sexta-feira, 17 de maio de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Brasília atrapalha integração com governos locais ao politizar a tragédia

O Globo

Medidas anunciadas por Lula vão na direção certa, mas seu uso político prejudica ajuda à população atingida

Em sua terceira visita ao Rio Grande do Sul desde as chuvas que devastaram o estado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou uma secretaria extraordinária, comandada in loco pelo ex-ministro da Secretaria de Comunicação Paulo Pimenta. O objetivo, diz o Planalto, é facilitar a articulação entre os governos federal, estadual e dos 497 municípios gaúchos.

Não se discute a necessidade de criar canais para dar celeridade às decisões envolvendo os três níveis de governo na assistência às vítimas e na reconstrução. Mas a nomeação de Pimenta, candidato potencial ao governo do Rio Grande do Sul pelo PT sem experiência na gestão de catástrofes, transparece mais oportunismo político que preocupação genuína com a população que perdeu tudo e, mais que nunca, depende da ajuda do Estado.

Fernando Abrucio – Os perigos da postura negacionista

Valor Econômico

Cresceram nos últimos meses o irracionalismo, a barbárie no comportamento público e a defesa de posições autoritárias e sectárias. É preciso denunciar e superar esse fenômeno

Um mal vem se impondo de várias maneiras na realidade política brasileira: o negacionismo em suas múltiplas formas. Pensava-se que com o fim da pandemia, a derrota (re)eleitoral de Bolsonaro e o fracasso do golpe de 8 de janeiro, o país estaria livre dessa ameaça e voltaria a ter um debate mais racional e pluralista. Depois de quatro anos de obscurantismo, sonhava-se em ter todos os principais atores políticos comprometidos com a democracia e a civilidade. Ledo engano. Cresceram nos últimos meses o irracionalismo, a barbárie no comportamento público e a defesa de posições autoritárias e sectárias. É preciso denunciar e superar esse fenômeno, antes que as portas do futuro se fechem para o Brasil.

José de Souza Martins: A tragédia gaúcha

Valor Econômico

Nestes momentos, os defeitos de nosso caráter nacional submergem para que emerja a nossa tradição camponesa do auxílio mútuo, da ajuda incondicional ao desvalido

A tragédia das enchentes e escorregamentos no Rio Grande do Sul, apesar de todas as mudanças negativas havidas na mentalidade do povo brasileiro desde 2013, mobilizou mais uma vez o espírito comunitário da nação. O sentido ocultamente transformador dessa grande tradição de silêncio social criativo revela-se na desconstrução da estrutura social brasileira, cada vez mais marcada por tensões e antagonismos sociais.

Desde o regime militar, acentuada e estimulada no regime negacionista recente, essa grande tradição social tem sido satanizada como comunista, que não é. Ainda nestes dias, em meio ao desamparo e à morte, os agentes do mal, por ação e omissão, conspiram e omitem-se.

O que é estranho a nossas tradições de cordialidade, as da precedência dos sentimentos em relação ao afã de riqueza e poder, como sugere, de outro modo, a famosa interpretação de Sérgio Buarque de Holanda.

César Felício - Lula dá partida às eleições de 2026 no RS

Valor Econômico

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva antecipou deliberadamente o calendário eleitoral do Rio Grande do Sul, ao nomear o ministro da Comunicação Social Paulo Pimenta para a pasta extraordinária que vai coordenar a reconstrução do Estado e o auxílio à população flagelada pela catástrofe.

Lula tinha opção. Seria possível manejar esforços em relação ao socorro ao Estado sem uma estrutura nova. A escolha de Lula, contudo, surpreende pouco. Um dirigente compromissado com a direita gaúcha ponderou, sob reserva: uma vez criado cargo dessa natureza, a única alternativa plausível ao nome de um político seria a indicação de um militar, o que daria um protagonismo às Forças Armadas, uma das coisas que o atual governo quer evitar.

Luiz Carlos Azedo - Lula já politizou socorro aos gaúchos

Correio Braziliense

Lula e Leite têm um adversário comum, Jair Bolsonaro. A força do ex-presidente no estado é inequívoca: foi o mais votado entre os gaúchos

Era meio inevitável, em se tratando do volume de recursos da União que serão destinados ao Rio Grande do Sul, a criação de uma autoridade federal para coordenar, controlar e direcionar os mais de R$ 50 bilhões em ajuda aos gaúchos que já estão anunciados pelo governo federal. Entretanto, ao escolher o ministro da Comunicação Social, Paulo Pimenta (PT-RS), para o cargo de ministro extraordinário de apoio à reconstrução do estado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva politizou o socorro aos gaúchos, irremediavelmente. Pimenta é deputado federal, tem o estilo “bateu, levou” e não esconde a ambição de ser governador.

O governador Eduardo Leite (PSDB), durante o ato organizado por Lula em São Leopoldo, um dos redutos do PT no Rio Grande Sul, deu uma de bom cabrito e não berregou, porém, não gostou nem um pouco. As críticas à decisão de Lula ficaram a cargo das lideranças do PSDB, entre as quais o deputado federal Aécio Neves (MG), o principal defensor de uma candidatura tucana à Presidência em 2026 e opositor sistemático ao governo federal. A resposta de Eduardo Leite foi intensificar sua presença nas ruas e antecipar a liberação de recursos da ordem de R$ 2 mil, via Pix, para 45 mil famílias flageladas.

Vera Magalhães - Não há protagonismo sobre escombros

O Globo

Se assumir papel de disputa com Estado e municípios, Pimenta pode expor Lula num Estado que hoje tem perfil eleitoral mais à direita

A tragédia do Rio Grande do Sul é um epílogo de décadas de descaso com prevenção a desastres, com medidas recentes que retiraram recursos para dotar o estado de mais resiliência a intempéries, a despeito de o histórico e a situação geográfica sugerirem a tendência de que sejam recorrentes e severas, e com o afrouxamento do arcabouço ambiental que poderia reforçar a proteção a esses eventos.

O resultado é um estado destruído e submerso. Pensar que governantes possam cometer, além de todo esse histórico de erros, a bobagem de buscar protagonismo no manejo do caos é imaginar que sejam suicidas. Não costuma ser uma característica dos políticos. A cautela é necessária num momento em que não se tem a mais vaga ideia da quantidade de recursos e do tipo de ação que serão necessários para tirar o Rio Grande do Sul dos escombros.

Flávia Oliveira - Dignidade inegociável

O Globo

Não tem cabimento, a esta altura, um vereador ocupar a tribuna para defender derrubada de árvores

Até onde a vista alcança, o Rio Grande do Sul é dor, destruição. E vontade de recomeçar. A tragédia socioclimática que engolfou o estado, além da extensão, trouxe de ineditismo também a agonia duradoura. O Brasil é país, infelizmente, íntimo de desastres naturais e crimes ambientais. Que o digam Rio de Janeiro e Minas GeraisSão Paulo e BahiaAmazonas e Santa CatarinaMaranhão e Pernambuco. A devastação se dá, iniciam-se os resgates, começa a limpeza, computam-se os prejuízos — quase nunca ressarcidos.

Desta vez, está diferente. Maio passou da metade, e a água que invadiu Porto Alegre segue muito acima da cota de inundação do Guaíba. Cidades às margens da Lagoa dos Patos ainda veem o nível subir. A chuva para e volta; a lama fétida persiste. É luto sobre luto. É vida que não encontra jeito de voltar ao normal — nem mesmo ao cotidiano transtornado depois do trauma. Tudo em suspenso.

Eliane Cantanhêde - Assombrações

O Estado de S. Paulo

Petrobras traz de volta os fantasmas Abreu e Lima, Sete Brasil, Venezuela, fundos de pensão...

Os fantasmas dos dois primeiros governos de Lula e Dilma assombram o terceiro mandato do petista, assustando especialistas, afastando investidores e criando incertezas, quando Lula poderia capitalizar a atuação rápida na tragédia no Rio Grande do Sul. A demissão de Jean Paul Prates da Petrobras desagradou ao mercado e a ambientalistas e peca por falta de senso de oportunidade. Bem no meio da crise gaúcha, que livrou Lula de falar besteiras sobre política externa.

Celso Ming - A competição entre protecionismos

O Estado de S. Paulo

O mundo está ficando fortemente protecionista e cria um novo problema de política econômica para o Brasil. O produto brasileiro já não vai competir apenas com um produto produzido por economias liberais. O protecionismo brasileiro terá agora de competir também com o protecionismo dos outros.

Nesta segunda-feira, o presidente Biden, dos Estados Unidos, sobretaxou em 100% os carros elétricos da China. Não ficou só nisso. Aumentou substancialmente as tarifas de importação de semicondutores, baterias elétricas, painéis solares e minerais estratégicos.

Hélio Schwartsman - Desastres institucionais

Folha de S. Paulo

Trabalho sobre terremotos na Itália mostra como qualidade das instituições e participação da sociedade civil afetam a reconstrução

Quais os efeitos de longo prazo do desastre no Rio Grande do Sul? Sempre iluminador, Cesar Zucco me enviou um belo artigo dos economistas Guglielmo Barone e Sauro Mocetti que dá o que pensar. O paper se vale de um daqueles experimentos naturais com que as Parcas às vezes nos presenteiam.

Em 1976, um terremoto atingiu o Friul, no nordeste da Itália. Quatro anos depois, foi a vez do distrito de Irpinia, no sul do país, ser afetado por um sismo comparável. Os efeitos imediatos foram arrasadores em escala local, mas pouco significativos no plano nacional, o que permitiu aos autores criar controles para comparar o desempenho de cada uma das áreas com o que teria acontecido caso não tivessem sofrido os tremores.

Bruno Boghossian – Lula ungiu seu superministro

Folha de S. Paulo

Aumento de influência do chefe da Casa Civil virou marca no segundo ano de Lula

Poucos integrantes do governo Lula acumularam tanta antipatia de colegas no primeiro ano de mandato como Rui Costa. O chefe da Casa Civil era descrito por parlamentares e ministros como um político centralizador, ambicioso e ríspido.

Os adjetivos talvez permaneçam lá, mas a marca agora é outra. A consolidação do poder de Costa é um dos fenômenos deste segundo ano de governo. O ministro não só assumiu a confiança plena do presidente como expandiu sua influência.

Vinicius Torres Freire – O desastre gaúcho e o PIB

Folha de S. Paulo

Aumentar o socorro para o RS, além de inevitável, vai conter pessimismos

A economia do Brasil deve crescer 2,5% em 2024, estima o ministério da Fazenda, entre outras previsões e análises divulgadas nesta quinta-feira (16). É mais do que previa em março (2,2%), menos do que o PIB cresceu em 2023 (2,9%).

Desde o final do ano passado, também vinha melhorando a previsão mediana da centena de economistas compilada pelo Banco Central. Passou de 1,52% para 2,1% na semana passada. Bancos maiores preveem algo entre 2,2% e 2,5%.

Havia, pois, uma convergência de estimativas, para cima, para um ritmo maior do crescimento do PIB, embora ainda medíocre. Medíocre, mas maior do que a média de 1,4% ao ano que vimos entre 2017 e 2019, depois da Grande Recessão, antes da epidemia.

Havia. Então, sobreveio o horror no Rio Grande do Sul.

O pessoal da Secretaria de Política Econômica da Fazenda, que faz o estudo, avisa, claro, que não deu tempo de levar em conta a catástrofe. Nem haveria como. Não há dados para estimar nada.

André Roncaglia - O neoliberalismo não desperdiçará a tragédia gaúcha

Folha de S. Paulo

A mão invisível do mercado desregula o termostato natural da Terra

Num soluço fulminante da crise climática, mais de 80% do território gaúcho submergiu sob a força das chuvas torrenciais das últimas semanas.

As perdas humanas e materiais, incalculáveis até o momento, seriam motivo de uma reflexão mais profunda sobre a forma como ocupamos o solo e lidamos com a natureza. Todavia, o negacionismo político se uniu ao seu homônimo climático de forma desavergonhada para ocultar uma causa central dessa tragédia: o desmonte dos instrumentos de planejamento e monitoramento do Estado pela mercantilização do espaço (urbano e rural).

PD italiano parte para as europeias com políticas de justiça social na mira

EuroNews

A "Europa que queremos" é o slogan escolhido para o manifesto político do Partido Democrático (PD) italiano. Numa conferência de imprensa realizada na segunda-feira na Associação de Imprensa Estrangeira em Roma, a líder Elly Schlein lançou oficialmente a campanha eleitoral do partido às eleições europeias.

A intenção do partido é promover políticas de justiça social em vários setores.

Segundo Elly Schlein, a Europa deve tornar-se mais social e liderar a transição verde. Estes são alguns dos objetivos do programa político do Partido Democrático.

O aumento do salário mínimo e a melhoria do sistema de saúde italiano estão também entre as principais prioridades, juntamente com o apelo a uma maior solidariedade às política de migração na Europa.

E o aviso que Elly Schlein deixou na segunda-feira é muito semelhante àquele feito pelos Socialistas Europeus no lançamento da campanha às europeias.

"Somos a única barreira existente para limitar o avanço dos partidos de direita na Europa. Eu pergunto ao Partido Popular Europeu: até onde querem ir quando namoram partidos nacionalistas? Estão a trair a sua própria tradição política", acusou a líder do PD.

Schlein também destacou a necessidade de garantir direitos iguais para famílias não tradicionais e continuar a luta contra a violência de género.

"Temos de continuar a combater a violência de género. Penso que a votação da semana passada foi muito significativa e representou um importante passo em frente quando o Parlamento Europeu reconheceu o aborto como um direito fundamental que ainda é menosprezado neste país".

E enquanto espera conquistar mais apoio até 9 de junho, a líder do Partido Democrático reconheceu que o principal desafio poderá ser a fraca participação eleitoral

Usa o teu voto, ou outros decidirão por ti. Eleições europeias, 9 /6/24.

O voto pela democracia e pela Europa Social

De 6 a 9 de junho serão realizadas eleições para o Parlamento Europeu nos 27 países que integram a União Europeia. 

Essas não serão eleições comuns. Elas acontecem em um momento de ascensão dos partidos de extrema direita em todo o continente.

Tais partidos põem em risco os valores fundamentais da UE: a democracia, o bem-estar social, a sustentabilidade ambiental, a integração europeia, a cooperação mundial e a busca de soluções pacíficas para os conflitos internacionais. 

Por isso mesmo, há um grande esforço das forças democráticas de convocar os cidadãos para a participação no processo eleitoral.

É desnecessário lembrar das repercussões que a vitória dos partidos democráticos terá nas demais regiões do planeta, como na América Latina e no Brasil.

O Parlamento Europeu produziu um vídeo emocionante em defesa da democracia. Vale a pena conferir:

 

Poema de Johann von Goethe - Anelo (tradução de Manuel Bandeira)

 

Música | 9ª Sinfonia de Beethoven (Ode à Alegria) – legendas em português e alemão – Versão reduzida

 

quinta-feira, 16 de maio de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Troca de comando na Petrobras traz volta ao passado

O Globo

Ao escolher Chambriard, Lula insiste em retomar as políticas fracassadas dos tempos de Dilma

Seria enganoso acreditar que a troca de comando na Petrobras tenha sido consequência apenas de intrigas palacianas ou divergências a respeito da distribuição de dividendos. Foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quem decidiu substituir o ex-presidente Jean Paul Prates por Magda Chambriard, ex-funcionária de carreira da petroleira e diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) no governo Dilma Rousseff. O relevante e grave para o Brasil são as razões que motivaram a decisão. Ela é um sinal eloquente de intervenção do governo numa empresa aberta de capital misto, cuja motivação traduz o desejo de retomar as práticas dos tempos de Dilma, de tão traumáticas lembranças. Não há como evitar falar em retrocesso.

Paulo Celso Pereira – Todos estão surdos

O Globo

A polarização da sociedade brasileira se refletiu na tragédia do Rio Grande do Sul desde a busca por responsáveis pelos alagamentos

São exatos dois minutos de não diálogo que sintetizam nossa era. Em meio a uma tragédia de proporções bíblicas, um ministro entra em contato com o prefeito de uma cidade atingida e faz questão de filmar a ligação, colocada em viva-voz. Só que o gesto não é unilateral. Do outro lado da linha, o prefeito repete a mesma cena: ao receber a ligação de um ministro de Estado que poderia auxiliá-lo, coloca no viva-voz e filma toda a conversa.

Os dois não se escutam, e a solução da crise humanitária na cidade é apenas o pretexto para a ligação. O papel de ambos naquele teatro é proferir frases e reações lacradoras, gerando conteúdo para animar sua turba de apoiadores — e detratores — nas redes sociais.

O prefeito de Farroupilha é Fabiano Feltrin, empresário e cover de Elvis Presley que se filiou em março ao PL, num evento que contou com a presença de Jair Bolsonaro. O ministro, claro, é Paulo Pimenta, da Secretaria de Comunicação do governo. Ontem Lula o escolheu para assumir o Ministério Extraordinário de Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul.

Míriam Leitão - A busca do tom certo na ajuda

O Globo

Governo acertou nas medidas de apoio ao Rio Grande do Sul, errou na politização e roubou seu show ao trocar a presidência da Petrobras na véspera

O governo tentou muito atrapalhar sua própria notícia boa. Era dia de o presidente Lula ir ao Rio Grande do Sul com seus ministros, comandantes militares, presidente do STF e vice-presidente do TCU anunciar medidas para socorrer a população, mas na maior parte dele, o que ocupou o noticiário foi a troca na presidência da Petrobras. Na cerimônia na Unisinos, em São Leopoldo, houve momentos em que ministros deixavam autoridades locais à deriva. Parecia intervenção e não ajuda. Coube ao ministro Luís Roberto Barroso lembrar que ali se estava elevando o “patamar civilizatório da não politização de uma crise humanitária”.

A implementação de toda esta ajuda terá que ser feita sem montar palanque para as próximas eleições. A escolha do ministro Paulo Pimenta, gaúcho, político e com ambições locais pode acabar gerando atritos e desconfiança. O governador Eduardo Leite lembrou, quando falou, que “não haverá diferenças políticas e ideológicas entre nós que nos impeça de trabalhar”. E mais adiante disse que “o governo federal passa recursos para o acolhimento humanitário e nós estamos somando esforços do governo do estado”.

Malu Gaspar - Já vimos este filme ruim

O Globo

Presidente da República parece decidido a repetir estratégia de usar a estatal para irrigar a economia a tempo de chegar em 2026 com mais chances de se reeleger

Ao deixar a PetrobrasJean Paul Prates contou aos colegas de diretoria que Luiz Inácio Lula da Silva foi lacônico ao demiti-lo do cargo na última terça-feira, em encontro rápido no Palácio do Planalto. Pelo relato dele, o presidente alegou duas razões principais para tirá-lo do posto.

A primeira: os dois não estavam “alinhados” em relação aos rumos da empresa. A segunda: Lula não perdoou o fato de Prates não obedecer sua ordem para votar pela retenção dos dividendos extraordinários que seriam distribuídos aos acionistas, entre os quais a própria União. Uma afronta, falou o presidente na conversa. Uma deslealdade, disse Lula aos aliados.

Nem é preciso ser bom entendedor para traduzir o gesto. Prates nem de longe era rebelde às ordens do presidente. Mas Lula está ansioso para voltar rapidamente ao tempo em que mandava na companhia sem grandes obstáculos, para que ela volte a despejar bilhões em megaprojetos como a refinaria Abreu e Lima ou o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

Luiz Carlos Azedo - Troca de comando da Petrobras sinaliza novo rumo econômico

Correio Braziliense

A mudança deve reacender o debate sobre a política econômica, sob comando de Fernando Haddad, cuja orientação é social-liberal

Bastou uma troca de comando para a Petrobras perder R$ 35 bilhões em valor de mercado num só dia. Pode ser uma reação natural dos investidores, que gostam de especular nestes momentos, ou uma tendência de mudança de rumo da economia. É cedo para avaliar qual será o desfecho da substituição do ex-senador petista Jean Paul Prates, que manteve atuação relativamente independente, pela engenheira Magda Chambriard, também petista, que já foi presidente da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

A Petrobras encerrou o pregão desta quarta-feira com um valor de mercado de R$ 499 bilhões, contra R$ 548,5 bilhões de terça-feira, quando o presidente Lula convocou Prates para uma reunião. Na presença do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e do ministro da Casa Civil, Rui Costa, Lula comunicou sumariamente que precisava do cargo e que nomearia Magda para o comando da empresa. Magda Chambriard defende a expansão das áreas de refino e de produção de gás e também fala em incentivar a indústria naval, para aumentar a participação de empresas brasileiras no arranjo produtivo da companhia.

Maria Cristina Fernandes - Lula acelera o trator até esvaziar o tanque

Valor Econômico

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já estava devidamente instalado no trator quando o governador gaúcho escorregou na lama. Ao dizer que o excesso de doações impacta o comércio do Rio Grande do Sul, e se desculpar em seguida, Eduardo Leite mostrou o quão perdido está na catástrofe que se abate sobre seu Estado, redobrando a responsabilidade do Planalto.

Acelerado, o trator presidencial rompe as divisas gaúchas e expõe Lula a riscos precoces. Do Rio Grande do Sul à Petrobras. É verdade que a tragédia gaúcha permitiu ao Executivo retomar um governo que andou terceirizado para o STF. A investida contra as notícias falsas, por exemplo, poderia ter sido agregada ao inquérito do fim do mundo, mas achou-se por bem incumbir o discreto ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, que toca os processos na primeira instância da Justiça Federal em vários Estados, e deixar o ministro Alexandre de Moraes recuado.

Nelson Niero - Lula joga gasolina na fogueira da Petrobras

Valor Econômico

Parece mesmo ilimitada a capacidade de alguns políticos de testar os limites do que é moralmente aceitável

Apesar de ter se tornado quase corriqueira, a troca de comando na Petrobras não é e nem pode ser encarada como um assunto comezinho. Num momento de descrença com o cumprimento das metas fiscais, mexer com a maior companhia do país por faturamento e valor de mercado é como jogar gasolina no fogo.

As ações abriram ontem em queda de mais de 7% na B3, cerca de R$ 36 bilhões de valor de mercado, numa reação dos investidores não só à troca, mas principalmente à indicação de Magda Chambriard, um nome ligado à ex-presidente Dilma Rousseff. Mesmo com proverbial memória curta do brasileiro, no mercado financeiro ninguém se esquece de que a interferência de Dilma nos preços dos combustíveis deu muito mais prejuízo à empresa do que o sistema de corrupção descoberto pela Operação Lava-Jato.

Conrado Hübner Mendes - Os negacionistas estão matando

Folha de S. Paulo

No Rio Grande do Sul, o extremismo político encontrou o evento climático extremo

Negacionistas não somente rejeitam a verdade. Sequer participam de disputa sincera pela verdade. Não estão interessados. Todo negacionismo é, antes, negação da responsabilidade que a verdade imputa. Estratégia diversionista, esconde causalidades entre ações e consequências. E rejeita a norma jurídica ou moral que sanciona o comportamento danoso.

Não se equiparam aos sofistas ou aos céticos, nem aos ateus ou agnósticos. Estão mais próximos ao que Harry Frankfurt chamou de "bullshiters". Diferente do mentiroso e do hipócrita, que conhecem a verdade e sabem que mentem, o "bullshiter" tem indiferença à verdade e joga outro jogo. Sua empreitada não é intelectual, mas política e sectária.

Muitos negacionismos contaminam a conjuntura brasileira: negacionismo do golpe, da ditadura, do racismo, da homofobia, dos conflitos de interesses da magistocracia, da corrupção e do autoritarismo; dos efeitos da desigualdade e da boçalidade pública; da correlação entre liberação de armas e aumento de homicídios, parecido com o da causalidade entre cigarro e câncer; do dever constitucional de manter o meio ambiente equilibrado e do direito de gerações presentes e futuras.

Bruno Boghossian - Lula amarra governo à crise do RS

Folha de S. Paulo

Evento e criação de secretaria tiveram objetivo de reformular a mensagem sobre a participação na crise

Lula amarrou seu governo no longo processo de recuperação do Rio Grande do Sul após as chuvas. A terceira ida do presidente ao estado e a criação de uma autoridade para gerenciar a resposta federal à crise tiveram as cores de um lance político, com todas as suas oportunidades e todos os seus riscos.

O presidente havia cobrado de assessores a organização de uma viagem que não ficasse restrita a gabinetes para assinar acordos e repasses de dinheiro. Pediu para visitar um abrigo e comandou uma espécie de comício povoado pela claque de um prefeito aliado.

Vinicius Torres Freire - Lula, gaúchos Petrobras e BC

Folha de S. Paulo

Em poucos dias, se vê como escolhas de governo mexem na economia e no socorro do RS

Em uma semana, decisões e preferências do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mexeram com a medula da finança do país, com a empresa brasileira mais importante e criaram ruído no mínimo inconveniente no até agora razoável conjunto de ações federais para atenuar a desgraça no Rio Grande do Sul. Em vez de dizer que são "decisões políticas", como se houvesse decisões ideais dos anjos tecnocráticos, são decisões e preferências que vão do contraproducente ao ruim.

Na semana passada, a direção do Banco Central decidiu por cinco votos a quatro diminuir o ritmo de corte da Selic de 0,5 ponto para 0,25 ponto percentual. Em termos materiais, a diferença é quase esotérica. Os diretores nomeados por Lula preferiam corte maior, mas os lados divergentes tinham argumentos razoáveis para justificar a decisão.

William Waack – O maestro da orquestra

O Estado de S. Paulo

Lula quer enfrentar situações inéditas com velhas ideias

Lula não quer saber de experimentar. Suas decisões são baseadas sempre nas velhas convicções – ou cacoetes, como se preferir –, o que vale tanto para uma Petrobras como para o enfrentamento da catástrofe que destruiu boa parte do Rio Grande do Sul.

A resposta ao que é uma inédita crise múltipla dentro de uma grande crise exigiria um notável esforço político para criar algum tipo de instância central de coordenação e controle. A maior dificuldade está no pacto federativo e a autoridade por ele conferida ao governador do Estado, que não manda em todas as instâncias (federais, por exemplo) das quais precisa.

O que Lula “criou” para lidar com o desastre no Sul foi um ministro extraordinário sem poderes plenipotenciários, que é declarado rival das forças políticas no comando do Estado e candidato a substituí-las nas próximas eleições para governador. Mas é uma oportunidade relevante para que Lula assuma seu lugar favorito, o de salvador da Pátria.

Celso Ming – A demissão de Prates

O Estado de S. Paulo

Depois da fervura no caldeirão, às vezes mais e às vezes menos borbulhante, veio a demissão sumária do presidente da Petrobras, Jean Paul Prates. Entre as justificativas está a de que ele demorou demais para colocar em prática na empresa as determinações do governo.

Na sua primeira comunicação à imprensa depois de sua degola, Prates deu um jeito de chutar a porta. Avisou que o desfecho aconteceu “para regozijo” dos ministros Alexandre Silveira, de Minas e Energia, e Rui Costa, da Casa Civil, seus inimigos figadais dentro do governo.

A questão aí não é de volume de bílis, mas do uso político de uma grande empresa de economia mista para fins que se podem considerar contrários aos objetivos do interesse público.

Eugênio Bucci - A liberdade ‘fake’ e o Marquês de Sade

O Estado de S. Paulo

Com a cidadania submersa, a perversão do fanatismo antidemocrático jorra pelos bueiros

“Mercadores do caos”. É assim que o primeiro editorial do Estado de ontem qualificou aqueles que difundem mentiras sobre as enchentes no Rio Grande do Sul. O texto vai no ponto: “Bolsonaristas andam espalhando desinformação porque, inimigos da democracia que são, a eles interessa minar a capacidade dos cidadãos de confiar uns nos outros.” Palavras precisas. Justas.

O quadro é alarmante, não só pelas águas que dizimam cidades inteiras, mas também pela propagação industrializada e intencional de desorientação. Com a cidadania submersa, a perversão do fanatismo antidemocrático jorra pelos bueiros. Há mensagens inconcebíveis circulando massivamente. Umas afirmam que não adianta fazer doações porque o governo federal está barrando caminhões que rumam para o Rio Grande do Sul. Falso. Outras sustentam que Exército e os bombeiros negam ajuda aos desabrigados. Invenção dolosa. Os exemplos de má-fé são caudalosos, tóxicos, e, embora sejam desmascarados a toda hora, deixam rastros de devastação moral e cívica.

Roberto Macedo - A decisão do Copom por 5 a 4 e o quadro fiscal

O Estado de S. Paulo

Não há iniciativa nem sustentação política do governo e do Congresso para um efetivo ajuste fiscal

Essa decisão veio na quarta-feira da semana passada, a de reduzir a Selic em 0,25% em lugar de 0,5%, como nas últimas decisões a respeito. Embora esperada, a nova taxa causou impacto porque a diferença foi de apenas um voto em seu apoio. Mais ainda, todos os cinco diretores indicados pelo governo anterior votaram pela redução de 0,25%, enquanto os quatro nomeados pelo governo atual queriam 0,50%.

O mercado reagiu mal no dia seguinte. A Bolsa caiu 1% e o dólar subiu 1,02%. Uma reação justificável pois a votação levanta a suspeita de que a substituição de Roberto Campos Neto por um novo presidente do Banco Central indicado por Lula, em 2025, poderia significar um afrouxamento da política monetária mais pautado por razões políticas. Virão novas discussões que talvez possam esclarecer melhor o que esteve por trás da divergência e a sua substância. Se isso não reduzir a relevância dessa hipótese, ela continuará no ar, o que será um fator de desconfiança na política monetária mais à frente e já com implicações para o presente.

Poesia | A rua dos cataventos, de Mario Quintana

 

Música | Zeca Baleiro - Disritmia, de Martinho da Vila

 

quarta-feira, 15 de maio de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Medidas de prevenção são essenciais desde já

O Globo

Das 27 capitais brasileiras, 15 não elaboraram Plano de Mudanças Climáticas, inclusive Porto Alegre

A tragédia das chuvas no Sul impõe mudanças urgentes de comportamento do governo. As chuvas que transformaram em pesadelo a vida dos gaúchos demonstram que os efeitos deletérios das mudanças climáticas vieram para ficar. Diante da destruição sem precedentes que atinge 447 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul, não é mais possível que gestores adiem planos de contingência e atrasem ações para mitigar os efeitos de catástrofes que tendem a se tornar cada vez mais recorrentes e letais. Medidas necessárias para evitar novas tragédias precisam ser tomadas desde já — e não só no Rio Grande do Sul.

É preocupante que, das 27 capitais brasileiras, 15 ainda não tenham um Plano de Mudanças Climáticas, como noticiou O GLOBO — entre elas Porto Alegre. A cheia histórica que aflige os gaúchos resulta de falhas nos sistemas implantados há décadas para conter as águas do Guaíba. Mesmo que não tivesse sido possível prever a dimensão da catástrofe, várias medidas poderiam ter ajudado a reduzir seu impacto.

Fernando Exman - Lições do Katrina na Semana do Brasil em NY

Valor Econômico

A tragédia do Rio Grande do Sul mudou o rumo da prosa na “Semana do Brasil” em Nova York. O bicentenário das relações bilaterais continua como pano de fundo. Os desafios e as principais oportunidades de negócios entre os dois países permanecem no topo da pauta, por exemplo, do Summit Valor Econômico Brazil-USA desta quarta-feira (15). Mas o atendimento emergencial e a reconstrução do Estado permeiam discursos e conversas de bastidores. Para muitos, é inevitável a comparação com a catástrofe provocada pelo furacão Katrina em Nova Orleans, em 2005. E o Brasil deveria dar atenção à experiência dos americanos.

Já é possível dar um ponto positivo para o Brasil, quanto à articulação federativa que não se deixou prejudicar pela polarização política.

Em Nova Orleans, o ex-presidente George W. Bush foi bastante contestado pela demora em mobilizar a máquina para cuidar da região. E quando o fez, alegam seus críticos, não teria atendido bem seus adversários políticos locais.

Lu Aiko Otta - Recursos externos para socorrer RS

Valor Econômico

Catástrofe das chuvas chegou num momento de fragilidade do Orçamento federal

Os investimentos para a reconstrução do Rio Grande do Sul não cabem no Orçamento federal, por isso a solução pode estar em empréstimos externos. O governo dialoga com organismos multilaterais de crédito em busca de uma solução estrutural para esse e outros eventos de emergência climática, informou à coluna uma fonte da área econômica.

A catástrofe das chuvas chegou num momento de fragilidade do Orçamento federal brasileiro. Demandará mais investimentos num cenário em que a tendência é o desaparecimento do espaço fiscal para esse tipo de despesa.

O problema tem sido tema de alertas de especialistas e técnicos da área econômica há décadas. Agora, caminha para um limite. Sem mudanças, o novo arcabouço fiscal terá uma morte precoce.

Luiz Carlos Azedo - O tempo e o vento, a saga gaúcha continua

Correio Braziliense

O mais importante, em meio à catástrofe física, é o drama humano e a resiliência dos gaúchos diante das adversidades. São Anas, Pedros, Bibianas e Rodrigos

O épico O Tempo e o Vento, obra do escritor gaúcho Erico Verissimo (1905-1975), foi publicado em três volumes: O Continente (1949), O Retrato (1951) e O Arquipélago (1962). A trilogia conta a história do Rio Grande do Sul ao longo de 200 anos, tendo forjado a identidade do povo gaúcho e, ao mesmo tempo, a empatia nacional com o estado. É um dos grandes romances de interpretação do Brasil. Muitos nem de longe ouviram falar no romance, mas sabem quem foram a destemida Ana Terra e um certo capitão Rodrigo Cambará, seja pelo cinema, seja pela teledramaturgia.

Obra de ficção baseada em fatos, teceu o arquétipo dos nossos gaúchos, que são brasileiros por opção, porque também há gaúchos nos pampas do Uruguai e da Argentina, com os mesmos costumes tradicionais. A família Terra Cambará, cuja trajetória protagoniza os três volumes do romance, tece na literatura a história geográfica, cultural e política do Rio Grande do Sul.

Luciano Huck – Ambidestro

O Globo

Não me importa que chamem de 'isentão' quem não se abraça a nenhum dos polos

O psicólogo Adam Grant, uma das vozes contemporâneas mais influentes, aponta a importância de nos mantermos mentalmente flexíveis para lidar com uma realidade cada vez mais complexa. Para ele, o melhor jeito de enfrentar catástrofes climáticas, pandemias, recessões e ataques à democracia é abandonar o quentinho das nossas convicções e a racionalidade binária. Ter coragem para escolher o desconforto. É o mesmo conselho que Toni Morrison, primeira negra a ganhar o Nobel de Literatura, costumava dar aos amigos: olhem menos para o espelho, mais para a janela.

Há anos procuro atuar dessa forma na TV e na minha vida. Peço licença às pessoas, presto atenção, aprendo um bocado e partilho com quem puder. Não me importa que chamem de “isentão” quem não se abraça a nenhum dos polos. Importa, para mim, lembrar que, ao se fechar numa caixinha, “de direita” ou “de esquerda”, a pessoa corre risco de se fechar também para boas ideias que venham da outra. Claro, não é problema se identificar com um lado. Só defendo que na vida, como no futebol, dá para chutar com os dois pés.

Zeina Latif - A recuperação do RS testará nossas competências e valores

O Globo

A reconstrução exigirá grande capacidade de planejamento e de coordenação, bem como execução eficiente. É uma engenharia complexa que envolverá as máquinas públicas das três esferas

Na tragédia, a emoção nos toma. Mas não convém deixá-la turvar o olhar objetivo para suas causas e para o caminho da reconstrução. Apesar dos recordes pluviométricos no Rio Grande do Sul, parece claro que houve falhas na prevenção de desastres.

Há responsabilidade do governo federal. A Constituição, no artigo 21, inciso XVIII, estabelece que “compete à União planejar e promover a defesa permanente contra as calamidades públicas, especialmente as secas e as inundações”.

Ocorrendo a calamidade pública, a Constituição não estabelece a obrigação da União em ações emergenciais, mas seria equivocado não as fazer. Seria penalizar duplamente a população e contrariar os valores de solidariedade da nação.