O Estado de S. Paulo
Guerra de Trump contra o Irã espalha caos pelo Oriente Médio, mas acordo não estabiliza região
Para o governo iraniano, o preço do barril
virou instrumento eleitoral. Com a guerra entre Teerã e Washington longe de um
desfecho e o Estreito de Ormuz em grande parte fechado, o regime e seus aliados
perseguem um objetivo: manter o petróleo o mais caro possível até as eleições
de meio de mandato nos Estados Unidos, em 3 de novembro, para enfraquecer
Trump. Assim, maior a chance de os republicanos perderem a maioria na Câmara
dos Deputados e no Senado.
Essa pressão ganhou um novo instrumento no início de setembro, quando os houthis, grupo rebelde aliado ao Irã, avançaram pela costa oeste do Iêmen, tomaram o porto de Mocha e ocuparam ilhas do Bab al-Mandeb, o estreito que controla o acesso ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez. Até o início do conflito, passavam por Ormuz mais de um quarto de todo o petróleo transportado por mar, um quinto do gás natural liquefeito do planeta e de aproximadamente 20% do comércio global de ureia, fertilizante de que o Brasil é um dos maiores compradores.
Com essa rota bloqueada, o Bab al-Mandeb
tornou-se a saída alternativa do petróleo saudita, escoado por um duto que
cruza o país até o Mar Vermelho. Nos mesmos dias, drones que Riad atribuiu a
milícias iraquianas alinhadas ao Irã atingiram esse duto, que transporta até 7
milhões de barris por dia. O Mar Vermelho concentra 30% do tráfego mundial de
contêineres e cerca de um sétimo do comércio marítimo. Tudo isso tem profundas
consequências para a economia global, o preço da energia, a inflação e as taxas
de aprovação de governantes, inclusive no Brasil.
A decisão de Trump de recusar o pedido do
príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, de retaliações dos EUA contra
os houthis foi interpretada em Washington como sinal dos limites da capacidade
militar, observa Gideon Rachman no Financial Times. O país gastou parte
importante de seu arsenal contra o Irã: o estoque de interceptadores Patriot
caiu cerca de 65%.
Mas também é um reconhecimento de que, como
nas guerras no Afeganistão e no Iraque, a força bruta não derrota um movimento enraizado
localmente, que já sobreviveu a ofensivas israelenses, estadunidenses,
emiradenses e sauditas. Some-se a isso a Arábia Saudita ter usado, pela
primeira vez, um míssil balístico chinês contra os houthis, sinal de que Riad
não considera suficiente a proteção de Washington: o caos no Iêmen reflete a
erosão da influência dos EUA.
Seria um erro, porém, tratar os houthis como simples braço de Teerã. O atual capítulo da guerra civil no país começou em julho, observa Marc Lynch, professor da Universidade George Washington, na revista Foreign Policy, quando caças sauditas bombardearam o aeroporto da capital, Sanaa, para barrar um avião iraniano transportando armas. Do lado oposto está o que a Economist descreve como um mosaico pouco coordenado de milícias tribais, separatistas do sul e fundamentalistas religiosos, parte alinhada a Riad, parte a Abu Dhabi.
A rivalidade entre a Arábia Saudita e os
Emirados Árabes hoje é um motor autônomo da instabilidade regional. Lynch
lembra que Riad enxergou na campanha emiradense de apoio a separatistas uma
tentativa de cerco, agravada após Israel reconhecer a Somalilândia, território
separatista do outro lado do estreito.
Do Magreb ao Chifre da África, os Emirados
operam portos, mantêm bases militares e financiam milícias aliadas. Em 2022,
segundo o European Council on Foreign Relations, os Emirados foram a maior
fonte de capital a entrar na África, com US$ 50 bilhões, quase o dobro da
França e sete vezes o volume dos EUA, o que faz de Abu Dhabi peça central em
conflitos africanos distantes do Golfo. O avanço houthi reflete também, aponta
Lynch, o risco de a guerra atravessar o estreito: tropas israelenses,
emiradenses ou dos EUA na Somalilândia serviriam de base para ataques ao Iêmen
e empurrariam os houthis para mais perto do al-Shabab, grupo terrorista somali
com o qual estreitam laços há anos.
A guerra de Trump contra o Irã espalhou o caos pelo Oriente Médio, e sobre conflitos anteriores, do Iêmen ao Sudão. Um acordo entre Washington e Teerã reduziria o risco imediato sobre Ormuz e sobre os preços da energia, mas não estabilizaria a região. As rivalidades que alimentam essas guerras também são internas.

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