colocado contra as propostas de reforma política. Em geral, elas são mal fundamentadas do ponto de vista empírico e teórico, baseiam-se em informações incompletas sobre a realidade e são tiros no escuro sobre os efeitos que causariam. O que se tentou até agora, como a verticalização e a cláusula de barreira, deu errado. O maior risco que vejo após a eleição deste ano é PT e PSDB se unirem em torno de uma reforma política. Eles têm todo o interesse em fechar o sistema eleitoral, em uma espécie de bipartidarismo. Claro que o PMDB deve resistir a isso. Mas temo menos um PRI à brasileira do que esse tipo de aliança por cima: a oligopolização do sistema partidário por dois partidos que originalmente competem entre si. Elevar o custo de entrada no sistema político, por exemplo - como faz o modelo distrital ao tornar mais difícil para um político obter a primeira cadeira -, dificulta a oxigenação e a renovação do sistema partidário. Foi o que aconteceu na velha Venezuela, e acabou dando no Chávez.

E a questão do financiamento das campanhas, que gerou escândalos que respingaram em quase todos os partidos brasileiros?

Mexer no financiamento de campanhas é ainda mais perigoso. Se optar-se pelo financiamento estatal, ele será distribuído conforme o voto na eleição anterior. O que irá fechar o sistema integralmente. A parte mais cara das campanhas hoje é o espaço na TV, que já é público. E se alguma coisa o mensalão nos ensinou foi que o problema está no conluio entre agências de propaganda e gastos futuros do governo. Para isso, seria uma boa estabelecer um órgão que controle quem ganha as contas do governo e das estatais. Da mesma forma que há uma comissão regulatória na bolsa de valores. E tirar do sistema político a decisão sobre quem ganha a conta do Banco do Brasil, da Petrobrás, etc. Eu também restringiria o número de nomeações para cargos de confiança, que cria uma pressão desnecessária sobre o governante, passa uma imagem negativa e politiza a gestão. De resto, é dar tempo ao tempo. O Brasil viveu algo que nenhum país do mundo viveu: a transição do bipartidarismo para o multipartidarismo sob democracia. E com o mercado eleitoral funcionando. Ganham-se e perdem-se Copas, mas estamos jogando o jogo.


Será o fim da oposição?

DEU NO ESTADO DE MINAS

Cientistas políticos ouvidos pelo Estado de Minas divergem sobre o risco de mexicanização do país diante do atual processo eleitoral, caso se concretize a vitória de Dilma Rousseff

Bertha Maakaroun

O cientista político Bolívar Lamounier admite: é pequena a probabilidade de José Serra (PSDB) inverter a linha de crescimento de Dilma Rousseff (PT), mudando o curso das eleições. Diante da derrota nacional iminente do PSDB e, ao mesmo tempo, a conquista, na maior parte dos estados, de governos da base aliada de Lula, Lamounier, que tem grande proximidade política e ideológica com o PSDB do sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, declara haver um risco de mexicanização do país, no processo eleitoral em andamento. Lamounier se explica: Isso não significaria a eliminação total da competição política e eleitoral, mas uma absorção dela: para dentro da aliança PT-PMDB e para dentro da máquina pública.

Para o sociólogo, um eventual governo Dilma, com ampla maioria na Câmara dos Deputados e no Senado, terá um controle quase total do processo político e das instituições. Lamounier prega em conferências e em artigos o risco do que chama liquidação da oposição nos estados. Lula e o PT nunca tiveram um traço sequer de visão federativa. A pedra no sapato de Lula é evidentemente o estado de São Paulo, por isso ele já avisou que não medirá esforços para impedir a vitória de Geraldo Alckmin. O cientista político acredita que, para a saúde da democracia, é preciso mais oposição. E uma oposição que, em sua avaliação, passa pelo PSDB.

A tese de Lamounier, entretanto, é contestada pelo cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Fábio Wanderley Reis, que recupera, historicamente, o que ocorreu no México. O quadro geral no Brasil é totalmente distinto de algo que emergiu de uma revolução armada no México, onde havia um grupo que tomou conta do Estado, fez um partido instrumental e o processo eleitoral foi acomodado dentro de um esquema partidário resultante da revolução, avalia. Reis lembra que as instituições estão em perfeito funcionamento no país, inclusive os partidos políticos e a Justiça Eleitoral.

Depois de classificar a hipótese da mexicanização uma bobagem, além de uma reação histérica, Fábio Wanderley assinala que todo partido político tem um projeto de poder e, nem por isso, a democracia fica ameaçada. O próprio PSDB, tinha um projeto de poder de 20 anos. Se o PSDB podia ter esse projeto, por que o PT não poderia?, indaga, lembrando que em, várias democracias estáveis, houve longa e continuada vitória do Partido Social Democrata, sem que por isso houvesse uma ditadura.

Para o professor, não há motivo para se presumir que o fato de haver hoje um governo bem-sucedido e com apoio popular, daqui a quatro anos, não sofra um refluxo, abrindo a possibilidade para vitórias da oposição. Ele vai além: considera que, para neutralizar a força do PMDB num eventual governo Dilma, seria natural a reaproximação entre o PT e o PSDB. Se é possível falar da composição PT e PSDB, é evidentemente imaginável uma situação em que o PSDB dispute e ganhe em nível estadual e daqui a pouco dispute com chance a Presidência da República, afirma.

Serra faz campanha ao lado de Alckmin

DEU EM O GLOBO

Tucano tenta recuperar votos perdidos em SP; no Paraná, ele critica o MST

Silvia Amorim* e Luciano Barros

RIBEIRÃO PRETO (SP) e CASCAVEL (PR). Para tentar recuperar os votos perdidos nas últimas semanas em São Paulo e levar a disputa para o segundo turno, o candidato do PSDB à Presidência, José Serra, manteve ontem, no interior paulista, a estratégia de colar a sua imagem à do candidato tucano a governador, Geraldo Alckmin. Serra tenta se beneficiar da alta popularidade do colega no estado. Em discurso para militantes, durante a inauguração de um comitê do PSDB em Ribeirão Preto, Serra pediu mobilização nas ruas para conseguir a virada em São Paulo: Vamos fazer no nosso estado mobilização, não só para a vitória, mas para ganhar de muito. Vamos ganhar essa eleição em São Paulo e no Brasil.

No Ibope, Dilma tem 42% em São Paulo e o tucano, 35%. Alckmin tem 47% para governador.

Serra se recusou a comentar o resultado do Ibope.

Sem citar nomes, o tucano sugeriu durante seu discurso que o presidente Lula está pondo em risco a situação financeira do governo federal para fazer o sucessor. Ele elogiou a conduta do PSDB no governo paulista: Ninguém está quebrando São Paulo para eleger sucessor.

Nosso futuro governador, Geraldo Alckmin, entregou o estado para mim arrumado.

Ele não quebrou São Paulo para fazer o sucessor.

À tarde, em Cascavel, no Paraná, Serra elogiou o agronegócio e criticou o Movimento dos Sem Terra (MST). Disse que os assentados recebem subvenções sociais para não trabalhar: No nosso governo, vamos fazer eles produzirem.

* Enviada especial

Falando como eleita, Dilma diz que vai 'estender a mão' a adversários

DEU EM O GLOBO

Candidata propõe diálogo após eleição e tenta evitar perguntas sobre Receita

Gustavo Paul

BRASÍLIA. Mesmo tentando não admitir o favoritismo, a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, disse ontem que, depois das eleições, estará à disposição para o diálogo com seus adversários. Ela disse que estenderá a mão para quem quiser ajudar a transformar o Brasil.

As pessoas que concorrem conosco devem ser respeitadas e depois da eleição a coisa muda de figura. A gente desarma o palanque e estende a mão para quem for pessoa de boa vontade e quiser partilhar desse processo de transformação do Brasil.

Questionada se já estaria estendendo as mãos para Serra e Marina, a petista se traiu e discursou como presidente eleita: Estendo a mão para quem quiser partilhar. Não sei se ele (Serra) quer. Você pergunta para ele. Se ele quiser, perfeitamente.

A abertura de diálogo, segundo ela, faz parte do conceito republicano, que, disse, é adotado pelo atual governo e ela promete exercer se eleita. Aproveitou para alfinetar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: Sou do Rio Grande do Sul e lembro que havia um atrito entre o presidente e o governador.

O presidente não ia lá e não dava dinheiro. Eu acho isso um absurdo: República velha é isso. A pessoa não precisa estender a mão para mim para receber dinheiro.

Pode ficar sem estender a mão, como oposição, numa boa, que vai ter dinheiro.

Com possibilidade de ganhar a eleição já em 3 de outubro, ela refutou a afirmação feita pela concorrente Marina Silva (PV) de que a democracia é fortalecida quando a escolha do presidente ocorre em dois turnos.

Se fosse assim por que teria primeiro e segundo turno? A gente não pode contar com a eleição antes do voto na urna.

Seria uma imensa pretensão da minha parte subir no salto alto e dizer que vou ganhar.

Sorridente, mas com voz rouca e demonstrando estar com dores no joelho depois da maratona de comícios nos últimos dias , Dilma tentou evitar o tema da quebra de sigilo fiscal na Receita Federal, que devassou as declarações de quatro integrantes do PSDB.

Não vejo nenhum fato novo para que eu tenha que refazer as entrevistas. A gente tem de apostar no fortalecimento das instituições. Então, maior controle da Receita, não deixar vazar, ter uma atitude de controle irrestrito sobre dados que são sigilos fiscais. Se tiver um esquema, acho que tem de ser punido de forma drástica.

O vice-presidente executivo do PSDB, Eduardo Jorge, voltou a chamar de burocrática a investigação do vazamento de seu sigilo fiscal. Para ele, o importante não é identificar apenas quem é responsável, mas quem utilizou as informações num dossiê com fins eleitorais.

Maciel, Jarbas e Raul rebatem o presidente

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Alvo de ataques no comício da Frente Popular, senador do DEM diz fazer política com P maiúsculo e adverte presidente que o juiz das eleições é o povo. Jarbas diz que Lula pensa que é semideus

Manoel Medeiros Neto

O senador e candidato à reeleição Marco Maciel (DEM) iniciou sua agenda de campanha, ontem, decidido a responder aos ataques do presidente Lula (PT), proferidos no comício realizado no Marco Zero na noite da última sexta-feira. Para ele, o juiz da eleição é o povo. Sempre relembrando o abolicionista Joaquim Nabuco, que fazia política com P maiúsculo, Maciel se apresentou à imprensa portando um pequeno pedaço de papel nas mãos com anotações sobre suas realizações durante os oito anos que ocupou a vice-presidência da República na gestão do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995/2002). Calmo, porém bem mais incisivo que o usual, Maciel alfinetou o presidente ao afirmar que alguns não conhecem o elenco de ações que ajudou a implementar no Estado.

Tanto Jarbas quanto eu fazemos política com P maiúsculo, ou seja, fazendo política em termos doutrinários, com consistência e trazendo obras, disse. Entre as ações elencadas pelo democrata, estão investimentos no porto de Suape, instalação de uma sede do Banco Central no Recife para atender todo o Nordeste, criação da Universidade do Vale do São Francisco (Univasf), ampliação do aeroporto do Recife e implantação do maior programa de erradicação do trabalho infantil do País. No comício, acompanhado por risos e aplausos do governador Eduardo Campos (PSB), da presidenciável Dilma Rousseff (PT) e do ex-ministro da Saúde Humberto Costa (PT), Lula debochou de Maciel ao afirmar que ele é senador desde o império e não se sabe o que fez.

Outros citados pelo presidente, Jarbas Vasconcelos (PMDB) e Raul Jungmann (PPS) também reagiram. Ele continua como uma figura extravagante, ferindo a lei. Lula nos atacar tá dentro de um roteiro pré-estabelecido que ele vai fazer até o dia da eleição, afirmou Jarbas, dizendo ainda que Lula pensa que é um semideus (ente imortal, em parte humano e em parte divino). Para Raul, que foi chamado de menorzinho, a fala de Lula demonstra discriminação e é lamentável. Isso aponta para o que vem aí. O presidente não admite críticas. Ele pode ter todos os índices, mas não é democrático, disse. Os três oposicionistas responderam ao presidente após caminhada no Mercado de Casa Amarela.


FHC é isolado por campanha tucana

DEU NO ESTADO DE MINAS

Ex-presidente diz não ser militante, mas está magoado por não ter feitos do seu governo lembrados por Serra

Daniela Almeida

São Paulo. Responsável por levar o PSDB à Presidência da República e uma das figuras mais importantes do partido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso passa longe da campanha tucana ao Planalto. Enquanto até mesmo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareceu no programa eleitoral de José Serra, a imagem de FHC restringiu-se aos programas de candidatos a governos estaduais e ao Senado. E, mesmo em aparições públicas de Serra, em debates ou comícios, FHC não está presente.

A blindagem, segundo tucanos envolvidos na estratégia da campanha, teria sido motivada pelos resultados das pesquisas indicando a alta aprovação de Lula pela população (79%, segundo o último levantamento Datafolha), o que poderia significar uma certa rejeição a FHC. A percepção que ficou para a sociedade é a do nosso segundo governo, que enfrentou uma série de crises, e não do primeiro, que foi de grandes acertos, avalia um tucano que prefere não se identificar.

Para interlocutores próximos, o ex-presidente além de demonstrar preocupação com um quadro eleitoral que parece estar decidido muito cedo tem confidenciado estar magoado por não observar os feitos de seus oito anos de mandato na campanha. Ele gostaria de ver as teses do governo dele sendo defendidas, diz outro integrante do PSDB.

A estratégia do partido, segundo especialistas, é tiro no pé. O isolamento de FHC pode significar uma perda política para o PSDB e para Serra, já que ambos correm o risco de sair enfraquecidos. Lula perdeu várias eleições, mas nunca perdeu politicamente. Isso porque ele sempre firmou posição. Em política, você tem que deixar claro quem é você e qual a sua historia. O partido deveria reconhecer que o governo FHC, embora não seja um sucesso de público, foi um sucesso de crítica, diz o cientista político e professor Carlos Melo.

O cientista político da USP Rubens Figueiredo aponta uma lista de conquistas do PSDB quando o partido ocupou a Presidência, entre elas o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal, que poderiam ser usadas pela campanha de Serra. A mudança frequente de postura e a tentativa de colar a imagem de Serra à de Lula, na avaliação de Rubens, tende a confundir a cabeça do eleitor. O PSDB de dia critica o Lula, à noite o afaga e não defende aquilo que fez. É como uma biruta de aeroporto, que ninguém entende para onde vai.

Sob os holofotes, no entanto, o ex-presidente minimiza sua ausência ao lado do candidato tucano. Esta semana, durante um evento no instituto que leva seu nome, em São Paulo, ao ser questionado se não estaria distante da campanha à Presidência, FHC respondeu com uma crítica ao adversário Lula. Apareço da maneira como acho que um ex-presidente deve aparecer, dando ideias, discutindo, mas não sou militante. Acho que é uma certa incompatibilidade de posturas Cada um defende a sua. Tem uns que defendem como o presidente Lula. Ele é um militante. Esqueceu que é presidente de todos nós para ser (presidente) de uma facção.

O senador e presidente do partido, Sérgio Guerra (PE), afirma que a falta de FHC no programa foi uma decisão do comando da campanha. Segundo ele, a atuação de FHC se dá nos bastidores. Nenhuma decisão importante do partido acontece sem ele. Ele é o que mais colabora com o partido.

Dirceu tenta barrar Palocci em eventual governo Dilma

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ex-ministro quer evitar que seu rival tenha poder de um premiê, com controle da Casa Civil ou da Fazenda.

A 35 dias da eleição, o ex-ministro José Dirceu quer reduzir o poder de Antonio Palocci num eventual governo de Dilma Rousseff (PT), relatam os repórteres Wilson Tosta e Vera Rosa. Após emitir sinais contrários à possível indicação de Palocci para a Casa Civil, Dirceu luta agora para impedir que ele volte a ditar a economia. Se Palocci for para a Casa Civil, o grupo de Dirceu que quer empurrar o deputado para a Saúde espera compensação. Sob o argumento de que um governo Dilma não pode ter a cara do ajuste fiscal de Palocci, aliados do ex-chefe da Casa Civil defendem que Guido Mantega fique na Fazenda em dobradinha com alguém de esquerda no Planejamento.

Dirceu tenta barrar avanço de Palocci

Após combater possível ida do rival para coordenar futuro governo, ex-chefe da Casa Civil quer impedir que ele retorne à economia

Wilson Tosta e Vera Rosa

RIO e BRASÍLIA - A 35 dias da eleição de 3 de outubro e confiantes na vitória de Dilma Rousseff (PT) no primeiro turno, os ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci disputam os rumos de eventual novo governo comandado pelo partido. Depois de emitir sinais contrários à possível indicação de Palocci para a Casa Civil, Dirceu luta agora para impedir que ele volte a ditar os caminhos da economia, a partir de 2011.

Os dois "generais" do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reeditam a queda de braço que travaram no primeiro mandato do PT para definir a fisionomia do governo. Abatido pelo escândalo do mensalão, em 2005, e cassado pela Câmara, Dirceu vislumbra perda de influência se Palocci - ex-ministro da Fazenda - assumir a Casa Civil sob Dilma.

A preocupação não é à toa: cabe ao ministro da Casa Civil coordenar a equipe, o que lhe dá muito poder e pode torná-lo candidato natural ao Planalto. Foi o que ocorreu com a própria Dilma, puxada para o cargo após a queda de Dirceu. Nove meses depois, em março de 2006, Palocci também caiu, no rastro da quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa.

Embora se movimente nos bastidores para evitar que o antigo colega vire uma espécie de "primeiro-ministro" de Dilma, Dirceu sabe que pode perder a aposta. Motivo: Palocci é um dos principais coordenadores da campanha e, além de tudo, tem Lula como padrinho. O plano do presidente é reabilitar o ex-titular da Fazenda na cena política.

Se Palocci for para a Casa Civil, o grupo de Dirceu - que quer empurrar o deputado para o Ministério da Saúde - espera uma "compensação". Sob o argumento de que "o governo Dilma não pode ter a cara do ajuste fiscal de Palocci", aliados do ex-chefe da Casa Civil defendem, agora, a permanência de Guido Mantega (PT) na Fazenda em dobradinha com "alguém de esquerda" no Planejamento.

Apesar das críticas ao "conservadorismo" do Banco Central, Dirceu não deverá se opor à manutenção de Henrique Meirelles, na cota do PMDB, desde que Palocci fique distante da seara econômica e Mantega não saia da Fazenda. Meirelles, porém, não pretende continuar no BC.

Mesmo com rachas internos, a corrente do PT Construindo um Novo Brasil (CNB) - integrada por Lula, Dirceu e pelo presidente do partido, José Eduardo Dutra - emplacará as principais indicações do petismo no eventual governo Dilma.

Nem todos da CNB, no entanto, falam a mesma língua. Palocci, por exemplo, também é da CNB, antigo Campo Majoritário, mas atua de forma independente e quase não tem ligação com a cúpula partidária.

Dirceu, ao contrário, procura frequentar todas as reuniões da corrente e do Diretório Nacional. Ex-presidente do PT, mantém um canal de comunicação com os militantes por meio de seu blog e tem papel discreto na campanha.

Queimada

O fogo amigo contra Palocci ganhou força há uma semana, depois de notícias dando conta que Dilma recorreria à tesourada nos gastos logo no início de eventual governo.

"Podemos assumir o compromisso de uma meta de inflação mais ambiciosa, sem um maior custo de política monetária. As condições estão dadas para, gradualmente, baixar a meta de inflação", disse Palocci, em entrevista publicada pelo Estado, na segunda-feira, no segundo caderno da série Desafios do Novo Presidente. "É um compromisso fiscal muito forte, porque Dilma vai se comprometer com nível de endividamento, além da meta de superávit."

Dilma já havia indicado, em maio, o desejo de reduzir a meta de inflação. Fez o comentário durante encontro com investidores promovido pela BM&F-Bovespa, em Nova York. Detalhe: Palocci estava com ela na viagem. Depois que o ex-titular da Fazenda passou a mexer no vespeiro da economia, porém, o grupo de Dirceu intensificou o bombardeio longe dos holofotes.

"O que esse cara quer? Uma nova Carta aos Brasileiros?", perguntou um interlocutor do ex-ministro da Casa Civil, numa referência ao documento divulgado por Lula, na campanha presidencial de 2002, para acalmar o mercado financeiro.

Em conversas reservadas, Dirceu tem dito que vai brigar pela "embocadura" de um possível governo Dilma. Nunca esteve nos planos de sua sucessora na Casa Civil - e nem dele próprio - qualquer tarefa oficial antes do veredicto do Supremo Tribunal Federal no caso do mensalão.

Dilma e Dirceu, de toda forma, se dão bem. Além de deixar com ela o labrador Nego, que apareceu no primeiro programa de TV, o ex-ministro sempre entra em cena quando é preciso desarmar crises, principalmente entre aliados nos Estados.

Quando é perguntado sobre Dirceu, Palocci abre um sorriso. "Mesmo no governo, ele nunca fez todas as maldades que vocês diziam, mas levava a fama", diz.