terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Opinião do dia – Norberto Bobbio*

Aqui preciso que a concepção negativa em Marx é ainda mais evidente se comparada com aquela extremamente positiva de seu grande predecessor e antagonista, Hegel. Quanto à relação entre sociedade civil e estado, a posição de Marx é antitética à de Hegel: para Hegel, o estado é “racional em si e para si”, o “deus-terreno”, o sujeito da história universal: em suma, o momento final do Espírito Objetivo; como tal, é a superação das contradições que se manifestam na sociedade civil. Para Marx, ao contrário, o estado é tão só o reflexo destas contradições, não sua superação, mas sua perpetuação. Não só para Hegel, resto, mas para a maior parte dos filósofos clássicos, o estado representa um momento positivo na formação do homem civil, O fim do estado é ora a justiça (Platão), ora o bem comum (Aristóteles), ora a felicidade dos súditos (Leibniz), ora a liberdade (Kant), ora a máxima expressão do ethos de um povo (Hegel). O estado, de praxe, é considerado como a saída do homem do estado de barbárie ou do estado de natureza caracterizado pela guerra de todos contra todos, como domínio da razão sobre a paixão, da reflexão sobre o instinto.

*Norberto Bobbio (1909-2004). “A Teoria das formas de governo”, p. 182, 1ª edição. Edipro, 2017 (tradução de Luiz Sérgio Henriques).

Josias de Souza - Huck encara sucessão de 2022 como ‘maratona’

Blog do Josias | Uol

Candidato não declarado ao Planalto, o apresentador Luciano Huck, da TV Globo, compara seu projeto presidencial com uma corrida de longa distância. "Ele diz: 'Tenho que ter cuidado, porque isso é uma maratona", conta Roberto Freire, presidente do Cidadania, partido que ambiciona a filiação de Huck.

Numa maratona, o corredor precisa combinar força física e equilíbrio mental. Quem se deixa levar pela ansiedade, apressando demais o passo na largada, arrisca-se a perder o fôlego antes de cruzar a linha de chegada. "Ele está certo. Faltam três anos para a eleição. Não tem razão para se precipitar", aprova Freire.

No caso de Huck, a ausência de pressa não se confunde com inação. Ao contrário, ele segue uma estratégia metódica. Na prática, realiza uma campanha invisível. Percorre o país, reúne-se com lideranças comunitárias locais, apoia movimentos apartidários de formação política e articula-se com um seleto grupo de políticos e formuladores de políticas públicas.

Nos últimos meses, Huck conversou com políticos de quatro partidos: Cidadania, PSDB, DEM e Podemos. Em privado, alguns dos interlocutores declaram-se impressionados com a desenvoltura do personagem. Os mais impactados avaliam que o astro de TV reúne potencial para se firmar como novidade em meio à polarização que opõe Jair Bolsonaro e Lula.

• Alternativa à polarização
No inicio de novembro, Huck reuniu-se em Brasília com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM. Já havia conversado com o presidente da legenda, Antônio Carlos Magalhães Neto, prefeito de Salvador. Ao trocar ideias com os correligionários, Maia disse apostar que a sociedade vai se cansar da disputa entre polos extremos.

O DEM sonha com a candidatura de Maia, mantém um pé na canoa do governador paulista João Doria (PSDB) e tem três filiados na equipe ministerial de Bolsonaro. Mas o presidente da Câmara avalia que, se a economia não deslanchar, o eleitor pode encontrar em Huck a novidade que procurava ao optar por Bolsonaro na sucessão de 2018.

Roberto Freire faz a mesma aposta: "A sociedade vai fugir da polarização. Não dá mais para votar num candidato apenas para evitar o outro. Isso é um desastre para o país. É preciso construir uma alternativa que expresse o desejo de votar em algo mais construtivo. O Huck reúne as condições para representar esse desejo".

Merval Pereira - Um século antecipado

- O Globo

Nesses 11 meses de governo, Bolsonaro já quis se livrar de Moro, mas verificou que seria uma perda considerável para seu apoio popular

O que já circulava como rumor nos grupos políticos mais próximos do presidente Jair Bolsonaro, ontem virou realidade. Em entrevista ao Estadão, o articulador político do Palácio do Planalto, o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, disse que uma chapa de reeleição com o ministro Sérgio Moro de vice “seria imbatível” na disputa de 2022. “Ganhava no primeiro turno, disparado”, avaliou.

Não é a primeira vez, antes de completar um ano de mandato, que Bolsonaro, que garantira na campanha ser contra a reeleição, aparece nas especulações de seu entorno, e nas suas próprias, como candidato. Mas, como costuma dizer o presidente da Câmara Rodrigo Maia, daqui a até 2002, em política, falta “um século”.

O tempo da política nada tem a ver com o calendário gregoriano, assim como o tempo da economia costumeiramente depende da situação política, e vice-versa. No momento, o governo Bolsonaro vive esse dilema. A perspectiva política é sombria em grande parte dos países, em especial aqui na América do Sul, e por isso o presidente orientou seu ministro da Economia Paulo Guedes a suspender temporariamente as reformas.

Carlos Andreazza - Paulo Guedes está irritado

- O Globo

Talvez já não se sinta um superministro

As revoltas recentes na América Latina, sobretudo no Chile, têm servido como desculpa para justificar tanto o ímpeto autocrático do bolsonarismo — o recrudescimento, por exemplo, do discurso que legitima algo como um novo AI-5 caso evento parecido ocorresse no Brasil — quanto as dificuldades do governo Bolsonaro, especialmente em matéria econômica.

Diga-se que ninguém se valeu mais deste recurso — da muleta do quebra-quebra chileno —do que Paulo Guedes.

As rebeliões no continente, aliás, iluminaram o que havia muito estava nu: que o ministro jamais poderia ser agente educador-moderador do presidente-imperador, e pelo fato de que o Posto Ipiranga sempre esteve muito mais próximo da mentalidade bolsonarista, com sua vocação para o conflito e a ruptura, que do lugar de equilíbrio institucional fetichizado por empresariado e mercado financeiro.

As rebeliões no continente — à luz do que manifestam nossos governantes — deveriam nos lembrar de que não há uma tradição democrática no Brasil, e que os limites definidos pela democracia tendem mais a incomodar que confortar. Guedes está irritado. Reage não se opondo — não raro oferecendo tortuosos argumentos — aos que surfam a tentação de atribuir os percalços da agenda reformista liberal ao que seriam excessos da democracia. Seria mais fácil com menos — já nos ensinou Carlos Bolsonaro.

Nas palavras de Guedes, somente na semana passada, as convulsões na América Latina tentaram autorizar uma aberração inconstitucional — excludente de ilicitude em operação de Garantia da Lei e da Ordem — e aliviar a carga de uma constatação: a de que seu programa de reformas estruturais parou. Por ordem do presidente: parou.

Edmar Bacha* - Liberalismo tropical

- O Globo

Não há como arguir que a abertura comercial deva ser feita apenas depois da redução do custo Brasil

Em reunião com representantes da indústria química, o ministro Paulo Guedes disse que “não vamos soltar a indústria estrangeira em cima da indústria nacional antes de nós simplificarmos impostos... É uma abertura gradual... e vai ser feita em cima de energia barata, de custos de logísticas mais baratos”.

Em artigo no GLOBO (27/11), Rubens Penha Cysne adverte que “determinadas reformas podem sempre ser contraproducentes se implantadas na ausência de outras que naturalmente as complementem. Por exemplo, abertura econômica sem que se complete minimamente o dever de casa da infraestrutura e do sistema tributário”.

O que surpreende é que tanto Guedes como Cysne defendem a abertura, porque sabem que ela é essencial para o Brasil se tornar um país rico. Não obstante, no atual governo ela vai ficando para as calendas, para quando tivermos uma infraestrutura supimpa e um sistema tributário de primeiro mundo.

Essa postura não tem respaldo nem na teoria nem na prática. Tomemos a questão da deficiência da infraestrutura, parte integrante do “custo Brasil”, que faria os preços dos produtos brasileiros se tornarem maiores dos que os de nossos parceiros comerciais. Se isso fosse verdade, e houvesse abertura, raciocinando por absurdo, o Brasil pouco exportaria, e haveria uma avalanche de importações.

José Casado - Jair Bolsonaro triplica a aposta

- O Globo

Presidente usa os índios num jogo institucional de alto risco

Jair Bolsonaro resolveu flertar com a possibilidade um choque com o Supremo e o Congresso. Simultaneamente. Insiste em testar os limites institucionais usando, como instrumento, a desmontagem do sistema jurídico de proteção aos direitos da população indígena.

É sua terceira tentativa, em 11 meses, de reescrever na prática o trecho da Constituição que reconhece aos índios “organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”.

No primeiro dia de governo, Bolsonaro transferiu ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos a gestão dos direitos indígenas. Repassou a Funai e a demarcação de terras para a Agricultura. Fez isso numa Medida Provisória (nº 870).

Bernardo Mello Franco - Um símbolo da desigualdade

- O Globo

Em 2004, uma foto aérea transformou Paraisópolis em símbolo da desigualdade brasileira. Quinze anos depois, a favela passa a ser marcada pela violência policial

De um lado do muro, um edifício de luxo, com duas quadras de tênis e uma piscina por andar. Do outro, dezenas de barracos com tijolos aparentes, espremidos pela geografia caótica das favelas.

Em 2004, a foto de Tuca Vieira transformou Paraisópolis num símbolo da desigualdade brasileira. Quinze anos depois, a favela paulistana passa a ser associada à violência policial na periferia.

Uma operação da PM na madrugada de domingo terminou com nove jovens mortos. As vítimas tinham entre 14 e 23 anos. Estavam num baile funk, interrompido com bombas de gás e balas de borracha.

Os exames de necropsia ainda vão verificar se os jovens morreram pisoteados, como sustenta a versão oficial. Mesmo assim, já se sabe que a tragédia foi provocada por uma ação desastrada, que mostrou despreparo e truculência da polícia.

O baile reunia cerca de 5 mil pessoas. A pretexto de prender dois suspeitos, os PMs provocaram pânico e encurralaram a multidão. Quem tentou fugir do tumulto foi agredido com golpes de cassetete. Moradores filmaram o espancamento de jovens caídos.

Míriam Leitão - Por ironia, inimigo dos EUA somos nós

- O Globo

O ataque de Trump ao Brasil é um choque de realidade para o governo Bolsonaro. Países têm interesses, e não amigos ideológicos

O setor do agronegócio dos Estados Unidos é o que mais está sentindo o efeito da guerra comercial criada pelo presidente Trump contra a China. Por isso, ontem, ele inventou um inimigo externo, tática que sempre usa para camuflar seus erros. Desta vez, o inimigo somos nós. E conosco, por ironia, está a Argentina. Os dois países estariam, na delirante explicação de Trump, desvalorizando a moeda deliberadamente para aumentar suas exportações. E de novo mira no aço e no alumínio que já enfrentaram barreiras no governo dele.

Esse é o estilo Trump. Ele cria uma crise contra outros países, dá aos produtores americanos a impressão de que está agindo, e depois faz da retirada do problema, que ele mesmo criou, a sua vitória. Caberá à diplomacia brasileira defender os interesses do Brasil. Ela poderá constatar neste caso o que tem sido dito por todos os analistas que entendem de diplomacia e de comércio exterior, sobre a natureza das relações internacionais.

O que Trump mostrou ontem ao governo Bolsonaro é que países têm interesses e não amigos ideológicos. A resposta de Bolsonaro de que ligaria para ele porque são amigos é patética, tanto que no final do dia já tinha recuado. É preciso ter uma resposta formulada de maneira estratégica. Trump tudo faz de caso pensado e numa entrevista, depois dos ataques matinais no Twitter, voltou a falar contra o Brasil, argumentando que a desvalorização cambial estaria sendo “muito injusta para os nossos industriais e muito injusta para os nossos fazendeiros”.

Luiz Carlos Azedo - Tragédia na vida banal

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“A repressão policial às manifestações culturais da periferia não é eficaz, apenas amplia a base social do crime organizado. Se fosse, não existiria mais pancadão em São Paulo”

Notável geógrafo, o falecido professor Milton Santos era um observador arguto da vida banal nas periferias do mundo, ou seja, o dia a dia dos cidadãos afetados pela globalização, com suas desigualdades e grande exclusão. Dedicou a vida a analisar sua época, com um olhar crítico sobre o atual modelo de relações internacionais, constituído entre 1980 e 1990, e que está sendo posto em xeque tanto no centro como nas periferias do mundo.

Sua geografia desenvolveu novos conceitos sobre espaço, lugar, paisagem e região, nos quais o fator humano tem um papel central. Sempre pôs uma lupa no uso político dos territórios para compreender o desenvolvimento. Teria hoje 93 anos se fosse vivo e, com certeza, do alto da pilha dos seus 40 livros publicados e com o prestígio de doutor honoris causa em mais de 20 universidades do mundo, seria mais uma voz a subir o tom diante da tragédia deste fim de semana em Paraisópolis, a maior favela de São Paulo.

Dizia que a captura das políticas públicas pelos grandes interesses privados acaba por deixar ao relento o cotidiano da população de baixa renda, que se vê obrigada a buscar alternativas de sobrevivência numa espécie de beco sem saída social, porque esses interesses estavam mais voltados para o lucro do que para os objetivos das políticas urbanas e sociais. Segundo ele, a vida banal é desprezada pelo poder público e, no espaço urbano onde essa ausência é maior, surgem as soluções improvisadas, as transgressões e a economia informal (o gás, a gambiarra, o gatonet, a proteção a agiotagem etc.), que muitas vezes acaba capturada pelo crime organizado, que achaca, chantageia e mata, seja ele o tráfico de drogas, sejam as milícias.

Ricardo Noblat - Doria, um governante sem compaixão

- Blog do Noblat | Veja

A chacina de Paraisópolis
A falta de experiência política foi um trunfo usado por João Doria para se eleger prefeito e governador de São Paulo em menos de quatro anos. Pois ela agora se voltou contra ele depois da chacina que deixou nove mortos e 12 feridos na favela de Paraisópolis, a maior da capital paulista, onde moram cerca de 100 mil pessoas.

Somente um político amador, e também insensível, agiria como ele agiu e diria o que ele disse quando ainda jaziam insepultos os corpos dos jovens entre 14 e 23 anos que tentavam escapar com vida da fúria de policiais despreparados. Ou melhor: da fúria de policiais preparados para bater e matar se necessário ou não.

Ao invés de reagir com indignação ao que aconteceu e que poderá lhe custar a carreira, Doria disse sobre a chacina, uma espécie de mini Carandiru que manchará sua biografia para sempre:

“A letalidade foi provocado por bandidos e não pela polícia, tanto que o baile continuou. Nem deveria ter sido realizado. A polícia segue rigorosamente todos os protocolos. Não significa que seja infalível, mas a política de segurança pública não vai mudar.”

E foi em frente no mesmo tom:

Paulo Hartung* - A reforma do Estado e a refundação do Brasil

- O Estado de S.Paulo

É preciso reconstruir a nossa máquina governativa, em todos os seus estratos

A impositiva mudança de rumo na História do Brasil passa necessariamente pela refundação do Estado. Para entrarmos no trilho que nos poderá levar a um caminho de prosperidade compatível com nossas potencialidades é preciso reconstruir a máquina governativa, que, ao longo dos séculos, dá prioridade ao patrimonialismo e ao privilégio, desviando-nos do caminho da igualdade de oportunidades, da inclusão social e do desenvolvimento socioeconômico sustentável.

A dramática realidade de desigualdade e baixa mobilidade social remonta a uma sociedade constituída sobre o colonialismo e o escravagismo. Construímos um país que ostenta distância abissal entre quem tem acesso à instrução e aos bens e serviços do progresso e os empobrecidos que quase nada têm para subsistir e cuja possibilidade de ascender a outra posição socioeconômica é quase nula.

Isso tem muito que ver com a estrutura de Estado que vem sendo historicamente montada. Para não nos afastarmos muito na linha do tempo, basta olhar para o getulismo, a ditadura militar e a Constituinte de 1988 e perceberemos o vulto fortalecido de um Estado concentrador de renda e de oportunidades, e perversamente promotor de desigualdades.

Eliane Cantanhêde - Infernópolis

- O Estado de S.Paulo

Nove jovens mortos. Mas, com o excludente de ilicitude, vai ficar ainda mais macabro

Ao se transformar em Infernópolis, Paraisópolis confirma várias certezas num momento em que os governos e um lado doentio da sociedade aprovam e estimulam armas, polícias violentas e matanças de criminosos a qualquer custo. Não faltam “cidadãos do bem” pregando, sem um pingo de pudor, que “bandido bom é bandido morto”. Mas não são os bandidos, ou não só eles, que estão morrendo.

A palavra de ordem vem do próprio presidente da República e dos seus filhos, vai descendo para os governadores, atinge as secretarias de Segurança e, claro, chegam à ponta: os próprios policiais, que são pagos para defender vidas humanas e acabam virando ameaças à sociedade. Não raro, cidadãos e cidadãs acabam tendo tanto medo do policial fardado quanto do bandido que surge do nada.

As investigações continuam para estabelecer responsabilidades e circunstâncias, mas o fato nu, cru e cruel em Paraisópolis é que nove jovens, entre 14 e 23 anos, morreram de maneira estúpida e inadmissível numa invasão policial num baile funk de fim de semana. Mais uma vez, como já é corriqueiro no Rio, por exemplo, nove famílias, uma comunidade, uma cidade, um Estado e um país sofrem a dor da morte, da violência, do descaso com a vida. E por quem? Por agentes do Estado, pagos inclusive pelos pais, mães, amigos e vizinhos das vítimas de Paraisópolis.

Ana Carla Abrão* - Democracia e justiça social

- O Estado de S.Paulo

Se por um lado os governos petistas passaram mais de uma década distribuindo benesses particulares – de forma mais ou menos republicanas –, o presidente Bolsonaro, orgulhoso representante da direita, hoje vacila em avançar nas correções

Há dois temas que deveriam ser capazes de unir os extremos políticos de um país como o Brasil: o combate às desigualdades sociais e a defesa da democracia. Afinal, são esses os alicerces para que justiça social e garantia das liberdades e direitos individuais estejam sempre protegidos. Mas nem esses, que são conceitos universais, têm gerado a convergência necessária para o nosso avanço.

Justiça social não combina com defesa de grupos específicos de interesse e não conversa com a proteção de privilégios – nem à direita e nem à esquerda. E se houve algo a que o nosso país se acostumou ao longo dos últimos anos foi com uma perversa combinação de clientelismo e patrimonialismo, extraindo o pior do que um Estado pode ser para os seus cidadãos. Essa combinação gerou um Estado ineficiente, pouco efetivo e que reforça as diferenças econômicas e sociais e coloca a população refém do seu próprio governo. Nesse contexto, as forças políticas tendem a ceder às pressões de alguns grupos e a defender políticas públicas e práticas que pouco fazem pelo interesse geral, mas muito agradam a alguns poucos privilegiados. Reformas estruturais são relegadas e condenam o País a um crescimento medíocre. Mas garantem-se votos para as próximas eleições, reforçando o mesmo ciclo.

Pedro Fernando Nery* - Inflacionista nutella

- O Estado de S.Paulo

Enquanto os mais ricos se protegem com aplicações financeiras, os mais pobres não possuem instrumentos para se defender da 'ditadura' da hiperinflação; a concentração de renda piora

Chama-se Teoria Monetária Moderna (MMT, na sigla em inglês). Desconhecida até pouco tempo, ganhou notoriedade por parlamentares mais à esquerda no Partido Democrata americano, como Ocasio-Cortez e Bernie Sanders. Oferece a prescrição dos sonhos para qualquer político: em linhas gerais, o governo poderia gastar sem precisar aumentar impostos. O lema é que governos jamais vão quebrar, se imprimem a própria moeda.

É claro que a modinha já chegou aqui e na semana passada desembarcou no Brasil Randall Wray, professor expoente da MMT. Criticou as políticas do atual governo, mesmo trazido por um órgão federal (a Fiocruz, há muito caixa de ressonância da pauta do funcionalismo). Também participou de evento organizado por sindicatos de servidores.

O leitor pode se espantar com a autodenominação “moderna” da teoria. Afinal, o teste da impressora é um pelo qual o País já passou diversas vezes na tentativa de financiar o Estado de forma indolor. A emissão de moeda e a hiperinflação desorganizava a economia e deixava os miseráveis mais miseráveis. O próprio Wray admitiu no tour brasileiro que a MMT não traz nada de novo e faz a ressalva de que a emissão pode ter como consequência a inflação, mas é difícil conciliar os alertas tímidos com os slogans mais animados do movimento.

Wray veio ensinar a missa ao padre. Vá lá, a simpatia pela MMT na política americana é compreensível para o país que emite dólar, tem histórico de juros baixos e não viveu em décadas recentes episódios de hiperinflação. Aqui, não faz sentido ignorar o problema fiscal e cair no conto de que a impressora resolva os problemas.

De fato, recebeu críticas da esquerda nesse sentido. Na revista Jacobin, o jornalista Doug Henwood apontou neste ano que a MMT está enraizada em um contexto de país rico e na noção do excepcionalismo americano: “Seria triste ver a esquerda socialista, que parece mais forte do que esteve em décadas, cair nesse óleo de serpente. É um fantasma, um sonho febril e imperial, não uma política econômica séria”.

Anjana Ahuja* - Mudanças climáticas em ponto crítico

- Valor Econômico

Estamos caminhando para a transformação do planeta em uma estufa

Quatro anos atrás foi Paris; nas próximas duas semanas será Madri. O cenário muda, mas a mensagem não: o mundo está ficando sem tempo para frear uma mudança catastrófica no clima. Os esforços feitos para honrar a promessa de Paris 2015 de limitar o aumento da temperatura média global a menos de 20 C, preferencialmente 1,5º C, acima da média pré-revolução industrial, têm sido “totalmente insuficientes”, segundo o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). António Guterres, num pronunciamento feito na Espanha antes do encontro CoP-25 sobre o clima, para negociar o sistema de negociação de emissões, alertou que a Terra caminha para um “ponto sem retorno”. Ele culpou os políticos por continuarem subsidiando os combustíveis fósseis e se recusando a taxar a poluição.

Talvez Guterres tenha lido um artigo publicado na “Nature” na semana passada, especulando que o planeta pode já ter chegado a um estado crítico de aquecimento e que agora estaria condenado, climaticamente falando. A análise de “nove pontos climáticos críticos” conclui que estamos numa “emergência planetária” e possivelmente caminhando para a transformação do planeta numa estufa.

Algumas mudanças climáticas, como o derretimento descontrolado das camadas de gelo, eram historicamente previstas para ocorrer na eventualidade de as temperaturas globais médias subirem 5º C, mas modelos mais recentes reduziram parte dessas margens para algo entre 1º C e 2º C.

Andrea Jubé - As ‘fake news’ e os dois coelhos da cartola

- Valor Econômico

Depoimento de Joice pode ser divisor de águas na CPMI

No dia 26 de junho, um falso portal de notícias publicou uma falsa entrevista do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), onde ele atacava o governo e o presidente Jair Bolsonaro com frases grosseiras e ofensivas.

Foi uma operação sofisticada, muito além do mero impulsionamento de notícias falsas. Antes de publicar o conteúdo fraudado, o portal fantasma (www.portal79.news) funcionou durante um mês, com o mesmo logotipo e reproduzindo integralmente matérias do site original, o Portal 79 (www.portal79.com.br), a fim de imprimir credibilidade ao material.

Entretanto técnicos do site verdadeiro haviam detectado a clonagem desde o início e acompanharam diariamente os desdobramentos da fraude. Quando a entrevista falsa foi ao ar, o diretor de redação do Portal 79, Higor Trindade, acionou o senador. Foi instaurado inquérito na Polícia Federal. A investigação corre em sigilo, mas os investigadores já descobriram que a página fantasma que saiu do ar estava hospedada na Romênia.

Alessandro Vieira diz que o objetivo da fraude era criar desconforto entre ele e o governo e setores da direita. Ele se declara “crítico ao governo”, mas jamais daria as declarações de baixo calão que lhe foram atribuídas.

Hélio Schwartsman - Bolsonaro apequena a Presidência

- Folha de S. Paulo

Defeito primordial do mandatário é a falta de comprometimento com a democracia

Discordo da avaliação do secretário de Comunicação Social da Presidência, Fábio Wajngarten, expressa em artigo publicado na segunda (2). O editorial da Folha “Fantasia de imperador” não desrespeitou a figura institucional do presidente da República; é Jair Bolsonaro quem apequena o posto.

Seu defeito primordial é a falta de comprometimento com a democracia, que fez questão de expressar antes, durante e depois da campanha que o sagrou presidente. É meio assustador que os brasileiros tenham escolhido para liderá-los um sujeito que defendeu a tortura e o fuzilamento de adversários, mas esse é um efeito adverso possível da soberania popular. Temos de viver com isso.

Ao defeito primordial somam-se vários outros. Bolsonaro parece incapaz de distinguir entre o público e o privado, comportando-se como se a Presidência fosse uma extensão de sua casa e não um Poder da República, limitado por outros Poderes, por princípios constitucionais e por leis. Embora não chegue a ser surpreendente, é chocante a forma como ele instrumentaliza o cargo para desferir ataques a desafetos políticos e à imprensa.

Pablo Ortellado* - Até quando?

- Folha de S. Paulo

Polícia Militar de São Paulo adota postura corporativa tentando proteger policiais que podem ter cometido crimes

Ao que tudo indica, na madrugada de domingo, a Polícia Militar de São Paulo atacou de surpresa uma festa de rua em Paraisópolis com mais de 5.000 pessoas. Sem emitir aviso, policiais cercaram e atiraram bombas de estilhaço e balas de borracha sobre uma multidão desavisada de adolescentes que se divertiam numa noite de sábado.

Os jovens fugiram desesperados por escadarias, vielas e becos e foram encurralados e agredidos por policiais.

Tentando fugir da violência arbitrária da polícia, cinco adolescentes e quatro jovens morreram pisoteados: Bruno Gabriel dos Santos, 22, Denys Henrique Quirino da Silva, 16, Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16, Eduardo da Silva, 21, Gabriel Rogério de Moraes, 20, Gustavo Cruz Xavier, 14, Luara Victoria Oliveira, 18, Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16, e Mateus dos Santos Costa, 23.

A Polícia Militar mais uma vez se fechou em movimento de autoproteção corporativa. Em movimento reflexo negou de pronto as acusações e se apressou em proteger os pares.

Joel Pinheiro da Fonseca* - Por uma literatura verdadeiramente democrática

- Folha de S. Paulo

Quando a arte e a cultura adoecem, o povo adoece junto

Entre a possível volta do AI-5 e a escolha de Elizabeth Bishop como homenageada da Flip, difícil saber qual o mais grave. Bishop, afinal, nem brasileira é. E, como se isso não bastasse, defendeu o golpe militar em uma carta. Se esse é o tipo de escritor que a esquerda democrática celebra, que esperança teremos?

Quando a arte e a cultura adoecem, o povo adoece junto, pois a sensibilidade de um povo é formada pelas obras de arte. Quisera eu que o problema fosse só a Bishop. Examinando literatura brasileira, contudo, constato que não se salva um.

Guimarães Rosa foi outro perigosamente circunspecto quanto à ditadura militar. Para completar, em sua obra maior, promove a homofobia ao “salvar” Riobaldo da homossexualidade com a revelação do sexo de Diadorim. Nelson Rodrigues, então, foi apoiador explícito do regime militar. O que de bom pode sair de uma mente dessas?

Voltemos ao “clássico” Machado de Assis. Agora celebrado como um “autor negro”, ele foi na verdade alguém que escondeu sua negritude, buscando incorporar-se à elite branca. Teve ainda o despautério de, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, colocar o ex-escravo Prudêncio açoitando um escravo seu; falsa simetria criada para igualar opressores e oprimidos.

O que a mídia pensa – Editoriais

Nova ameaça do amigo Trump – Editorial | O Estado de S. Paulo

Guia espiritual, modelo ideológico e inspirador diplomático do presidente Jair Bolsonaro, o presidente norte-americano, Donald Trump, voltou a ameaçar o Brasil com barreiras à importação de aço e alumínio. Segundo ele, o governo brasileiro vem promovendo “maciça desvalorização” de sua moeda e prejudicando, com esse expediente, o comércio exterior dos Estados Unidos. A acusação e a ameaça valem também para a Argentina. A depreciação do real e do peso barateia produtos brasileiros e argentinos, facilitando uma competição desleal com os industriais e agricultores americanos. Essa é a essência do argumento. Teria sentido se a acusação fosse verdadeira. Mas chega a ser uma perversão acusar os governos de Brasília e de Buenos Aires pela desvalorização de suas moedas nacionais. Trata-se de evidente fenômeno de mercado, como percebe qualquer pessoa razoavelmente informada.

Poesia | Fernando Pessoa -Ah, um soneto...

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear ...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.
Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
Mas — esta é boa! — era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação? ...

Música | Sambô - Você abusou

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Marcus André Melo* - Família e política

- Folha de S. Paulo

O familismo político se manifesta de formas diversas na América Latina e Brasil

"Em Pernambuco, ou se é Cavalcanti, ou há de ser cavalgado," rezava o soneto. O familismo marca historicamente a política no Brasil e na América Latina, mas há grande variação nas formas que assume. Paradoxalmente, ele é quase dinástico no Chile e no Uruguai, países onde a democracia esteve mais enraizada.

No Uruguai, o cargo de presidente foi ocupado por quatro gerações do mesmo núcleo familiar: Jorge Battle (2000-2005), Luis Battle Berres (1947-51 e 1955-56), José Battle y Ordóñez (1903-1907; 1911-15), e Lorenzo Battle (1868 a 1872).

Com o presidente eleito, Luis Alberto Lacalle Pou, será a terceira geração da família que chega à Presidência. Seu pai também vestiu a faixa presidencial, e seu bisavô, Luis Alberto Herrera, integrou a Presidência Colegiada do país duas vezes. A pugna familiar com os Battle y Ordóñez não foi apenas simbólica: chegou às vias de fato na forma de um duelo.

Celso Rocha de Barros* - Guedes

- Folha de S. Paulo

Quem vender a democracia brasileira em troca de liberalismo econômico vai acabar sem os dois

O único lado racional do governo Bolsonaro é o lado de fora. Ninguém que se propôs moderar o bolsonarismo por dentro teve, até agora, qualquer sucesso. Pelo contrário, foram todos rebaixados ao nível do chefe.

O ministro da Economia disse que entende por que os bolsonaristas pedem um novo AI-5. Segundo Guedes, os apelos por fascismo se justificam porque Lula pode convocar protestos que, inspirados em Leonardo Di Caprio, taquem fogo em tudo. A mera ameaça de algo assim já teria, ainda segundo o ministro, derrubado a reforma do serviço público.

No meio da conversa, Guedes pediu que todos aceitassem o resultado da eleição.

Na verdade, Bolsonaro abortou a reforma porque nunca quis fazê-la. Guedes fingiu que acreditou que a culpa fosse de Lula porque também precisava de uma desculpa: nunca conseguiu aprovar reforma que Rodrigo Maia não lhe tenha entregado pronta.

Não há protestos, violentos ou pacíficos, acontecendo no Brasil. Se houvesse, a democracia lidaria com eles como lidou com 2013, com 2015 e com a greve dos caminhoneiros de 2018.

Leandro Colon – Fantasma pertuba Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Presidente tenta impor uma versão distorcida da revelação de que teve assessora fantasma

O medo de fantasmas fez o ex-presidente Michel Temer rejeitar o Palácio da Alvorada e preferir morar na residência do Jaburu.

Jair Bolsonaro ainda não reclamou de almas estranhas perambulando pela casa presidencial, mas tem um fantasma que perturba o presidente desde o ano passado. Seu nome é Wal do Açaí, ex-assessora do gabinete dele dos tempos de Câmara.

Na sexta-feira (29), Bolsonaro voltou a tocar no assunto em meio a mais uma ameaça que fez à Folha. Ao comentar a decisão autoritária de excluir o jornal da lista de veículos de imprensa de uma licitação da Presidência, citou o episódio da Wal e distorceu novamente a história.

Ele insiste na versão de que ela não era fantasma, afinal estava de férias em janeiro de 2018, quando a Folha investigava se a servidora prestava de fato serviços ao gabinete político.

Vinicius Mota - A ameaça dos liberais trogloditas

- Folha de S. Paulo

Não vem da esquerda brasileira, sem poder e com baixa mobilização, o desafio iminente à democracia representativa

As redes sociais talvez tenham exposto e explorado, como nenhuma outra tecnologia na história, a propensão ao tribalismo arbitrário do ser humano.

A esquerda nos países democráticos defende a liberdade de estilos de vida, mas apoia intervencionismos na economia. Simpatiza com regimes estrangeiros autoritários que matam e reprimem em nome do igualitarismo econômico.

A direita, em contraponto, associa a militância pela livre iniciativa com pregações reacionárias nos costumes. No exterior, seus tiranos de predileção são os que esquartejam adversários, mas deixam rolar os negócios.

A ressurgência do nacionalismo de direita começa a embaralhar essas cartas. Ele toma da esquerda o discurso da intrusão no domínio econômico e o associa a seu programa de intolerância comportamental.

Ruy Castro* - Coquetelaria bossa nova

-
Folha de S. Paulo


O que Tom, Vinicius, Baden, João Gilberto e outros gostavam de beber -ou não

Hotéis, restaurantes e bares de luxo do Rio prometem uma atração para este verão: a Coquetelaria Bossa Nova. Consiste de drinques e coquetéis com combinações insólitas, criadas por bartenders cheios de truques e triques. Há uma caipirinha com infusão de louro em cachaça de bálsamo. Há um gim com, idem, infusão de abacaxi grelhado e chá verde com arroz torrado. E há um single smoke com uísque defumado e também infusionado com amoras.

Ao ler isso, perguntei-me o que a turma original da bossa nova acharia de tanta infusão e amoras. Tom Jobim, por exemplo, até os 30 anos dedicou-se à cerveja e ao chope. Já o poeta e diplomata Vinicius de Moraes era um homem do uísque, que ele chamava de melhor amigo do homem --"O uísque é o cachorro engarrafado", dizia. Quando eles se conheceram, em 1956, Tom se deixou converter por Vinicius à seita do malte. Mas nunca dispensou o chope e a cerveja. Apenas acrescentou o uísque à sua dieta.

Ricardo Noblat - A caminho da irrelevância

- Blog do Noblat | Veja

Usina de barulho
Pode ser normal um chefe de Estado estar perto de completar um ano no cargo sem ter-se empenhado em montar uma base de apoio no Congresso? E tendo abandonado o partido pelo qual se elegeu e ajudou a eleger 52 deputados federais e quatro senadores?

Parece normal a maioria das coisas que ele faz como, por exemplo, suspender a fiscalização com radares móveis nas rodovias federais, o que reduziu a aplicação de multas e aumentou de agosto para cá o número de mortos e de feridos em acidentes?

E culpar ONGs e até um famoso ator de cinema por incêndios na Amazônia é comportamento que possa ser considerado normal em um presidente da República? É verdade que ao se eleger ele disse que não havia nascido para ser político, mas sim militar.

Mas nenhum dos militares empregados por ele no seu governo – e já são mais de mil – saiu a público para avalizar uma única dessas medidas. Você pode ter ouvido militares defenderem, como o faz Bolsonaro, a ditadura de 64. Sobre torturas, calam-se. Ele, não.

Bruno Carazza* - Para Rodrigo e Davi

- Valor Econômico

Dados e evidências sobre a injustiça do fundo eleitoral

Chega dezembro e o Congresso se apressa para aprovar o Orçamento para 2020. Quando todos os brasileiros estão às voltas com o fechamento do ano no trabalho e os preparativos para as festas natalinas, uma das principais atividades estatais - a definição de como se gastará o dinheiro que se prevê arrecadar no exercício seguinte - é feita com pouco acompanhamento da sociedade, abrindo margem para todo tipo de oportunismo.

Nas últimas semanas deputados e senadores articulam-se para aumentar ainda mais o volume de recursos públicos que receberão para gastar nas eleições de 2020. Há quase dez anos tem sido assim.

De 2010 para 2011 os parlamentares turbinaram o fundo partidário anual de R$ 280 milhões para R$ 400 milhões. Em 2014, às vésperas da decisão do Supremo Tribunal Federal de acabar com as doações de empresas, a tungada passou para R$ 900 milhões por ano. Como se não bastasse, em 2017 resolveram criar o fundo eleitoral, que em 2018 aportou mais R$ 1,7 bilhão para os partidos.

Nas próximas duas semanas, há quem aposte que o fundo eleitoral será multiplicado, podendo chegar a R$ 4 bilhões ou mais. É verdade que a democracia tem um custo, e fazer campanha num país de dimensões continentais como o Brasil tem um preço alto. Mas nossos parlamentares abrigam-se neste argumento para, sem apoio algum em dados, elevar as barreiras à entrada na política brasileira e, assim, aumentar significativamente suas chances de permanecer no poder.

Carlos Pereira - Afinal, quem manda?

- O Estado de S.Paulo

Em uma democracia representativa, a última palavra é dos políticos

Nas últimas semanas, o Supremo Tribunal Federal (STF) tomou duas decisões aparentemente contraditórias no que diz respeito ao combate à corrupção e à impunidade.

Por um lado, decidiu que a execução da pena de um condenado pela Justiça só pode ter início após o trânsito em julgado e não mais a partir da condenação por um colegiado em segundo grau. Por outro, o STF decidiu que os dados coletados pela Receita Federal e pela Unidade de Inteligência Financeira (UIF) – antigo Coaf – podem ser compartilhados, de forma ampla e sem restrições, com o Ministério Público e a polícia sem a necessidade de autorização judicial.

Qual o impacto dessas decisões para os outros Poderes?

Existem pelo menos duas correntes que oferecem respostas a esta pergunta: a dominância burocrática e a dominância congressual. Ambas partem de problemas que políticos eleitos enfrentariam ao delegar poderes para organizações de controle e judiciais.

A perspectiva da dominância burocrática afirma que as organizações de controle ficaram tão profissionalizadas e independentes que não mais seria possível serem controladas pelos políticos que as criaram. Essas organizações se especializaram e desenvolveram “vida própria”, tornando-se insuladas, com vantagens informacionais e alto grau de discricionariedade e, portanto, com capacidade de perseguir seus próprios objetivos e preferências, muitas vezes à revelia das preferências dos Poderes Executivo e Legislativo.

Fernando Gabeira - Unidade nacional para barrar AI-5

- O Globo

Uma medida do AI-5 foi pôr censores nos jornais. Não havia internet. Como fariam hoje para censurar a rede?

No dia em que o Flamengo se tornou campeão da Libertadores, cruzei no avião com um homem vestido com a camisa do time. Apenas nos olhamos, mas nos sentíamos unidos pela mesma tensão e esperança. Naquele momento, senti uma estranha saudade do Brasil. A seleção brasileira já não empolga como antes; o lugar foi momentaneamente ocupado pelo Flamengo.

Mas o futebol não era meu objeto de saudade, mas sim a política. Vim me perguntando na viagem de Natal para o Rio como era difícil encontrar essa sensação de unidade nacional, sobretudo em tempo de paz.

Quando digo unidade, não quero dizer unanimidade. Mas algo que congregue as pessoas para além de suas escolhas singulares. A última vez que senti isso foi no movimento pelas Diretas. A partir daí, a sensação foi escapando aos poucos.

É um pouco ingênuo acreditar nessa possibilidade. A política americana em alguns momentos conseguiu unificar os dois grandes partidos pontualmente, em temas bem definidos. Hoje, com Trump, esse sentimento deve estar se esvaindo também lá. Digo também lá porque aí as perspectivas são de confronto, com os atores se pintando para a guerra.

O Chile é uma espécie de arma que os contendores escolheram para o seu duelo. De um lado, a esquerda pedindo manifestações como a chilena; de outro, o governo de extrema direita acenando com o AI-5 e preparando-se para uma repressão sem limites, camuflada sob um nome bastante complicado: excludente de ilicitude, cuja tradução real é liberar a porrada.

Demétrio Magnoli - Segredos uruguaios

- O Globo

O vídeo de Guido Manini Ríos circulou no dia do segundo turno, 24 de novembro. Nele, o general aposentado, que obteve 10% dos votos no turno inicial, invectivava contra a esquerda em linguagem exaltada para chamar integrantes das Forças Armadas a votar em Luis Lacalle Pou, barrando um novo mandato à Frente Ampla. A mais notável reação partiu do próprio Lacalle Pou:

“Esse tipo de coisa não pode ocorrer no Uruguai”. Enquanto ele falava, a apuração registrava empate técnico, o órgão eleitoral adiava o anúncio do resultado para permitir uma contagem rigorosa dos votos restantes e os apoiadores dos candidatos rivais confraternizavam nas ruas.

Não —o Uruguai não é uma nação civilizada por natureza. O país viveu uma ditadura de 12 anos, entre 1973 e 1985, com raízes fincadas nas ações de um esquadrão da morte de extrema-direita e nos sequestros e atentados cometidos pelos Tupamaros, de extrema-esquerda. Durante a ditadura, cerca de 20% dos cidadãos foram presos em algum momento e 10% da população emigrou, num movimento que se refletiu na paisagem de casas abandonadas em Montevidéu e em forte desvio da morfologia da pirâmide etária. A civilidade uruguaia emanou da história recente: eles aprenderam as lições da ditadura.

O primeiro segredo situa-se à esquerda, na Frente Ampla. “É uma ditadura, nada mais que isso”, definiu Pepe Mujica, referindo-se à Venezuela. O ex-presidente, antigo líder dos Tupamaros, que ainda mantém relações afetivas com o grupo, fala uma linguagem incompreensível para o PT. Os Tupamaros nasceram em 1963, sob a influência da Revolução Cubana. Hoje, porém, quase toda a esquerda uruguaia saiu da caverna do castrismo, abraçando a ideia de pluralidade política. O “inimigo do povo”, tão caro à esquerda brasileira (e argentina), não tem lugar no discurso político uruguaio.

Sérgio Augusto - Meio século de Pasquim

- O Estado de S.Paulo / Aliás

Jornal reuniu grandes nomes do jornalismo brasileiro durante a ditadura militar

Coincidência ou ironia do destino, o fato é que, enquanto em Brasília o presidente promovia, com fascistoide estardalhaço, o primeiro partido familiar da história política do País, belicosamente kitsch e com o mais medonho logo de sua espécie, o Sesc Ipiranga de São Paulo abria uma exposição que era, é, em tudo, o seu antípoda.

Nada mais distinto da nova aliança da bala, do boi e da Bíblia que a jubilosa exposição dos 50 anos do Pasquim. A começar pela bela e, como sempre, criativa, montagem de Daniela Thomas. Está tudo lá, até uma sala reproduzindo a cela da Vila Militar em que a maior parte dos redatores do jornal ficou presa nos dois últimos meses de 1970. Pressa desnecessária; ela fica em cartaz no Sesc Ipiranga até abril do ano que vem.

Depois? Por enquanto, nada. Seu obstinado mentor, Fernando Coelho dos Santos, fez o diabo para que ela também acontecesse no Rio, mas só encontrou obstáculos, desinteresse e cagaço político nas instituições que poderiam acolhê-la. Soa no mínimo absurdo que o jornal que era a própria encarnação do espírito de Ipanema, que alardeava ver tudo de “um ponto de vista carioca”, tenha seu cinquentenário apenas celebrado em São Paulo.

Simultaneamente à mostra, a Fundação Biblioteca Nacional disponibilizou em sua hemeroteca a coleção completa digitalizada do Pasquim, do número 1 ao 1072. Esta é a cereja do bolo.
Em meio às conversas que animaram a abertura da exposição, um fiel leitor paulistano do Pasquim me perguntou qual fora, a meu ver, o melhor número do jornal, aquele que eu levaria para uma ilha deserta. Cravei o 300. Entre outros motivos, por ter sido o primeiro número sem censura prévia depois de duzentas e tantas edições rasuradas e cortadas pelos catões da ditadura.

Raimundo Santos - Revolução, reformas e políticas públicas

- Resumo do artigo

A esquerda militante brasileira de hoje tem dificuldade de ver as reformas e as políticas públicas como elementos de um processo de renovamento em curso no conjunto da formação social brasileira. Custa-lhes identificar nas medidas parciais mudanças mais amplas pensadas distendidas no tempo, de andamento progressivo e concretização sustentável à medida que mediados pela política envolvam a generalidade dos interesses da população. Entretanto, a esquerda brasileira contemporânea tem larga tradição diversa desse desencontro ideológico, pois criado pela doutrina, entre revolução e reformas.

O artigo se volta para esse tema focalizando dois autores dos mais conhecidos no campo da esquerda brasileira, Caio Prado Junior e Celso Furtado, cujas argumentações conferem às reformas estruturais, como se dizia no decênio 1954-64, status constituinte das suas formulações revolucionárias e reformistas desse tempo contemporâneo. O texto se propõe sublinhar nos escritos políticos desses autores suas passagens fundamentais assentadas em interpretações das circunstâncias e conjunturas, ponto de vista este com que se afastam do determinismo doutrinal e singularizam suas buscas dos caminhos para a transformação social em relação à ideia de revolução como evento histórico diruptivo.

O primeiro clássico, no registro marxista, com sua tese da revolução brasileira compreendida como duas grandes reestruturações da vida nacional, a da economia e a da política; e o outro, em diálogo construtivo com o marxismo político, formulando um reformismo com vigência permanente das liberdades, viável por conta do gradualismo das mudanças que então propôs atento à capacidade do regime político representativo para suportar tensões e conflitos crescente conforme decorresse a revolução democrática.

No que couber às apresentações dos referidos autores, o artigo aludirá a outros nomes expressivos da política de reformas, como Alberto Passos Guimarães e seu agrarismo de medidas parciais de reforma agrária, Alberto Rangel e sua ideia da reforma agrária mediante medidas não essencialmente agrícolas, ou ainda o próprio Caio Prado Junior com sua concepção do sindicalismo rural como um grande movimento social capaz de equacionar a questão da terra na cena pública.

*Para acessar o texto completo deste artigo ver E-book O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI.Sergio Pereira Leite e Regina Bruno (Orgs.). Editora Garamond, Rio de Janeiro, dezembro de 2919.


GloboNews Painel - 30/11/2019

O que a mídia pensa – Editoriais

Um ano perdido para o emprego – Editorial | O Estado de S. Paulo

Com 12,4 milhões de desocupados, o equivalente a 11,6% da força de trabalho, as condições de emprego no trimestre móvel encerrado em outubro foram muito parecidas com as de um ano antes, quando o deputado Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República. O quadro piorou depois da posse, embora empresários tenham proclamado otimismo em relação ao novo governo. O primeiro ano de mandato foi marcado por baixa atividade, severa escassez de vagas e aumento da informalidade e da ocupação precária. Os desempregados chegaram a 13,2 milhões no período de fevereiro a abril, e a partir daí o número declinou lentamente. No trimestre da eleição, em 2018, 12,3 milhões de trabalhadores caçavam qualquer oportunidade. A taxa de desemprego passou de 11,7% para 11,6% em um ano, uma variação estatística insignificante, enquanto aumentou o número absoluto dos trabalhadores e famílias em situação ruim. São dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Não se tratou, obviamente, de um triste caso de mera fatalidade. Durante mais de um semestre o governo do presidente Jair Bolsonaro nada fez para atenuar com alguma rapidez os piores problemas de muitos milhões de trabalhadores.

Poesia | Vinícius de Moraes - Carta ao Tom

Rua Nascimento e Silva, cento e sete, você ensinando prá Elizeth
As canções de "Canção do Amor Demais"
Lembra que tempo feliz, ai que saudade, Ipanema era só felicidade
Era como se amor doesse em paz
Nossa famosa garota nem sabia a que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era a mais bela e além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor
É meu amigo, só resta uma certeza, é preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor
Rua Nascimento e Silva, cento e sete, eu saio correndo do pivete
Tentando alcançar o elevador
Minha janela não passa de um quadrado, a gente só vê Sérgio Dourado
Onde antes se via o Redentor
É meu amigo só resta uma certeza, é preciso acabar com a natureza
É melhor lotear o nosso amor

Dia Nacional do Samba | Sambô - Não deixe o Samba morrer

domingo, 1 de dezembro de 2019

Opinião do dia – Fernando Henrique Cardoso*

Volto de Oxford, onde celebraram os 50 anos de meu livro com Faletto sobre AL. No Brasil vejo ataques do gov à liberdade da mídia e a ONGs, contra a letra da Constituição. Calar é dar espaço à volta do autoritarismo. Dele só têm saudades quem não o conheceu ou dele aproveitaram.


*Fernando Henrique Cardoso, Tweet, 30/11/2019

Fernando Henrique Cardoso* - Resposta democrática às explosões sociais

- O Estado de S.Paulo | O Globo

Depredações precisam ter fim para que o processo constituinte no Chile possa avançar

Em conferência recentemente feita em Valparaíso, no Chile, Manuel Castells voltou a caracterizar as manifestações populares contemporâneas (como já o fizera em seu livro Rupturas) como “explosões”, mais do que como movimentos sociais. Parece que a irritação contra “los que mandam” se generaliza.

Castells, que há muito estuda as “sociedades em rede”, mostra que estas são fruto da comunicação interpessoal via internet. Os novos meios de comunicação tornam-se não só propiciadores da expansão de movimentos sociais, como também facilitadores de súbitas expressões coletivas de repúdio. Estas chegam a dar a sensação de serem capazes de abalar as estruturas de poder, o que às vezes de fato se verifica.

Desde que mostrou os efeitos do uso de telefones celulares para explicar como se deu a reação na Espanha contra as explicações inaceitáveis do governo sobre o caso famoso do atentado na estação de metrô madrilenha de Atocha, nosso autor escreveu vários trabalhos que confirmavam suas análises sobre as sociedades da “informação”.

Pois bem, novamente o caso do Chile chama a atenção: país exemplo de crescimento econômico e estabilidade institucional, de repente surge no noticiário mundial como mais um caso de revolta popular e reação policial violenta.

Convém repetir o dito por Castells na conferência de Valparaíso: o Chile é mais um caso de uma série de manifestações com dinâmicas semelhantes. Ou nos esquecemos do ano de 2013 no Brasil? Ou da primavera árabe? E por que não acrescentar o Occupy americano ou os coletes amarelos franceses? E em nossa América Latina, a vizinha Bolívia agora mesmo, ou pouco antes o Equador? E acaso o que tem ocorrido no Iraque nas últimas semanas será diferente?