sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Monica de Bolle* - Nem nacionalismo nem ultraliberalismo

- Revista Época

Ressuscito a era Dilma e a época áurea da substituição de importações por uma razão: há muitos motivos que podem levar a mudanças políticas traumáticas

O Brasil e, de modo mais geral, a América Latina são profundos conhecedores das mudanças traumáticas de regimes políticos. Para que fique claro, não considero a mudança de Mauricio Macri para Alberto Fernández recém-ocorrida na Argentina “traumática”, ainda que o país vizinho esteja novamente engalfinhado numa crise econômica. As mudanças traumáticas a que me refiro são os golpes militares dos anos 1960 e 1970 e, na história recente brasileira, o impeachment de Dilma Rousseff.

Como tenho abordado neste espaço, estou estudando a volta do nacionalismo econômico e tenho me aprofundado em estudos de caso selecionados desde o início do século XX. Recentemente, andei relendo a literatura sobre a industrialização por meio da substituição de importações (ISI), com um olhar especial para os casos do Brasil e da Argentina nos anos 1940 e 1950. O estudo de medidas de cunho nacionalista no âmbito da ISI me levou às leituras sobre a extensão dos problemas econômicos causados por esse modelo de desenvolvimento — industrializar substituindo produtos importados — e às relações entre esses problemas e a primeira fase de mudanças traumáticas na região durante o pós-guerra. Há muitas formas de analisar a ISI. Mas o pensador que melhor definiu os problemas desse modelo de desenvolvimento, tão disseminado na região, foi o economista e cientista social Albert O. Hirschman. O alcance de sua análise se deve, primeiro, a sua nítida abertura de pensamento e aversão ao reducionismo. O modelo da ISI, ao contrário do que muitos afirmaram nos anos 1960 e 1970, não sofreu um “esgotamento”, conforme analisou Hirschman. Fosse assim, as políticas que Dilma ressuscitou — os campeões nacionais com dinheiro do BNDES e a preocupação extrema com a desindustrialização, suscitando ações que muito remetiam ao passado — não teriam tido o apoio temporário do empresariado industrial brasileiro.

Rogério L. Furquim Werneck* - Festival de desatinos

- O Estado de S.Paulo / O Globo

Sucesso em áreas-chave para sairmos da crise depende de que o Brasil continue a ser percebido como um país sério

Que efeito uma nomeação desastrosa para a Funarte poderá vir a ter sobre o investimento estrangeiro em projetos de infraestrutura? Tivesse sido feita há um ano, tal indagação teria causado espanto e levantado sérias dúvidas sobre a sanidade de quem teria sido capaz de formular semelhante pergunta. Passados 12 meses, contudo, é triste constatar que a indagação já não parece tão estapafúrdia assim. Mas quem, em sã consciência, poderia imaginar no final do ano passado as proporções dos infindáveis desatinos que agora vêm pautando não só a gestão da Funarte, como a de muitos outros segmentos importantes do governo federal?

A Fundação Nacional de Artes é um órgão que tem como objetivo fomentar produção, prática, desenvolvimento e difusão das artes no País. Como amplamente divulgado, seu recém-nomeado presidente tem externado ideias ensandecidas sobre amplo leque de questões, nem sempre relacionadas ao campo de atuação da Funarte. Faz apaixonada profissão de fé na ideia de que a Terra é plana. E está convicto de que o rock é um gênero musical que induz ao satanismo.

Claudia Safatle - Há mais rigidez na rigidez orçamentária

- Valor Econômico

O ajuste será em pessoal, no social ou nos investimentos

O governo tem sido demasiadamente econômico nas informações sobre aonde pretende chegar com o ajuste fiscal. Não se sabe, por exemplo, o que vai acontecer com a despesa pública até 2026 - primeiros dez anos de vigência da lei que estabeleceu o teto para o gasto. E, até que ponto, os gastos sociais estarão preservados de eventuais cortes para reduzir a despesa primária, exclusive transferências federativas, dos atuais 19,8% do PIB para a faixa dos 17,1% do PIB, trajeto necessário para cumprir a lei do teto de gasto.

Ao explorar os números do orçamento executado de 2018 e a tendência do gasto no futuro, seja ele corrigido pela inflação, seja pela variação do PIB, é possível identificar quais são as reais possibilidades que estão à mão dos gestores da política econômica. O analista do Senado e especialista em contas públicas Leonardo Ribeiro, assessor do senador José Serra (PSDB-SP), fez esse trabalho.

Diante do esmagamento das despesas discricionárias - a ponto de não haver mais cafezinho nos ministérios -, é difícil imaginar que todo o ajuste sairá de lá, mesmo que o governo opte por zerar o gasto com investimentos, que foram de R$ 42,49 bilhões em 2018, mas caem para cerca de R$ 19 bilhões no Orçamento de 2020.

A área econômica já concluiu que é preciso centrar o foco do ajuste nas despesas obrigatórias. A primeira ofensiva foi na reforma da Previdência Social, conquista importante, mas que apenas desacelera o ritmo de crescimento das aposentadorias e pensões.

O segundo passo, que seria a reforma administrativa e, com ela, uma nova política de recursos humanos que resultasse em freios no crescimento da folha de salários, foi adiado para o próximo ano. E, ao que tudo indica, o presidente Jair Bolsonaro não concordou com a dureza das providências concebidas pela equipe do Ministério da Economia. Aliás, Bolsonaro tem dito a Paulo Guedes que “não dá para ganhar todas”.

César Felício* - O brasileiro, um apaixonado pelas redes

- Valor Econômico

Preocupação com manipulação nas redes é pequena

É possível imaginar o Brasil como um dos países mais tolerantes do mundo? A resposta é sim, de acordo com a pesquisa “Democracias sob Tensão”, divulgada na edição de anteontem pelo Valor. A leitura completa do levantamento feito em 42 países, com dados recolhidos no fim do ano passado permite chegar a esta conclusão, o que é mais sugestivo do deplorável estado da convivência com os diferentes que o mundo se encontra do que revelador sobre o caso brasileiro. Afinal, se é tolerante o Brasil em que neopentecostais armados atacam terreiros de candomblé, como noticiou recentemente o “Washington Post”, é de se imaginar o que se passa alhures.

Segundo o levantamento, o Brasil é o país com o maior percentual de entrevistados que afirma não se incomodar com pessoas que tenham opiniões políticas diferentes das suas: 59%, ante 47% da média global. Também é o que aparece em primeiro quando a pergunta é sobre o incômodo em relação a posições religiosas diferentes das próprias. Dos brasileiros, 55% diz não se importar, na França este índice é 38%.

É alto também, inferior apenas ao observado no Japão, o percentual de brasileiros que não ficam perturbados com pessoas com orientações sexuais diferentes das suas: 45%, ante 33% da média global.

Só há dois temas em relação aos quais o brasileiro se mostra um pouco menos tolerante: 65% declaram-se contra o aborto, ante 30% de média global; e apenas 10% dos pesquisados no Brasil têm reações positivas ao saber que uma pessoa é ateia. Na Bélgica este índice sobe para 28%. O fato de alguém ter religião no Brasil - qualquer uma - é recebido de maneira entusiasmada pela oposição. A reação positiva é de 35% diante de um evangélico (a média global é 19%), 39% perante um católico (média global 24%), 13% em relação a um muçulmano, dobro do índice dos demais países; e 20% face a um judeu, ante 9% em Portugal.

José de Souza Martins* - Educação é missão emancipadora e não mercadoria enlatada

- Eu & Fim de Semana | Valor Econômico

Pesquisa privilegia o que é relevante para o sistema econômico, para a amoralidade do meramente lucrativo

É insuficiente o conhecimento de nossos jovens de disciplinas escolares supostamente decisivas: leitura, matemática e ciências. É o que sugere a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) com os dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, de 2018) recém-divulgados. Culpa de quem? Dos educadores? Das escolas? Dos pais das crianças? Culpa dos despistadores ideológicos das opostas tendências que tem tutelado a consciência do povo para dominá-lo, como agora, e não para emancipá-lo?

Na verdade, culpa do viés da própria pesquisa, de quem a promove, pois omite aspectos decisivos da autêntica educação, os das disciplinas propriamente formativas das novas gerações, os da educação para a liberdade e a responsabilidade social. A pesquisa privilegia o que é relevante para o sistema econômico, para a amoralidade do meramente lucrativo.

Uma orientação esclarecedora de seus motivos é a da preocupação com educação financeira. Seu fundamentalismo materialista e anti-humanista opõe-se à concepção civilizadora de que só espíritos livres, conscientes e bem formados na compreensão da realidade social e humana podem ser bons em linguagem, em matemática, em ciências. A educação lucrativa é sem vida. A vida é a referência criadora em todos os campos do conhecimento.

Fernando Abrucio* - Bolsonaro, um reacionário contra o futuro


- Eu &Fim de Semana / Valor Econômico


Continuar uma política que venera um passado idílico e que abomina os temas do século XXI é uma estratégia que condena o país ao fracasso

Acostumado a ser visto como o país do futuro, o Brasil está sendo governado com os faróis voltados para trás. Eis aqui uma característica marcante do primeiro ano de mandato: a preferência do presidente pelo passado e por (certas) ideias antigas, em contraposição às preocupações com os temas e questões mais vinculadas ao século XXI. Uma frase define tudo isso: Bolsonaro é um reacionário contra o futuro.

O presidente e seus ministros ou assessores estão a todo momento lutando contra algo “moderno” e defendendo o retorno das “tradições”. Conceitos que possam significar uma nova forma de ver uma realidade que está em mutação geralmente são malvistos pelo bolsonarismo.

O paradoxal desse discurso é que seu meio principal de propagação são as moderníssimas redes sociais. Assim, usando o Twitter do Carlucho (o Zero 2), o WhatsApp dos caminhoneiros, os programas televisivos dos evangélicos bolsonaristas e as “lives” do próprio Bolsonaro podem ser apresentados argumentos em prol de um passado idílico e são criticadas diversas modernidades que nos tirariam do rumo certo e da ordem natural das coisas.

Os exemplos de reacionarismo contra o futuro são vários. A luta contra as evidências que explicam as mudanças climáticas é um dos casos mais graves. O presidente, seu dileto ministro do Meio Ambiente e outros assessores já disseram, de um modo ou de outro, que não acreditam na opinião majoritária da comunidade cientifica.

Alguns dos aliados e gurus já falaram, inclusive, que a Terra é plana. O descaso com a ciência talvez tenha um sentido ainda maior: cientistas são “perigosos” na elucidação das ilusões do passado e realçam que os desafios do futuro trazem problemas novos, que exigem novas respostas.

Reinaldo Azevedo - Um bezerro feito de cartuchos de bala

- Folha de S. Paulo

Mais instruído, autoritarismo de Moro vai além da bolha da extrema direita e ambiciona ser um método

O presidente Jair Bolsonaro concorre para degradar a qualidade da experiência democrática em muitas áreas do governo, mas não ameaça o regime democrático. Com Sergio Moro é diferente. Ele representa um risco real ao sistema de garantias individuais e públicas. Seu autoritarismo é mais instruído, vai além da bolha da extrema direita e ambiciona ser um método.

No dia em que Bolsonaro deixar o governo, esteja a economia como estiver, haverá um rastro de depredação da ética, da estética e da razão, perpetrada pelos terraplanistas de Olavo de Carvalho e outras mixuruquices da periferia do capitalismo, que aparelharam fatias do Estado. O trabalho de desintoxicação será relativamente rápido.

Moro é o insidioso que se esgueira nas dobras do combate à corrupção. Ele tenta mudar os códigos, literais e metafóricos, do Estado democrático e de Direito. Suas barbaridades passam por bom senso em certos setores da imprensa, severos com Bolsonaro, mas servis ao dito paladino da moralidade.

Na agressiva entrevista publicada pela Folha nesta quinta (12), Moro tem a ousadia, por exemplo, de atribuir ao STF a responsabilidade pelo fato de 50% dos entrevistados pelo Datafolha considerarem ruim ou péssimo o combate à corrupção levado a efeito pelo governo. A soltura de presos em razão do que dispõe a Constituição —e ele pensava em apenas um: Lula— teria distorcido a avaliação, ainda que 54% dos entrevistados considerem justa a liberdade concedida ao ex-presidente.

Fernando Gabeira* - Um ano pela extrema direita

- O Estado de S.Paulo

O governo Bolsonaro é tosco e despreparado para a complexidade do Brasil e do mundo

Hoje, 13 de dezembro de 2019, até que aqui tudo bem. Em termos, quero dizer. Não decretaram o AI-5 nem massas se revoltaram, como no Chile, apesar dos apelos. O drama se fragmenta em morte de adolescentes em Paraisópolis e assassinato de índios guajajaras no Maranhão.

As pessoas compram presentes e se preparam para o Natal, como o fizeram em dezembro de 1968. E os articulistas fazem o balanço de 2019.

Há muitas formas de analisar o primeiro ano de Bolsonaro no poder. Os mais otimistas veem a economia se recuperando, saúdam a redução dos índices de criminalidade, aprovam a gestão na infraestrutura. Não são apenas essas variáveis que definem o País. Se olhamos de fora para dentro, veremos que o prestígio internacional do Brasil caiu, embora não tenha ainda atingido os negócios.

Bolsonaro começou duvidando da relação com a China. Disse algumas coisas atravessadas, como os chineses comprando o Brasil, mas a resposta de lá foi tranquila. Trabalham com projetos de longo prazo, não se importam muito com os arroubos de estreantes. Agora, no final do ano, Bolsonaro afirmou que serão positivas as relações futuras Brasil-China e os dois países até já anunciam o lançamento de um satélite.

Bolsonaro começou amando Trump. Reaproximou o Brasil dos EUA e sempre esperou muito desse romance. Ao não ser indicado para a OCDE pelos EUA, houve um certo desencanto. Mas a verdade é que o próprio governo brasileiro superestimou a promessa. Não era imediata: a Argentina estava na frente.

Outro grande desencanto veio com o anúncio de Trump de taxar o aço e o alumínio do Brasil. A decisão econômica não é das mais interessantes para os americanos, apesar de seu pequeno valor eleitoral. Mas não foi tanto pela economia que Trump desencantou os admiradores locais, ele acusou, injustamente, o Brasil de manipular o câmbio, e nem se deu ao trabalho de ligar antes para Bolsonaro.

Míriam Leitão - Sexta-feira 13, 51 anos depois

- O Globo

AI-5 faz 51 anos e deveria ser assunto pacificado, mas voltou à pauta em função do sonho autoritário dos que hoje ocupam posição de poder

Numa sexta-feira 13, há exatamente 51 anos, o AI-5 caiu sobre o país como um viaduto. O Brasil era outro. Dos brasileiros de hoje, 76,21% não haviam nascido. São 160,2 milhões de brasileiros nascidos depois daquele dia. Pelo tempo passado e pela renovação populacional, esse deveria ser um assunto esquecido e pacificado. Mas o AI-5 foi um dos assuntos mais falados no país este ano, em função do estranho sonho autoritário de pessoas que hoje ocupam posição de poder.

Há vários mitos sobre a ditadura que andam sendo repetidos numa demonstração de que é preciso voltar a falar do assunto. Os militares chegaram dizendo que ficariam pouco tempo e ainda hoje alguns grupos defendem que o regime foi brando. Não existe ditadura suave e a dinâmica do caminho autoritário é incontrolável.

O general Castello Branco dizia que o regime seria temporário e ele durou 21 anos. O primeiro Ato Institucional foi apresentado como sendo o único e houve 17. O AI-5 duraria um ano, durou 10. O SNI seria apenas um pequeno serviço de inteligência e, como registra Elio Gaspari, virou um “monstro” na definição do seu próprio criador, Golbery do Couto e Silva. No final tinha seis mil funcionários, escritórios em cada ministério, em cada órgão estatal, envolveu-se em inúmeras maracutaias, do garimpo na Amazônia às negociatas com café.

O país não estava “indo para o comunismo”, mas sim vivendo um governo de muita instabilidade e que se aproximava do seu final. No ano seguinte haveria uma eleição em que se enfrentariam Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, com grande chance de vitória do primeiro. Os dois se juntaram depois na Frente Ampla, que incluiu também João Goulart, uma aliança impensável entre o golpista Lacerda e o presidente deposto. Eles passaram por cima das diferenças pela causa comum do retorno à democracia. A frente foi proscrita pelo governo no interminável ano de 1968.

Alberto Aggio* - As lacunas e os equívocos de Marcos Nobre

- Portal Cidadania 23 (Publicado 10/12/2019)

Marcos Nobre é um ensaísta cada vez mais requisitado pela mídia. Seus méritos acadêmicos são inquestionáveis. Contudo, no plano da análise política nem sempre estou de acordo com ele. O artigo “Contagem Regressiva” (veja aqui) que ele publica na revista Piauí (edição 159, dezembro de 2019; indicado abaixo) evidencia mais uma vez muitos desacordos. O principal deles é que sua referência maior para o “campo democrático” é a oposição ao governo Bolsonaro por ser este “contra a democracia”. Estamos de acordo com essa formulação. No entanto, ela ilude e não apreende a realidade política como ela realmente é. Na nossa concepção, o “campo democrático” tem também a tarefa de combater também o partido (e suas lideranças) que criou um sistema de corrupção jamais visto na nossa história, o que comprometeu profundamente a crença da sociedade na política democrática. E isso, sem dúvida, abriu passagem para a vitória de Bolsonaro e a afirmação do Bolsonarismo.

Essa leitura não é sequer considerada na análise de Marcos Nobre. Dai fica difícil apreender a situação como realmente ela se mostra. Nobre chancela a posição de Lula ao rejeitar o pedido de autocrítica do PT. Esse posicionamento do analista anula qualquer possibilidade de conversa entre forças democráticas. Aliás, em nenhum momento o PT é responsável pela crise em que estamos metidos como país. Na leitura do artigo, o lugar do centro vem na fala de Jorge Bornhausen e isso me parece injustificadamente provocador não fosse absolutamente lacunar.

Caetano Araújo* - Radicalidade e flexibilidade – reflexões a partir do texto do Marcos Nobre

- Portal Cidadania 23 (Publicado 11 /12/ 2019)

Seguem algumas reflexões inspiradas no texto do Nobre e nos comentários do [Alberto] Aggio. Divido meus argumentos em três tópicos distintos: a questão central da agenda política, qual o espaço que lutamos por ocupar e que políticas de aliança devemos implementar.

1 – Qual a questão central da agenda política hoje no Brasil? A democracia ou a corrupção? Na minha opinião, e nisso concordo com Nobre, a questão democrática é a central. Em termos gerais, porque, sempre, sem democracia não há luta contra a corrupção. Em termos específicos porque a democracia está hoje sob ameaça nesse país, ameaça que parte do governo legitimamente eleito há um ano atrás. Claro que a corrupção mina a legitimidade das instituições e constitui, também, uma ameaça à democracia, no longo prazo. Para usar uma metáfora médica, a corrupção seria comparável à situação de anemia profunda e devemos combatê-la. Mas estamos também sob ameaça de um câncer, com possível metástase imediata. Devemos, portanto, ao mesmo tempo, defender a democracia e combater a corrupção e é possível que nossos aliados não sejam os mesmos nessas duas frentes de luta.

2 – Qual o campo político que queremos construir, nas ruas, nos legislativos, nas eleições? Tenho reservas com o uso da expressão centro, mesmo que qualificado como democrático, progressista, radical ou extremo. Penso que essa metáfora espacial era adequada no tempo em que a política estava dominada pelas oposições esquerda e direita e democracia e autoritarismo. Hoje, num mundo em que outras dimensões polarizam a política, como as questões da sustentabilidade e do cosmopolitismo, essa metáfora perde precisão. Tanto é assim que quando falamos em centro precisamos quase sempre especificar quem está dentro e quem está fora desse campo.

Por que a ideia de que o AI-5 foi uma reação à esquerda é um mito



O que a mídia pensa – Editoriais

Avanço civilizatório – Editorial | Folha de S. Paulo

Câmara aprova marco do saneamento, que amplia concorrência e enfrenta atraso

Após longo período de impasse, a Câmara dos Deputados conseguiu aprovar o texto-base do projeto que moderniza o marco regulatório do saneamento nacional e abre espaço para maior participação da iniciativa privada no setor.

O passo adiante, porém, não veio sem riscos, pois a decisão regimental foi descartar o texto que veio do Senado em favor da alternativa originada na Casa, de modo a assegurar que a última palavra fique com os deputados.

A decisão decorre da percepção, não infundada, de que o tema vem encontrando mais resistências entre os senadores. Mas a consequência pode ser exacerbar o conflito e alongar ainda mais a tramitação.

De fato, o projeto da Câmara, apoiado pelo governo Jair Bolsonaro e iniciado após a expiração de uma medida provisória de teor similar, mostra-se mais ambicioso.

Música | Roberta Sá - Fogo de Palha

Poesia | Fernando Pessoa - Estou

Estou tonto,
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar,
Ou de ambas as coisas.
O que sei é que estou tonto
E não sei bem se me devo levantar da cadeira
Ou como me levantar dela.
Fiquemos nisto: estou tonto.

Afinal
Que vida fiz eu da vida?
Nada.
Tudo interstícios,
Tudo aproximações,
Tudo função do irregular e do absurdo,
Tudo nada.
É por isso que estou tonto ...

Agora
Todas as manhãs me levanto
Tonto ... Sim, verdadeiramente tonto...
Sem saber em mim e meu nome,
Sem saber onde estou,
Sem saber o que fui,
Sem saber nada.

Mas se isto é assim, é assim.
Deixo-me estar na cadeira,
Estou tonto.
Bem, estou tonto.
Fico sentado
E tonto,
Sim, tonto,
Tonto...
Tonto.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Opinião do dia: Fernando Luiz Abrucio* - Construindo uma alternativa aos extremos

O populismo não é o melhor substituto do globalismo liberal, evidentemente. O retorno a um nacionalismo pré-Muro de Berlim, combinado com discursos baseados num moralismo fascistóide – pois persegue minorias e alimenta a intolerância – e em promessas de um ´governo forte´, constitui uma fórmula que vai aprofundar a crise, em vez de resolvê-la. Para além do front interno, o modelo populista vai gerar grande instabilidade geopolítica no mundo, atingindo aquilo que a globalização obteve de estabilidade internacional, ainda que ela não se estenda a todo o planeta.

O desafio maior hoje, portanto, está em criar outra alternativa que, que passe, de um lado, por novos pactos nas democracias que garantam uma combinação ótima entre a produção de riqueza e sua redistribuição, e, de outro, por reformulações na globalização, para os aspectos positivos da integração internacional sejam acompanhados de uma redução da assimetria entre os países.

Uma possibilidade seria pensar numa socialdemocracia vinculada aos desafios do século 21. Claro que ela teria conformação diferente nos diversos espaços nacionais, levando em conta a história e a assimetria entre os países De todo modo, sua agenda seria uma renovação da ideia reformista que a instituiu: um pacto pluriclassista capaz de balancear melhor a produção capitalista com o combate à desigualdade. Foram muitas as mudanças que precisam ser levadas em consideração, com destaque para as seguintes:

- Transformações tecnológicas, que mudaram o panorama de comunicação e organização do trabalho no mundo, tornando as pessoas mais conectadas, mas também mais individualizadas;

- Transformações demográficas, com o envelhecimento da população global;

- Transformações culturais, das quais surgiram novas demandas por igualdade, em terreno como o gênero, a etnia, a orientação sexual etc.;

- Transformações na distribuição econômica da riqueza entre as nações, ampliando o mercado mundial para todo o globo, criando mais riqueza, mas produzindo novas formas de desigualdade.

*Cf. Construindo uma alternativa aos extremos: proposta de modernização do Estado brasileiro. In coletânea As esquerdas e a democracia, organizada por José A. Segatto, M. Lahuerta e Raimundo Santos. Brasília: Verbena Editora/FAP, dezembro de 2018.

G. W. F. Hegel (1770-1831) - Esboço geral do desenvolvimento histórico do pensamento filosófico

Demos uma vista de conjunto às principais épocas da história da filosofia, a fim de compreender a necessidade dos momentos fundamentais do seu desenvolvimento, cada um dos quais exprime uma ideia determinada.

Depois da fantástica filosofia oriental da subjetividade (a qual não chega à inteligência, e, por conseguinte, a nada de consistente), a luz do pensamento surge na Grécia.

A filosofia antiga pensou a Ideia absoluta, e a realização ou realidade dela consistiu em compreender o mundo atualmente presente e considerado como é em si e por si. Esta filosofia não toma como ponto de partida propriamente a Ideia, mas o objetivo como um dado, e o transforma na Ideia: o Ser de Parmênides.

1. O pensamento abstrato, o nous passa a ser conhecido como essência uni¬versal, não como pensamento subjetivo. Eis o universal de Platão.

2. Com Aristóteles surge o conceito, livre, sem prejuízos, como pensamento compreendente que percorre e espiritualiza todas as formações do universo.

3. Estóicos, epicúreos e céticos fazem valer o conceito como sujeito, o seu ser em si e devir por si: na sua abstrata separação, portanto, não como forma livre e concreta, mas sim como universalidade abstrata e puramente formal.

4. Os neoplatônicos fazem ver como o pensamento da totalidade, o mundo inteligível, é a Ideia concreta. Este princípio exprime a idealidade em geral de toda a realidade, mas não a ideia consciente de si: somente enquanto aquela ideia ocultava em si o princípio da subjetividade e da individualidade, se pode dizer que Deus como espírito se encontrava realmente na autoconsciência.

5. A Idade Moderna teve por missão compreender esta Ideia como Espírito, como ideia consciente de si. Mas para passar da Ideia consciente à consciência de si da Ideia, era necessária a oposição infinita e que a Ideia chegasse à consciência do seu absoluto contraste. Deste modo a filosofia completava a intelectualidade do mundo; e o espírito, pensando o ser objetivo, gerou um mundo espiritual como um objeto por sua natureza existente para além da realidade presente. Foi esta a primeira criação do espírito. O seu trabalho consistia a partir de agora em reconduzir este além à realidade da autoconsciência. O resultado foi que a autoconsciência se pensa a si mesma, e o pensamento absoluto ficou sendo reconhecido como a autoconsciência que se pensa a si mesma. Sobre o precedente contraste se fez valer o pensamento puro com Descartes.

A autoconsciência pensa-se agora, em primeiro lugar, como consciência: nela está contida toda a realidade objetiva, e a relação positiva e intuitiva da sua realidade à outra. Ser e pensar são para Espinosa opostos e idênticos. Espinosa alcança a intuição substancial, mas o conhecer é ainda exterior à substância. Entretanto, para superar a subjetividade do pensamento, estabelece-se o princípio da conciliação, partindo puramente do pensamento, como se certifica na atividade representativa das mônadas em Leibniz.

Entrevista - “Só crescimento com inclusão salva a democracia”, diz cientista político francês

Para cientista político francês Dominique Reynié, Brasil não distoa de onda mundial de desilusão

Por César Felício | Valor Econômico

SÃO PAULO- A desilusão com a democracia no mundo é grande e o advento de uma era de autoritarismo é um risco real, de acordo com o cientista político francês Dominique Reynié, da Science Po, que coordenou uma pesquisa sobre o tema com 36.395 entrevistas em 42 países, inclusive o Brasil. É cedo, contudo, para se apostar que a tendência é definitiva. Os números de Reynié, provenientes de levantamentos feitos pelo Ipsos entre o fim do ano passado e o início mostram que se os defensores da democracia encontrarem alguma fórmula de promover crescimento com atendimento de demandas sociais, o sistema tem chances de se regenerar.

Reynié está no Brasil para apresentar na Fundação Fernando Henrique Cardoso hoje a versão em português do levantamento. As entrevistas foram feitas entre setembro e outubro do ano passado e sua análise foi concluída em maio. No caso brasileiro, houve influência do processo eleitoral, já que a coleta de dados coincidiu com a eleição do presidente Jair Bolsonaro. A pesquisa pretende futuramente se expandir e estruturar um indicador mundial de qualidade democrática. O trabalho é fruto do esforço de três ONGs, a Fondapol, dirigida por Reynié, o norte-americano Instituto Republicano Internacional e a brasileira República do Amanhã. A Fondapol teve origem em um partido francês, hoje extinto: a UMP, criada pelo ex-primeiro-ministro Alain Juppé, alinhado ao ex-presidente Jacques Chirac. Atualmente a organização não se vincula a nenhuma força política.

Pela primeira vez na história do mundo democrático os países que mais enriquecem hoje não são democracias

Valor: Vários autores estão muito pessimistas sobre o futuro da democracia no mundo depois de 2016, com a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e do Brexit no Reino Unido. A partir do levantamento que o senhor coordenou é possível concluir que a democracia deixou de ser um consenso?

Reynié: A resposta é sim. Acredito que esta tendência começou a se delinear entre o final dos anos 80 ou começo dos 90. Houve vários fenômenos que aconteceram simultaneamente. Primeiro teve a queda do comunismo. Ainda que o fim de um sistema tirânico tenha sido uma boa notícia, desapareceu a alternativa à economia de mercado. Este elemento muito rapidamente começou a fragilizar a democracia, como se a democracia não tivesse mais a capacidade de oferecer escolhas. A segunda razão, na mesma época, foi a ascensão da China, dentro de um modelo de capitalismo de Estado. A integração da China no sistema econômico mundial que se tornou global, dominado pelo mercado. Um modelo único planetário. Ainda tem o fator tecnológico, com o surgimento da internet e posteriormente das redes sociais. Outro elemento, que talvez se aplique mais apenas a determinados países, é a questão demográfica. O envelhecimento da população cria tensões, em torno de questões como a Previdência Social. Isto causa uma disputa entre as gerações em torno da distribuição da riqueza nacional. As faixas etárias mais velhas concentram mais riqueza em detrimento das mais jovens, há aí um conflito entre gerações, que se superpõem aos conflitos de classe aos quais estávamos acostumados.

Yascha Mounk* - Partidários da democracia devem lutar por seus valores

- Folha de S. Paulo

Impressionante como o mundo parece diferente do que observadores previam dez anos atrás

Na virada do século 20, o rápido aumento do número de carruagens puxadas a cavalo preocupava muitos nova-iorquinos. Dentro de alguns anos, projetou um especialista, as ruas da cidade ficariam completamente cobertas de esterco de cavalo. Então a Ford passou a produzir o Modelo T, e os cavalos começaram a desaparecer das ruas da cidade.
À medida que esta década se aproxima de seu final melancólico, é impressionante notar como o mundo parece diferente do que muitos observadores previam dez anos atrás.
No final de 2009, Barack Obama era o presidente dos Estados Unidos. A centro-esquerda governava grande parte da Europa. Uma onda cor-de-rosa varria as ruas da América Latina. Lula parecia firmemente entrincheirado como o homem mais poderoso do Brasil.

Quanta diferença faz uma década!

Hoje o presidente dos Estados Unidos é um certo Donald Trump. Em toda a Europa os populistas de extrema direita estão em ascensão. Os líderes da onda rosa foram afastados por protestos populares, ou permanecem no poder apenas graças à opressão brutal.

Enquanto isso, no Brasil, Jair Bolsonaro está colocando a democracia do país no teste de estresse mais severo que enfrentou desde o final da ditadura.

A lição óbvia disso é que superestimamos enormemente a estabilidade do esquema do pós-guerra que moldou grande parte do mundo democrático na segunda metade do século 20 e passou a parecer invencível após o colapso da União Soviética.

Em retrospecto, foi ingênuo acreditar que qualquer sistema político seria capaz de atrair o consenso entusiástico de seus cidadãos, ou que a maioria dos países da América do Norte e da Europa Ocidental permaneceriam para sempre democracias liberais.

A ascensão do populismo e o ressurgimento da autocracia pulverizaram essas certezas. Hoje é impossível negar que muitos cidadãos, de Budapeste a Santiago e de Paris a Washington, estão profundamente decepcionados com as instituições democráticas.

Longe de ser um remanescente obsoleto do século 20, o nacionalismo continua sendo a força mais poderosa do mundo. Até as redes sociais, que deveriam inspirar a compreensão mútua e nos ajudar a transcender as fronteiras, aparentemente serviram para tornar os cidadãos de todos os cantos do mundo mais propensos à propaganda e à intolerância.

Roberto Freire* - Polarização política não é o cenário de 2022

- Porta do Cidadania 23

Ao contrário dos números de pesquisas exploratórias e comentários de alguns analistas políticos – todos eles, respeitáveis – não me parece que as eleições de 2022 estejam caminhando a passos largos para uma polarização entre Bolsonaro e um candidato do campo petista.

É muito cedo para se tirar conclusões que afirmem essa direção, as forças políticas ainda estão começando a se movimentar com mais nitidez, a avaliação de um ano de governo Bolsonaro não é boa quando comparada com presidentes da República anteriores e o PT, mesmo com Lula fora da prisão, não dá nenhuma demonstração maior de recuperação de seu fôlego eleitoral.

A polarização da política no Brasil em sua história recente, por mais paradoxal que seja, foi quebrada exatamente pela eleição de Bolsonaro. O modelo de disputa frontal iniciado em 1994, com PSDB e PT brandindo suas espadas ideológicas tortas, -não dá mais mostra que possa ser retomado, felizmente. Com a tragédia bolsonariana legitimada pelas urnas os espaços políticos se abriram e, se houver competência, poderão ser preenchidos por propostas vitoriosas mais consentâneas com a nossa história democrática e a nossa realidade.

Se voltarmos às eleições de 2018, os números indicam que naquela ocasião a polarização não ocorreu, no primeiro turno. Se Bolsonaro saiu com 46% dos votos e Haddad com 29%, houve um volume de 25% dos votos que ficaram divididos em outras alternativas, como a representada por Ciro Gomes. Como sabemos que a opção por Bolsonaro deu-se muito em função do antipetismo, podemos concluir que há uma grande massa de votos que pode fugir ao esquema pobre da polarização.

Do lado do PT, o partido não ousou, prendeu-se à estratégia de sobrevivência particular do Lula Livre, virando as costas à construção de novas alianças progressistas no país e empurrando possíveis aliados para a linha de fundo. Dificilmente terá energia para superar patamares históricos conquistados, principalmente junto à classe média e aos eleitores do centro-sul.

A situação de Bolsonaro também não é das melhores. Se toma algumas decisões para manter mobilizados algumas de suas bases – polícia, produtores rurais, extrema direita e propagadores de ideias medíocres -, no outro polo vão se acumulando insatisfações fortes junto ao mundo da cultura, aos negros, mulheres, etnias, pequenos empresários, estudantes e aos segmentos globalizados, empresariais ou não.

Ao mesmo tempo, a sua aposta tupiniquim em ser homem de Trump e fiel seguidor da sua política, demonstra ser absolutamente equivocada, pois o nacionalismo e reacionarismo do líder americano não comportam amigos nem aliados e isso deixa o governo brasileiro sem protagonismo internacional. Não se torna amigo de um presidente internacionalmente forte apenas pondo um boné com o nome dele na cabeça.

Com a sua desastrada política ambiental e ações equivocadas em política internacional, a economia tende a não deslanchar de forma efetiva e esse fato logo trará reflexos internos junto aos eleitores. A sanha privatista de Guedes, com a diabolização do Estado, embora possa acertar em alguns aspectos, não é porto seguro para os empresários e para o mercado.

Bolsonaro, ao dar amparo às teses ideológicas de ultra direita e anunciar um partido para ampará-las, distancia-se do grande campo democrático brasileiro. Muitos dos votos que lhe foram dados poderão migrar para outras alternativas que não seja o PT.

É um equívoco clamar por um centro estéril em detrimento das opções hoje colocadas, à extrema direita e à extrema esquerda. Há, sim, um enorme espaço para ser ocupado por uma proposta que saiba tirar do liberalismo a sua força para produzir riquezas com um poder público capaz de atuar numa perspectiva democrática, com políticas públicas de inclusão e da promoção da justiça social. Que mire o combate à corrupção como política permanente e que remova entulhos legais e eleitorais, permitindo que lideranças novas em idade e pensamento possam ter espaço para se apresentar à sociedade, e serem vitoriosas.

Os partidos, tal como eram concebidos, perderam a sua energia vital. Só terão protagonismo se abrirem e respeitarem os movimentos sociais, na verdade fábricas de realidades e sonhos.

Das bandas de Bolsonaro e do PT não há nada de novo e ambos mantém o Brasil fora da contemporaneidade ficando ainda como se permanentes fossem as contradições da sociedade industrial do século XX , sendo que o primeiro remete o Brasil ao século XIX e o PT à sociedade industrial do século XX. O Brasil pede uma solução para o século XXI da inteligência artificial – e ela virá.

*Roberto Freire é presidente do Cidadania e ex-deputado federal

Fernando Schüler* - O STF não é o atalho da República

- Folha de S. Paulo

Nossa Suprema Corte tem histórico bastante problemático com intervenções no mundo político

Nesta semana aconteceu em Brasília um evento que traduz bem a confusão política em que nos encontramos. O STF convocou uma audiência para discutir a hipótese das candidaturas independentes nas eleições brasileiras.

Discutiu-se de tudo por lá. De um lado, a tese da “ditadura” exercida pelos partidos; de outro, os riscos da “carnavalização” da política, caso quebrarmos seu monopólio eleitoral. No mais, uma criativa discussão sobre as chances de um “caminho” para mudar o sentido da Constituição, sem alterar o seu texto.

O debate é pertinente. A revolução tecnológica mudou a cara da democracia, os indivíduos ganharam poder, explodiram os movimentos em rede, e é bastante lógico que os partidos políticos abram espaço a novos modos de expressão política.

O Brasil pertence a um grupo minoritário de países que vedam integralmente candidaturas avulsas. Emmanuel Macron foi eleito presidente da França sem filiação partidária. Um candidato independente pode concorrer à Presidência dos Estados Unidos. Há muita coisa no mundo diferente do que o Brasil decidiu fazer. Imaginem comparar nossa legislação trabalhista com a regra laboral americana, para ficar apenas em um exemplo rápido.

Maria Hermínia Tavares* - No pior dos mundos

- Folha de S. Paulo

Governo tem horror à ciência, persegue organizações ambientalistas e desdenha da crise climática

Com o lema "Hora da ação", a 25ª Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Mudança Climática (COP-25), que acaba amanhã em Madri, se reuniu sob pressão do agravamento dramático da crise ambiental.

Cientistas do clima preveem que, para manter as coisas sob controle, é preciso que o aumento da temperatura da Terra fique em torno de 2°C nas próximas décadas, ponto além do qual o planeta ficaria exposto a gigantescas catástrofes naturais.

Em documento recente, afirmam que, para preveni-las, já não bastariam as metas de redução das emissões de carbono na atmosfera, definidas por cada país signatário do Acordo de Paris, em 2015. Será preciso um esforço mundial de mudança nas formas e usos de energia, buscando estilos de crescimento econômico que reduzam ao mínimo a utilização de combustíveis fósseis --petróleo, gás natural e carvão-- em que se baseia nosso modo de vida.

Em Madri, a discussão passou por definir regras do mercado de créditos de carbono, bem como a distribuição das responsabilidades e custos da proteção ambiental. Se a questão é complicada no âmbito da negociação multilateral, é ainda mais difícil dentro de cada país.

A proteção ambiental —e a reconversão econômica que deve acompanhá-la— tem custos presentes importantes e resultados que, por ocorrerem no futuro, são imponderáveis. As medidas necessárias podem penalizar hoje amplos setores da sociedade, a exemplo dos usuários de veículos movidos a gasolina ou diesel, quando governos optam por taxar combustíveis fósseis; ou as atividades agrícolas quando limitam o uso de agrotóxicos ou criam zonas de proteção interditadas à lavoura ou à pecuária.

Bruno Boghossian – Tenha dó

- Folha de S. Paulo

Prefeito do Rio assiste a colapso no setor há quase um ano e, agora, pede piedade

Nos primeiros dias do ano, Marcelo Crivella disse que os usuários da rede pública de saúde deveriam ter paciência. Faltavam médicos e equipamentos nos hospitais, e as organizações sociais que geriam outras unidades estavam sem receber dinheiro do município. O prefeito afirmou que havia pedido ajuda a Deus para resolver o problema.

Eleito com um slogan em que prometia "cuidar das pessoas", Crivella continuou no Palácio da Cidade pelos 12 meses seguintes, mas só conseguiu agravar o colapso no setor.

O prefeito teve o ano inteiro para resolver um problema básico de administração. Preferiu desperdiçar o tempo com apelos populistas, como o envio de escavadeiras para destruir uma praça de pedágio na zona oeste ou a censura abjeta a uma história em quadrinhos na Bienal.

Luiz Carlos Azedo - Greta, a “pirralha”

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“Bolsonaro não é o primeiro chefe de Estado a se sentir incomodado com a jovem, que desagrada muita gente com seu discurso apocalíptico e já foi até chamada de “histérica” pelo presidente Donald Trump”

O presidente Jair Bolsonaro voltou a chamar de “pirralha” a ativista sueca Greta Thunberg, ao receber homenagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em Brasília, tentando ridicularizar a adolescente de 16 anos. Segundo ele, a jovem deu um “showzinho” na Conferência do Clima das Nações Unidas (COP25), realizada em Madri. No mesmo dia, porém, Greta foi eleita a personalidade do ano pela revista Time, por inspirar movimentos estudantis de todo o Ocidente na luta contra o aquecimento global e em defesa da natureza. Ela é a mais jovem contemplada com o título.

“Tem até uma pirralha que tudo o que ela fala a nossa imprensa, oh, nossa imprensa, pelo amor de Deus, dá um destaque enorme. Ela está agora fazendo seu showzinho lá na COP25”, disse Bolsonaro. Em Madri, pouco antes, Greta havia acusado líderes políticos e empresariais de preferirem cuidar de suas próprias imagens a tomar medidas agressivas na luta contra as mudanças climáticas. Disse também que as ambiciosas metas de redução de emissões são uma “enganação” e que “nada está sendo feito” para evitar uma catástrofe climática.

Greta Thunberg, nascida em 3 de janeiro de 2003, é um ponto fora da curva. Filha e neta de artistas, sua mãe é a cantora de ópera Malena Ernman, que representou a Suécia no Festival Eurovisão da Canção de 2009. Seu pai é o ator Svante Thunberg, filho do ator e diretor Olof Thunberg e da atriz Mona Andersson. A jovem tem síndrome de Asperger, TDAH, transtorno obsessivo-compulsivo e mutismo seletivo. Greta, porém, conseguiu ultrapassar esse problema, partindo do princípio de que “ser diferente é um superpoder”, dependendo das circunstâncias.

Greta era mesmo uma “pirralha” quando percebeu, com 8 anos de idade, que as mudanças climáticas existiam e ficou imaginando o motivo de isso não ser manchete em todos os canais, como acontece com as guerras. Em agosto de 2018, Greta Thunberg resolveu abandonar as aulas para protestar, próxima ao parlamento sueco, exigindo mais ações para mitigar as mudanças climáticas por parte dos políticos de seu país. Estudantes de outras comunidades se organizaram para protestos semelhantes.

Mais tarde, numa conferência em Londres, disse que não foi à escola para se tornar uma cientista do clima, como alguns sugeriram, porque a ciência chegou aos seus objetivos e somente restaram a negação, a ignorância e a inatividade. Terraplanistas e autoridades que negam o aquecimento global, como o presidente Donald Trump, parecem dar razão à menina, que ganhou notoriedade por uma abordagem igualmente radical na narrativa em defesa do meio ambiente.

Ricardo Noblat - Moro, de ministro da Justiça do Brasil a advogado de Bolsonaro

- Blog do Noblat | Veja

Uma visão estreita do cargo

Em 1992, a poucos meses da abertura do processo de impeachment contra o presidente Fernando Collor, suspeito de corrupção, o deputado Benito Gama (BA), presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito que apurava o caso, foi chamado para uma audiência com o ministro Célio Borja, da Justiça.

Ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, no cargo desde abril, Borja fora deputado federal eleito pelo Rio e presidente da Câmara por duas vezes. Era respeitado como político, jurista e professor da Universidade do Estado do Rio. Apoiara o golpe militar de 64. O que ele queria conversar àquela altura com Benito?

Desconfiado, o deputado teve o cuidado de avisar antes aos seus principais pares da Comissão que iria ao encontro de Borja. E foi preparado para ouvir dele algum pedido que pudesse favorecer Collor. Borja o recebeu sozinho. A audiência durou o suficiente para Borja informar ao deputado mal ele se sentou à sua frente:

– Chamei-o para dizer que sou o ministro da Justiça do Brasil. Não sou advogado do presidente.

E mais não disse. Levantou-se, apertou a mão de Benito e acompanhou-o até a porta de saída.

Se restava ainda alguma dúvida sobre o que faz o ex-juiz Sérgio Moro no governo Bolsonaro, ela evaporou-se, ontem, quando o ministro escreveu em sua conta no Twitter que só receberia em audiência o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz, quando ele mudasse de postura.

William Waack - Fundo esquizofrênico

- O Estado de S.Paulo

Indignação com fundo eleitoral disfarça opção por não se resolver um problema sério na política

Não importa qual acabe sendo o tamanho do fundo eleitoral para as eleições de 2020 – se R$ 2,5 ou R$ 3,8 bilhões ou qualquer coisa no meio – as reações no público em geral serão as mesmas. Naturais e compreensíveis, e a saber: indignação e repúdio pelo fato de a detestada classe política enfiar a mão ainda mais no bolso do contribuinte (para as eleições de 2018, o fundo eleitoral levou R$ 1,7 bilhão de dinheiro público).

Há duas percepções generalizadas na sociedade brasileira que convergem para tornar realmente esquizofrênica a questão do financiamento de campanhas eleitorais. A primeira é a ideia de que a corrupção seria o maior problema do País (infelizmente, é um enorme problema, mas nem chega a ser o pior). A segunda é a de que toda doação por CNPJ para campanhas eleitorais é um gesto de compra da democracia – portanto, de corrupção.

O processo de formação dessas disseminadas percepções é longo, mas se intensificou com o êxito da Lava Jato em desvendar esquemas bilionários de desvio de dinheiro público, envolvendo entes públicos (funcionários de estatais e administração pública) e privados (partidos políticos e empresas). Quando não foi para enriquecimento pessoal (um “efeito colateral” da coisa toda, digamos), a roubalheira se destinava sobretudo a financiar campanhas político-partidárias.

José Serra* - Criminalizando a política fiscal

- O Estado de S.Paulo

É preciso compreender os detalhes da PEC 186 antes de aprovar o texto do jeito que está

A sociedade brasileira ficou mais atenta à difícil situação das contas públicas depois de enfrentar uma das maiores contrações econômicas da nossa História. Paralelamente, vem ganhando mais atenção a agenda legislativa voltada para as condições financeiras do Estado, tornando-o mais capacitado para investir e entregar serviços públicos de qualidade.

As medidas anunciadas pelo governo para enfrentar o desequilíbrio fiscal devem ser analisadas com cautela e sem maiores impulsos ideológicos. Corre-se o risco de criar um estado de emergência fiscal que criminalizaria o avanço de qualquer agenda social no Congresso. Paradoxalmente, o “pacotaço” endossado pela equipe econômica se choca com a própria agenda do Poder Executivo na área da saúde e do emprego.

Para lidar com os desajustes no Orçamento o Ministério da Economia faz uma aposta do tipo all-in – tudo ou nada – no teto de gastos, introduzido na Constituição pelo Congresso em 2016 para limitar o crescimento da despesa pública. A regra do jogo é simples: se a despesa crescer a um ritmo acima da inflação, o poder público ficará submetido a um conjunto de medidas de controle de gastos conhecidas como “gatilhos fiscais”.

Zeina Latif* - Balança de riscos

- O Estado de S.Paulo

Agora, BC deve avaliar fatores que poderão gerar desvios da inflação em relação à meta

Mais uma decisão do Banco Central de reduzir a taxa Selic, fixando-a em inéditos 4,5% ao ano, e possivelmente interrompendo o ciclo de cortes. A questão é por quanto tempo será possível manter esse patamar. A própria autoridade monetária reconhece que os níveis atuais dos juros equivalem a colocar o pé no acelerador da economia. Em algum momento será necessário normalizar a política monetária, ou seja, colocar os juros no ponto morto, para evitar o descumprimento da meta de inflação no futuro. A boa notícia é que o ponto morto (taxa de juros estrutural) é certamente muito mais baixo do que no passado, algo em torno de 7%.

Daqui para frente, o Comitê de Política Monetária (Copom) estará cada vez mais atento àquilo que os economistas chamam de balanço de riscos de inflação. Trata-se de uma avaliação dos fatores que poderão gerar desvios da inflação em relação à meta. Quando os riscos de alta crescem, o BC eleva os juros, mesmo que a inflação ainda esteja em níveis confortáveis, como os atuais. Isso porque a política monetária afeta a inflação de forma defasada. A inflação de hoje é resultado de decisões tomadas há pelo menos nove meses.

Cristian Klein - O lobo e a pirralha

- Valor Econômico

Ao criticar a ativista sueca Greta Thunberg, Bolsonaro se esmera em ser vilão numa escala global

Pela lenda política que atravessou o século 20, comunistas comiam criancinhas. Bolsonaro tem feito um governo altamente ideológico apontado como sinal invertido do que abomina. Pode ser, e tem sido, acusado de quase tudo - misógino, homofóbico, racista, defensor da tortura, amigo de milicianos - mas não, ainda, de canibalismo infantil. Mas não perdeu a oportunidade de abrir a boca grande para discutir com uma adolescente de 16 anos, com jeito de menina, que se tornou símbolo mundial de consciência e ativismo ambiental.

Um dia depois de ser chamada de “pirralha” pelo presidente tupiniquim, a sueca Greta Thunberg foi eleita a personalidade do ano pela revista americana “Time”. Acostumado a ofender e tripudiar de adversários, Bolsonaro acha que pode tirar doce de uma criança, mas foi a garota escandinava que tornou seu comentário uma piada. Greta fez pilhéria e adotou no Twitter a descrição supostamente pejorativa conferida pelo brasileiro. Saiu por cima e tirou sarro no embate com o líder de um país que não leva a sério a liturgia do cargo.

Com muito empenho, Bolsonaro tem se esforçado em entrar para a história como uma caricatura presidencial. Uma mistura de autocrata terceiro-mundista e pouco ilustrado com personagem de ficção. Seria cômico - como o general de “O ditador” (2012), do comediante Sacha Baron Cohen - não fosse trágico. É vilão de história em quadrinho para o feminismo, para os movimentos negro e LGBT, para os defensores dos direitos humanos, da educação, da cultura, da ciência, da imprensa livre, do meio ambiente... Esforça-se em sê-lo não apenas no nível nacional ou regional.

Merval Pereira - Contra a ONU

- O Globo

O presidente da Câmara está agora na Europa, para encontros com dirigentes de várias agências internacionais ligadas à ONU

O samba do diplomata doido continua dominando nossa política externa, a ponto de o presidente da Câmara Rodrigo Maia ter tomado a si a tarefa de contatar autoridades internacionais para aparar arestas.

A ida à Argentina, para uma reunião com o presidente eleito Alberto Fernández antes da posse foi bem sucedida por caminhos tortos. A primeira reação de Bolsonaro foi irritar-se, e desistir até mesmo de mandar como seu representante o ministro da Cidadania Osmar Terra, que já era uma representação abaixo da tradição com nosso principal vizinho.

De representante nenhum, o presidente ouviu ponderações - que não devem ter saído do Itamaraty - para elevar o grau da representação brasileira à posse, enviando o vice-presidente Hamilton Mourão.

O presidente da Câmara está agora na Europa, para encontros com dirigentes de várias agências internacionais ligadas à ONU, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), dirigida pelo brasileiro Roberto Azevedo, a Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a OMPI, Organização Mundial de Propriedade Intelectual.

Ascânio Seleme – Pirralho

- O Globo

Bolsonaro transformou-se em objeto de chacota mundial

Segundo o porta-voz do Palácio do Planalto, a palavra usada na terça-feira pelo presidente da República para se referir à jovem ativista ambiental Greta Thunberg tem significado diferente do entendido pela imprensa. Rêgo Barros disse que “pirralha” significa “criança ou pessoa de pequena estatura”. Muito bem, valendo-se dos sentidos das palavras que estão nos dicionários ou que deles transcendem, pode-se usar o mesmo termo para designar o chefe do porta-voz.

Bolsonaro é um pirralho. Claro que ele não é uma criança, apesar de suas constantes birras e sucessivos beicinhos. Mas trata-se, sim, de uma pessoa de pequena estatura. Segundo o dicionário, a palavra estatura significa altura e porte, ou grandeza e relevância. Obviamente o presidente, a despeito do cargo que ocupa, é uma pessoa que não consegue se destacar pela sua relevância. Ao contrário, em menos de um ano no cargo transformou-se em objeto de chacota mundial.

Sua história parlamentar também retrata o percurso de um pirralho. Ele passou sete mandatos de deputado federal no baixo clero da Câmara. Fora suas grosserias rotineiras, nada do que fez ao longo de 28 anos teve qualquer relevância ou consequência política. Foi um parlamentar de pequena estatura do começo ao fim da sua carreira. Num dos momentos mais cruciais da história nacional, na votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, foi ao microfone do plenário render elogios a um torturador.

Não vale a pena enumerar os diversos episódios que provam a dimensão do presidente no seu primeiro ano de mandato. Serviria apenas para cansar o leitor. Usando unicamente a agressão à jovem ativista sueca é fácil mostrar como Bolsonaro é pequeno. Greta havia dito que “os povos indígenas estão literalmente sendo assassinados por tentar proteger a floresta do desmatamento ilegal”. E o que ele fez ao ser indagado sobre o episódio, uma vez que Greta se referia a índios guajajaras mortos no Maranhão?

Bernardo Mello Franco - Ascensão e queda da juíza durona

- O Globo

Na onda da Lava-Jato, uma juíza com fama de durona virou campeã de votos em Mato Grosso. Enquanto bradava contra a corrupção, ela era investigada por caixa dois

O jingle de campanha apostava na fama de durona: “Com pulso forte, pôs bandido no xadrez / Do sul ao norte, ninguém faz o que ela fez”. No ano passado, a juíza Selma Arruda virou fenômeno eleitoral em Mato Grosso. Na onda da Lava-Jato, tornou-se a senadora mais votada do Estado.

A doutora se transformou em celebridade ao mandar políticos para a cadeia. A imprensa local passou a chamá-la de “Sergio Moro de saias”. Ela gostou do apelido e estimulou as comparações com o colega de Curitiba. A seis meses da eleição, pendurou a toga e se filiou ao PSL de Jair Bolsonaro.

Eleita, Selma continuou a investir na pregação moralista. Em março, disse ter “vergonha” do Supremo Tribunal Federal e passou a militar pelo impeachment de ministros da Corte. A proposta não teve apoio oficial do governo, mas abriria novas vagas a serem preenchidas pelo presidente.

Míriam Leitão - A era dos juros reais perto de zero

- O Globo

Juros reais abaixo de 1% reduzem o custo da dívida, estimulam o crédito e alteram os portfólios de poupança e investimento

O Banco Central reduziu os juros para 4,5%, que não é apenas a taxa mais baixa da história, é um nível nunca imaginado. Isso significa que o país está agora com uma taxa real de juros menor que 1%. A inflação tem recebido o impacto do dólar, dos combustíveis e da disparada da carne, mas apesar disso os economistas não veem risco com essa Selic tão baixa porque o IPCA ainda está abaixo do centro da meta.

O mercado já esperava a queda dos juros e estava de olho nos sinais que o BC daria para os próximos movimentos. Há quem no mercado considere que os juros ainda poderão cair no ano que vem para 4,25% ou até 4%. O professor Luiz Roberto Cunha, da PUC-RJ, acha que o melhor agora é parar e esperar. Mas ele concorda que a decisão de ontem, de reduzir para 4,5%, fazia sentido. Era o BC usando uma “janela de oportunidade”. No comunicado pós-reunião, o BC argumentou que a economia ganhou tração, mas que daqui para frente é preciso “cautela”. No mercado, houve quem achasse que a Selic pode cair mais 0,25% e quem enxergasse o fim do ciclo de cortes.

A pressão de preços neste fim de ano aumentou, mas ela está concentrada em alguns produtos apenas. O IPCA em novembro foi o maior para o mês em quatro anos, 0,51%. O grande vilão foi a carne que subiu 8%. No atacado, o IGP-M chegou a 7% de alta acumulada em 12 meses. Isso pode afetar aluguéis, ou alguns contratos, mas tudo vai depender do ritmo da atividade. Ainda há muita ociosidade na economia, dificultando o repasse. O mercado de aluguéis está deprimido, induzindo mais à negociação em torno do reajuste.

O que a mídia pensa – Editoriais

A ampliação do Bolsa Família – Editorial | O Estado de S. Paulo

O governo de Jair Bolsonaro prepara uma ampliação do Bolsa Família. A julgar pelo que vem sendo noticiado, não será um aumento qualquer. O Estado informa que o novo programa, se implementado, passará a atender jovens de até 21 anos – hoje, o limite é de 17 anos – e terá um reajuste ainda não definido na média dos benefícios, atualmente em R$ 189,21 por família. Além disso, o plano incluiria um benefício para servir de prêmio a crianças de baixa renda que tenham bom desempenho em competições escolares, como as olimpíadas de matemática.

Não se sabe ainda qual será o impacto orçamentário da iniciativa, proposta pelo Ministério da Cidadania. Fala-se em algo em torno de R$ 16,5 bilhões a mais num orçamento de R$ 29,5 bilhões para o Bolsa Família no ano que vem, mas a equipe econômica está reticente – garante apenas R$ 4 bilhões adicionais, conforme apurou o Estado. O governo ainda não definiu de onde pretende tirar os recursos necessários para a imaginada expansão do Bolsa Família.

Música | Zeca Pagodinho e Marisa Monte - Preciso me encontrar

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Brinde no banquete das musas

Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida

Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.

Poesia sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.

Poesia, sobre o telúrio,
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva...
Poesia, morte secreta.