Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Entrevista - Luiz Werneck Vianna: “É uma refundação da República”
O cientista social diz que as instituições democráticas saíram vitoriosas no
julgamento do mensalão e que agora é preciso fortalecê-las com uma reforma
política
Guilherme Evelin
O CARIOCA LUIZ WERNECK VIANNA, DE 74 ANOS, É UM DOS PRINCIPAIS CIENTISTAS
SOCIAIS DO Brasil. Muitos de seus livros, como Liberalismo e sindicato no
Brasil, escrito na década de 1970, são considerados referência na área. Por 30
anos, foi professor do extinto Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de
Janeiro (luperj). Atualmente, é pesquisador na Pontifícia Universidade Católica
(PUC) do Rio de Janeiro, onde coordena o Centro de Estudos Direito e Sociedade
e se dedica a questões como a influência do Judiciário na politiza À carreira
acadêmica, Werneck somou a militância política no antigo Partido Comunista
Brasileiro. Durante o regime militar, foi preso, torturado e viveu no exílio.
Um dos principais estudiosos no Brasil das ideias do filósofo comunista italiano
Antonio Gramsci, considera-se um "marxista sem partido". Nessa
condição, deu esta entrevista a ÉPOCA.
ÉPOCA - Como o senhor avalia o resultado do julgamento do mensalão pelo STF?
Quais serão as consequências para a vida política nacional?
Luiz Werneck Vianna - Estamos diante da mutação de uma República de fachada,
existente na retórica oficial, para uma República verdadeira. Para que essa
mudança se efetive, é preciso haver ainda mudanças institucionais por meio de
uma reforma política de envergadura. Fsse julgamento é um seminário aberto, com
a audiência de milhões, que demonstra à sociedade que as práticas que são
objeto da Ação Penal 470 são constitutivas do sistema político brasileiro.
ÉPOCA - Qual deveria ser essa reforma política?
Werneck - Ela terá de interferir no sistema eleitoral, na vida partidária,
criar um financiamento público de campanha. Outras mudanças necessárias são o
fim das coligações nas eleições proporcionais e a introdução de mecanismos que
protejam o sistema partidário dessa invasão de pequenas siglas não
representativas que ganham lugar no espaço público, que deveria ser reservado
a partidos com expressividade eleitoral. Qual tem sido a finalidade dessas
pequenas siglas? Elas funcionam inteiramente a margem dos cidadãos, ajudam a
compor maiorias governamentais e servem unicamente aos interesses de reprodução
eleitoral de seus dirigentes.
ÉPOCA - A adoção da cláusula de desempenho pode ser um mecanismo para
impedir essa proliferação de partidos?
Werneck - Depende Não deve haver interdição para que se organizem partidos
novos, porque nossa sociedade e plural, e essa pluralidade tem de ser
respeitada. Mas e preciso ter critério e mecanismos de filtro para que os
partidos novos alcancem as verbas do fundo partidário. Ter 30 partidos abre o
sistema político brasileiro à irracionalidade. Hoie, no Brasil, vivemos, em
política, sob o imperativo do pensamento do laissez-faire. Há uma ideia de
deixar tudo como se encontra, que o sistema se acertaria com o tempo por meio
de um processo vegetativo. Essa perspectiva panglossiana de uma depuração
natural não está acontecendo nem acontecerá. É preciso aprofundar a
regulamentação do sistema político para torná-lo mais representativo.
ÉPOCA- O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu que o julgamento é
um sinal da formação de uma cidadania no Brasil, algo de que o país sempre foi
carente. Dá para ser otimista assim?
Werneck- É precoce afirmar isso. Estamos diante de um novo começo, que pode
ser traduzido como uma refundação da República. Hoje, em política no Brasil,
vale tudo no sentido de reproduzir as legendas, vale tudo na conquista do voto.
O poder da administração intervém. O poder econômico intervém, às vezes um
mancomunado com o outro. Fala- se de caixa dois como se isso fosse parte da
normalidade. Caixa dois, disse a ministra Cármen Lúcia, é crime. É essa a
patologia em que vivemos. Vamos imaginar que mudaremos isso de baixo para cima,
apenas com o esforço e a vontade virtuosa dos cidadãos? Não! A vontade virtuosa
dos cidadãos é certamente muito importante, mas o decisivo é a organização da
vida republicana. Neste julgamento, assiste-se sim a uma reação das
instituições republicanas, como o Ministério Público. E não existe República
sem boas instituições.
ÉPOCA- Em artigo, o senhor afirmou que a sociedade assiste passivamente a
esse julgamento. É isso mesmo? Por que isso ocorre?
Werneck- A sociedade tem sido conduzida a isso. Nossa marca tem sido a
modernização sem o moderno. Vivemos vários surtos de modernização, mas sempre
resultantes de processos verticais, em que uma vontade, como que encarnando o
interesse de todos, desaba sobre a sociedade, abrindo os caminhos por onde ela
tem de ir. Você teve o ciclo de Vargas, o ciclo de Juscelino, o ciclo do regime
militar e agora o do Lula. É uma sociedade que vive sua modernização sob o
signo da prevalência do Estado, da tutela, da assistência. A sociedade não se
auto-organiza. Minha esperança é que esse julgamento seja um marco no sentido
de que o moderno finalmente encontre sua passagem.
ÉPOCA- Um ex-colega seu de luperj, o cientista político Wanderley Guilherme
dos Santos, defendeu a tese, reproduzida pelos petistas, de " que esse é
um julgamento de exceção. Como o senhor vê essa tese?
Werneck- Não concordo. Esse não é um julgamento de exceção. Ele está sendo
realizado no foro devido, com o respeito ao devido processo legal, de acordo
com as leis do país. Apuram- se delitos comuns praticados por políticos e
entidades políticas, capitulados no Código Penal, e não numa lei de exceção.
ÉPOCA- Os petistas também dizem que o Supremo só julgou dessa forma por
pressão da imprensa. Falam também em golpe das "elites conservadoras"
e fazem uma analogia com Getúlio Vargas.
Wemeck- Essa fórmula foi usada em 2005. Usá-la agora é a reiteração de um
argumento cediço. Além do mais, não há Getúlio algum nem UDN. A oposição
brasileira é melancólica. Houve uma mudança muito importante neste país na hora
da transição democrática, com a convocação de uma Assembleia Constituinte, o
processo de discussão e a Constituição que resultou dela. Essa Constituição tem
uma marca forte de orientação para a vida republicana. Foi ela que botou o
Ministério Público na posição de tribuno da República, em que ele aí está. Foi
ela que começou a institucionalizar mecanismos severos de controle do Poder
Executivo. Esse Judiciário é filho disso. A Cármen Lúcia, o Celso de Mello, o
Gilmar Mendes são todos cultores da Carta de 1988, republicana até a medula, e
se acham guardiães dela. Postos na posição de ministros do Supremo, eles se
acharam na obrigação de defender uma República que foi objeto de atentados. O
sumo é isso. É uma questão de valores. A sociedade brasileira foi para essa
direção? Ainda não! Poderá ir? Espero que sim. Está indo, vagarosamente, mas
está indo, sinalizada pela Carta e por essas novas instituições. Trata-se de um
projeto de sociedade formulado lá atrás, depois de uma luta gigantesca do nosso
povo contra o regime militar e em favor da convocação de uma Assembleia
Nacional Constituinte. É preciso pôr as questões nesse diapasão, e não no
mesquinho filtro eleitoral.
ÉPOCA- O senhor é um homem de posições de esquerda. Como vê esse discurso de
ex-companheiros?
Werneck - É muito difícil para quem tem identidade partidária forte admitir
os erros de seu próprio partido. A esquerda tem larga tradição em situações
desse tipo. A esquerda levou décadas e décadas sem querer reconhecer as
perversões do stalinismo. Mas vida que segue. Erro é erro. E, nesse caso, é
erro capitulado no Código Penal. Acho admissível que as pessoas queiram defender
suas identidades e suas legendas. O que não podem fazer com as baionetas, como
dizia Napoleão, é sentar em cima delas.
ÉPOCA- O senhor se preocupa com a judicialização da política...
Werneck - A judicialização da política ocorre quando o Judiciário chama a si
políticas públicas, intervém em questões substantivas, pensando nas
consequências. Esse julgamento nada tem a ver com judicialização. É um processo
criminal, em que as questões examinadas são afetas ao Direito Penal.
ÉPOCA- Mas o julgamento, da forma como está ocorrendo, sob os holofotes das
TVs, não contribui para acentuar essa judicialização da politica, transformando
cada vez mais os juizes em protagonistas da cena pública?
Werneck - Não há uma demanda generalizada por transparência? Se o julgamento
fosse realizado a portas fechadas, não se estaria reclamando disso? Além disso,
há casos que comovem a opinião pública. Nos Estados Unidos, o julgamento do
jogador de futebol americano O.J. Simpson também dominou a opinião pública
durante um tempão.
ÉPOCA - Quais serão as consequências desse julgamento para o PT e para o
ex-presidente Lula?
Werneck- O PT continuará como um partido forte, provavelmente hegemônico.
Imagino que ele será palco agora de um processo forte de discussões internas.
Não é verdade que o PT seja um partido monolítico. Nenhum partido moderno pode
ser dirigido por uma liderança que seja entendida como dotada de poderes
mágicos e celestiais, como a Marta Suplicy fez com o Lula, chamando-o de Deus.
Um partido democrático não convive bem com isso. Há novas lideranças emergindo
no PT que não têm nada a ver com isso.
ÉPOCA- Esse julgamento é uma nódoa que ficará na biografia do Lula?
Werneck - Essas coisas não são assim. O Getúlio mais que flertou com os
nazistas. Depois, passou-se uma água e sabão nisso, e essa marca sumiu. Foi
eleito presidente da República em 1950, com o apoio da esmagadora maioria da
população.
ÉPOCA - O senhor disse que o julgamento poderá significar a plenitude da
investidura de Dilma Rousseff no cargo de presidente, sua independência em
relação a Lula.
Werneck - Essa será a questão de fundo nos próximos meses. Terminada a
sucessão municipal, está aberta a sucessão presidencial. Qual será o candidato
da situação? Dilma ou Lula? Não diria que essa questão esteja fechada. Para um
grupo petista, especialmente o paulista, a volta de Lula é um elemento
fundamental para sua sobrevivência. Essa facção, que é muito poderosa,
pressionará para que Lula seja o candidato a presidente da República. Se a
Dilma quiser ser candidata à reeleição, terá de se colocar. Não se trata de ser
infiel ou romper, mas de definir sua liderança, inclusive em termos
partidários. Ela tem de ser forte no partido, e ela não é. Ela tem de ser
consagrada pelo PT. A não ser que o Lula, mais uma vez, abdique da candidatura
e peça ao PT que sufrague publicamente o nome dela. Agora, quem, hoje, em sã
consciência, sem ter informações de intimidade, pode dizer que Lula não será
candidato a presidente da República?
Fonte: Revista Época
PT leva São Paulo e teme avanço do PSB
O fim do segundo turno
das eleições municipais confirmou a força do ex-presidente Lula, que
transformou o inexperiente candidato Fernando Haddad em prefeito de São Paulo.
A conquista do maior colégio eleitoral do país é importantíssima, impõe uma
dura derrota a José Serra e ao PSDB, mas não esgota as preocupações do PT.
Apesar de ser campeão de votos, o partido terá que levar em conta o ameaçador
crescimento do PSB, que sai vitorioso em cinco capitais e pode abandonar a base
do governo para virar protagonista em 2014. Além disso, o fraco desempenho no
Nordeste deixa o PT mais dependente dos partidos aliados para retomar a
dianteira na região, que sempre foi um reduto eleitoral de Lula.
PT ganha São Paulo,
mas perde Nordeste
Vitória de Haddad na maior cidade do país mostra a força de Lula. Petistas,
no entanto, sofrem derrotas em redutos tradicionais do ex-presidente. PSB, de
Eduardo Campos, passa a ser a maior preocupação do Planalto
Paulo de Tarso Lyra, Leandro Kleber
O PT conseguiu seu maior objetivo eleitoral ao conquistar a prefeitura de
São Paulo e cidades importantes do estado, mesmo com a reta final do julgamento
do mensalão e a condenação de caciques como José Dirceu. Mas viu o Nordeste
escorrer por entre os dedos. A partir de janeiro de 2013, o petista Fernando
Haddad vai administrar a maior cidade do país, impondo uma derrota histórica ao
PSDB de José Serra e Geraldo Alckmin, que vê ameaçada sua reeleição ao governo
estadual daqui a dois anos. Em compensação, no Nordeste, região que sempre
marchou ao lado do partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que
começa a vislumbrar o crescimento do PSB de Eduardo Campos, o PT está fora do governo
das três maiores cidades: Salvador, Recife e Fortaleza. Pior: a capital
pernambucana estava nas mãos do PT havia 12 anos, e Fortaleza, oito. A única
metrópole nordestina conquistada por um petista foi João Pessoa, de eleitorado
inexpressivo.
Personagem central nessa história, Lula fez questão de viajar por todos
esses locais. À exceção do Recife, onde ele jamais colocou os pés, antevendo a
derrota fragorosa do senador Humberto Costa, o ex-presidente esteve em
Fortaleza, Salvador e fez um giro pela maior parte das cidades de São Paulo. Se
foi preponderante na vitória de Haddad, candidato que "tirou da
cartola" antevendo a necessidade de renovação no cenário político
paulistano, o ex-presidente amargou uma derrota para o carlismo em Salvador e
para o PSB de Eduardo Campos no Recife e Fortaleza (dos irmãos Cid e Ciro
Gomes).
No meio do primeiro turno, a avaliação do Palácio do Planalto era de que,
como os resultados eleitorais apontavam uma repartição de votos praticamente
equânime, quem vencesse São Paulo seria o grande ganhador da eleição municipal.
Haddad derrotou Serra por 55,57% dos votos válidos contra 44,43% do tucano. O
partido também obteve outra meta: cercar os tucanos em um chamado cinturão
vermelho pelo estado. O PT venceu em Guarulhos (Sebastião Almeida); Santo André
(Carlos Grana); e Mauá (Donisete Braga).
No primeiro turno, o partido já havia conquistado as prefeituras de São
Bernardo do Campo (Luiz Marinho); Osasco (Jorge Lapas); São José dos Campos (Carlinhos
Almeida); e Carapicuíba (Sérgio Ribeiro). Ao retomar, principalmente, a
prefeitura paulistana após oito anos fora do comando da maior cidade
brasileira, os petistas retomam o projeto de um feito até então inédito:
governar São Paulo, estado que está desde 1994 nas mãos do PSDB.
Pré-candidata preterida com o cancelamento das prévias em São Paulo, mas
presenteada com o Ministério da Cultura para integrar-se à campanha de Haddad,
Marta Suplicy afirmou ontem que estava de "alma lavada" com a derrota
de Serra. "Ficaram evidentes as armadilhas que fazia, a pessoa que ele é
(Serra). Tudo isso estava engasgado na garganta", completou Marta. Já
Haddad disse que seu primeiro objetivo é "separar o muro da vergonha que
divide áreas ricas e pobres". O prefeito eleito se reúne hoje em Brasília
com a presidente Dilma Rousseff.
Cenários. O PT vê uma antiga
hegemonia fortemente ameaçada. Eduardo Campos cresce seu poder de influência no
reduto lulista. O PSB já havia derrotado o PT com Geraldo Júlio, no primeiro
turno, no Recife. Desbancou os petistas em Fortaleza, com a vitória de Roberto
Cláudio — a exemplo de Recife, outro candidato "inventado", desta vez
pelo governador Cid Gomes — e estava na aliança vitoriosa de ACM Neto (DEM) em
Salvador.
O PSB foi o grande vitorioso do segundo turno. O partido ganhou seis das
sete prefeituras que disputou. Dessas, três são capitais: Fortaleza, Cuiabá e
Porto Velho. Nas duas primeiras, o adversário era o PT. Em ambas, Lula fez
questão de subir ao palanque para tentar diminuir o grau de influência de
Eduardo Campos. O placar terminou dois a zero para o governador pernambucano.
O PSB já tinha eleito dois prefeitos de capital no primeiro turno — Belo
Horizonte e Recife — e com os números finais do segundo turno, totalizou o
comando em cinco capitais. Um a mais que o PT, que venceu em quatro: Goiânia,
São Paulo, João Pessoa e Rio Branco. Aliados acreditam que Eduardo Campos deve
lançar seu nome já em 2014, para evitar uma concorrência em 2018 com um
possível Fernando Haddad, fortalecido com a vitória em São Paulo. Para
completar, Campos ainda derrotou o PT em Campinas, com a vitória de Jonas
Donizette contra Marcio Pochmann.
Fonte: Correio Braziliense
Partidos ficam sem hegemonia nas capitais
O resultado das
eleições municipais deste ano revela um quadro fragmentado, com 11 partidos
dividindo o poder em 26 capitais. Os petistas venceram no maior colégio
eleitoral do país e administrarão cidades onde vivem 37 milhões de pessoas.
Socialistas voltaram a ganhar em cidades importantes, como Fortaleza, enquanto
tucanos tiveram mudança no perfil de seu eleitorado, com vitórias concentradas
no Norte e no Nordeste. O PSOL venceu pela primeira vez numa capital: Macapá
Capitais nas mãos
de 11 partidos
PT conquistou 636 prefeituras; PSDB muda perfil do eleitorado saindo do
Centro-Sul
Isabel Braga, Evandro Éboli e André Souza
BRASÍLIA - As eleições municipais deste ano mostram a pulverização de
partidos na disputa das capitais e principais cidades brasileiras, com destaque
para três legendas: PT, que levou a prefeitura de São Paulo, maior colégio
eleitoral entre os municípios, e governará 636 prefeituras que somam 37 milhões
de habitantes, ultrapassando o PMDB neste quesito; o PSB, que se fortalece como
partido nacional, elegendo o maior número de prefeitos de capitais (cinco) e
442 no total; e o PSDB que fez 698 prefeitos, mas na eleição das capitais mudou
o perfil de seu eleitorado, saindo do Centro-Sul e conquistando espaços no
Norte e Nordeste do país. Onze partidos dividem o poder das 26 capitais a
partir de janeiro.
O PMDB, embora mantenha o comando no maior número de prefeituras - elegeu
este ano 1.023, com 31 milhões de habitantes - mantém sua característica de
partido dos chamados grotões, com resultado forte em municípios de menor porte.
Os peemedebistas elegeram, ainda no primeiro turno, apenas dois prefeitos de
capital: Rio de Janeiro (RJ) e de Boa Vista (RR). Neste segundo turno, perdeu
todas as disputas nas três capitais que concorreu e ontem ganhou em seis das 13
cidades com mais de 200 mil eleitores que disputou ontem.
O PT elegeu, nos dois turnos da eleição, quatro prefeitos de capitais -
Goiânia, João Pessoa, São Paulo e Rio Branco. O PSB ganhou em Recife, Belo
Horizonte, Cuiabá, Fortaleza e Porto Velho.
DEM escapa da extinção
O DEM consegue escapar da trajetória rumo à extinção com a conquista de duas
capitais no Nordeste, Salvador e Aracaju. Contra a força da máquina pública, os
partidos de oposição conquistaram ao todo oito das 26 capitais brasileiras.
Duas no primeiro turno - Maceió (PSDB) e Aracaju (DEM) - e, no segundo turno,
outras cinco: os tucanos venceram a disputa em Belém, Manaus e Teresina; o DEM
ganhou em Salvador e o PPS ficou com Vitória. E o pequeno PSOL conseguiu eleger
o prefeito de Macapá, no Amapá.
- É uma eleição que permite cada um cantar vitória da maneira que se avalia.
O PSDB, de maneira expressiva, cresce no Norte e Nordeste. O PSB conquistou o
maior número de vitórias nas capitais e não dá para dizer que o PT perdeu,
porque quem ganha São Paulo, não perde, além de ter conquistado alguns dos
maiores colégios eleitorais do estado - avaliou ontem à noite o professor
titular da Universidade Federal de Minas Gerais, Carlos Ranulfo. - Nesta
eleição, três partidos se destacam: PT, PSB e PSDB. O PMDB é o transatlântico
de sempre: continua com mais prefeituras, mas não tem rumo, bússola, direção. O
grande destaque do PMDB é no Rio.
O PDT elegeu ao todo 310 prefeitos, entre eles os das capitais Curitiba,
Porto Alegre e Natal. O novato PSD, comandado pelo prefeito de São Paulo,
Gilberto Kassab - que perdeu a eleição na sua cidade - surpreendeu. Ganhou
apenas uma prefeitura de capital, Florianópolis (SC), mas ao final dos dois
turnos elegeu 498 prefeitos.
O PP, partido da base governista em Brasília, elegeu o prefeito de Campo
Grande (MS), e o nanico PTC, com o apoio do presidente da Embratur e candidato
derrotado do PCdoB ao governo da Maranhão em 2010, Flávio Dino, venceu em São
Luís com Edivaldo Holanda Júnior, derrotando atual prefeito da cidade, o tucano
João Castelo.
PSB cresce e aparece
Comparando-se à população de prefeituras comandadas pelos partidos em 2008 e
agora, o PSB é, de novo, o que mais destaca, com um crescimento de 92%: na
última eleição, o partido ganhou prefeituras de cidades com um total de mais de
10,8 milhões de habitantes e agora, governará para 20,9 milhões.
O PMDB governa hoje para 41,4 milhões de habitantes e, com o resultado desta
eleição, irá comandar a partir de janeiro 30,6 milhões de brasileiros, uma
queda de 26%. O PSDB teve uma queda pequena neste ponto, saindo de 25,8 milhões
em 2008 para 25,2 milhões em 2012.
O cientista político Paulo Kramer, da Universidade de Brasília (UnB), avalia
que o resultado da eleição municipal de 2012 demonstrou um equilíbrio entre
forças políticas diversas e notícias boas para todas a legendas.
- Há tendências importantes a se destacar, como a busca do novo nesta
eleição, com destaque para o petista Fernando Haddad. O espaço que Eduardo
Campos, que não é cara nova no Nordeste, abriu no Sudeste terá reflexos em
2014. E não se pode fechar os olhos para o bom desempenho do PSD, que, na sua
primeira disputa, levou 498 prefeituras. O Kassab, mesmo deixando a Prefeitura
de São Paulo desgastado, se fortalece e se cacifa no jogo político - disse
Paulo Kramer.
PT também sofreu derrotas
O cientista político entende que o PT, apesar da vitória na capital
paulista, sofreu derrotas significativas, como no interior de São Paulo e em
outras capitais importantes, tanto no primeiro turno, em Belo Horizonte e
Recife, quanto no segundo turno, com Salvador e Fortaleza. Também são
computadas a Lula e também à presidente Dilma Rousseff derrotas de aliados que
eles abraçaram, com apoios fortes, como em Manaus.
- Em Manaus, vejo como uma derrota fragorosa do Lula. É um Estado onde Lula
sempre obteve votações estupendas, mas seu prestígio não foi suficiente para
derrotar o PSDB -disse Krammer, referindo-se à derrota da senadora Vanessa Grazziotin
(PCdoB). - Entendo que Lula nacionalizou demais algumas disputas nos estados e
pode ter se queimado com alguns aliados. O resultado disso vamos ver ao longo
dos próximos dois anos, se essa aliança está trincada ou não.
As eleições do segundo turno, ontem, ocorreram em 17 capitais e 33 cidades
do interior do país com mais de 200 mil eleitores - distribuídas em 19 estados.
Neste universo de segundo turno, o PT teve o pior resultado, numericamente,
já que disputou em 21 cidades, vencendo em apenas oito delas, quatro delas
capitais. O PSDB concorreu em 17 cidades e ganhou em 9 delas, sendo três
capitais. Esses dois partidos, que polarizaram a eleição deste ano, eram
adversários em seis das 50 cidades deste segundo turno, e no embate, o PT
venceu em quatro e o PSDB, em duas delas.
O PSB do governador Eduardo Campos venceu o embate com o PT no primeiro
turno, em capitais como Belo Horizonte e Recife, e também foi vitorioso no
segundo turno, derrotando o PT em Campinas, no interior de São Paulo. Como a
maioria dos políticos que evitam prognósticos para o futuro, alguns
especialistas também consideram que ainda é cedo para falar sobre a influência
das eleições municipais na disputa presidencial de 2014.
- O quadro para 2014 é nebuloso. Há equilíbrio entre os principais partidos.
O PSB, depois de crescer nas eleições de 2010, conquistando governos, também
cresce elegendo o maior número de prefeitos de capitais. Sairá candidato à
Presidência da República, em 2014 ou 2018 - diz Carlos Ranulfo.
Fonte: O Globo
Luciano Rezende (PPS) é eleito prefeito de Vitória
Candidato teve 52,73% dos votos válidos
O
candidato do PPS, Luciano Rezende, foi eleito prefeito de Vitória neste domingo
(28). Com 100% das urnas apuradas, ele teve 52,73% dos votos válidos (excluindo
brancos e nulos). Seu adversário, Luiz Paulo (PSDB), teve 47,27% dos votos
válidos.
Os votos
em branco somaram 2,53%; e os nulos, 4,01%. A cidade tem 255.367 eleitores, que
representam 9,73% do eleitorado do Estado. A abstenção registrada foi de
21,38%.
No
primeiro turno, Rezende já tinha saído na frente, com 73.757 votos, o
equivalente a 39,14%. Luiz Paulo recebeu 69.143 votos, o que corresponde a
36,69% dos votos válidos.
O médico
Luciano Rezende nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, tem 50 anos e foi para
Vitória na infância. Formado em medicina, Luciano se especializou em medicina
esportiva e atuou no Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e no Comitê Olímpico
Internacional (COI) no combate ao uso de drogas no esporte.
Foi
eleito como vereador em Vitória, de 1995 a 2008, por quatro mandatos
consecutivos. Entre as propostas de Luciano, estão garantir o ensino da cultura
afrobrasileira e das culturas indígenas na rede municipal de educação e ampliar
o efetivo da Guarda Municipal.
Fonte: Revista Época
Uma aposta para renovar o PT pós-mensalão
Planalto e partido investiram tudo na candidatura, que começou com 3%; Marta
ganhou pasta da Cultura
Gustavo Uribe, Marcelle Ribeiro
SÃO PAULO - Arrancando com minguados 3% de intenções de voto e com
dificuldades para se viabilizar como candidato competitivo, o prefeito eleito
de São Paulo, Fernando Haddad, não só virou a acirrada e simbólica disputa
eleitoral da capital paulista. Ele se cacifou ao posto de nova liderança
nacional do PT, sobretudo após o julgamento do mensalão ter solapado a imagem
de caciques da legenda, como o ex-ministro José Dirceu e o ex-deputado José
Genoino. Agora, o ex-ministro da Educação, que até 2012 sequer havia
participado de uma eleição, comanda o terceiro maior orçamento do país e se
tornou a referência no processo de renovação petista, estimulado pelo
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Quando a disputa municipal começou, o prefeito eleito tinha sérias dúvidas
se teria fôlego suficiente para virar o jogo a tempo de vencer as eleições. À
frente, um José Serra conhecido e confiante. E Russomanno, a surpresa do
primeiro turno. Quando o Instituto Datafolha divulgou a primeira sondagem sobre
o cenário eleitoral, ainda em dezembro de 2011, o então pré-candidato petista
ficou apreensivo. Teve que ser tranquilizado por Lula, o padrinho que apostou
todas as fichas em seu nome. Numa conversa pelo telefone, Lula lembrou a
trajetória de Dilma Rousseff, que começou com 8% de preferência do eleitorado e
acabou eleita presidente do Brasil. Ao chegar ao segundo turno, saltando dos
amargos 3% para 28% dos votos, Haddad já se dava ao luxo de brincar com a
situação.
- No dia em que saiu a primeira pesquisa, eu recebi um telefonema de um
companheiro do partido com o resultado. Não foi fácil receber aquela notícia.
Eu posso dizer que a primeira pesquisa do Datafolha a gente não esquece -
lembrou Haddad.
Excluída, Marta reconhece acerto de Lula
O projeto de lançar a sua candidatura foi esboçado pelo ex-presidente há
três anos. Ainda no Palácio do Planalto, em 2009, Lula sondou Haddad sobre a
possibilidade de concorrer ao cargo de governador de São Paulo. A proposta de
lançá-lo ao posto naufragou após ganhar força a hipótese de Ciro Gomes adotar
São Paulo como domicílio eleitoral. Em 2011, com a aproximação de uma nova
disputa polarizada contra os tucanos, Haddad, mais uma vez, viu-se cortejado
pelo líder máximo do PT. Agora era para valer.
Para viabilizar a candidatura de seu afilhado político, o ex-presidente
enfrentou segmentos importantes do PT paulista, em especial o grupo liderado
pela ex-prefeita Marta Suplicy. Para os petistas, a vitória na capital paulista
era o atalho para encerrar a hegemonia tucana no governo do estado nas eleições
de 2014. A sigla nunca chegou ao Palácio dos Bandeirantes, administrado pelo
PSDB há quase duas décadas. Ontem, Marta admitiu que Lula fez a escolha certa
para tirar o PT de uma situação "extremamente difícil".
- Ele acertou na estratégia. Foi extremamente arriscado, mas acho que o PT,
na circunstância e no momento que vive, foi correto. E estou muito feliz que
ele (Lula) tenha tido a coragem e arriscado tanto - afirmou Marta, que só
entrou com força na campanha depois que virou ministra da Cultura de Dilma.
Outro ministério, o da Pesca, foi dado pelo Planalto ao senador Marcelo
Crivella para garantir o apoio do PRB a Haddad ainda no primeiro turno, o que
não se concretizou.
Ao votar, o prefeito eleito realçou o discurso do novo contra a
continuidade, numa cidade onde a rejeição ao atual prefeito Gilberto Kassab
(PSD) teve papel destacado no resultado eleitoral. E aproveitou para dar a
dimensão nacional que os petistas tanto aguardavam com a vitória em São Paulo.
- São Paulo hoje é Brasil. Nós temos que levar em conta a importância e o
peso específico de São Paulo no desenvolvimento do nosso país.
Nos bastidores, Lula reconhece que os principais nomes do PT estão
desgastados e anota na caderneta expoentes que pretende lançar em 2014.
Diagnosticou o risco de perder espaço para PMDB e PSB, que têm renovado seus
quadros no Sudeste e no Nordeste. Não à toa, Lula pediu que o ministro
Alexandre Padilha (Saúde) mude do Pará para São Paulo seu domicílio eleitoral.
- O ex-presidente petista ficou muito impressionado com o nascimento de
novas lideranças no Rio de Janeiro e no Nordeste. Ele acha que os ventos da
renovação podem chegar a São Paulo - afirmou Fernando Haddad ao GLOBO.
Fonte: O Globo
PPS triunfa e encerra alternância tucano-petista
Clarissa Thomé
Luciano Rezende, do PPS, foi eleito para a prefeitura de Vitória (ES) com
52,73% dos votos ante 42,27% de Luiz Paulo (PSDB). A apuração registrou ainda
2,53% de votos em branco e 4,01% de votos nulos. O comparecimento registrado
pelo Tribunal Superior Eleitoral foi de 78,62%, com 200.758 eleitores indo às
urnas. A abstenção foi de 21,37%, equivalentes a 54.609 eleitores.
A eleição de Rezende garante ao PPS sua única prefeitura entre as capitais.
O resultado também interrompe uma sequência de 24 anos de gestões alternadas do
PT e do PSDB, iniciada com o petista Victor Buaiz em 1989.
A candidata do PT neste ano era Iriny Lopes, ex-ministra da Secretaria de
Políticas das Mulheres. Apoiada pelo atual prefeito, o também petista João
Coser, ela recebeu 18,42% dos votos e ficou de fora do 2.º turno.
Apoiado pelo governador Renato Casagrande (PSB), o novo prefeito derrotou um
antigo aliado. Rezende foi secretário de Saúde durante o mandato de Luiz Paulo,
que governou Vitória entre 1997 e 2004.
Disputa. O Ministério Público eleitoral de Vitória tentou barrar as duas
candidaturas sob o argumento de que tanto Rezende quanto Luiz Paulo teriam
responsabilidade por irregularidades cometidas em 2003 na Secretaria de Saúde
da capital capixaba. A ação, porém, não prosperou na Justiça Eleitoral.
No 1.º turno, Rezende também havia ficado na frente, com 39,14% dos votos.
Luiz Paulo teve 36,69% dos votos. Das 17 capitais que realizaram 2.º turno
ontem, o PSDB tinha candidatos em oito.
A campanha em Vitória teve um tom pesado desde o 1.º turno. Luciano Rezende
afirmou antes da votação do dia 7 que seu adversário seria alcoólatra e viciado
em drogas.
No início da disputa do 2.º turno, Luiz Paulo chegou a levar seus três filhos
à TV para rebater as acusações. O candidato afirmava que haveria uma
"virada" a partir deste momento, o que acabou não se confirmando nas
urnas.
Rezende também acusou Luiz Paulo de ter tentado conseguir apoio de um aliado
seu, o senador Magno Malta (PR). O adversário respondeu que o candidato do PPS
"escondeu" o senador.
Fonte: O Estado de S. Paulo
Fernando Henrique diz que PSDB precisa de renovação
Para ex-presidente, partido está distante de aspirações de eleitor
Gilberto Scofield Jr.
Novos tempos. Ao analisar o resultado das eleições, FH diz que é preciso
"abrir espaço para o mais jovem", referindo-se ao futuro do seu
partido
SÃO PAULO - Evitando falar em erros na campanha de José Serra, candidato
tucano à prefeitura de São Paulo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
defendeu ontem a renovação do PSDB e mais humildade ao partido. No entanto, negou
que a sigla tenha saído das urnas mais fraca do que entrou após o segundo turno
das eleições.
Segundo o ex-presidente, que votou de manhã no Colégio Sion, em Higienópolis
(Zona Oeste de São Paulo), o PSDB conseguiu fazer o segundo maior número de
vereadores do país, atrás apenas do PMDB:
- O PSDB precisa voltar a ter uma atitude muito mais próxima ao que o povo
está sentindo hoje no Brasil. Nós temos que acompanhar essa mudança e, se
possível, avançar mais. Pelo que eu vi, o PSDB, no conjunto do Brasil, vai se
sair melhor do que estava antes. Mas isso não quer dizer nada. É bom mas não é
suficiente. Tem que estar alinhado com o futuro - afirmou.
Fernando Henrique disse que ainda é cedo para falar de estratégia para o
partido, mas defendeu novas lideranças políticas e mais proximidade com o que
deseja a população, num país onde a emergência da classe C vem estabelecendo
desde novos padrões de consumo a novos comportamentos eleitorais. E admitiu ver
com bons olhos a aproximação entre o senador Aécio Neves, ex-governador tucano
de Minas Gerais, e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente
nacional do PSB:
- A articulação com Eduardo Campos eu acho boa. É preciso ampliar os apoios,
e acho normal que os políticos conversem. Estamos acostumados com a situação
anterior, da ditadura, com oposição muito rígida, não é normal numa democracia,
onde os principais lideres devem se entender - disse: - Nos países
democráticos, tem que ter oposição. Agora, se ele (Campos) vai buscar nos
apoiar ou se vai esperar que nós o apoiemos, é cedo para dizer.
Ele evitou criticar diretamente a campanha de Serra, acusada por alguns
tucanos de, novamente, ter usado apenas muito superficialmente a imagem do
ex-presidente:
- Se o Serra não tivesse sido um bom candidato, ele não teria ido para o
segundo turno. Não posso dizer que houve erro na campanha. Eu nunca me recusei
a participar de nada. Sempre que me pedem, eu faço. O Serra foi um candidato
tenaz, que mostrou estar preparado, com energia. Não é por erro de campanha que
se perde eleição. É preciso, como eu já disse antes, sintonizar com o momento -
disse ele, numa alusão à derrota de Serra na disputa pela Presidência da
República. - Mas a renovação é necessária, e o Brasil está mostrando isso mais
uma vez. Eu deixei a Presidência, tem de abrir espaço para o mais jovem. O
Serra é mais jovem, claro, mas o partido como um todo vai precisar mesmo de
renovação.
Perguntado ainda pela manhã se a vitória do petista Fernando Haddad
significaria uma vitória pessoal do ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva,
Fernando Henrique disse que, no caso de São Paulo, isso é correto:
- No caso de São Paulo, sim. Em outros lugares, perdeu. Eleição é assim:
ganha num lado, perde no outro, e não adianta generalizar.
O ex-presidente afirmou que a população de São Paulo deve prestar atenção na
administração petista sobre a gestão do orçamento da maior cidade do país, o
terceiro maior do Brasil, mas frisou que "Haddad é uma pessoa séria".
Ao contrário de uma declaração sua no primeiro turno, ele evitou afirmar que o
mensalão teve influência grande na votação no segundo turno:
- Mensalão não é uma coisa que se analisa eleitoralmente. É uma coisa que
diz respeito à conduta das pessoas. Nesse sentido, interfere. Não gosto de,
pessoalmente, ficar torcendo por condenações, não é meu estilo, mas acho que o
fato de o tribunal (STF) ter tomado a decisão de punir, vai inibir muita gente
a repetir - afirmou. - Chegou o momento de os partidos botarem a mão na consciência.
O próprio PT. Não pode passar impune, dizer que não aconteceu o mensalão.
Aconteceu, e envolveu a cúpula do partido.
Fonte: O Globo
Uma leitura das circunstâncias - Wilson Figueiredo
À medida que se
dissipam as nuvens acumuladas em torno do julgamento da Ação Penal 470, fica
novamente à vista a sucessão presidencial na qual dois destinos políticos,
daqui a dois anos, vão se cruzar. Do choque sobrará uma das duas candidaturas que
colidem na expectativa de 2014. Só haverá lugar para um. Ao outro pretendente restará tempo para
localizar onde plantou o erro cuja conseqüência colherá antes de chegar às
urnas. Não há mais tempo a perder. Mensalão e eleição municipal, não demora,
serão páginas viradas.
Dilma Rousseff e
Luiz Inácio deram a largada lá atrás e, até prova em contrário, nem tiveram o cuidado
de respeitar o princípio segundo o qual dois corpos não conseguem ocupar o
mesmo espaço. Um dos dois terá de se recolher à modéstia compulsória. Ao outro
caberá relatar a seu modo o que se passou, à espera de que o tempo acerte as
contas com ambos. Inevitável será que um ganhe e o outro perca. Ao perdedor, a
oportunidade de se resignar.
Como não podia deixar
de ocorrer, o ex-presidente Lula já se movimenta com a volúpia de recorrer a
normas e procedimentos não escritos, na medida ética inferior de cada um. Pelo
que lhe diz respeito, o eleitor também tem leitura própria das circunstâncias
que se mostram ou se escondem atrás de aparências.
Lula já era
candidato antes de haver eleição à vista. Aprendeu na escola do sindicalismo.
Dilma Rousseff bebeu em outra fonte e, pela qualidade revelada, foi uma
surpresa quando as primeiras dificuldades entre eles, sobretudo as de natureza
ética, se acentuaram assim que tomou as
rédeas nas mãos. Para surpresa de quem via com alguma distância, a diferença já trincava a relação entre o ex-presidente e a sucessora. E, pelo efeito inesperado, a
diferença pessoal e política entre os dois aconselhou a freada de arrumação. A
eleição municipal tem o que contar.
A diferença entre
Lula e Dilma Rousseff não foi referida abertamente pelos políticos, mas assimilada
como acomodação temporária pela parcela social genericamente referida como
classe média. E passou a fazer parte do jogo quando o procedimento do novo
governo apontou na direção de valores sem os quais o estilo Dilma Rousseff não
passaria de delegação política do titular, até a volta de Luiz Inácio ao poder
a que ficou mal acostumado. O antecessor já nem disfarçava a ambição de mando
que lhe subiu à cabeça: recusa-se a descer do pedestal e faz um estrago no que
já se confunde com desprezo pela democracia, da maneira como a entende e aplica.
O que já se esboçava como expectativa de poder para dois era o pressentimento
de que, na cadência em que vinham, as duas candidaturas embutidas no exercício
do poder prometiam bater de frente. Ainda que a nenhum dos dois interessasse um
choque de tal proporção, enquanto fosse possível salvar as aparências sem
apagar a suspeita dos que se fartam com as expectativas perturbadoras.
Ficou o
pressentimento de que Dilma e Lula vão bater de frente, ainda que não pretendam
ir tão longe. Mas será inevitável: a sucessão em destaque, por falta de outra,
é a presidencial (num país que deixou para trás as hipóteses sempre à
disposição do perdedor). Já não se planta na campanha eleitoral a suspeita de
trapaça como salvo-conduto. Ou de ameaças com efeitos que perderam a
oportunidade histórica de intimidar.
Para despir o mandato
presidencial, Lula recorreu à melhor aluna da sua escola de desgoverno, onde
foi para o ralo o princípio republicano segundo o qual não é indispensável ser
absolutamente ético, desde que se salve a aparência. Sob o escudo de uma ex-presidência, que não existe como função
pública, Lula exerce a mímica da tutela presidencial. Ocupa o palácio como se
fosse hóspede oficial e dá a entender que é ele quem governa. Há quem acredite.
O problema,
evidentemente, é da presidente Dilma, que resistiu com discreta galhardia, mas a
gentileza na oportunidade eleitoral foi longe demais, e ainda não voltou à
distância regulamentar que a separa do ex-presidente. Nos atributos e nas imperfeições
do trato político. Não é possível que Dilma Rousseff não se tenha dado conta de
que não deve o mandato ao seu antecessor. E, portanto, não tem de pagar o que
lhe vem sendo cobrado, de modo às vezes afrontoso.
É booling o que Lula faz com a presidente, que
não contraiu dívida que lhe imponha o desgaste ético com juros e correção
monetária. O mandato não pesa como dívida de gratidão e, se a presidente Dilma se
sente devedora, deve retribuir é ao eleitor, no exercício dos poderes avalizados pela cidadania.Ela
pagou adiantado a iniciativa do antecessor ao livrá-lo, com sua própria
candidatura, do assédio do PT: Não é bom indício o exibicionismo do
ex-presidente à margem dos costumes éticos que dignificam a democracia e
sustentam a república.
Aproxima-se a hora
em que a candidatura Dilma à reeleição será cobrada e entendida como oportunidade de valorização ética do exercício do poder, e não
o que se viu na campanha eleitoral: a presidente em palanques em situações
constrangedoras, pois é a presidente da República e, por extensão, de todos os
brasileiros, e não apenas a serviço eleitoral de Lula. Seria um nó difícil de
desatar se , daqui a dois anos, a democracia, com o capital eleitoral de 200
milhões de brasileiros, tivesse de escolher entre um ex-presidente Lula e a
presidente Dilma Rousseff, por um
descalabro que fosse a soma de todas as pequenas afrontas feitas à cidadania e
à democracia (que lhe ensinou nas urnas o suficiente para prosseguir sem
interrupções).
Fonte: Jornal do
Brasil
Após as eleições - Aécio Neves
Acabado o segundo turno das eleições, é hora de os partidos e seus líderes
se esforçarem para dar significado político ao resultado das urnas.
Teima-se em usar a lógica das eleições locais, ignorando suas circunstâncias
próprias, como viés determinante para projetar o futuro. Assim, busca-se
ajustar os resultados às conveniências do momento, daqueles que venceram ou
sucumbiram ao voto popular.
A contabilidade mais importante, a que interessa, porém, é outra. Passadas a
euforia e as comemorações, os novos prefeitos vão ter que se haver com uma dura
realidade: o enfraquecimento continuado das nossas cidades -cada vez mais
pobres em capacidade financeira e, por consequência, sem autonomia política.
Os novos administradores terão que governar com arrecadações e
transferências de recursos em queda e responsabilidade administrativa cada vez
maior, sem a necessária contrapartida financeira. Obrigatoriamente, serão
instados pela realidade a esquecerem a briga política e os palanques para
buscar parcerias e fazer funcionar uma inventividade gerencial, a fim de cumprirem
os compromissos assumidos com os eleitores.
Lembro que a Constituição de 1988 tratou da distribuição de recursos entre
os diferentes entes federados de acordo com suas obrigações e deveres com a
população. Movia os constituintes a lúcida percepção de que não pode existir
país forte com Estados e municípios fracos e dependentes, de pires na mão. Um
crônico centralismo redivivo aos poucos permeou governos de diferentes matizes
e se exacerbou agora, incumbindo-se de desconstruir a obra federativa criada
naquele momento histórico, de revisão constitucional.
Fato é que, hoje, do total arrecadado no país, mais da metade fica nos
cofres federais. Os Estados e os mais de 5.000 municípios brasileiros têm que
sobreviver com percentuais muito inferiores, incluídas as transferências
obrigatórias. Cada vez menos a União participa com recursos e responsabilidades
das principais políticas públicas nacionais. Basta fazer as contas: nas
principais áreas, a presença federal é minoritária, quando não decrescente.
A consequência, óbvia, consta de recente estudo da Federação das Indústrias
do Estado do Rio de Janeiro: 83% dos municípios brasileiros simplesmente não
conseguem se sustentar.
Impassível diante dessa realidade, o governo central ignora Estados e
municípios como parceiros e poderosas alavancas para a produção de um
crescimento diferenciado, descentralizado, mais inclusivo e também mais
democrático, fundamental neste momento de crise, em que as fórmulas
tradicionais estão esgotadas e fechamos o ano na lanterna dos países
emergentes.
Aécio Neves é senador (PSDB-MG)
Fonte: Folha de S. Paulo
Em causa própria - Ricardo Noblat
“É de ‘poste’ em ‘poste’ que o Brasil
vai ficar iluminado” - Lula, sobre sua política de bancar candidatos novos
Que tal? Fica combinado assim: Lula foi o vencedor da eleição para prefeito
da cidade de São Paulo. Lula, e não Fernando Haddad, que jamais disputara
eleição. O PT? Não, gente — Lula. Porque o PT reagiu à arriscada proposta de
Lula de ir à luta com um candidato jovem e desconhecido dos paulistanos. Lula
foi obrigado a arquivar os bons modos: espancou a mesa e forçou o PT a se
render à sua vontade.
FICA COMBINADO também que Lula nada tem a ver com as derrotas colhidas pelos
candidatos que apoiou em outras cidades. Nem mesmo por aqueles que Lula se
empenhou de fato em eleger — gravou mensagens para os programas de propaganda
eleitoral no rádio e na televisão, pontificou em comícios e passeatas, e
repetiu a dose ao perceber que a primeira não fora suficiente.
VOCÊS IMAGINAM o que de Lula? Que ele é milagreiro para acender qualquer
tipo de poste? Lula acreditou que Vanessa Grazziotin, candidata do PCdoB a
prefeita de Manaus, não era um poste. E não era. Foi vereadora, deputada
estadual e federal. E há dois anos se elegeu senadora derrotando Arthur
Virgílio, na época líder do PSDB no Senado. Contava com fortes apoios.
LULA PENSOU: por que não pegar carona numa vitória quase certa para assim
poder humilhar Arthur? Foi direto e franco. No bairro mais popular de Manaus,
disse que estava ali menos por Vanessa e mais por Arthur. Acusou Arthur de um
dia tê-lo ameaçado com uma surra. E pediu para que ninguém votasse nele. Pediu,
não, cobrou, ordenou. Os manauaras não gostaram.
A CIDADE TINHA dado a Arthur a maioria dos seus votos para reconduzi-lo ao
Senado. Vanessa acabara eleita com os votos do interior. Manaus emitia todos os
sinais de que votaria de novo em Arthur. Lula despachou Dilma para lá há uma
semana. Deu chabu. Vanessa subiu um pontinho. Arthur ganhou com folga.
A PEDIDO DE Lula, que lá esteve duas vezes, Dilma desembarcou em Salvador
para tentar barrar a eleição de ACM Neto (DEM). E atacou-o sem dó. Ao lado de
Nelson Pelegrino, candidato do PT que mede mais de 1m85cm, Dilma bateu da
cintura para baixo: “Aqui não pode ter um governinho”. E insistiu: “Aqui não
pode ter um governo pequenininho”. ACM Neto mede menos de 1m65cm.
PESQUISAS PARA consumo interno da campanha do candidato do PT mostraram que
os moradores de Salvador se irritaram com o que ouviram de Dilma. Mexer com uma
característica física do adversário? O que é isso, meu irmão? E se ACM Neto
tivesse respondido: “Precisamos em Brasília de um governo mais enxuto, mais
leve, mais ágil...”?
A MAIOR LAMBANÇA promovida pelo PT nesta eleição foi em Recife, cidade que
governa há quase 12 anos. Como o prefeito era mal avaliado, Lula indicou o
senador Humberto Costa para concorrer à vaga dele. Esqueceu de combinar com
Eduardo Campos, governador de Pernambuco e presidente do PSB. Eduardo rompeu
com o PT e elegeu seu candidato no primeiro turno. Lula fez cara de paisagem.
Eduardo fez cara de candidato a presidente da República.
O DESASTRE DO PT em Recife, Salvador, Fortaleza, Diadema e Campinas, e a
vitória do PSDB em Manaus não significam que Lula e Dilma estejam em baixa nas
cidades onde apostaram o grosso de suas fichas. Significa que eleição municipal
é um fenômeno local. As pessoas votam em quem possa governar bem o lugar onde
vivem. Em São Paulo, cansadas de Serra, o trocaram por Russomano. Mais tarde
aderiram a Haddad. Não foi por Lula que procederam assim. Foi por elas.
Fonte: O Globo
De trunfos e triunfos - Dora Kramer
O resultado de São Paulo foi uma derrota vergonhosa do PSDB e, para o PT, mais
que uma vitória: um triunfo mais que suficiente para o partido sair desta
eleição com dois trunfos.
A imposição de uma derrota ao PSDB dentro "de casa" e, além de
tudo, disputando com um candidato tido inicialmente como imbatível é um deles.
O mais substancioso.
O outro trunfo, a conquista de um estandarte para servir de contrapeso às
condenações no Supremo Tribunal Federal, não tem validade prática. É meramente
simbólico, mas pode funcionar para aplacar os brios feridos do partido.
Pelo menos durante esta semana as comemorações farão com que o STF passe
alguns dias sem ser acusado disso ou daquilo. Ou não, porque sempre haverá quem
alegue que o eleitor paulistano deu uma "resposta" ao Supremo
elegendo Fernando Haddad prefeito.
Delírios à parte, fato é que na política o PT saiu desse 2.º turno como o
grande vitorioso. Elegeu São Paulo como sua principal arena e nela venceu. Só
que o conjunto não é feito só de vitórias. Houve derrotas importantes que não
permitem ao PT conduzir-se como absoluto.
Se de um lado o ex-presidente Lula cumpriu com alto êxito seu objetivo na
cidadela tucana, de outro viu emergir desta eleição uma inquietação no campo
governista que terá trabalho para neutralizar.
Levado pelo sucesso em Recife em embate direto com o PT, o governador
Eduardo Campos entrou na cena antes do esperado. Começa a trilhar caminho
próprio, acumulando forças e agregando aliados para enfrentar a contraofensiva
que vem logo adiante.
No campo oposicionista propriamente dito, não obstante ganhos significativos
- Manaus e Salvador - em termos nacionais, o balanço é de acentuada perda pela
exposição dos frangalhos do PSDB em São Paulo.
Fonte: O Estado de S. Paulo
Velhos hábitos - Melchiades Filho
Lula saiu inteiro, se não fortalecido, da eleição que procurou, achou e
consagrou o novo.
A humilhação sofrida em Recife, a falta de pernas em Salvador, o vexame em
Teresina, a anemia em Porto Alegre, o despejo em Fortaleza e Diadema, a pulverização
recorde do voto entre partidos: o ex-presidente recebeu múltiplos recados de
que o eleitor não tem dono e de que nem todo "poste" ilumina.
Mas Lula viu e ajudou o PT a consolidar sua cobertura nacional. A sigla foi
a única que cresceu em todas as regiões, nos pequenos e grandes municípios. Não
deixou de colher vitórias em capitais também, casos de Goiânia, João Pessoa e
Rio Branco, além da "barriga de aluguel" em Curitiba. E houve o
extraordinário triunfo em São Paulo, desde sempre a prioridade zero.
A eleição de Fernando Haddad, aliada ao triunfo petista em outras
prefeituras paulistas importantes, não apenas tira Lula da sombra de Dilma, mas
o garante no comando, de fato, do partido no pós-eleição.
É Lula quem vai definir se o Planalto repactuará de imediato ou deixará em
modo de espera as relações com o governador Eduardo Campos (PSB-PE), outro
vencedor de 2012.
Se Dilma montará um cerco a Aécio Neves, agora o tucano a ser abatido. Se o
senador Lindbergh Farias romperá o pacto com o PMDB fluminense e se lançará num
voo solo em 2014. Qual será o quinhão do neoparceiro Gilberto Kassab (PSD). E
quem será o candidato do PT ao governo de São Paulo, fronteira final do projeto
hegemonista do partido -um calouro como Dilma e Haddad (Alexandre Padilha), um
sobrevivente (Aloizio Mercadante) ou o veterano supremo (ele próprio, Lula).
É para proteger esse líder redivivo da mácula e dos desdobramentos do
mensalão que o PT começa hoje mesmo a tentar empastelar as condenações, com
atos de rua, abaixo-assinados e ataques coordenados à imprensa e ao Judiciário.
Fonte: Folha de S. Paulo
Signo da renovação - Tereza Cruvinel
A conquista da prefeitura de São Paulo fez do PT o partido vitorioso na
eleição municipal, por tudo que o cargo representa e por tudo que uma derrota ali
representaria: outras vitórias seriam minimizadas e trunfos importantes, como a
colheita do maior número de votos no país, seriam menosprezados. O PSDB sofreu
uma derrota de grandes proporções em São Paulo, mas, com vitórias em outras
paragens, embora de menor relevância, como em Belém e Manaus, o partido
conserva o posto de maior legenda de oposição e formula o discurso de que, no
conjunto do país, melhorou seu posicionamento anterior. Aliás, como no primeiro
turno, o resultado propicia discursos otimistas a todos os partidos. Perdas e
ganhos à parte, as duas siglas polares da política nacional saem da eleição com
um desafio comum: renovar seus quadros, produzir uma nova elite dirigente e
lançar novos atores políticos para substituir a geração ainda vinculada ao
período da resistência ao regime militar.
A eleição do petista Fernando Haddad confirma essa necessidade, reconhecida
ontem, em relação ao PSDB, pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em São
Paulo, da parte do PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva identificou
essa demanda do eleitorado e tratou de responder com ousadia, lançando um
candidato "sangue novo", desconhecido do eleitorado e sem experiência
eleitoral. Mas o PT não fez o mesmo em todo o país. Onde atendeu ao anseio por
renovação, com candidato próprio ou de partidos aliados, foi bem-sucedido.
Outros partidos que atenderam à demanda por renovação foram exitosos. Velhas
raposas, com João Castelo, em São Luís, foram derrotadas por emergentes na
política, como Edivaldo Holanda, da coligação PTC-PCdoB. A eleição de prefeitos
e vereadores é o momento natural de renovação das fileiras partidárias. Depois,
uma espécie de darwinismo político selecionará aqueles que galgarão outras posições
e disputarão outros pleitos.
Para os tucanos, a necessidade de renovação deriva do envelhecimento ou da
fadiga eleitoral de seus nomes mais notáveis, como o próprio José Serra.
Candidatos alternativos havia, bem como já era sabido, quando o partido optou
por Serra, que o PT faria um lance ousado com Haddad. Um dos postulantes no
PSDB era o secretário estadual de Energia, José Aníbal, que, embora não sendo
exatamente novo na política (já foi deputado e mais de uma vez secretário de
estado), para o eleitorado seria uma novidade. Mas, como outros postulantes,
foi atropelado pela engrenagem serrista. Arthur Virgílio, eleito em Manaus, é
da primeira geração tucana, mas os demais prefeitos eleitos pelo PSDB, nos dois
turnos, como Zenaldo Coutinho (Belém) e Rui Palmeira (Maceió), entraram na vida
política depois da restauração democrática (1985).
Para disputar a presidência, o PSDB agora só tem Aécio Neves, que, embora
seja da primeira geração tucana, é jovem o suficiente para ser considerado como
novidade no plano nacional. Mas a carência de quadros novos é tão grande,
inclusive em Minas, que ele lançou um técnico sem experiência política, Antonio
Anastasia, para sucedê-lo, numa ousadia parecida com a de Lula com Haddad. Teve
êxito. No primeiro turno, ganhou a disputa pela prefeitura de Belo Horizonte,
mas apoiando um nome do PSB, Marcio Lacerda, depois de atuar para afastá-lo do
PT. Atento à demanda pela renovação política, o PSDB planeja valorizar nomes
que emergiram agora, ainda que não tenha sido vitoriosos, como o jovem Daniel
Coelho, terceiro mais votado no Recife, no primeiro turno.
Para o PT, o imperativo da renovação é agravado pelo julgamento do mensalão.
Dois fundadores da maior importância, José Dirceu e José Genoino, foram
aniquilados pelo julgamento, e outro, Antonio Palloci, foi triturado por
escândalos que o tiraram dos governos de Lula e de Dilma. Ao longo dos 10 anos
em que o PT governa o Brasil, alguns deixaram o partido, outros ficaram pelo
caminho. Lula, com sua fina intuição, prepara o prefeito reeleito de São
Bernardo, Luiz Marinho, para concorrer ao governo de São Paulo. Mas o dilema do
PT é a renovação nacional e, especialmente, a criação de uma elite dirigente.
Fora isso, a eleição só lhe trouxe bons resultados e augúrios. Apesar dos
prognósticos de que sofreria uma devastação eleitoral por conta do julgamento
do mensalão, o PT foi o partido mais votado e será majoritário entre os
municípios mais populosos e ricos. O maior número de prefeituras continuará com
seu parceiro, o PMDB. A aliança PT-PMDB, por sinal, sai fortalecida e
consolidada, apontando para a reedição da chapa Dilma-Temer em 2012. O resto, a
vista não alcança. Depende da economia, das políticas públicas e da boa gestão
do patrimônio político que o eleitorado lhe entregou.
O futuro do PSB. O PSB sai da
eleição municipal com um crescimento superior a 40% em número de prefeituras, o
governo de cinco capitais e de cidades importantes, como Campinas, Duque de
Caxias e Petrópolis. Foi uma ascensão, mas, apesar dela, trata-se ainda do quinto
maior partido no plano municipal. Houve, sim, um importante deslocamento para
outras regiões, fora do Nordeste.
Muita especulação será feita agora sobre o destino de Eduardo Campos e de
seu partido. Como aliado histórico, o PT deve estar ressentido com as derrotas
que lhe foram impostas pelo parceiro, tal como em Fortaleza e Campinas, no
segundo turno, afora Belo Horizonte e Recife no primeiro.
Mesmo assim, se o PT não tratar agora de uma reconciliação efetiva, pode ver o
PSB deslocar-se para o outro campo, e não necessariamente lançando a
candidatura de Campos a presidente em 2014. Sozinho, o PSB pode não ter bala na
agulha para tanto. Mas está no ar (e nas urnas) o flerte com o PSDB, que
precisa cada vez mais de uma nova coalizão. O DEM, mesmo ganhando em Salvador,
é a sombra do que foi o velho PFL. Ontem mesmo, quando votava, o ex-presidente
Fernando Henrique saudou a possibilidade desta aliança, completando:
"Agora, se vão nos apoiar ou esperam ter o nosso apoio, é cedo para
saber". É certo, porém, que os protagonistas dos dois partidos, com vistas
a 2014, Eduardo Campos e Aécio Neves, juntos atendem ao anseio pela renovação.
Fonte: Correio Braziliense
Edifício do poder, sem nº - José Roberto de Toledo
Mudam divisórias, PT e PSB ganham mais espaço, PMDB e PSDB perdem salas, mas
as estruturas do edifício do poder continuam inalteradas no Brasil. Os petistas
ocupam a cobertura há 10 anos, mas o restante do prédio é dividido entre 30
condôminos. O PT elege o síndico, mas não administra o condomínio sem ceder
poder a outros. Ninguém tem hegemonia. E é bom que seja assim.
O PT sai maior das urnas, mas com direito a ocupar apenas 11% das
prefeituras e a governar 20% do eleitorado local. Tudo bem que isso inclui o
canto mais populoso do edifício, a sala São Paulo, mas está longe de configurar
um domínio da política brasileira. O partido de Lula cresce, mas não é o único.
O PSB vem na cola e tem seus próprios planos.
O partido do governador Eduardo Campos, de Pernambuco, elegeu 131 prefeitos
a mais do que em 2008 e entrou para o seleto clube dos 10%: os prefeitos do PSB
passarão a governar uma fatia que corresponde a 11% do eleitorado local a
partir de janeiro. A sigla dobrou o que conseguira quatro anos atrás: governará
15 milhões de eleitores. Só outros três partidos estão nesse clube.
A base municipal obtida pelo PSB é necessária para o partido barganhar
melhores condições numa coligação presidencial, mas, sem articulações com
outras siglas, é insuficiente para lançar o governador pernambucano à sucessão
de Dilma Rousseff (PT) na disputa de 2014. Por isso, devem crescer as conversas
de Campos com os tucanos, por exemplo.
O PSDB viu sua participação no bolo do eleitorado municipal cair de 14% para
13% nesses quatro anos. A maior queda foi a do PMDB: de 22% para 17% do
eleitorado municipal. A fatia do PT cresceu de 16% para 20%.
Todas essas participações são maiores do que o pedaço do bolo que está no
prato de Eduardo Campos, por enquanto. Mas o tamanho e a distribuição das
fatias devem continuar mudando mesmo depois de terminada a apuração.
Há, por exemplo, as conversas de fusão entre o PP de Paulo Maluf com o PSD
de Gilberto Kassab. O primeiro encolheu, e o segundo roubou prefeitos e
prefeituras de todos os partidos médios e virou uma sigla com boa penetração
nos rincões do Brasil profundo. O PSD é uma contradição em termos: cresceu, mas
encolheu. Os seus 497 novos prefeitos governarão, juntos, um eleitorado
equivalente ao que Kassab deixará de governar.
Mesmo assim, se PSD e PP virarem PSDP ou PPSD comandarão 966 prefeituras e
governarão 16 milhões de eleitores. Ficariam em segundo lugar no ranking de
prefeitos e em quarto no de eleitorado a governar. Como serão, na imensa
maioria, cidades pequenas, não devem movimentar muito dinheiro, mas, a depender
a distribuição geográfica, têm potencial para eleger a terceira ou quarta maior
bancada de deputados federais em 2014.
Falsa hegemonia. Colocados em perspectiva, os avanços do PT mostram que o
partido de Dilma e Lula está longe de ter se tornado hegemônico: 89% das
prefeituras e 80% do eleitorado municipal estarão nas mãos de outras legendas
partidárias. Não dá para fazer o que bem entender na assembleia do condomínio
sem colher uma reação negativa dos outros condôminos. O poder petista é
consorciado. Para ser exercido continuará dependente de alianças.
O resultado do 2.º turno em si mostra que quando o PT enfrenta um duelo dois
a dois e seu desempenho piora bastante. Dos 22 segundos turnos que disputaram,
os petistas ganharam só em oito municípios. A taxa de sucesso foi de apenas
36%, praticamente duas derrotas para cada vitória.
Essa é uma característica do PT. Para continuar crescendo, o partido de Lula
precisará fazer um esforço cada vez maior. Como elege proporcionalmente menos
candidatos do que o PMDB e o PSDB, por exemplo, precisará lançar um número
ainda maior de postulantes a prefeito em 2016 para aumentar sua fatia de poder
municipal. Até agora tem conseguido, mas a um custo relativamente mais alto do
que o de seus aliados e rivais.
O PT chegou ao posto de maior partido brasileiro graças a uma organização
nacional, a um projeto de poder e a lideranças carismáticas. Seu principal
concorrente, o PSDB, tem uma lição de casa mais trabalhosa. Precisa renovar
suas lideranças, ajustar seu discurso eleitoral e corrigir deficiências
regionais.
Das sete centenas de prefeitos tucanos, 45% estão concentrados em São Paulo
(176) e em Minas Gerais (142). Isso pode ser um problema para o PSDB eleger
deputados federais em 2014, principalmente no Ceará, na Bahia e no Rio Grande
do Norte.
Fonte: O Estado de S. Paulo
Quadrilha ou bando - Paulo Brossard
"Este processo revela um dos episódios mais vergonhosos da história
política de nosso país"
Na história judiciária nacional, a começar por sua singularidade, nada
conheço comparável ao mensalão. Destinava-se, ab initio, a aperfeiçoar a
relação entre os poderes Executivo e Legislativo, de modo que não faltasse nem
mesmo falhasse o apoio deste àquele. Para tanto, concebera-se o emprego de um
fator pecuniário, nada mais, nada menos que um estipêndio mensal, estranho ao
subsídio, fora do orçamento, e para tanto logo foi providenciado respeitável
fundo de milhões, para que nunca rareasse o fomento adequado, a seus eventuais
destinatários; com isso, o governo teria assegurado sólido apoio parlamentar.
Embora a inovação não fosse ignorada, em certo momento a excêntrica armação foi
denunciada publicamente, e o caso começou a ser investigado até que o procurador-geral
da República ofereceu minuciosa denúncia, recebida pelo Supremo Tribunal
Federal. Semana passada foi ultimada a fase relativa ao mérito da acusação, foi
o exame do crime de formação de quadrilha. O último a votar foi o ministro
Celso de Mello; esquadrinhou o caso; dele vou servir-me para o artigo de hoje,
que em verdade será mais dele que meu.
Começa por dizer que: "Em mais de 44 anos de atuação na área jurídica,
primeiramente como membro do Ministério Público paulista e, depois, como juiz
do Supremo Tribunal Federal, nunca presenciei caso em que o delito de quadrilha
se apresentasse tão nitidamente caracterizado em todos os seus elementos
constitutivos, como sucede no processo ora em julgamento... Formou-se, na
cúpula do poder, à margem da lei e do Direito e ao arrepio dos bons costumes
administrativos, um estranho e pernicioso sodalício constituído de altos
dirigentes governamentais e partidários, unidos por um perverso e comum
desígnio, por um vínculo associativo estável que buscava conferir operacionalidade,
exequibilidade e eficácia ao objetivo espúrio por eles estabelecido: cometer
crimes, qualquer crime, agindo, nos subterrâneos do poder, como conspiradores à
sombra do Estado, para, em assim procedendo, vulnerar, transgredir e lesionar a
paz pública, que representa, em sua dimensão concreta, enquanto expressão da
tranquilidade da ordem e da segurança geral e coletiva, o bem jurídico posto
sob a égide e a proteção das leis e da autoridade do Estado. A isso, a essa
sociedade de delinquentes, a essa "societas delinquentium", o Direito
Penal brasileiro dá um nome: o de quadrilha ou bando".
Como não posso transcrever outras passagens do notável voto do mais antigo
juiz em exercício do Supremo Tribunal Federal, como seria de meu gosto,
limito-me a reproduzir apenas mais um parágrafo e com ele encerrar a notícia
sem igual deste episódio:
"Este processo revela um dos episódios mais vergonhosos da história
política de nosso país, pois os elementos probatórios que foram produzidos pelo
Ministério Público expõem aos olhos de uma nação estarrecida, perplexa e
envergonhada um grupo de delinquentes que degradou a atividade política,
transformando-a em plataforma de ações criminosas. A acusação criminal contra
esses antigos dirigentes estatais e partidários, cuja atuação se deu no
contexto de um esquema delituoso estruturado nos subterrâneos do poder e que
contou com o auxílio operacional de agentes financeiros e publicitários,
demonstra que a formação de quadrilha constituiu, no caso ora em julgamento, um
poderoso instrumento viabilizador da prática de crimes contra a administração
pública, contra o sistema financeiro nacional, contra a estabilidade do sistema
e contra a paz pública".
Assim foi encerrado o julgamento da ação penal nº 470.
Suponho tenha dito o suficiente para caracterizar, ainda que brevemente, o
espantoso caso.
*Jurista, ministro aposentado do STF
Fonte: Zero Hora (RS)
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